Sunday, December 16, 2012


Por Lenneth Aesir

- Lucian! Cheguei! – Eu falei abrindo a porta com rapidez e um largo sorriso no rosto. Era Domingo, no horário do almoço, e eu havia chegado mais cedo do que de costume, querendo fazer uma surpresa para Lucian.
Me espantei quando vi o quarto completamente vazio. Percebi então que a república toda estava vazia, pois ninguém tinha voltado ainda para a escola. Mesmo assim entrei no quarto e me deitei na cama de Lucian. Eu sentia um mau pressentimento, mas não sabia explicar o porque. Fiquei deitada olhando pro teto por algum tempo, até que decidi ir procurá-lo. Conhecendo-o bem como eu conhecia, sabia que ele deveria estar ou na Livraria da Ferania, ou no estoque da loja (o que eu iria adorar que estivesse) ou na Biblioteca da escola.
Fui direto para a livraria, mas encontrei apenas um dos primos de Ferania no local.
- Filius, você viu o Lucian? – Perguntei.
- Não, não o vejo desde ontem de tarde. Já olhou no depósito? – Ele respondeu.
- Ainda não, vou dar uma olhada, obrigada.
Sai correndo na direção do depósito da livraria, com um sentimento de preocupação crescente no peito. O depósito estava apagado, o que era uma má indicação, mas mesmo assim abri a porta com a chave reserva que Ferania havia me dado. Não havia ninguém ali e pelos restos de lenha na fogueira, ninguém estivera ali o final de semana inteiro.
Corri de volta para o castelo, mas não o encontrei nem na biblioteca, nem na sala de alquimia. Já estava quase ficando de noite e voltei correndo para a república, esperando encontrá-lo ali. O sentimento de preocupação havia virado quase um pavor, crescendo rapidamente.
Abri a porta do quarto dele às pressas, mas encontrei apenas Ozzy, Oleg e Alec, que haviam acabado de chegar. Para minha sorte, Lawfer e Eddie estavam com eles.
- Oi Lenneth, tá tudo bem? – Ozzy perguntou quando entrei sem fôlego no quarto.
- Lawfer, o Lucian foi pra casa esse final de semana? – Perguntei, rapidamente e quando ele me olhou confuso, senti um aperto enorme no peito.
- Ele não foi pra casa. Ele ficou na escola para estudar, por que? – Mal ele terminou de falar e eu comecei a chorar.
Oleg foi o primeiro a me fazer sentar, mas logo os cinco estavam ao meu redor, querendo me acalmar e saber o que houve.
- Eu não estou encontrando o Lucian! – Eu consegui falar depois de um tempo.
- Já procurou na livraria? – Alec perguntou.
- Procurei em todos os lugares! Ele não está em lugar algum! – Respondi, voltando a chorar.
- Calma, Lenneth, deve ter uma explicação. – Oleg falou, tentando me acalmar.
- Eu acho que ele foi sequestrado. E Reno e Ivanovich não estão na escola!– Eu consegui colocar minhas suspeitas para fora e vi quando todos ficaram preocupados.
- Oleg, que é aquilo perto da cama do Orion? – Ozzy perguntou e todos olhamos para a cama de Orion.
Parecia não ter nada a primeira vista, mas logo o nosso treinamento em alquimia nos mostrou que havia ocorrido uma transmutação ali. Oleg correu até o local e se ajoelhou, colocando a mão no chão. O chão ficou brilhante de imediato, indicando realmente de que houvera alquimia no lugar.
Alec e Oleg então deram as mãos e fecharam os olhos. Senti quando os dois usavam seus poderes para escanear o quarto e outros lugares começaram a brilhar. Ozzy se ajoelhou ao lado da cama de Oleg e tocou um dos pés da cama com a varinha, procurando desfazer o último feitiço feito ali. Imediatamente o pé quebrou e a cama caiu de lado.
- Houve uma luta aqui. – Lawfer falou assustado e vi a preocupação espalhando-se pelo rosto de todos.
- Precisamos falar com os aurores. – Oleg falou e assentimos. Consegui me recompor e saímos correndo juntos para o Castelo. Haviam sequestrado Lucian.

Por Lucian Valesti

Senti uma dor forte na nuca e minha cabeça começou a doer. Tentei me mexer, mas vi que estava com os pés e braços amarrados a uma cadeira.
Estava recobrando a consciência, mas acho que era melhor ter continuado desacordado. Minha cabeça latejava e girava, de modo que eu não conseguia abrir os olhos ou mexe-la demais. Ouvi então vozes perto de mim, de duas pessoas discutindo e abri os olhos devagar.
Eu estava preso em uma sala oval e muito grande, iluminada por tochas que brilhavam em vermelho, azul e verde. Podia ouvir gotas caindo do teto e percebi que devia estar no subterrâneo.
Eu estava preso em um dos lados da sala e no lado oposto haviam dois homens que eu não conhecia, presos pelas mãos e pés do mesmo modo que eu. Orion e Patrick discutiam no meio do sala, com Orion andando de um lado para o outro, enquanto Patrick gesticulava e apontava para os dois homens. Fingi estar desacordado, mas tentei prestar atenção na conversa deles.
- Eles são aurores, Goulard, aurores! – Patrick falava, visivelmente nervoso.
- Já mandei me chamar de Mordred aqui! – Orion falou enfurecido, mas Patrick o ignorou.
- Você acha que já não sabem do sumiço deles? – Ele falou apontando para os homens e para mim. – É loucura!
- Calado. – Orion falou com raiva e apontou a varinha para a garganta de Patrick e notei que o último tremia. – O que queria que eu fizesse? Largasse eles onde estavam?
- Eles estavam se passando por alunos! Deveríamos ter largado eles no vilarejo, ou em qualquer lugar.
- Chega. Cansei de ouvir sua voz idiota, saia daqui. – Orion ordenou e vi que Patrick estava enfurecido, mas calou-se e saiu. A porta do salão foi batida com força e Orion berrou de raiva, chutando a cadeira de um dos homens. A cadeira caiu no chão com um baque surdo, mas o homem nem se mexeu, completamente apagado. Notei que os dois usavam roupas de alunos e percebi que deviam ser Gary e o outro garoto, que na verdade eram aurores disfarçados.
Fechei os olhos novamente, antes que Orion percebesse que eu estava acordado, mas o ouvi andando até mim. Então senti um puxão forte no cabelo e minha cabeça foi puxada para trás.
- Eu sei que está acordado, seu verme. – Ele falou, perto do meu ouvido. Eu abri então os olhos e dei uma cabeçada nele. Isso doeu tanto em mim quanto nele, mas eu estava amarrado e ele não. Ele me deu um soco forte na barriga e eu tossi, sem fôlego. – Isso é por mexer nas minhas coisas. E isso. – Ele falou, me dando mais um soco na barriga, me fazendo gemer. – É pelo soco de ontem.
- Você é um idiota. – Eu consegui falar apesar da dor e cuspi em seu rosto, me preparando para levar outro soco, mas então a porta se abriu e Orion virou-se para ela.
Três figuras encapuzadas de preto entraram e pela altura suspeitei que eram alunos. Eles se ajoelharam diante de Orion e retiraram os capuzes. Reconheci os outros dois alunos do dia seguinte, e o terceiro era um aluno do 6º ano.
- Mordred. – O aluno mais velho falou e eu fiquei imaginando que tipo de problemas eles tinham de ficar usando um nome diferente do nome de Orion. – Os aurores encontraram outra câmara nas masmorras de Durmstrang.
- Droga. – Orion praguejou. – Devem ter traidores entre nós.
- Nós sempre soubemos que há traidores entre nós, antigos membros que não mais nos respeitam. – O outro garoto falou e vi como os quatro pareciam irritados com esse fato.
- Mas eles vão nos respeitar e aprender com quem estão lidando. – Orion falou e me olhou de forma cruel. Ele se aproximou de mim e eu usei o máximo de controle que eu tinha para não tremer. – Crucio.
A surpresa com a maldição foi grande, mas extremamente rápida, dando lugar a uma dor como eu nunca senti. Segurei o grito por alguns segundos, sem querer dar esse prazer a Orion, mas pouco depois comecei a gritar de dor. Parecia que meu sangue fervia dentro de mim e minha cabeça parecia que ia explodir. Me debatia na cadeira e com o movimento cai no chão, me contorcendo de dor. Com os olhos semi cerrados, pude ver o brilho louco nos olhos de Orion e seus comparsas. Senti muito medo, pois pareciam que eles estavam dispostos a me matar.
- Goulard! – Ouvi Patrick gritar, entrando na sala novamente. Consegui perceber quando ele derrubou Orion e o contato do feitiço acabou e eu conseguir respirar, com dificuldade. – Você ficou maluco? – Patrick gritou para Orion, enquanto os outros três jovens o seguravam.
- Crucio! – Orion gritou apontando para Patrick e ele também começou a se contorcer. Orion aplicou o feitiço por pouco tempo e quando terminou Patrick arfava. – Não te torturo mais por ser de nossa ordem, mas se ousar me tocar e interromper novamente, acabo com você.
- Você perdeu todo o juízo?! – Patrick falou, conseguindo se recuperar. Ele se soltou dos outros alunos e empurrou um com o ombro, saindo pela porta apressado. Orion indicou com a cabeça e dois dos alunos o seguiram.
- Ainda não entendo como esse inútil entrou para nossa irmandade. – Orion falou e o outro aluno concordou. – Onde estávamos?
Ele apontou a varinha para mim novamente e falou “Crucio”. Senti mais uma forte onda de dor pelo corpo e não sei quanto tempo durou, mas acabei perdendo a consciência.
Acordei algum tempo depois com um cheiro forte debaixo de meu nariz e tossi, vendo que era Orion que segurava um pano perto do meu nariz, para me acordar.
- Por que? – Eu consegui perguntar e ele riu. O outro jovem estava verificando os aurores presos.
- Porque eu quis. – Ele falou, mas vi sua narina dilatando.
- Você é louco...
- Não, sou ambicioso. – Ele corrigiu sorrindo. – Quero tudo para mim e do melhor, e não meço esforços para tal.
- Por que eu? Por que roubar meu trabalho e me perseguir tanto? Não tem capacidade e tem que copiar os outros? – Eu gritei e vi seu rosto ficar sério.
- Crucio! – Ele falou e eu voltei a gritar, mas pouco depois ele parou e se aproximou de mim. – Você tem tudo, e sempre com tanta facilidade. Sempre as melhores notas, o queridinho dos professores, queridinho das garotas, cheio de criatividade e amigos, sempre apoiado por todos. Sempre os locais de destaque em jogos, em festas. Enquanto eu estou sempre esquecido, em segundo plano. Crucio! – Ele voltou a me torturar após falar, sentindo prazer nisso. – E sua família sequer é puro-sangue! Eu deveria ter isso tudo!
- Você é doente! – Eu falei, quando ele parou de me torturar novamente. – E a culpa é sua se você é um inútil e ninguém gosta de você! – Falei com raiva e vi o brilho nos olhos de Orion. Não me arrependi do que disse, mas senti medo, pois ele estava fora de si e poderia fazer qualquer coisa. Ele apontou a varinha mais uma vez para mim.

Por Lenneth Aesir

Com Ivanovich e Reno fora da escola, precisávamos procurar outra pessoa de confiança para contarmos do sumiço de Orion, alguém que nos levaria a sério. Fomos direto para o Castelo, na esperança de encontrar um dos professores o mais rápido possível. Tivemos mais sorte do que eu esperava.
Em nossa direção vinham duas pessoas conversando e eu as reconheci de imediato. Um deles era um famoso jogador de Quadribol e ex-aluno de Durmstrang. O outro fora aluno de Beauxbatons e ganhara fama como sócio de uma das maiores lojas de jogos bruxos do mundo, além do trabalho como auror. E o melhor: os dois eram membros do Clã Chronos.
- Senhores! – Eu gritei, correndo na direção deles e seguida pelos meus amigos.
- Ei, ei, calma! Não precisam ter pressa, o Ty dá autógrafos para todos! – O homem loiro falou sorrindo, mas vi que os dois estavam conversando seriamente.
- Você é o Griffon Chronos, não é? E você Tyrone MCgregor? – Eu perguntei apressada e eles assentiram.
- Algum problema? – Tyrone perguntou e então vi o rosto de Griffon se iluminar.
- Você não é Lenneth? – Ele perguntou e quando fiz que sim ele sorriu. – Ty, você está ficando velho se esqueceu o rosto de uma jovem tão linda. Ela é amiga da Arte!
- É verdade, tem fotos das duas no quarto dela. – Tyrone falou sorrindo e eu balancei a cabeça apressada.
- Sim, sou eu, mas não temos tempo pra isso! Meu namorado foi sequestrado!
- Calma, isso é uma acusação séria. – Tyrone falou, ficando mais sério. – Tem certeza disso? Qual o nome do seu namorado?
- Lucian Valesti. – Assim que falei os dois se entreolharam e soube que eles entenderam a minha preocupação.
- Você sabe onde ele foi visto pela última fez? – Griffon perguntou e Oleg respondeu.
- Não sabemos. Todos nós não estávamos na escola e quando voltamos vimos sinal de luta no quarto dele. Venham com a gente.
- Esperem! – Griffon falou antes que começássemos a correr. – Killi e Thain estavam protegendo-o. – Griffon comentou e ignorou nossos olhares curiosos. Ele chamou outros bruxos perto de nós e deu uma série de ordens e logo os aurores corriam na direção do Castelo ou do vilarejo. – Ty, temos que avisar os outros. Vou pedir que Seth ou Uthred venham pra cá, precisamos das habilidades deles.
- Vou entrar em contato com Reno e Ivanovich. E vou emitir uma ordem de vigia e se necessário captura para todos os membros que conhecemos da K&S. – Tyrone comentou e Griffon concordou. – Vocês. – Ele falou olhando sério para gente. – Quero que voltem para o Castelo e fiquem lá até encontrarmos o Lucian.
- Nem pensar! – Todos nós falamos juntos e Tyrone ficou sério, começando a falar para nos convencer. – Ele é nosso amigo!
- Ty, olha para eles. – Griffon nos interrompeu, com um sorriso no rosto. – Dá para entender porque são amigos da Arte e companhia. Se tentarmos impedi-los, aí que eles vão fazer de tudo para encontrar o amigo sozinhos.
- Você quer deixar eles caçarem a K&S? – Tyrone falou meio receoso.
- Qual é, Ty! Nós fizemos exatamente a mesma coisa quando tínhamos a idade deles!
- Tudo bem. – Tyrone riu. – Mas quero que fiquem perto de nós e nos obedeçam! – Nós concordamos e ele sorriu quando viu que Ozzy ia perguntar mais alguma coisa. – Deixa adivinhar, sua tropa de elite tem mais membros, não tem?
Quando Ozzy concordou, Tyrone disse mandou que ele e Oleg o seguissem, pois iria com eles para chamar o resto dos nossos amigos. Griffon então pediu que eu, Alec, Lawfer e Eddie mostrássemos o quarto, enquanto ia perguntando sobre várias coisas como: se sabíamos quando ele tinha sido sequestrado, se alguém tinha visto algo etc.
- Não se preocupe, Lenneth, vamos encontrar o Lucian. – Ele falou, querendo me animar. – Se eu não conseguir, tenho certeza que a Arte me mata. E eu tenho medo dela! – Ele falou rindo e sua jovialidade e calma foram capazes de aliviar minha tensão.

Não encontramos nada a mais no quarto e Griffon disse que iria nos levar para investigar o subsolo do vilarejo, para ver se descobríamos algo. Estávamos saindo naquela direção quando Patrick veio correndo até mim.
- Lenneth, espera! – Ele falou, tentando se aproximar de mim. Mas Robbie, que disse que não combinava como ele participar de buscas e apreensões, mas iria nos ajudar a tentar encontrar alguma pista nova, foi o primeiro a lhe barrar o caminho e fechar a cara para ele.
- Saia Patrick, já temos problemas demais sem você para nos atrapalhar. – Falei fria e virei as costas.
- Lenneth, é importante! – Ele falou, tentando passar pelos garotos, mas eles logo o empurraram. – Eu sei onde Lucian está!
- Você o que? – Eu falei, me virando para ele. Todos o encaravam sério e ele fixou o olhar em mim.
- Foi o Orion, ele sequestrou o Lucian.
- Como você sabe? – Griffon perguntou e Patrick baixou a cabeça.
- Porque eu o ajudei.
- Você fez o que?! – Ozzy perguntou com raiva e ninguém conseguiu segurá-lo, enquanto ele dava um soco no rosto de Patrick. Ele fez a mesma coisa que eu queria fazer, só que foi mais rápido.
- Eu sei que errei! – Patrick falou na defensiva. – Por isso vim avisar vocês! Vocês tem que ir rápido, Orion está maluco! Ele usou a Crucio no Lucian!
- Onde eles estão? – Griffon falou sério e Patrick contou rapidamente como chegar onde estavam.
Julie apertou minha mão e me olhou preocupado, pois eu havia ficado pálida quando ouvi da Crucio. Meus olhos ficaram cheios de lágrimas, pois tive muito medo de Orion usar outra Maldição, uma muito pior.


Por Lucian Valesti

Senti que Orion iria me torturar mais uma vez e que agora colocaria toda a sua raiva nisso, mais do que já tinha colocado. Mas então a porta se abriu rapidamente e Orion se virou para encarar a pessoa que entrava.
Eu fiquei de boca aberta, pois quem entrava era a versão mais velha de Orion. O mesmo cabelo loiro, um pouco grisalho apenas, o mesmo nariz em pé e feições como se estivesse sentindo um cheiro ruim embaixo do nariz o tempo todo. Ele vestia-se com uma capa negra e pelo modo de andar percebi que ele estava acostumado a ser obedecido.
Imaginei que fosse o pai de Orion, mas achei estranho a expressão dele ficar sombria ao ver o pai, enquanto ele e o outro aluno se ajoelhavam.
- Saia. – O homem falou e o outro aluno lançou um olhar rápido para Orion, mas o homem falou novamente. – Eu não vou falar uma segunda vez.
O tom de ameaça foi suficiente para o jovem sair correndo e fechar a porta as suas costas. O homem, lembrei que o nome era Laercus, olhou rapidamente para mim e para os aurores e depois fixou o olhar no filho. Vi que Orion ficou incomodado, ainda mais pelo fato de ainda estar ajoelhado. Laercus se aproximou lentamente de Orion e ficou próximo a ele, olhando-o de cima.
- Levante-se. – Laercus finalmente falou e Orion se levantou.
- Pai.
- Cale-se! – Laercus falou com autoridade e até mesmo raiva. – Você perdeu todo o juízo? Quer estragar o que venho coinstruindo ao longo dos anos?
- Mas você não entende! – Orion começou a falar, mas Laercus lhe deu um tapa forte no rosto e ele se calou, reprimindo a raiva.
- Eu mandei você ficar calado! – Ele falou, com a voz fria. – Começo a pensar que foi um erro dar a você o título de Mordred. Mordred era um homem ambicioso, às vezes cruel, mas acima de tudo astuto e inteligente! Você não passa de mimado e incapaz!
Eu ouvia aquilo tudo chocado, sem conseguir acreditar que estava vendo um pai e um filho “conversando”. Comecei a me indagar se sempre fora assim, pois explicava muita coisa sobre Orion. Vi então que Orion ficou com raiva, tanto por eu estar ouvindo, quanto pelo teor da discussão.
- Você que é incapaz! – Ele gritou e acho que o pai dele só não o bateu por ficar chocado. – Você diz que levou anos para construir algo, mas não fez nada! Foi graças a mim que a Kings & Shadows está voltando ao topo!
- Você acha que é muito ter um simples jornal clandestino? Que isso ajuda em algo para nossa irmandade? E você estraga tudo com erros imbecis! – Laercus esbravejou, apontando para os aurores.
- Você atacou e sequestrou aurores. Não apenas aurores, mas membros do Clã Chronos! E além disso, sequestra um queridinho da escola, do Clã, do maldito Kollontai! Você sabia que a namorada dele é amiga de uma das líderes do clã? Enquanto você passou anos tornando-se esse incapaz e mimado, ela cresceu caçando e agora enfrenta vampiros. Você acha que tem alguma chance contra ela ou qualquer um do Clã? Ah vejo, que não sabia de nada disso.
Laercus falou com um sorriso cínico e deu as costas para Orion, andando até os aurores.
- Mais uma prova de que não é capaz de criar uma rede de informações, de vigiar seus subordinados e fazer nada direito. Acredito que não sabia que um dos seus está indo dedurar você.
- Ninguém faria isso.
- Ah, faria. Você não sabe escolher nem seus seguidores, vai saber escolher inimigos? Se tivesse se envolvido com aurores do Ministério, talvez fosse possível sair ileso disso. Mas os aurores dos Chronos são incorruptíveis e eles têm livre ação em qualquer território que assinou o Tratado de Alderan.
- O que podemos fazer então? – Orion perguntou e notei que ele começava a ficar preocupado, finalmente percebendo tudo que fizera.
- Nós? – Laercus riu. – Eu não vou fazer nada. Você cavou a própria cova e você deve sair dela do seu jeito!
- Você não faria isso comigo.
- Faria e vou fazer. – Laercus falou irritado. – Vou lhe ajudar o mínimo possível depois que for capturado, pelo nome de nossa família. Mas antes, não farei nada por você. – Ele falou e virou as costas.
- Espere! – Orion começou a ir atrás dele, mas nesse momento a porta se abriu e várias pessoas encapuzadas entraram.
- O que aconteceu? – Laercus perguntou, olhando-os sérios.
- Os Chronos estão invadindo esse local, precisamos tirá-lo daqui, Artur. – Um dos homens mais velho falou e Laercus ficou pálido. Ele então olhou com raiva para Orion.
- Vamos. Mordred acabou para você.
- Para vocês todos, Laercus! – Ouvi uma voz gritar quando a parede no meio da sala explodiu.
Os homens encapuzados começaram a lançar feitiços e Laercus correu para o meio deles, enquanto um grupo de pessoas entravam correndo pelo buraco aberto pela explosão. O primeiro que entrou, e quem havia gritado com Laercus, era um homem loiro que eu não conhecia, mas lançava feitiços com habilidade.
Fiquei surpreso quando vi todos os meus amigos aparecendo também e ao mesmo tempo feliz e irritado quando vi que Lenneth era a primeira deles. Eles correram até mim e me cercaram, pois viram que Orion corria na minha direção com alguns outros jovens encapuzados.
Lenneth me beijou, enquanto Eddie me desamarrava e o restante dos meus amigos faziam um círculo para nos proteger. Lenneth olhou meus ferimentos com surpresa, mas logo vi seu semblante se tornar de raiva, enquanto ela apontava sua varinha para Orion.
Eu estava sem varinha e não podia fazer muita coisa, mas me lembrei que ainda estava com as luvas de Reno e as usei para proteger meus amigos quando algum feitiço poderia atingi-los. Os homens encapuzados estavam sendo subjulgados pelos aurores e mais de um estava caído inconsciente no chão.
A batalha foi rápida e os aurores logo subjulgaram todos, mas então percebemos que Laercus e Orion haviam fugido. Alguns aurores correram na direção da outra porta para seguí-los, mas ouvimos barulho de duelos e pouco depois o grupo voltou com Orion e Laercus presos. Reno e Ivanovich os seguiam e vi o rosto do diretor brilhando com a vitória.
Lenneth me abraçou e começamos a chorar. Nossos amigos nos davam tapinhas nas costas e mais de um brigou comigo por ter feito tudo sozinho. Como se isso a fizesse lembrar de algo, Lenneth me derrubou por cima dela e me jogou no chão, colocando seu joelho em meu peito, enquanto brigava comigo entre lágrimas.
- Se sumir de perto de mim de novo, eu juro que eu te mato! – Ela falou e eu sorri.
Mas a adrenalina começou a diminuir e meus ferimentos voltaram a doer. Fiquei deitado no chão, sem conseguir me levantar, e Lenneth deitou minha cabeça em seu colo, enquanto alguns aurores tratavam de meus ferimentos e meus amigos me contavam o que tinha acontecido.

Thursday, November 22, 2012


O Hall estava cheio e em silêncio, com todos os alunos da escola reunidos, do primeiro ao último ano.
O Hall era reservado para festas da Escola e para receber os novos alunos, antes de serem alocados em alguma das repúblicas. Na verdade, depois que você entrava para uma república, você só voltava para o Castelo para aulas, clubes, ou quando tinha que falar com algum professor, já que os quartos deles ficavam localizados no Castelo.
Ah, o Hall também era usado para avisos importantes do Diretor.
Mas hoje o Hall estava lotado e a raiva de Ivanovich era visível, motivo pelo qual o ar estava tenso e ninguém falava nada.
Todos os professores estavam ali, com exceção do Reno, assim como todos os alunos e funcionários, desde enfermeiros a bibliotecários. Haviam outros três homens com Ivanovich, que olhavam para os alunos atentamente e pareciam decorar o rosto de cada um.
- Vocês sabem o que é isso? – Ivanovich falou, balançando no ar um pergaminho. Eu já sabia do que se tratava, pois estava em sua sala quando ele recebera aquela carta.

- Vocês estão bem? – Reno falou preocupado assim que abriu a porta da sala do diretor, onde eu, Lenneth, Ozzy, Alec e Oleg esperávamos sentados, acompanhados por Ivana e Ferania.
- Ele está Reno, mas eles estão passando dos limites. – Ivanovich falou, entregando o papel para Reno. Enquanto ele lia, seu olhar ficou arregalado e ele olhou de mim para o Diretor, e ao final da ameaça não foi preciso perguntar como aquilo tinha chegado até mim.
- Lucian resolveu investigar, sozinho, ele descobriu o padrão por trás do jornal clandestino e viu uma das reuniões. – Ferania explicou e Reno me olhou irritado.
- Eu te avisei para ficar longe disso, Lucian. – Ele falou, mas eu o encarei.
- Não podia ficar fugindo, eles estão mexendo diretamente comigo.
- Basta. – Ivanovich falou sério e todos ficaram calados. – O que o Lucian fez já não é importante, por mais que eu concorde que foi errado, mas está feito. Quero um fim nisso, quero descobrir quem está envolvido e acabar de vez com essas reuniões.
- E eu o apoio. – Reno falou e Ivanovich assentiu. – Já comecei a investigar os membros que consegui identificar, pedi ajuda a alguns amigos aurores e estamos seguindo os principais membros.
- Inclusive o Laercus?
- O pai do Orion? – Ozzy perguntou surpreso.
- Ele é o líder da Kings and Shadows. – Reno falou e a surpresa se espalhou pelo rosto de todos, já que apenas eu sabia disso. – Mas não temos certeza se Orion está envolvido.
- Quero-o investigado também. Quero acabar logo com isso. Ivana.
- Sim, Diretor? – A professora Ivana falou, também muito séria.
- Quero que peça para os professores vigiarem Orion Goulard a todo momento, assim como pessoas que ele mantenha contato frequente. Ferania, quero que tente manter uma vigilância também no vilarejo. Mas senhores, mantenham isso em segredo, não quero que mais ninguém...
Ele vou interrompido por uma batida na janela que nos fez sobressaltar. Havia uma coruja cinza pousada no parapeito e ela trazia uma carta lacrada. Ivana foi até a janela e a abriu, deixando espaço para a coruja entrar. A coruja porém, ficou parada e após Ivana pegar a carta, levantou voo imediatamente.
- Igor, é do Ministério. – Ela falou e vi o semblante nervoso de Ivanovich ficar ainda mais profundo. Ele pegou a carta e leu rapidamente. Seus olhos brilharam de raiva e ele entregou a carta para os professores lerem.
- De novo, não... – Reno falou, ao terminar de ler a carta.
- O que houve? – Lenneth perguntou.
- Reno, contate Tyrone e os Chronos, eles vão nos conseguir mais tempo e se conseguirmos que eles mandem aurores, o Ministério não vai ousar interferir.
- O que aconteceu? – Oleg perguntou preocupado e Ivanovich suspirou antes de responder.

- Isso é uma carta do Ministério da Magia, informando que pretendem enviar aurores para a escola! – Ele falou, sua voz séria e cortante. – Que pretendem interferir diretamente na escola, já que, nas palavras deles, sou “incapaz de lidar com uma situação dessas e coloco em risco a integridade física dos alunos”! Agora me digam: alguns de vocês já pararam para saber um pouco da história de Durmstrang? Quantas vezes o Ministério interviu na escola e como isso terminou? – Ninguém respondeu, e Ivanovich ficou um tempo calado encarando os alunos. – Na última, quase causou uma rebelião de alunos! Alunos sendo vigiados e seguidos, professores controlados! É isso que vocês querem novamente? – Ivanovich falou, a voz mais alteada no momento. O salão permaneceu em silêncio e ninguém tinham coragem de sequer soltar a respiração. – É isso que eles querem fazer e vão fazer. Isto porque há entre vocês um mimado, covarde, que não tem coragem de se mostrar e falar diretamente. Mas tem muita coragem para roubar arquivos pessoais, inventar mentiras, e atacar professores em um jornal fajuto e clandestino. Mas isso vai acabar aqui.
- Esses são aurores britânicos, enviados para investigar o jornal clandestino. – Ivanovich falou e indicou os homens de pé. – Eu os chamei para evitar uma intervenção direta do Ministério, pois eles ao menos, irão respeitar vocês e a nós de certa forma. Mas vamos investigar o jornal e, marquem o que digo, vamos descobrir os responsáveis e serão punidos. Não pensem que será apenas uma repreensão ou uma detenção. No mínimo, os responsáveis serão expulsos e farei tudo ao meu alcance para levá-los a corte! Por isso dou apenas essa chance a vocês: quem tiver informações sobre o jornal deve dá-las até amanhã. Podem me procurar em meu gabinete, ou um dos aurores, e isso será levado em consideração, para reduzir a sua punição. – Os alunos continuaram calados, mas vi como muitos ficaram pálidos, principalmente os calouros, que faziam um esforço para não tremer. Os discursos de Ivanovich eram famosos, mas nenhum dos alunos tinha visto-o daquela forma. – Estão dispensados.
Foi necessário todo o controle de muitos dos alunos, e também dos monitores e professores, para evitar uma debandada. Estavam todos assustados e todo lugar que se olhava, haviam grupos de pessoas conversando sobre a ameaça de Ivanovich. Muitos se questionavam o que tinha causado isso, mas logo vi pessoas me olhando de lado e soube que a notícia de que eu havia sido ameaçado pelo Antaris era conhecida por todos. Mas eu não me importava, queria tanto quanto o Ivanovich pegá-los.

A ameaça de Ivanovich surgiu algum efeito.
Vários alunos se entregaram para ele, assumindo que enviaram matérias para o jornal clandestino. Segundo Ferania, eles foram interrogados levemente pelos aurores, o que, segundo o Ozzy, ainda era muito ruim, e ficou claro que nenhum deles tinha informações importantes do jornal ou dos responsáveis por ele. Todos seguiam o padrão sugerido em cada edição por Antaris para o envio de matérias e ninguém sabia quem as reunia e publicava.
Apesar dessas confissões, o clima em Durmstrang ficou pesado. Haviam aurores dos Chronos por toda a parte, vigiando todos os alunos, sem exceção. Ivanovich declarou um toque de recolher e as trilhas de Durmstrang eram patrulhados por professores e aurores. No vilarejo vizinho, não era muito diferente, pois os aurores iniciaram buscas lá, começando pela câmara que eu encontrei. Os moradores os ajudavam nessas buscas e foi descoberta uma passagem subterrânea que ligavam mais três câmaras como a primeira.
Um ano do 6º ano foi pego pelos aurores tentando queimar um monte de pergaminhos já na primeira noite da intervenção. Os pergaminhos continham rascunhos de dezenas de matérias antigas, e algumas novas, que ele confessou que pretendia publicar no jornal clandestino. Como ele não havia se entregado quando teve chance, Ivanovich o suspendeu por duas semanas, até ter uma idéia melhor do que fazer.
Eu e os meus amigos tentávamos levar nossas vidas normalmente, mas era difícil. Como estávamos em perigo, recebemos uma pequena escolta que nos vigiava sempre que estávamos no Castelo. Até mesmo meu irmão e o do Ozzy receberam proteção, fortalecida por alguns seguranças do tio Oscar.
E claro, havia ainda a atenção dos alunos. Como tudo naquela escola, a notícia de que eu fora ameaçado por Antaris espalhara-se mais rápido do que fogos de artifício e eu recebia atenção indesejada. Alguns eram para me dar apoio, me incentivando e elogiando o fato de eu não ter me rendido à Antaris. Mas outros me culpavam pela ira de Ivanovich e pelos aurores, me encarando longamente nos corredores.
Quanto a Orion, ele pareceu preferir ignorar que era seguido pelos aurores e procurou cooperar em toda a investigação que fizeram em suas coisas. Porém, vi que ele me olhava de um modo diferente. Orion odiava ter sua privacidade invadida, logo, acho que me culpava por tudo que estava acontecendo. Mas eu o encarava sério e ele era sempre o primeiro a desviar o olhar. Depois de tanta coisa que eu soubera sobre ele, e seu pai, não tinha como tratá-lo da mesma forma.
- Bom dia, Lucian. – Gary, um aluno do 5º ano da minha república, falou quando apareci na porta de entrada. Eram 7 da manhã de uma sexta-feira e a república já estava bem agitada. Com a confusão de aurores e tudo mais, Ivanovich tinha adiantado o horário de início das aulas, para que o toque de recolher não atrasasse as aulas. 
- Bom dia, Gary. Alguma novidade?
- Apenas o de sempre. – Ele deu de ombros, indicando com a cabeça os aurores patrulhando a área. – O professor Kollontai o estava procurando, como falei que estava dormindo, ele pediu que o procurasse na sala dele. Pediu para levar Lenneth também.
- Obrigado. – Eu falei e Gary me acompanhou até Avalon, onde encontrei Lenneth e fomos juntos para o gabinete do Reno. Gary se despediu de nós na entrada do Castelo, enquanto íamos para o gabinete do Reno, no segundo andar.
- Tem uma coisa boa dessa intervenção. – Lenneth falou, de mãos dadas comigo.
- O que? Mal podemos nos ver a noite. – Eu falei e ela riu.
- Seu bobo... Não teve uma edição do jornal ainda. – Ela comentou e eu assenti.
- Eles não seriam loucos a esse ponto. – Comentei, mas como tínhamos chegado no gabinete de Reno, bati na porta e ele a abriu com um largo sorriso. Ele parecia feliz, preocupado e apressado, tudo ao mesmo tempo. Ele nos abraçou e sua alegria nos contagiou e começamos a sorrir, mesmo sem saber do que se tratava ainda.
- O que houve? Viu o pomorim dourado? – Lenneth perguntou e ele sorriu.
- Não, uma andorinha prateada! Julie entrou em trabalho de parto! – Ele falou sorrindo e vimos uma pequena mala arrumada em cima de uma das cadeiras. – Ela me mandou avisar com o patrono e vou aparatar direto para Paris.
- Que maravilha, Reno! – Lenneth falou feliz e lhe demos os parabéns. – Como ela está?
- Ela está bem, bem tranquila agora. A irmã e Archer estão com ela. Eu preciso mesmo ir, mas queria falar com vocês antes, para dar a boa notícia e um aviso. – Ele falou, ficando mais sério e olhando direto para mim. – Não façam nenhuma besteira. Eu e Igor - Ele comentou e eu lembrei que Ivanovich era padrasto de Julie. - Estaremos longe e não poderemos ajudá-los e esse seria o momento ideal para que a K&S tente algo. Não se metem em mais perigosos do que já estão.
- Não vamos, Reno, não se preocupe. – Lenneth falou, apertando minha mão e engoli em seco, diante do olhar pesado e acusador dos dois.
- Muito bem. Haverão outras pessoas cuidando de vocês, mas um pouco de precaução nunca é demais. – Ele abriu uma das gavetas de sua mesa e tirou dois pares de luvas brancas com inscrições em vermelho e nos entregou. As inscrições formavam círculos alquímicos e haviam vários símbolos usados na alquimia. – Mandei preparar essas luvas especiais para vocês. Elas já possuem círculos alquímicos em sua formação, então podem fazer alquimia sem precisar desenhar seu próprio círculo. Cuidado mais uma vez.
Nós pegamos as luvas agradecidos e Reno abraçou cada um de nós sorrindo. Então ouvimos uma batida na porta e Ivanovich apareceu, tão feliz e ansioso quanto Reno. Nós os parabenizamos também e ele nos deu o mesmo aviso que Reno, antes dos dois saírem correndo.
- Essas luvas são demais! – Eu falei olhando para elas. Lenneth colocou a sua e para nossa surpresa a luva dela ficou invisível.
- Uau, ele pensou em tudo! – Ela falou admirada e eu concordei. – Fico tão feliz pelo Reno. A perda do outro filho foi um baque forte para ele e para a esposa.
- É verdade, mas os dois são fortes, e veja só, já vão ser pais novamente.
- Reno deve ser um pai muito coruja. – Lenneth falou rindo. – Olha a hora! Vamos chegar atrasados para a aula!

A sexta-feira passou rápido e logo os alunos começaram a seguir para o vilarejo, onde iriam pegar o trem para Sofia.
Em geral, eu e Lenneth passávamos os finais de semana juntos, fossem voltando para casa ou ficando juntos na escola. Mas esse final de semana ela precisava ir para Sofia para alguns testes da escola de música e eu ficaria na escola, pois precisava rever algumas matérias do jornal. Meu irmão também voltaria para casa, assim como todos os meus amigos. Logo eu teria o quarto da república inteiro só pra mim!
Pelo menos foi o que achei.
Abri a porta do quarto e dei de cara com Patrick e Orion. Os dois pareciam discutir, mas assim que me viram ficaram calados. Trocamos olhares tensos e os ignorei, pegando meu notebook e sai. Ainda faltavam umas 3 horas antes do toque de recolher e decidi ir para a livraria de Ferania, apesar de hoje ser meu dia de folga.
No caminho, encontrei Gary e ele me falou que também ficaria na escola esse final de semana, pois precisava estudar alquimia. Eu prometi a ele que poderia ajudá-lo no sábado de manhã e nos despedimos.

Passei a manhã de sábado inteira estudando alquimia com Gary, na biblioteca, e vi que ele tinha aptidão para a matéria, aprendendo rápido. Depois ficamos conversando sobre livros e me peguei contando toda a história da Terra-Média, o que tomou todo o nosso almoço. Logo após o almoço, nos despedimos, pois eu tinha que ir trabalhar na livraria da Fer.
Voltei para a república um pouco antes do toque de recolher, mas ela já estava bem silenciosa, com os poucos alunos que ainda estavam na escola em seus quartos. Abri a porta do quarto que dividia com os garotos e fiquei aliviado ao ver que estava vazio.
Tinha acabado de ligar o notebook novamente e trocar de roupa quando percebi um envelope em cima da minha cama. O olhei curioso e até receoso, mas reconheci a letra de Robbie e o abri.

“Lucian, estive te procurando agora a tarde, mas não o encontrei. Surgiu um imprevisto e precisei ir para Sofia, mas precisava te entregar isto. Chegou hoje de manhã, mas não consegui encontrá-lo para te entregar em mãos. Dentro do envelope está o resultado do teste no sangue que encontrei em seu armário há algumas semanas. Não adianta me perguntar como consegui os materiais para comparação, é segredo jornalístico! Enfim, acho que você deveria ser o primeiro a ver o resultado. Nos vemos amanhã!
Robbie.”

Eu senti meu coração acelerando e minhas mãos suando e abri o envelope rapidamente, ele continha uma lista pequena de nomes, seguida pelo resultado.

“Patrick Lokmov – NEGATIVO
Claus Netherfor – NEGATIVO
Christian Fornost – NEGATIVO
Orion Goulard – POSITIVO”

Quando eu li o resultado para Orion fiquei paralisado, encarando-o. Então fora Orion que arrombara meu armário... Mas por que?!
Isso não significaria, com certeza, que ele era Antaris, mas levantava fortes suspeitas sobre ele.
Tentei me lembrar da época em que houve a tentativa de arrombarem meus armário e me lembrei que nessa época o jornal clandestino não publicou nenhum Conto de Antaris. Lembrei-me de que naquela época tinha pensado que os textos que ele roubara de mim teriam acabado e agora estava sem ter o que publicar. Lembrei também que, pouco tempo depois, Antaris voltou a publicar contos, mas de uma qualidade inferior, ainda usando meus personagens e criações. Isso explicaria porque de Orion tentar arrombar meu armário, se ele fosse mesmo o Antaris, pois poderia esperar encontrar algum texto novo ali.
Decidi então vasculhar as coisas de Orion, deixando de lado qualquer ética ou respeito. Ele não teve respeito por mim ao tentar arrombar meu armário, e menos ainda se foi ele quem roubou meus textos.
Larguei a carta de Robbie em cima da minha cama e comecei a mexer nas coisas de Orion, sem qualquer cuidado. Virei duas de suas gavetas em cima da cama, mas não encontrei nada. Já estava ficando desanimado e me arrependendo do surto de raiva quando bati sem querer com o pé na parte de baixo de sua cama. Percebi que a madeira fez um som oco e ergui uma sobrancelha. Bati novamente e tive certeza que era oco. Fui até a cama ao lado, do Ozzy, e bati embaixo dela também, mas a madeira era maciça. Com suspeitas ainda maiores comecei a apertar a madeira em diversos lugares, mas sem nenhum sucesso. Tentei bater com a varinha e murmurei “Alohomorra”, mas nada aconteceu. Então lembrei das luvas de Reno e coloquei as duas mãos sobre a madeira, fechando os olhos e me concentrando. Deixei minha energia fluir até minhas mãos e me concentrei na madeira, em sua composição e forma. Imaginei um puxador surgindo na madeira e ela cedendo. Quando abri os olhos, uma gaveta estava diante de mim e dentro dela estavam vários papéis, alguns impressos e outros com a letra de Orion. Haviam várias anotações e rabiscos em textos que nunca vi, mas ao final da pilha vi todos os meus textos roubados. Me sentei na cama de Orion olhando para os papéis, enquanto uma raiva me queimava por dentro.
Então a porta se abriu e Orion entrou com um sorriso irônico, falando alguma besteira sobre a república estar quieta, do jeito que ele gostava. Mas seu sorriso morreu quando me viu com os papéis e sua gaveta secreta aberta.
- Como você ousa? – Ele falou, a voz séria e fria.
- Foi você. – Foi só o que eu consegui falar antes de me colocar de pé e disparar um feitiço contra ele com minha varinha.
Orion se protegeu rapidamente e meu feitiço atingiu a cama de Oleg, quebrando um de seus pés. Ele revidou e um jato vermelho voou em minha direção, mas usei as luvas de Reno para absorver a energia do feitiço e o joguei de volta contra ele. Orion foi obrigado a saltar de lado e no momento seguinte eu estava em cima dele e acertei um soco forte em seu rosto. Ele caiu no chão e eu o segurei com o joelho direito, pronto para dar outro soco. Mas então, fui jogado longe por um feitiço e quando olhei, Patrick entrava pela porta acompanhado por mais dois alunos de outra república. Os três apontavam suas varinhas para mim e me cercaram, enquanto Orion se levantava.
Ele cuspiu sangue no chão e me olhou com raiva, apontando sua varinha também. Nessa hora, Gary surgiu na porta, acompanhado por mais um aluno e os dois começaram a disparar feitiços contra os quatro.
- Gary! Saia daqui! – Eu gritei, mas ele me ignorou. Fiquei surpreso com a habilidade com que ele e o outro lançavam feitiços e começamos a revidar o ataque.
Me aproximei de Orion e o soquei mais uma vez no rosto. Ia dar o segundo soco quando senti uma pancada forte em minha cabeça e tudo ficou escuro. Apaguei completamente.

Thursday, October 25, 2012

Desde que conheci meus verdadeiros pais pessoalmente, no jantar mais desconfortável da história dos jantares de família, Emma e eu havíamos combinado de trocar de casas por um fim de semana. Enquanto eu ia para Londres passar dois dias com os Blanchard, ela viria para Sofia passar o mesmo tempo com meus pais. O problema é que os alunos de Hogwarts não têm permissão de sair nos finais de semana e quando chegou o dia combinado, ela ficou presa na escola por conta de atividades do curso de auror. A diretora de lá foi solidária a nossa causa, mas infelizmente só poderia liberá-la quando não tivesse aula.

No fim das contas, essa foi a salvação de Emma. Ela conseguiu sair na semana seguinte e como eu tinha ficado sozinha com os Blanchard, achei melhor ficar em Durmstrang para dar aos meus pais mais liberdade de conhecê-la melhor. Ozzy tinha ido para casa com os gêmeos para alguma coisa que não entendi sobre um ritual que eu não me importava e estava sozinha com Robbie e Leo jogando baralho quando meu espelho de duas vias tremeu. O rosto de Mason apareceu no vidro.

- Ei Mason, tudo bem ai? – perguntei animada, mas ele parecia agitado.
- Parv, você tem que vir pra casa – disse sussurrando e olhou para o lado assustado.
- O que houve? Está tudo bem? – larguei as cartas que tinha na mão já começando a me preocupar.
- É a Emma. Ela precisa de ajuda – ele olhou para o outro lado, como se estivesse vigiando para ninguém encontra-lo – Está todo mundo aqui. Eles... Eles olham para ela como se fosse a Alexis.
- Já entendi. Estou indo, volte para a sala e fique com ela – ele assentiu e sua imagem desapareceu. Virei para Leo e Robbie e eles já haviam encerrado a partida – Quem quer dar uma volta em Sofia?

°°°°°°°°°°

A casa estava um pandemônio quando abri a porta da sala. Não estava toda a família, mas sem dúvida metade dela estava ali. Não sei como souberam que Emma estaria em Sofia, talvez papai ou mamãe tenham deixado escapar sem querer, mas nenhum deles deveria estar ali. Era para ser um fim de semana só com eles três, e Mason é claro, mas mais ninguém. Emma estava sentada no sofá com uma expressão de pânico no rosto, visivelmente encurralada, enquanto meia dúzia de tias a enchiam de perguntas. Todas, sem exceção, só conseguiam pensar em Alexis quando olhavam para ela. Não precisava nem ter recorrido a minha habilidade para saber disso. Ainda não tinham reparado nas três novas adições da casa, então bati a porta com o máximo de força que consegui. Imediatamente todos pararam a conversa e olharam para nós três.

- Parvati, pensei que tinha dito que ia ficar na escola – papai falou em um tom confuso, mas sua expressão era de alivio.
- Soube que estava tendo uma festa... Ok pessoal, é o seguinte: se você não deu a luz à Emma ou foi responsável pelo espermatozóide, por favor, fora!
- Parvati! – mamãe, uma dama, ficou horrorizada.
- Nenhum de vocês é bem vindo aqui hoje! – continuei, ignorando o choque no rosto dela e meu pai reprimindo uma gargalhada – Não sei como souberam, mas quero que vão embora agora mesmo. Emma não vai a lugar nenhum, ela está presa a vocês para o resto da vida, vocês terão tempo o suficiente para conhecê-la.
- Parvati, essa não foi a educação que sua mãe lhe deu! – tia Helena, que eu detestava, me repreendeu – Não pode chegar aqui e expulsar as pessoas dessa maneira!
- Essa ainda é a minha casa, então posso sim. E adivinha só, você não é realmente minha tia, então não me importo com a sua opinião. Sei que nunca gostou de mim mesmo, então deve estar aliviada – ela tentou parecer afetada, mas já a conhecia bem demais – Não se sinta mal, titia. O sentimento é recíproco.

Papai já estava roxo de tanto esforço que fazia para não rir. Mamãe estava vermelha, não sei se de raiva ou vergonha, mas não me impediu. Rafe, o tio de quem mais gostava, começou a tossir descontrolado quando tentou reprimir a gargalhada e sua esposa, tia Annie, que eu também gostava muito, acertou sua costela com o cotovelo. Tia Helena parecia que tinha chupado limão, mas não falou mais nada e liderou a debandada. Robbie e Leo iam indicando a porta com os braços, como aquelas pessoas que ficam na pista do aeroporto sinalizando para o avião, se certificando que alguém tentasse desviar do caminho.

- Você sabe que sempre vai ser minha sobrinha favorita, não é? – tio Rafe beijou minha testa quando passou, ainda rindo.
- Parvati sempre causando impacto... – tia Annie riu também.
- Faço o que posso – sorri de volta e eles saíram fechando a porta.
- Parvati, pelo amor de Deus... – mamãe ainda parecia chocada, mas me abraçou e deu um longo suspiro – Como você fala assim com as pessoas? Sua própria família!
- Mãe, olha a cara de desespero da Emma! – apontei para a garota ainda acuada no sofá e ela tentou sorrir, mas o sorriso saiu meio psicótico – Ela parece prestes a cometer um suicídio!
- Não pretendia me sufocar com a almofada, mas confesso que o pensamento me ocorreu – ela respondeu tentando relaxar e todo mundo riu.
- Viu? Fiz um favor a vocês. E agora farei outro – estendi a mão para Mason e ele correu para o meu lado – Robbie, Leo e eu vamos levar Mason para tomar um sorvete e depois vamos ao jogo do Levski. Vamos almoçar na rua e voltaremos antes de anoitecer. Aproveitem o tempo!

Foi uma tarde agradável, embora tenhamos passado a maior parte dela em um estádio de futebol. Obviamente eu não era uma entusiasta do esporte, tampouco Leo e Robbie, mas sempre ia aos jogos com papai quando criança e Mason é um fã incondicional do time da cidade, então valia o sacrifício de assistir a 90 minutos de jogo da tribuna de honra. O Levski venceu a partida por 3 x 1 e Mason estava eufórico quando deixamos o estádio, pouco depois das 17h. Nem mesmo a ignorância de Robbie quanto ao nome dos jogadores e as estatísticas dos jogos, algo que ele achava um absurdo um garoto de 17 anos não saber, o incomodavam mais. A alegria dele me lembrava um pouco Adam, meu irmãozinho que havia conhecido na semana passada, e fiquei surpresa por perceber que já sentia falta dele.

Encontramos Emma sozinha na cozinha em uma animada conversa com uma das empregadas quando chegamos. Papai tinha sido chamado para uma emergência no hospital e mamãe já havia saído para seus compromissos políticos, é claro. Maria estava tirando um bolo de cenoura do forno bem na hora e nos acomodamos em volta do balcão para comer.

- Emma, esses são Leo e Robbie, meus melhores amigos de Durmstrang – disse apontando para os dois e Robbie estendeu a mão, entusiasmado.
- Prazer em conhecê-la! Então era você quem seria nossa melhor amiga se não tivesse sido trocada por essa aqui?
- Provavelmente – Emma respondeu rindo e Leo revirou os olhos.
- Não dê ouvidos ao Robbie, seus miolos ainda estão fervendo por conta das estatísticas de jogos que Mason tentou enfiar na cabeça dele – Leo estendeu a mão também, animada.
- É futebol! – Mason falou de boca cheia, mas voltando a ficar indignado – Garotos deveriam entender de futebol!
- Eu não sou um garoto como os outros, Mason – Robbie replicou e apertei seu braço para que não terminasse o que queria dizer.
- Mamãe e papai saírem a muito tempo? – perguntei interrompendo o assunto.
- Não, só uma meia hora.
- Então isso significa que não vão voltar antes das 21h.
- O que fazemos então para passar o tempo?
- Vídeo game! – Mason ergueu os braços animado e rimos.
- Ok então, vídeo game!

°°°°°°°°°°

- Robbie, pare de me acertar com esses cascos de tartaruga! – Leo gritou quando seu kart capotou pela 3ª vez na mesma corrida e todos os outros passaram sua frente – AAARGH!
- Eles não são teleguiados, se você está na minha frente, não tenho como mandar que eles desviem! – Robbie se defendeu, mas já estava lançando outro casco na direção de Mason.

Estávamos jogando Wii há quase três horas e o clima estava longe de ser amistoso. Qualquer coisa se transformava em uma disputa acirrada e até um simples jogo de canoagem colocou todo mundo em pé de guerra. Maria chegou a correr até o quarto para saber o motivo de estarmos gritando e pulando desesperados na frente da televisão, o que acabou aliviando um pouco a tensão. Mas a trégua acabou quando trocamos o jogo para Mario Kart. Ninguém é amigo de ninguém quando se é explodido na pista.

- Ok, chega! – Emma largou o controle quando cruzou a linha de chegada em 8º lugar e levantou do chão – Parvati, você tem wi-fi aqui?
- Tem sim, precisa do laptop? O meu está em Durmstrang, mas papai deixa o dele no escritório.
- Não precisa, trouxe meu iPad. São 20h, Adam já está me esperando para conversarmos.

Ela saiu do quarto e imagino que tenha ido até o quarto de hospedes onde estavam suas coisas, porque voltou segundos depois com um iPad na mão. Ainda estávamos jogando, então ela sentou no chão no canto do quarto e começou a mexer na tela. Não demorou muito e ouvi a voz de Adam saindo do aparelho. Ele havia me contado que todo sábado eles conversavam pontualmente às 20h, que era uma hora antes dele ter que ir para a cama. Meu kart caiu na cachoeira pela 4ª vez e abandonei o jogo.

- Oi bubba! – Emma o cumprimentou e aquele devia ser o apelido dele – Estava com saudades!
- Oi mana! Também estava com saudades, quando você volta pra casa?
- Logo, logo, bubba. Ainda tenho algumas semanas em Hogwarts, mas vamos nos ver no fim do mês na minha formatura, lembra?
- Eu vou conhecer Hogwarts! – ele falou animado e ri. A partida tinha encerrado e agora todo mundo prestava atenção na conversa.
- Isso mesmo, você vai conhecer sua futura escola. 
- Você está em Hogwarts, mana?
- Não, lembra que eu falei que ia passar o fim de semana com os Karev quando nos falamos semana passada?
- Quando a Parvati veio aqui! Ela é legal, eu gosto dela. Você está com ela? Quando ela vai voltar aqui? Ela também é minha irmã! – Adam era um tagarela, conseguia fazer mais perguntas que Mason.
- Eu sei que ela também é sua irmã – Emma estava rindo sem parar – Ela está aqui sim, dá oi pra ela – e virou o iPad na minha direção.
- Oi Adam! – acenei para ele e tinha um sorriso imenso estampado no rosto dele quando acenou de volta.
- Oi outra mana! Quando você vem aqui de novo? Estou com saudades!
- Também estou com saudade de você, baixinho, mas não sei quando vou poder ir até ai. Acho que só nas férias.
- Falta muito pras férias? – ele perguntou confuso e Emma revirou os olhos.
- Três semanas, bubba. Olhe o calendário atrás da sua porta.
- Ah é mesmo! – ele bateu na testa e ri – Tem mais gente ai?
- Tem sim – Emma virou o iPad para o outro lado do quarto e Robbie, Leo e Mason se espremeram na frente da tela, acenando – Esses são Robbie e Leo, amigos da Parvati, e Mason, nosso primo.
- Oi todo mundo! – Adam acenou de volta mais animado que antes – Mason, você joga fruit ninja?
- Sim, quer jogar? – Mason levantou empolgado – Nunca tenho ninguém pra disputar!
- Mana, você empresta seu iPad pra ele jogar comigo?
- Poxa, já está me dispensando? – Emma fingiu estar desapontada, mas não conseguia ficar séria – Tudo bem... Podem jogar, mas só meia hora. Sabe mexer, Mason?
- Sei sim, papai me deixa jogar no dele – ele respondeu pegando o iPad com ela e sentando no canto do quarto.

Em questão de segundos Mason estava completamente abduzido pelo jogo e não ouvia nem via mais nada que acontecia fora da tela do iPad. Robbie desligou o vídeo game, já havíamos brigado o suficiente para uma tarde, e passamos o resto do tempo conversando. Emma ainda tinha muitas perguntas sobre a família e ia explicando um pouco sobre cada um através de um álbum de fotos que tinha no quarto. Quando passei pela página onde só tinham fotos minhas de Alexis, Jack e Julie, a expressão no rosto dela mudou.

- Foi ele que...? – perguntou com a mão em cima de uma foto de Jack fazendo um boneco de neve.
- É. Ele era irmão gêmeo dela, Julie – respondi apontando para a foto ao lado, onde Julie e Alexis decoravam o boneco de neve dele com um uniforme de Durmstrang.
- Não a conheci ainda. Eu acho.
- Não, Julie não estava aqui hoje. Vai conhecê-la nas férias, não se preocupe.
- Ela assusta, mas não morde – Robbie acrescentou e rimos.
- Preciso me preocupar? – ela perguntou receosa
- Não tem motivo para se preocupar, Julie é uma ótima pessoa – Leo respondeu depressa – Ela só é esquentada, mais séria, mas é muito legal.
- Ela parece bem feliz na foto.
- Ela era menos durona antes do Jack morrer, passamos alguns meses sem nos falarmos, mas já está tudo bem – respondi olhando para a foto outra vez – Sempre tivemos um relacionamento meio conturbado, mas ela é uma das pessoas em quem mais confio. Você vai gostar dela.
- Ela também vai me olhar como se eu fosse ela? – perguntou apontando para uma foto de Alexis e notei que seu tom de voz era triste.
- Não, ela já viu sua foto, já sabe que são parecidas, não vai olhar espantada.
- Nós não somos parecidas, somos iguais. Não me entenda mal, eu sinto muito não ter podido conhecê-la, mas queria que não fosse um clone dela.
- Tem um jeito... – Robbie deu um sorriso que dizia claramente que tinha uma idéia genial – Quer mesmo que ninguém mais pense que é igual a Alexis?
- Sim, quero.
- Então deixa comigo.

°°°°°°°°°°

- Então? – Emma levantou da cadeira um pouco receosa e Robbie estendeu a mão a ela, fazendo-a dar uma volta – Como ficou?

Levantei do sofá e meu queixo devia estar caído, porque não conseguia me expressar direito. Depois que Robbie disse que tinha um plano, pedi ao meu motorista que nos levasse até o centro da cidade. O destino? Um salão de beleza. Robbie deu a ideia de Emma radicalizar e mudar totalmente o visual. Achei que ela não ia topar, ela parecia o tipo tímido, que não arriscava demais, mas não poderia estar mais enganada. Ela topou o desafio e deu liberdade a Pierre para fazer o que quisesse. O resultado foi seus cabelos reduzidos a quase nada – estavam acima do ombro – uma nova coloração que os deixou castanho escuro e mechas vermelhas para todo lado. Era uma pessoa completamente diferente.

- Você está linda, Emma! – Mason foi quem falou primeiro e ela abriu um sorriso aliviado.
- Obrigada, Mason. Ficou bom mesmo?
- Ficou ótimo – consegui dizer finalmente – Emilia e Nikolaj vão levar um susto quando falar com Adam pelo Skype semana que vem!
- É, vai ser um choque, mas eu adorei – ela riu – Nunca tive coragem de fazer nada desse tipo.
- Você só precisava do incentivo certo – Leo falou e concordamos.
- Você sentou naquela cadeira como um clone da Alexis, mas levantou como Emma Blanchard – Robbie completou.
- Nesse caso, prazer em conhecê-la, Emma! – disse animada e ela se olhou no espelho mais uma vez.

É, ela definitivamente não parecia mais Alexis. 

Friday, August 31, 2012

- Pessoal, silêncio, por favor! – disse em voz alta ficando de pé, mas fui ignorada – Pessoal!

Um elástico passou zunindo na minha orelha esquerda e bateu na parede. Olhei incrédula na direção do autor do ataque e Mitchell deu de ombros rindo, atirando outro na direção de Yanic. Estávamos na sala de reuniões do grêmio e deveríamos estar tendo uma reunião sobre a formatura, que seria em menos de um mês, mas o que acontecia ali era uma bagunça generalizada. Não sei o que a turma do 7º ano bebeu hoje, mas estavam todos agindo como retardados. Todos mesmo, até Leo e Robbie. Nossa reunião virou um campo de batalha e elásticos e bolinhas de papel, secas e molhadas, voavam de um lado para o outro da mesa retangular. Era difícil dizer quem era o pior, mas Ozzy sem dúvida estava no páreo. Quando uma bolinha de cuspe acertou a pasta que eu segurava contra o peito, subi em cima da mesa.

- SILENCIO! – gritei o máximo que pude e todos pararam com os elásticos e bolinhas de papel na mão – O que deu em vocês hoje?
- O Dr. Pace disse que temos que relaxar um pouco e nos divertir, ou vamos pirar com a pressão das provas – Alec argumentou e os outros assentiram – Não prestou atenção na palestra?
- Mas será que podemos pelo menos terminar a reunião e depois levar a guerra infantil para o lado de fora?
- Ok, ok, ela está certa, pessoal – Ozzy me apoiou e os outros vaiaram, mas estavam rindo – Continuamos isso depois. O que tem na pauta?
- Obrigada! – disse descendo da mesa e abrindo a pasta – Formatura. Tema. Comecem a dar ideias.

Todos abriram suas pastas e com bem menos empolgação que a guerra de antes, começamos a trabalhar.

°°°°°°°°°

- Antes de encerrarmos, não se esqueçam que as inscrições para a Caça ao Tesouro Anual dos Veteranos acabam amanhã – disse recolhendo minhas coisas – As duplas que não se inscreverem não vão mais poder participar, o diretor deixou isso bem claro.

Todos assentiram animados e começamos a deixar a sala de volta ao jardim. A reunião não foi o que posso chamar de produtiva, mas surgiram algumas boas idéias. O tema da nossa formatura seria os Anos 40 e os formandos deveriam estar a caráter. Toda a decoração do salão seria inspirada nos clubes da época.

A turma ainda estava agitada, assim que deixamos a sala saíram correndo pelo gramado atirando aqueles elásticos uns nos outros como se tivessem voltado aos 11 anos, mas dessa vez Ozzy não se juntou a eles e caminhava de mãos dadas comigo, apenas rindo da bagunça.

- Vai se inscrever na Caça ao Tesouro? – perguntei enquanto contornávamos o campo de batalha para fugir dos tiros.
- Sobre isso... Ainda no 1º ano Lucian e eu combinamos de competir juntos quando chegasse a nossa vez. Tudo bem pra você se eu fizer dupla com ele? Se quiser que corra com você eu converso com ele, tenho certeza que vai entender.
- Pode correr com ele, não me importo. Não estava pensando em me inscrever de qualquer forma.
- Por que não? A corrida é divertida. Até a Leo vai competir, Mitchell disse que eles já se inscreveram.
- Leo está apaixonada, topa qualquer besteira.
- Ah, isso quer dizer que não temos nada sério? – olhei feio para ele e ele riu.
- Não consigo me imaginar cumprindo aquelas tarefas malucas e sem sentido. É engraçado ver os outros competindo, mas acho idiota demais participar – ele riu e percebi o que tinha dito – Não estou chamando você de idiota! É só que... – e ele me cortou com um beijo.
- Eu entendi, não precisa se desculpar. A corrida é mesmo idiota, mas esse é o objetivo.
- Estarei torcendo por vocês do lado de fora – disse devolvendo o beijo e ele me puxou para junto dele – Nem começa ou vamos nos atrasar para a última aula do curso.

Toda a turma já estava acomodada na sala quando Mitchell, Ozzy e eu chegamos. Os professores Wade e O’Shea estavam de pé na frente de todos, assim como o Dr. Pace, o que não era muito normal. Ele nunca participava das aulas, salvo quando precisava dar algum aviso importante sobre as próximas atividades. Ocupamos nossos lugares e percebi que tinha uma goles em cima da mesa, mas antes que tivesse a chance de perguntar, eles começaram a falar.

- Boa noite a todos – o professor Wade era quem sempre começava – Antes de começarmos nossa última aula, quem ainda não entregou o formulário de inscrição para as bolsas ou quem ainda nem pegou o formulário, é a última chance – e apontou para a pilha de folhas em cima da mesa – Vamos dar alguns minutos para os atrasados.
- Já entregaram os seus? – perguntei para Mitchell e Oleg.
- Já devolvi o meu tem algum tempo, não me inscrevi para nenhuma bolsa – Mitchell respondeu – O curso foi legal, mas descobri que ser auror não é o que quero.
- Eu já preenchi o meu, entreguei semana passada – Oleg disse orgulhoso por não ter perdido o prazo pela primeira vez na vida – Minha primeira opção é Londres, mas marquei Califórnia como segunda.
- O que? Vai sair da Bulgária? – Ozzy se espantou – Vai nos abandonar? Abandonar seu irmão gêmeo?
- Acho que já está na hora de Alec e eu seguirmos caminhos separados. Vou sentir falta do dia-a-dia, mas vamos sobreviver.
- Ah cara, não gostei. Achei que seriamos colegas de turma na Academia também – Ozzy resmungou e passei a mão em seu cabelo tentando confortá-lo, isso sempre funcionava.
- Você também vai sobreviver, irmão. E não é como se eu tivesse me mudando de vez, vou voltar quando me formar. Três anos passam voando.
- Ok, mais alguém? – o professor Wade perguntou juntando os formulários, mas ninguém mais se manifestou – Ótimo, vamos dar inicio a aula de encerramento. Todos para o campo de Quadribol, por favor.

Seguimos os três até o campo vendo o professor Wade atirar a goles para o alto e pegá-la de volta por todo o caminho e já estava imaginando que eles iam encerrar o curso com mais um daqueles exercícios que nos deixavam esgotados, mas quando chegamos lá tudo que vi foi o campo coberto de lama. Esses últimos dias foram de muita chuva e todo o terreno da escola havia se transformado em um pântano, o campo não seria uma exceção. Ele atirou a goles pra cima do nosso grupo e Oleg a agarrou.

- Dividam-se em dois times, hoje nós vamos jogar trancabola – ele disse animado e percebi que ele e a professora O’Shea estavam incluídos no “nós”.
- Na lama? – Lucy, uma das meninas da turma, perguntou incerta.
- A proposta da última aula é se divertir. Vocês tiveram um ano puxado e precisam relaxar – Shannon explicou – Sempre encerramos nosso curso com uma atividade desse tipo.
- Ok, mas na lama? – ela insistiu e alguns riram.
- Vamos lá, seus molengas. Estão com medo de um pouco de sujeira? – ela tomou a goles da mão de Oleg e pisou na poça – Quem vem para o meu time? – e alguns alunos deram de ombros e já começaram a se mexer.
- Não vou me atirar na lama – disse cruzando os braços e antes que pudessem começar a protestar, emendei – A menos que o Dr. Pace jogue também.
- É, isso mesmo! – Ozzy falou animado e todos os alunos apoiaram – Também só jogo se ele jogar.
- Ah qual é, eu estou de terno! – ele protestou, mas Micah riu.
- Eles têm razão, Martin. Não pode ficar aqui simplesmente olhando...
- Pode tirar esse blazer, doutor! – Mitchell encheu a mão de lama e fez uma bola – Ou precisa de um incentivo?
- Ok, ok, sem ameaças, eu jogo! – ele disse já tirando o blazer e a gravata e aplaudimos – Vou mandar essa blusa para vocês lavarem depois.

Os professores dividiram os times e o Dr. Pace acabou no time de Shannon, o que resultou em Micah correndo atrás dele o tempo inteiro como quem estava caçando um porco. Foi muito divertido ver o nosso psicólogo, sempre tão sério, sendo derrubado de cara na lama a cada dez passos que dava. Também levei muitos tombos e mal toquei na goles, estava imunda quando a partida terminou e não fazia ideia de quem tinha vencido, mas tinha valido a pena. Não conseguia me lembrar da última vez que dei tanta risada assim em tão pouco tempo.

- Ok pessoal, reúnam aqui – Shannon pediu para nos juntarmos e sentamos no gramado enlameado, formando um circulo em volta deles.
- Como Shannon disse antes, sempre gostamos de encerrar o curso com uma atividade divertida, para descontrair – Micah começou a falar - Sei que sempre exigimos muito de vocês, muitas vezes mais do que vocês podem oferecer, e sei que em muitos momentos vocês nos odiaram por isso, mas daqui a alguns anos, quando vocês forem aurores formados e precisarem lidar com uma situação de estresse extremo, vão se lembrar dessas aulas e nos agradecer.
- E mesmo aqueles que descobriram que não querem seguir essa carreira – Shannon continuou – O que quer que vocês escolham fazer, o que vocês aprenderam aqui se aplica em qualquer profissão.
- Meu trabalho com vocês foi menos exaustivo, mas nem por isso menos estressante – Dr. Pace falou e lançou um olhar divertido para Ozzy e eu – Hoje, depois de 10 meses acompanhando cada um de vocês, posso dizer que todos mudaram. Podem parecer que ainda são as mesmas pessoas que conheci em setembro, mas todos vocês amadureceram de uma forma ou de outra e sinto muito orgulho de ter ajudado nisso.
- Desejamos toda a sorte do mundo a todos vocês, independente da carreira que decidam seguir, e sempre que precisarem, podem contar conosco.
- Parabéns, vocês conseguiram! – Shannon completou sorrindo e os três nos aplaudiram.

Ficamos de pé aplaudindo também e os professores nos cumprimentaram um a um, e também cumprimentávamos uns aos outros. Havia sido um ano difícil, para alguns mais que os outros, mas todos tiveram seus altos e baixos. O trabalho que fizemos no curso, embora não percebêssemos no inicio, foi o que nos ajudou a superar os problemas. Eram três horas semanais onde todo o estresse acumulado era liberado e tínhamos sempre alguém ao nosso lado para ajudar a suportar o peso, além do Dr. Pace, que estava sempre lá para nos ouvir.

Enquanto abraçava e conversava com meus colegas de escola e futuros colegas de profissão, não pude deixar de ouvir o que se passava na cabeça deles. Lucy havia se candidatado a uma bolsa na Academia de Paris, para poder ficar perto do pai com quem tinha pouco contado; Mitchell já estava contratado para jogar como batedor pelos Abutres de Vratsa na próxima temporada; Axl e Sergei haviam se inscrito para a bolsa na Suécia e esperavam entrar para os Bruxos de Elite; Marcus também não ia seguir a carreira de Auror e tinha planos de se tornar um preparador de poções; Oleg estava animado com a possibilidade de sair de sua zona de conforto e passar os três anos de Academia longe de casa; e Ozzy e eu estávamos inscritos na bolsa da Academia da Bulgária mesmo, embora eu tenha marcado França como segunda opção e não contado a ele.

Cada um tinha um plano diferente para o que fazer depois da formatura, o que não sabíamos ainda era que nem todos eles seriam concretizados. Alguns se tornariam difíceis e seriam substituídos por outros mais ao alcance; outros seriam interrompidos de forma brusca; alguns não se mostrariam tão bons assim depois de um tempo; e outros dariam tão certo que as mudanças viriam naturalmente, como o plano de Oleg, que uma vez que partisse para se tornar um Auror, nunca mais voltaria para casa.  

Nem tudo sai como o planejado, mas se eu tinha aprendido alguma coisa naquele ano, é que às vezes o inesperado é melhor do que o plano original.

Monday, July 02, 2012

- Por que essa letra está em negrito? – Lenneth perguntou, levantando a sobrancelha.
- Onde? – Eu perguntei. Eu, Robbie e Alec nos debruçamos no exemplar que ela lia e vimos onde ela apontava.
Havia uma letra em negrito, um “N”, no meio do texto, sem motivo algum. Aquilo me deixou com uma pulga atrás da orelha e todos meus instintos diziam que aquilo significava algo.
Eram umas 10 da noite de sexta-feira e tínhamos nos reunido na sala do jornal para tentar descobrir algo sobre Antaris e o jornal clandestino. Estávamos a dois dias varrendo todos os exemplares do Aurora Boreal que tínhamos a procura de algo que pudesse nos ajudar a encontrar quem o editava. Até agora não tínhamos tido nenhum sucesso... Em todas as edições encontramos aquelas palavras cruzadas e todas tinham a mesma palavra-chave: “Cinturão de Orion”. Aquilo soava muito estranho e nossas suspeitas contra Orion ficavam cada vez maiores. Mas eu não conseguia, não queria acreditar, que era o Orion... Eu lembrei então da mitologia entre as constelações de Orion e Escorpião: segundo a lenda, o Escorpião havia sido mandado por Apolo para matar o caçador Orion, o único mortal por quem a deusa Artemis fora apaixonada. Mas Artemis tentou salvá-lo e disparou uma flecha contra o Escorpião, mas devido à influência de Apolo, errou o tiro e acertou Orion. Zeus então transformou Orion e Escorpião em constelações e os dois estão eternamente em perseguição no céu, sempre em lados opostos do céu. Quando contei essa história para Robbie, ele achou Orion ainda mais suspeito, pois Antaris é o nome da maior estrela da constelação de Escorpião e para ele, isso era um sinal de que Orion queria que não fizéssemos a ligação entre os nomes.
- Isso é muito estranho! – Robbie falou e vi que os instintos dele piscavam como os meus. Ele então deu um berro e todos saltamos sobressaltados. – Ali também tem!
- Nessa edição também! – Alec falou abrindo outro exemplar.
Começamos a foliar todas as edições, desde que o tal Antaris tinha dito que quem quisesse poderia publicar no jornal dele. Em todas haviam letras soltas em negrito, no meio de textos, no meio de tiras (de muito mal gosto...), no meio de títulos, até mesmo nas palavras cruzadas.
- Como deixamos isso passar? Deve ser alguma mensagem! – Robbie falou animado e eu concordei.
- Acho que ficamos tão concentrados nas palavras cruzadas que não percebemos isso... Precisamos descobrir o que significam! – Eu falei.
- Eu tenho uma idéia. – Lenneth falou e pegou uma folha em branco. Ela começou a anotar todas as letras em negrito da edição que estava em suas mãos, na ordem que apareciam ao longo do jornal. Assim que percebemos sua idéia, cada um pegou umas 3 edições e começou a fazer o mesmo.
Quando terminamos, juntamos todos os papeis. Meu coração pulava acelerado, pois eu sabia que aquilo me levaria para responsável pelo jornal. Mas foi decepcionante quando vimos que as letras não faziam sentido algum.
- Droga! Estávamos tão perto! – Eu falei, exasperado e me joguei na cadeira. Lenneth segurou minha mão e me beijou nos lábios. Como eu amo essa garota! Só aquilo foi suficiente para me ajudar e me animar. Como pude ficar tanto tempo longe dela?
- Ei pombinhos? – Robbie bateu no nosso ombro, fazendo uma voz idêntica a da Senhora Mesic e começamos a rir. – Aqui não é lugar! Temos um mistério para resolver!
- Alguma idéia? – Eu perguntei e foi Alec que respondeu. Ele estava sério e encarava as letras atenção.
- Deve ter alguma palavra ou frase escondida nessas letras. Precisamos descobrir o que...
- Mas como? – Lenneth perguntou. – Existem bilhões de possibilidades!
- Vamos tentar na sorte? – Robbie perguntou. – Vejam só, as letras do primeiro exemplar parecem formar “Estátua do Jardim”.
- Será que era para lá que deveriam levar as matérias? – Lenneth perguntou animada, mas logo bufou. – São muitas edições... Precisamos descobrir um padrão, deve existir!
- Eu tenho uma ideia! – Falei e liguei meu computador, já iniciando um programa de conversação com Ayala. Os segundos que ele demorou a responder minha chamada pareciam levar uma eternidade para passar.
- Fala mala, o que você quer? – Ele falou e eu sorri. Ayala sempre me chamava de “mala” e eu sempre o chamava de “chato”. Então ele viu todo mundo amontoado e sorriu. – Oi gente! Lenneth, ainda com ele?
- Sempre! – Ela falou rindo e ele deu de ombros, suspirando.
- Mas para ter tanta gente aí só pode significar problemas... O que você fez? – Ele perguntou, me olhando sério.
- Como se fosse eu que fizesse besteira... – Falei rindo e ele sorriu. – Você poderia fazer um favor pra mim?
- Estou ficando curioso... Odeio quando faz isso.  – Ele falou e eu gargalhei.
- Se lembra daquele cara que roubou meus textos?
- Sim, descobriu algo?
- Quase... Descobrimos que nos jornais que ele publica tem dezenas de letras em negrito. Parecem não fazer sentido, mas achamos que podem esconder alguma pista.
- Hummm... Como quem é ou onde eles publicam... – Ele falou pensativo e eu concordei. – Você tem as letras aí?
- Sim, só que são muitas. As letras mudam de edição para edição, mas parecem ter algum padrão. – Robbie explicou e Ayala assentiu. Pude ver que ele já começava a abrir milhares de programas ao mesmo tempo e ficava concentrado.
- Escaneie tudo e me manda. Vou ver o que posso fazer. – Ele respondeu.
- Sabia que conseguiria! – Eu falei e ele assentiu, desligando a conversa.
- Escanear? – Alec perguntou e eu ri.
- Vem que eu te explico...
O resto da noite passou enquanto nos divertíamos ensinando Alec a usar o escâner. Depois das primeiras tentativas, ele começou a fazer sozinho e achou uma invenção maravilhosa! Depois mandei tudo em um e-mail para o Ayala e só nos restava esperar. Mesmo assim, cada um pegou uma folha com as letras embaralhadas e se propôs a pensar no assunto.
- Acho que devia levantar nossas suspeitas quanto ao Orion. – Lenneth falou, enquanto voltávamos andando de mãos dadas para a Avalon.
- Não sei, Lenneth. Se fizermos isso, ele vai ficar mais cauteloso. E os professores suspeitam disso, mas eu não consigo acreditar que seja ele.
- Por que? Poderia ser qualquer um.
- Não quero acreditar que seja ele. Ele é chato, eu sei, teimoso e muito inconveniente, mas sempre me ajudou e apoiou.
- Lu, eu acho que você está confiando demais nele. Ele não é isso tudo que você imagina.
- Por que diz isso? – Eu perguntei e parei, fazendo-a olhar para mim. Vi que ela ficou meio sem jeito. – Lenneth, você sabe de algo que eu não sei?
- Sim. – Ela falou suspirando e eu a olhei sério. Ela então finalmente decidiu falar. – Olha, eu não te falei nada porque não queria me meter na sua amizade e não queria te ver brigando com ele.
- Mas? – Eu falei e ela assentiu.
- Mas não gosto dele. Não consigo confiar nele.
- E? – Eu sabia que tinha mais.
- Na época que terminei com Patrick e ele ficou me perseguindo, vi o Orion falando várias vezes com ele. Parecia como se ele estivesse incentivando Patrick a tentar algo comigo... – Eu comecei a sentir a raiva subindo pelo meu peito, mas deixei ela continuar falando. – E pouco tempo depois que começamos a namorar, o Orion veio com uma história para mim.
- Que história?
- Ele queria que eu ficasse com ele. – Ela falou e eu bufei de raiva, mas ela segurou minha mão. – Quando eu falei que nunca faria isso, tentei ir embora, mas ele segurou meu braço e falou que você não precisava e nunca saberia. Eu dei um tapa na cara dele e sai dali.
- Por isso que nunca mais falou com ele.
- Exatamente. Lu, presta atenção... Tudo indica que poderia ser ele. Ele sempre fez as coisas que você fazia, parece te seguir como uma sombra, parece querer ser você! Isso é obseção!
- Mas daí roubar e criar um jornal clandestino?! – Eu falei. Estava furioso, mas tudo ainda parecia surreal demais para mim. – E se fingir de meu amigo?!
- Ele é falso, Lu. Ele quer que a gente o subestime e é isso que você está fazendo.
- Tudo bem... Vou conversar com o diretor sobre isso. Precisamos investigá-lo.
- Prometa-me que não vai brigar com ele. Lu, me prometa. – Ela falou enérgica. Eu engoli a raiva e assenti. – É melhor esquecermos tudo dele. Ele quer a nossa atenção, não podemos dá-la a ele.
Eu concordei, ainda irritado, mas achei melhor não deixar ela perceber isso. Ela me beijou longamente e a abracei com força. Queria que passássemos a noite juntos, mas não daria hoje pois já estava tarde para ir para o vilarejo e acordaríamos cedo no dia seguinte. Então a deixei na Avalon e fui para a Kratos, pensando em tudo que ela dissera.
Entrei calado na República, pois não queria falar com ninguém, principalmente com Orion, mas estranhei, pois ele não estava lá. Aquilo me deixou intrigado, mas resolvi deixar para conversar com o diretor no dia seguinte.
Abri meu notebook e vi que tinha um e-mail novo. Meu coração acelerou, pois era um e-mail de Ayala.

“Tentei te ligar, mas você não atendia, então mandei por e-mail. Achei que seria um desafio maior, mas as palavras são simples. São nomes de lugares! E existe um certo padrão. São sempre oito lugares e é feito uma espécie de rodízio entre eles. Para pessoas que já conheçam todos os lugares, basta saber a primeira letra e não precisa identificar o resto. E é sempre a primeira letra em negrito! Estou te mandando a lista completa.”

Ele me mandou um arquivo com a lista de palavras e todas formavam palavras simples, como Masmorra, Porão Nº65, Chafariz Rua A.... Eram todos lugares do Castelo ou dos arredores e como Ayala disse, todas tinham a primeira letra diferente... Corri os olhos para o final da lista, o exemplar de hoje de manhã e li “Fundos da Biblioteca Vilarejo”.
Aquilo fez a adrenalina fluir rapidamente pelo meu corpo.
Sai correndo da República e não avisei ninguém. Minha mente me dizia que era perigoso e devia avisar a alguém onde eu estava indo, mas não queria perder tempo. Queria descobrir o que pudesse e tinha que ser hoje.
O vilarejo já estava vazio, pois já era quase meia-noite, e o único grande movimento era da boate dos pais do Ozzy. Encontrei a biblioteca rapidamente e fui até os fundos dela, mas não encontrei nada demais. Estava quase indo embora frustrado quando um brilho azul chamou minha atenção. Eram três estrelas que brilhavam atrás das latas de lixo, no formato do Cinturão de Orion. Fui até elas lentamente e quando cheguei perto, toquei-as com a varinha. Uma porta escondida no chão deslizou e vi uma escada que mergulhava para as profundezas da terra. O caminho era antigo e apenas as luzes de tocha iluminavam os degraus.
Ignorei toda a cautela e desci os degraus lentamente, a varinha em punho, mas apagada. De início não ouvia nada, apenas meus passos que ecoavam nas paredes. Parei uns segundos e os enfeiticei para não emitirem som e continuei descendo. Então comecei a ouvir um barulho estranho. Pareciam gargalhadas, mas ao fundo ouvia também o som de chicote e espadas. Todo o meu ser gritava para sair de lá, mas queria ir até o final.
Os degraus acabaram de repente e me vi em um corredor escuro. Havia luz apenas em seu final, quando ele fazia uma curva para direita e fui até lá lentamente. Os sons estavam ficando cada vez mais altos e claramente podia ouvir o baque de espada contra espada.
Me arrisquei e olhei para a curva iluminada e meus olhos ficaram arregalados.
Era uma sala oval, iluminada por archotes verdes. A sala era quase do tamanho da biblioteca do Castelo, organizada como se fosse uma arquibancada. Nesses assentos haviam em torno de uns 30 homens encapuzados e com longas capas pretas. No meio disso tudo havia uma espécie de arena com um palanque onde três pessoas estavam sentadas. Uma delas, que parecia mais jovem que as demais, estava na ponta do palanque observando quatro garotos que lutavam com as espadas. Esses garotos usavam uma máscara branca sem expressão no rosto e calças brancas, como de escravos, sem camisa ou proteção para os golpes de espadas. Os encapuzados riam sempre que um dos garotos perdia o equilíbrio ou errava um golpe, mas ninguém ria mais do que o jovem na ponta do palanque. Eu vi então ele pegar um chicote e bater nas costas de um garoto que se aproximou dele e esse garoto caiu no chão, sendo chutado por outro dos lutadores. A audiência começou a gargalhar e eu me afastei horrorizado.
Subi correndo os degraus decidido a encontrar os aurores e o diretor. Aquilo era loucura!
No meio da escada ouvi gritos rudes a minhas costas e pessoas correndo. Percebi que eles me perseguiam e acelerei o passo.
Saltei para a noite estrelada e corri para longe da biblioteca. Sabia que meus perseguidores estavam perto de mim, então precisava me esconder rapidamente. Mas não havia para onde fugir.
De repente esbarrei em alguém e me assustei, mas vi quando o segurança da boate dos pais do Ozzy sorria para mim e me ajudava a me levantar. Um dos irmãos mais velhos do Ozzy me olhou curioso.
- Lucian? O que faz aqui a essa hora? Dando umas voltas com a Lenneth?
- Ramón, preciso de sua ajuda! Tem alguém atrás de mim!
Ele não perguntou nada, mas ficou sério e olhou ao nosso redor. Ele me ajudou a entrar rapidamente na boate, enquanto os seguranças nos envolviam e olhavam tudo ao redor.

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Eu contei ao Tio Oscar o que tinha acontecido e ele assumiu um semblante sério e preocupado e só me deixou sair da boate uma meia hora depois. Ele em pessoa me acompanhou, além de outros três seguranças e Ramón. Era de madrugada já, mas mesmo assim fomos direto para o Castelo. Tio Oscar falou o que tinha acontecido a um professor que fazia sua ronda e nos levaram para o quarto do diretor. Contei então tudo que tinha acontecido e vi o semblante de Ivanovich ficando cada vez mais fechado.
Tio Oscar só foi embora quando me deixou na República e deixou dois seguranças na porta da Kratos, por precaução. Ozzy ficou preocupado quando me viu chegar tão tarde e contei tudo para ele.
Foi uma noite difícil... Não conseguia dormir, nervoso. E as cenas que eu vira se repetiam na minha cabeça. Mas era eu o chicoteado...
Acordei na manhã seguinte me sentindo dolorido da noite mal dormida. A maioria dos garotos já tinha acordado, mas Alec, Oleg e Ozzy me esperavam. Lenneth estava com eles e ela me abraçou chorando, enquanto brigava pelo que eu tinha feito. Tentei acalmá-la, mas ela chorava descontroladamente e me abraçava com força. Pelo olhar sério de todos soube que tinha acontecido algo.
- O que houve?
- Deixaram isso embaixo da nossa porta. Não sabemos como. – Oleg respondeu e me entregou um papel. Ele estava escrito em letras em negrito. Enquanto eu lia, senti um nó no estômago e abracei Lenneth com mais força.

“Sei que foi você que nos espionou, Lucian Valesti.
Você não faz idéia de onde está se metendo. Vou lhe dar um conselho de amigo, de autor para autor: nunca mais tente ver nossas reuniões. Nunca mais tente descobrir quem eu sou ou o que fazemos. Para seu próprio bem e de todos que você gosta. Até agora eu não fiz nada com você, mas continue e irei atrás de você, de seu irmão, de sua namorada, de seus amigos.
Você foi avisado.
Esse é meu primeiro e último aviso. Você vai se arrepender se continuar.
Antaris.”