Thursday, October 25, 2012

Desde que conheci meus verdadeiros pais pessoalmente, no jantar mais desconfortável da história dos jantares de família, Emma e eu havíamos combinado de trocar de casas por um fim de semana. Enquanto eu ia para Londres passar dois dias com os Blanchard, ela viria para Sofia passar o mesmo tempo com meus pais. O problema é que os alunos de Hogwarts não têm permissão de sair nos finais de semana e quando chegou o dia combinado, ela ficou presa na escola por conta de atividades do curso de auror. A diretora de lá foi solidária a nossa causa, mas infelizmente só poderia liberá-la quando não tivesse aula.

No fim das contas, essa foi a salvação de Emma. Ela conseguiu sair na semana seguinte e como eu tinha ficado sozinha com os Blanchard, achei melhor ficar em Durmstrang para dar aos meus pais mais liberdade de conhecê-la melhor. Ozzy tinha ido para casa com os gêmeos para alguma coisa que não entendi sobre um ritual que eu não me importava e estava sozinha com Robbie e Leo jogando baralho quando meu espelho de duas vias tremeu. O rosto de Mason apareceu no vidro.

- Ei Mason, tudo bem ai? – perguntei animada, mas ele parecia agitado.
- Parv, você tem que vir pra casa – disse sussurrando e olhou para o lado assustado.
- O que houve? Está tudo bem? – larguei as cartas que tinha na mão já começando a me preocupar.
- É a Emma. Ela precisa de ajuda – ele olhou para o outro lado, como se estivesse vigiando para ninguém encontra-lo – Está todo mundo aqui. Eles... Eles olham para ela como se fosse a Alexis.
- Já entendi. Estou indo, volte para a sala e fique com ela – ele assentiu e sua imagem desapareceu. Virei para Leo e Robbie e eles já haviam encerrado a partida – Quem quer dar uma volta em Sofia?

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A casa estava um pandemônio quando abri a porta da sala. Não estava toda a família, mas sem dúvida metade dela estava ali. Não sei como souberam que Emma estaria em Sofia, talvez papai ou mamãe tenham deixado escapar sem querer, mas nenhum deles deveria estar ali. Era para ser um fim de semana só com eles três, e Mason é claro, mas mais ninguém. Emma estava sentada no sofá com uma expressão de pânico no rosto, visivelmente encurralada, enquanto meia dúzia de tias a enchiam de perguntas. Todas, sem exceção, só conseguiam pensar em Alexis quando olhavam para ela. Não precisava nem ter recorrido a minha habilidade para saber disso. Ainda não tinham reparado nas três novas adições da casa, então bati a porta com o máximo de força que consegui. Imediatamente todos pararam a conversa e olharam para nós três.

- Parvati, pensei que tinha dito que ia ficar na escola – papai falou em um tom confuso, mas sua expressão era de alivio.
- Soube que estava tendo uma festa... Ok pessoal, é o seguinte: se você não deu a luz à Emma ou foi responsável pelo espermatozóide, por favor, fora!
- Parvati! – mamãe, uma dama, ficou horrorizada.
- Nenhum de vocês é bem vindo aqui hoje! – continuei, ignorando o choque no rosto dela e meu pai reprimindo uma gargalhada – Não sei como souberam, mas quero que vão embora agora mesmo. Emma não vai a lugar nenhum, ela está presa a vocês para o resto da vida, vocês terão tempo o suficiente para conhecê-la.
- Parvati, essa não foi a educação que sua mãe lhe deu! – tia Helena, que eu detestava, me repreendeu – Não pode chegar aqui e expulsar as pessoas dessa maneira!
- Essa ainda é a minha casa, então posso sim. E adivinha só, você não é realmente minha tia, então não me importo com a sua opinião. Sei que nunca gostou de mim mesmo, então deve estar aliviada – ela tentou parecer afetada, mas já a conhecia bem demais – Não se sinta mal, titia. O sentimento é recíproco.

Papai já estava roxo de tanto esforço que fazia para não rir. Mamãe estava vermelha, não sei se de raiva ou vergonha, mas não me impediu. Rafe, o tio de quem mais gostava, começou a tossir descontrolado quando tentou reprimir a gargalhada e sua esposa, tia Annie, que eu também gostava muito, acertou sua costela com o cotovelo. Tia Helena parecia que tinha chupado limão, mas não falou mais nada e liderou a debandada. Robbie e Leo iam indicando a porta com os braços, como aquelas pessoas que ficam na pista do aeroporto sinalizando para o avião, se certificando que alguém tentasse desviar do caminho.

- Você sabe que sempre vai ser minha sobrinha favorita, não é? – tio Rafe beijou minha testa quando passou, ainda rindo.
- Parvati sempre causando impacto... – tia Annie riu também.
- Faço o que posso – sorri de volta e eles saíram fechando a porta.
- Parvati, pelo amor de Deus... – mamãe ainda parecia chocada, mas me abraçou e deu um longo suspiro – Como você fala assim com as pessoas? Sua própria família!
- Mãe, olha a cara de desespero da Emma! – apontei para a garota ainda acuada no sofá e ela tentou sorrir, mas o sorriso saiu meio psicótico – Ela parece prestes a cometer um suicídio!
- Não pretendia me sufocar com a almofada, mas confesso que o pensamento me ocorreu – ela respondeu tentando relaxar e todo mundo riu.
- Viu? Fiz um favor a vocês. E agora farei outro – estendi a mão para Mason e ele correu para o meu lado – Robbie, Leo e eu vamos levar Mason para tomar um sorvete e depois vamos ao jogo do Levski. Vamos almoçar na rua e voltaremos antes de anoitecer. Aproveitem o tempo!

Foi uma tarde agradável, embora tenhamos passado a maior parte dela em um estádio de futebol. Obviamente eu não era uma entusiasta do esporte, tampouco Leo e Robbie, mas sempre ia aos jogos com papai quando criança e Mason é um fã incondicional do time da cidade, então valia o sacrifício de assistir a 90 minutos de jogo da tribuna de honra. O Levski venceu a partida por 3 x 1 e Mason estava eufórico quando deixamos o estádio, pouco depois das 17h. Nem mesmo a ignorância de Robbie quanto ao nome dos jogadores e as estatísticas dos jogos, algo que ele achava um absurdo um garoto de 17 anos não saber, o incomodavam mais. A alegria dele me lembrava um pouco Adam, meu irmãozinho que havia conhecido na semana passada, e fiquei surpresa por perceber que já sentia falta dele.

Encontramos Emma sozinha na cozinha em uma animada conversa com uma das empregadas quando chegamos. Papai tinha sido chamado para uma emergência no hospital e mamãe já havia saído para seus compromissos políticos, é claro. Maria estava tirando um bolo de cenoura do forno bem na hora e nos acomodamos em volta do balcão para comer.

- Emma, esses são Leo e Robbie, meus melhores amigos de Durmstrang – disse apontando para os dois e Robbie estendeu a mão, entusiasmado.
- Prazer em conhecê-la! Então era você quem seria nossa melhor amiga se não tivesse sido trocada por essa aqui?
- Provavelmente – Emma respondeu rindo e Leo revirou os olhos.
- Não dê ouvidos ao Robbie, seus miolos ainda estão fervendo por conta das estatísticas de jogos que Mason tentou enfiar na cabeça dele – Leo estendeu a mão também, animada.
- É futebol! – Mason falou de boca cheia, mas voltando a ficar indignado – Garotos deveriam entender de futebol!
- Eu não sou um garoto como os outros, Mason – Robbie replicou e apertei seu braço para que não terminasse o que queria dizer.
- Mamãe e papai saírem a muito tempo? – perguntei interrompendo o assunto.
- Não, só uma meia hora.
- Então isso significa que não vão voltar antes das 21h.
- O que fazemos então para passar o tempo?
- Vídeo game! – Mason ergueu os braços animado e rimos.
- Ok então, vídeo game!

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- Robbie, pare de me acertar com esses cascos de tartaruga! – Leo gritou quando seu kart capotou pela 3ª vez na mesma corrida e todos os outros passaram sua frente – AAARGH!
- Eles não são teleguiados, se você está na minha frente, não tenho como mandar que eles desviem! – Robbie se defendeu, mas já estava lançando outro casco na direção de Mason.

Estávamos jogando Wii há quase três horas e o clima estava longe de ser amistoso. Qualquer coisa se transformava em uma disputa acirrada e até um simples jogo de canoagem colocou todo mundo em pé de guerra. Maria chegou a correr até o quarto para saber o motivo de estarmos gritando e pulando desesperados na frente da televisão, o que acabou aliviando um pouco a tensão. Mas a trégua acabou quando trocamos o jogo para Mario Kart. Ninguém é amigo de ninguém quando se é explodido na pista.

- Ok, chega! – Emma largou o controle quando cruzou a linha de chegada em 8º lugar e levantou do chão – Parvati, você tem wi-fi aqui?
- Tem sim, precisa do laptop? O meu está em Durmstrang, mas papai deixa o dele no escritório.
- Não precisa, trouxe meu iPad. São 20h, Adam já está me esperando para conversarmos.

Ela saiu do quarto e imagino que tenha ido até o quarto de hospedes onde estavam suas coisas, porque voltou segundos depois com um iPad na mão. Ainda estávamos jogando, então ela sentou no chão no canto do quarto e começou a mexer na tela. Não demorou muito e ouvi a voz de Adam saindo do aparelho. Ele havia me contado que todo sábado eles conversavam pontualmente às 20h, que era uma hora antes dele ter que ir para a cama. Meu kart caiu na cachoeira pela 4ª vez e abandonei o jogo.

- Oi bubba! – Emma o cumprimentou e aquele devia ser o apelido dele – Estava com saudades!
- Oi mana! Também estava com saudades, quando você volta pra casa?
- Logo, logo, bubba. Ainda tenho algumas semanas em Hogwarts, mas vamos nos ver no fim do mês na minha formatura, lembra?
- Eu vou conhecer Hogwarts! – ele falou animado e ri. A partida tinha encerrado e agora todo mundo prestava atenção na conversa.
- Isso mesmo, você vai conhecer sua futura escola. 
- Você está em Hogwarts, mana?
- Não, lembra que eu falei que ia passar o fim de semana com os Karev quando nos falamos semana passada?
- Quando a Parvati veio aqui! Ela é legal, eu gosto dela. Você está com ela? Quando ela vai voltar aqui? Ela também é minha irmã! – Adam era um tagarela, conseguia fazer mais perguntas que Mason.
- Eu sei que ela também é sua irmã – Emma estava rindo sem parar – Ela está aqui sim, dá oi pra ela – e virou o iPad na minha direção.
- Oi Adam! – acenei para ele e tinha um sorriso imenso estampado no rosto dele quando acenou de volta.
- Oi outra mana! Quando você vem aqui de novo? Estou com saudades!
- Também estou com saudade de você, baixinho, mas não sei quando vou poder ir até ai. Acho que só nas férias.
- Falta muito pras férias? – ele perguntou confuso e Emma revirou os olhos.
- Três semanas, bubba. Olhe o calendário atrás da sua porta.
- Ah é mesmo! – ele bateu na testa e ri – Tem mais gente ai?
- Tem sim – Emma virou o iPad para o outro lado do quarto e Robbie, Leo e Mason se espremeram na frente da tela, acenando – Esses são Robbie e Leo, amigos da Parvati, e Mason, nosso primo.
- Oi todo mundo! – Adam acenou de volta mais animado que antes – Mason, você joga fruit ninja?
- Sim, quer jogar? – Mason levantou empolgado – Nunca tenho ninguém pra disputar!
- Mana, você empresta seu iPad pra ele jogar comigo?
- Poxa, já está me dispensando? – Emma fingiu estar desapontada, mas não conseguia ficar séria – Tudo bem... Podem jogar, mas só meia hora. Sabe mexer, Mason?
- Sei sim, papai me deixa jogar no dele – ele respondeu pegando o iPad com ela e sentando no canto do quarto.

Em questão de segundos Mason estava completamente abduzido pelo jogo e não ouvia nem via mais nada que acontecia fora da tela do iPad. Robbie desligou o vídeo game, já havíamos brigado o suficiente para uma tarde, e passamos o resto do tempo conversando. Emma ainda tinha muitas perguntas sobre a família e ia explicando um pouco sobre cada um através de um álbum de fotos que tinha no quarto. Quando passei pela página onde só tinham fotos minhas de Alexis, Jack e Julie, a expressão no rosto dela mudou.

- Foi ele que...? – perguntou com a mão em cima de uma foto de Jack fazendo um boneco de neve.
- É. Ele era irmão gêmeo dela, Julie – respondi apontando para a foto ao lado, onde Julie e Alexis decoravam o boneco de neve dele com um uniforme de Durmstrang.
- Não a conheci ainda. Eu acho.
- Não, Julie não estava aqui hoje. Vai conhecê-la nas férias, não se preocupe.
- Ela assusta, mas não morde – Robbie acrescentou e rimos.
- Preciso me preocupar? – ela perguntou receosa
- Não tem motivo para se preocupar, Julie é uma ótima pessoa – Leo respondeu depressa – Ela só é esquentada, mais séria, mas é muito legal.
- Ela parece bem feliz na foto.
- Ela era menos durona antes do Jack morrer, passamos alguns meses sem nos falarmos, mas já está tudo bem – respondi olhando para a foto outra vez – Sempre tivemos um relacionamento meio conturbado, mas ela é uma das pessoas em quem mais confio. Você vai gostar dela.
- Ela também vai me olhar como se eu fosse ela? – perguntou apontando para uma foto de Alexis e notei que seu tom de voz era triste.
- Não, ela já viu sua foto, já sabe que são parecidas, não vai olhar espantada.
- Nós não somos parecidas, somos iguais. Não me entenda mal, eu sinto muito não ter podido conhecê-la, mas queria que não fosse um clone dela.
- Tem um jeito... – Robbie deu um sorriso que dizia claramente que tinha uma idéia genial – Quer mesmo que ninguém mais pense que é igual a Alexis?
- Sim, quero.
- Então deixa comigo.

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- Então? – Emma levantou da cadeira um pouco receosa e Robbie estendeu a mão a ela, fazendo-a dar uma volta – Como ficou?

Levantei do sofá e meu queixo devia estar caído, porque não conseguia me expressar direito. Depois que Robbie disse que tinha um plano, pedi ao meu motorista que nos levasse até o centro da cidade. O destino? Um salão de beleza. Robbie deu a ideia de Emma radicalizar e mudar totalmente o visual. Achei que ela não ia topar, ela parecia o tipo tímido, que não arriscava demais, mas não poderia estar mais enganada. Ela topou o desafio e deu liberdade a Pierre para fazer o que quisesse. O resultado foi seus cabelos reduzidos a quase nada – estavam acima do ombro – uma nova coloração que os deixou castanho escuro e mechas vermelhas para todo lado. Era uma pessoa completamente diferente.

- Você está linda, Emma! – Mason foi quem falou primeiro e ela abriu um sorriso aliviado.
- Obrigada, Mason. Ficou bom mesmo?
- Ficou ótimo – consegui dizer finalmente – Emilia e Nikolaj vão levar um susto quando falar com Adam pelo Skype semana que vem!
- É, vai ser um choque, mas eu adorei – ela riu – Nunca tive coragem de fazer nada desse tipo.
- Você só precisava do incentivo certo – Leo falou e concordamos.
- Você sentou naquela cadeira como um clone da Alexis, mas levantou como Emma Blanchard – Robbie completou.
- Nesse caso, prazer em conhecê-la, Emma! – disse animada e ela se olhou no espelho mais uma vez.

É, ela definitivamente não parecia mais Alexis. 

Friday, August 31, 2012

- Pessoal, silêncio, por favor! – disse em voz alta ficando de pé, mas fui ignorada – Pessoal!

Um elástico passou zunindo na minha orelha esquerda e bateu na parede. Olhei incrédula na direção do autor do ataque e Mitchell deu de ombros rindo, atirando outro na direção de Yanic. Estávamos na sala de reuniões do grêmio e deveríamos estar tendo uma reunião sobre a formatura, que seria em menos de um mês, mas o que acontecia ali era uma bagunça generalizada. Não sei o que a turma do 7º ano bebeu hoje, mas estavam todos agindo como retardados. Todos mesmo, até Leo e Robbie. Nossa reunião virou um campo de batalha e elásticos e bolinhas de papel, secas e molhadas, voavam de um lado para o outro da mesa retangular. Era difícil dizer quem era o pior, mas Ozzy sem dúvida estava no páreo. Quando uma bolinha de cuspe acertou a pasta que eu segurava contra o peito, subi em cima da mesa.

- SILENCIO! – gritei o máximo que pude e todos pararam com os elásticos e bolinhas de papel na mão – O que deu em vocês hoje?
- O Dr. Pace disse que temos que relaxar um pouco e nos divertir, ou vamos pirar com a pressão das provas – Alec argumentou e os outros assentiram – Não prestou atenção na palestra?
- Mas será que podemos pelo menos terminar a reunião e depois levar a guerra infantil para o lado de fora?
- Ok, ok, ela está certa, pessoal – Ozzy me apoiou e os outros vaiaram, mas estavam rindo – Continuamos isso depois. O que tem na pauta?
- Obrigada! – disse descendo da mesa e abrindo a pasta – Formatura. Tema. Comecem a dar ideias.

Todos abriram suas pastas e com bem menos empolgação que a guerra de antes, começamos a trabalhar.

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- Antes de encerrarmos, não se esqueçam que as inscrições para a Caça ao Tesouro Anual dos Veteranos acabam amanhã – disse recolhendo minhas coisas – As duplas que não se inscreverem não vão mais poder participar, o diretor deixou isso bem claro.

Todos assentiram animados e começamos a deixar a sala de volta ao jardim. A reunião não foi o que posso chamar de produtiva, mas surgiram algumas boas idéias. O tema da nossa formatura seria os Anos 40 e os formandos deveriam estar a caráter. Toda a decoração do salão seria inspirada nos clubes da época.

A turma ainda estava agitada, assim que deixamos a sala saíram correndo pelo gramado atirando aqueles elásticos uns nos outros como se tivessem voltado aos 11 anos, mas dessa vez Ozzy não se juntou a eles e caminhava de mãos dadas comigo, apenas rindo da bagunça.

- Vai se inscrever na Caça ao Tesouro? – perguntei enquanto contornávamos o campo de batalha para fugir dos tiros.
- Sobre isso... Ainda no 1º ano Lucian e eu combinamos de competir juntos quando chegasse a nossa vez. Tudo bem pra você se eu fizer dupla com ele? Se quiser que corra com você eu converso com ele, tenho certeza que vai entender.
- Pode correr com ele, não me importo. Não estava pensando em me inscrever de qualquer forma.
- Por que não? A corrida é divertida. Até a Leo vai competir, Mitchell disse que eles já se inscreveram.
- Leo está apaixonada, topa qualquer besteira.
- Ah, isso quer dizer que não temos nada sério? – olhei feio para ele e ele riu.
- Não consigo me imaginar cumprindo aquelas tarefas malucas e sem sentido. É engraçado ver os outros competindo, mas acho idiota demais participar – ele riu e percebi o que tinha dito – Não estou chamando você de idiota! É só que... – e ele me cortou com um beijo.
- Eu entendi, não precisa se desculpar. A corrida é mesmo idiota, mas esse é o objetivo.
- Estarei torcendo por vocês do lado de fora – disse devolvendo o beijo e ele me puxou para junto dele – Nem começa ou vamos nos atrasar para a última aula do curso.

Toda a turma já estava acomodada na sala quando Mitchell, Ozzy e eu chegamos. Os professores Wade e O’Shea estavam de pé na frente de todos, assim como o Dr. Pace, o que não era muito normal. Ele nunca participava das aulas, salvo quando precisava dar algum aviso importante sobre as próximas atividades. Ocupamos nossos lugares e percebi que tinha uma goles em cima da mesa, mas antes que tivesse a chance de perguntar, eles começaram a falar.

- Boa noite a todos – o professor Wade era quem sempre começava – Antes de começarmos nossa última aula, quem ainda não entregou o formulário de inscrição para as bolsas ou quem ainda nem pegou o formulário, é a última chance – e apontou para a pilha de folhas em cima da mesa – Vamos dar alguns minutos para os atrasados.
- Já entregaram os seus? – perguntei para Mitchell e Oleg.
- Já devolvi o meu tem algum tempo, não me inscrevi para nenhuma bolsa – Mitchell respondeu – O curso foi legal, mas descobri que ser auror não é o que quero.
- Eu já preenchi o meu, entreguei semana passada – Oleg disse orgulhoso por não ter perdido o prazo pela primeira vez na vida – Minha primeira opção é Londres, mas marquei Califórnia como segunda.
- O que? Vai sair da Bulgária? – Ozzy se espantou – Vai nos abandonar? Abandonar seu irmão gêmeo?
- Acho que já está na hora de Alec e eu seguirmos caminhos separados. Vou sentir falta do dia-a-dia, mas vamos sobreviver.
- Ah cara, não gostei. Achei que seriamos colegas de turma na Academia também – Ozzy resmungou e passei a mão em seu cabelo tentando confortá-lo, isso sempre funcionava.
- Você também vai sobreviver, irmão. E não é como se eu tivesse me mudando de vez, vou voltar quando me formar. Três anos passam voando.
- Ok, mais alguém? – o professor Wade perguntou juntando os formulários, mas ninguém mais se manifestou – Ótimo, vamos dar inicio a aula de encerramento. Todos para o campo de Quadribol, por favor.

Seguimos os três até o campo vendo o professor Wade atirar a goles para o alto e pegá-la de volta por todo o caminho e já estava imaginando que eles iam encerrar o curso com mais um daqueles exercícios que nos deixavam esgotados, mas quando chegamos lá tudo que vi foi o campo coberto de lama. Esses últimos dias foram de muita chuva e todo o terreno da escola havia se transformado em um pântano, o campo não seria uma exceção. Ele atirou a goles pra cima do nosso grupo e Oleg a agarrou.

- Dividam-se em dois times, hoje nós vamos jogar trancabola – ele disse animado e percebi que ele e a professora O’Shea estavam incluídos no “nós”.
- Na lama? – Lucy, uma das meninas da turma, perguntou incerta.
- A proposta da última aula é se divertir. Vocês tiveram um ano puxado e precisam relaxar – Shannon explicou – Sempre encerramos nosso curso com uma atividade desse tipo.
- Ok, mas na lama? – ela insistiu e alguns riram.
- Vamos lá, seus molengas. Estão com medo de um pouco de sujeira? – ela tomou a goles da mão de Oleg e pisou na poça – Quem vem para o meu time? – e alguns alunos deram de ombros e já começaram a se mexer.
- Não vou me atirar na lama – disse cruzando os braços e antes que pudessem começar a protestar, emendei – A menos que o Dr. Pace jogue também.
- É, isso mesmo! – Ozzy falou animado e todos os alunos apoiaram – Também só jogo se ele jogar.
- Ah qual é, eu estou de terno! – ele protestou, mas Micah riu.
- Eles têm razão, Martin. Não pode ficar aqui simplesmente olhando...
- Pode tirar esse blazer, doutor! – Mitchell encheu a mão de lama e fez uma bola – Ou precisa de um incentivo?
- Ok, ok, sem ameaças, eu jogo! – ele disse já tirando o blazer e a gravata e aplaudimos – Vou mandar essa blusa para vocês lavarem depois.

Os professores dividiram os times e o Dr. Pace acabou no time de Shannon, o que resultou em Micah correndo atrás dele o tempo inteiro como quem estava caçando um porco. Foi muito divertido ver o nosso psicólogo, sempre tão sério, sendo derrubado de cara na lama a cada dez passos que dava. Também levei muitos tombos e mal toquei na goles, estava imunda quando a partida terminou e não fazia ideia de quem tinha vencido, mas tinha valido a pena. Não conseguia me lembrar da última vez que dei tanta risada assim em tão pouco tempo.

- Ok pessoal, reúnam aqui – Shannon pediu para nos juntarmos e sentamos no gramado enlameado, formando um circulo em volta deles.
- Como Shannon disse antes, sempre gostamos de encerrar o curso com uma atividade divertida, para descontrair – Micah começou a falar - Sei que sempre exigimos muito de vocês, muitas vezes mais do que vocês podem oferecer, e sei que em muitos momentos vocês nos odiaram por isso, mas daqui a alguns anos, quando vocês forem aurores formados e precisarem lidar com uma situação de estresse extremo, vão se lembrar dessas aulas e nos agradecer.
- E mesmo aqueles que descobriram que não querem seguir essa carreira – Shannon continuou – O que quer que vocês escolham fazer, o que vocês aprenderam aqui se aplica em qualquer profissão.
- Meu trabalho com vocês foi menos exaustivo, mas nem por isso menos estressante – Dr. Pace falou e lançou um olhar divertido para Ozzy e eu – Hoje, depois de 10 meses acompanhando cada um de vocês, posso dizer que todos mudaram. Podem parecer que ainda são as mesmas pessoas que conheci em setembro, mas todos vocês amadureceram de uma forma ou de outra e sinto muito orgulho de ter ajudado nisso.
- Desejamos toda a sorte do mundo a todos vocês, independente da carreira que decidam seguir, e sempre que precisarem, podem contar conosco.
- Parabéns, vocês conseguiram! – Shannon completou sorrindo e os três nos aplaudiram.

Ficamos de pé aplaudindo também e os professores nos cumprimentaram um a um, e também cumprimentávamos uns aos outros. Havia sido um ano difícil, para alguns mais que os outros, mas todos tiveram seus altos e baixos. O trabalho que fizemos no curso, embora não percebêssemos no inicio, foi o que nos ajudou a superar os problemas. Eram três horas semanais onde todo o estresse acumulado era liberado e tínhamos sempre alguém ao nosso lado para ajudar a suportar o peso, além do Dr. Pace, que estava sempre lá para nos ouvir.

Enquanto abraçava e conversava com meus colegas de escola e futuros colegas de profissão, não pude deixar de ouvir o que se passava na cabeça deles. Lucy havia se candidatado a uma bolsa na Academia de Paris, para poder ficar perto do pai com quem tinha pouco contado; Mitchell já estava contratado para jogar como batedor pelos Abutres de Vratsa na próxima temporada; Axl e Sergei haviam se inscrito para a bolsa na Suécia e esperavam entrar para os Bruxos de Elite; Marcus também não ia seguir a carreira de Auror e tinha planos de se tornar um preparador de poções; Oleg estava animado com a possibilidade de sair de sua zona de conforto e passar os três anos de Academia longe de casa; e Ozzy e eu estávamos inscritos na bolsa da Academia da Bulgária mesmo, embora eu tenha marcado França como segunda opção e não contado a ele.

Cada um tinha um plano diferente para o que fazer depois da formatura, o que não sabíamos ainda era que nem todos eles seriam concretizados. Alguns se tornariam difíceis e seriam substituídos por outros mais ao alcance; outros seriam interrompidos de forma brusca; alguns não se mostrariam tão bons assim depois de um tempo; e outros dariam tão certo que as mudanças viriam naturalmente, como o plano de Oleg, que uma vez que partisse para se tornar um Auror, nunca mais voltaria para casa.  

Nem tudo sai como o planejado, mas se eu tinha aprendido alguma coisa naquele ano, é que às vezes o inesperado é melhor do que o plano original.

Monday, July 02, 2012

- Por que essa letra está em negrito? – Lenneth perguntou, levantando a sobrancelha.
- Onde? – Eu perguntei. Eu, Robbie e Alec nos debruçamos no exemplar que ela lia e vimos onde ela apontava.
Havia uma letra em negrito, um “N”, no meio do texto, sem motivo algum. Aquilo me deixou com uma pulga atrás da orelha e todos meus instintos diziam que aquilo significava algo.
Eram umas 10 da noite de sexta-feira e tínhamos nos reunido na sala do jornal para tentar descobrir algo sobre Antaris e o jornal clandestino. Estávamos a dois dias varrendo todos os exemplares do Aurora Boreal que tínhamos a procura de algo que pudesse nos ajudar a encontrar quem o editava. Até agora não tínhamos tido nenhum sucesso... Em todas as edições encontramos aquelas palavras cruzadas e todas tinham a mesma palavra-chave: “Cinturão de Orion”. Aquilo soava muito estranho e nossas suspeitas contra Orion ficavam cada vez maiores. Mas eu não conseguia, não queria acreditar, que era o Orion... Eu lembrei então da mitologia entre as constelações de Orion e Escorpião: segundo a lenda, o Escorpião havia sido mandado por Apolo para matar o caçador Orion, o único mortal por quem a deusa Artemis fora apaixonada. Mas Artemis tentou salvá-lo e disparou uma flecha contra o Escorpião, mas devido à influência de Apolo, errou o tiro e acertou Orion. Zeus então transformou Orion e Escorpião em constelações e os dois estão eternamente em perseguição no céu, sempre em lados opostos do céu. Quando contei essa história para Robbie, ele achou Orion ainda mais suspeito, pois Antaris é o nome da maior estrela da constelação de Escorpião e para ele, isso era um sinal de que Orion queria que não fizéssemos a ligação entre os nomes.
- Isso é muito estranho! – Robbie falou e vi que os instintos dele piscavam como os meus. Ele então deu um berro e todos saltamos sobressaltados. – Ali também tem!
- Nessa edição também! – Alec falou abrindo outro exemplar.
Começamos a foliar todas as edições, desde que o tal Antaris tinha dito que quem quisesse poderia publicar no jornal dele. Em todas haviam letras soltas em negrito, no meio de textos, no meio de tiras (de muito mal gosto...), no meio de títulos, até mesmo nas palavras cruzadas.
- Como deixamos isso passar? Deve ser alguma mensagem! – Robbie falou animado e eu concordei.
- Acho que ficamos tão concentrados nas palavras cruzadas que não percebemos isso... Precisamos descobrir o que significam! – Eu falei.
- Eu tenho uma idéia. – Lenneth falou e pegou uma folha em branco. Ela começou a anotar todas as letras em negrito da edição que estava em suas mãos, na ordem que apareciam ao longo do jornal. Assim que percebemos sua idéia, cada um pegou umas 3 edições e começou a fazer o mesmo.
Quando terminamos, juntamos todos os papeis. Meu coração pulava acelerado, pois eu sabia que aquilo me levaria para responsável pelo jornal. Mas foi decepcionante quando vimos que as letras não faziam sentido algum.
- Droga! Estávamos tão perto! – Eu falei, exasperado e me joguei na cadeira. Lenneth segurou minha mão e me beijou nos lábios. Como eu amo essa garota! Só aquilo foi suficiente para me ajudar e me animar. Como pude ficar tanto tempo longe dela?
- Ei pombinhos? – Robbie bateu no nosso ombro, fazendo uma voz idêntica a da Senhora Mesic e começamos a rir. – Aqui não é lugar! Temos um mistério para resolver!
- Alguma idéia? – Eu perguntei e foi Alec que respondeu. Ele estava sério e encarava as letras atenção.
- Deve ter alguma palavra ou frase escondida nessas letras. Precisamos descobrir o que...
- Mas como? – Lenneth perguntou. – Existem bilhões de possibilidades!
- Vamos tentar na sorte? – Robbie perguntou. – Vejam só, as letras do primeiro exemplar parecem formar “Estátua do Jardim”.
- Será que era para lá que deveriam levar as matérias? – Lenneth perguntou animada, mas logo bufou. – São muitas edições... Precisamos descobrir um padrão, deve existir!
- Eu tenho uma ideia! – Falei e liguei meu computador, já iniciando um programa de conversação com Ayala. Os segundos que ele demorou a responder minha chamada pareciam levar uma eternidade para passar.
- Fala mala, o que você quer? – Ele falou e eu sorri. Ayala sempre me chamava de “mala” e eu sempre o chamava de “chato”. Então ele viu todo mundo amontoado e sorriu. – Oi gente! Lenneth, ainda com ele?
- Sempre! – Ela falou rindo e ele deu de ombros, suspirando.
- Mas para ter tanta gente aí só pode significar problemas... O que você fez? – Ele perguntou, me olhando sério.
- Como se fosse eu que fizesse besteira... – Falei rindo e ele sorriu. – Você poderia fazer um favor pra mim?
- Estou ficando curioso... Odeio quando faz isso.  – Ele falou e eu gargalhei.
- Se lembra daquele cara que roubou meus textos?
- Sim, descobriu algo?
- Quase... Descobrimos que nos jornais que ele publica tem dezenas de letras em negrito. Parecem não fazer sentido, mas achamos que podem esconder alguma pista.
- Hummm... Como quem é ou onde eles publicam... – Ele falou pensativo e eu concordei. – Você tem as letras aí?
- Sim, só que são muitas. As letras mudam de edição para edição, mas parecem ter algum padrão. – Robbie explicou e Ayala assentiu. Pude ver que ele já começava a abrir milhares de programas ao mesmo tempo e ficava concentrado.
- Escaneie tudo e me manda. Vou ver o que posso fazer. – Ele respondeu.
- Sabia que conseguiria! – Eu falei e ele assentiu, desligando a conversa.
- Escanear? – Alec perguntou e eu ri.
- Vem que eu te explico...
O resto da noite passou enquanto nos divertíamos ensinando Alec a usar o escâner. Depois das primeiras tentativas, ele começou a fazer sozinho e achou uma invenção maravilhosa! Depois mandei tudo em um e-mail para o Ayala e só nos restava esperar. Mesmo assim, cada um pegou uma folha com as letras embaralhadas e se propôs a pensar no assunto.
- Acho que devia levantar nossas suspeitas quanto ao Orion. – Lenneth falou, enquanto voltávamos andando de mãos dadas para a Avalon.
- Não sei, Lenneth. Se fizermos isso, ele vai ficar mais cauteloso. E os professores suspeitam disso, mas eu não consigo acreditar que seja ele.
- Por que? Poderia ser qualquer um.
- Não quero acreditar que seja ele. Ele é chato, eu sei, teimoso e muito inconveniente, mas sempre me ajudou e apoiou.
- Lu, eu acho que você está confiando demais nele. Ele não é isso tudo que você imagina.
- Por que diz isso? – Eu perguntei e parei, fazendo-a olhar para mim. Vi que ela ficou meio sem jeito. – Lenneth, você sabe de algo que eu não sei?
- Sim. – Ela falou suspirando e eu a olhei sério. Ela então finalmente decidiu falar. – Olha, eu não te falei nada porque não queria me meter na sua amizade e não queria te ver brigando com ele.
- Mas? – Eu falei e ela assentiu.
- Mas não gosto dele. Não consigo confiar nele.
- E? – Eu sabia que tinha mais.
- Na época que terminei com Patrick e ele ficou me perseguindo, vi o Orion falando várias vezes com ele. Parecia como se ele estivesse incentivando Patrick a tentar algo comigo... – Eu comecei a sentir a raiva subindo pelo meu peito, mas deixei ela continuar falando. – E pouco tempo depois que começamos a namorar, o Orion veio com uma história para mim.
- Que história?
- Ele queria que eu ficasse com ele. – Ela falou e eu bufei de raiva, mas ela segurou minha mão. – Quando eu falei que nunca faria isso, tentei ir embora, mas ele segurou meu braço e falou que você não precisava e nunca saberia. Eu dei um tapa na cara dele e sai dali.
- Por isso que nunca mais falou com ele.
- Exatamente. Lu, presta atenção... Tudo indica que poderia ser ele. Ele sempre fez as coisas que você fazia, parece te seguir como uma sombra, parece querer ser você! Isso é obseção!
- Mas daí roubar e criar um jornal clandestino?! – Eu falei. Estava furioso, mas tudo ainda parecia surreal demais para mim. – E se fingir de meu amigo?!
- Ele é falso, Lu. Ele quer que a gente o subestime e é isso que você está fazendo.
- Tudo bem... Vou conversar com o diretor sobre isso. Precisamos investigá-lo.
- Prometa-me que não vai brigar com ele. Lu, me prometa. – Ela falou enérgica. Eu engoli a raiva e assenti. – É melhor esquecermos tudo dele. Ele quer a nossa atenção, não podemos dá-la a ele.
Eu concordei, ainda irritado, mas achei melhor não deixar ela perceber isso. Ela me beijou longamente e a abracei com força. Queria que passássemos a noite juntos, mas não daria hoje pois já estava tarde para ir para o vilarejo e acordaríamos cedo no dia seguinte. Então a deixei na Avalon e fui para a Kratos, pensando em tudo que ela dissera.
Entrei calado na República, pois não queria falar com ninguém, principalmente com Orion, mas estranhei, pois ele não estava lá. Aquilo me deixou intrigado, mas resolvi deixar para conversar com o diretor no dia seguinte.
Abri meu notebook e vi que tinha um e-mail novo. Meu coração acelerou, pois era um e-mail de Ayala.

“Tentei te ligar, mas você não atendia, então mandei por e-mail. Achei que seria um desafio maior, mas as palavras são simples. São nomes de lugares! E existe um certo padrão. São sempre oito lugares e é feito uma espécie de rodízio entre eles. Para pessoas que já conheçam todos os lugares, basta saber a primeira letra e não precisa identificar o resto. E é sempre a primeira letra em negrito! Estou te mandando a lista completa.”

Ele me mandou um arquivo com a lista de palavras e todas formavam palavras simples, como Masmorra, Porão Nº65, Chafariz Rua A.... Eram todos lugares do Castelo ou dos arredores e como Ayala disse, todas tinham a primeira letra diferente... Corri os olhos para o final da lista, o exemplar de hoje de manhã e li “Fundos da Biblioteca Vilarejo”.
Aquilo fez a adrenalina fluir rapidamente pelo meu corpo.
Sai correndo da República e não avisei ninguém. Minha mente me dizia que era perigoso e devia avisar a alguém onde eu estava indo, mas não queria perder tempo. Queria descobrir o que pudesse e tinha que ser hoje.
O vilarejo já estava vazio, pois já era quase meia-noite, e o único grande movimento era da boate dos pais do Ozzy. Encontrei a biblioteca rapidamente e fui até os fundos dela, mas não encontrei nada demais. Estava quase indo embora frustrado quando um brilho azul chamou minha atenção. Eram três estrelas que brilhavam atrás das latas de lixo, no formato do Cinturão de Orion. Fui até elas lentamente e quando cheguei perto, toquei-as com a varinha. Uma porta escondida no chão deslizou e vi uma escada que mergulhava para as profundezas da terra. O caminho era antigo e apenas as luzes de tocha iluminavam os degraus.
Ignorei toda a cautela e desci os degraus lentamente, a varinha em punho, mas apagada. De início não ouvia nada, apenas meus passos que ecoavam nas paredes. Parei uns segundos e os enfeiticei para não emitirem som e continuei descendo. Então comecei a ouvir um barulho estranho. Pareciam gargalhadas, mas ao fundo ouvia também o som de chicote e espadas. Todo o meu ser gritava para sair de lá, mas queria ir até o final.
Os degraus acabaram de repente e me vi em um corredor escuro. Havia luz apenas em seu final, quando ele fazia uma curva para direita e fui até lá lentamente. Os sons estavam ficando cada vez mais altos e claramente podia ouvir o baque de espada contra espada.
Me arrisquei e olhei para a curva iluminada e meus olhos ficaram arregalados.
Era uma sala oval, iluminada por archotes verdes. A sala era quase do tamanho da biblioteca do Castelo, organizada como se fosse uma arquibancada. Nesses assentos haviam em torno de uns 30 homens encapuzados e com longas capas pretas. No meio disso tudo havia uma espécie de arena com um palanque onde três pessoas estavam sentadas. Uma delas, que parecia mais jovem que as demais, estava na ponta do palanque observando quatro garotos que lutavam com as espadas. Esses garotos usavam uma máscara branca sem expressão no rosto e calças brancas, como de escravos, sem camisa ou proteção para os golpes de espadas. Os encapuzados riam sempre que um dos garotos perdia o equilíbrio ou errava um golpe, mas ninguém ria mais do que o jovem na ponta do palanque. Eu vi então ele pegar um chicote e bater nas costas de um garoto que se aproximou dele e esse garoto caiu no chão, sendo chutado por outro dos lutadores. A audiência começou a gargalhar e eu me afastei horrorizado.
Subi correndo os degraus decidido a encontrar os aurores e o diretor. Aquilo era loucura!
No meio da escada ouvi gritos rudes a minhas costas e pessoas correndo. Percebi que eles me perseguiam e acelerei o passo.
Saltei para a noite estrelada e corri para longe da biblioteca. Sabia que meus perseguidores estavam perto de mim, então precisava me esconder rapidamente. Mas não havia para onde fugir.
De repente esbarrei em alguém e me assustei, mas vi quando o segurança da boate dos pais do Ozzy sorria para mim e me ajudava a me levantar. Um dos irmãos mais velhos do Ozzy me olhou curioso.
- Lucian? O que faz aqui a essa hora? Dando umas voltas com a Lenneth?
- Ramón, preciso de sua ajuda! Tem alguém atrás de mim!
Ele não perguntou nada, mas ficou sério e olhou ao nosso redor. Ele me ajudou a entrar rapidamente na boate, enquanto os seguranças nos envolviam e olhavam tudo ao redor.

***************************************
Eu contei ao Tio Oscar o que tinha acontecido e ele assumiu um semblante sério e preocupado e só me deixou sair da boate uma meia hora depois. Ele em pessoa me acompanhou, além de outros três seguranças e Ramón. Era de madrugada já, mas mesmo assim fomos direto para o Castelo. Tio Oscar falou o que tinha acontecido a um professor que fazia sua ronda e nos levaram para o quarto do diretor. Contei então tudo que tinha acontecido e vi o semblante de Ivanovich ficando cada vez mais fechado.
Tio Oscar só foi embora quando me deixou na República e deixou dois seguranças na porta da Kratos, por precaução. Ozzy ficou preocupado quando me viu chegar tão tarde e contei tudo para ele.
Foi uma noite difícil... Não conseguia dormir, nervoso. E as cenas que eu vira se repetiam na minha cabeça. Mas era eu o chicoteado...
Acordei na manhã seguinte me sentindo dolorido da noite mal dormida. A maioria dos garotos já tinha acordado, mas Alec, Oleg e Ozzy me esperavam. Lenneth estava com eles e ela me abraçou chorando, enquanto brigava pelo que eu tinha feito. Tentei acalmá-la, mas ela chorava descontroladamente e me abraçava com força. Pelo olhar sério de todos soube que tinha acontecido algo.
- O que houve?
- Deixaram isso embaixo da nossa porta. Não sabemos como. – Oleg respondeu e me entregou um papel. Ele estava escrito em letras em negrito. Enquanto eu lia, senti um nó no estômago e abracei Lenneth com mais força.

“Sei que foi você que nos espionou, Lucian Valesti.
Você não faz idéia de onde está se metendo. Vou lhe dar um conselho de amigo, de autor para autor: nunca mais tente ver nossas reuniões. Nunca mais tente descobrir quem eu sou ou o que fazemos. Para seu próprio bem e de todos que você gosta. Até agora eu não fiz nada com você, mas continue e irei atrás de você, de seu irmão, de sua namorada, de seus amigos.
Você foi avisado.
Esse é meu primeiro e último aviso. Você vai se arrepender se continuar.
Antaris.”

Sunday, July 01, 2012

Voltei para casa o mais rápido possível, quando cheguei Mitchell  estava no telefone e parecia aflito:
- Ela acabou de chegar, Robbie...Sim, eu digo, desculpe incomodar vocês..Até breve, cara. Aonde você foi? Fiquei preocupado.- disse se aproximando de mim e eu o abracei. Ele tentou se soltar mas eu o segurei um pouco mais,afundando a cabeça em seu peito.
- Você foi ver a sua mãe biológica?- ele perguntou e eu fiz que sim, sem levantar a cabeça.- ficamos abraçados por um tempo e quando eu estava pronta, me soltei:
- Fui ver Sasha, contei a ela que ela é minha mãe, mas ela não acreditou em mim, acha que posso estar fazendo isso para provocar os meus pais...
- Mas você tem pistas sólidas,o diário de sua avó é detalhista, e só bastaria um exame de DNA para confirmar tudo...- ele disse exasperado e eu respondi:
- Sabe, eu acho que ela escolheu não acreditar, e sinceramente? Não posso culpa-la. – ele abriu a boca para protestar, mas eu o calei dizendo:
- Coloque-se no lugar dela: você teve uma criança sozinha e ela morreu de mal súbito, coisa que é comum  em bebês, segundo o hospitlal. Passam-se dezoito anos, você refez a sua vida e então surge alguém dizendo que você é aquela criança, e que seu bebê foi roubado por alguém como Christine. É doloroso demais, eu também entraria em negação.
- Não, Leonora você não faria isso. Eu a conheço e se isso tivesse acontecido com você, você iria ter cinco minutos de surto e depois iria atrás da verdade, mesmo que não desse em nada. Não fique triste, amor, quando ela se acalmar, virá até você, dê um tempo a ela. – assenti e ele disse:
- Vamos sair para dançar, espantar o clima pesado. – até pensei em dizer não, mas me lembrei que havia me prometido sempre aproveitar os bons momentos. Dali algumas horas teria uma reunião com George.

-o-o-o-o-o-o-

Ficamos até tarde numa na boate da família do Ozzy, e acabamos encontrando alguns amigos do time do Mitchell e a noite foi muito divertida. Mesmo chegando tarde, não sentiamos sono, quando Mitchell foi encontrar Oleg para leva-lo a um treino dos Abutres e eu fui para a sede das empresas para uma reunião com o conselho de acionistas da Vésper. A pasta azul estava comigo e eu ainda pensava se faria uso dela ou não. Em minha bolsa, também levava os diários de minha avó, caso eu resolvesse contar toda a verdade a ele.
 Estranhei  quando fui informada pela secretaria toda afobada que não teriamos nenhuma reunião, pois George, havia mandado avisar aos acionistas que estava indisposto, e cancelado o encontro, e ela achava que ele havia me avisado. Resolvi, ir conversar com ele e quando cheguei em sua sala, vi que a porta de entrada estava um pouco aberta e vozes alteradas saiam de lá de dentro.
- Não tem sentido você ficar aqui, George. As pessoas vão começar a falar....
- Estou me divorciando de você, Christine, cedo ou tarde as pessoas vão saber.E ninguém até hoje estranhou eu ter roupas aqui no escritório.
- Mamãe, vamos embora por favor, mais tarde vocês dois conversam com calma...
-Não há o que conversar, pois não vai haver divórcio, George. Eu me recuso. Sua filha precisa do pai em casa, tem noção do trauma que suas atitudes podem causar? Podemos fazer terapia... - dizia Christine enfática e George disse tenso:
- Nossas filhas são adultas, e sabem que não vivemos um casamento há muito tempo.- e nesta hora eu bati na porta e fui entrando:
- Olá! Parece que cheguei num momento importante .O que está acontecendo?- disse e Christine uivou:
- O que você faz aqui? Não foi convidada.                                                                                     
- Sou dona de grande parte desta empresa, não preciso de convite, senhor!- respondi enquanto acenava com a cabeça para George que  estava com aparência abatida, sentado em sua mesa, que ficava próxima da lareira, que vivia acesa. Olhei para Camille, e trocamos nossos costumeiros olhares de desgosto. George, acabou dizendo:
- Leonora, por favor feche a porta e sente-se , quero conversar com você e Camille.
- George...Não temos nada para conversar com esta bastarda, ela não faz parte de nossa família...
- Quer você goste ou não, Leonora tem o meu sobrenome, portanto faz parte da família. E ela deve ser informada de que estamos nos divorciando. – olhei para Camille e vi seu queixo tremer, enquanto Christine me olhava com ódio e eu empinei o queixo dizendo:
- Não acho que este tipo de assunto deva ser discutido comigo ou com Camille, o casamento de vocês diz respeito só a vocês dois..- Christine se levantou nervosa:
- Note o tom de felicidade que ela usa, George. Isso é culpa dela, que deve ter choramingado para aquele holandês imbecil, como sente falta de seu papai, e ele ficou enchendo a sua cabeça contra mim... – não me contive:
- Alooww! Tenho vida própria..Ou melhor vida e dinheiro muito dinheiro, enfim tenho o que fazer. E não ouse chamar tio Klaus de imbecil, ele não é da sua laia. – ela bufou:
- Que menina arrogante...Maldita a hora em que eu...- se calou ofegante e eu a instiguei:
- Que você o quê? Diga em alto e bom som o que você quer dizer, tenha coragem de assumir os seus erros, pelo menos uma vez na sua vida.- e George nos olhava sério:
- Divorciar-me de você é uma decisão minha, Christine, ajo e penso por mim mesmo.  Leonora, agora não é hora de você ser grosseira com a sua mãe.- e eu o olhei irritada:
- Ela não é minha mãe, assim como você não é o meu pai, sabia disso? Ah sim, você não sabia sobre a parte dela não ser minha mãe, ops, lembrei que você me chamando de bastarda após o funeral de minha avó, mostra que pelo menos desta parte você sabia.- disse vendo o espanto nos olhos dele e continuei:
- Descobri isso há algum tempo, e vim  para contar-lhe em uma conversa civilizada, mas como não é possivel, vamos lavar a roupa suja. Sabia que ela me trocou na maternidade? – e Camille arregalou os olhos:
- Mamãe roubou você? Como? Porque? Isso é crime, pode dar cadeia...- e eu respondi com asco:
- Parabéns, gênio, você conseguiu somar dois e dois. Já começa a abrir espaço na agenda pra visitar sua mamãe na cadeia. - respondi irônica para Camille que olhava assustada de mim para sua mãe. George ainda estava descrente:
- Leonora, por mais que você nos odeie, isso é uma história muito perigosa para ser inventada...- tirei os diários da bolsa e os coloquei em cima da mesa enquanto falava:
- Não inventei nada, tenho provas, minha avó me deixou os diários dela e ela conta tudo sobre o meu nascimento, disse que sua filha com Christine morreu no berço da maternidade, e como ela queria te manter no casamento com um filho recém nascido, roubou-me de minha mãe, que estava muito dopada para saber o que acontecia, está tudo detalhado e são provas aceitas em qualquer tribunal. Inclusive há coisas interessantes sobre  Camille também....
- CALA A BOCA! EU TE MATO!– disse Christine histérica e veio para cima de mim, tentando me agredir, mas de repente a porta da sala se abriu com um barulhão  e uma voz de mulher gritou:
- Não toque na minha filha, sua vaca!- e foi a minha vez de arregalar os olhos, enquanto Camille gritava assustada, ao vermos Sasha atacando Christine para me defender. Atrás dela vinha Mitchell, TJ McGregor e o professor Wade, do curso de auror, e quando eles as separaram,  Christine exibia um rosto com marcas de tapas e a roupa amarrotada. Mitchell me abraçou, verificando se eu estava bem. Notei que ele estava tenso e parecia tremer...Não, não era ele quem tremia , e sim eu, que tive que respirar fundo, algumas vezes para não bater o queixo pelo nervoso:
- George, exijo que você chame a segurança e ponha esta gente daqui para fora. Sou sua esposa e fui agredida por uma desclassificada. – e Wade usava de força para conter uma Sasha irada. George, olhava de olhos arregalados para todos mas se dirigiu a Mitchell:
- Callahan, você pode me dizer, do que se trata esta invasão? – e meu namorado após me acalmar, respondeu: Vim trazer a mãe da Leonora para que juntas pudessem lhe dizer a verdade, George, mas vejo que você já foi informado. Este assunto agora está nas mãos das autoridades.  – e  Christine disse tentando ir embora:
- Não vou aceitar ficar no mesmo local que esta rameira, ouvindo insanidades.Vou para nossa casa, querido...-e TJ McGregor a barrou no caminho:
- Sou McGregor, investigador da Interpol  e este é Wade, do FBI, nós recebemos a denúncia de um sequestro cometido pela senhora em 31 de outubro de 1997, e viemos investigar, sugiro que a senhora nos acompanhe voluntariamente até a delegacia...
- Não vou a lugar algum com você. Sabe quem eu sou?- ele a ignorou continuando a falar:
-...ou terei que algema-la, e acredite, não costumo ser gentil com quem rouba filhos dos outros.- houve um a movimentação rápida na sala e Camille pegou os diários e os jogou na lareira para queima-los, nem tive tempo de reagir enquanto ela dizia:
- Não há prova alguma, que ligue minha mãe a este crime do qual vocês a acusam, soltem-na, ou nossos advogados vão massacrar vocês por abuso de poder. – vi quando os dois homens trocaram olhares  entre si, e o professor Wade disse:
- Garota, você também irá nos acompanhar pois está obstruindo a justiça. O senhor poderá enviar seu advogado encontra-las na delegacia local. – e ambos saíram praticamente arrastando Camille e Christine muito revoltadas com as algemas.- virei-me preocupada para Mitchell:
- Ela queimou os diários da vovó, não tenho mais provas...- e ele estava tranquilo:
- Não se preocupe, os diários queimados eram cópias que eu fiz, os originais estão seguros.- sorri agradecida e me virei para Sasha, que estava mais calma e disse:
- Desculpe não dizer a você, que você estava certa, peço que me perdoe e me dê uma oportunidade de esclarecer as coisas.- sorri:
- Você está aqui, é isso que importa.Teremos tempo para conversar depois. - George se aproximou de nós e não parava de encarar a Sasha:
- Leonora, há coisas que ainda precisam ser explicadas...- me virei para ele:
- Você já sabe do sequestro, então quero que conheça minha mãe biológica, Mariska Dobrev. Ela sabe muitos detalhes e pode ir te contando, George, agora preciso ir até a delegacia. – antes de sair com Mitchell, vi a troca de olhares entre eles, e o quanto Sasha parecia emocionada, sacudi a cabeça afastando as suspeitas de minha mente. Eu tinha que ir até a delegacia e terminar o que sem querer havia começado.

Sasha e George Ivashkov, ficaram se olhando por alguns longos minutos, depois que a porta se fechou atrás de Leonora e Mitchell. Ele levantou o braço indicando uma poltrona, para que ela se sentasse, e ela o fez. Colocou as mãos no colo pois não sabia o que fazer com elas. Ele se sentou de frente a ela e após algum tempo disse:
- Porque você não me procurou quando soube que estava grávida, Mariska? Eu estava deixando Christine, poderíamos ficar juntos...
- Eu queria que você ficasse comigo por amor e não por dever, então fiz tudo o que pude para proteger o meu bebê, pena que não foi o bastante.- ele a olhou sério:
- Ela é minha, não é?
- Se você precisa ouvir o que é óbvio...- ele explodiu:
- Maldita seja, mulher. Tenho o direito de ouvir a verdade.- e ela também se inflamou:
- Sim, Leonora é a sua filha, ela quer um exame de DNA, e espero que você colabore, já que nunca facilitou a vida da menina.
- Fui enganado, não tenho culpa...
- É fácil, se esconder atrás de Christine agora, mas mesmo que ela não tivesse o seu sangue, merecia um pouco de amor e compaixão enquanto crescia, pois era inocente. É tão simples amar uma criança, mas você se tornou amargo e mesquinho, tão diferente do homem que eu amava.- ela se levantou e o homem fez o mesmo, parecia perdido:
- O que faço agora? Depois de tudo o que aconteceu, Leonora nunca vai me perdoar.
- Não sei o que você vai fazer, George. Eu sei que da minha parte serei a mãe que ela precisar.- e saiu indo atrás de sua filha, querendo recuperar o tempo perdido.

o-o-o-o-o-o-

Aquele sábado foi extremamente agitado. Ficamos um longo tempo na delegacia, prestando depoimentos, Apolo apareceu junto com o advogado de Sasha e me abraçou todo contente, dizendo a Michell que se ele não cuidasse bem de mim, ele como meu novo ‘tio’ lhe daria uma lição, acabei rindo. Os pais de Parvati e Robbie também foram até lá, e após verificarem que estava tudo bem comigo, e com tudo sob controle, se despediram e ao encontrarem George, trocaram algumas palavras.Tia Karen, foi especialmente severa, deixando-o vermelho de vergonha. Já disse que amo esta mulher?
E Parv e Robbie que nao podiam  estar comigo, me ligavam várias vezes preocupados, e eu ia atualizando-os. Lucian, Lenneth e Finn enviaram seus patronos com palavras de conforto, até Ozzy ligou querendo saber podia ajudar em algo. Coitado, Parv devia estar deixando-o maluco rs. Claro que em toda delegacia há jornalistas acabei cercada por alguns, mas orientada pelo doutor Jarod, dei uma declaração resumida do que havia acontecido e que o processo correria em segredo de justiça, e que não poderia falar mais nada, assim logo fiquei livre deles.

- Uffa! Pensei que este dia não fosse acabar nunca.- comentei exausta, me deitando na cama, sendo logo envolvida pelos Mitchell, que após me beijar, disse:
- Quero que me desculpe, por ter colocado as autoridades no meio da história, sei que você não tinha a intenção de denunciar a Christine agora.Tudo o que queria era protegê-la com o respaldo da lei. -  interrompi:
- Foi melhor assim, obrigada. Agora ela vai responder por seus crimes, e eu poderei seguir em frente com a minha vida. E, Camille vai pensar muito antes de se meter em encrencas. Viu, como ela chorou quando  teve que tirar as digitais e segurar a placa com o número da ficha? Fotos de cadeia, são cruéis.-rimos e Mitchell quis saber:
- Você ia mesmo contar a George que Christine não é filha dele?
- Sim, eu iria, estava em modo barraqueira, jogando tudo no ventilador, mas  não precisei, o surto de Christine já alertou não só a George mas também a Camille de que há mais coisas escondidas e agora isso é assunto deles.- ele assentiu e continuamos a conversar:
- Agora que você conhece a sua mãe verdadeira, vai dar uma chance a ela?
- Sim, claro. Gosto da Sasha...Quer dizer, Mariska. E ela sempre foi legal comigo, mesmo sem saber da verdade, poderemos  nos conhecer melhor e sermos amigas.
- E George? Agora que você sabe que  ele é seu pai de verdade, vai perdoa-lo? – respondi após pensar um pouco:
- Vou tentar conviver bem com George,  não serei hipócrita e fingir que somos uma familia feliz, preciso de tempo. E quem sabe um dia posso dar-lhe um cartão pelo dia dos pais.- ele assentiu e finalizou a conversa me beijando daquele jeito dele, que fazia minha mente ficar em branco, o que fez com o meu sábado terminasse muito bem. 

Thursday, June 21, 2012

Mitchell

Após uma conversa com o psicólogo, resolvi procurar o professor Wade na sala que ele usava para nos dar aula do curso de Auror, e o encontrei conversando com Tyrone McGregor  e eles riam, deviam estar armando algum teste maluco para nós. Quando ele me viu, acenou para que eu entrasse.

- Hey, Callahan, o que houve?- disse o professor e eu estiquei o papel em branco decidido:

- Vim devolver o formulário. Não vou me inscrever para nenhuma Academia, senhor.

- Eu já esperava por isso, ser auror nunca foi sua primeira opção não é?

- O curso me fez aprender muita coisa não ssobre ser auror, mas sobre mim também. Eu ficaria satisfeito em ser seu colega e quem sabe, um dia, fazer parte do grupo tático, mas eu gosto muito mais de jogar quadribol, me sinto feliz. – vi quando ele passou uma moeda ao senhor McGregor, enquanto dizia:

- Você ganhou , Ty. Droga, odeio quando perco um dos bons. – e o McGregor riu:         

- Ele é um jogador bom demais para ficar indo atrás de bandidos, Micah. – e o professor Wade disse:

- O curso tem o objetivo de ajuda-los a decidir quem vai continuar conosco ou não. Você se sairia muito bem na Academia, mas sei que vai se sair melhor  rebatendo balaços. Qualquer coisa que precisar, me procure ok?

- Obrigado por tudo, senhor.- fui dispensado e quando comecei a sair, me lembrei de algo e quis saber:

- Professor me explica uma coisa...O crime de sequestro de uma criança prescreve? Mesmo que não tenha sido notificado?- e ambos ficaram em alerta, mas o professor Wade respondeu:

- Não, sequestro é um crime que não prescreve.E a notificação pode ser feita a qualquer momento.- fiquei olhando para os dois, assenti, e comecei a sair, quando o senhor McGregor me chamou novamente.

- Mitchell, há algo que você queira nos contar? Você sabe que Micah é do FBI e eu faço parte da Interpol, talvez possamos te ajudar alguma maneira...- pensei no que Oleg havia me contado sobre a família Ivashkov  e pensei que a melhor forma de proteger Leonora, seria ter ajuda das autoridades, mesmo que indiretamente. Fechei a porta e contei a eles tudo o que a minha namorada havia descoberto .


o-o-o-o-o-o-o-o

Leonora, sexta feira à noite...


Quando acabei de ler os diários de minha avó, comecei a entender muita coisa. Não devia perder mais tempo em procurar Sasha e contar a ela a verdade  sobre nós duas. Olhei no relógio e vi que Mitchell iria demorar para voltar do treino, e como sabia que aquele era o horário que Sasha, costumava estar em casa, resolvi ir até lá e conversar com ela. Ele ficaria chateado comigo por eu não esperar por ele, mas eu teria que fazer isso sozinha.

Fui até a casa dela e quando estava chegando, vi que um homem saía pela porta da frente, e ficaram conversando de cabeças juntas por uns segundos, depois disso, ele segurou o rosto dela e lhe deu um beijo na testa e foi embora. Tudo estaria bem, se eu não o reconhecesse como um ex jogador de quadribol casado e com filhos pequenos. Não pude evitar de me sentir decepcionada.Ok, eu não tinha nada a ver com a vida dela, mas poxa, ela é minha mãe e estava agindo errado. Comecei a ir embora, quando ouvi meu nome ser chamado, me virei e vi Apolo vindo em minha direção.

- Olá, senhorita Leonora, como vai? Veio nos visitar?

- Sasha, deve estar ocupada, não deveria vir sem ligar antes...

- Não há problemas, amigos sempre são bem vindos. Venha, fará bem à patroa receber a sua visita, ela gosta muito de você e eu quero te mostrar os novos aparelhos da sala de ginástica, renovei tudo. - Eu adorava  Apolo,  e comecei a rir pela sua empolgação, que me lembrava muito de Robbie. Quando entramos na casa de Sasha, ela veio me receber toda animada e nós três começamos a conversar, e eu coloquei de lado por um tempo, o motivo real de eu estar ali, enquanto contava a ela sobre tudo que estava acontecendo na escola, os estudos, meus amigos, quando  Apolo comentou:

- E nosso amigo, deu alguma noticias sobre o tal detetive?          

- Não, TJ ainda não descobriu quem ele é, mas vai descobrir.

- TJ é o homem que saiu daqui agora há pouco,  quando  estavamos chegando? Achei que o reconhecia de algum lugar.

- Sim, é TJ McGregor. Rory e ele virão aqui amanhã, Apolo, é a sua vez de cozinhar.- vi o segurança assentir e não me contive:

- Este, TJ não  é casado?- e me arrependi, porque Sasha me olhou tensa, porém foi direta em sua resposta:

- Tenho consideração por você e só por isso vou esclarecer as coisas: Ele foi um cliente e depois se tornou meu amigo.  Rory é a esposa dele, e ela sabe tudo sobre a nossa amizade e não nos julga por isso. E amanhã, eles virão aqui, porque é dia de poker e desta vez, eu serei a anfitriã. - senti meu rosto esquentar.

- Desculpe-me , Mariska...Sasha.- me corrigi e ela me olhou séria:

- Não me lembro de haver lhe dito meu nome de batismo.-  percebi quando ela e Apolo trocaram olhares desconfiados e eu vi que devia esclarecer logo as coisas.

- É verdade, você não disse, foi o meu detetive que descobriu o seu nome e me contou.

- Porque você contratou um detetive para me investigar, Leonora? O que está acontecendo? É o homem que TJ está procurando?

- Sim, é. E não foi para investigar você especificamente, mas mulheres que tiveram bebês  em 31 de outubro de 1997, o dia em que eu nasci. Então ele descobriu que você havia sido mãe de uma menina nesta data, foi uma coincidência nós já nos conhecermos. – fiquei pasma quando vi seus olhos se encheram de lágrimas, mas ela as segurou, Apolo disse tenso:

- Porque está fazendo isso, garota? Não vê que a machuca?- e  Sasha o acalmou dizendo:

- Não se preocupe, meu amigo. Já passou muito tempo, dói menos. Sim, eu tive um bebê neste dia, mas  minha filha morreu, antes mesmo que eu pudesse segura-la...Morte súbita, é comum em bebês, foi o que me disseram.

- Quem é o pai da sua filha?- perguntei enfática e ela se esquivou:

- O bebê era meu, e de mais ninguém. Porque isso é importante para você?- e eu respondi:

- A filha de Christine Ivashkov morreu naquele dia.  -  vi que ela arregalou os olhos e olhou para Apolo, confesso que pensei que estava num filme da Disney e que ela milagrosamente ligaria os pontos, olharia para mim com reconhecimento e começariamos a cantar felizes, mas ela não o fez.

- Que absurdo! Você é filha deles, e está bem viva na minha frente, não sei porque quer saber da minha vida pessoal, acho que seria bom você ir embora, não estou gostando desta situação.- vi Apolo, se levantar com cara de poucos amigos, para me tirar dali, me aproximei dela, a olhei nos olhos e disse:

- Escute por favor: naquele dia, a filha de Christine morreu no berço, e ela não queria que George soubesse, então ela se aproveitou que uma mãe, estava muito dopada no leito de hospital e trocou as crianças. Você não entende? A  criança trocada naquele hospital era eu. Eu sou a sua filha.

- O que é que você está dizendo? Isso é surreal demais...- ela dizia me encarando, porém sem se deixar tocar.Embora, fosse dificil para mim, eu disse:

-Sasha, eu sei que é dificil de acreditar, mas poderiamos fazer um exame de DNA e ai tudo seria esclarecido, eu poderia inclusive saber sobre o meu pai... – ela começou a levantar a mão para me tocar, mas parou séria:

- Não! Isso não pode ser verdade, eu saberia se a minha filha tivesse sido tirada de mim. Você deve estar querendo irritar a sua mãe e o seu pai, e quer me usar para isso.  – eu ri sem humor algum.

- Eu poderia dizer a Christine que ela é um ogro e ela nunca iria ligar, porque não temos a menor afinidade, e George? Ele me despreza, porque sabe que não sou filha dele, acha que sou filha de um amante da Christine. Não nasci dela, nasci de você, e sinto muito que você não consiga acreditar. Eu acredito nisso, porque li os diários de minha avó e lá ela conta toda a situação, inclusive sobre a herança que ela fez chegar às mãos da minha mãe biológica. E eu sei que você recebeu uma herança alguns meses depois que eu nasci...- e ela me cortou:

- Sim, recebi uma herança de um parente e não de sua avó. Gostaria muito que esta história fosse verdade, Leonora, você é uma menina incrível, mas eu não sou a sua mãe, não poderia ser. Esqueça isso, e siga a sua vida, será melhor para todos.  – nos olhamos por alguns segundos  e eu me rendi, pois percebi que ela falava a sério:

- Peço desculpas pelo inconveniente, não queria aborrece-la. Adeus. – sai da casa dela e não olhei para trás. Eu só queria voltar para casa e dormir muito para esquecer este dia.


o-o-o-o-o-o-o-


A porta mal se fechou atrás de Leonora, e Sasha se atirou no peito do amigo, chorando. Apolo, a segurou com carinho e quis saber:
- Mariska, porque você fez isso? Aquela menina pode ser sua, porque não dar crédito a ela?
- Eu não queria acreditar quando ela começou a contar a sua história, mas quando ela falou sobre a herança, eu me convenci de que ela é minha.Céus, minha filha está viva, Apolo, e é linda, estou tão feliz por isso, é mais do que mereço.- recomeçou a chorar, e o homem a abraçou dizendo:
- Então porque você não disse que ela estava certa? Você chora até hoje pela sua menininha...
- Porque quando eu recebi aquele dinheiro, uma das condições fosse de que eu nunc a mais me aproximasse de George ou da sua família, e eu concordei sem nenhum remorso, estava magoada com ele, e havia perdido o que mais amava no mundo. Sim, eu sabia que era dinheiro da velha Leonora. Achei que era uma mãe  defendendo o casamento da filha e hoje percebo que não era isso. – como ele a olhasse confuso, ela explicou:
- Você não entende? Sem saber eu vendi a minha filha.


Continua....