Tuesday, April 21, 2009

Deixei Evie na porta do teatro e tomei a direção contraria, caminhando de volta para a Spartacus. Sabia que o único modo de descobrir o que motivou a demissão de minha avó era lendo os registros de antigos professores e isso era algo que ficava nas gavetas do escritório do diretor. E se queria entrar lá sem causar minha expulsão a poucos meses da formatura, precisava estar invisível. Fui direto à gaveta de Chris. Sabia que ele tinha herdado a capa da invisibilidade de seu padrinho e tinha certeza que não se importaria que a pegasse emprestado por algumas horas, devolveria antes mesmo que ele desse pela falta dela.

Encontrei a capa enrolada com cuidado no fundo da gaveta e voltei correndo para o castelo. Não sabia ainda exatamente como ia entrar na sala, o diretor ainda estava lá, então sentei no canto do corredor coberto pela capa, esperando. Demorou até que as luzes do escritório se apagassem e o diretor saísse. Consultei o relógio e já passava da meia noite, todos já deviam estar dormindo nas repúblicas e notado minha ausência, mas não ia voltar atrás. Levantei do chão com cuidado para não ficar exposto e minha mão já estava quase tocando a maçaneta quando ouvi passos no corredor e saltei para o lado, assustado. Acendi a varinha por debaixo da capa e vi Victor caminhando perdido pelo corredor.

‘Ei, o que está fazendo aqui?’ Perguntei parando ao lado dele e Victor saltou assustado.

‘Quem está ai?’ Ele se virou para o lado procurando o dono da voz ‘Micah?’

‘O que está fazendo fora da cama até essa hora?’ Perguntei tirando a capa de cima de mim.

‘Posso fazer a mesma pergunta a você’ Respondeu com a sobrancelha erguida ‘O que está fazendo aqui? Por que não foi à reunião do time de trancabola?’

‘Ai, a reunião! Era hoje?’ Bati a mão na testa. Tinha esquecido completamente disso ‘Ela só acabou agora?’

‘Sim, Maddox se empolgou um pouco e não parava de falar’ Ele revirou os olhos e rimos ‘Mas ainda não me respondeu o que está fazendo aqui’

Abri a boca para responder, mas mais passos ecoaram pelo corredor e agarrei Victor pelo braço, abrindo a porta do escritório do diretor e empurrando ele para dentro. Os passos ficaram mais intensos e cada vez mais próximos, então joguei a capa por cima de nós dois e corremos para trás do sofá bem a tempo. A porta abriu e o diretor entrou na sala. Victor me olhou alarmado, mas ele apenas mexeu em alguns papéis na mesa e saiu novamente.

‘O que está fazendo?’ Victor sussurrou meio que em pânico quando o diretor saiu ‘Você estava rondando o corredor para entrar aqui, não é?’

‘Deixa de ser apavorado, Victor!’ Resmunguei e ele se ofendeu, me encarando indignado ‘Preciso procurar algumas coisas, então você tem duas opções: sair e se explicar com algum guarda que o pegar fora da cama essa hora ou ficar aqui, me ajudar e voltar pra republica coberto pela capa. O que vai ser?’

‘Então, o que estamos procurando?’ Victor desfez a cara feia e estalou os dedos, animado.

‘Melhor assim’ Sorri satisfeito ‘Preciso encontrar documentos sobre uma professora de Alquimia que deu aula aqui há uns 30 anos atrás, Morgana Zagreb. Era minha avó’ E ele se surpreendeu ‘E fique atento, se encontrar algo sobre Teodoro Schneider, me avise’

‘Certo. Morgana Zagreb e Teodoro Schneider. Entendi’ Ele fez sinal de positivo e caminhou até um arquivo no lado esquerdo da sala ‘Eu procuro desse lado e você procura ai, assim vai ser mais rápido’

Victor já foi logo abrindo as gavetas do arquivo e caminhei até o meu lado da sala, começando pela última gaveta. Cada pasta tinha o nome de um professor e demorou uma eternidade até que encontrasse a pasta com o nome Zagreb marcado. Era uma das mais grossas. Sentei no chão com ela no colo.

‘Encontrei a pasta dela’ Avisei a Victor ‘É bem pesada’

‘Vou procurar pelo outro nome que você quer, mas vai lendo em voz alta, agora quero saber o que tem ai’ Ele respondeu enquanto passava os dedos rápido entre as pastas.

‘Certo... Ela foi professora aqui de 1965 a 1978’ Comecei a ler o arquivo alto ‘Tem muitas observações positivas aqui, parece que era uma das melhores professoras da escola, tem avaliações dos alunos também’

‘Devia ser boa mesmo, para os alunos gostarem de Alquimia!’ Victor falou rindo e concordei.

‘Tem uma citação sobre o livro dela, foi usado como material didático por 3 anos’ Continuei lendo as páginas e resumindo para ele ‘Olhe isso, tem uma critica muito positiva do livro escrita pelo pai da Evie!’

‘Uau, isso sim é um choque, ele sabia ler?’ Victor riu alto, mas não respondi.

Na pagina seguinte a critica dele havia todo um documento sobre as descobertas que minha avó havia feito sobre a Reis & Sombras. O diretor relatava questionamentos da minha avó, alegando que um de seus alunos, Josef Parvanov, estava envolvido na sociedade e recebendo tarefas do líder dela, sendo que uma delas seria eliminar um outro aluno da escola. Ele relatava que mesmo depois de garantir que ia cuidar de tudo, e de ter impedido o crime, minha avó continuava a desconfiar das atividades da sociedade e passara a vigiar de perto Josef Parvanov. Há um registro do diretor sobre uma ameaça feita por Josef a minha avó e a insistência dela em vigiá-lo, e logo depois um documento assinando sua demissão.

‘Micah?’ Ouvi a voz de Victor um pouco atordoado ‘O que a foto da minha mãe está fazendo na pasta desse tal de Teodoro Schneider?’

‘Como?’ Perguntei também surpreso e ele me mostrou uma foto de uma menina de no máximo 14 anos, de pele clara, loira e de olhos verdes, que estava anexada à pasta ‘Essa é sua mãe?’

‘É sim’ Victor sentou na cadeira olhando fixamente para a pasta ‘Teodoro Schneider era pai dela. Esse homem é meu avô!’

‘Esse homem era o líder da Reis & Sombras de 1978 e que foi afastado do cargo pelo diretor da escola na época’ Repeti o que o avô de Evie havia contado e o queixo de Victor foi caindo aos poucos ‘As idéias dele eram similares as de Grindelwald e teve uma espécie de golpe do estado, proibindo até seus descendentes de fazerem parte da sociedade’

‘Então é por isso que eu nunca soube da existência dela’ Ele concluiu o que havia dito.

‘Leví é seu pai, certo?’ Perguntei olhando para uma pagina solta da pasta.

‘É sim, por quê?’ Victor logo se alarmou ‘O que tem ai?’

‘Minha avó descobriu que Teodoro Schneider havia escolhido Josef Parvanov como seu sucessor e delegado a ele algumas tarefas como teste. Uma delas era eliminar um aluno de 16 anos chamado Leví Neitchez’

Victor deixou a pasta que segurava cair e veio caminhando na minha direção, pegando a pagina solta e lendo seu conteúdo. Ouvi barulho vindo da janela e recolhi depressa todas as coisas espalhadas, escondendo a pasta de minha avó e a do avô de Victor no casaco, arrastando ele para fora da sala ainda em estado de choque segurando a folha na mão. Pelo visto eu não era o único cuja família tinha um passado obscuro em Durmstrang.

Algumas memórias de Ricard Dragash

‘Ok, Geórgia, desculpe. Isso não está dando certo. Acho que seria melhor se eu desistisse de fazer essa peça. Não levo o menor jeito para teatro, músicas... danças... Eu tentei e você me ajudou muito também.’ - me sentei na beirada do palco encarando as cadeiras vazias do teatro do vilarejo. – ‘Pelo menos Miyako e o restante dos meninos não vão poder dizer que faço questão de morrer tímido. Mas não se preocupe, está tudo bem.’

Mentira. Eu estava derrotado. Depois de muita insistência de Miyako – e o apoio irritante de Chris e Micah, principalmente - eu decidi que talvez entrar para as aulas de teatro não seria tão má idéia assim para me fazer um pouco menos retraído. Os primeiros meses foram ótimos e as aulas realmente estavam conseguindo seus objetivos iniciais. Geórgia também parecia ter decidido que ter um calouro tão bem disposto a se soltar nos palcos era uma oportunidade muito rara para deixar e escapar e, desde o começo, era como minha monitora voluntária das aulas, e não poderia negar que nos divertimos muito... Diversão que acabou com nosso retorno ao castelo para o segundo semestre e todos os problemas que saíram de dentro das malas.

‘Ok, já acabou com as abobrinhas? Antes de tudo: não se desiste de uma peça de teatro com tanta facilidade, como se estivesse desistindo de usar o casaco ao ver que está fazendo sol. É um compromisso sério, principalmente com você mesmo. Não pode simplesmente abandonar o posto para um substituto, como se fosse uma vaga de emprego. Você passou por seleções para conseguir esse papel, mereceu ganhar esse papel. Ninguém pode fazê-lo tão bem quanto você. Entende o que digo?’ – É claro que entendia que se desistisse agora, decepcionaria muitas pessoas que estavam contando comigo, mas ainda não via como iria conseguir continuar e, sem saber o que responder, fiquei calado. – ‘Seu argumento de que não tem jeito para isso é completamente sem concordância com o desenvolvimento óbvio que eu e o restante da turma acompanhamos a cada aula que passa... Além do mais, ninguém aqui tem voz de rouxinol e corpo elástico para dançar como os profissionais da versão original! Nós somos amadores, Ricard! Não temos que nos preocupar com as performances musicais perfeitas. Agora... levanta já daí. Você não vai sair dessa peça, não seja ridículo.’ - Ela disse impaciente e autoritária, se aproximando de mim e estendendo o braço para me ajudar a ficar de pé.

Fitei sua expressão por um minuto e percebi que seria inútil discutir. Estava decidida. Balançando a cabeça e me dando por vencido, agarrei sua mão e me forcei para cima novamente. Percebi que era só um pouco mais alto que ela quando nossos olhos se encararam incrivelmente próximos por um breve segundo, antes que ela desviasse o contato e soltasse nossas mãos, pigarreando.

‘Novamente, você não está se lembrando das regras fundamentais do teatro. Vamos repassá-las. Regra número um?’ - ela andava ao meu redor, rígida e profissional. Balancei a cabeça um pouco transtornado e tentei me concentrar.

‘A platéia é sua amiga. Você deve se soltar e se mostrar a ela o tempo todo. Nunca se esconder, nunca virar as costas, nunca se contrair.’ - Repeti mecanicamente e ela sorriu satisfeita, parando novamente na minha frente.

‘Ótima memória e melhor ainda teoria. Você entende? A platéia é sua amiga, Ricard! Você não precisa se esconder dela!’

‘Não é como se eu pudesse controlar!’ – respondi em tom defensivo, mas ela não me deu brechas para continuar. Suas mãos puxaram meus ombros para cima e empurraram minha barriga para trás. Depois levantavam meu rosto de maneira soberana.

‘Regra número dois, como você deve bem lembrar, é manter sempre a postura ereta e firme. Você é quem o texto quer que você seja. Não há espaços para crises de identidade e muito menos para insegurança. A postura diz tudo. Ela marca toda a presença de palco e... ah, droga!!! Mira vai nos matar!’

Ela interrompeu abruptamente o monólogo sobre as regras, exaltada. Acompanhei seu olhar até o relógio na parede e entendi o porquê: estávamos atrasados para a aula de Literatura Mágica, o que ultimamente em Durmstrang soava como “vocês estavam armando contra o Ministério”. Geórgia limpou todo o palco com um aceno de varinha e jogou sua mochila nas costas tão rápido que, quando dei por mim, estava sendo puxado por sua mão e correndo desabalado pelo túnel de volta ao castelo e dele, pelos corredores, derrapando na porta da sala de aula alguns minutos depois, sem fôlego.

A turma toda estava afobada e pareceu nem notar nossa entrada incomum, enquanto cortávamos caminho por todos até nos aproximarmos de onde nossos amigos estavam sentados; todos igualmente alheios à nossa chegada. Enquanto Geórgia se sentava e começava a abrir os livros sobre a carteira, eu tentava, inutilmente, descobrir o assunto de toda aquela conversa. Porém, antes mesmo que tivesse conseguido algum resultado satisfatório, Mira parou de frente a nós dois, nos encarando desconfiada.

‘Quase vinte minutos atrasados. Onde estavam?’

Involuntariamente, virei um pouco o rosto para Geórgia, tentando pensar rápido em alguma desculpa plausível. Nada parecia convincente. Geórgia porém abriu um meio sorriso para a professora e, quando falou, usava seu tom de voz mais formal, calmo e sincero, descartando qualquer dúvida.

‘Desculpe, professora. Nos atrasamos e não vai acontecer novamente. Estávamos vindo, mas fomos abordados por um dos trogloditas do Ministério que só nos liberou depois de um extenso interrogatório sobre as repúblicas, os professores e também, sobre o jornal.’

Mira curvou a boca em um risco fino e pálido de descontentamento. Embora tivesse que se portar profissionalmente, era evidente que ela estava chegando ao seu limite de paciência com a intervenção do Ministério em todos os aspectos de Durmstrang, principalmente, em seu jornal. Geórgia tinha acertado em cheio o ponto fraco.

‘Bem, eles cobram responsabilidade mas prendem os alunos nas horas de suas aulas? Oras, francamente!’ – resmungou para si mesma com raiva ao mesmo tempo em que dois funcionários do Ministério entravam na sala observando a todos nós com desconfiança. – ‘Bem, tudo bem então. Tentem escolher um caminho livre de obstáculos da próxima vez. Vocês dois vão formar uma dupla para o projeto, tudo bem? Aqui está o objeto de estudos. Os colegas de vocês explicarão melhor’.

Ela pousou sobre a mesa uma caixa grande e saiu, indo de encontro aos dois homens. Geórgia ainda sorria triunfante enquanto abria a caixa, mas sua expressão se tornou do mais puro choque um segundo depois, assim como a minha, quando vimos o que era nosso “objeto”.

Dentro da caixa havia um bebê que dormia profundamente, aninhado em um emaranhado de mantas e cobertores. Sua pele era negra e suas mãos perfeitas e pequenas se sobrepunham por baixo de pequenas luvas de tricô. Transtornado, encarava o bebê como se esperasse que ele acordasse e explicasse o que estava acontecendo. Olhei ao redor e me dei conta de que não era o único que estava perdido por ali enquanto encarava a própria caixa.

‘Tentem ler a carta que está junto do boneco. Vai ajudar vocês a montarem sua narração... Ah, e não se esqueçam de batizar o filho, hein?’ – Miyako disse com a voz baixa atrás de nós e sorriu, dando uma piscadinha. Ao lado dela, Griffon também sorria e, aparentemente, contava histórias sobre dragões e espadas para um boneco bebê de pele bem clara e olhos abertos, atentos a ele.

Como eu e Geórgia olhávamos a tudo ainda muito transtornados para perguntar alguma coisa, Miyako se levantou impaciente e se sentou ao nosso lado, começando a explicar todo o projeto e tudo o que tínhamos de fazer. Quando terminou, encarei-a abobalhado.

‘Nós vamos ter que cuidar de bebês? Eles perderam a sanidade!’ – disparei assustado enquanto fazia um sinal com a cabeça na direção da professora Mira e dos dois funcionários do Ministério, que conversavam entre si com as cabeças juntas.

‘Não são bebês, Ricard. São bonecos. E ah, agora que entendi tudo... até que não acho tão má idéia assim... ’ – Geórgia disse abrindo um meio sorriso enquanto puxava o boneco de nossa caixa para seus braços, acomodando-o confortavelmente. Ele se mexeu lentamente e abriu os olhos, fitando nossos rostos. – ‘Olá, bebê. Eu sou a mamãe, Geórgia. E esse é o papai, Ricard’. – ela falou com uma voz fina e meiga que fez meu queixo despencar alguns centímetros.

Ao meu lado, Miyako soltou uma espécie de tosse para abafar a risada e se levantou voltando ao seu lugar ao lado de Griffon (e do bebê deles, já bastante agitado, balançando os braços enquanto ouvia o desfecho da história sangrenta). Balancei a cabeça para tentar organizar os pensamentos e peguei um pergaminho dentro da caixa, abrindo-o e lendo-o em voz suficientemente alta para que Geórgia escutasse também.

“Vocês são um casal de classe média baixa e moradores do subúrbio de Londres. Impossibilitados de terem filhos próprios, adotam um bebê negro. Apesar de todas as dificuldades e preconceitos, vão lutar juntos para dar-lhe a melhor educação e todo o amor que sentem por ele.” – terminei de ler e olhei para Geórgia que brincava distraída com a mãozinha do boneco, parecendo encantada. – ‘Nos deram o tema mais polêmico. É o único boneco negro da turma. ’ – disse enquanto reparava ao meu redor os outros “bebês” e casais. Lavínia e Victor pareciam enfrentar dificuldades sérias para se entenderem em alguma questão ali perto, pois estavam discutindo e assustando o boneco deles, que se balançava ameaçadoramente nos braços de Lavínia cada vez que ela se exaltava.

‘É. Martin é único. ’ – ela respondeu com a mesma voz meiga de antes e voltei a me assustar com isso.

‘Martin?’

‘Sim. Acho que devemos chamar de Martin, para lembrar Martin Luther King. Ele tem cara de líder, não acha? Nesse ponto, sinto muito, mas ele me puxou. ’

‘Sinceramente? Ainda estou assustado demais para achar qualquer coisa. Tudo isso para nos mostrar o que é, verdadeiramente, a gravidez na adolescência? Não poderiam ter nos dado um pelúcio, ou qualquer outro animal, para cuidarmos?’ – respondi mal humorado e Geórgia sorriu, me encarando.

‘Você está estressado. Relaxa. Nós vamos nos sair bem. Martin me parece ser um bebê fácil de lidar... Ande, venha cá, o segure um pouco. ’ – ela estendeu um pouco o boneco na minha direção, que permaneci relutante. Mas Geórgia insistiu já começando a ficar impaciente e acabei cedendo. Martin se movimentou um pouco nas mantas para se aconchegar nos novos braços, mas logo me encarava com atenção e não pude deixar de sorrir. – ‘Ele é uma gracinha, não é?’ – ela perguntou ali do lado e não precisei concordar.

Enquanto nos organizávamos nos horários para cuidarmos de Martin, percebi que Geórgia tinha razão: até que não tinha sido tão má idéia assim. Poderíamos até nos divertir novamente com isso...

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Cuidar de bebês deixou todos os alunos do 7º ano com olheiras ainda mais fundas e menos tempo para qualquer tipo de lazer. No entanto, eu não poderia negar o fato de que para mim e Geórgia, tinha sido uma experiência engraçada. Martin era realmente um bebê muito tranqüilo e não via problemas em dormir grande parte das noites, mas, é claro, cobrava suas condições... Alimentá-lo de três em três horas e “brincar de esconder” – tapando o rosto com as mãos e depois tirá-las de supetão, de modo que o surpreendesse – eram apenas duas delas.

O dia de entrega do relatório do projeto e, conseqüentemente, da despedida dos bonecos, foi mais triste do que poderia ter imaginado. Geórgia parecia contrariada ao “apagar” Martin com um feitiço e recolocá-lo na caixa, em cima da mesa de Mira.

‘Nós fizemos um bom trabalho. Se realmente existisse, Martin terminaria como Ministro da Magia... No mínimo, editor-chefe de algum jornal clandestino de forças revolucionárias na escola, ou líder do grêmio acadêmico’ – tentei consolá-la enquanto andávamos de volta às Repúblicas. Deu certo. Ela sorriu sincera para mim.

‘Obrigada’

‘Não por isso’

‘Não, não por isso mesmo. Por ter paciência comigo. Eu admito que tenha um gênio difícil na maior parte do tempo e, definitivamente, não gosto de ser contrariada... Eu sei de tudo isso. Então... obrigada por estar me aturando por tanto tempo, ultimamente’ – ela continuava me olhando e sorrindo e quando chegamos à porta da Avalon, me virei para ela um tanto desconcertado.

‘A convivência comigo está te deixando muito sensível. Pensei que inseguranças eram o meu forte, não o seu. Você não tem que agradecer, Geórgia. Sério. Gosto do seu “gênio”. Me diverte. E você está me ajudando muito... com o teatro e o Martin. Não foi como uma obrigação maçante como pareceu que seria. Foi legal. Pra ser sincero, nem vejo o tempo passar quando estou com você...’ – admiti, me surpreendendo com minhas próprias palavras enquanto elas escapavam sem dificuldades. Abaixei os olhos, envergonhado, mas ela riu.

‘Também não vejo. Acho que esse seu jeito meio tímido, meio escrachado, totalmente inseguro – ela virou os olhos propositalmente e ri - me inspira a não ser tão impaciente...’

Nos encaramos alguns pares de minutos e quando o silêncio começava a ficar constrangedor, ela pigarreou, se sobressaltando.

‘Bem, acho melhor você voltar para a Spartacus. Faltam poucos minutos para o toque de recolher’

‘Hum, é. Certo. Então... boa noite’

‘Boa noite’

Me adiantei para dar-lhe um beijo no rosto e ela pareceu um tanto rígida e transtornada quando me afastei novamente. Assustado com minhas reações naquela noite, virei as costas e comecei a andar depressa em direção contrária, mas ela me chamou quando ainda não estava muito distante.

‘Não vou para casa esse final de semana então, estive pensando... podemos ensaiar teatro amanhã, se você não tiver outros planos...’

‘Não! Não tenho planos. Seria ótimo...’ – respondi um tanto sobressaltado e ela sorriu. – ‘Amanhã eu te procuro e podemos ir juntos. Tudo bem?’

‘Claro. Combinado. Até amanhã, então.’

Recomecei a caminhada, agora um pouco mais devagar, enquanto um sorriso se formava no meu rosto involuntariamente. Ainda não entendia bem o porquê, mas já estava ansiando pelo momento de passar mais algumas horas na companhia de Geórgia Yelchin.

Evie,

Espero que tudo esteja bem. É claro que sabíamos sobre sua irmã, mas decidimos respeitar a decisão de sua mãe sobre não contar nada a respeito disso para você e Max. Sinto muito que tenha descoberto dessa forma, mas não podemos conversar sobre isso através de cartas, há muita coisa a ser dita. Assim que tiver uma folga da escola, venha até Jeravna.

Fique bem e não tente mais interrogar sua família sobre isso, não é dessa forma que vai conseguir o que quer.

Beijos cheios de saudade,
Vivi, Nikki e Tessa.


Dobrei a carta que recebi das três e guardei dentro do livro. Não era bem a resposta que esperava receber, mas ao menos sabia que teria algumas duvidas sanadas assim que pudesse encontrá-las na casa de Nikki. Ouvi um grito e varias risadas em seguida, me trazendo a realidade. Estávamos na aula do clube de transfigurações avançada e Victor havia se desconcentrado, transfigurando a si mesmo em uma marmota sem rabo. A classe inteira ria, enquanto Chris tentava reverter o feitiço, já que ele não conseguia mais segurar a varinha.

Voltei minha atenção à aula, pois estávamos quase concluindo os estudos sobre animagia e fazendo o teste do Ministério. Depois de alguns feitiços combinados com poções, consegui descobrir que minha forma animaga seria uma lontra. Dentro do caldeirão de Micah havia a imagem de um cachorro imenso e ele parecia satisfeito. Estava ansiosa para fazer o teste, estudava animagia há quase 3 anos e transfiguração era, de longe, minha matéria favorita. A professora Mesic recolheu nossos relatórios com nossas formas animagas já definidas e ficou de começar um simulado do teste no próximo encontro, liberando a turma.

‘Que bicho apareceu pra vocês?’ Perguntei curiosa assim que deixamos a sala ‘Eu vou ser uma lontra e Micah um cachorro’

‘Eu sou um furão’ Nina falou rindo ‘Bem apropriado, bicho mais elétrico não existe’

‘Apareceu um guaxinim no meu caldeirão’ Gabriel comentou achando graça ‘Miyako é um esquilo, a cara dela!’

‘É, brigão e lindo’ Ela completou, jogando o cabelo pra trás de palhaçada. Vina torceu o nariz, mas ela ignorou.

‘E eu um urso, uma criatura forte!’ Ty inflou o peito para falar.

‘E estabanada... Perfeito pra você, Ty’ Milla completou, nos fazendo rir ‘Eu sou um gato, não é lindo?’

‘Ai, eu também vou ser um gato!’ Vina falou empolgada ‘Melhor que uma lebre, né Ricard?’ E Ricard fez uma careta quando rimos

‘Eu vou ser uma coruja das neves’ Annia falou um pouco orgulhosa, mas o sorriso presunçoso morreu quando Ty começou a imitar uma coruja, arregalando os olhos e correndo em volta dela.

‘Eu sou um macaco’ Chris falou não muito feliz, mas conformado ‘Shannon é uma raposa’

‘Eu sou aquela marmota mesmo, mas espero que com rabo!’ Comentou um pouco preocupado.

Descemos as escadas para o segundo andar rindo da cara que Victor fez e Micah e eu nos separamos da turma. Não tínhamos nenhuma aula naquele tempo e íamos aproveitar para visitar meu avô e perguntar sobre a época em que a avó de Micah dava aulas em Durmstrang. Bati na porta do escritório dele e quando vovô abriu a porta, não parecia surpreso em me ver. Talvez esperasse que eu aparecesse todos os dias, com mais interrogatórios sobre minha irmã.

‘Olá, boa noite’ Ele nos recebeu animado, abrindo espaço para passarmos ‘Boa noite, Sr. Wade’

‘Boa noite, professor’ Micah respondeu sem soltar a minha mão. Ele ainda se sentia um pouco intimidado pelo vovô e eu adorava aquilo.

‘Vovô, hoje não vim aqui lhe perturbar sobre história da nossa família’ Falei enquanto sentava no sofá e vi que ele parecia aliviado ‘Viemos para ouvir sobre a família dele’ E indiquei Micah com a cabeça.

‘Minha avó, senhor. Ela lecionou aqui há mais ou menos 30 anos atrás’ Micah explicou quando vovô fez uma cara de quem não estava entendendo ‘Morgana, era professora de Alquimia’

‘Morgan Zagreb era sua avó?’ Vovô falou espantado, mas riu em seguida, saudoso ‘Não acredito, que mundo pequeno! Nunca poderia imaginar que minha neta fosse namorar o neto de uma das melhores amigas que já tive nessa vida!’

‘Sim, esse era o sobrenome de solteira dela, ela nunca deixou de usar’ Micah se animou um pouco ‘Descobri semana passada que ela dava aulas aqui, mas que saiu de repente. O senhor saber o que aconteceu?’

Vovô vacilou por um instante e trocamos um olhar preocupado, percebendo que havia alguma coisa errada na história da saída dela. Encaramos os dois meu avô e ele se viu sem saída, senão contar a verdade.

‘A essa altura do campeonato vocês já sabem mais do que deveriam sobre a Reis & Sombras, então não é necessário rodeios’ Vovô começou e só de ouvir o nome daquela sociedade, me deu calafrios ‘Morgana descobriu a existência dela, mas não me perguntem como porque eu não sei. Não sei até que ponto ela se envolveu, mas seu pai era vigiado de perto por ela’ E apontou para mim ‘Morgana seguia Josef para todos os lados e de uma hora para outra, o diretor decidiu afasta-la do cargo. Ela nunca chegou a me contar o que aconteceu e depois de um tempo afastada da escola, acabamos perdendo contato. Soube que ela faleceu há 4 anos e isso me abalou muito, pois nunca tive a oportunidade de me despedir, nunca mais conversamos’ Ele lamentou.

‘O diretor da escola na época fazia parte da sociedade?’ Micah perguntou e vovô confirmou com a cabeça ‘Então ele pode ter afastado ela com medo de que denunciasse alguma coisa’

‘Essa idéia me ocorreu, mas não havia nada que pudesse fazer Morgana querer denunciar a sociedade. Antigamente era diferente, não aconteciam essas atrocidades de hoje. O líder da época, Teodoro Schneider, começou com algumas idéias similares as de Grindelwald, e o próprio diretor, Martin Vuzharov, liderou um grupo para tirá-lo do poder. Ele foi banido da sociedade, nunca mais nenhum membro de sua família pode sequer participar das seleções. Era tudo muito organizado e correto’

‘Mas alguma coisa de errado aconteceu, tenho certeza disso’ Micah insistiu.

‘Agora entendo porque você e minha neta gostam tanto um do outro’ Vovô comentou balançando a cabeça e olhamos sem entender ‘São dois cabeças-duras! Filho, eu vou lhe dar um conselho: esqueça isso. É passado, aconteceu muito antes de você sequer sonhar em nascer e se Morgana nunca mencionou sua passagem por Durmstrang, tenho absoluta certeza que tinha seus motivos’ Micah abaixou a cabeça um pouco desanimado e vovô me encarou ‘E o mesmo serve para você, mocinha. Pare de querer bancar a Miss Marple. A morte de sua irmã foi uma fatalidade e fazer nossa família reviver isso, especialmente Madalena e Sofia, é um ato muito cruel’

‘Eu só queria entender o que aconteceu, queria saber mais sobre ela’ Me justifiquei.

‘Já lhe contei o que aconteceu, mas parece que entrou por um ouvido e saiu pelo outro’ Ele brigou comigo ‘Sua mente nesse momento deveria estar ocupada com os N.I.E.M.s, que estão cada dia mais próximos. A mente dos dois’

‘Tudo bem, vovô, não vou mais questionar ninguém sobre minha irmã e Micah também já está satisfeito com o que ouviu da avó’ Olhei para ele e ele concordou com a cabeça, então levantei e o puxei pela mão ‘Já vamos embora, temos ensaio da peça daqui a pouco’

‘Tudo bem, bom ensaio então’ Vovô levantou também e abriu a porta ‘E se concentrem nos estudos, por favor’

Deixamos o escritório dele sem dizer nada e caminhamos de mãos dadas até a entrada do teatro, mas Micah parou de repente antes que pudéssemos entrar.

‘Evie, não estou com cabeça para mexer em iluminação de peça nenhuma hoje. Pode dizer ao professor Ivo que estava me sentindo mal?’

‘O que você vai fazer?’ Perguntei desconfiada ‘Você não ficou satisfeito com o que ouviu, não é?’

‘E você também não vai parar de fazer perguntas até ter todas as respostas que quer sobre a sua irmã, certo?’ Ele me respondeu com outra pergunta e ri ‘Prometo que não vou ser expulso, mas preciso fazer isso’

‘Fazer isso o que?’ Fiquei preocupada

‘Prefiro que você não saiba, vai ser melhor assim’ Ele me olhou quase que implorando que não insistisse.

‘Tudo bem, eu digo a ele’ Ele sorriu aliviado e me beijou ‘Mas cuidado, por favor!’

‘Eu sempre tomo cuidado, meu amor’ Ele respondeu sorrindo maroto e tomou a direção contraria.

Vovô tinha razão em dizer que éramos parecidos. Micah não ia sossegar enquanto não descobrisse exatamente que fatos levaram ao afastamento de sua avó da escola e os motivos que a impediram de contar a ele que havia sido professora aqui.

Sunday, April 19, 2009

‘Quando eu virar a ampulheta, vocês terão 20 minutos para transmutar todos os objetos enfileirados utilizando apenas os processos alquímicos que ensinei’ A professora Kollontai pegou uma ampulheta pequena do armário e colocou em cima da mesa, encarando os grupos ‘Atenção... Valendo!’

Ela virou a ampulheta na mesa e Reno abriu espaço esticando os braços, não nos deixando se aproximar da bancada onde tinha uma fila de 30 objetos diferentes. A turma estava dividida em dois grupos para a gincana de alquimia, garotos x garotas. Reno era o líder do nosso grupo e Annia comandava o time das meninas. Ricard e Ty tentaram ajudá-lo, pois sabiam um pouco mais que eu e os outros, mas Reno faltava dar um ataque de nervos quando alguém tentava sugerir alguma coisa, então cruzei os braços e me limitei a observar, na esperança de entender algo que me ajudasse na prova.

Do outro lado da sala, cada menina estava responsável por um objeto e Annia ia de uma em uma ajudando nas transmutações já em andamento, apenas terminando os processos. Não era nem preciso ser muito esperto para ver que elas iam terminar os 30 objetos anos luz a nossa frente.

‘Acabou!’ A professora pegou a ampulheta da mesa e as meninas ergueram as mãos, se afastando da bancada ‘Reno, levante as mãos, acabou o tempo’

‘Mas falta a finalização, essa ampulheta está errada, não se passaram 20 minutos ainda!’ Ele contestou.

‘A ampulheta está correta, largue a varinha e o estojo’ Ela repetiu e ele ia interromper, mas tossi alto.

‘Quando um burro fala o outro abaixa a orelha’ Comentei perto dele e Chris riu.

‘Me chamou de burra, Sr. Wade?’ A professora perguntou, mas não parecia irritada, e sim achando graça.

‘Não professora, desculpe. É só uma expressão que sempre ouvi da minha avó, não chamei a senhora de burra não’ Me expliquei depressa e todo mundo riu.

‘Ah sim, melhor assim’ Ela sorriu ‘Vamos então a contagem’

Todos agora estavam afastados das bancadas e ela foi primeiro na nossa, contando quantos objetos haviam sido transmutados e analisando a perfeição de cada um. Em seguida foi até a bancada das meninas e depois de alguns minutos olhando um por um, fez uma anotação na prancheta e caminhou até sua mesa.

‘Os meninos transmutaram 17 objetos por completo e as meninas...’ Ela fez um pouco de mistério e já via algumas comemorando ‘As meninas conseguiram 27 transmutações perfeitas. 10 objetos a mais. Vitória delas!’ Todas agora comemoravam e faziam piadinhas debochadas pro nosso lado, enquanto Reno praguejava baixo ‘Como premio, trouxe essas sacolinhas com chocolates de páscoa. Peguem aqui na mesa e podem sair. Sr. Wade, fique mais um pouco, quero falar com o senhor’

‘Ninguém mandou chamar a professora de burra...’ Ty comentou zombeteiro quando passou pela minha mesa

‘Vou esperar você lá fora’ Evie passou e me dei um beijo no rosto, sacudindo a bolsinha com chocolate pra mim.

‘Professora, eu não chamei a senhora de burra, eu juro’ Já cheguei à mesa dela me justificando ‘Era só uma maneira de dizer pro Reno calar a boca, pois já tínhamos perdido’

‘Eu sei, Sr. Wade, não foi por isso que pedi que esperasse’ Ela riu e abriu uma gaveta, tirando um livro velho ‘Disse que sempre ouviu isso de sua avó. Por acaso é essa aqui?’

‘É ela sim, mas bem mais nova’ Confirmei vendo a foto dela na contracapa de um livro de Alquimia, quando devia ter seus 30 anos ‘De onde a conhece?’

‘Morgana foi minha professora de Alquimia aqui em Durmstrang’ Ela respondeu feliz por ter reconhecido minha avó na foto ‘Esse livro foi escrito por ela e peguei emprestado quando ainda era aluna e nunca tive a chance de devolver. Disseram que ela havia sido demitida, mas nunca cheguei a saber se era verdade. Pode fazer isso por mim? E diga a ela que me foi muito útil’

‘Minha avó morreu há 4 anos, professora’ Respondei de cabeça baixa, olhando sua foto no livro

‘Oh Merlin, eu sinto muito, não sabia’ Ela se assustou e sua voz morreu um pouco ‘Como foi isso?’

‘A policia disse que foi suicídio’

‘Morgana jamais cometeria suicídio’ Ela disse ofendida

‘É, foi o que disse a eles, mas não me ouviram’ Dei de ombros, um pouco triste ‘Não sabia que ela havia sido professora aqui. Ela nunca disse nada’

‘Ela foi minha melhor professora. Alquimia sempre esteve no meu sangue, mas não me atraia tanto quanto meu avô queria. Foi sua avó que fez despertar essa paixão toda que hoje eu tenho pela Alquimia’

‘Posso ficar com o livro?’ Perguntei ainda olhando sua foto. Ela era mais nova, mas não mudara quase nada. Era hipnotizante vê-la sorrindo como se fosse pra mim através da foto.

‘Claro! Se era dela, é seu por direito. É um dos melhores livros sobre Alquimia que já foi escrito. Quem sabe não o ajude a passar nos meus exames?’

‘É, vou precisar mesmo de toda ajuda possível’ Ri um pouco mais animado ‘Obrigado’ Agradeci pelo livro e sai da sala. Evie estava sentada na escada comendo um bombom e levantou quando me viu.

‘E ai?’ Perguntou ansiosa ‘Está encrencado ou algo parecido?’

‘Não, ela só queria me dar isso’ E mostrei o livro a ela ‘Queria que devolvesse a minha avó, ela foi sua professora aqui em Durmstrang’

‘Oh meu amor, sinto muito’ Ela percebeu que havia ficado chateado e me abraçou, mexendo no meu cabelo ‘Você sabia que ela tinha dado aula aqui?’

‘Não fazia idéia. Parece que foi a uns 30 anos atrás e saiu da escola de uma hora pra outra, pois ela disse que não teve chance de devolver o livro’ Sorri ao virar o livro e mostrei a foto para ela ‘Olha minha avó, devia ter uns 30 anos aqui’

‘Ela era bonitona!’

‘Lógico que ela é bonitona, de quem você acha que puxei essa beleza toda?’ Falei brincando e ela riu, beijando meu rosto ‘Agora fiquei curioso... Por que ela nunca mencionou que foi professora de alquimia? E por que ela foi demitida?’

‘Isso eu não sei te responder, mas sei de alguém que talvez possa’ Ela comentou sorrindo e como fiz cara de quem não entendeu, ela continuou ‘Meu avô, ora! Ele dá aula aqui há mais de 30 anos, com certeza conheceu sua avó’

‘É verdade, seu avô é quase uma lenda aqui’ E ela riu ‘Mas ele está dando aula agora, depois falamos com ele. Se importa se não acompanhar você na biblioteca agora? Queria ler um pouco do que ela escreveu nesse livro’

‘Tudo bem, não se preocupe. Vá ler o livro da sua avó, nos vemos no almoço’ Ela sorriu e me beijou, subindo em direção a biblioteca. Eu sentei na escada e abri o livro, sem vontade de fazer mais nada senão ler o que talvez fosse o último vestígio de vida da minha avó. Acho que ela nunca imaginou que ia me fazer tanta falta.

Tuesday, April 14, 2009

Numa sala de partos no Hospital Geral de Sofia, pouco antes da Páscoa.

- Você precisa reagir, pode fazer mal ao bebê...- dizia um jovem rapaz, para sua esposa em trabalho de parto.
- Eu não ligo para este bebê. É você que eu quero...Volte para mim...- ela respondia arquejante.
- Força senhora Kovac...- disse o curandeiro obstetra.
Gemidos de dor...Palavras de incentivo...Súplicas...
- Você vai me perdoar? Tudo o que fiz foi por amá-lo demais...
- Irina, faça força, pelo nosso filho, depois falamos sobre isso...Tudo vai ficar bem.
-... Dói demais...Fica comigo Yuri...Faz tanto frio aqui...
A jovem mulher contraiu o rosto de dor e desmaiou. O curandeiro chamou outros e começou uma correria na sala.
- Ela está com hemorragia... Preparar para uma cesárea de emergência.
- O que houve com ela?? Não a deixem morrer...- pediu Yuri.
- Espere lá fora senhor Kovac...Vamos tentar tudo para salvar aos dois...
Ele foi para a sala de espera, e tudo o que podia pensar era em uma esposa que ele não amava como deveria e no pequeno bebê, que ele duvidava ser capaz de lhe despertar algum sentimento além de compaixão.
Alguns minutos depois...
- Infelizmente sua esposa não sobreviveu. Ela estava muito debilitada quando chegou aqui e não conseguimos conter a hemorragia.
- E o bebê?
- A criança apesar de prematura, está bem. É uma menina forte, nem vai precisar ficar na incubadora. - disse o curandeiro e logo uma enfermeira se aproximava com um pequeno embrulho e o apresentou ao jovem.
Instintivamente ele o pegou e olhou para o bebê de rostinho vermelho e enrugado:
- Olá, pequena. Eu sou o seu pai. - O bebê pareceu entender e abriu os olhos e um par de olhos azuis o encarou por breves instantes, e ele sentiu seu estomago se contrair, ante aquele olhar e engoliu seco, enquanto o instinto de proteção falava mais alto em seu peito e ele soube: apesar de tudo ele amava aquele bebê, e faria de tudo para que ela fosse feliz.

o-o-o-o-o-o

Estávamos na aula de Alquimia e a professora Kollontai, após nos ensinar o feitiço de duplicação e mandou cada um de nós utilizar uma fruta para o teste. Eu e meus amigos ríamos de nossas transmutações bizarras, minha maçã estava quase quadrada de tão torta, a de Evie perdeu a cor vermelha no processo e a de Vina, estava um pouco mole. Claro que as frutas de Reno e Annia e Nina estavam perfeitas, e a professora passava de mesa em mesa nos apontando os erros de cálculos no processo. Ela olhava a maçã descorada do Ty, quando ouvimos uma batida na porta e o professor Klasnic, diretor da Mannaz, entrou:
- Desculpe professora Kollontai, por interromper a sua aula, mas é importante. O diretor Ivanovich, solicita a presença do senhor Ivanov e da senhorita Kovac na sala dele. Tragam as suas coisas, por favor.
Olhei para minhas amigas e fiz como era mandada. Logo eu e Luka nos apresentávamos na sala do diretor Ivanovich e o diretor após nos mandar sentar, nos disse o motivo da nossa convocação. Irina havia falecido após dar à luz, e nós iríamos para casa. Senti meus olhos encherem de lágrimas e olhei para Luka. Ele tinha um olhar duro, e estava rígido ao meu lado, sem esboçar reação alguma. Talvez fosse o jeito dele de lidar com a dor.

In the arms of the angel
Fly away from here
From this dark cold hotel room
And the endlessness that you feel
You are pulled from the wreckage
Of your silent reverie
You're in the arms of the angel
Maybe you find some comfort here



Desde o momento que eu e Luka tomamos a chave de portal na sala do diretor e chegamos em casa, não nos falamos mais e por mais frio que Luka parecesse, eu sabia que ele estava sofrendo. Ele e Irina se adoravam, e ficaram mais unidos depois da morte de tia Tânja, a mãe deles, e mesmo que houvesse brigas eles eram irmãos, nada diminuiria este vínculo. O pai dele estava sério e frio, enquanto ouvíamos as palavras do sacerdote e parecia olhar uma parede de vidro quando seu olhar pousava em nós.
Uma garoa fina e persistente caia por sobre nossas cabeças, enquanto estávamos no cemitério. Era o funeral de Irina, e toda a família havia comparecido em peso, e muitos amigos do pai dela vieram prestar suas homenagens, até mesmo Iago mandou uma coroa de flores enorme e uma carta de pêsames.
Eu, meus pais e Yuri estávamos do outro lado do caixão, junto com Morgan, Carlinhos e Nikolai. A única vez que vi o pai de Luka esboçar alguma emoção foi na noite anterior, quando foi até minha casa pedir ao meu irmão que permitisse que Irina fosse enterrada no mausoléu dos Ivanov, ao lado da mãe. Ele estava diferente do homem arrogante e cheio de si, que acha que o dinheiro compra tudo. Talvez ele houvesse percebido que o dinheiro não serviria de muita coisa, enquanto o serviço fúnebre terminava.
Minha mãe chorava baixinho, abraçada ao meu pai que tinha o maxilar travado e Yuri estava sério ao meu lado, segurando minha mão, quando o caixão dela baixou para a sepultura sob uma chuva de pétalas de rosas.
Na hora dos cumprimentos, meus amigos estavam lá, cumprimentaram rapidamente Luka e seu pai e vieram ficar conosco. Max estava junto de Luka e o acompanhou quando eles começaram a sair do cemitério, quando minha mãe chamou o pai dele:
- Ivan, venha até a nossa casa, para conhecer a nossa neta, ainda nem escolhemos o nome da pequenina...- e quando ele se virou para nós, senti um calafrio ante o olhar de desprezo dele.
- Eu não tenho neta, qualquer ligação que eu tinha com a sua família morreu com a minha filha. - e nos deixou pasmos. Até mesmo Luka, o olhou chocado antes de segui-lo. Minha mãe ainda levantou a mão para chamá-lo de volta, mas meu irmão disse, pontuando bem as palavras:
- Vamos para casa, minha filha Elena, deve estar sentindo falta de sua família.
Depois disso, não tocamos mais no nome do pai de Irina. Havia um bebê que precisava de nós muito mais do que ele.

All day long thought that we still had a chance
Letting go, this is the end of romance
Broken hearts find your way
Make it through just this day
Face the world on your own
Life will go on, life will go on


N.Autora: musicas: Life will go on de Chris Isaak e Angel de Sarah McLachlan

Saturday, March 28, 2009

Caminhava com as meninas na direção do castelo para as aulas da manha, mas uma movimentação fora do comum chamou nossa atenção. Um aglomerado de alunos se amontoava na frente da Spartacus e rapidamente mudamos nosso rumo até lá. Logo encontrei Micah de braços cruzados conversando com um dos guarda-caças, descontraído. Parei ao lado dele curiosa, mas nem deu tempo de perguntar qualquer coisa, pois no mesmo instante identifiquei o motivo da multidão. Filipe estava colado na parede da casa, do lado de fora, e o professor de Lênin tentava desfazer o feitiço usado. Olhei para Micah esperando uma explicação, mas ele apenas sorriu e apertou a mão do homem, que se afastou em seguida.

‘O que está acontecendo?’ Perguntei apontando para o meu primo ainda colado na parede ‘Isso por acaso é alguma peça entre vocês e os garotos da Chronos?’

‘Sim’ Ele respondeu já erguendo as mãos para me impedir de interromper ‘Não tivemos culpa, Filipe foi pego ontem à noite e não sabíamos’

‘ELE PASSOU A NOITE AQUI FORA?’ Gritei furiosa e ele fez sinal de silencio, pois o guarda-caça nos olhou de lado ‘Micah, ele podia ter morrido congelado!’

‘Eu sei, mas não grite, não tive culpa! Filipe conseguiu se manter aquecido, está bem, mas vai pra enfermaria por algumas horas. O professor Lênin já vai tirá-lo de lá, calma’

‘Você os entregou ao guarda-caça, não é?’ Perguntei desconfiada, pois já sabia a resposta ‘Micah! Se vocês não entregarem, eu entrego!’

‘Você não vai entregar ninguém, fica na sua que a guerra é entre Spartacus e Chronos. Eu não me meto na briga da Avalon com a Atena. Deixa que nós vamos resolver isso, eles vão receber o troco’

Bufei irritada, mas ele me abraçou e acabei cedendo. Ficamos aguardando Filipe descer e o acompanhamos até a enfermaria. Ele estava gelado e mais pálido que nunca, mas parecia animado com tudo aquilo e não reclamava, apenas pedia a Micah que não o deixasse de fora da retaliação. Tinha certeza que em breve aquela guerra ia sair do nosso controle, e ai talvez seja tarde demais para consertar alguma coisa...

*****

‘Fechem os olhos e limpem suas mentes, não pensem em nada’ Ouvia a voz do professor Boris perto de mim. Mesmo de olhos fechados, sabia que ele passava perto de onde estava deitada ‘Deixem a poção fazer efeito e o cheiro do incenso invadir de vocês. Apenas relaxem’

Ajeitei meu corpo no tapete em que estava deitada e podia sentir o cheiro de canela invadir minhas narinas. Era forte, mas bom. Senti a mão de Micah procurar a minha e a apertei, relaxando como o professor havia pedido...

Estava em uma rua da Espanha com a minha família, estavam todos reunidos, até mesmo minha mãe. Vi Max andando de mãos dadas com ela, tinha no máximo 5 anos, e eu segurava a mão do meu irmão, olhando para os lados curiosa. Já anoitecia e de repente a rua foi tomada por homens usando capuzes brancos em forma cônica. Eram muitos e carregavam uma cruz. Soltei a mão de Max e, sem perceber, fui me afastando dele e me aproximando daquelas figuras encapuzadas. Quando dei por mim, já estava perdida. Tudo que via eram roupas brancas por todos os lados e gritava pela minha mãe, mas ninguém me ouvia.

Já chorava desesperada por não encontrar ninguém quando senti uma mão agarrar meu pulso e me puxar com força para fora da procissão. Era meu tio Ivo. Ele me arrastava de volta para a calçada ignorando meus soluços de choro. Quando chegamos a uma parte da rua menos tumultuada, pude ver minha mãe chorando nervosa, olhando para todos os lados.

‘Ella! Não posso passar por isso de novo!’ Ouvi ela dizer nervosa, gesticulando para tia Madalena

‘Eva, acalme-se! Vamos encontrar a Evie!’ Minha tia segurou os braços da minha mãe, mas ela não se acalmou.

‘Mamãe!’ Gritei me soltando da mão do meu tio e correndo pra ela

‘Evie!’ Mamãe se abaixou e me puxou para um abraço apertado. Ela soluçava incontrolavelmente ‘Ah meu amor, você está bem? Onde estava?’

‘Desculpa. Eu fui ver as pessoas de branco mais de perto e me perdi. Desculpa, mamãe’ Disse chorando assustada. Tinha ficado apavorada por estar vendo minha mãe daquele jeito.

‘Está tudo bem, querida, está tudo bem! A mamãe só estava assustada. Eu olhei para o lado e não vi você, pensei que alguém pudesse tê-la levado embora’

Mamãe me puxou para outro abraço apertado e secou as lágrimas do meu rosto, sorrindo aliviada.


‘Muito bem, acordem’ A voz do professor Boris me trouxe a realidade e quando ele estalou os dedos, abri os olhos assustada ‘Bom dia, acabou o cochilo. Agora cada um de vocês vai descrever o sonho em um pergaminho e entregar ao colega ao lado, para que ele possa interpretar’

‘O que houve?’ Micah perguntou vendo que tinha o olhar vago

‘Não sei’ Respondi olhando para ele ainda aérea ‘Não sei o que aconteceu’

‘Sr. Wade, pegue um pergaminho na mesa e anote seu sonho, depressa’ O professor passou estalando os dedos e Micah levantou apressado ‘Srta. Stanislav, está tudo bem?’

Fiz que sim com a cabeça, levantando do chão e indo pegar o pergaminho na mesa. Descrevi o sonho como me lembrava e entreguei a Micah, recebendo o dele em troca. Foi a analise de sonho mais sem sentido que fiz desde que comecei a ter aulas de adivinhação, mas minha cabeça estava longe. Não consegui mais prestar atenção no resto da aula e quando o professor nos liberou, me separei dos meus amigos e fui direto até o escritório do meu avô. Sabia que era tarde e ele provavelmente estaria dormindo, mas precisava de algumas respostas e não me importava se tivesse que acordá-lo para isso.

‘Vovô! Vovô!’ Batia na porta do escritório sem parar ‘Vovô, preciso falar com o senhor!’

‘Evie?’ Ele abriu a porta de roupão e pela sua expressão confusa, já estava deitado ‘O que aconteceu?’

‘Quem é Ella?’ Disparei a pergunta que estava me consumindo há meses e ele reagiu com espanto.

‘Ella? Não conheço ninguém com esse nome, minha filha’ Ele gaguejou um pouco antes de falar.

‘Vovô, com todo respeito, o senhor não mente bem’ Entrei no escritório sem esperar que ele desse passagem e ele fechou a porta.

‘Minha querida, já está tarde, porque não volta para sua republica? Amanha conversamos’

‘Venho sonhando com uma criança parecida comigo chamada Ella tem alguns meses, agora mamãe também aparece nesses sonhos e eles são muito reais. E hoje lembrei de uma coisa que aconteceu quando eu tinha 5 anos’ Comecei a falar sem parar, não dando tempo dele interromper ‘Lembra de quando me perdi naquela páscoa, no meio da procissão? Quando tio Ivo me encontrou e me levou de volta pra mamãe, ouvi-a falando com a tia Madalena que não podia passar por isso de novo e disse o nome da menina dos sonhos!’ Olhei para ele suplicante ‘Vovô, por favor, quem é essa menina?’

Vovô me olhou cansado e pela primeira vez desde que vovó morreu, o vi abatido. Ele tirou os óculos do rosto e sentou na poltrona, encarando o chão. Parecia tomar fôlego, como se estivesse se preparando para dizer alguma coisa importante. Aguardei ansiosa e depois de segundos que pareceram horas, ele me encarou com uma expressão triste, que já me deixou abalada só por vê-lo assim.

‘Ella era sua irmã’ Ele falou em um tom de voz misturado a um suspiro melancólico ‘Eleanor era o seu nome, Ella era como a chamávamos em casa’

‘Minha irmã?’ Falei surpresa ‘Como era? O que aconteceu?’

‘Ela morreu aos 5 anos, você e Max eram apenas bebês de 1 mês na época, jamais se lembrariam dela’ Fiz menção de interromper, mas ele levantou a mão pedindo que o deixasse falar ‘Seus pais estavam na nossa casa de praia na Espanha e seu pai a perdeu de vista por 2 minutos, então ela desapareceu. Ficamos todos desesperados, procuramos por toda parte, mas só a encontramos na manha seguinte’

‘Trazida pelo mar’ Completei por ele, sem perceber que falava ‘Desculpe’

‘Como sabe disso?’

‘Sonhei com isso. Acordei chorando e passei o dia inteiro mal’ Encarei-o já com lagrimas nos olhos ‘Ela se afogou?’

‘Não sabemos até hoje’ Vovô deu outro longo suspiro e sabia que era por estar admitindo uma derrota ‘Ela tinha marcas de dedos nos braços e pernas e um ferimento na cabeça, mas a policia não soube dizer o que causou a morte dela, se foi por afogamento ou por ter batido em alguma pedra’

‘Por que ninguém nunca me contou isso?’

‘Por que contar? Por que reviver um sofrimento como esse?’ Ele recolocou os óculos no rosto e me encarou ‘Você e Max não tinham como se lembrar e seus primos mais novos sequer a conheceram. Pillar e Andrei mal se lembram dela. Pillar acha que era uma amiga imaginaria. Entendeu dessa forma tudo que aconteceu e Nikolai decidiu que era a melhor maneira de evitar que ela sofresse’

‘Vocês a apagaram da família, então?’ Perguntei indignada ‘Não existe uma foto dela que prove sua existência?’

‘Sua avó guardou muitas fotos, nada foi jogado fora. Se quiser, quando formos para casa posso mostrar a você. Apenas não deixamos muitas lembranças com a sua mãe, a fazia sofrer demais’

‘Eu gostaria de ver essas fotos’ Ele sorriu cansado e assentiu com a cabeça, levantando para me abraçar ‘Desculpe obrigar você a falar disso, mas eu precisava saber’

‘Está tudo bem, não tem problema. Agora volte para a sua republica e tente não pensar nisso’

‘Vou tentar. Boa noite, vovô’

Ele beijou minha testa me desejando boa noite também e sai do escritório. Enquanto refazia o caminho da Avalon, um filme ia passando na minha cabeça. Era como se de uma hora pra outra, fatos isolados da minha infância fossem voltando a minha memória. Coisas estranhas que presenciei e que não lembrava mais, mas que agora que sabia da existência de uma irmã mais velha, tudo fazia sentido. Era impossível deitar sem pensar nela, tinha certeza que ia amanhecer de olhos bem abertos na cama, tentando processar tudo que ouvi. E o pior de tudo aquilo era que alguma coisa me fazia acreditar que minha irmã não morreu afogada no mar.

Saturday, March 14, 2009

Já que depois da liberação do confinamento, cada uma de nós podia aproveitar o fim de semana do jeito que quisesse, eu ia ficar na república escrever cartas para casa, e talvez dar umas voltas pelo vilarejo sozinha, pois todos já tinham coisas a fazer, e eu não tinha vocação para castiçal dos casais, resolvi ficar na minha cama até mais tarde.
Luka apareceu na república pela hora do almoço e me chamou para sair. No começo eu olhei desconfiada e ele disse:
- Vocês tiveram uma vitória sobre a Athena ontem, não quer celebrar?
- Celebrar fazendo o que?
- Podemos comer alguma coisa, ir ao cinema, passear por aqui, ou se você confiar em mim, podemos sair sem rumo certo. Só temos que estar de volta, amanhã à noite. Vamos nos aventurar por ai. - falou me olhando intensamente.
- Não sei Luka... Não quero levar isso a sério...
- Só vai ficar sério, se você quiser Milla. Somos amigos lembra? O que você decide?- e me estendeu a mão.
- Bem, acho que não tem muito que pensar não é? Vou confiar em você. - respondi pegando sua mão.

Something always brings me back to you.
It never takes too long.
No matter what I say or do I'll still feel you here 'til the moment I'm gone


Passamos o dia em Varna, e foi muito bom aproveitar o sol, numa praia que íamos quando crianças, visitamos algumas lojas, passeamos de barco... Á noite fomos ao cinema assistir uma comédia, parecia que eu estava conhecendo um outro Luka. Era engraçado, o jeito que ele ria das piadas sem noção da tela, ele parecia aquele garoto que as minhas amigas diziam que eu gostava.
- Que foi? A comida tá ruim?- ele perguntou enquanto terminava o refrigerante e pegava mais algumas batatas, do meu prato, no restaurante perto da pousada.
- Você está diferente. Parece feliz.
- Estou com você, isso me deixa feliz.
- Ughh, que brega isso. Andou lendo algum romance adolescente é? - rimos e ele disse sério, me dando um pacote com um laço vermelho.
- Não somos namorados, mas eu queria te dar isso, pelo dia de hoje...
- Você não precisava me dar nada...- eu dizia enquanto abria o pacote e lá dentro havia um frasco de perfume todo trabalhado. Era a coisa mais bonita que eu já tinha visto e quando coloquei o perfume em mim, senti um odor simplesmente maravilhoso, algo que fazia eu me sentir muito bem, parecia que eu tinha borboletas no estomago e nada podia me atingir. Parecia que eu estava num daqueles comerciais trouxas, que diz que você se sente poderosa com aquele perfume caro. E era assim que eu me sentia. Eu me aproximei dele e o toquei. Ele me puxou para um abraço, aspirou o perfume e perguntou:
- Gostou??
- Sim, ele é maravilhoso. Nunca tive algo que cheirasse tão bem assim...
- Você merece, porque é especial...Use-o sempre e lembre-se de mim quando eu estiver longe. Você vai usá-lo só para mim, Milla?- disse em meu ouvido e aquele perfume gostoso ao nosso redor, sorri e o beijei rapidamente nos lábios:
- Parece difícil resistir a isso...- disse ofegante.
- Não resista Ludmilla... - senti uma necessidade urgente de fica mais perto de Luka, e com aquela fragrância nos envolvendo, puxei-o pela camisa e o beijei. Eu o queria perto de mim, de uma forma que nunca quis antes. Acho que eu estava me apaixonando por ele novamente.

Set me free, leave me be. I don't want to fall another moment into your gravity.
Here I am and I stand so tall, just the way I'm supposed to be.
But you're on to me and all over me.


- Milla, acorda…
- Humm… Mais 5 minutos…
- Se você dormir mais 5 minutos, pode dar adeus à primeira aula. É Transfiguração.
- Certo...Ivana... IVANA? - pulei da cama desesperada e sai feito louca correndo para o banheiro, por sorte tinha alguma roupa limpa pelo caminho e me arrumei rapidamente. Desci as escadas, escovando o cabelo e segurando um biscoito com a boca, estava faminta. Estávamos indo tomar o café da manhã, quando Evie que estava de mãos dadas com Micah comentou:
- O fim de semana foi bom hein? Não vimos você voltar...- eu ri e Micah perguntou:
- Arrumou namorado novo, ‘Milles’??
- Antes fosse, ela voltou pro Luka. - disse Ty reprovador e resmunguei:
- Você também estava fora ontem Ty, porque não cuida da sua vida?
- Eu cuido da minha vida, mas você já parou para pensar que o Luka pode estar tentando tirar informações da Evie através de você?
- Você está paranóico Ty. Eu sair com o Luka, não tem anda a ver com o problema da Evie...Para sua informação, nós nem falamos sobre a escola... Não falamos muita coisa e...- meus amigos me olhavam debochados e eu disse:
- Luka e eu temos um acordo. O que acontece na escola, fica na escola ok? Não se preocupem, não vou trair a confiança de vocês, ainda mais com algo tão ‘físico’. - e eles riram.
- Mas e ele Milla? Ele anda com Max, e pode estar cumprindo ordens do meu pai. - disse Evie preocupada.
- Não Luka não faria isso e...- lembrei-me de uma cicatriz nas costas de Luka e olhei de olhos arregalados para eles:
- Ele também é da Sociedade não é?- eles ficaram calados enquanto eu lembrava dos sumiços de Luka, nestes anos. Ty quebrou o silêncio:
- Milla, Ivanov é um tipo instável. Eu o conheço mais do que você imagina e sei do que ele é capaz, você precisa tomar cuidado. Ele e Max obedecem cegamente ao pai da Evie, e se ele desconfiar que você sabe...
- Luka não vai me machucar Ty, confio nele. E você precisa se acalmar. Agora o pai do Chris, tomou conta da situação e tudo vai ficar bem. - disse teimosamente e antes que Ty dissesse mais alguma coisa, vi Luka mais à frente e ele acenou para mim.
Engraçado olhar para ele, fazia com que aquele perfume viesse à minha memória. Sorri e ele retribuiu, mal notei Max carrancudo ao seu lado. Só percebi que cheguei na sala e estava ao lado dele, quando a professora Mesic, depois de me chamar umas duas vezes, mandou eu me sentar com Annia, que fazia dupla comigo e treinássemos como mudar a forma de nossos rostos, para praticar os feitiços de Animagia.
Eu parecia fora de mim, de tão aérea que eu me sentia e isso apesar de estranho, não era ruim. Talvez seja o stress de tudo que vivemos com a historia dos vampiros cobrando o seu preço ou quem sabe, Luka faz com que eu me sinta assim, nas nuvens.

You loved me 'cause I'm fragile.
When I thought that I was strong.
But you touch me for a little while and all my fragile strength is gone.


N.Autora: Música, Gravity, de Sarah Bareilles

Friday, March 13, 2009

Acontecia uma vez por ano, sempre em uma sexta-feira. Durante anos, a presidente eleita da Avalon escolhia um dia do ano para realizar a noite do confinamento. A noite era reservada para jogos, conversas e, principalmente, uma melhor integração das moradoras da casa. Nenhuma garota poderia sair e ninguém de fora poderia entrar, a partir do momento em que o sol se escondesse até a hora que nascesse outra vez. Era uma tradição aprovada por todas as garotas da casa, mas pela primeira vez, ao menos uma não estava totalmente satisfeita com a idéia de ficar trancada dentro da república até o amanhecer.

‘Não tem um jeito de você fugir disso?’ Micah perguntou pela vigésima vez a Evie, a segurando pela cintura ‘Não acredito que vai passar a sexta-feira presa sem poder sair comigo’

‘É uma tradição, não vou ser a primeira garota da Avalon a quebrar isso’ Evie respondeu firme, mas sem entusiasmo na voz ‘Sinto muito, mas podemos compensar amanha. Assim que o sol sair, estamos livres e sou toda sua’

‘Olha que eu vou gravar essa frase e cobrar depois’ Disse sarcástico, beijando seu pescoço.

‘Pode cobrar’ Ela sorriu e o afastou ‘Acha que ele vai ficar bem?’

‘Tenho certeza que sim. O pai do Chris já procurou seu pai, não notou que Max sequer se aproximou de um de nós dois hoje? Já foi instruído a se afastar’

‘É, mas até quando?’ Ela questionou desanimada.

‘Antes que ele descubra como reverter isso, vamos ter o controle total da situação. Eu garanto’

‘Você. Fora!’ Micah ouviu uma voz familiar e riu, sentindo a dona dela bater em seu ombro ‘Vamos trancar a república em menos de 1 minuto’

‘Georgia, vai mesmo me obrigar a passar a primeira sexta-feira desde que voltei longe da minha namorada?’ Micah tentou apelar uma ultima vez, mas com a pessoa errada.

‘Tradição é tradição. E não costumamos quebrá-las aqui na Avalon’ Ela sorriu amigável e abriu a porta ‘Fora’

Micah beijou Evie e saiu da república, mesmo contrariado. Georgia fechou a porta outra vez e encarou a sala. Já estava cheia, todas as garotas da casa espalhadas pelos sofás e cadeiras, aguardando o inicio oficial do confinamento. Evie ficou parada ao lado de Georgia e ela puxou a varinha da calça jeans.

‘Ok, veteranas e calouras, é hora de começar o confinamento’ Georgia falou alto e as conversas paralelas cessaram ‘A agenda de hoje será diferente dos outros anos, não vamos seguir uma programação obrigatória, como de costume’ Evie olhou espantada para ela e em seguida encarou as amigas, que também pareciam surpresas ‘Esqueçam aquelas bobagens de colagens expressando nossos sonhos e expectativas e círculos de relaxamento. Tem um carrinho de sorvete na cozinha, toneladas de pacotes de biscoito salgado no balcão, um barril de cerveja amanteigada na despensa... Não Betsy, whisky de fogo está proibido, ou você já esqueceu o que fez na ultima festa que tinha liberado?’ Betsy, a menina da nossa turma que era famosa pelos porres que tomava, abaixou a mão desanimada e rimos ‘Temos alguns jogos de tabuleiro, um tapete de twister e um karaokê, a disposição para quem quiser soltar a voz. E como tradição, ninguém entra e ninguém sai até o amanhecer’ Georgia parou de falar e sorriu para as colegas de casa, se virando para a porta com a varinha em riste ‘Cave Inimicum’ Ela murmurou e uma luz azul forte saiu da varinha, fazendo a porta brilhar ‘Protego Horribilis’ Agora Georgia apontou a varinha também para as janelas e uma luz amarela iluminou a parede da frente da república, ofuscando a vista das que estavam mais próximas ‘Precauções. Assim ninguém entra aqui sem que tenhamos um aviso prévio. Vamos começar a diversão?’

Georgia guardou a varinha outra vez e as meninas gritaram animadas, se espalhando pela sala em grupos para procurar algo para fazer. Evie foi direto para a cozinha atrás do carrinho de sorvete e as amigas foram atrás, levando tudo para a sala e experimentando todos os sabores disponíveis. O barril de cerveja amanteigada também foi logo cercado e em questão de horas a sala já estava tomada por pequenos círculos de garotas ocupando os jogos de tabuleiro que encontraram perdidos. O karaokê também não demorou a ser usado e as vozes eram as mais desafinadas possíveis, mas ninguém se importava. O clima na casa era de descontração, como há muito tempo não se via. Por uma noite, as diferenças foram esquecidas e até mesmo Inês se pegou sendo educada com Evie, mesmo que durasse breves segundos.

‘Atenção!’ Evie subiu em uma cadeira batendo palma e as garotas olharam para ela. Já passava da meia noite e estavam todas mais descontraídas ‘Para quem ainda não sabe, gostaria de informar que temos uma moradora nova. Shannon, levante de onde estiver e venha se apresentar’

‘É, apareça, Shannon!’ Milla falou alto, procurando pela garota ‘Todas se apresentaram quando chegaram aqui, você não vai escapar’

‘Ok, não precisa ameaçar, eu falo’ Shannon olhou rindo para Miyako e lhe entregou o copo que segurava ‘Olá, meu nome é Shannon Austen, tenho 17 anos e sou de Los Angeles, Califórnia. Um amigo me convenceu a se transferir pra cá junto com ele e como meu namorado estuda aqui, aceitei. Já conhecia algumas das meninas daqui por causa das Olimpíadas e agora vou ter mais tempo de conhecer as outras, mas vocês são muitas, então facilitem pra mim, ok?’ E as meninas riram

‘Shannon, muito bem vinda a Avalon’ Evie tornou a falar, erguendo o copo e foi copiada pelo resto das garotas ‘Mas temos uma noticia não muito boa, ao menos para você’ Evie parou de falar fazendo suspense e Shannon a olhou desconfiada, principalmente quando suas amigas riram ‘Mesmo sendo do ultimo ano, aqui dentro você é caloura. E caloura paga trote quando chega à escola...’

‘Ah, nem vem com essa, Evie!’ Shannon protestou e buscou o apoio de Miyako, mas ela ergueu as mãos indicando que não podia fazer nada ‘Já estamos em Março, não acabou isso?’

‘Quanto mais você protestar, pior fica’ Evie falou debochada ‘Vina, pegue o bebê’

‘Bebê? Que bebê?’ Shannon perguntou mais desconfiada ainda e viu Vina entrar na cozinha e voltar logo em seguida com algo embrulhado em um pano ‘O que é isso?’

‘Isso é sua responsabilidade durante essa semana’ Milla pegou o embrulho da mão de Vina e entregou a Shannon. Ela desenrolou e viu que era um ovo ‘É um ovo de Bibra, pegamos emprestado com o professor Asimov e ele quer de volta inteiro. Sua tarefa é cuidar dele, não deve perdê-lo de vista um segundo sequer!’

‘Estão brincando, não é?’ Shannon soltou uma risada descrente, encarando o ovo em sua mão.

‘Estamos com cara de quem está brincando?’ Nina falou séria, de braços cruzados ‘O ovo é sua responsabilidade, Austen! Quebre-o, e além de ter que se explicar ao professor Asimov, sofrerá conseqüências aqui dentro!’

‘Queremos o ovo de volta na próxima sexta’ Annia se aproximou ‘E vamos ficar de olho para checar se está com o ovo 24hs por dia. Somos muitas, não adianta tentar trapacear’

‘Acredita nisso?’ Shannon se conformou com a tarefa e sentou ao lado de Miyako outra vez ‘Cuidar de um ovo! Como se já não tivesse coisas demais para fazer nesse processo de adaptação!’

‘Não reclame, ouvi relatos de trotes bem piores das calouras daqui’ Miyako alertou, rindo do ovo em seu colo ‘Já pensou num nome?’

Shannon cerrou os olhos, mas nunca chegou a responder. Um barulho vindo da varanda da casa chamou a atenção de algumas meninas e Georgia correu para a janela, pedindo silencio. Era o alerta contra inimigos, um dos feitiços usados para proteger a casa que fora lançado por ela. Annia, Evie, Milla, Nina, Vina, Martina, Kay e as outras meninas do conselho correram para o lado dela, as varinhas já a postos, aguardando instruções.

‘Elas vão entrar’ Georgia alertou, olhando para Vina e Nina ‘Peguem a munição na despensa. Calouras, virem os sofás e todas em suas posições!’

Nina e Vina correram atropelando quem estivesse no caminho e sumiram dentro da despensa. As calouras, assustadas com a voz enérgica de Georgia, viraram os sofás de modo que ficassem em forma de barreiras e se esconderam atrás da mesa. Shannon correu para se abrigar em uma poltrona, o ovo preso debaixo do braço e enrolado no pano. As meninas voltaram com várias caixas enfeitiçadas flutuando e as largaram no chão, revelando dezenas de balões cheios de água. Milla distribuiu as caixas em grupos e se atirou atrás do sofá com as amigas, cada uma com as duas mãos ocupadas com balões. Annia agitou a varinha e apagou as luzes da casa.

‘Somente quando eu falar’ Georgia deu um ultimo aviso antes de se calar, aguardando.

A república caiu em silêncio por alguns segundos e a porta se abriu com um estrondo. A sombra de uma garota alta cobriu o chão e atrás dela, varias outras apareceram. Eram as meninas da Athena, república rival da Avalon, e sua líder era Sarah Petrova. Ela correu os olhos pela sala aparentemente vazia e Georgia ficou de pé, atrás do sofá.

‘FOGO!’ Berrou com a mão para o alto, atirando um balão de água na garota.

Uma a uma, as garotas da Avalon levantaram de seus esconderijos e tudo que se via eram balões coloridos voando pela sala, atingindo os alvos de pé na porta. O barulho da água se espalhando quando eles estouravam tomou conta do ambiente e, despreparadas para um ataque molhado, as garotas da Athena se defendiam com feitiços de proteção, não tinham tempo de revidar. Depois de atirarem os balões que tinham nas mãos, as mais velhas começaram a enfeitiçar os que restavam nas caixas e os faziam voar sozinhos até elas, ininterruptamente.

‘RECUAR! ABORTAR A MISSAO!’ Sarah ergueu as mãos para proteger o rosto e gritava para suas companheiras de republica

‘Covardes!’ Evie gritou em meio a risadas das amigas ‘Lutem como homens!’

‘Fujam, suas maricas!’ Vina gritou atirando mais um balão, acertando Sarah pelas costas ‘Se não sabem preparar um ataque, então fiquem em casa!’

‘Vai ter volta, Yelchin!’ Sarah apontou furiosa para Georgia, ensopada ‘Pode esperar!’

‘Sai fora!’ Georgia atirou outro balão e Sarah se esquivou dele, fechando a porta sob vaia das meninas ‘Corram de volta pro ninho, suas cobras!’

As vaias deram lugar a aplausos animados, todas as meninas vibravam com a vitória sobre as rivais. Georgia ordenou que as calouras colocassem os moveis no lugar outra vez e agitou a varinha na direção do som, colocando uma música alta. Milla e Annia trouxerem mais um barril de cerveja amanteigada da cozinha e Evie secou a sala com um feitiço pratico, liberando a pista outra vez para quem quisesse dançar as músicas dos Duendeiros que tocavam na RRB. Havia sido o primeiro confinamento com invasão, mas também foi de longe o mais divertido de todos. Havia compensado perder uma noite fora no vilarejo por um pouco de diversão com as amigas, pois Evie sabia que muito em breve não as veria com muita freqüência.

Wednesday, March 11, 2009

A chave de portal que nos levaria para Durmstrang estava marcada para 20:30 e às 20:35 eu já estava batendo na porta da Avalon, com Shannon ao meu lado tremendo de frio. Quem abriu a porta foi Inês e me encarou espantada, medindo Shannon de cima a baixo em seguida.

‘Pensei que tinha ido embora’ Falou com voz de desdém e Shannon revirou os olhos.

‘Pensou errado’ Mesmo sem ela abrir caminho, forcei a passagem e entramos ‘Ela está aqui?’

‘Não sei, não sou secretária particular da madame’ Ela respondeu fechando a porta, anda encarando Shannon.

‘Pra uma caloura, você é muito abusada. Devia saber responder coisas simples como essa’ Revidei impaciente e ela resmungou algo que não entendi, apontando para as escadas ‘Melhorou agora. Shan, espere aqui, Georgia vai instalar você quando aparecer’

Shannon assentiu com a cabeça se largando no sofá, sob o olhar atento de Inês. Subi as escadas correndo e alguns degraus antes de chegar ao quarto das meninas, já pude ouvir parte da conversa delas. Parei na porta e vi Evie, Milla, Vina e Annia sentadas no chão, de costas para mim.

‘Não quero colocar Dimitri em perigo, não vou cobrar dele que entregue meu pai aos aurores se isso for deixá-lo em uma situação ruim’ Ouvi Evie dizer com uma voz de choro.

‘Vai dar tudo certo, o pai do Chris vai ajudar’ Interrompi a conversa delas e as 4 olharam para trás, assustadas.

Ao ouvir minha voz, Evie saltou do chão no mesmo instante. Ela correu pelo quarto e me abraçou, afundando a cabeça em meu ombro e recomeçando a chorar. Aquilo fez com que me sentisse extremamente aliviado, tinha receio de sua reação quando me visse novamente, mesmo tendo conversado com ela pelo telefone alguns dias antes.

‘Vai dar tudo certo, eu nunca mais vou deixar você sozinha’ Eu repetia, enquanto acariciava seus cabelos.

‘Vamos deixar vocês sozinhos’ Vina falou saindo do quarto

‘Bem vindo de volta, Micah’ Milla passou também, sorrindo, seguida por Annia

‘Você é um imbecil!’ Ela se soltou do abraço assim que a porta se fechou e me bateu, mas segurei suas mãos a impedindo de continuar.

‘Sim, eu sou um imbecil’ Ela tentou se soltar, mas era mais forte e a fiz me encarar ‘Já chegamos a esse consenso, não é? Podemos ir para o próximo tópico?’

‘Você não devia estar aqui, perdeu o juízo? E se Max viu você passando?’

‘Estou pouco me importando com o seu irmão. Ele estava vigiando cada passo seu, sabia disso?’ Perguntei a encarando sério e pela reação, ela não sabia ‘Pois é, e Josh estava me vigiando. Se decidissem fazer alguma coisa, fariam. E eu nunca ia me perdoar se não pudesse fazer nada pra ajudar, estando tão longe’

‘Você foi embora, sumiu por 2 meses’ Ela ignorou por completo o que falei e mudou de assunto. Tentei não rir, já sabia que a conversa seria sem pé nem cabeça ‘Fiquei 2 meses sem ter noticias suas’

‘Você teria noticias se tivesse me procurado, eu tive noticias suas através dos garotos’ Olhei para ela e fazia um enorme esforço para não rir ‘Decida-se, você queria que eu procurasse você ou que ficasse afastado? Por que acabou de dizer que não deveria estar aqui’

‘Quando você parou de mentir pra mim?’ E mais uma vez ela não respondeu e mudou o assunto.

‘Você quer saber quando eu me dei conta de que estava gostando de você?’ Ela confirmou com a cabeça e sorri ‘Acho que começou naquele natal que tivemos tempo de conversar direito, que eu pude conhecer você melhor. Mas eu só fui me dar conta de que não estava mais jogando depois do meu aniversario. Foi ai que eu tive certeza’

‘Por que no seu aniversário?’

‘Porque foi a primeira vez que tive medo de te perder. Tive medo de que, por minha causa, Max fizesse mal a você’

‘Estou com medo’ Ela me encarou e era nítido que ela estava mesmo com medo

‘Você confia em mim?’ Ela assentiu com a cabeça e a puxei para um abraço ‘Então fica tranqüila que eu não vou deixar que nada de ruim aconteça a você’

‘Isso não vai ser fácil, não é?’ Ela me abraçou com mais força e sua voz saiu abafada pelo meu casaco

‘Não, mas a gente vai sobreviver’ Afastei-a segurando seu rosto, de maneira que ela me encarasse ‘Eu não vou mais sair de perto de você, ainda vai ter que me aturar muito’

‘Que bom’ Ela sorriu e passou as mãos em volta do meu pescoço, me beijando ‘Porque se você for embora de novo, não precisa mais voltar’

‘Não mesmo?’ Falei sorrindo debochado, isso era algo que não podia controlar ‘Você disse a mesma coisa há 2 meses atrás’

‘Dessa vez é sério’ Ela não riu ‘Essa deve ser a vigésima chance que dou a você e eu garanto que é a última. Você me magoou muito, Micah. Se pisar na bola outra vez, eu posso morrer de tristeza, mas não vou voltar atrás’

‘Eu sei, não vou mais pisar na bola. Me desculpa por tudo?’ Segurei o rosto dela bem próximo ao meu e nossas testas se tocaram ‘Eu te amo, você sabe disso, não é?’

‘Eu também te amo, mas...’ E a interrompi com um beijo

‘Eu não vou mais magoar você. Chega de mentiras a partir de agora, vou provar que pode confiar em mim’

‘Eu já confio em você’ Ela sorriu um pouco, secando as lagrimas ‘Jogo limpo a partir de agora?’

‘Jogo limpo, somente a verdade’ Disse sorrindo e a abracei ‘Quando foi que deixamos a coisa chegar a esse ponto?’

‘Acho que começou com você me enganando e eu acreditando como uma boba, sempre dando mais uma chance a você’ Ela respondeu séria, mas riu em seguida.

‘Você vai jogar isso na minha cara por mais quanto tempo?’

‘Não sei... Até sua consciência estar 100% limpa, talvez’

‘Ótimo, pro resto da vida então’

‘É bom mesmo você não esquecer, assim não pensa em fazer de novo’ Ela alfinetou e a agarrei pela cintura, a derrubando na cama e mordendo seu pescoço, enquanto ela gritava e ria ‘Para, sai de cima de mim, não começa’ Ela me empurrou pro lado e sentamos na cama.

‘Posso esperar até amanha’ Disse convencido e ela me olhou de lado, mas sorriu ‘Então, vamos resolver essa coisa com o Dimitri amanha mesmo?’

‘Sim, quero resolver isso logo. Se o pai do Chris pode ajudar, então amanha mesmo quero falar com ele’

‘Vamos até a Spartacus falar com ele, ainda nem passei lá’ Levantei da cama estendendo a mão a ela ‘Shannon está ai também, trouxe ela na bagagem’

‘Ela vai se formar aqui?’ Evie se espantou ‘Que ótimo! Chris vai enlouquecer, ele já sabe?’

‘Ainda não, ela quis fazer surpresa. Vai saber agora, que vamos até lá’

‘Micah?’ Ela me chamou quando já estávamos na porta e parei, olhando para o lado ‘Senti sua falta’

‘Eu também’ Puxei-a para um beijo demorado e descemos as escadas abraçados. Essa semana mesmo daríamos um jeito na nossa situação, mesmo que temporariamente. Mas eu não ia deixar ninguém me impedir de ficar ao lado dela.

I've found a reason for me
To change who I used to be
A reason to start over new
And the reason is you

I've found a reason to show
A side of me you didn't know
A reason for all that I do
And the reason is you

The Reason - Hoobastank

Wednesday, March 04, 2009

Eva correu até a porta e a abriu, sentindo a brisa gelada bater nela como uma faca. Olhou para o mar violento e viu as ondas batendo no litoral com força. Uma tempestade estava por vir, ela tinha quase certeza disso. O céu agora estava cinza e a atmosfera havia mudado de leve e com brisa para pesada e forte.

Ela desceu as escadas da varanda depressa, parando na cerca do quintal e correndo até a praia, procurando por Ella em todas as direções possíveis. A área estava quase deserta, com apenas algumas pessoas vagando com sorrisos no rosto, indiferentes à preocupação de Eva. Ela temia que sua filha tivesse sido levada pelo mar. Se esforçava para enxergar o mais longe possível, mas as lágrimas atrapalhavam a visão. Com um soluço, ela caiu de joelhos no chão, escondendo o rosto em suas mãos e chorando incontrolavelmente. Eva sentiu seu mundo desabar com a imagem do corpo sem vida de Ella, sendo devolvido pelas ondas à praia. A idéia dela tendo que enterrar a única pessoa que amava por completo era algo que ela não poderia suportar.


Evie saltou da cama assustada, as cobertas a prendendo na cama e a impedindo de se debater. Sentou ofegante e sentiu o rosto gelado, passando a mão nas bochechas. Foi só então que ela se deu conta de que estava chorando. Conseguiu se livrar das cobertas, saindo da cama e deixando o quarto na ponta do pé. Seu coração batia acelerado, descompassado. Era a terceira vez naquela semana que sonhava com sua mãe e sempre acordava com um aperto no peito. Ignorando o frio, saiu da república e sentou no banco da varanda, contemplando o jardim vazio àquela hora da madrugada. Ou quase vazio. Um barulho chamou sua atenção e Evie debruçou na varanda, observando algo que brilhava não muito longe dali. Olhando com mais atenção, percebeu que seu professor de Adivinhação, Boris Vladimirovich, mexia em um telescópio montado no gramado.

‘Sem sono, professor?’ Evie falou alto e o homem deu um salto, procurando a dona da voz na escuridão ‘Desculpe, não queria assustá-lo’

‘Ah, Srta. Stanislav, que belo susto me deu agora’ Ele acendeu a varinha e riu ao reconhecê-la ‘O que faz fora da cama há essa hora?’

‘Perdi o sono’ Evie respondeu caminhando até o professor, apertando o roupão quente contra o corpo ‘O que está fazendo?’

‘Ante me emprestou este magnífico telescópio para que pudesse observar as constelações e traçar alguns mapas para minha turma do sétimo ano’ Respondeu animado, espiando pela lente mais uma vez.

‘Não ficaria mais fácil fazer isso da torre de astronomia?’ Ela sugeriu, rindo.

‘Sim, muito mais fácil’ Ele respondeu e como ela o encarou sem entender, completou ‘Não conte ao Ante, mas fiquei com preguiça de localizar a torre há essa hora. Daqui posso fazer meu trabalho’ Ele piscou e ela riu ‘Venha, olhe também, já localizei uma’

Ele se afastou e Evie se aproximou, observando vários pontos brilhantes pela lente do telescópio. Seu conhecimento em Astronomia, embora limitado, permitia que reconhecesse algumas das estrelas que formavam a constelação que ele observava. Ela lhe devolveu o telescópio dando um passo para trás e ficou o observando fazer algumas anotações, inquieta. Ele notou que ela queria falar alguma coisa e parou de escrever, a encarando sorrindo.

‘Professor, é normal sonhar com alguma coisa e acordar sentindo as emoções do sonho?’ Ela perguntou, mas incerta se estava conseguindo expressar sua duvida ‘Como se o sonho fosse real, sabe?’

‘É perfeitamente normal. Se você sonha que está caindo, vai acordar com a sensação de que está caindo da cama. Se você sonha que está se afogando, vai acordar com falta de ar’ Explicou ‘Mas por que essa dúvida? Nunca teve essas sensações?’

‘Mas não é uma vez ou outra, é sempre. Tenho sonhado quase todo dia e sempre acordo chorando ou então passo o dia inteiro triste, sem saber o motivo. Hoje acordei chorando e com um aperto no coração que não consigo explicar’ Evie começava a soar desesperada enquanto explicava e ele notou

‘Esses sonhos, são sempre com a mesma pessoa?’ Ele perguntou parecendo preocupado ‘É com você ou alguma outra pessoa que conheça?’

‘Geralmente é comigo, mas às vezes tem uma criança que não sei quem é, sempre a mesma. Hoje minha mãe também estava e ela era a mãe dessa criança’ Evie notou a preocupação no tom da voz do professor e se alarmou ‘O que está acontecendo, professor?’

‘São sonhos premonitórios. Eles estão tentando lhe dizer alguma coisa. E em alguns casos, raros, porém não impossíveis, são coisas que já aconteceram. Depois das aulas de hoje, passe na minha sala e podemos conversar melhor sobre isso’

Evie assentiu com a cabeça e depois de trocarem mais algumas palavras, voltou para a república. Mas não voltou ao quarto. Amanheceu sentada no sofá da sala, pensando nos sonhos que vinha tendo e que significado eles poderiam ter, o que poderiam querer lhe dizer? A resposta nunca veio e ela adormeceu já com o dia claro, abraçada a uma almofada.

*****

‘Evie?’ A voz de Milla invadiu o quarto escuro ‘Está ai?’

‘Por onde você andou?’ Vina apareceu atrás dela, acendendo a luz ‘Não apareceu nos clubes e Georgia está atrás de você como um cão farejador por causa do jornal’

‘Você está chorando?’ Ela ouviu a voz de Annia entrando no quarto e as três se aproximaram ‘O que aconteceu?’

‘Conversei com o Dimitri’ Ela respondeu, a voz abafada pelo choro ‘Ele me contou que matou uma pessoa’

‘O que??’ As três fizeram coro, espantadas, e se sentaram de frente para a amiga

‘Aquele homem que apareceu morto no lago aqui perto, foi Dimitri’ Ela falava e era difícil compreender por causa das lágrimas, mas era impossível controlá-las ‘Disse que meu pai entregou a ele uma seringa com veneno de Grindylow e o pressionou a injetar no homem, ele acabou cedendo. Disse que se arrependeu, mas não podia fazer mais nada e que Micah testemunhou e meu pai sabe disso’

‘Merlin, que horror!’ Vina falou horrorizada ‘Então seu pai persegue o Micah por causa disso? Por que ele sabe que Micah viu o assassinato?’

‘Não, Dimitri disse que não sabe o motivo, mas começou assim que Micah pisou aqui’

‘Mas o que Dimitri vai fazer?’ Annia perguntou ‘Se ele contou isso a você, significa que vai nos ajudar?’

‘Ele quer ajudar, mas tem medo’ Evie respondeu, o choro diminuindo, mas ainda presente ‘Quem executou foi ele, sabe que vai ser prejudicado’

‘Mas ele tem 13 anos, é menor de idade’ Milla interrompeu ‘Quem vai responder processo é o seu pai, ainda mais que foi ele que instigou o garoto a fazer isso’

‘Eu sei, disse isso a ele, mas ele tem mais medo do que pode acontecer a ele quando meu pai descobrir que ele se entregou. Envolve a Sociedade também, ele não sabe o que fazer, envolve muita gente’

‘Então vamos falar com os meninos, os mais velhos da Sociedade podem ajudar, eles vão saber o que fazer’ Vina sugeriu e Annia e Milla concordaram com a cabeça

‘Não quero colocar Dimitri em perigo, não vou cobrar dele que entregue meu pai aos aurores se isso for deixá-lo em uma situação ruim’

‘Vai dar tudo certo, o pai do Chris vai ajudar’ Uma voz masculina invadiu o quarto e Evie saltou do chão no mesmo instante.

Micah estava parado na porta, ainda de mochila nas costas, e sorria cansado. Ela correu pelo quarto e o abraçou, afundando a cabeça em seu ombro e recomeçando a chorar.

‘Vai dar tudo certo, eu nunca mais vou deixar você sozinha’ Ele repetia, enquanto acariciava seus cabelos. E ela sabia que era verdade. Ele jamais sairia do seu lado outra vez.


I love you, I've loved you αll αlong
And I forgive you for being αwαy for fαr too long
So keep breαthing 'cαuse I'm not leαving you αnymore
Believe it, hold on to me αnd never let me go

Nickelback – Far Away

Monday, March 02, 2009

Avalon, tarde da noite.

‘Então você ligou mesmo pra ele?’ Milla perguntou ansiosa e todas trocaram olhares rápidos ‘Conta como foi!’

‘Foi... Maravilhoso’ Admiti, um pouco sem graça ‘Só de ouvir a voz dele já teria valido a pena’

‘E vocês se entenderam de vez?’ Vina questionou ‘Resolveram tudo?’

‘Não tudo, não falamos de muitas coisas, por telefone é ruim. Mas ao menos agora eu sei que queremos a mesma coisa, que queremos fazer dar certo, independente de tudo que tem acontecido’

‘Bom, já é um começo’ Nina falou e elas concordaram ‘E quando vocês pretendem se encontrar?’

‘Não sei, depende de conseguirmos alguma coisa que mantenha meu pai longe, não é?’

Dario abriu a boca para responder, mas foi interrompido por uma batida na porta. Annia levantou para abrir e se espantou. Ty, Chris, Gabriel, Miyako, Victor, Ricard, Reno, Seth e Griffon entraram em fila e nos encaravam esquisito. Trocaram olhares rápidos e Ty foi quem falou primeiro.

‘Nós já sabemos que vocês estão atrás da mesma coisa que a gente’ Ele falou sério e nos olhamos confusas ‘Bom, sabemos que a Evie está, então deduzimos que todas estejam’

‘Alguém traduz, por favor’ Annia falou perdida e rimos.

‘Micah nos contou que você ligou para ele’ Gabriel virou pra mim ‘E disse que você estava tentando “resolver as coisas por aqui”. Você está tentando encontrar um meio de manter seu pai afastado, não é?’

‘Como vocês sabem disso?’ Perguntei espantada e as meninas também pareciam surpresas.

‘Por que Micah pediu a nossa ajuda’ Agora era Chris que falava ‘Quando ele foi ameaçado pelo seu pai, me procurou e pediu ajuda. Estamos tentando encontrar um meio de fazê-lo voltar em segurança desde então’

‘Micah foi ameaçado pelo pai dela?’ Milla ficou de pé e encarou os meninos ‘Evie foi ameaçada por ele!’

‘Como é que é?’ Victor entrou na conversa, e cada vez mais ficávamos confusos ‘Ele ameaçou os dois, então? Porque pro Micah ele disse bem claramente que, caso ele se aproximasse de você outra vez, quem pagaria seria você’ Disse apontando para mim.

‘Pois pra mim ele disse que daria um jeito de tirar o Micah de circulação se eu insistisse no namoro’ Respondi cada vez mais indignada com tudo que estava acontecendo

‘O fato é que com ou sem ameaça, Micah está voltando’ Ty falou e olhei para ele alarmada ‘Ele disse que não vai mais se esconder, quer ficar aqui e lutar’

‘Mas ele não pode!’ Falei exaltada ‘E se acontecer alguma coisa? Meu pai não está brincando. Vocês acham que o conhecem pelas coisas que contei, mas ele pode ser bem pior’

‘Não adianta, Evie, ele disse que vai voltar e está decidido. Você o conhece, sabe que quando enfia uma coisa na cabeça, ninguém o faz mudar de idéia’ Gabriel completou

‘Ele disse quando está vindo?’ Perguntei sem conseguir esconder a ansiedade

‘Isso ele não disse, mas achamos que não vai demorar’ Victor respondeu ‘Fica tranqüila, Evie. Vai dar tudo certo’

‘O cara neutralizou os dois lados, ele sabe bem o que faz’ Dario falou caminhando até a janela para fechar o vidro e cortar o vento gelado que entrava ‘Mas já passamos por uma guerra contra vampiros, não vamos ser derrubados por ele’

Dario se esticou para puxar a janela e sua camisa levantou, deixando a mostra uma marca na região lombar. Era uma cruz e eu tinha certeza já ter visto aquela marca em alguém, mas não me lembrava quem. E enquanto me pegava tentando recordar, percebi que Ty, Chris e Reno se olharam espantados e encararam Dario. Foi uma troca de olhares rápida, mas carregada, e que se tivesse sido combinada talvez às expressões não tivessem saído tão sincronizadas. Ele abaixou a camisa depressa ao perceber que havíamos visto a cruz e estava esperando ver quem seria o primeiro a se pronunciar.

‘Quando você entrou?’ Chris perguntou enigmático

‘Há um mês’ Dario respondeu no mesmo tom e nossas cabeças iam de um para o outro

‘Você foi o novato que bateu no Max’ Ty constatou, e soltou uma gargalhada satisfeita ‘Não acredito’

‘Então todas já sabem?’ Foi a vez de Reno perguntar e não entendermos

‘Sim, já sabem. Entrei com o propósito de ajudar’

‘Pelo amor de Merlin, o que nós já sabemos??’ Vina explodiu de curiosidade e eles se assustaram.

‘Acho que eles estão falando da tal Sociedade’ Nina sugeriu e Ty confirmou com a cabeça

‘Então vamos abandonar esse ar de mistério, ne? Todo mundo já sabe, não tem mais bosta nenhuma secreta aqui!’ Miyako quebrou o clima tenso e acabamos rindo do jeito que ela falou

‘Miyako está certa, estamos todos atrás da mesma coisa’ Gabriel a apoiou e nos encarou ‘Vocês já conseguiram alguma coisa ou estão perto de algo?’

‘Nada que nos dê segurança. E vocês?’ Milla respondeu não muito animada

‘Tínhamos uma pista, mas acabou que não nos levou a lugar algum’ Ricard respondeu também desanimado.

‘Bom, mesmo sem nada na manga, Dario tem razão. O que é um homem e talvez alguns aliados quando já enfrentamos vampiros sanguinários?’ Annia falou um pouco mais animada, buscando apoio no pessoal.

‘Esse é o espírito!’ Griffon falou empolgado ‘Não vamos deixar nada acontecer a vocês, Evie. Disso não tenha duvida’

‘E eu acho que a prioridade no momento é descobrir porque o pai dela odeia tanto assim o Micah’ Seth sugeriu ‘Isso não é normal, alguma coisa tem ai’

‘Também acho. Nosso novo ponto de partida deveria ser esse, já que não conseguimos mais nada. Muita coisa pode ser esclarecida se conseguirmos entender esse ódio todo’ Milla concordou e todos apoiaram.

‘Evie?’ Chris estalou o dedo na minha frente e sai do transe, o encarando ‘Estava nos ouvindo?’ E confirmei com a cabeça

‘Dimitri’ Falei alto, mas era como se falasse comigo mesma ‘Ele tem uma marca dessas. Ele também é da Sociedade?’ Disse apontando para Dario.

‘Sim, Dimitri também faz parte’ Ty respondeu ‘Por quê?’

‘Micah disse para conversar com ele. Que ele poderia ajudar mais do que eu posso imaginar’ Respondi encarando os três ‘Ele pode ajudar?’

Os três se encararam e não foi preciso uma resposta falada para que soubesse que Dimitri sabia mais do que aparentava. Exatamente o que teria que falar com ele eu ainda não sabia, mas ia procurá-lo no dia seguinte, assim que acordasse. Se Micah estava mesmo voltando, não dava mais para descansar até que começássemos a obter algumas respostas.