Wednesday, April 29, 2009

A greve já durava mais de 15 horas e o frio era tão intenso que sentia como se todos os ossos do meu corpo tivessem se transformado em pedaços de gelo. Sentia-me enjoada, com dor de cabeça, um sono absurdo e muito cansaço, mas não pensava em desistir. Na verdade, já vinha me sentindo assim há alguns dias e Vina insistia que devia estar anêmica, que tinha que procurar a enfermeira para me tratar. Mas com as aulas e deveres me sobrecarregando, e todas as atividades extras clandestinas, não sobrava tempo nem para me alimentar direito, então talvez ela até tivesse razão, mas estava sobrevivendo e teria que continuar assim. Não tinha tempo de ficar doente agora!

‘Está se sentindo bem?’ Micah perguntou, me olhando preocupado.

‘Sim, estou’ Menti, forçando um sorriso ‘Só estou com frio.

‘Mentirosa’ Ele retrucou’ Sei que está passando mal, você está pálida. Quer ir até a enfermaria?’

‘Está louco? Estamos no meio de uma greve, não posso simplesmente levantar e entrar no castelo!’ Falei indignada.

‘Claro que pode, se está passando mal. Eu vou com você até lá’

‘Não vou a lugar algum, eu estou bem’ Disse firme e ele não gostou ‘Fique quieto e me abrace, porque estou com frio. Se me mantiver ao menos um pouco aquecida, vou me sentir melhor’

Micah resmungou alguma coisa que não entendi, mas também não pedi que repetisse e me aconcheguei em seus braços quando ele me puxou mais para perto dele, fechando os olhos. Um vento gelado ameaçava começar a incomodar, mas tentei me concentrar em alguma outra coisa qualquer, para não pensar no frio. Mantinha na cabeça a imagem de uma das praias da Espanha que costumava ir durante as férias e até podia sentir o calor, mas comecei a suar frio de repente, e abri os olhos assustada. Apesar de suar, meu corpo inteiro tremia.

‘Micah?’ Chamei por ele e minha voz quase não saiu ‘Eu acho que...’

Não completei a frase. Senti minha cabeça girar muito rápido, minhas pupilas estavam pesadas, meu corpo foi ficando mole e sentia que estava perdendo as forças, e então de repente tudo ficou escuro.

*****

‘Ela está acordando’ Ouvi a voz de Micah enquanto abri os olhos devagar ‘Evie?’

‘O que aconteceu?’ Perguntei tentando me sentar, mas me arrependi na mesma hora. Meu corpo todo doía e sentia a cabeça pesada ‘Onde estamos? A greve acabou?’

‘Você está na enfermaria, querida’ Ouvi a voz de uma mulher que reconheci como a mãe do Gabriel. Ela parou na ponta da cama e pegou meu pulso ‘Você desmaiou há 3 horas atrás’

‘Não me lembro de nada, só que estava me sentindo um pouco tonta’ Falei com a mão na cabeça, tentando amenizar a dor ‘E a greve?’

‘Já acabou, nós ganhamos’ Micah respondeu e sorri animada, mas logo parei, pois a cabeça voltou a doer ‘O Ministro já foi embora e os alunos estão tomando café no salão. O pessoal já passou aqui para ver como você estava, mas a enfermeira expulsou todos’

‘Estou com fome, mas o mal estar ainda não passou, só de pensar em ovo frito e bacon me dá vontade de vomitar’ Fiz uma careta ao imaginar o café da manha e a mãe de Gabriel me olhou estranho, se virando para Micah.

‘Micah, você pode nos dar licença um minuto? Quero conversar a sós com ela’

‘Claro’ Ele respondeu parecendo preocupado, mas saiu e fechou a porta.

‘Aconteceu alguma coisa mais séria?’ Perguntei assim que ele fechou a porta ‘Eu não desmaiei de fome, não é?’

‘Tem notado algo de diferente em você ultimamente?’ Ela perguntou ‘Como, por exemplo, cansaço excessivo, tonteira, irritação?’

‘Sim, ando sentindo exatamente isso de um mês pra cá, como sabe disso?’ Me espantei ‘Eu falei alguma coisa enquanto estava desmaiada?’

‘Não, é que esses são os sintomas do primeiro mês de uma gravidez’ Ela falou, me encarando com um olhar que beirava a pena e minha única reação foi rir, mas logo fiquei séria.

‘Não posso estar grávida’ Disse categórica ‘É impossível’

‘Tem certeza?’ Ela insistiu ‘Não costumo me enganar, ainda mais com tantas evidencias’

Não respondi aquela pergunta. Durante cinco longos segundos, um filme passou pela minha cabeça. E no meio desse filme havia um deslize, um descuido em meio a uma empolgação, algo que fugiu do meu controle. E ela notou que estava considerando a afirmação de que seria impossível ter engravidado, pois segurou minha mão, me encarando.

‘Não é apenas isso’ Ela tornou a falar, mas o que quer que fosse não poderia ser mais avassalador que um bebê ‘Você desmaiou porque está com anemia, estava muito fraca e ficar todo aquele tempo sem comer só agravou a situação. Você tem se alimentado direito?’

‘Não, mal paro para comer, não tenho tempo!’ Falei com uma voz desesperada ‘Se não tenho tempo nem de almoçar, como vou cuidar de uma criança??’

‘Ok, preciso que você fique calma, isso não é bom para o bebê’ Ela me segurou, impedindo que levantasse ‘Você está há 2 meses de se formar, esse bebê não vai nascer no meio dos seus exames finais. Mas você precisa se cuidar, independente de estar ou não sobrecarregada, ou vai fazer mal não só a ele, mas a você também. Tem que tratar essa anemia. Está entendendo o que estou dizendo?’

‘Sim, estou’ Respondi ainda em choque, balançando a cabeça ‘Eu tenho opção, não é?’ Perguntei, soando assustada.

‘Sim, tem. Você é nova, sempre tem. Mas acho que deveria conversar primeiro com alguém da família ou um amigo’ Ela aconselhou e assenti com a cabeça, atordoada ‘Tem alguém que quer que eu chame para conversar com você? Seu namorado?’

‘Não’ Respondi de imediato, descartando qualquer possibilidade de contar ao Micah naquele momento ‘Quer dizer, as meninas. Quero falar com elas’

‘Vou mandar chama-las, mas não levante daí. Precisa tomar algumas poções que a enfermeira preparou’

Ela caminhou até a porta e vi quando chamou Micah, pedindo que trouxesse as meninas até a enfermaria. Ouvi-o questionar se eu estava bem, mas ela apenas mandou que ele fizesse o que eu estava pedindo, sem fazer perguntas. A enfermeira apareceu com uma bandeja lotada de frascos coloridos e me forçou a tomar todos, mas estava tão zonza com aquela noticia que bebia sem nem prestar atenção. Era a primeira vez que não sabia o que ia acontecer com o meu futuro, e não gostei da sensação de não ter perdido o controle dessa parte da minha vida. Estava me sentindo perdida pela primeira vez, sem ter a menor noção do que deveria fazer. Tudo que queria de verdade era acordar outra vez do desmaio e descobrir que ainda estava na greve, sem esperanças do Ministro ir embora e sem um bebê crescendo na minha barriga.

Tuesday, April 21, 2009

Deixei Evie na porta do teatro e tomei a direção contraria, caminhando de volta para a Spartacus. Sabia que o único modo de descobrir o que motivou a demissão de minha avó era lendo os registros de antigos professores e isso era algo que ficava nas gavetas do escritório do diretor. E se queria entrar lá sem causar minha expulsão a poucos meses da formatura, precisava estar invisível. Fui direto à gaveta de Chris. Sabia que ele tinha herdado a capa da invisibilidade de seu padrinho e tinha certeza que não se importaria que a pegasse emprestado por algumas horas, devolveria antes mesmo que ele desse pela falta dela.

Encontrei a capa enrolada com cuidado no fundo da gaveta e voltei correndo para o castelo. Não sabia ainda exatamente como ia entrar na sala, o diretor ainda estava lá, então sentei no canto do corredor coberto pela capa, esperando. Demorou até que as luzes do escritório se apagassem e o diretor saísse. Consultei o relógio e já passava da meia noite, todos já deviam estar dormindo nas repúblicas e notado minha ausência, mas não ia voltar atrás. Levantei do chão com cuidado para não ficar exposto e minha mão já estava quase tocando a maçaneta quando ouvi passos no corredor e saltei para o lado, assustado. Acendi a varinha por debaixo da capa e vi Victor caminhando perdido pelo corredor.

‘Ei, o que está fazendo aqui?’ Perguntei parando ao lado dele e Victor saltou assustado.

‘Quem está ai?’ Ele se virou para o lado procurando o dono da voz ‘Micah?’

‘O que está fazendo fora da cama até essa hora?’ Perguntei tirando a capa de cima de mim.

‘Posso fazer a mesma pergunta a você’ Respondeu com a sobrancelha erguida ‘O que está fazendo aqui? Por que não foi à reunião do time de trancabola?’

‘Ai, a reunião! Era hoje?’ Bati a mão na testa. Tinha esquecido completamente disso ‘Ela só acabou agora?’

‘Sim, Maddox se empolgou um pouco e não parava de falar’ Ele revirou os olhos e rimos ‘Mas ainda não me respondeu o que está fazendo aqui’

Abri a boca para responder, mas mais passos ecoaram pelo corredor e agarrei Victor pelo braço, abrindo a porta do escritório do diretor e empurrando ele para dentro. Os passos ficaram mais intensos e cada vez mais próximos, então joguei a capa por cima de nós dois e corremos para trás do sofá bem a tempo. A porta abriu e o diretor entrou na sala. Victor me olhou alarmado, mas ele apenas mexeu em alguns papéis na mesa e saiu novamente.

‘O que está fazendo?’ Victor sussurrou meio que em pânico quando o diretor saiu ‘Você estava rondando o corredor para entrar aqui, não é?’

‘Deixa de ser apavorado, Victor!’ Resmunguei e ele se ofendeu, me encarando indignado ‘Preciso procurar algumas coisas, então você tem duas opções: sair e se explicar com algum guarda que o pegar fora da cama essa hora ou ficar aqui, me ajudar e voltar pra republica coberto pela capa. O que vai ser?’

‘Então, o que estamos procurando?’ Victor desfez a cara feia e estalou os dedos, animado.

‘Melhor assim’ Sorri satisfeito ‘Preciso encontrar documentos sobre uma professora de Alquimia que deu aula aqui há uns 30 anos atrás, Morgana Zagreb. Era minha avó’ E ele se surpreendeu ‘E fique atento, se encontrar algo sobre Teodoro Schneider, me avise’

‘Certo. Morgana Zagreb e Teodoro Schneider. Entendi’ Ele fez sinal de positivo e caminhou até um arquivo no lado esquerdo da sala ‘Eu procuro desse lado e você procura ai, assim vai ser mais rápido’

Victor já foi logo abrindo as gavetas do arquivo e caminhei até o meu lado da sala, começando pela última gaveta. Cada pasta tinha o nome de um professor e demorou uma eternidade até que encontrasse a pasta com o nome Zagreb marcado. Era uma das mais grossas. Sentei no chão com ela no colo.

‘Encontrei a pasta dela’ Avisei a Victor ‘É bem pesada’

‘Vou procurar pelo outro nome que você quer, mas vai lendo em voz alta, agora quero saber o que tem ai’ Ele respondeu enquanto passava os dedos rápido entre as pastas.

‘Certo... Ela foi professora aqui de 1965 a 1978’ Comecei a ler o arquivo alto ‘Tem muitas observações positivas aqui, parece que era uma das melhores professoras da escola, tem avaliações dos alunos também’

‘Devia ser boa mesmo, para os alunos gostarem de Alquimia!’ Victor falou rindo e concordei.

‘Tem uma citação sobre o livro dela, foi usado como material didático por 3 anos’ Continuei lendo as páginas e resumindo para ele ‘Olhe isso, tem uma critica muito positiva do livro escrita pelo pai da Evie!’

‘Uau, isso sim é um choque, ele sabia ler?’ Victor riu alto, mas não respondi.

Na pagina seguinte a critica dele havia todo um documento sobre as descobertas que minha avó havia feito sobre a Reis & Sombras. O diretor relatava questionamentos da minha avó, alegando que um de seus alunos, Josef Parvanov, estava envolvido na sociedade e recebendo tarefas do líder dela, sendo que uma delas seria eliminar um outro aluno da escola. Ele relatava que mesmo depois de garantir que ia cuidar de tudo, e de ter impedido o crime, minha avó continuava a desconfiar das atividades da sociedade e passara a vigiar de perto Josef Parvanov. Há um registro do diretor sobre uma ameaça feita por Josef a minha avó e a insistência dela em vigiá-lo, e logo depois um documento assinando sua demissão.

‘Micah?’ Ouvi a voz de Victor um pouco atordoado ‘O que a foto da minha mãe está fazendo na pasta desse tal de Teodoro Schneider?’

‘Como?’ Perguntei também surpreso e ele me mostrou uma foto de uma menina de no máximo 14 anos, de pele clara, loira e de olhos verdes, que estava anexada à pasta ‘Essa é sua mãe?’

‘É sim’ Victor sentou na cadeira olhando fixamente para a pasta ‘Teodoro Schneider era pai dela. Esse homem é meu avô!’

‘Esse homem era o líder da Reis & Sombras de 1978 e que foi afastado do cargo pelo diretor da escola na época’ Repeti o que o avô de Evie havia contado e o queixo de Victor foi caindo aos poucos ‘As idéias dele eram similares as de Grindelwald e teve uma espécie de golpe do estado, proibindo até seus descendentes de fazerem parte da sociedade’

‘Então é por isso que eu nunca soube da existência dela’ Ele concluiu o que havia dito.

‘Leví é seu pai, certo?’ Perguntei olhando para uma pagina solta da pasta.

‘É sim, por quê?’ Victor logo se alarmou ‘O que tem ai?’

‘Minha avó descobriu que Teodoro Schneider havia escolhido Josef Parvanov como seu sucessor e delegado a ele algumas tarefas como teste. Uma delas era eliminar um aluno de 16 anos chamado Leví Neitchez’

Victor deixou a pasta que segurava cair e veio caminhando na minha direção, pegando a pagina solta e lendo seu conteúdo. Ouvi barulho vindo da janela e recolhi depressa todas as coisas espalhadas, escondendo a pasta de minha avó e a do avô de Victor no casaco, arrastando ele para fora da sala ainda em estado de choque segurando a folha na mão. Pelo visto eu não era o único cuja família tinha um passado obscuro em Durmstrang.

Algumas memórias de Ricard Dragash

‘Ok, Geórgia, desculpe. Isso não está dando certo. Acho que seria melhor se eu desistisse de fazer essa peça. Não levo o menor jeito para teatro, músicas... danças... Eu tentei e você me ajudou muito também.’ - me sentei na beirada do palco encarando as cadeiras vazias do teatro do vilarejo. – ‘Pelo menos Miyako e o restante dos meninos não vão poder dizer que faço questão de morrer tímido. Mas não se preocupe, está tudo bem.’

Mentira. Eu estava derrotado. Depois de muita insistência de Miyako – e o apoio irritante de Chris e Micah, principalmente - eu decidi que talvez entrar para as aulas de teatro não seria tão má idéia assim para me fazer um pouco menos retraído. Os primeiros meses foram ótimos e as aulas realmente estavam conseguindo seus objetivos iniciais. Geórgia também parecia ter decidido que ter um calouro tão bem disposto a se soltar nos palcos era uma oportunidade muito rara para deixar e escapar e, desde o começo, era como minha monitora voluntária das aulas, e não poderia negar que nos divertimos muito... Diversão que acabou com nosso retorno ao castelo para o segundo semestre e todos os problemas que saíram de dentro das malas.

‘Ok, já acabou com as abobrinhas? Antes de tudo: não se desiste de uma peça de teatro com tanta facilidade, como se estivesse desistindo de usar o casaco ao ver que está fazendo sol. É um compromisso sério, principalmente com você mesmo. Não pode simplesmente abandonar o posto para um substituto, como se fosse uma vaga de emprego. Você passou por seleções para conseguir esse papel, mereceu ganhar esse papel. Ninguém pode fazê-lo tão bem quanto você. Entende o que digo?’ – É claro que entendia que se desistisse agora, decepcionaria muitas pessoas que estavam contando comigo, mas ainda não via como iria conseguir continuar e, sem saber o que responder, fiquei calado. – ‘Seu argumento de que não tem jeito para isso é completamente sem concordância com o desenvolvimento óbvio que eu e o restante da turma acompanhamos a cada aula que passa... Além do mais, ninguém aqui tem voz de rouxinol e corpo elástico para dançar como os profissionais da versão original! Nós somos amadores, Ricard! Não temos que nos preocupar com as performances musicais perfeitas. Agora... levanta já daí. Você não vai sair dessa peça, não seja ridículo.’ - Ela disse impaciente e autoritária, se aproximando de mim e estendendo o braço para me ajudar a ficar de pé.

Fitei sua expressão por um minuto e percebi que seria inútil discutir. Estava decidida. Balançando a cabeça e me dando por vencido, agarrei sua mão e me forcei para cima novamente. Percebi que era só um pouco mais alto que ela quando nossos olhos se encararam incrivelmente próximos por um breve segundo, antes que ela desviasse o contato e soltasse nossas mãos, pigarreando.

‘Novamente, você não está se lembrando das regras fundamentais do teatro. Vamos repassá-las. Regra número um?’ - ela andava ao meu redor, rígida e profissional. Balancei a cabeça um pouco transtornado e tentei me concentrar.

‘A platéia é sua amiga. Você deve se soltar e se mostrar a ela o tempo todo. Nunca se esconder, nunca virar as costas, nunca se contrair.’ - Repeti mecanicamente e ela sorriu satisfeita, parando novamente na minha frente.

‘Ótima memória e melhor ainda teoria. Você entende? A platéia é sua amiga, Ricard! Você não precisa se esconder dela!’

‘Não é como se eu pudesse controlar!’ – respondi em tom defensivo, mas ela não me deu brechas para continuar. Suas mãos puxaram meus ombros para cima e empurraram minha barriga para trás. Depois levantavam meu rosto de maneira soberana.

‘Regra número dois, como você deve bem lembrar, é manter sempre a postura ereta e firme. Você é quem o texto quer que você seja. Não há espaços para crises de identidade e muito menos para insegurança. A postura diz tudo. Ela marca toda a presença de palco e... ah, droga!!! Mira vai nos matar!’

Ela interrompeu abruptamente o monólogo sobre as regras, exaltada. Acompanhei seu olhar até o relógio na parede e entendi o porquê: estávamos atrasados para a aula de Literatura Mágica, o que ultimamente em Durmstrang soava como “vocês estavam armando contra o Ministério”. Geórgia limpou todo o palco com um aceno de varinha e jogou sua mochila nas costas tão rápido que, quando dei por mim, estava sendo puxado por sua mão e correndo desabalado pelo túnel de volta ao castelo e dele, pelos corredores, derrapando na porta da sala de aula alguns minutos depois, sem fôlego.

A turma toda estava afobada e pareceu nem notar nossa entrada incomum, enquanto cortávamos caminho por todos até nos aproximarmos de onde nossos amigos estavam sentados; todos igualmente alheios à nossa chegada. Enquanto Geórgia se sentava e começava a abrir os livros sobre a carteira, eu tentava, inutilmente, descobrir o assunto de toda aquela conversa. Porém, antes mesmo que tivesse conseguido algum resultado satisfatório, Mira parou de frente a nós dois, nos encarando desconfiada.

‘Quase vinte minutos atrasados. Onde estavam?’

Involuntariamente, virei um pouco o rosto para Geórgia, tentando pensar rápido em alguma desculpa plausível. Nada parecia convincente. Geórgia porém abriu um meio sorriso para a professora e, quando falou, usava seu tom de voz mais formal, calmo e sincero, descartando qualquer dúvida.

‘Desculpe, professora. Nos atrasamos e não vai acontecer novamente. Estávamos vindo, mas fomos abordados por um dos trogloditas do Ministério que só nos liberou depois de um extenso interrogatório sobre as repúblicas, os professores e também, sobre o jornal.’

Mira curvou a boca em um risco fino e pálido de descontentamento. Embora tivesse que se portar profissionalmente, era evidente que ela estava chegando ao seu limite de paciência com a intervenção do Ministério em todos os aspectos de Durmstrang, principalmente, em seu jornal. Geórgia tinha acertado em cheio o ponto fraco.

‘Bem, eles cobram responsabilidade mas prendem os alunos nas horas de suas aulas? Oras, francamente!’ – resmungou para si mesma com raiva ao mesmo tempo em que dois funcionários do Ministério entravam na sala observando a todos nós com desconfiança. – ‘Bem, tudo bem então. Tentem escolher um caminho livre de obstáculos da próxima vez. Vocês dois vão formar uma dupla para o projeto, tudo bem? Aqui está o objeto de estudos. Os colegas de vocês explicarão melhor’.

Ela pousou sobre a mesa uma caixa grande e saiu, indo de encontro aos dois homens. Geórgia ainda sorria triunfante enquanto abria a caixa, mas sua expressão se tornou do mais puro choque um segundo depois, assim como a minha, quando vimos o que era nosso “objeto”.

Dentro da caixa havia um bebê que dormia profundamente, aninhado em um emaranhado de mantas e cobertores. Sua pele era negra e suas mãos perfeitas e pequenas se sobrepunham por baixo de pequenas luvas de tricô. Transtornado, encarava o bebê como se esperasse que ele acordasse e explicasse o que estava acontecendo. Olhei ao redor e me dei conta de que não era o único que estava perdido por ali enquanto encarava a própria caixa.

‘Tentem ler a carta que está junto do boneco. Vai ajudar vocês a montarem sua narração... Ah, e não se esqueçam de batizar o filho, hein?’ – Miyako disse com a voz baixa atrás de nós e sorriu, dando uma piscadinha. Ao lado dela, Griffon também sorria e, aparentemente, contava histórias sobre dragões e espadas para um boneco bebê de pele bem clara e olhos abertos, atentos a ele.

Como eu e Geórgia olhávamos a tudo ainda muito transtornados para perguntar alguma coisa, Miyako se levantou impaciente e se sentou ao nosso lado, começando a explicar todo o projeto e tudo o que tínhamos de fazer. Quando terminou, encarei-a abobalhado.

‘Nós vamos ter que cuidar de bebês? Eles perderam a sanidade!’ – disparei assustado enquanto fazia um sinal com a cabeça na direção da professora Mira e dos dois funcionários do Ministério, que conversavam entre si com as cabeças juntas.

‘Não são bebês, Ricard. São bonecos. E ah, agora que entendi tudo... até que não acho tão má idéia assim... ’ – Geórgia disse abrindo um meio sorriso enquanto puxava o boneco de nossa caixa para seus braços, acomodando-o confortavelmente. Ele se mexeu lentamente e abriu os olhos, fitando nossos rostos. – ‘Olá, bebê. Eu sou a mamãe, Geórgia. E esse é o papai, Ricard’. – ela falou com uma voz fina e meiga que fez meu queixo despencar alguns centímetros.

Ao meu lado, Miyako soltou uma espécie de tosse para abafar a risada e se levantou voltando ao seu lugar ao lado de Griffon (e do bebê deles, já bastante agitado, balançando os braços enquanto ouvia o desfecho da história sangrenta). Balancei a cabeça para tentar organizar os pensamentos e peguei um pergaminho dentro da caixa, abrindo-o e lendo-o em voz suficientemente alta para que Geórgia escutasse também.

“Vocês são um casal de classe média baixa e moradores do subúrbio de Londres. Impossibilitados de terem filhos próprios, adotam um bebê negro. Apesar de todas as dificuldades e preconceitos, vão lutar juntos para dar-lhe a melhor educação e todo o amor que sentem por ele.” – terminei de ler e olhei para Geórgia que brincava distraída com a mãozinha do boneco, parecendo encantada. – ‘Nos deram o tema mais polêmico. É o único boneco negro da turma. ’ – disse enquanto reparava ao meu redor os outros “bebês” e casais. Lavínia e Victor pareciam enfrentar dificuldades sérias para se entenderem em alguma questão ali perto, pois estavam discutindo e assustando o boneco deles, que se balançava ameaçadoramente nos braços de Lavínia cada vez que ela se exaltava.

‘É. Martin é único. ’ – ela respondeu com a mesma voz meiga de antes e voltei a me assustar com isso.

‘Martin?’

‘Sim. Acho que devemos chamar de Martin, para lembrar Martin Luther King. Ele tem cara de líder, não acha? Nesse ponto, sinto muito, mas ele me puxou. ’

‘Sinceramente? Ainda estou assustado demais para achar qualquer coisa. Tudo isso para nos mostrar o que é, verdadeiramente, a gravidez na adolescência? Não poderiam ter nos dado um pelúcio, ou qualquer outro animal, para cuidarmos?’ – respondi mal humorado e Geórgia sorriu, me encarando.

‘Você está estressado. Relaxa. Nós vamos nos sair bem. Martin me parece ser um bebê fácil de lidar... Ande, venha cá, o segure um pouco. ’ – ela estendeu um pouco o boneco na minha direção, que permaneci relutante. Mas Geórgia insistiu já começando a ficar impaciente e acabei cedendo. Martin se movimentou um pouco nas mantas para se aconchegar nos novos braços, mas logo me encarava com atenção e não pude deixar de sorrir. – ‘Ele é uma gracinha, não é?’ – ela perguntou ali do lado e não precisei concordar.

Enquanto nos organizávamos nos horários para cuidarmos de Martin, percebi que Geórgia tinha razão: até que não tinha sido tão má idéia assim. Poderíamos até nos divertir novamente com isso...

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Cuidar de bebês deixou todos os alunos do 7º ano com olheiras ainda mais fundas e menos tempo para qualquer tipo de lazer. No entanto, eu não poderia negar o fato de que para mim e Geórgia, tinha sido uma experiência engraçada. Martin era realmente um bebê muito tranqüilo e não via problemas em dormir grande parte das noites, mas, é claro, cobrava suas condições... Alimentá-lo de três em três horas e “brincar de esconder” – tapando o rosto com as mãos e depois tirá-las de supetão, de modo que o surpreendesse – eram apenas duas delas.

O dia de entrega do relatório do projeto e, conseqüentemente, da despedida dos bonecos, foi mais triste do que poderia ter imaginado. Geórgia parecia contrariada ao “apagar” Martin com um feitiço e recolocá-lo na caixa, em cima da mesa de Mira.

‘Nós fizemos um bom trabalho. Se realmente existisse, Martin terminaria como Ministro da Magia... No mínimo, editor-chefe de algum jornal clandestino de forças revolucionárias na escola, ou líder do grêmio acadêmico’ – tentei consolá-la enquanto andávamos de volta às Repúblicas. Deu certo. Ela sorriu sincera para mim.

‘Obrigada’

‘Não por isso’

‘Não, não por isso mesmo. Por ter paciência comigo. Eu admito que tenha um gênio difícil na maior parte do tempo e, definitivamente, não gosto de ser contrariada... Eu sei de tudo isso. Então... obrigada por estar me aturando por tanto tempo, ultimamente’ – ela continuava me olhando e sorrindo e quando chegamos à porta da Avalon, me virei para ela um tanto desconcertado.

‘A convivência comigo está te deixando muito sensível. Pensei que inseguranças eram o meu forte, não o seu. Você não tem que agradecer, Geórgia. Sério. Gosto do seu “gênio”. Me diverte. E você está me ajudando muito... com o teatro e o Martin. Não foi como uma obrigação maçante como pareceu que seria. Foi legal. Pra ser sincero, nem vejo o tempo passar quando estou com você...’ – admiti, me surpreendendo com minhas próprias palavras enquanto elas escapavam sem dificuldades. Abaixei os olhos, envergonhado, mas ela riu.

‘Também não vejo. Acho que esse seu jeito meio tímido, meio escrachado, totalmente inseguro – ela virou os olhos propositalmente e ri - me inspira a não ser tão impaciente...’

Nos encaramos alguns pares de minutos e quando o silêncio começava a ficar constrangedor, ela pigarreou, se sobressaltando.

‘Bem, acho melhor você voltar para a Spartacus. Faltam poucos minutos para o toque de recolher’

‘Hum, é. Certo. Então... boa noite’

‘Boa noite’

Me adiantei para dar-lhe um beijo no rosto e ela pareceu um tanto rígida e transtornada quando me afastei novamente. Assustado com minhas reações naquela noite, virei as costas e comecei a andar depressa em direção contrária, mas ela me chamou quando ainda não estava muito distante.

‘Não vou para casa esse final de semana então, estive pensando... podemos ensaiar teatro amanhã, se você não tiver outros planos...’

‘Não! Não tenho planos. Seria ótimo...’ – respondi um tanto sobressaltado e ela sorriu. – ‘Amanhã eu te procuro e podemos ir juntos. Tudo bem?’

‘Claro. Combinado. Até amanhã, então.’

Recomecei a caminhada, agora um pouco mais devagar, enquanto um sorriso se formava no meu rosto involuntariamente. Ainda não entendia bem o porquê, mas já estava ansiando pelo momento de passar mais algumas horas na companhia de Geórgia Yelchin.

Evie,

Espero que tudo esteja bem. É claro que sabíamos sobre sua irmã, mas decidimos respeitar a decisão de sua mãe sobre não contar nada a respeito disso para você e Max. Sinto muito que tenha descoberto dessa forma, mas não podemos conversar sobre isso através de cartas, há muita coisa a ser dita. Assim que tiver uma folga da escola, venha até Jeravna.

Fique bem e não tente mais interrogar sua família sobre isso, não é dessa forma que vai conseguir o que quer.

Beijos cheios de saudade,
Vivi, Nikki e Tessa.


Dobrei a carta que recebi das três e guardei dentro do livro. Não era bem a resposta que esperava receber, mas ao menos sabia que teria algumas duvidas sanadas assim que pudesse encontrá-las na casa de Nikki. Ouvi um grito e varias risadas em seguida, me trazendo a realidade. Estávamos na aula do clube de transfigurações avançada e Victor havia se desconcentrado, transfigurando a si mesmo em uma marmota sem rabo. A classe inteira ria, enquanto Chris tentava reverter o feitiço, já que ele não conseguia mais segurar a varinha.

Voltei minha atenção à aula, pois estávamos quase concluindo os estudos sobre animagia e fazendo o teste do Ministério. Depois de alguns feitiços combinados com poções, consegui descobrir que minha forma animaga seria uma lontra. Dentro do caldeirão de Micah havia a imagem de um cachorro imenso e ele parecia satisfeito. Estava ansiosa para fazer o teste, estudava animagia há quase 3 anos e transfiguração era, de longe, minha matéria favorita. A professora Mesic recolheu nossos relatórios com nossas formas animagas já definidas e ficou de começar um simulado do teste no próximo encontro, liberando a turma.

‘Que bicho apareceu pra vocês?’ Perguntei curiosa assim que deixamos a sala ‘Eu vou ser uma lontra e Micah um cachorro’

‘Eu sou um furão’ Nina falou rindo ‘Bem apropriado, bicho mais elétrico não existe’

‘Apareceu um guaxinim no meu caldeirão’ Gabriel comentou achando graça ‘Miyako é um esquilo, a cara dela!’

‘É, brigão e lindo’ Ela completou, jogando o cabelo pra trás de palhaçada. Vina torceu o nariz, mas ela ignorou.

‘E eu um urso, uma criatura forte!’ Ty inflou o peito para falar.

‘E estabanada... Perfeito pra você, Ty’ Milla completou, nos fazendo rir ‘Eu sou um gato, não é lindo?’

‘Ai, eu também vou ser um gato!’ Vina falou empolgada ‘Melhor que uma lebre, né Ricard?’ E Ricard fez uma careta quando rimos

‘Eu vou ser uma coruja das neves’ Annia falou um pouco orgulhosa, mas o sorriso presunçoso morreu quando Ty começou a imitar uma coruja, arregalando os olhos e correndo em volta dela.

‘Eu sou um macaco’ Chris falou não muito feliz, mas conformado ‘Shannon é uma raposa’

‘Eu sou aquela marmota mesmo, mas espero que com rabo!’ Comentou um pouco preocupado.

Descemos as escadas para o segundo andar rindo da cara que Victor fez e Micah e eu nos separamos da turma. Não tínhamos nenhuma aula naquele tempo e íamos aproveitar para visitar meu avô e perguntar sobre a época em que a avó de Micah dava aulas em Durmstrang. Bati na porta do escritório dele e quando vovô abriu a porta, não parecia surpreso em me ver. Talvez esperasse que eu aparecesse todos os dias, com mais interrogatórios sobre minha irmã.

‘Olá, boa noite’ Ele nos recebeu animado, abrindo espaço para passarmos ‘Boa noite, Sr. Wade’

‘Boa noite, professor’ Micah respondeu sem soltar a minha mão. Ele ainda se sentia um pouco intimidado pelo vovô e eu adorava aquilo.

‘Vovô, hoje não vim aqui lhe perturbar sobre história da nossa família’ Falei enquanto sentava no sofá e vi que ele parecia aliviado ‘Viemos para ouvir sobre a família dele’ E indiquei Micah com a cabeça.

‘Minha avó, senhor. Ela lecionou aqui há mais ou menos 30 anos atrás’ Micah explicou quando vovô fez uma cara de quem não estava entendendo ‘Morgana, era professora de Alquimia’

‘Morgan Zagreb era sua avó?’ Vovô falou espantado, mas riu em seguida, saudoso ‘Não acredito, que mundo pequeno! Nunca poderia imaginar que minha neta fosse namorar o neto de uma das melhores amigas que já tive nessa vida!’

‘Sim, esse era o sobrenome de solteira dela, ela nunca deixou de usar’ Micah se animou um pouco ‘Descobri semana passada que ela dava aulas aqui, mas que saiu de repente. O senhor saber o que aconteceu?’

Vovô vacilou por um instante e trocamos um olhar preocupado, percebendo que havia alguma coisa errada na história da saída dela. Encaramos os dois meu avô e ele se viu sem saída, senão contar a verdade.

‘A essa altura do campeonato vocês já sabem mais do que deveriam sobre a Reis & Sombras, então não é necessário rodeios’ Vovô começou e só de ouvir o nome daquela sociedade, me deu calafrios ‘Morgana descobriu a existência dela, mas não me perguntem como porque eu não sei. Não sei até que ponto ela se envolveu, mas seu pai era vigiado de perto por ela’ E apontou para mim ‘Morgana seguia Josef para todos os lados e de uma hora para outra, o diretor decidiu afasta-la do cargo. Ela nunca chegou a me contar o que aconteceu e depois de um tempo afastada da escola, acabamos perdendo contato. Soube que ela faleceu há 4 anos e isso me abalou muito, pois nunca tive a oportunidade de me despedir, nunca mais conversamos’ Ele lamentou.

‘O diretor da escola na época fazia parte da sociedade?’ Micah perguntou e vovô confirmou com a cabeça ‘Então ele pode ter afastado ela com medo de que denunciasse alguma coisa’

‘Essa idéia me ocorreu, mas não havia nada que pudesse fazer Morgana querer denunciar a sociedade. Antigamente era diferente, não aconteciam essas atrocidades de hoje. O líder da época, Teodoro Schneider, começou com algumas idéias similares as de Grindelwald, e o próprio diretor, Martin Vuzharov, liderou um grupo para tirá-lo do poder. Ele foi banido da sociedade, nunca mais nenhum membro de sua família pode sequer participar das seleções. Era tudo muito organizado e correto’

‘Mas alguma coisa de errado aconteceu, tenho certeza disso’ Micah insistiu.

‘Agora entendo porque você e minha neta gostam tanto um do outro’ Vovô comentou balançando a cabeça e olhamos sem entender ‘São dois cabeças-duras! Filho, eu vou lhe dar um conselho: esqueça isso. É passado, aconteceu muito antes de você sequer sonhar em nascer e se Morgana nunca mencionou sua passagem por Durmstrang, tenho absoluta certeza que tinha seus motivos’ Micah abaixou a cabeça um pouco desanimado e vovô me encarou ‘E o mesmo serve para você, mocinha. Pare de querer bancar a Miss Marple. A morte de sua irmã foi uma fatalidade e fazer nossa família reviver isso, especialmente Madalena e Sofia, é um ato muito cruel’

‘Eu só queria entender o que aconteceu, queria saber mais sobre ela’ Me justifiquei.

‘Já lhe contei o que aconteceu, mas parece que entrou por um ouvido e saiu pelo outro’ Ele brigou comigo ‘Sua mente nesse momento deveria estar ocupada com os N.I.E.M.s, que estão cada dia mais próximos. A mente dos dois’

‘Tudo bem, vovô, não vou mais questionar ninguém sobre minha irmã e Micah também já está satisfeito com o que ouviu da avó’ Olhei para ele e ele concordou com a cabeça, então levantei e o puxei pela mão ‘Já vamos embora, temos ensaio da peça daqui a pouco’

‘Tudo bem, bom ensaio então’ Vovô levantou também e abriu a porta ‘E se concentrem nos estudos, por favor’

Deixamos o escritório dele sem dizer nada e caminhamos de mãos dadas até a entrada do teatro, mas Micah parou de repente antes que pudéssemos entrar.

‘Evie, não estou com cabeça para mexer em iluminação de peça nenhuma hoje. Pode dizer ao professor Ivo que estava me sentindo mal?’

‘O que você vai fazer?’ Perguntei desconfiada ‘Você não ficou satisfeito com o que ouviu, não é?’

‘E você também não vai parar de fazer perguntas até ter todas as respostas que quer sobre a sua irmã, certo?’ Ele me respondeu com outra pergunta e ri ‘Prometo que não vou ser expulso, mas preciso fazer isso’

‘Fazer isso o que?’ Fiquei preocupada

‘Prefiro que você não saiba, vai ser melhor assim’ Ele me olhou quase que implorando que não insistisse.

‘Tudo bem, eu digo a ele’ Ele sorriu aliviado e me beijou ‘Mas cuidado, por favor!’

‘Eu sempre tomo cuidado, meu amor’ Ele respondeu sorrindo maroto e tomou a direção contraria.

Vovô tinha razão em dizer que éramos parecidos. Micah não ia sossegar enquanto não descobrisse exatamente que fatos levaram ao afastamento de sua avó da escola e os motivos que a impediram de contar a ele que havia sido professora aqui.

Sunday, April 19, 2009

‘Quando eu virar a ampulheta, vocês terão 20 minutos para transmutar todos os objetos enfileirados utilizando apenas os processos alquímicos que ensinei’ A professora Kollontai pegou uma ampulheta pequena do armário e colocou em cima da mesa, encarando os grupos ‘Atenção... Valendo!’

Ela virou a ampulheta na mesa e Reno abriu espaço esticando os braços, não nos deixando se aproximar da bancada onde tinha uma fila de 30 objetos diferentes. A turma estava dividida em dois grupos para a gincana de alquimia, garotos x garotas. Reno era o líder do nosso grupo e Annia comandava o time das meninas. Ricard e Ty tentaram ajudá-lo, pois sabiam um pouco mais que eu e os outros, mas Reno faltava dar um ataque de nervos quando alguém tentava sugerir alguma coisa, então cruzei os braços e me limitei a observar, na esperança de entender algo que me ajudasse na prova.

Do outro lado da sala, cada menina estava responsável por um objeto e Annia ia de uma em uma ajudando nas transmutações já em andamento, apenas terminando os processos. Não era nem preciso ser muito esperto para ver que elas iam terminar os 30 objetos anos luz a nossa frente.

‘Acabou!’ A professora pegou a ampulheta da mesa e as meninas ergueram as mãos, se afastando da bancada ‘Reno, levante as mãos, acabou o tempo’

‘Mas falta a finalização, essa ampulheta está errada, não se passaram 20 minutos ainda!’ Ele contestou.

‘A ampulheta está correta, largue a varinha e o estojo’ Ela repetiu e ele ia interromper, mas tossi alto.

‘Quando um burro fala o outro abaixa a orelha’ Comentei perto dele e Chris riu.

‘Me chamou de burra, Sr. Wade?’ A professora perguntou, mas não parecia irritada, e sim achando graça.

‘Não professora, desculpe. É só uma expressão que sempre ouvi da minha avó, não chamei a senhora de burra não’ Me expliquei depressa e todo mundo riu.

‘Ah sim, melhor assim’ Ela sorriu ‘Vamos então a contagem’

Todos agora estavam afastados das bancadas e ela foi primeiro na nossa, contando quantos objetos haviam sido transmutados e analisando a perfeição de cada um. Em seguida foi até a bancada das meninas e depois de alguns minutos olhando um por um, fez uma anotação na prancheta e caminhou até sua mesa.

‘Os meninos transmutaram 17 objetos por completo e as meninas...’ Ela fez um pouco de mistério e já via algumas comemorando ‘As meninas conseguiram 27 transmutações perfeitas. 10 objetos a mais. Vitória delas!’ Todas agora comemoravam e faziam piadinhas debochadas pro nosso lado, enquanto Reno praguejava baixo ‘Como premio, trouxe essas sacolinhas com chocolates de páscoa. Peguem aqui na mesa e podem sair. Sr. Wade, fique mais um pouco, quero falar com o senhor’

‘Ninguém mandou chamar a professora de burra...’ Ty comentou zombeteiro quando passou pela minha mesa

‘Vou esperar você lá fora’ Evie passou e me dei um beijo no rosto, sacudindo a bolsinha com chocolate pra mim.

‘Professora, eu não chamei a senhora de burra, eu juro’ Já cheguei à mesa dela me justificando ‘Era só uma maneira de dizer pro Reno calar a boca, pois já tínhamos perdido’

‘Eu sei, Sr. Wade, não foi por isso que pedi que esperasse’ Ela riu e abriu uma gaveta, tirando um livro velho ‘Disse que sempre ouviu isso de sua avó. Por acaso é essa aqui?’

‘É ela sim, mas bem mais nova’ Confirmei vendo a foto dela na contracapa de um livro de Alquimia, quando devia ter seus 30 anos ‘De onde a conhece?’

‘Morgana foi minha professora de Alquimia aqui em Durmstrang’ Ela respondeu feliz por ter reconhecido minha avó na foto ‘Esse livro foi escrito por ela e peguei emprestado quando ainda era aluna e nunca tive a chance de devolver. Disseram que ela havia sido demitida, mas nunca cheguei a saber se era verdade. Pode fazer isso por mim? E diga a ela que me foi muito útil’

‘Minha avó morreu há 4 anos, professora’ Respondei de cabeça baixa, olhando sua foto no livro

‘Oh Merlin, eu sinto muito, não sabia’ Ela se assustou e sua voz morreu um pouco ‘Como foi isso?’

‘A policia disse que foi suicídio’

‘Morgana jamais cometeria suicídio’ Ela disse ofendida

‘É, foi o que disse a eles, mas não me ouviram’ Dei de ombros, um pouco triste ‘Não sabia que ela havia sido professora aqui. Ela nunca disse nada’

‘Ela foi minha melhor professora. Alquimia sempre esteve no meu sangue, mas não me atraia tanto quanto meu avô queria. Foi sua avó que fez despertar essa paixão toda que hoje eu tenho pela Alquimia’

‘Posso ficar com o livro?’ Perguntei ainda olhando sua foto. Ela era mais nova, mas não mudara quase nada. Era hipnotizante vê-la sorrindo como se fosse pra mim através da foto.

‘Claro! Se era dela, é seu por direito. É um dos melhores livros sobre Alquimia que já foi escrito. Quem sabe não o ajude a passar nos meus exames?’

‘É, vou precisar mesmo de toda ajuda possível’ Ri um pouco mais animado ‘Obrigado’ Agradeci pelo livro e sai da sala. Evie estava sentada na escada comendo um bombom e levantou quando me viu.

‘E ai?’ Perguntou ansiosa ‘Está encrencado ou algo parecido?’

‘Não, ela só queria me dar isso’ E mostrei o livro a ela ‘Queria que devolvesse a minha avó, ela foi sua professora aqui em Durmstrang’

‘Oh meu amor, sinto muito’ Ela percebeu que havia ficado chateado e me abraçou, mexendo no meu cabelo ‘Você sabia que ela tinha dado aula aqui?’

‘Não fazia idéia. Parece que foi a uns 30 anos atrás e saiu da escola de uma hora pra outra, pois ela disse que não teve chance de devolver o livro’ Sorri ao virar o livro e mostrei a foto para ela ‘Olha minha avó, devia ter uns 30 anos aqui’

‘Ela era bonitona!’

‘Lógico que ela é bonitona, de quem você acha que puxei essa beleza toda?’ Falei brincando e ela riu, beijando meu rosto ‘Agora fiquei curioso... Por que ela nunca mencionou que foi professora de alquimia? E por que ela foi demitida?’

‘Isso eu não sei te responder, mas sei de alguém que talvez possa’ Ela comentou sorrindo e como fiz cara de quem não entendeu, ela continuou ‘Meu avô, ora! Ele dá aula aqui há mais de 30 anos, com certeza conheceu sua avó’

‘É verdade, seu avô é quase uma lenda aqui’ E ela riu ‘Mas ele está dando aula agora, depois falamos com ele. Se importa se não acompanhar você na biblioteca agora? Queria ler um pouco do que ela escreveu nesse livro’

‘Tudo bem, não se preocupe. Vá ler o livro da sua avó, nos vemos no almoço’ Ela sorriu e me beijou, subindo em direção a biblioteca. Eu sentei na escada e abri o livro, sem vontade de fazer mais nada senão ler o que talvez fosse o último vestígio de vida da minha avó. Acho que ela nunca imaginou que ia me fazer tanta falta.

Tuesday, April 14, 2009

Numa sala de partos no Hospital Geral de Sofia, pouco antes da Páscoa.

- Você precisa reagir, pode fazer mal ao bebê...- dizia um jovem rapaz, para sua esposa em trabalho de parto.
- Eu não ligo para este bebê. É você que eu quero...Volte para mim...- ela respondia arquejante.
- Força senhora Kovac...- disse o curandeiro obstetra.
Gemidos de dor...Palavras de incentivo...Súplicas...
- Você vai me perdoar? Tudo o que fiz foi por amá-lo demais...
- Irina, faça força, pelo nosso filho, depois falamos sobre isso...Tudo vai ficar bem.
-... Dói demais...Fica comigo Yuri...Faz tanto frio aqui...
A jovem mulher contraiu o rosto de dor e desmaiou. O curandeiro chamou outros e começou uma correria na sala.
- Ela está com hemorragia... Preparar para uma cesárea de emergência.
- O que houve com ela?? Não a deixem morrer...- pediu Yuri.
- Espere lá fora senhor Kovac...Vamos tentar tudo para salvar aos dois...
Ele foi para a sala de espera, e tudo o que podia pensar era em uma esposa que ele não amava como deveria e no pequeno bebê, que ele duvidava ser capaz de lhe despertar algum sentimento além de compaixão.
Alguns minutos depois...
- Infelizmente sua esposa não sobreviveu. Ela estava muito debilitada quando chegou aqui e não conseguimos conter a hemorragia.
- E o bebê?
- A criança apesar de prematura, está bem. É uma menina forte, nem vai precisar ficar na incubadora. - disse o curandeiro e logo uma enfermeira se aproximava com um pequeno embrulho e o apresentou ao jovem.
Instintivamente ele o pegou e olhou para o bebê de rostinho vermelho e enrugado:
- Olá, pequena. Eu sou o seu pai. - O bebê pareceu entender e abriu os olhos e um par de olhos azuis o encarou por breves instantes, e ele sentiu seu estomago se contrair, ante aquele olhar e engoliu seco, enquanto o instinto de proteção falava mais alto em seu peito e ele soube: apesar de tudo ele amava aquele bebê, e faria de tudo para que ela fosse feliz.

o-o-o-o-o-o

Estávamos na aula de Alquimia e a professora Kollontai, após nos ensinar o feitiço de duplicação e mandou cada um de nós utilizar uma fruta para o teste. Eu e meus amigos ríamos de nossas transmutações bizarras, minha maçã estava quase quadrada de tão torta, a de Evie perdeu a cor vermelha no processo e a de Vina, estava um pouco mole. Claro que as frutas de Reno e Annia e Nina estavam perfeitas, e a professora passava de mesa em mesa nos apontando os erros de cálculos no processo. Ela olhava a maçã descorada do Ty, quando ouvimos uma batida na porta e o professor Klasnic, diretor da Mannaz, entrou:
- Desculpe professora Kollontai, por interromper a sua aula, mas é importante. O diretor Ivanovich, solicita a presença do senhor Ivanov e da senhorita Kovac na sala dele. Tragam as suas coisas, por favor.
Olhei para minhas amigas e fiz como era mandada. Logo eu e Luka nos apresentávamos na sala do diretor Ivanovich e o diretor após nos mandar sentar, nos disse o motivo da nossa convocação. Irina havia falecido após dar à luz, e nós iríamos para casa. Senti meus olhos encherem de lágrimas e olhei para Luka. Ele tinha um olhar duro, e estava rígido ao meu lado, sem esboçar reação alguma. Talvez fosse o jeito dele de lidar com a dor.

In the arms of the angel
Fly away from here
From this dark cold hotel room
And the endlessness that you feel
You are pulled from the wreckage
Of your silent reverie
You're in the arms of the angel
Maybe you find some comfort here



Desde o momento que eu e Luka tomamos a chave de portal na sala do diretor e chegamos em casa, não nos falamos mais e por mais frio que Luka parecesse, eu sabia que ele estava sofrendo. Ele e Irina se adoravam, e ficaram mais unidos depois da morte de tia Tânja, a mãe deles, e mesmo que houvesse brigas eles eram irmãos, nada diminuiria este vínculo. O pai dele estava sério e frio, enquanto ouvíamos as palavras do sacerdote e parecia olhar uma parede de vidro quando seu olhar pousava em nós.
Uma garoa fina e persistente caia por sobre nossas cabeças, enquanto estávamos no cemitério. Era o funeral de Irina, e toda a família havia comparecido em peso, e muitos amigos do pai dela vieram prestar suas homenagens, até mesmo Iago mandou uma coroa de flores enorme e uma carta de pêsames.
Eu, meus pais e Yuri estávamos do outro lado do caixão, junto com Morgan, Carlinhos e Nikolai. A única vez que vi o pai de Luka esboçar alguma emoção foi na noite anterior, quando foi até minha casa pedir ao meu irmão que permitisse que Irina fosse enterrada no mausoléu dos Ivanov, ao lado da mãe. Ele estava diferente do homem arrogante e cheio de si, que acha que o dinheiro compra tudo. Talvez ele houvesse percebido que o dinheiro não serviria de muita coisa, enquanto o serviço fúnebre terminava.
Minha mãe chorava baixinho, abraçada ao meu pai que tinha o maxilar travado e Yuri estava sério ao meu lado, segurando minha mão, quando o caixão dela baixou para a sepultura sob uma chuva de pétalas de rosas.
Na hora dos cumprimentos, meus amigos estavam lá, cumprimentaram rapidamente Luka e seu pai e vieram ficar conosco. Max estava junto de Luka e o acompanhou quando eles começaram a sair do cemitério, quando minha mãe chamou o pai dele:
- Ivan, venha até a nossa casa, para conhecer a nossa neta, ainda nem escolhemos o nome da pequenina...- e quando ele se virou para nós, senti um calafrio ante o olhar de desprezo dele.
- Eu não tenho neta, qualquer ligação que eu tinha com a sua família morreu com a minha filha. - e nos deixou pasmos. Até mesmo Luka, o olhou chocado antes de segui-lo. Minha mãe ainda levantou a mão para chamá-lo de volta, mas meu irmão disse, pontuando bem as palavras:
- Vamos para casa, minha filha Elena, deve estar sentindo falta de sua família.
Depois disso, não tocamos mais no nome do pai de Irina. Havia um bebê que precisava de nós muito mais do que ele.

All day long thought that we still had a chance
Letting go, this is the end of romance
Broken hearts find your way
Make it through just this day
Face the world on your own
Life will go on, life will go on


N.Autora: musicas: Life will go on de Chris Isaak e Angel de Sarah McLachlan