Monday, July 02, 2012

- Por que essa letra está em negrito? – Lenneth perguntou, levantando a sobrancelha.
- Onde? – Eu perguntei. Eu, Robbie e Alec nos debruçamos no exemplar que ela lia e vimos onde ela apontava.
Havia uma letra em negrito, um “N”, no meio do texto, sem motivo algum. Aquilo me deixou com uma pulga atrás da orelha e todos meus instintos diziam que aquilo significava algo.
Eram umas 10 da noite de sexta-feira e tínhamos nos reunido na sala do jornal para tentar descobrir algo sobre Antaris e o jornal clandestino. Estávamos a dois dias varrendo todos os exemplares do Aurora Boreal que tínhamos a procura de algo que pudesse nos ajudar a encontrar quem o editava. Até agora não tínhamos tido nenhum sucesso... Em todas as edições encontramos aquelas palavras cruzadas e todas tinham a mesma palavra-chave: “Cinturão de Orion”. Aquilo soava muito estranho e nossas suspeitas contra Orion ficavam cada vez maiores. Mas eu não conseguia, não queria acreditar, que era o Orion... Eu lembrei então da mitologia entre as constelações de Orion e Escorpião: segundo a lenda, o Escorpião havia sido mandado por Apolo para matar o caçador Orion, o único mortal por quem a deusa Artemis fora apaixonada. Mas Artemis tentou salvá-lo e disparou uma flecha contra o Escorpião, mas devido à influência de Apolo, errou o tiro e acertou Orion. Zeus então transformou Orion e Escorpião em constelações e os dois estão eternamente em perseguição no céu, sempre em lados opostos do céu. Quando contei essa história para Robbie, ele achou Orion ainda mais suspeito, pois Antaris é o nome da maior estrela da constelação de Escorpião e para ele, isso era um sinal de que Orion queria que não fizéssemos a ligação entre os nomes.
- Isso é muito estranho! – Robbie falou e vi que os instintos dele piscavam como os meus. Ele então deu um berro e todos saltamos sobressaltados. – Ali também tem!
- Nessa edição também! – Alec falou abrindo outro exemplar.
Começamos a foliar todas as edições, desde que o tal Antaris tinha dito que quem quisesse poderia publicar no jornal dele. Em todas haviam letras soltas em negrito, no meio de textos, no meio de tiras (de muito mal gosto...), no meio de títulos, até mesmo nas palavras cruzadas.
- Como deixamos isso passar? Deve ser alguma mensagem! – Robbie falou animado e eu concordei.
- Acho que ficamos tão concentrados nas palavras cruzadas que não percebemos isso... Precisamos descobrir o que significam! – Eu falei.
- Eu tenho uma idéia. – Lenneth falou e pegou uma folha em branco. Ela começou a anotar todas as letras em negrito da edição que estava em suas mãos, na ordem que apareciam ao longo do jornal. Assim que percebemos sua idéia, cada um pegou umas 3 edições e começou a fazer o mesmo.
Quando terminamos, juntamos todos os papeis. Meu coração pulava acelerado, pois eu sabia que aquilo me levaria para responsável pelo jornal. Mas foi decepcionante quando vimos que as letras não faziam sentido algum.
- Droga! Estávamos tão perto! – Eu falei, exasperado e me joguei na cadeira. Lenneth segurou minha mão e me beijou nos lábios. Como eu amo essa garota! Só aquilo foi suficiente para me ajudar e me animar. Como pude ficar tanto tempo longe dela?
- Ei pombinhos? – Robbie bateu no nosso ombro, fazendo uma voz idêntica a da Senhora Mesic e começamos a rir. – Aqui não é lugar! Temos um mistério para resolver!
- Alguma idéia? – Eu perguntei e foi Alec que respondeu. Ele estava sério e encarava as letras atenção.
- Deve ter alguma palavra ou frase escondida nessas letras. Precisamos descobrir o que...
- Mas como? – Lenneth perguntou. – Existem bilhões de possibilidades!
- Vamos tentar na sorte? – Robbie perguntou. – Vejam só, as letras do primeiro exemplar parecem formar “Estátua do Jardim”.
- Será que era para lá que deveriam levar as matérias? – Lenneth perguntou animada, mas logo bufou. – São muitas edições... Precisamos descobrir um padrão, deve existir!
- Eu tenho uma ideia! – Falei e liguei meu computador, já iniciando um programa de conversação com Ayala. Os segundos que ele demorou a responder minha chamada pareciam levar uma eternidade para passar.
- Fala mala, o que você quer? – Ele falou e eu sorri. Ayala sempre me chamava de “mala” e eu sempre o chamava de “chato”. Então ele viu todo mundo amontoado e sorriu. – Oi gente! Lenneth, ainda com ele?
- Sempre! – Ela falou rindo e ele deu de ombros, suspirando.
- Mas para ter tanta gente aí só pode significar problemas... O que você fez? – Ele perguntou, me olhando sério.
- Como se fosse eu que fizesse besteira... – Falei rindo e ele sorriu. – Você poderia fazer um favor pra mim?
- Estou ficando curioso... Odeio quando faz isso.  – Ele falou e eu gargalhei.
- Se lembra daquele cara que roubou meus textos?
- Sim, descobriu algo?
- Quase... Descobrimos que nos jornais que ele publica tem dezenas de letras em negrito. Parecem não fazer sentido, mas achamos que podem esconder alguma pista.
- Hummm... Como quem é ou onde eles publicam... – Ele falou pensativo e eu concordei. – Você tem as letras aí?
- Sim, só que são muitas. As letras mudam de edição para edição, mas parecem ter algum padrão. – Robbie explicou e Ayala assentiu. Pude ver que ele já começava a abrir milhares de programas ao mesmo tempo e ficava concentrado.
- Escaneie tudo e me manda. Vou ver o que posso fazer. – Ele respondeu.
- Sabia que conseguiria! – Eu falei e ele assentiu, desligando a conversa.
- Escanear? – Alec perguntou e eu ri.
- Vem que eu te explico...
O resto da noite passou enquanto nos divertíamos ensinando Alec a usar o escâner. Depois das primeiras tentativas, ele começou a fazer sozinho e achou uma invenção maravilhosa! Depois mandei tudo em um e-mail para o Ayala e só nos restava esperar. Mesmo assim, cada um pegou uma folha com as letras embaralhadas e se propôs a pensar no assunto.
- Acho que devia levantar nossas suspeitas quanto ao Orion. – Lenneth falou, enquanto voltávamos andando de mãos dadas para a Avalon.
- Não sei, Lenneth. Se fizermos isso, ele vai ficar mais cauteloso. E os professores suspeitam disso, mas eu não consigo acreditar que seja ele.
- Por que? Poderia ser qualquer um.
- Não quero acreditar que seja ele. Ele é chato, eu sei, teimoso e muito inconveniente, mas sempre me ajudou e apoiou.
- Lu, eu acho que você está confiando demais nele. Ele não é isso tudo que você imagina.
- Por que diz isso? – Eu perguntei e parei, fazendo-a olhar para mim. Vi que ela ficou meio sem jeito. – Lenneth, você sabe de algo que eu não sei?
- Sim. – Ela falou suspirando e eu a olhei sério. Ela então finalmente decidiu falar. – Olha, eu não te falei nada porque não queria me meter na sua amizade e não queria te ver brigando com ele.
- Mas? – Eu falei e ela assentiu.
- Mas não gosto dele. Não consigo confiar nele.
- E? – Eu sabia que tinha mais.
- Na época que terminei com Patrick e ele ficou me perseguindo, vi o Orion falando várias vezes com ele. Parecia como se ele estivesse incentivando Patrick a tentar algo comigo... – Eu comecei a sentir a raiva subindo pelo meu peito, mas deixei ela continuar falando. – E pouco tempo depois que começamos a namorar, o Orion veio com uma história para mim.
- Que história?
- Ele queria que eu ficasse com ele. – Ela falou e eu bufei de raiva, mas ela segurou minha mão. – Quando eu falei que nunca faria isso, tentei ir embora, mas ele segurou meu braço e falou que você não precisava e nunca saberia. Eu dei um tapa na cara dele e sai dali.
- Por isso que nunca mais falou com ele.
- Exatamente. Lu, presta atenção... Tudo indica que poderia ser ele. Ele sempre fez as coisas que você fazia, parece te seguir como uma sombra, parece querer ser você! Isso é obseção!
- Mas daí roubar e criar um jornal clandestino?! – Eu falei. Estava furioso, mas tudo ainda parecia surreal demais para mim. – E se fingir de meu amigo?!
- Ele é falso, Lu. Ele quer que a gente o subestime e é isso que você está fazendo.
- Tudo bem... Vou conversar com o diretor sobre isso. Precisamos investigá-lo.
- Prometa-me que não vai brigar com ele. Lu, me prometa. – Ela falou enérgica. Eu engoli a raiva e assenti. – É melhor esquecermos tudo dele. Ele quer a nossa atenção, não podemos dá-la a ele.
Eu concordei, ainda irritado, mas achei melhor não deixar ela perceber isso. Ela me beijou longamente e a abracei com força. Queria que passássemos a noite juntos, mas não daria hoje pois já estava tarde para ir para o vilarejo e acordaríamos cedo no dia seguinte. Então a deixei na Avalon e fui para a Kratos, pensando em tudo que ela dissera.
Entrei calado na República, pois não queria falar com ninguém, principalmente com Orion, mas estranhei, pois ele não estava lá. Aquilo me deixou intrigado, mas resolvi deixar para conversar com o diretor no dia seguinte.
Abri meu notebook e vi que tinha um e-mail novo. Meu coração acelerou, pois era um e-mail de Ayala.

“Tentei te ligar, mas você não atendia, então mandei por e-mail. Achei que seria um desafio maior, mas as palavras são simples. São nomes de lugares! E existe um certo padrão. São sempre oito lugares e é feito uma espécie de rodízio entre eles. Para pessoas que já conheçam todos os lugares, basta saber a primeira letra e não precisa identificar o resto. E é sempre a primeira letra em negrito! Estou te mandando a lista completa.”

Ele me mandou um arquivo com a lista de palavras e todas formavam palavras simples, como Masmorra, Porão Nº65, Chafariz Rua A.... Eram todos lugares do Castelo ou dos arredores e como Ayala disse, todas tinham a primeira letra diferente... Corri os olhos para o final da lista, o exemplar de hoje de manhã e li “Fundos da Biblioteca Vilarejo”.
Aquilo fez a adrenalina fluir rapidamente pelo meu corpo.
Sai correndo da República e não avisei ninguém. Minha mente me dizia que era perigoso e devia avisar a alguém onde eu estava indo, mas não queria perder tempo. Queria descobrir o que pudesse e tinha que ser hoje.
O vilarejo já estava vazio, pois já era quase meia-noite, e o único grande movimento era da boate dos pais do Ozzy. Encontrei a biblioteca rapidamente e fui até os fundos dela, mas não encontrei nada demais. Estava quase indo embora frustrado quando um brilho azul chamou minha atenção. Eram três estrelas que brilhavam atrás das latas de lixo, no formato do Cinturão de Orion. Fui até elas lentamente e quando cheguei perto, toquei-as com a varinha. Uma porta escondida no chão deslizou e vi uma escada que mergulhava para as profundezas da terra. O caminho era antigo e apenas as luzes de tocha iluminavam os degraus.
Ignorei toda a cautela e desci os degraus lentamente, a varinha em punho, mas apagada. De início não ouvia nada, apenas meus passos que ecoavam nas paredes. Parei uns segundos e os enfeiticei para não emitirem som e continuei descendo. Então comecei a ouvir um barulho estranho. Pareciam gargalhadas, mas ao fundo ouvia também o som de chicote e espadas. Todo o meu ser gritava para sair de lá, mas queria ir até o final.
Os degraus acabaram de repente e me vi em um corredor escuro. Havia luz apenas em seu final, quando ele fazia uma curva para direita e fui até lá lentamente. Os sons estavam ficando cada vez mais altos e claramente podia ouvir o baque de espada contra espada.
Me arrisquei e olhei para a curva iluminada e meus olhos ficaram arregalados.
Era uma sala oval, iluminada por archotes verdes. A sala era quase do tamanho da biblioteca do Castelo, organizada como se fosse uma arquibancada. Nesses assentos haviam em torno de uns 30 homens encapuzados e com longas capas pretas. No meio disso tudo havia uma espécie de arena com um palanque onde três pessoas estavam sentadas. Uma delas, que parecia mais jovem que as demais, estava na ponta do palanque observando quatro garotos que lutavam com as espadas. Esses garotos usavam uma máscara branca sem expressão no rosto e calças brancas, como de escravos, sem camisa ou proteção para os golpes de espadas. Os encapuzados riam sempre que um dos garotos perdia o equilíbrio ou errava um golpe, mas ninguém ria mais do que o jovem na ponta do palanque. Eu vi então ele pegar um chicote e bater nas costas de um garoto que se aproximou dele e esse garoto caiu no chão, sendo chutado por outro dos lutadores. A audiência começou a gargalhar e eu me afastei horrorizado.
Subi correndo os degraus decidido a encontrar os aurores e o diretor. Aquilo era loucura!
No meio da escada ouvi gritos rudes a minhas costas e pessoas correndo. Percebi que eles me perseguiam e acelerei o passo.
Saltei para a noite estrelada e corri para longe da biblioteca. Sabia que meus perseguidores estavam perto de mim, então precisava me esconder rapidamente. Mas não havia para onde fugir.
De repente esbarrei em alguém e me assustei, mas vi quando o segurança da boate dos pais do Ozzy sorria para mim e me ajudava a me levantar. Um dos irmãos mais velhos do Ozzy me olhou curioso.
- Lucian? O que faz aqui a essa hora? Dando umas voltas com a Lenneth?
- Ramón, preciso de sua ajuda! Tem alguém atrás de mim!
Ele não perguntou nada, mas ficou sério e olhou ao nosso redor. Ele me ajudou a entrar rapidamente na boate, enquanto os seguranças nos envolviam e olhavam tudo ao redor.

***************************************
Eu contei ao Tio Oscar o que tinha acontecido e ele assumiu um semblante sério e preocupado e só me deixou sair da boate uma meia hora depois. Ele em pessoa me acompanhou, além de outros três seguranças e Ramón. Era de madrugada já, mas mesmo assim fomos direto para o Castelo. Tio Oscar falou o que tinha acontecido a um professor que fazia sua ronda e nos levaram para o quarto do diretor. Contei então tudo que tinha acontecido e vi o semblante de Ivanovich ficando cada vez mais fechado.
Tio Oscar só foi embora quando me deixou na República e deixou dois seguranças na porta da Kratos, por precaução. Ozzy ficou preocupado quando me viu chegar tão tarde e contei tudo para ele.
Foi uma noite difícil... Não conseguia dormir, nervoso. E as cenas que eu vira se repetiam na minha cabeça. Mas era eu o chicoteado...
Acordei na manhã seguinte me sentindo dolorido da noite mal dormida. A maioria dos garotos já tinha acordado, mas Alec, Oleg e Ozzy me esperavam. Lenneth estava com eles e ela me abraçou chorando, enquanto brigava pelo que eu tinha feito. Tentei acalmá-la, mas ela chorava descontroladamente e me abraçava com força. Pelo olhar sério de todos soube que tinha acontecido algo.
- O que houve?
- Deixaram isso embaixo da nossa porta. Não sabemos como. – Oleg respondeu e me entregou um papel. Ele estava escrito em letras em negrito. Enquanto eu lia, senti um nó no estômago e abracei Lenneth com mais força.

“Sei que foi você que nos espionou, Lucian Valesti.
Você não faz idéia de onde está se metendo. Vou lhe dar um conselho de amigo, de autor para autor: nunca mais tente ver nossas reuniões. Nunca mais tente descobrir quem eu sou ou o que fazemos. Para seu próprio bem e de todos que você gosta. Até agora eu não fiz nada com você, mas continue e irei atrás de você, de seu irmão, de sua namorada, de seus amigos.
Você foi avisado.
Esse é meu primeiro e último aviso. Você vai se arrepender se continuar.
Antaris.”

Sunday, July 01, 2012

Voltei para casa o mais rápido possível, quando cheguei Mitchell  estava no telefone e parecia aflito:
- Ela acabou de chegar, Robbie...Sim, eu digo, desculpe incomodar vocês..Até breve, cara. Aonde você foi? Fiquei preocupado.- disse se aproximando de mim e eu o abracei. Ele tentou se soltar mas eu o segurei um pouco mais,afundando a cabeça em seu peito.
- Você foi ver a sua mãe biológica?- ele perguntou e eu fiz que sim, sem levantar a cabeça.- ficamos abraçados por um tempo e quando eu estava pronta, me soltei:
- Fui ver Sasha, contei a ela que ela é minha mãe, mas ela não acreditou em mim, acha que posso estar fazendo isso para provocar os meus pais...
- Mas você tem pistas sólidas,o diário de sua avó é detalhista, e só bastaria um exame de DNA para confirmar tudo...- ele disse exasperado e eu respondi:
- Sabe, eu acho que ela escolheu não acreditar, e sinceramente? Não posso culpa-la. – ele abriu a boca para protestar, mas eu o calei dizendo:
- Coloque-se no lugar dela: você teve uma criança sozinha e ela morreu de mal súbito, coisa que é comum  em bebês, segundo o hospitlal. Passam-se dezoito anos, você refez a sua vida e então surge alguém dizendo que você é aquela criança, e que seu bebê foi roubado por alguém como Christine. É doloroso demais, eu também entraria em negação.
- Não, Leonora você não faria isso. Eu a conheço e se isso tivesse acontecido com você, você iria ter cinco minutos de surto e depois iria atrás da verdade, mesmo que não desse em nada. Não fique triste, amor, quando ela se acalmar, virá até você, dê um tempo a ela. – assenti e ele disse:
- Vamos sair para dançar, espantar o clima pesado. – até pensei em dizer não, mas me lembrei que havia me prometido sempre aproveitar os bons momentos. Dali algumas horas teria uma reunião com George.

-o-o-o-o-o-o-

Ficamos até tarde numa na boate da família do Ozzy, e acabamos encontrando alguns amigos do time do Mitchell e a noite foi muito divertida. Mesmo chegando tarde, não sentiamos sono, quando Mitchell foi encontrar Oleg para leva-lo a um treino dos Abutres e eu fui para a sede das empresas para uma reunião com o conselho de acionistas da Vésper. A pasta azul estava comigo e eu ainda pensava se faria uso dela ou não. Em minha bolsa, também levava os diários de minha avó, caso eu resolvesse contar toda a verdade a ele.
 Estranhei  quando fui informada pela secretaria toda afobada que não teriamos nenhuma reunião, pois George, havia mandado avisar aos acionistas que estava indisposto, e cancelado o encontro, e ela achava que ele havia me avisado. Resolvi, ir conversar com ele e quando cheguei em sua sala, vi que a porta de entrada estava um pouco aberta e vozes alteradas saiam de lá de dentro.
- Não tem sentido você ficar aqui, George. As pessoas vão começar a falar....
- Estou me divorciando de você, Christine, cedo ou tarde as pessoas vão saber.E ninguém até hoje estranhou eu ter roupas aqui no escritório.
- Mamãe, vamos embora por favor, mais tarde vocês dois conversam com calma...
-Não há o que conversar, pois não vai haver divórcio, George. Eu me recuso. Sua filha precisa do pai em casa, tem noção do trauma que suas atitudes podem causar? Podemos fazer terapia... - dizia Christine enfática e George disse tenso:
- Nossas filhas são adultas, e sabem que não vivemos um casamento há muito tempo.- e nesta hora eu bati na porta e fui entrando:
- Olá! Parece que cheguei num momento importante .O que está acontecendo?- disse e Christine uivou:
- O que você faz aqui? Não foi convidada.                                                                                     
- Sou dona de grande parte desta empresa, não preciso de convite, senhor!- respondi enquanto acenava com a cabeça para George que  estava com aparência abatida, sentado em sua mesa, que ficava próxima da lareira, que vivia acesa. Olhei para Camille, e trocamos nossos costumeiros olhares de desgosto. George, acabou dizendo:
- Leonora, por favor feche a porta e sente-se , quero conversar com você e Camille.
- George...Não temos nada para conversar com esta bastarda, ela não faz parte de nossa família...
- Quer você goste ou não, Leonora tem o meu sobrenome, portanto faz parte da família. E ela deve ser informada de que estamos nos divorciando. – olhei para Camille e vi seu queixo tremer, enquanto Christine me olhava com ódio e eu empinei o queixo dizendo:
- Não acho que este tipo de assunto deva ser discutido comigo ou com Camille, o casamento de vocês diz respeito só a vocês dois..- Christine se levantou nervosa:
- Note o tom de felicidade que ela usa, George. Isso é culpa dela, que deve ter choramingado para aquele holandês imbecil, como sente falta de seu papai, e ele ficou enchendo a sua cabeça contra mim... – não me contive:
- Alooww! Tenho vida própria..Ou melhor vida e dinheiro muito dinheiro, enfim tenho o que fazer. E não ouse chamar tio Klaus de imbecil, ele não é da sua laia. – ela bufou:
- Que menina arrogante...Maldita a hora em que eu...- se calou ofegante e eu a instiguei:
- Que você o quê? Diga em alto e bom som o que você quer dizer, tenha coragem de assumir os seus erros, pelo menos uma vez na sua vida.- e George nos olhava sério:
- Divorciar-me de você é uma decisão minha, Christine, ajo e penso por mim mesmo.  Leonora, agora não é hora de você ser grosseira com a sua mãe.- e eu o olhei irritada:
- Ela não é minha mãe, assim como você não é o meu pai, sabia disso? Ah sim, você não sabia sobre a parte dela não ser minha mãe, ops, lembrei que você me chamando de bastarda após o funeral de minha avó, mostra que pelo menos desta parte você sabia.- disse vendo o espanto nos olhos dele e continuei:
- Descobri isso há algum tempo, e vim  para contar-lhe em uma conversa civilizada, mas como não é possivel, vamos lavar a roupa suja. Sabia que ela me trocou na maternidade? – e Camille arregalou os olhos:
- Mamãe roubou você? Como? Porque? Isso é crime, pode dar cadeia...- e eu respondi com asco:
- Parabéns, gênio, você conseguiu somar dois e dois. Já começa a abrir espaço na agenda pra visitar sua mamãe na cadeia. - respondi irônica para Camille que olhava assustada de mim para sua mãe. George ainda estava descrente:
- Leonora, por mais que você nos odeie, isso é uma história muito perigosa para ser inventada...- tirei os diários da bolsa e os coloquei em cima da mesa enquanto falava:
- Não inventei nada, tenho provas, minha avó me deixou os diários dela e ela conta tudo sobre o meu nascimento, disse que sua filha com Christine morreu no berço da maternidade, e como ela queria te manter no casamento com um filho recém nascido, roubou-me de minha mãe, que estava muito dopada para saber o que acontecia, está tudo detalhado e são provas aceitas em qualquer tribunal. Inclusive há coisas interessantes sobre  Camille também....
- CALA A BOCA! EU TE MATO!– disse Christine histérica e veio para cima de mim, tentando me agredir, mas de repente a porta da sala se abriu com um barulhão  e uma voz de mulher gritou:
- Não toque na minha filha, sua vaca!- e foi a minha vez de arregalar os olhos, enquanto Camille gritava assustada, ao vermos Sasha atacando Christine para me defender. Atrás dela vinha Mitchell, TJ McGregor e o professor Wade, do curso de auror, e quando eles as separaram,  Christine exibia um rosto com marcas de tapas e a roupa amarrotada. Mitchell me abraçou, verificando se eu estava bem. Notei que ele estava tenso e parecia tremer...Não, não era ele quem tremia , e sim eu, que tive que respirar fundo, algumas vezes para não bater o queixo pelo nervoso:
- George, exijo que você chame a segurança e ponha esta gente daqui para fora. Sou sua esposa e fui agredida por uma desclassificada. – e Wade usava de força para conter uma Sasha irada. George, olhava de olhos arregalados para todos mas se dirigiu a Mitchell:
- Callahan, você pode me dizer, do que se trata esta invasão? – e meu namorado após me acalmar, respondeu: Vim trazer a mãe da Leonora para que juntas pudessem lhe dizer a verdade, George, mas vejo que você já foi informado. Este assunto agora está nas mãos das autoridades.  – e  Christine disse tentando ir embora:
- Não vou aceitar ficar no mesmo local que esta rameira, ouvindo insanidades.Vou para nossa casa, querido...-e TJ McGregor a barrou no caminho:
- Sou McGregor, investigador da Interpol  e este é Wade, do FBI, nós recebemos a denúncia de um sequestro cometido pela senhora em 31 de outubro de 1997, e viemos investigar, sugiro que a senhora nos acompanhe voluntariamente até a delegacia...
- Não vou a lugar algum com você. Sabe quem eu sou?- ele a ignorou continuando a falar:
-...ou terei que algema-la, e acredite, não costumo ser gentil com quem rouba filhos dos outros.- houve um a movimentação rápida na sala e Camille pegou os diários e os jogou na lareira para queima-los, nem tive tempo de reagir enquanto ela dizia:
- Não há prova alguma, que ligue minha mãe a este crime do qual vocês a acusam, soltem-na, ou nossos advogados vão massacrar vocês por abuso de poder. – vi quando os dois homens trocaram olhares  entre si, e o professor Wade disse:
- Garota, você também irá nos acompanhar pois está obstruindo a justiça. O senhor poderá enviar seu advogado encontra-las na delegacia local. – e ambos saíram praticamente arrastando Camille e Christine muito revoltadas com as algemas.- virei-me preocupada para Mitchell:
- Ela queimou os diários da vovó, não tenho mais provas...- e ele estava tranquilo:
- Não se preocupe, os diários queimados eram cópias que eu fiz, os originais estão seguros.- sorri agradecida e me virei para Sasha, que estava mais calma e disse:
- Desculpe não dizer a você, que você estava certa, peço que me perdoe e me dê uma oportunidade de esclarecer as coisas.- sorri:
- Você está aqui, é isso que importa.Teremos tempo para conversar depois. - George se aproximou de nós e não parava de encarar a Sasha:
- Leonora, há coisas que ainda precisam ser explicadas...- me virei para ele:
- Você já sabe do sequestro, então quero que conheça minha mãe biológica, Mariska Dobrev. Ela sabe muitos detalhes e pode ir te contando, George, agora preciso ir até a delegacia. – antes de sair com Mitchell, vi a troca de olhares entre eles, e o quanto Sasha parecia emocionada, sacudi a cabeça afastando as suspeitas de minha mente. Eu tinha que ir até a delegacia e terminar o que sem querer havia começado.

Sasha e George Ivashkov, ficaram se olhando por alguns longos minutos, depois que a porta se fechou atrás de Leonora e Mitchell. Ele levantou o braço indicando uma poltrona, para que ela se sentasse, e ela o fez. Colocou as mãos no colo pois não sabia o que fazer com elas. Ele se sentou de frente a ela e após algum tempo disse:
- Porque você não me procurou quando soube que estava grávida, Mariska? Eu estava deixando Christine, poderíamos ficar juntos...
- Eu queria que você ficasse comigo por amor e não por dever, então fiz tudo o que pude para proteger o meu bebê, pena que não foi o bastante.- ele a olhou sério:
- Ela é minha, não é?
- Se você precisa ouvir o que é óbvio...- ele explodiu:
- Maldita seja, mulher. Tenho o direito de ouvir a verdade.- e ela também se inflamou:
- Sim, Leonora é a sua filha, ela quer um exame de DNA, e espero que você colabore, já que nunca facilitou a vida da menina.
- Fui enganado, não tenho culpa...
- É fácil, se esconder atrás de Christine agora, mas mesmo que ela não tivesse o seu sangue, merecia um pouco de amor e compaixão enquanto crescia, pois era inocente. É tão simples amar uma criança, mas você se tornou amargo e mesquinho, tão diferente do homem que eu amava.- ela se levantou e o homem fez o mesmo, parecia perdido:
- O que faço agora? Depois de tudo o que aconteceu, Leonora nunca vai me perdoar.
- Não sei o que você vai fazer, George. Eu sei que da minha parte serei a mãe que ela precisar.- e saiu indo atrás de sua filha, querendo recuperar o tempo perdido.

o-o-o-o-o-o-

Aquele sábado foi extremamente agitado. Ficamos um longo tempo na delegacia, prestando depoimentos, Apolo apareceu junto com o advogado de Sasha e me abraçou todo contente, dizendo a Michell que se ele não cuidasse bem de mim, ele como meu novo ‘tio’ lhe daria uma lição, acabei rindo. Os pais de Parvati e Robbie também foram até lá, e após verificarem que estava tudo bem comigo, e com tudo sob controle, se despediram e ao encontrarem George, trocaram algumas palavras.Tia Karen, foi especialmente severa, deixando-o vermelho de vergonha. Já disse que amo esta mulher?
E Parv e Robbie que nao podiam  estar comigo, me ligavam várias vezes preocupados, e eu ia atualizando-os. Lucian, Lenneth e Finn enviaram seus patronos com palavras de conforto, até Ozzy ligou querendo saber podia ajudar em algo. Coitado, Parv devia estar deixando-o maluco rs. Claro que em toda delegacia há jornalistas acabei cercada por alguns, mas orientada pelo doutor Jarod, dei uma declaração resumida do que havia acontecido e que o processo correria em segredo de justiça, e que não poderia falar mais nada, assim logo fiquei livre deles.

- Uffa! Pensei que este dia não fosse acabar nunca.- comentei exausta, me deitando na cama, sendo logo envolvida pelos Mitchell, que após me beijar, disse:
- Quero que me desculpe, por ter colocado as autoridades no meio da história, sei que você não tinha a intenção de denunciar a Christine agora.Tudo o que queria era protegê-la com o respaldo da lei. -  interrompi:
- Foi melhor assim, obrigada. Agora ela vai responder por seus crimes, e eu poderei seguir em frente com a minha vida. E, Camille vai pensar muito antes de se meter em encrencas. Viu, como ela chorou quando  teve que tirar as digitais e segurar a placa com o número da ficha? Fotos de cadeia, são cruéis.-rimos e Mitchell quis saber:
- Você ia mesmo contar a George que Christine não é filha dele?
- Sim, eu iria, estava em modo barraqueira, jogando tudo no ventilador, mas  não precisei, o surto de Christine já alertou não só a George mas também a Camille de que há mais coisas escondidas e agora isso é assunto deles.- ele assentiu e continuamos a conversar:
- Agora que você conhece a sua mãe verdadeira, vai dar uma chance a ela?
- Sim, claro. Gosto da Sasha...Quer dizer, Mariska. E ela sempre foi legal comigo, mesmo sem saber da verdade, poderemos  nos conhecer melhor e sermos amigas.
- E George? Agora que você sabe que  ele é seu pai de verdade, vai perdoa-lo? – respondi após pensar um pouco:
- Vou tentar conviver bem com George,  não serei hipócrita e fingir que somos uma familia feliz, preciso de tempo. E quem sabe um dia posso dar-lhe um cartão pelo dia dos pais.- ele assentiu e finalizou a conversa me beijando daquele jeito dele, que fazia minha mente ficar em branco, o que fez com o meu sábado terminasse muito bem. 

Thursday, June 21, 2012

Mitchell

Após uma conversa com o psicólogo, resolvi procurar o professor Wade na sala que ele usava para nos dar aula do curso de Auror, e o encontrei conversando com Tyrone McGregor  e eles riam, deviam estar armando algum teste maluco para nós. Quando ele me viu, acenou para que eu entrasse.

- Hey, Callahan, o que houve?- disse o professor e eu estiquei o papel em branco decidido:

- Vim devolver o formulário. Não vou me inscrever para nenhuma Academia, senhor.

- Eu já esperava por isso, ser auror nunca foi sua primeira opção não é?

- O curso me fez aprender muita coisa não ssobre ser auror, mas sobre mim também. Eu ficaria satisfeito em ser seu colega e quem sabe, um dia, fazer parte do grupo tático, mas eu gosto muito mais de jogar quadribol, me sinto feliz. – vi quando ele passou uma moeda ao senhor McGregor, enquanto dizia:

- Você ganhou , Ty. Droga, odeio quando perco um dos bons. – e o McGregor riu:         

- Ele é um jogador bom demais para ficar indo atrás de bandidos, Micah. – e o professor Wade disse:

- O curso tem o objetivo de ajuda-los a decidir quem vai continuar conosco ou não. Você se sairia muito bem na Academia, mas sei que vai se sair melhor  rebatendo balaços. Qualquer coisa que precisar, me procure ok?

- Obrigado por tudo, senhor.- fui dispensado e quando comecei a sair, me lembrei de algo e quis saber:

- Professor me explica uma coisa...O crime de sequestro de uma criança prescreve? Mesmo que não tenha sido notificado?- e ambos ficaram em alerta, mas o professor Wade respondeu:

- Não, sequestro é um crime que não prescreve.E a notificação pode ser feita a qualquer momento.- fiquei olhando para os dois, assenti, e comecei a sair, quando o senhor McGregor me chamou novamente.

- Mitchell, há algo que você queira nos contar? Você sabe que Micah é do FBI e eu faço parte da Interpol, talvez possamos te ajudar alguma maneira...- pensei no que Oleg havia me contado sobre a família Ivashkov  e pensei que a melhor forma de proteger Leonora, seria ter ajuda das autoridades, mesmo que indiretamente. Fechei a porta e contei a eles tudo o que a minha namorada havia descoberto .


o-o-o-o-o-o-o-o

Leonora, sexta feira à noite...


Quando acabei de ler os diários de minha avó, comecei a entender muita coisa. Não devia perder mais tempo em procurar Sasha e contar a ela a verdade  sobre nós duas. Olhei no relógio e vi que Mitchell iria demorar para voltar do treino, e como sabia que aquele era o horário que Sasha, costumava estar em casa, resolvi ir até lá e conversar com ela. Ele ficaria chateado comigo por eu não esperar por ele, mas eu teria que fazer isso sozinha.

Fui até a casa dela e quando estava chegando, vi que um homem saía pela porta da frente, e ficaram conversando de cabeças juntas por uns segundos, depois disso, ele segurou o rosto dela e lhe deu um beijo na testa e foi embora. Tudo estaria bem, se eu não o reconhecesse como um ex jogador de quadribol casado e com filhos pequenos. Não pude evitar de me sentir decepcionada.Ok, eu não tinha nada a ver com a vida dela, mas poxa, ela é minha mãe e estava agindo errado. Comecei a ir embora, quando ouvi meu nome ser chamado, me virei e vi Apolo vindo em minha direção.

- Olá, senhorita Leonora, como vai? Veio nos visitar?

- Sasha, deve estar ocupada, não deveria vir sem ligar antes...

- Não há problemas, amigos sempre são bem vindos. Venha, fará bem à patroa receber a sua visita, ela gosta muito de você e eu quero te mostrar os novos aparelhos da sala de ginástica, renovei tudo. - Eu adorava  Apolo,  e comecei a rir pela sua empolgação, que me lembrava muito de Robbie. Quando entramos na casa de Sasha, ela veio me receber toda animada e nós três começamos a conversar, e eu coloquei de lado por um tempo, o motivo real de eu estar ali, enquanto contava a ela sobre tudo que estava acontecendo na escola, os estudos, meus amigos, quando  Apolo comentou:

- E nosso amigo, deu alguma noticias sobre o tal detetive?          

- Não, TJ ainda não descobriu quem ele é, mas vai descobrir.

- TJ é o homem que saiu daqui agora há pouco,  quando  estavamos chegando? Achei que o reconhecia de algum lugar.

- Sim, é TJ McGregor. Rory e ele virão aqui amanhã, Apolo, é a sua vez de cozinhar.- vi o segurança assentir e não me contive:

- Este, TJ não  é casado?- e me arrependi, porque Sasha me olhou tensa, porém foi direta em sua resposta:

- Tenho consideração por você e só por isso vou esclarecer as coisas: Ele foi um cliente e depois se tornou meu amigo.  Rory é a esposa dele, e ela sabe tudo sobre a nossa amizade e não nos julga por isso. E amanhã, eles virão aqui, porque é dia de poker e desta vez, eu serei a anfitriã. - senti meu rosto esquentar.

- Desculpe-me , Mariska...Sasha.- me corrigi e ela me olhou séria:

- Não me lembro de haver lhe dito meu nome de batismo.-  percebi quando ela e Apolo trocaram olhares desconfiados e eu vi que devia esclarecer logo as coisas.

- É verdade, você não disse, foi o meu detetive que descobriu o seu nome e me contou.

- Porque você contratou um detetive para me investigar, Leonora? O que está acontecendo? É o homem que TJ está procurando?

- Sim, é. E não foi para investigar você especificamente, mas mulheres que tiveram bebês  em 31 de outubro de 1997, o dia em que eu nasci. Então ele descobriu que você havia sido mãe de uma menina nesta data, foi uma coincidência nós já nos conhecermos. – fiquei pasma quando vi seus olhos se encheram de lágrimas, mas ela as segurou, Apolo disse tenso:

- Porque está fazendo isso, garota? Não vê que a machuca?- e  Sasha o acalmou dizendo:

- Não se preocupe, meu amigo. Já passou muito tempo, dói menos. Sim, eu tive um bebê neste dia, mas  minha filha morreu, antes mesmo que eu pudesse segura-la...Morte súbita, é comum em bebês, foi o que me disseram.

- Quem é o pai da sua filha?- perguntei enfática e ela se esquivou:

- O bebê era meu, e de mais ninguém. Porque isso é importante para você?- e eu respondi:

- A filha de Christine Ivashkov morreu naquele dia.  -  vi que ela arregalou os olhos e olhou para Apolo, confesso que pensei que estava num filme da Disney e que ela milagrosamente ligaria os pontos, olharia para mim com reconhecimento e começariamos a cantar felizes, mas ela não o fez.

- Que absurdo! Você é filha deles, e está bem viva na minha frente, não sei porque quer saber da minha vida pessoal, acho que seria bom você ir embora, não estou gostando desta situação.- vi Apolo, se levantar com cara de poucos amigos, para me tirar dali, me aproximei dela, a olhei nos olhos e disse:

- Escute por favor: naquele dia, a filha de Christine morreu no berço, e ela não queria que George soubesse, então ela se aproveitou que uma mãe, estava muito dopada no leito de hospital e trocou as crianças. Você não entende? A  criança trocada naquele hospital era eu. Eu sou a sua filha.

- O que é que você está dizendo? Isso é surreal demais...- ela dizia me encarando, porém sem se deixar tocar.Embora, fosse dificil para mim, eu disse:

-Sasha, eu sei que é dificil de acreditar, mas poderiamos fazer um exame de DNA e ai tudo seria esclarecido, eu poderia inclusive saber sobre o meu pai... – ela começou a levantar a mão para me tocar, mas parou séria:

- Não! Isso não pode ser verdade, eu saberia se a minha filha tivesse sido tirada de mim. Você deve estar querendo irritar a sua mãe e o seu pai, e quer me usar para isso.  – eu ri sem humor algum.

- Eu poderia dizer a Christine que ela é um ogro e ela nunca iria ligar, porque não temos a menor afinidade, e George? Ele me despreza, porque sabe que não sou filha dele, acha que sou filha de um amante da Christine. Não nasci dela, nasci de você, e sinto muito que você não consiga acreditar. Eu acredito nisso, porque li os diários de minha avó e lá ela conta toda a situação, inclusive sobre a herança que ela fez chegar às mãos da minha mãe biológica. E eu sei que você recebeu uma herança alguns meses depois que eu nasci...- e ela me cortou:

- Sim, recebi uma herança de um parente e não de sua avó. Gostaria muito que esta história fosse verdade, Leonora, você é uma menina incrível, mas eu não sou a sua mãe, não poderia ser. Esqueça isso, e siga a sua vida, será melhor para todos.  – nos olhamos por alguns segundos  e eu me rendi, pois percebi que ela falava a sério:

- Peço desculpas pelo inconveniente, não queria aborrece-la. Adeus. – sai da casa dela e não olhei para trás. Eu só queria voltar para casa e dormir muito para esquecer este dia.


o-o-o-o-o-o-o-


A porta mal se fechou atrás de Leonora, e Sasha se atirou no peito do amigo, chorando. Apolo, a segurou com carinho e quis saber:
- Mariska, porque você fez isso? Aquela menina pode ser sua, porque não dar crédito a ela?
- Eu não queria acreditar quando ela começou a contar a sua história, mas quando ela falou sobre a herança, eu me convenci de que ela é minha.Céus, minha filha está viva, Apolo, e é linda, estou tão feliz por isso, é mais do que mereço.- recomeçou a chorar, e o homem a abraçou dizendo:
- Então porque você não disse que ela estava certa? Você chora até hoje pela sua menininha...
- Porque quando eu recebi aquele dinheiro, uma das condições fosse de que eu nunc a mais me aproximasse de George ou da sua família, e eu concordei sem nenhum remorso, estava magoada com ele, e havia perdido o que mais amava no mundo. Sim, eu sabia que era dinheiro da velha Leonora. Achei que era uma mãe  defendendo o casamento da filha e hoje percebo que não era isso. – como ele a olhasse confuso, ela explicou:
- Você não entende? Sem saber eu vendi a minha filha.


Continua....

Wednesday, June 20, 2012

Por Robbie von Hoult

Era a primeira vez que resolvia passar o fim de semana em casa desde março. Sempre preferia ficar em Durmstrang com Alec ou acompanhar as meninas em algum passeio do que passar dois dias em casa aturando meu pai questionando tudo que faço, mas meu namorado precisou ir para casa com o irmão e as meninas estavam ocupadas demais com seus próprios namorados, então resolvi encarar as criticas.

A casa inteira cheirava a carne cozida quando abri a porta da sala. Reconheceria aquele cheiro a quilômetros de distancia, alguém estava fazendo Hachee, carne cozida em holandês, o prato favorito de minha mãe. Segui o aroma até a cozinha e fui pego de surpresa ao ver mamãe sentada no balcão lendo uma revista e papai atrás do fogão mexendo nas panelas. O balcão estava uma bagunça, com os ingredientes do cozido espalhados por todo lado. Mamãe abriu os braços para que fosse até ela com um sorriso animado no rosto. Abracei-a apertado, estava morrendo de saudades, e sentei ao seu lado no balcão.

- O que está acontecendo aqui? – perguntei vendo a bagunça – Por que está deixando papai cozinhar? Está tentando se envenenar?
- Sua pouca fé me ofende, Robert – papai disse com um tom divertido, algo raro – Já esqueceu que era um forte concorrendo no concurso de Leonora?
- Eu sei que o senhor era um dos participantes, mas não lembro da parte do forte.
- Pois saiba que fui longe na competição e sou um excelente chef – ele pegou uma colher na gaveta e pegou um pedaço da carne, estendendo-a pra mim – Se não acredita, prove.
- Vá em frente, prove – mamãe me encorajou quando hesitei e peguei a colher.
- Uau, isso está mesmo bom – disse surpreso devolvendo a colher vazia.
- É claro que está bom, por que acha que sua mãe está comigo até hoje? Não é só pelo meu charme, mantenho-a comigo porque ela também se apaixonou pelo meu Hachee.
- É verdade, seu pai preparou esse prato em um jantar entre amigos para me convencer de que era um bom partido – mamãe disse rindo – Não acreditava muito nele, mas é tão raro encontrar um homem que saiba cozinhar que resolvi dar uma chance.
- E o resto é história... – papai completou e se debruçou no balcão para dar um beijo nela – Você sabia que o nome de sua mãe significa “Pura Beleza”?
- Que bonitinho, papai. Não sabia que era tão romântico.
- Seu pai sabe ser encantador quando quer – mamãe piscou para ele.
- Nunca julgue um livro pela capa.

Ele voltou à atenção ao Hachee, mamãe continuou folheando sua revista e puxei um jornal da mochila, abrindo no espaço limpo do balcão. Era o último exemplar do Aurora Boreal que havia salvado da destruição. Estava encucado com uma palavra-cruzada que sempre tinha nas edições. As perguntas eram as mais bizarras possíveis e estava convencido que não era uma simples brincadeira, que ele tinha algum significado. Estava encarando o quadro em branco há tanto tempo que mamãe já havia saído da cozinha e minha fixação naquele pedaço de papel acabou chamando a atenção de papai.

- O que está fazendo, Robert? – perguntou curioso.
- Não consigo concluir essa palavra-cruzada, é muito esquisita.
- É o jornal da escola?
- Mais ou menos... É um jornal clandestino, Lucian vem tentando acabar com ele, mas é pior que erva daninha. Quanto mais arrancamos, mais copias aparecem.
- Sou bom em palavras-cruzadas, diga o que tem ai.
- Sete letras. Amante de Morgana e inimigo de Artur – li a primeira pista.
- Accolon – ele respondeu de imediato e vi que cabia no espaço.
- Sim, serve. Muito bom pai!
- Mande outro.
- Oito letras. Condestável e um dos principais conselheiros de Artur.
- Bedivere – mais uma vez serviu.
- Cinco letras. Rei de Gaunes, irmão de Leonel, primo de Lancelot e de Heitor. Um dos que chegou ao fim da demanda do Graal.
- Boors – ele disse menos empolgado dessa vez, mas igualmente rápido – Filho, quem faz esse jornal?
- Ninguém sabe, mas definitivamente é um aluno – respondi e voltei a ler as dicas – Ok, esse é grande, 11 letras. Filho de Cador e que se tornou Rei após a morte de Artur.
- Constantino – papai respondeu sem nem pestanejar – Se não sabe quem faz esse jornal, por que está tão empenhado em completar isso?
- Porque acho que em algum lugar aqui, tem uma pista sobre o autor. Esse cara é muito arrogante, roubou os textos do Lucian e os publicou como se fossem seus, ele gosta de aparecer. Tem que ter uma pista.
- Talvez seja melhor não mexer com isso, não sabe com quem pode estar lidando.
- É um aluno, pai. Tem no máximo 17 anos, o quão perigoso pode ser? Vamos lá, só faltam mais alguns.

Papai hesitou em continuar me ajudando, mas acabou cedendo. Completamos todas as perguntas e vi que a palavra chave era Cinturão de Orion. Palavra estranha e sem sentido para ser o destaque de uma palavra-cruzada, o que só me deu mais certeza de que tinha algum significado oculto. A panela pediu a atenção de meu pai e deixei-o sozinho na cozinha, me acomodando no sofá e recomeçando a ler o jornal inteiro com mais atenção, mas depois de alguns minutos ele apareceu na sala e o tomou de minha mão.

- Pai! Estava lendo isso! – tentei pegar o jornal de volta, mas ele não deixou.
- O que está fazendo, Robert?
- Tentando descobrir quem é o autor do jornal, já disse. Cinturão de Orion é uma constelação e não tem nada a ver com esses nomes malucos que você ditou como resposta, não é possível que seja só uma simples palavra-chave.
- Está perdendo seu tempo com isso, quando devia estar se dedicando ao seu futuro – e já ia começar o sermão.
- Eu estou! Jornalismo investigativo! Isso é uma profissão decente, não acha? – respondi irritado.
- Você nunca se interessou por jornalismo, só está dizendo isso para justificar essa perda de tempo! – e sacudiu o jornal na minha cara – Está perdendo tempo com jornalismo quando deveria estar se preparando para a audição na Julliard!
- O que? – baixei o tom de voz em estado de choque.
- Não foi sempre esse o seu sonho? Conseguir uma vaga nessa academia? – assenti ainda em choque – Então por que não está se preparando?
- Eu não... Pensei que... Por que está me cobrando isso? Você sempre disse que arte é uma perda de tempo.
- Bom, eu não acho mais. Não quero que escolha uma profissão só para me agradar e acabe a vida inteira infeliz por isso. Se o que você quer é entrar para Julliard, vou lhe apoiar.
- Não sei bem como reagir a isso.
- Que tal começar a se preparar? Anda praticando no piano?
- Sim, pratico toda semana.
- Até quando é o prazo para enviar o vídeo de inscrição?
- Acho que semana que vem. Por quê?
- Porque vamos gravá-lo hoje. Vá para o piano agora mesmo, vou buscar a câmera.

Papai subiu as escadas correndo com o jornal na mão e quando desceu não estava mais com ele. Não vi alternativa senão sentar na frente do piano e praticar um pouco. Mamãe sentou ao meu lado para me ajudar a corrigir o que precisasse e papai ligou o laptop e ia lendo as perguntas da ficha de inscrição em voz alta para que eu respondesse e ele digitasse. Ele me filmou tocando Sonata ao Luar e lacrou tudo em um envelope pardo, garantindo que segunda-feira pela manhã estaria no correio.

Todo o apoio de papai e sua determinação em me fazer conseguir a vaga em Julliard eram ótimos, pela primeira vez em anos estávamos nos entendendo e curtindo a companhia um do outro sem brigas, mas em momento algum me esqueci do jornal. A reação dele enquanto me ditava as respostas não passou despercebida, ainda mais depois da explosão na sala quando o tomou da minha mão.

Optei por não tocar mais no assunto para não comprometer o fim de semana, mas quando pisei de volta em Durmstrang no domingo à tarde, a primeira coisa que fiz foi correr até a Kratos para falar com Lucian. Ele estava com Lenneth na sala quando entrei e expliquei toda a história, desde as respostas esquisitas da cruzada, a palavra-chave sem sentido e a reação de me pai. Ele ouviu a tudo calado e pela sua expressão, sabia que estava convencido que tinha algo maior acontecendo.

- Tem alguma ideia do que pode ser isso? – perguntei ansioso.
- Talvez, mas não posso dizer, não sei até que ponto é seguro – disse misterioso e achei melhor não insistir. Investigar tudo bem, me colocar em risco nem pensar.
- Cinturão de Orion pode ser algum tipo de senha.
- Acham que tem algo a ver com Orion? – Lenneth perguntou falando baixo.
- Não, não acredito que seja ele – Lucian não parecia inteiramente convencido quando falou – Mas em todo caso, não coloco minhas mãos no fogo.
- Se isso é uma senha, é usada em que? – ele perguntou.
- Onde quer que ele use para fazer o jornal. Lembra quando ele publicou alguma baboseira sobre aptos a ajudar encontrarão o caminho? – eles assentiram – E se o caminho inclui uma senha?
- Mas como saber para onde ir? – Lenneth perguntou.
- Correndo o risco de soar como teoria da conspiração... – eles riram – Acho que a localização muda sempre, e cada edição vem dizendo onde encontra-lo na próxima vez.
- Acha que tem algum enigma espalhado pelas matérias? Isso faz sentido... – Lucian agora havia embarcado no meu delírio.
- Não sei onde pode estar, mas estou disposto a ler um por um, dúzias de vezes, até descobrir.
- Eu ajudo! – Lenneth prontamente se ofereceu.
- Certo, vamos fazer isso – ele concordou – Tenho uma cópia de cada exemplar trancado na redação do Expresso Polar, cada um fica com uma pilha. Vamos analisar cada centímetro desse jornal até encontrarmos uma pista. Não vou me formar sem descobrir quem é esse Antaris.

Fui com eles até a redação do nosso jornal e voltamos para as repúblicas cada um com uma pilha de jornal nos braços. Sei que devia reservar todo o meu tempo livre estudando para os exames, mas estava gostando da ideia de investigar o tal Antaris. Estava convencido que as edições iam nos levar até ele e não ia descansar enquanto não provasse que estava certo. E eu nunca estava errado. 

Thursday, June 07, 2012

Voltei para a república e ela estava vazia, afinal era sexta feira. Poucos são os que passam o fim de semana na escola quando podem ir para suas casas ver suas famílias. Subi para o quarto e após me trocar, voltei a olhar as pastas que o detetive havia me dado. Uma delas trazia um presente e a outra era um dossiê detalhado sobre minha possível mãe biológica. Porque por mais que meu detetive fosse competente, só mesmo um exame de DNA, iria comprovar o meu parentesco com Sasha.
Não consegui ficar parada, e comecei arrumar o meu guarda roupa, talvez trabalho duro fizesse com que eu tivesse idéias mais claras. Quando Parv chegou eu já havia separado uma mala de roupas e sapatos que não queria mais. Ela foi pegar seu pijama e se espantou:
- Voê arrumou meu guarda roupa também?
- Sim, também separei umas roupas suas para lavar....Acho que vou arrumar o lado da Jude, será que ela se importa? - disse já abrindo uma gaveta, quando senti Parv me segurar pelo braço e me virar para ela:
- Léo, o que está acontecendo? Você parece preocupada...– e me olhou séria, me desvencilhei:
- Não, não leia meus pensamentos....
- Não vou fazer isso, eu só quero saber o que está havendo? É sexta-feira à noite e você normalmente está com o Mitchell em algum canto namorando.
- Ele foi treinar em Sofia. Hey, você também tem namorado porque não está com ele?- disse defensiva e ela respondeu:
- Treino extra de hóquei. Conte-me o que o detetive descobriu, e que está te deixando maluca assim. Somos amigas lembra?- assenti e quando abri a boca, Robbie abriu a porta e já foi entrando com uma sacola dizendo:
- Parece que cheguei no momento certo da fofoca. Estamos falando de quem??- disse pegando duas cervejas amanteigadas e nos entregando, enquanto Parv respondia:
- Vamos falar da Léo. Ela falou com o detetive e voltou preocupadissima, já fez faxina no guarda roupa dela e no meu. Daqui a pouco desce para cozinha.
- Santa Lady Gaga, a situação é grave.Conte-nos tudo e não esconda nada,Léo. O que o detetive bonitão descobriu?- Tomei um gole da cerveja e disse:
- Ele investigou todas as mulheres que tiveram meninas, e...descobriu a mulher que pode ser a minha mãe biológica.
- Sério? Isso é ótimo! Não é?- quis saber Parvati e eu me levantei impaciente:
- Sim, é. Quer dizer...Não sei....
- Leonora Marie, desembucha logo, não estou ficando mais jovem com esta espera.- resmungou Robbie e eu resolvi usar a técnica do band-aid em machucado, de puxar de uma vez, no meu caso foi falar:
- A mulher que perdeu um bebê horas depois de nascer, chama-se Mariska Dobrev, é empresária, nunca se casou e não consta o nome do pai da criança nos documentos do Hospital ou algo sobre um relacionamento sério. - Robbie abriu a boca e não o deixei falar, continuando:
- Temos o mesmo tipo sanguíneo, ela é loira, tem a idade adequada...Ah e eu a conheço. Ela é uma boa pessoa, mas o problema são os negócios dela. Ela é dona da Luxury. Sim, minha ‘mãe’ é dona do inferninho do vilarejo. Depois disso, vocês sabem que não vou mais poder ficar com o Mitchell, é claro. Como vou dizer para a familia dele que minha mãe é uma striper aposentada? O que vão pensar de mim? Eu não quero dizer isso a ele, e isso está me deixando louca.- falei e fiquei olhando para meus amigos. Parvati após alguns segundos se virou para Robbie e disse:
- Acho que vou fazer mechas californianas...
- Inaugurou um salão ótimo no vilarejo, posso marcar uma hidratação e podemos ir juntos, o que acha?- olhei para o bate papo dos dois e interrompi:
- Hey, o assunto aqui sou eu, podemos voltar ao meu problema?- Robbie se virou e disse:
- Problema?? Leonora você está nos cansando com a mania de querer terminar com o Mitchell por coisas idiotas.  E se você fizer isso, juro que darei a maior força para ele nunca mais olhar na sua cara, detesto covardes.
- Coisas idiotas? Não são...- Parvati interrompeu séria:
- São idiotices sim. E daí que a sua mãe possa ser uma stripper, é muito melhor do que a psicótica da Christine não é? Não me parece que ela seja uma pessoa ruim, já que ela ajudou você e o Finn, daquela vez.E Robbiem está certo, você está sendo covarde.Ela é ruim?
- Cautela não é covardia. Não, ela não é ruim, Sasha é legal. Muito!  Sabe... quando eu disse que fui para um Spa, eu não disse a verdade, fiquei hospedada na casa dela em Sofia. O segurança dela foi quem me ensinou a malhar.Foram muito atenciosos comigo... E a casa dela é normal, ela tem bom gosto.- expliquei:
- Viu? É uma boa pessoa e não obriga ninguém a ir ao estabelecimento dela, vai quem quer. – disse Robbie e Parv completou:
- Acho que o único problema que temos aqui é se você deixar o preconceito falar mais alto, e isso não tem nada a ver. Não somos mais aquelas pessoas.  - suspirei e respondi:
- É não somo mais...O pior é que sinceramente eu não ligo para o que ela fazia ou faz da vida, não posso e não tenho direito de julga-la, porém estou com receio de dizer a ela que sua filha não morreu e o que vai acontecer a partir daí. Ela não teve tempo de ser mãe de um bebê, será que vai querer ser mãe de uma filha adulta? Não que eu precise de uma mãe, mas...
- Léo, você só vai saber disso quando contar a ela, e acho que pelo menos amigas vocês já são, então isso não vai mudar, deixa o resto vir com o tempo. Eca, fui tão ‘Doutor Pace’ agora..- disse Parvati:
- Se você quiser, podemos ir juntos com você, até a Luxury, tenho curiosidade de ver como é lá dentro. Os garotos voltam empolgadíssimos, vamos? Diga que sim, diga que sim. – pediu Robbie animado e acabamos rindo:
- Não vou falar com ela hoje, ainda há coisas no diário da vovó que preciso entender para poder explicar como tudo aconteceu. E não vou mais pensar em terminar com o Mitchell ok? O surto passou. – ficamos conversando até tarde, quando Ozzy e Alec apareceram na república para buscar os seus pares, aproveitei e fui me deitar, teria que ir cedo para Sofia. Era o momento de conversar com o meu advogado e confirmar se aquela pasta azul, me daria a segurança que eu precisava.

-o-o-o-o-o

Depois de conversar com o Doutor Jarod, fui para casa e após cobrir de carinhos uma Condessa que a cada dia estava mais pesada, fui para a minha cama e continuei a ler os diários de minha avó. Havia muitos relatos das reuniões de família e inclusive uma foto rasgada que estava colada com fita adesiva, eu tinha uns quatro anos. Era o dia dos Pais e eu havia dado a George, um peso de papel roxo, feito de argila, no formato da minha mão e ele sorria, enquanto comparávamos o tamanho de nossas mãos, e nos abraçávamos para a fotografia. Fechei os olhos, ainda podia ouvir claramente nossas vozes em minha cabeça:
-“ Você gostou papai? Sim querida, é o presente mais bonito que ganhei, vai ficar comigo no escritório’....’Te amo papai’...”Eu também te amo, filha’... – não me lembro de termos trocado mais nenhum abraço depois daquele dia. Afastei as lembranças e continuei a ler os diários, e haviam muitos detalhes, que me fizeram entender o quanto minha avó me amou e lutou por mim. Adormeci e acordei com Mitchell me beijando:
- Nossa, dormi tanto assim? Você até ja voltou para casa.- e não falei mais nada, enquanto ele se deitava ao meu lado, me abraçando forte e me cobrindo de beijos. Mais tarde, estavamos na cozinha jantando e enquanto Mitchell comia com vontade, eu jogava a comida de um lado a outro no prato. Ele parou, e perguntou:
- Algum problema? Você está calada e não está comendo.
 - Conversei com o detetive.- respondi e ele me olhou mais atentamente. Deixou o prato de lado, esperando que eu me decidisse a falar o que quer que estivesse me incomodando, e eu contei tudo o que havia dito a Robbie e Parv, inclusive a parte de que pensei em terminar com ele, por causa da minha possível mãe biológica. 
- Se você quer terminar porque não me ama mais, eu aceito. Mas por causa de sua mãe ter sido uma stripper? Esqueça, arrume uma desculpa melhor, porque esta não me convenceu. – comecei a sorrir mas ele levantou a mão, e juro que nunca o vi tão zangado:
-Sabe eu odeio o George, que foi um covarde por não ter amado você, que te mostrasse que nem todos os homens fogem quando a situação fica difícil.
- Eu não sou a filha dele...
- Ah por favor, Madison não tem o nosso sangue e meu pai é maluco por ela. Aquele homem  foi um egoísta desgraçado, que descarregou a raiva numa criança indefesa e isso eu não consigo perdoar. Isso fez com que você ficasse insegura, frágil e cruel. Sim, cruel porque me ofende a cada vez que pensa que eu não posso estar apaixonado por você e que vou te deixar quando os problemas aparecerem. Pois eu não vou Leonora, não vou! –disse se levantando e com a voz alterada e eu disse:
-Entendi Mitchell, não precisa gritar. – e ele se sentou mais calmo, porém irritado e eu continuei: - Você tem razão em tudo o que disse, eu só queria que você soubesse sobre o meu passado, para não se sentir enganado, quando tudo vier à tona, pode ser um escândalo. - e ele respondeu:
- Entrei em nosso relacionamento de olhos bem abertos, sou grandinho.- e eu o olhei firme nos olhos:
- Sim, você é. E eu o amo, não vou mais pensar em terminar nosso namoro, até porque Robbie disse que se eu ousar fazer isso, ele vai te dar a maior força, talvez até te arrume uma namorada linda. – e ele deu um  sorriso de canto de boca, e tomou um pouco de água. Levantei-me fui até a sala e peguei a pasta azul, e dei a ele para ler. Após olhar os papéis, ele voltou os olhos para mim:
- Não sabia que você tinha estado comprando o controle das ações das empresas. George desconfia que você detém o poder de destituí-lo da presidência?
- Não, ainda não, mas quando souber, ele e Christine virão com tudo para cima de mim. – ele deixou a pasta em cima da mesa e veio me abraçar dizendo:
- E vamos estar prontos para enfrenta-los, Leonora. Juntos!

I don't wanna be someone who walks away so easily
I'm here to stay and make the difference that I can make
Our differences they do a lot to teach us how to use
The tools and gifts we've got yeah we got a lot at stake
And in the end, you're still my friend
At least we didn't intend
For us to work we didn't break, we didn't burn
We had to learn how to bend without the world caving in
I had to learn what I've got, and what I'm not
And who I am
I won't give up on us
Even if the skies get rough
I'm giving you all my love

Nota da autora: Trecho da música ‘I won’t give up’, Jason Mraz

Wednesday, June 06, 2012

Maio de 2016

A conversa que tive com meus pais uma semana depois de descobrir minha verdadeira origem foi a mais difícil da minha vida. Quando finalmente entenderam o que estávamos dizendo, depois de passado o choque inicial de ouvir a parte de nunca mais morrer, mamãe começou a chorar e papai ficou tão transtornado que tudo que conseguia dizer era que ia processar o hospital nem que isso lhe custasse o emprego.

Os dois se acalmaram depois de um tempo, mas mesmo vendo a foto de Emma e todas as semelhanças que ela tinha com Alexis, papai insistiu em não fazermos nada antes de um exame de DNA. Embora não fosse realmente necessário, ambos me asseguraram que nada mudaria na nossa vida, independente do resultado. E o resultado, é claro, provou que eu não era filha deles.

- Queria me ver, Dr. Pace? – bati na porta aberta do escritório dele, uma semana depois de lhe contar o resultado do exame.
- Sim, entre e feche a porta, por favor – ele indicou o sofá e sentei – Conversei com Emma e seus pais.
- E então?
- Bom, digamos que a reação deles foi melhor que a sua.
- Eles estão felizes com isso? – perguntei espantada e ele riu.
- É claro que não, mas foi mais fácil para eles aceitarem. A notícia trouxe mais explicações do que questionamentos. Os pais dela, seus pais, querem lhe conhecer. Seus pais também querem conhece-la, não é mesmo?
- Sim, querem, mas eu ainda não estou pronta para conhecê-los. Se eles quiserem conhecer Emma não me incomodo, mas ainda não estou pronta.
- Sem problemas, ninguém vai forçá-la a nada. Quando achar que está na hora, basta me avisar e arranjo o encontro.
- Como eles são?
- Não hesitou dessa vez – ele me olhou surpreso e sorri – Nikolaj e Emilia são excelentes pais e tenho certeza que irá gostar muito deles.
- Só isso?
- Isso é tudo que precisa saber. Vá para sua viagem de formatura e aproveite a semana para relaxar e esquecer isso tudo. Quando voltar, conversaremos mais sobre eles. Prometo.

Assenti sem discutir e voltei para a Atena para arrumar a mala. Partiríamos para uma semana no Hawaii no dia seguinte e tudo que pretendia fazer era tomar sol deitada em uma espreguiçadeira. Longe de Durmstrang, longe do drama. Uma semana de paz.

°°°°°°°°°°

A ideia da semana de paz durou menos de 24h. Na manhã seguinte, quando a professora Yelchin nos organizava para a partida, descobrimos que essa viagem seria simultânea a viagem de formatura de todas as grandes escolas bruxas do mundo. Resumindo, estaríamos hospedados no mesmo hotel que todos os alunos do 7º ano das delegações que competiram nas Olimpíadas um ano antes. Ou seja, por uma semana eu estaria no mesmo hotel que Emma Blanchard.

Estávamos hospedados no Sheraton Kauai e era um hotel tão maravilhoso e com tantas coisas a oferecer que por cinco dias não precisei de nenhuma desculpa mais elaborada para não acompanhar meus amigos nos passeios pela cidade ou em uma simples ida à praia e passava o tempo inteiro evitando contato com outras pessoas. Durante a semana inteira aproveitei tudo que o hotel oferecia, em especial o spa, com massagens diárias, ofurô e aulas de pilates. Eram tantas coisas com a intenção de relaxar você que passava boa parte do meu dia em outra dimensão, mas sempre que alguém estranho se aproximava todo o tempo gasto em relaxamento evaporava. Era extremamente cansativo. Se pudesse passaria o dia inteiro trancada no quarto, mas não podia me esconder pra sempre.

- Você vai à festa hoje – Ozzy sentou na espreguiçadeira ao meu lado.
- Er... Não, obrigada.
- Não perguntei se quer ir. É a nossa última noite aqui e eles vão fechar o parque aquático à noite pra uma confraternização com todas as escolas de magia. Todo mundo vai e você também.
- E como isso vai acontecer? Pretende me arrastar até lá à força? – perguntei sarcástica.
- Se for preciso, sim. Desde que chegamos você não saiu de dentro do hotel, Parv! Não fez nenhum passeio com a gente, não conheceu nenhum lugar. Essa viagem é para aproveitarmos nossos últimos dias juntos e você se escondeu de todo mundo. Poxa, nós mal passamos tempo juntos.
- Desculpa, também queria ter passado algum tempo com você.
- Por que esse medo todo? Já parou pra pensar que ela pode estar se escondendo de você também?
- Isso não me ocorreu.
- Anda, vamos – ele levantou da espreguiçadeira e estendeu a mão pra mim – A festa começa em uma hora e não vou deixar você passar a última noite aqui sozinha.
- E se eu entrar em pânico e me desconcentrar? Com toda aquela gente no parque vou entrar em colapso.
- Não vou sair do seu lado, pode se desconcentrar a vontade.

Peguei sua mão e deixei que ele me puxasse pra cima dele e me beijasse. Ozzy tinha razão, as viagens de formatura sempre tinham o propósito de unir as turmas e permitir que elas tivessem um pouco de diversão e tempo livre antes de cada um seguir o seu caminho. Muitos de nós nunca mais nos veríamos e até então eu não tinha aproveitado nenhum tempo livre com meus amigos. Se esbarrasse com Emma no parque, então teria que lidar com isso. Não ia sacrificar minhas últimas horas no Hawaii me escondendo.

°°°°°°°°°°

Sempre gostei de parques aquáticos. Subir até o topo das imensas escadas e descer a toda velocidade pelos variados tubos de água é sempre uma experiência única, mas visitar um parque aquático durante a noite é sem duvida a mais única de todas. Todos os tubos gigantes estavam decorados com luzes coloridas, uma mesa imensa com frutas e bebidas não-alcoólicas estava montada na praia da piscina de ondas e um palco havia sido montado no fim da piscina, onde um DJ ocupava todo o espaço com um equipamento de ultima geração. Todas as atrações do parque funcionavam normalmente, como se estivéssemos à luz do dia, então muitos alunos passavam correndo de um lado pro outro com bóias enormes debaixo do braço enquanto dançavam no ritmo da musica que o DJ mandava para as caixas de som.

- Relaxe um pouco, meu amor – Ozzy riu quando uma garota loira esbarrou em mim e apertei seu braço com força – Qual o problema se esbarrar com ela?
- O problema é que não vou saber o que fazer! O que digo a ela? Isso é muito estranho.
- Ela também não deve saber o que dizer, então diga apenas oi – ele sorriu e beijou meu rosto – E tem milhares de pessoas aqui, a probabilidade de você encontrá-la é mínima.
- Ah ótimo, por que foi dizer isso? Agora tenho certeza que vamos nos encontrar!
- Só porque eu disse que é improvável? – ele riu outra vez, mas eu não estava achando graça.
- Lei de Murphy. Ela não falha nunca.

Era verdade, ela nunca falhava. Separamos-nos de nossos amigos e caminhamos sozinhos até a mesa de frutas, estava morrendo de fome. Com tanto tempo relaxando acabava me esquecendo de comer e peguei um cacho de uva da mesa. Quando o ergui, outra pessoa tinha pego o mesmo cacho. Ia me desculpar e devolver o cacho quando ergui a cabeça e vi que era ela. Emma Blachard estava parada na minha frente, segurando a outra ponta dele. Soltamos na mesma hora e o cacho se espatifou no chão, rolando uva para todo lado. Congelei na mesma hora e ela virou de costas em pânico, agarrando o braço de um garoto que estava de pé ao seu lado.

- Dave, vamos embora agora! – ouvi-a dizer com a voz esganiçada.
- Em, calma. Não temos que ir embora – ele respondeu em um tom de voz reconfortante alisando seu braço.
- Sim, temos! – ela insistiu e me virei para Ozzy, que assentiu me incentivando.
- Não, não tem. Nenhuma de nós precisa ir embora – disse calma e o garoto que a segurava sorriu.

A hesitação dela era nítida, mas depois do que pareceram vários minutos, Emma me encarou. Era como se tivessem se passado três anos e Alexis estivesse mais uma vez diante de mim. A semelhança entre as duas era tão grande que por um instante me desestabilizei, mas Ozzy estava colado em mim como um guarda-costas e não houve nenhum acidente. Ela também me olhava com uma expressão estranha e por um breve segundo ouvi o nome Adam em seus pensamentos. Ozzy apontou para uma mesa vazia do outro lado da piscina e o seguimos.

- Certo... – Ozzy falou depois de um longo silencio – Oscar, mas pode me chamar de Ozzy. Sou namorado da Parvati – e estendeu a mão ao garoto.
- David, ou Dave – ele apertou-a animado – Namorado da Emma.
- Você trouxe algum baralho, Dave? – Ozzy perguntou e David riu. Dei um beliscão em sua perna.
- Olha, isso é tão esquisito pra mim quanto deve ser pra você, mas estou com fome e não peguei aquelas uvas, então vamos acabar logo com isso – disse de uma vez e acabei quebrando o clima tenso, porque ela riu.
- Isso é muito esquisito. Você é tão parecida com Adam que é como se ele tivesse crescido e virado mulher – David engasgou prendendo um riso e Emma o encarou.
- Quem é Adam?
- Meu irmãozinho. Quer dizer, nosso irmãozinho. Ele tem sete anos.
- Você se parece com alguém também. Alexis é... – parei de falar de repente e Ozzy apertou minha mão – Ela era minha irmã, nossa irmã, mas morreu ano passado.
- No acidente que permitiu que descobríssemos da troca – ela completou e assenti.
- Acho que já nos encontramos antes... – David falou pensativo e nós duas olhamos para ele, confusas – Sim, já nos encontramos! Nas Olimpíadas, foi você! Em, foi ela que quebrou a raquete na minha cabeça!
- Merlin, era você! – tapei a boca horrorizada e Ozzy começou a rir – Desculpa!
- Por que você quebrou uma raquete na cabeça dele?
- Ela atirou a raquete na minha direção, na verdade – David corrigiu e agora Emma ria sem parar – Chamei o garoto que fazia dupla com ela de gazela saltitante no calor do momento, juro que não sou homofóbico. Pedi desculpas depois, quando a forçaram a se desculpar na enfermaria.
- Robbie às vezes merece o apelido, não o julgo. Queria ter visto isso.
- Foi uma cena e tanto – Emma continuava rindo.
- E ainda assim vocês avançaram pra final?
- O jogo já tinha terminado e tínhamos perdido, não anularam o resultado – ela deu de ombros – Não acredito que era você. Como não reconheci Adam em você?
- E eu não reconheci Alexis em você.
- Bom, acho que todos concordamos que você estava muito ocupada atirando raquetes em estranhos pra notar as semelhanças – Ozzy sugeriu e David concordou.

Começamos a rir e dai em diante, a conversa fluiu com uma naturalidade impressionante. Emma não era parecida apenas fisicamente com Alexis, tinha muito de sua personalidade e era extremamente fácil conversar com ela. E David, tirando o episodio da raquete, era realmente legal. Passamos a festa inteira naquela mesa, trocando informações sobre nossas famílias enquanto todos se divertiam nos tobogãs e pista de dança. Voltamos para o hotel quando o parque ficou em silêncio e percebemos que a música havia parado. Despedimo-nos ainda no saguão, não íamos ter tempo de nos falarmos pela manhã, e prometemos uma reunião das famílias para o mês seguinte. Não achei que fosse estar preparada tão cedo, mas a verdade era que agora estava ansiosa para conhecê-los.