Tuesday, October 19, 2010

Era sexta-feira. A reunião do Conselho do Grêmio Estudantil daquela semana estava começando e o foco dela seria o dia das bruxas, que estava apenas a duas semanas de distancia. Com todos os preparativos das Olimpíadas, acabamos deixando a festa mais importante das escolas de bruxaria de lado. Lucian e eu já andávamos discutindo idéias para fazer algo diferente e como ninguém mais parecia ter gastado tempo pensando nisso, pedi a palavra.

- Pode falar, Lusth – Parvati disse de má vontade – Alguma idéia para a festa de Halloween?
- Sim, Lucian e eu conversamos e pensamos em algumas coisas – indiquei Lucian com a mão e ele se ajeitou na cadeira para falar também – O que acham desse ano fazermos a festa do lado de fora da escola?
- Falamos com alguns comerciantes do vilarejo e eles toparam contribuir com o que puderem para que a festa aconteça na praça da cidade, já que assim atrairá mais clientes para eles – Lucian completou e vi que a maioria começava a se animar.
- Teríamos mais espaço e liberdade, podemos montar um palco para apresentações – indiquei Yanic do outro lado e ele assentiu concordando com a idéia – E também vai ser mais divertido para os calouros, e alguns veteranos também, que vão poder brincar de trick or treat.
- Ah, e podemos fazer a festa à fantasia.
- É uma ótima idéia, meninos! – Leo nos apoiou e olhou para Parvati – Não é?
- Não vamos levar a festa para fora do castelo, tem que ser aqui dentro – ela foi enfática e acho que se meu poder fosse algo como o Ciclope, ela teria desintegrado na minha frente – Se ninguém mais tiver uma idéia, vamos terminar de discutir o que faremos para não deixar a situação da bebida de descontrolar outra vez com os calouros, como ano passado.

Ainda abri a boca para argumentar, mas Lucian agarrou meu braço e me puxou de volta para a cadeira, balançando a cabeça dizendo que não valia à pena discutir naquele momento. Agora era uma boa hora para já ter aprendido a manipular mentes.

ºººººº

- Aquela garota me paga! – gritei alto o suficiente para que ela ouvisse depois que saímos da sala do Conselho, mas Lucian e Jack me empurravam depressa pra longe – Isso não vai ficar assim!
- Calma, Ozzy! Eu vou falar com ela, ela vai voltar atrás – Jack falava tranqüilo.
- É, ela é prima dele, com certeza vai aceitar se ele falar com ela.
- Não, não precisa fazer nada, eu mesmo vou resolver isso.

Soltei-me das mãos dos dois e apertei o passo na direção contrária a que ela estava. Se ela achava que ia abaixar a cabeça e deixar por isso mesmo, estava muito enganada.

ºººººº

Depois de sermos liberados pelo professor Maddox para competir na Patinação, Finn, Oleg, Jack, Lucian e eu rapidamente nos tornamos obcecados com a idéia de vencer aquela prova. Aquela era nossa especialidade, no gelo nos sentíamos em casa, era inaceitável que perdêssemos. Treinávamos todos os dias pelo menos meia hora e não seria diferente naquele dia, mesmo com os humores alterados depois da reunião do Conselho.

- Você não vai dizer o que fez? – Lucian perguntou desamarrando os patins dos pés.
- Acho que ele não precisa dizer nada – Oleg ficou de pé e apontou na direção do rinque, aonde Parvati vinha marchando enfurecida – Vamos descobrir em 5, 4, 3...
- VOCÊ FOI FAZER QUEIXA PARA A PROFESSORA MIRA? – ela berrou tão alto que fez eco.
- Sim, fui – respondi calmo, tirando meus patins – Você recusou a idéia por puro capricho, só porque não vai com a minha cara.
- Eu recusei porque era uma idéia idiota!
- Não, não era uma idéia idiota, você sabe disso. Foi uma idéia genial.
- Você vai pagar por isso, Lusth – ela mudou o tom de voz para um de ameaça e bateu o dedo no meu peito – Nós vamos fazer a festa que vocês querem, já que estou sendo obrigada a aceitar, mas isso não acaba aqui.

Continuei parado vendo-a pisar duro no rinque soltando fumaça pelas orelhas e antes que saísse do nosso campo de visão comecei a rir, sabendo que a irritaria mais ainda. Os quatro me olhavam divididos entre a risada e a preocupação, mas no fim acabaram rindo.

- Precisava mesmo disso? – Jack perguntou sério – Eu podia ter falado com ela.
- O que? E eu perder a princesinha mimada bufando feito um touro? – soltei uma gargalhada – Nem pensar!
- Bom, então temos nossa festa autorizada? – Lucian sorriu animado.
- Com certeza! – levantei empolgado – Que tal irmos até o vilarejo fechar alguns contratos?

Ninguém tinha nenhuma objeção a fazer e resgatamos Alec e Julie do treino de Patinação Artística antes de atravessarmos os portões do castelo. Aquela festa seria lembrada por muitos anos no Instituto Durmstrang e a Karev teria que engolir essa.

ºººººº

- Muito bem, digam o que conseguiram.

A professora Mira passou a palavra para mim e fiquei de pé. Uma reunião de emergência do Conselho havia sido convocada na tarde de sábado para discutirmos os preparativos da festa, agora oficialmente aprovada pela querida presidente.

- Conversamos com os comerciantes ontem à tarde e conseguimos seis patrocínios – peguei a pasta aberta na mesa para ler – A decoração da festa vai ficar por conta da Livraria da Travessa, eles se ofereceram para decorar toda a cidade e aceitam ajuda dos alunos. O som e a iluminação são por conta da boate dos meus pais, ele se disponibilizou para montar pontos de luz e alto falantes em toda a praça, e meu irmão vai ser o DJ da festa, sem custos.
- As comidas vão ser divididas entre o Skavurska e a Florean Fortescue – passei a pasta para Lucian – Enquanto o primeiro cuida das comidas salgadas, o segundo fica com a parte das guloseimas. E a bebida vai ser por conta do Café Cultural.
- Eles garantiram que terão bebidas não-alcoólicas também – me apressei em dizer, antes que a professora perguntasse – Não vão servir apenas whisky de fogo e cerveja amanteigada.
- E o teatro concordou em montar o palco para que a banda do Yanic se apresente, e quem mais quiser subir lá – Jack completou e Yanic fez um sinal positivo com a mão.
- Excelente! – a professora estava animada – Gostei muito da idéia, acho que tem tudo para ser a melhor festa e Halloween que Durmstrang já organizou. Vocês têm total liberdade para começarem a preparar tudo, ajudar as lojas com o que precisar, e não se esqueçam de colocar seguranças na praça, não queremos nenhuma confusão.
- E vai ser à fantasia mesmo? – Robert perguntou.
- Sim, traje obrigatório, todos tem que entrar no clima – confirmei e ele e Leo deram um high-five.
- Muito bem, agora vamos dividir as tarefas, decidir quem vai ajudar com o que.

Perdemos nossa tarde de sábado dentro da sala de reuniões, mas no fim valeu à pena. Quando fomos liberados, cada um tinha uma tarefa diferente para a organização da festa e ninguém ficou sobrecarregado. Lucian logo se ofereceu para comandar a ornamentação com a livraria e Leo e Robert iam ajudá-lo, enquanto eu dividia o trabalho de iluminação com Jack. O vilarejo não será mais o mesmo depois dessa festa.

Tuesday, October 05, 2010

Desde que as aulas recomeçaram, o único assunto em todas as rodas de conversa eram as Olimpíadas. Já tinha uma idéia do que queria competir e havia me reunido com os garotos para montarmos duas equipes. Lucian, Oleg, Finn e eu competiríamos juntos na Canoagem e para a Patinação de Velocidade, Jack se juntava a nós quatro e completava o time.

No dia seguinte do anuncio das Olimpíadas, um aviso foi pregado em todos os murais da escola, notificando uma reunião na semana seguinte no campo de quadribol com toda a escola, onde o professor de Educação Física, Maddox, ia falar sobre as modalidades disponíveis e explicar as regras para as inscrições. No dia e hora marcada, as arquibancadas já estavam cheias e ele apareceu ao lado da nova professora de Artes, Georgia Yelchin.

- Boa noite a todos – Maddox falou com sua voz grave – A pedido do diretor Ivanovich, estamos aqui para explicar as novas regras para a inscrição nos jogos Olímpicos e tirar dúvidas. Professora? – e passou a palavra à professora Yelchin.
- Obrigada, professor. Devido ao grande numero de alunos inscritos nas últimas Olimpíadas que não eram capazes de competir, a partir desse ano todas as escolas adotarão o sistema de seleção de alunos para os jogos. Todos, a partir do 2º ano, podem se inscrever nas modalidades que quiserem, porém só aqueles realmente capazes de competir serão escolhidos para integrar a delegação de Durmstrang.
- O que? – ouvi Parvati dar um salto na minha frente – Vamos ser avaliados antes? Por que eu não sabia disso?
- E por que não me surpreende que a presidente do Grêmio não saiba o que acontece na escola? – provoquei.
- Alguém te perguntou alguma coisa? – ela virou pra trás, de cara feia.
- Se quiser competir, agora vai ter que suar a camisa, bonequinha. Vai ser muito divertido ver sua cara maquiada suando feito um porco.
- Qual é o seu problema, hein? – Lukas, o namorado dela, ameaçou levantar, mas ela o segurou – Acho melhor parar de dirigir a palavra a minha namorada, ou vamos ter problemas.
- Uau, agora eu fiquei com medo. – Oleg soltou uma gargalhada do meu lado.
- Algum problema ai em cima? – ouvimos a voz de Maddox se alterar – Senhores Lusth, Kaporv, Hölzenben e Srta. Karev?
- Não senhor – respondemos todos ao mesmo tempo.
- Então calem a boca e prestem atenção ao que está sendo dito.
- As seletivas começam depois de amanhã, sempre a partir das 17h – a professora Yelchin falava mais calma que ele, embora também tivesse uma expressão zangada – As aulas dos clubes serão suspensas por duas semanas, para que vocês tenham tempo para se dedicar aos testes.
- Se não tem certeza de que pode fazer, não se inscreva. Se eu ver algum aluno inscrito, por exemplo, na Montaria e que não saiba montar em um cavalo, vou punir em campo durante minha aula. – Maddox ameaçou e ninguém ali tinha duvidas de que ele cumpriria - Não me façam perder tempo se não sabe o que está fazendo. A arena será montada no campo de quadribol para que treinem antes das seletivas, vocês têm dois dias até lá. Pensem muito bem antes de colocarem seus nomes ao lado das modalidades disponíveis.
- E quais modalidades podemos fazer duplas ou equipes? – um garoto do 4º ano levantou a mão do outro lado da arquibancada.
- Foi bom perguntar, vamos falar sobre isso agora.

Os dois começaram a falar de cada uma das modalidades e depois de meia hora, onde mais ninguém parecia ter duvidas, fomos dispensados. Vi Lukas rebocar Parvati pelo braço para longe do nosso grupo antes que ela tivesse tempo de responder o que Maddox interrompeu e me reuni com meus amigos, caminhando com eles de volta para as repúblicas.

- Todos sabem remar, não é? – Lucian perguntou preocupado.
- Relaxa, não vamos afundar a canoa – Finn bateu em seu ombro.
- Julie, o que acha de competir comigo na Patinação Artística? – Alec perguntou com cara de cachorro abandonado e rimos.
- Está louco? – a reação dela foi a esperada – Não estou a fim de dar 50 voltas no gelo porque cai no meio de um salto nos testes.
- Ninguém vai cair, somos ótimos patinadores! – Alec insistiu – Somos velozes, temos equilíbrio e sabemos dançar.
- Não sei não... Não é a mesma coisa que correr pelo gelo com um taco na mão.
- Prometo que não vamos fazer papel de idiotas no rinque.
- Você não tem como garantir isso – Alec fez uma cara de choro e Julie revirou os olhos - Vou me arrepender disso mais tarde, mas tudo bem. Faço dupla com você.

Alec a agarrou pela cintura e a ergueu do chão, girando pelo gramado. Começamos a ri quando Julie gritou dizendo que já estava ficando tonta e que aquilo era sinal de que aquela dupla não ia dar certo, mas o estrago já estava feito. Alec nunca ia deixá-la desistir.

ºººººººººº

- Será que dá pra me soltar? – travei o pé na grama, obrigando Lukas a parar – Não sou um bicho de estimação pra você arrastar.
- Desculpe meu amor, mas se não a tiro de lá, ia continuar batendo boca com aquele palhaço do Lusth – Lukas me soltou e beijou minha testa – Não entendo porque você sempre responde às implicâncias dele. Devia apenas ignorar.
- Porque se eu não responder, ele vence – respondi irritada – Não posso deixá-lo ter a última palavra e você permitiu isso!
- Ok crianças, já chega – Leo interferiu antes que eu começasse a me exaltar – As pessoas estão começando a olhar.
- Eu vou voltar pro castelo, pois ainda tenho coisas do jornal a resolver. Quando você estiver mais calma, conversamos – Lukas falou baixo e saiu de perto do nosso grupo.
- Ele tem razão, sabe? – Robbie falou cauteloso – Você dá moral demais pras implicâncias do Ozzy.
- Ok, o que vamos fazer agora? – ignorei o comentário dele – Vamos ter que arrumar um esporte fácil se não quisermos ficar pra trás.
- Bom, não sei quanto a vocês, mas eu sou praticamente o Robin Hood com arco e flecha, minha pontuação é altíssima – Leo se gabou e Robbie me olhou de sobrancelha erguida.
- No Nintendo Wii? – Robbie perguntou e ela confirmou – Você sabe que o peso de um arco é diferente do peso do controle, não sabe?
- Claro que sei, mas a técnica é a mesma. Amanhã vou até o campo e se suportar o peso dele, encontrei meu esporte. Não vou me inscrever em nada que exija esforço físico, nada de ficar correndo e pulando feito uma louca.
- Se levarmos em conta nosso desempenho no videogame, então Parv e eu deveríamos formar uma dupla no Tênis – Robbie falou em tom de brincadeira, mas eu agarrei seu braço, eufórica.
- VAMOS! – cheguei a gritar e ele me olhou assustada – Nós temos que formar uma dupla! Parvesh não pode ficar só no mundo virtual.
- Oh Merlin, isso de novo não... – Leo bateu com a mão na testa. Parvesh era a mistura de Parvati com Rajesh, o segundo nome de Robbie, e como chamávamos nossa dupla imbatível e insuportável nos torneios de Wii.
- Já estou dentro, garota! – Robbie se contagiou com a minha empolgação – Vamos mostrar a eles o poder de Parvesh.
- Socorro! – Leo agarrou o braço de Julie, que estava passando na hora com Alec, Finn e Ozzy – Eles vão reeditar Parvesh.
- AH NÃO! – Finn levou a mão à testa, onde a marca de um controle ainda era visível – Me avisem quando forem jogar, vou ficar longe do campo.
- Vai se inscrever pro Tênis, Ozzy? – perguntei – Ia adorar lhe dar uma surra em campo.
- Tênis é fácil, por que não me desafio pra algo que exija mais, como Triatlo?
- Acha que pode conseguir uma colocação melhor que a minha no Triatlo?
- Acho não, tenho certeza.
- Ok, é uma aposta – estendi a mão e ele apertou – Quem perder vai passar uma semana como elfo doméstico do vencedor.
- Ótimo! Preciso mesmo de alguém com mãos delicadas para lavar minhas cuecas.
- Já fez uma escova no cabelo de alguém? É bom começar a treinar.
- Ok, já chega por hoje – Julie empurrou Ozzy para longe de mim – Vamos embora antes que eles apostem em uma corrida de lesmas.
- Sim, vamos, temos algumas fitas de Patinação Artística para assistir – Alec se despediu de Robbie com um beijo e se juntou a Julie bloqueando a passagem entre Ozzy e eu.
- Parv, você tem noção de que você acabou de apostar que pode vencê-lo em um esporte que envolve nado, corrida e pedalada, sendo que seu único contato com água é quando toma banho, você só corre nas liquidações de shopping e pedala quando... – Robbie parou de falar, pensando – Você nunca pedala!
- Relaxe, eu tenho um plano.
- Que plano? Usar luvas pra lavar as cuecas dele? – Leo perguntou descrente.
- Há tanto sobre Parvati Karev que vocês não sabem... – dei um suspiro dramático e eles me olharam torto – Há 2 anos, quando estávamos de férias em um resort do Caribe, Jack me convenceu a participar do torneio de triatlo que teria na ilha. No começo achei loucura, mas acabei topando. E adivinhem quem chegou em 2º lugar?
- Quem é você e o que fez com a minha amiga sedentária? – Robbie me sacudiu e começamos a rir.
- Aquele porco espinho vai passar uma semana arrumando nosso quarto e carregando meu material, podem escrever.

Robbie soltou uma gargalhada como as das bruxas de desenhos animados e o imitamos, rindo dessa forma até chegarmos de volta à Atena. Se já estava empolgada com as Olimpíadas antes, agora não ia nem dormir na expectativa. Um elfo doméstico particular por uma semana faria muito bem ao meu ego.

Monday, October 04, 2010

Lembranças de Lucian P. Valesti

- Bom dia, Diretor, poderia falar com o senhor?
- Claro, Ferania, entre. Pode me chamar apenas de Igor.
- Obrigada, Diretor. Digo Igor. – Ferania falou ao sentar-se diante da mesa do Diretor. Igor lia alguns documentos e terminou de assinar um, para depois virar-se para Ferania.
- O que deseja? Teve algum problema em se instalar no Instituto? Necessita de algum equipamento novo para o Observatório?
- Não, nada disso. Os equipamentos são excelentes! – Ferania falou com um sorriso e Igor ficou contente de tê-la contratado, pois seus entusiasmo e inteligência com a disciplina eram conhecidos. – É sobre um dos alunos.
- Já tem algum problema? – Igor perguntou, levantando uma sobrancelha. Ferania riu.
- Não, nenhum. Apenas queria perguntar se há algum problema. Um dos meus alunos do 6º ano é meu amigo de infância. Ele é quase como meu irmão e o conheço desde criança. Gostaria de saber se há algum problema em eu dar aula a ele.
- Claro que não. Apenas peço que não demonstre predição por ele ou dê preferências a ele em sua disciplina. E é bom que você já se dê bem com um dos alunos, é mais fácil para se habituar ao Instituto. Quem é o aluno?
- Obrigada, gostaria muito de dar aula para ele e para todos os demais alunos. É o Lucian, Lucian Platinus Valesti, além é claro de sua amiga, Lenneth Valkyrie, e seu irmão, Lawfer.
- Ah, então não haverá problemas. Se tem um aluno que nunca me deu problemas, é o Lucian. – Ferania sorriu ao ouvir aquilo. Conhecia muito bem Lucian para saber que aquilo era verdade.

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- Ei, Lucian, Jack. – Eu e o Jack conversávamos sobre a nova equipe do jornal, sobre planos para as próximas edições e tudo mais quando ouvimos nos chamando. Me vi diante de Ozzy, Alec, Oleg, Finn e Orion, que apertaram minha mão animados.
- A reunião demorou hoje! – Finn comentou, enquanto espiava pela porta.
- É a primeira reunião, sempre demora. Teve a nomeação dos novos cargos e tudo mais. – Falei caminhando com eles. Todos teríamos a mesma aula, Astronomia, com um professor novo.
- E ai, quem foram os selecionados? Te deram a Chefia finalmente? – Alec perguntou.
- Não, deixaram com o Lukas Hölzenben. Prefiro assim, esse ano tem Olimpíadas, preciso treinar muito. Quero ganhar pelo menos uma medalha!
- Mas você vai ganhar uma com certeza! Acho que alguém tira alguma medalha de Patinação da gente? – Orion falou entusiasmado, enquanto ele e Oleg batiam a mão no ar, rindo.
- E o restante da equipe como ficou? – Ozzy perguntou curioso. Eu sabia o porquê da curiosidade.
- Não adianta, não vou te ajudar a levar eles pro seu lado e tentar usar o jornal! – Eu falei rindo. Ele deu de ombros.
- Porque tem que ser tão certinho hein? Mas mesmo assim gosto de você. – Ele falou, enquanto caminhava ao meu lado abraçado.
- Que bom. De qualquer forma, a nova equipe é: Lukas, Liseria, Jude, Edgar Lusth, Parvati, Leonora, Robert, Leonard, Florence, Jack e eu. Nossa primeira edição sai sábado mesmo, vamos dar uma relembrada em avisos e tudo mais, ainda mais com a Semana da República chegando.
- Ah finalmente! – Alec sorriu, junto dos demais. Eu logo fechei a cara.
- Comportem-se esse ano, por favor! Sabem que eu não gostei do que teve no ano passado. – Eu falei severo e todos se fizeram de desentendidos, mas sabiam a que eu me referia. Sempre que tinha confusão no Instituto o Time de Hóquei estava envolvido. E muitas vezes sobrava para mim ajudá-los. Ainda lembro da cara do calouro quando eu o ajudei a sair da parede.

Continuamos conversando sobre o Time e sobre o novo ano, enquanto eles comentavam das garotas e tudo mais. Caminhávamos até o Observatório e quanto mais nos aproximávamos, mais curiosos com o novo professor ficávamos. Alguns diziam que seria um novo professor rígido para compensar os anos anteriores em que muitos cursavam a matéria com pouca dedicação. Eu sempre gostei de Astronomia, então sempre gostei da matéria. Ainda mais por poder conversar com a Fer sempre nas férias.

Quando chegamos no Observatório, toda a turma já estava reunida e logo encontrei Liseria, recebendo um longo beijo dela. Ficamos mais um tempo conversando, até que ouvimos a luneta do Observatório se mover. Era algo raro, pois mesmo nossos antigos professores pouco a usavam, preferindo que cada um usasse seu próprio telescópio.

- É uma pena nunca terem usado esse telescópio decentemente! Ele tem uma lente magnífica! E o céu daqui é tão claro. É capaz de vocês conseguirem ver Acrux. – E eu fiquei de boca aberta surpreso, virando-me imediatamente.

O que me surpreendeu não foi eu reconhecer Acrux, pois conhecia essa estrela. O que me surpreendeu foi como aquela voz era familiar e conhecida. E eu estava certo. Assim que me virei, estava diante de Ferania, ou Fer, minha amiga de infância, como uma irmã mais velha. Ela sorriu para todos e piscou um olho para mim. Vi que todos a olhavam surpresos e curiosos, principalmente os garotos (o
que me fez querer revirar os olhos, se não estivesse ainda surpreso).

- Érr boa noite, você é uma aluna mais velha? Agora é o horário do 6º Ano. – Leo falou, meio confusa.
- Não. Desculpem-me, deixe me apresentar: Boa noite a todos, eu sou Ferania Schön, a sua nova professora de Astronomia.

Ela falou com um sorriso totalmente à vontade, enquanto todos ainda olhavam meio abobalhados para ela. Eu entre eles, com um olhar de confusão. Pelo que me lembre, ela estava trabalhando em um observatório de Moscou, e só voltaria para a Hungria no final do ano. Ela viu meu olhar e sorriu, e, já que nos conhecíamos muito bem, soube que depois ela explicava.

Não demorou para todos soltarem exclamações surpresas e comentarem o fato dela ser muito jovem. Os garotos foram os primeiros a quererem falar com ela, pois ela sempre foi muito bonita, e vi que todos pareciam admirados. Liseria também estava surpresa e me olhou indagadora, mas dei de ombros, dizendo que também não sabia.

- Muito bem, muito bem. Chega de surpresa. Para confirmar aos senhores, tenho 25 anos e fui convidada pelo Senhor Ivanovich para lecionar a vocês sobre Astronomia. Formei-me em Durmstrang também e decidi aceitar a oferta. Antes de mais nada, quero deixar claro que eu amo muito o que faço e espero de vocês a mesma paixão. Ok, sei que nem todos gostam, mas quero que ao menos se esforcem. Hoje quero apenas conhecer todos vocês. Quero que digam o nome de vocês e ao menos o nome de uma estrela ou constelação ou meteorito. Pode ser uma que vocês gostam ou uma que acham o nome bonito. Vamos começar por você, Sr Valesti. – Ela falou, sorrindo para mim. Engasguei enquanto todos olhavam para mim, curiosos como ela conhecia meu nome. Fiquei vermelho e me lembrei de reclamar com ela depois.
- Boa noite, professora Schön. – Eu falei e ela segurou o riso. – Meu nome é Lucian Valesti e gosto muito de Astronomia. Minha estrela favorita é Rigel, da constelação de Orion. – Eu falei, sendo que ela já sabia.
- Excelente escolha, Rigel é a 6ª mais brilhante. Agora, o próximo deverá me responder, qual a mais brilhante do céu?

Eu me segurei para não responder, e sorri ao ver a turma se soltando. Notei algumas tentando olhar mapas de astronomia rapidamente, enquanto outros olhavam para o céu, achando que o nome de uma estrela ia aparecer nele. Ozzy respondeu, todo sorrisos para Ferania, que também o conhecia, e acertou ao dizer “Sirius”. O resto da aula passou enquanto todos se apresentavam e tentavam lembrar nomes de estrelas. Ferania não deixou que repetissem nome e obrigou todos a tentar lembrar nomes de estrelas, dando dicas a todos. Notei o modo como ela estava conquistando a turma. A aula passou rápido e ao final todos saíram alegres, comentando dela.

- Senhor Valesti, poderia esperar um segundo? – Ferania me chamou e eu fiquei para trás ganhando olhares de todos. Liseria riu antes de sair e disse que iria dormir, dando-me um beijo. Ozzy ria também, sabendo que eu estava sem graça. Assim que ficamos sozinhos na sala, eu suspirei, enquanto ela ria.
- Gostou da surpresa? – Ela falou, jovial como sempre. Ela se aproximou de mim e me abraçou e demorou um pouco para eu retribuir o carinho, afagando o seu cabelo. Não estou acostumado com essa relação com professores.
- Podia ter avisado não! E que história é essa de chamar toda a atenção para mim? – Eu falei suspirando, enquanto sentávamos no parapeito do Observatório.
- Achei que seria divertido ver seu rosto vermelho, maninho. – Ela falou rindo. Eu suspirei novamente.
- Eu fiquei roxo isso sim. Todos vão comentar disso e daqui a pouco terei que colocar uma nota no jornal dizendo que é minha amiga de infância.
- Seria interessante, até porque vão surgir boatos... – Ela falou, gargalhando em seguida.
- É, eu sei disso. – Eu falei, mas acabei rindo também. – Então, não sabia que vinha trabalhar aqui!
- Eu recebi o convite quando já estava em Moscou. Cheguei ontem ao Instituto e assim que cheguei, conversei com o Igor e ele disse que não teria problemas dar aula para você.
- Então não vejo problema. Me diz que não vai ficar fazendo isso o tempo todo, por favor? Já não basta o Kollontai no meu pé.
- Eu já soube que o Renomaru também gosta muito de pegar no seu pé. Que ótimo não? Ah, eu não pude ir hoje, estava ocupada checando o Observatório, mas também sou responsável pelo Jornal, junto da Mira Sakharov.
- Que legal! O Jornal esse ano estará em ótimas mãos! – Falei entusiasmado.
- Ah outra coisa, Lu, queria te perguntar se quer trabalhar em minha livraria, lá no Vilarejo? Meus pais pediram para eu contratar alguém, por meio-período mesmo, para ajudar na loja. Só pude pensar em você!
- Uau! Já até ganhei proposta de emprego da nova professora! Esse ano começou bem! Claro que eu aceito!
- Fora que como seus pais também têm uma livraria, você sabe como lidar com ela. Além é claro que você é apaixonado por livros.

Eu concordei rindo, e conversamos mais um pouco. Até que ela reparou na hora e já eram quase meia-noite. Ele pediu desculpas e me acompanhou até a trilha para a Kratos. Ela se despediu com um abraço e acenou, enquanto voltava para o castelo. Eu fui para a Kratos e assim que abri a porta, fui recebido pelos garotos, que estavam curiosos. Apenas Ozzy conhecia Ferania, além de meu irmão, e tive que explicar a todos, enquanto ouviam implicâncias e gozações. Mas estava feliz, se tinha alguém perfeito para o cargo de professora de Astronomia, era a Ferania.

Friday, October 01, 2010

- Acho que vou declamar um poema…Quem sabe algum trecho de Hamlet, talvez...- começou Robbie fazendo um ar sério e levantou a mão segurando uma maçã e eu disse:
- Se for aquele do ‘ser ou não ser’ não perca seu tempo, todo mundo já sabe que você é. – rimos.
- Todos que pisam num palco e pensam que conhecem Shakespeare, declamam aquele trecho. Precisamos ser originais, não é um diretor qualquer, é a primeira dama da Brodway que vai nos julgar. – disse Parvati e começamos a pensar em músicas que mostrassem o nosso eu, e devo confessar, aquela foi a nossa primeira noite insone, do começo de nosso 6º ano. Mal eu sabia que muitas outras viriam.

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Depois da aula de Artes, fomos para o Grêmio e após a nomeação da Parvati, para presidente, e as advertências sobre a semana das republicas, por mais que isso fosse importante, eu confesso que só tinha pensamentos sobre o tipo de apresentação que faria. Achava engraçado ver que todos os meus amigos estavam passando pelos mesmo problemas, e sempre acabavamos dando palpites uns nas músicas dos outros. Acabou sendo comum vê-los treinando passos de dança pelo corredores, com alguma revista com peças da Brodway na mão ou simplesmente cantando nos chuveiros, afinal todos queriam impressionar. Eu sempre fui eclética em relação à música, e ouvia muita coisa diferente em meu iPod, então tinha a impressão de que se cantasse ‘House is not a home’, poderia impressionar a professora e mostraria um pouco sobre mim.
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Era o final de uma sexta feira agitada, e Parvati, Robbie e eu fomos até a Kratos, pois queriamos relaxar e seria engraçdo ouvir as músicas que os rapazes iriam cantar e quando chegamos lá, o time de hóquei estava reunido na sala e as expressões eram desanimadas.
- Que caras são estas? Alguém morreu?- quis saber Parvati e Ozzy respondeu sério:
- Nosso goleiro titular morreu.- e o encaramos.
- Finn, é o goleiro principal e está sentado ao seu lado, como pode ter morrido?Dãã!.- e antes que Parvati e Ozzy começassem mais uma de suas discussões, Finn, respondeu:
-O professor Maddox,nos avisou que terá que me cortar do time, por falta de patrocinio.
-Vocês perderam o patrocínio? Mas são bons e estão bem na liga...Porque isso agora?- perguntei e Connie disse:
- Não, Leonora, você não está entendendo: o único sem patrocínio, é o goleiro, o resto do time está normal. Parece que foi opção do patrocinador, excluir o Finn. E se ele não tiver apoio financeiro...
-Terá que sair do time, pois todos têm que ter o mesmo patrocinador, e se um jogador não o tiver, todo o time pode ser expulso da liga...- terminei e encarei a cara desolada de meu amigo de infância e ele disse:
- Caras, desculpem...Não sei o que eu possa ter feito para irritar os donos da ‘Vespa’. Se jogassemos numa liga bruxa, isso não seria problema, mas na liga fora da escola...
- Não esquenta, podemos conversar com nossos pais e eles nos ajudam.- disse Ozzy e Parvati disse:
-A mudança de patrocinador agora, vai gerar especulação e isso pode ser negativo para vocês, e principalmente para o Finn.Qualquer faculdade trouxa que o queira, vai querer saber porque ele teve problemas com patrocinador, e mesmo que ele não tenha feito nada, ficará queimado.
- Não falem com seus pais ainda, eu acho que posso ajudar.- e todos me encararam e eu disse constrangida.
- Eu não havia me ligado antes, mas...O dono desta empresa, Vespa...é o meu pai.

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Voltei para Atena, peguei uma mochila, joguei umas roupas dentro e me dirigi ate a estação de trem do vilarejo, o trem para Sofia saía toda sexta à noite, e quando entrei a locomotiva começou a se movimentar. Cheguei a Sofia, pela manhã e fui para a parte trouxa, onde tomaria um taxi até a minha casa.
Ao chegar, fui direto para a sala de jantar procurar o meu pai, que costumava levantar cedo e devia estar tomando seu desjejum, antes de ir para o escritório. Sim, meu pai vai ao escritório inclusive aos sábados. Mas para minha surpresa, não havia ninguém por ali, perguntei para a governanta sobre ele, e ela informou que meus pais estavam passando o final de semana, nos Alpes Suíços e que somente minha irmã estava em casa. Fui para meu quarto tomar um banho e quando sai do banheiro, Camille estava sentada na minha cama.
- Não a convidei para entrar em meu quarto.Retire-se.- disse e ela ignorou:
- Esta casa também é minha e vou aonde quero. Você é que é a visita. O que veio fazer aqui?
- Preciso conversar com nosso pai sobre um assunto que não lhe diz respeito.
- Huumm...Então é mais grave do que pensei. Mas deixe-me adivinhar: é um assunto relacionado àquele seu amigo, o gostosão e lesado: Finnes.
- O que você sabe sobre o Finnegan?- soltei antes que controlasse a minha língua e ela me encarou venenosa:
-Sei que ele é a sua paixãozinha platônica desde a infância. Achou que eu não iria fazer nada, depois da humilhação que você me fez passar? Sim, eu sei que o time de hóquei, poderá ser expulso da liga, afinal eu mesma contei ao papai que Finnes, ficava me assediando e que já estava ficando com medo que ele me atacasse ou forçasse algo, afinal ele pode entrar aqui a qualquer hora, é seu amigo. É claro que pedi para não dar queixa, pois não suportaria a humilhação, e papai me atendeu. Está vendo como é mexer com algo que não lhe pertence? Sempre há consequências.
- Você é uma vaca ordinaria!- disse e fui para cima dela, que correu para cima de minha cama, fugindo:
- Ordinária, porém magra. Toque em mim, e eu faço papai cortar o patrocinio de todos os esportes daquela escola, e espalho que foi sua culpa. Você já é excluída por ser uma baleia, não será dificil as pessoas acreditarem.- e ela estava perto da porta e disse, antes de sair:
- Não duvide de que posso fazer isso, Leonora. Afinal convenci papai a ir para os Alpes num fim de semana, posso fazer muito mais, eu sou a filha amada, nunca se esqueça disso.
Fiquei parada no meio do quarto e pensando em suas ameaças e o que fazer para reverter a situação. Camille, podia ser a ‘filha amada’, mas eu era a filha que tinha o poder do dinheiro. Era hora de equilibrar o jogo.

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Quando voltei para a escola, faltavam apenas vinte minutos para o começo da aula de Artes e eu não iria perder isso por nada no mundo. Joguei minha mochila de qualquer jeito, na sala da república e corri para o castelo. Cheguei a tempo de ver os últimos alunos entrando no auditório. Finn, também estava atrasado e me esperou:
- Hey, Leo. Você demorou a voltar, estavamos preocupados, está tudo bem?
- Sim, tudo. Amanhã o técnico vai te chamar de volta ao time. – respondi e ele me encarou:
- Sério? Mas você não brigou com seu pai não é? E porque está usando toda esta maquiagem? E estas roupas chiques?
-Faz parte da minha apresentação (menti e continuei). Não! Eu não briguei com meu pai. Eu briguei com a vaca da minha irmã, que pediu a ele para te tirar do time, porque ela acha que você pode agarra-la a qualquer momento e força-la a algo, e ela até pediu ele não dar queixa de você como um predador sexual. Maldita dos infernos....
- Desculpe Leo, você e sua irmã têm problemas sérios, mas eu conheço a Camille. Ela nunca falaria algo assim, ainda mais de mim, você deve estar exagerando. Fica toda nervosa e não pensa...
- Exagerando? Você está me chamando de maluca? – alterei a voz:
- Não grita comigo, Leonora. Eu nao te chamei de maluca, apenas sei o quanto você pode dramatizar alguma coisa. Ainda mais se Camille estiver por perto, você se torna irracional. - olhei para ele incrédula e disse:
- É você é um lesado mesmo, não sei porque ainda me preocupo com você, seu babaca. – passei esbarrando por ele, entrei no auditório. Os garotos me encararam em expectativa,então só acenei com a cabeça e fui para perto de Parvati e Robbie. Alec, namorado de Robbie, saiu de seu lugar para que eu me sentasse. Nesta hora a professora após nos dar boa noite, sentou na primeira fileira e começaram as apresentações dos alunos. E o melhor, no palco haviam vários alunos que eram músicos e era só dizer a música para eles e teríamos acompanhamento, da banda da escola.
- Conta tudo, ou vou morrer sufocado de curiosidade, e eu ainda não fiz meu solo, para a nossa Diva. E se isso acontecer, eu venho te puxar pelo pé. - disse Robbie baixinho, numa pequena pausa, mas a professora Yelchin nos cortou:
- Eu também gostaria de ouvir o que a senhorita Ivashkov tanto conta a vocês dois, afinal deve ser algo muito mais proveitoso, do que o meu tempo. – ficamos vermelhos de vergonha e eu disse:
- Desculpe professora, não vai mais se repetir. – e após ela me lançar aquele olhar frio, ela recomeçou a chamar os alunos. Ficamos calados e passamos a ouvir nossos colegas. Yanic, subiu ao palco todo convencido e usava um chapeu de lado, pegou um violão e após alguns acordes, ouvimos, ‘Bilionaire’, e foi engraçado porque esta música realmente, era ele.

Oh everytime I close my eyes.
I see my name in shining lights.
Yeah a different city every night oh
I swear the world better prepare
for when i'm a billionaire.


Depois de batermos palmas entusiasmadas, Lucian subiu ao palco e ele havia feito um mash up de suas musicas favoritas, então ouvimos ‘Dreamer, Nothing else matters e Bard’s Song’, numa voz muito afinada e porque não dizer sexy. Ele saiu do palco vermelho feito um tomate, com os nossos assobios.

I’m just a dreamer
I dream my life away
I’m just a dreamer
Who dreams of better days
Never cared for what they do
Never cared for what they know
Open mind for a different view
And nothing else matters
Tomorrow will take us away
Far from home
No one will ever know our names
But the bards' songs will remain


Liseria foi a apróxima, e não fez feio e subiu ao palco e eu pensava ouvir anjos com sua voz clara e límpida, enquanto ela entoava "Ever Dream", Nightwish, de uma banda trouxa, muito famosa em nosso mundo:

"Would you do it with me
Heal the scars and change the stars
Would you do it for me
Turn loose the heaven within I'd take you away
Castaway on a lonely day
Bosom for a teary cheek
My song can but borrow your grace"


Depois foi a vez de Oleg Karpov, que cantou Grow Up, música de outra banda trouxa muito conhecida chamada, Simple Plan, e todos estávamos empolgados.A professora, parecia gostar do que ouvia.

I'm impolite and I make fun of everyone
I'm immature but I will stay this way forever
Until the day I die, I promise I won't change
So you better give up


Quando pensei que não conseguiria ouvir ninguém melhor, Lenneth, subiu ao palco, usando um daqueles vestidos da renascença e cantando "All I need", do Within Temptation, e foi simplesmente lindo.

'Can you still see the heart of me?
All my agony fades away
When you hold me in your embrace
Don't tear me down for all I need
Make my heart a better place
Give me something I can believe
Don't tear me down
You've opened the door now, don't let it close'


Claro que Robbie, veio depois e também estava muito elegante, com seu terno e gravata, e eu não imaginava que ele tinha uma voz tão bonita e cantou ‘Defying Gravity’, e senti lágrimas nos olhos ao ouvi-lo.

'I'm through accepting limits
'Cuz someone says they're so
Some things I cannot change
But till I try, I'll never know!
Too long I've been afraid of
Losing love I guess I've lost
Well, if that's love
It comes at much too high a cost'


Depois dos aplausos, penso que a professora quis animar um pouco as coisas, e chamou Ozzy, que não se fez de rogado e cantou ‘Highway to hell’ do AC/DC, e quando saiu do palco deu um leve esbarrão em Parv para provocar.

No stop signs, speeding limit
Nobody's gonna slow me down
Like a wheel, gonna spin it
Nobody's gonna mess me around


Parvati, subiu ao palco toda empolgada e depois de começar a cantar ‘Don’t rain on my parade’, ela desceu e ia andando entre o público, fazendo um show. A professora parecia estar gostando da apresentação, pois até sorria, e ao final Parv foi muito aplaudida, e a professora disse:
- Bom trabalho, senhorita Karev. – não preciso dizer que Parv foi aos céus rsrs.

Don't tell me not to fly,
I simply got to
If someone takes a spill, it's me and not you
Who told you you're allowed to rain on my parade


Orion veio logo depois e parecia que alguns dos garotos haviam combinado de usar jaquetas pretas de couro e óculos escuros em suas apresentações, e o visual ficou muito bonito.

‘this ain't a song for the broken-hearted
Nor silent prayer for faith-departed
I ain't gonna be just a face in the crowd
You're gonna hear my voice
When I shout it out loud
It's my life
It's now or never
I ain't gonna live forever
I just want to live while I'm alive
(It's my life)’


Depois de Parvati, foi a minha vez, e eu havia ensaiado uma música que adorava, mas quando subi ao palco, estava tão irritada pela discussão com o Finn, e resolvi mudar de música. Avisei ao pessoal da banda o nome da música, e enquanto os violinos começavam andei pelo palco, como se estivesse no meio de uma discussão com namorado imaginário. Comecei tímida mas àa medida que fui ficando mais confiante, me soltei mais. Percebi quando a professora Yelchin, se inclinou para a frente, prestando atenção.

Don't make me over
Now that you know how I adore you

Don't pick on the things I say
The things I do
Just love me with all my faults
The way that I love you
I'm begging you

Accept me for what I am
Accept me for the things that I do
Accept me for what I am
Accept me for the things that I do


Quando terminei, ela me olhou e acenou com a cabeça, fazendo um sinal de aprovação e eu me segurei para manter a compostura e não sair dando gritinhos e pulando. Era a vez de Finn, e nos encaramos enquanto eu descia do placo, já sabia que ele iria cantar sua música favorita “Over the Raimbow’, mas me espantei quando ao invés dos acordes de uma viola havaiana, chamada uquelele, eu escutei o som de piano, enquanto me sentava ao lado de Parv e Robbie. Olhei para o palco e era o próprio Finn, tocando. Ele me encarou e cantou uma música, de um filme trouxa que nós adorávamos quando pequenos:

So,If you´re mad, get mad
Don't hold it all inside
Come on and talk to me now
But hey, what you've got to hide
I get angry too
But I'm a lot like you
When you're standing at the crossroads
Don't know which path to choose
Let me come along
Cause even if you're wrong...

I'll stand by you
I'll stand by you
Won't let nobody hurt you
I'll stand by you.


Depois de todas as apresentações, a professora Yelchin subiu ao palco e após nos encarar séria disse:
- Eu estou simplesmente chocada! – e ficamos tensos e ela continuou:
- Sempre acreditei naquele ditado antigo que diz que ‘um raio não cai duas vezes no mesmo lugar’, mas vejo que terei que substitui-lo. Pela segunda vez em minha vida, o palco deste auditório, recebeu alunos extremamente talentosos e eu me sinto orgulhosa de estar aqui e presenciar isso. Valerá muito a pena trabalhar com vocês. – sorrimos feitos bobos e ela disse:
- Muito bem, todos para suas repúblicas, a audição está terminada. Os verei na próxima aula.

Saimos do auditório e nosso grupo era muito ruidoso enquanto íamos em direção às nossas repúblicas, quando cheguei na Atena, senti um toque no meu cotovelo e vi que era Finn.
-Podemos conversar um pouco?- fiquei um pouco para trás e o encarei esperando:
- Desculpa dizer que você era irracional, foi rude e eu não gostei disso, você sabe que é importante para mim. – e eu o olhei e disse:
- Sou importante para você? Mesmo?- e ele me disse sorrindo:
- Claro que é, afinal é a minha melhor amiga, é a irmãzinha que eu não tenho...(ficamos nos encarando e ele pigarreou). - E obrigado por falar com o seu pai ok? Foi legal.Estamos bem?
- Não foi nada, Finn, o que os amigos não fazem uns pelos outros não é? E sim, nós estamos bem. Agora vou indo, estou exausta e amanhã temos aula. – entrei e subi direto para o meu quarto e não foi surpresa, ver que Parvati, Jude e Penny estavam me esperando.
- E então?? – perguntaram ao mesmo tempo e eu respondi cansada:
- Estamos bem.Tudo vai ficar bem. – as garotas se aproximaram e me abraçaram, e depois me ajudaram a me trocar e me empurraram para a minha cama, e assim que me deitei adormeci. Sonhei que estava na Brodway, encenando ‘O fantasma da Ópera’ com um mascarado que me abraçava forte, enquanto cantava:

All I want
Is freedom,
A world with
No more night...
And you
Always beside me
To hold me
And to hide me...
Love me -
That's all I ask
Of you...


N. da Autora: Algumas das músicas citadas no post foram colaborações de Renan, Tandi e Ju. Afinal, cada um destes personagens, é um pedacinho de nós quatro, e estas músicas os definem.

Sunday, September 26, 2010

– P R E F Á C I O –

Drammen, Noruega.
[Outubro de 2004]

- Está tudo certo. Nós podemos ir embora daqui e nunca mais vão nos encontrar.

A mulher, que era conhecida nas redondezas como “Madame Castoriadis”, sussurrou convincente para Charles Talemoe – que ainda parecia manter muitas ressalvas quanto ao plano de fuga.

- Não sei... Você poderia ao menos mudar o seu nome comercial, como eu fiz com o meu barco. Aliás, eu mudei muita coisa do antigo “Penélope”. Phoebe não vai conseguir nos encontrar se seu melhor palpite for ele. Mas o seu nome...
- Você não entende. Não é como mudar o nome de um barco, Charles. “Castoriadis” é o meu nome desde que me formei em magia e comecei a trabalhar como astróloga. Eu não me encontraria em outro nome. – ela disse com um leve tom de desespero na voz. – Mas você não precisa se preocupar com nada. Heine logo vai entender que nunca conseguiria encontrar, sozinho, o paradeiro de dois bruxos formados. E Phoebe nem sabe sobre nós... Você pode simplesmente dizer que vai navegar, e nunca mais volta. Ela vai te dar por morto. Logo eles nos esquecem. Acredite em mim, o plano é bom.

Charles raciocinava muito rápido. Sua cabeça formava em velocidades incríveis vários flashes de possíveis desenlaces de toda a trama, para ter certeza de que nada estava lhe escapando. Emily, entretanto, interrompeu seus pensamentos quando se aproximou dele e colou suas testas, decidida a encerrar o assunto.

- Vamos meu amor. Pare de pensar no que pode dar errado. Vamos embora daqui. Eu não agüento mais aquela casa. – ela disse em sussurros, enquanto o encarava fixamente e passeava os dedos de suas mãos pelo rosto e pescoço dele, que ia amolecendo gradativamente.
- Eu também não agüento mais “ela”. Está me deixando louco toda sua obsessão. E não agüento mais o trabalho no Ministério. Não agüento mais minha vida aqui. Só tenho pena de Penélope... Eu queria poder levar minha filha conosco. Queria poder “salvá-la” também. – ele disse deprimido.
- Você acha que também não está me matando a idéia de deixar meus filhos com “ele”? Mas o que nós poderíamos oferecer para eles, Charles? Nós nem temos um destino fixo ainda. Pelo menos com “eles” os futuros dos nossos filhos estão garantidos... E quem sabe ambos não se transformem quando formos embora? Quem sabe não se dediquem totalmente às crianças, e elas sejam felizes – mesmo crescendo longe de nós? Mas é um risco que teremos de correr se quisermos fazer algo por nós mesmos. Para sermos felizes.

Ambos se encararam em silêncio por um longo tempo, até Charles fechar os olhos e se render.

- Você está certa. Nós temos que fazer isso por nós. Nós temos que ir embora daqui o mais rápido possível. – abriu os olhos, decidido, e ela sorriu.
- Quando?
- Amanhã. Vamos sumir para longe daqui, amanhã.
- E nunca mais vão nos encontrar. – ela completou antes de beijá-lo intensamente.

ººººº


Instituto Durmstrang.
[Março de 2010]

- Mandou me chamar, professor? – Penélope entrou na sala do diretor um tanto receosa. Levou um susto quando um elfo doméstico da escola interrompeu a aula de Feitiços pedindo que ela o acompanhasse. Igor Ivanovich confirmou com a cabeça, em um ar sério, e dispensou o elfo.
- Sente-se. – ele disse com calma, apontando a cadeira na sua frente e ela se sentou ainda mais nervosa.
- Aconteceu alguma coisa?
- Ainda não... Mas as notícias não são boas, e você vai precisar ficar calma. – como a menina parecia assustada o suficiente com toda a situação, ele decidiu não prolongar mais o assunto. – Sua mãe está muito doente. Deu entrada ontem no St. Alborghetti, mas os curandeiros não estão criando muitas expectativas... E ela está chamando por você. Quer te ver o mais rápido possível.

Penélope puxou o ar com força e ficou tonta. De repente a sala do diretor foi ficando fora de foco e, se ela não estivesse sentada, teria certeza de estar caindo. Quando sua cabeça voltou ao eixo normal, Igor Ivanovich estava agachado em frente a ela e a segurava pelos ombros.

- Você quer ir vê-la? – ele perguntou gentilmente e ela sentiu a boca secar.
- Sim.
- Vou providenciar uma chave de portal para você, tudo bem? Vá até sua república e prepare uma mochila para alguns dias... Depois volte para cá. Vou te acompanhar até o hospital.

Ela assentiu com a cabeça, ainda se sentindo muito fraca pra dizer qualquer outra coisa, e saiu correndo da sala. Atena estava deserta àquela hora da manhã, já que todas suas outras moradoras estavam em aula. Dez minutos depois, Penélope já estava correndo novamente de volta à sala do diretor, com uma mochila improvisada nas costas. Sua mãe precisava dela.

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Penélope se assustou quando entrou na enfermaria onde sua mãe estava internada e viu seu estado. Desde o Natal a mãe tinha perdido muito peso e tinha profundas olheiras sob os olhos.

- Mãe?! – Penélope chamou baixo em uma espécie de sussurro deprimente. Segurou a mão fria da mãe, que não se alterou.
- Penélope... Você veio. – Phoebe respondeu devagar, ainda com os olhos fechados e uma tentativa frustrada de sorrir. Penélope sentiu algumas lágrimas escorrerem por seu rosto, mas manteve as duas mãos agarradas na mãe.
- O que aconteceu com você?
- Eu...não...consigo...mais. – Phoebe abriu os olhos de repente e encarou a filha com o que parecia ser o último vestígio de vitalidade que ainda possuía. – Prometa que não vai desistir de encontrar seu pai.
- Você não vai morrer mãe. – a menina respondeu desesperada, e tentando parecer convincente, mas sua voz falhou.
- Prometa. Por favor. Eu não agüento mais. – ela apertou o braço da menina, que se assustou.
- Prometo. Eu vou encontrar meu pai. – Penélope disse tentando parecer firme, o que parece ter sido o suficiente pra sua mãe (que afrouxou o aperto de seu braço e fechou novamente os olhos, cansada). – Mãe...

Mas já era tarde demais. Antes que uma das duas pudesse dizer qualquer outra coisa, Penélope sentiu a mão de sua mãe amolecer definitivamente entre suas mãos e ela soube que estava sozinha no mundo.

ººººº

Berna, Suíça.
[Agosto de 2012]

Penélope desceu sozinha do trem e olhou para o amontoado de edifícios estranhos que se empilhavam à sua frente. Depois, puxou um caderno preto – de aparência muito gasta – de dentro da bolsa e abriu-o. Tratava-se de um diário de Charles Talemoe, seu pai, do ano de 2002. (Dois anos antes de ele, misteriosamente, desaparecer - após ter saído para navegar).
Depois que sua mãe morreu e deixou Penélope com a promessa de que não desistiria de encontrar seu pai, a menina se desesperou. Não sabia nem por onde poderia começar a procurá-lo, (já que nem ao menos se lembrava dele com muita nitidez). E até mesmo pensou em deixar para pagar as conseqüências de sua promessa não cumprida quando essas lhe chegassem, mas, acidentalmente – enquanto passava sozinha o último pedaço das férias de verão em casa (como fazia todos os anos, depois de voltar da casa dos avôs maternos, na Grécia) –, encontrou o caderno em um fundo falso do armário de seus pais, e passou a analisá-lo minuciosamente atrás de pistas que pudessem lhe ajudar em alguma coisa.
Chegou à conclusão de que seu pai fora um homem medíocre. (E ela chegou a essa conclusão em um tempo passado, pois, ao contrário de sua mãe, ela já considerava o pai como uma vítima de um naufrágio, ou qualquer coisa assim.) Em todos os seus relatos, ele parecia miserável no trabalho que tinha no Ministério da Magia; miserável no casamento com Phoebe; miserável nas diversas relações sociais às quais se via obrigado a tecer dia após dia... E só uma pessoa parecia lhe compreender. Era uma cigana de nome “Madame Castoriadis”, por quem ele descrevia ter uma relação bastante forte de amizade e confiança, e compartilhar com ela todos os seus problemas e sonhos de se ver livre de tudo.
Penélope leu e releu o caderno diversas vezes, e acabou se rendendo ao pouco que tinha. (Ela sabia que era inútil buscar pelo barco de seu pai em todos os portos do mundo, pois Phoebe já tinha feito isso várias vezes, antes de desistir.) Então, decidiu buscar por “Madame Castoriadis”. Se ela tivesse a sorte de encontrar essa cigana, poderia estar muito perto de descobrir o verdadeiro destino de Charles...
E, por algum tempo, ela se sentiu com muita sorte. Ao contrário do que pensou, encontrar uma cigana cartomante que se utilizasse deste nome, foi muito fácil. Havia um registro disponível no Ministério da Magia, e uma única com esse nome – que trabalhava na capital da Suíça. E foi isso que levou a menina até Berna naquele verão...
De dentro do diário ela tirou um mapa da cidade e abriu-o para verificar sua posição. Um ponto vermelho marcado no mapa – a algumas quadras de onde ela se encontrava – marcava o ponto onde a cigana deveria estar trabalhando. Penélope começou a andar pela avenida, no sentido indicado pelo mapa, e seu coração acelerou. (Ela não entendeu o motivo de estar nervosa, mas achou que deveria ser por sua mãe. Sua mãe morrera sem ter tido nenhuma pista tão boa de Charles quanto a que Penélope achava que poderia ter.)
Andou por vários minutos e entrou na rua indicada. Era uma ruela sem saída, e cercada por paredes contínuas de prédios altos e escuros. Diminuiu o ritmo enquanto passava por eles, até parar na frente de um – quase no final da rua – e o analisar. Conferiu o número na parede com o número anotado no mapa e sentiu o coração acelerar ainda mais quando viu ser o certo. Tocou a campainha do apartamento 206 e esperou. Pouco tempo depois, uma voz feminina, suave e tranqüila, chamou-a acima de sua cabeça, pela sacada.

- Quer tirar as cartas, minha querida? – perguntou a mulher sorrindo graciosamente. Penélope puxou o ar com força.
- Não... Mas quero conversar com “Madame Castoriadis” se possível. É muito importante. – ela disse com a voz um pouco esganiçada de nervoso.

A mulher avaliou-a muito bem antes de voltar a sorrir e falar.

- Ah, entendo. “Outros serviços” então. Pode subir. – disse ela dando uma piscadinha e abrindo o portão.

Penélope sentiu as pernas gritarem a cada degrau que subia. Ela não estava se sentindo bem. Alguma coisa no jeito com que aquela mulher a havia olhado. Alguma coisa não estava certa. Mas, embora Penélope ficasse repetindo isso para si mesma durante toda a subida, a menina não pensou em retroceder em nenhum instante. Estava fazendo aquilo por sua mãe. A porta do apartamento já estava entreaberta quando ela chegou, e ela respirou fundo mais uma vez antes de entrar.

- Com licença?! – disse baixo enquanto entrava na sala de estar minúscula e fazia careta com o cheiro impregnado de incenso que atingiu suas narinas.
- Fique à vontade minha querida. Qual o seu nome? – Madame Castoriadis respondeu com sua mesma voz suave atrás de Penélope, que se exaltou de susto. A mulher, porém, sorriu e conduziu a menina até um pufe de veludo da sala.
- Penélope.

Ela já esperava muitas reações diferentes da mulher, mas nem tinha lhe passado pela cabeça que já começariam a ser mostradas logo após a menina se identificar. Ao falar seu nome, a graciosa e suave mulher que sorria para Penélope sumiu e deu lugar a outra, séria e preocupada, pálida como a vela que estava acesa entre elas na mesa. O espanto durou alguns segundos antes de ela se recompor parcialmente e esboçar um novo sorriso.

- Bonito nome. Como posso te ajudar, Penélope?

Era chegada a hora.

- Eu tinha esperanças que você pudesse me ajudar a encontrar o paradeiro de meu pai, Charles Talemoe. Ele está desaparecido desde 2004. – Penélope disse tudo de uma vez e puxou novamente o diário da bolsa, abrindo-o. – Ele cita o seu nome diversas vezes. Vocês eram confidentes. Aliás, era você, não era?

Penélope estava tão ansiosa em dizer tudo que nem se preocupou em olhar para Madame Castoriadis enquanto falava. Mas, quando olhou, sentiu os pêlos de seus braços se arrepiarem na mesma hora. Ela tinha os olhos exaltados e a boca torcida, e encarava Penélope fixamente, com fúria.

- Vá embora. – a mulher se levantou de um rompante e apontou o dedo para Penélope, ameaçadoramente.
- O que? – a menina perguntou assustada e não se moveu.
- VÁ EMBORA!

Penélope se sentiu em um plano diferente da realidade e demorou a acreditar que aquilo de fato estava acontecendo. Levantou de um salto da cadeira quando a mulher se projetou para cima dela, e em passos rápidos foi saindo para a porta, mas não rápida o suficiente. Paralisou quando foi agarrada por duas mãos frias.

- Nunca mais volte aqui. Nunca mais procure por Charles Talemoe.
- Me solta. – a menina pediu em pânico, mas a mulher continuava encarando-a fixamente com uma expressão de psicopatia.
- Todos os seus amores morrerão. – sua voz era grossa e definitiva, e ela proclamou cada palavra como uma lei.

Penélope sentiu uma pontada forte na cabeça e seus olhos se encheram de lágrimas. Com toda a força que conseguiu reunir, ela puxou seu braço das mãos da cigana e saiu correndo para fora dali. Tinha sido amaldiçoada.

ººººº

Atena, Instituto Durmstrang.
[Setembro de 2014]

Penélope acordou assustada e suando. Localizou-se no dormitório da Atena, república onde morava em Durmstrang, e respirou fundo para se acalmar.
Fechou os olhos novamente e se forçou a pensar, contínuas vezes, de que tudo ficaria bem. Um dia, tudo ficaria bem.

Thursday, September 23, 2010

Instituto Durmstrang, 1º de Setembro de 2014

Ah, lar gelado lar. Depois de dois meses quentes de férias, nada como voltar pra nossa segunda casa, no paraíso da hipotermia. Estou sendo chata, eu sei. Gosto de Durmstrang e seu clima gelado, mas às vezes cansa. Andar toda encapotada nem sempre nos favorece. Mas o melhor de voltar era poder rever a turma. O jantar de boas vindas era sempre um falatório incontrolável, nosso diretor, Igor Ivanovich, precisava ampliar a voz com magia para conseguir ser ouvido. Sempre me sentava com Leo, Robbie, Jude e Penny para colocarmos o assunto em dia e Robbie nos contava sobre seu novo namorado, Alec Karpov, quando fomos interrompidos por um pigarro assustadoramente alto do diretor. Em um momento raro, o salão caiu em silêncio para olhar para ele.

- V Olimpíadas Interescolares Bruxas. Como muito se comentou ano passado, esse ano teremos novamente uma edição dos jogos – o falatório ameaçou recomeçar, mas ele conseguiu manter a voz elevada – Os jogos desse ano serão sediados pela Instituto de Bruxaria de Melbourne, na Austrália, entre os dias 14 e 27 de Novembro. Nossa delegação sairá no dia 13 de Novembro, pontualmente às 10h. Aos interessados em competir, haverá uma lista disponível com os professores de Artes e Educação Física, vocês têm duas semanas para procurá-los e se inscreverem nas modalidades existentes. Lembrando que aqueles que não forem competir, deverão permanecer no castelo com os alunos do 1º ano, que não podem participar, e acompanhar a transmissão dos jogos que será feita pela equipe do nosso jornal. Espero ver muitos de vocês na nossa delegação. Agora podem voltar às suas repúblicas, e bem vindos de volta.

Todos começaram a levantar quando ele acabou de falar e de repente a fofoca sobre o novo namorado de Robbie não era mais urgente. Nossa urgência no momento era encontrar alguma modalidade que não exigisse muito esforço, só para poder acompanhar a delegação de Durmstrang para a Austrália. Nem morta ia ficar pra trás, imprimindo noticiário da equipe do jornal!

ºººººº

O despertador do quarto tocou às 7h em ponto, mas já passava das 8h quando decidi abrir os olhos. Não adiantava correr, a republica ficava um caos de manhã cedo, todas querendo usar o banheiro primeiro, então era sempre uma das últimas. Moro na Atena, uma das repúblicas mais disputadas de Durmstrang, e divido o quarto com mais seis pessoas. É, outro caos, mas ao menos são minhas amigas. Julie, Leo, Penny, Jude, Flora e Lisera são excelentes companheiras para madrugadas sem sono, teorias conspiratórias e planos de vingança.

- Vai levantar ou não? – Leo atirou uma almofada em cima de mim, mas não me mexi.
- Olhe a minha cara de quem está animada para ter uma aula com criaturas mágicas – fiz uma careta de dor e ela riu.
- O professor é o Karl... – Liseria entrou no quarto.
- Ok, já levantei! – saltei da cama num único impulso e corri para o banheiro, ouvindo as risadas no quarto.

Quinta-feira era um dia longo pra mim, a maioria das aulas não me interessavam, mas no fim teria Artes, que eu amava. Mas tinha mais um incentivo, que era o professor de Trato de Criaturas Mágicas, Karl Neitchez. Ele era simplesmente perfeito, mas infelizmente devia me achar burra. Como aprender alguma coisa, quando se tem algo melhor prendendo sua atenção?

Sobrevivi a todas as aulas e clubes do dia e quando faltavam menos de cinco minutos para as 20h, já estava dentro do teatro. Nem esperei o novo professor de Poções autorizar nossa saída e isso pode me custar caro depois, mas sinceramente, quem se importava? Uma detenção a mais, uma detenção a menos... As 20h em ponto a porta do teatro se abriu a uma mulher loira, que exalava poder até no jeito de andar, caminhou até o palco. Meu queixo foi no chão.

- Merlin! – apertei o braço de Robbie com tanta força que minhas unhas deixaram uma marca – É Georgia Yelchin!
- A atriz da Broadway? – Leo riu – Está louca?
- É ela sim!
- Santa Lady Gaga... – Robbie levantou da poltrona em câmera lenta.
- Boa noite! – ela falou de cima do palco, sorrindo – Me chamo Georgia Yelchin e a pedido do diretor Ivanovich, serei a professora de Artes pelos próximos dois anos. Por favor, cheguem mais pra frente, para que possamos começar a nos conhecer melhor. Quero todos ocupando as três fileiras da frente.
- Gente, mas o que ela está fazendo aqui nesse fim de mundo? – Leo perguntou espantada, enquanto caminhávamos para frente.
- Eu estudei aqui, Durmstrang um dia também foi minha casa – ela pareceu ter ouvido a pergunta – Foi aqui que minha carreira começou. Sim? – e vi Robbie com a mão levantada.
- Só queria dizer que sou seu fã – ela riu e senti uma vergonha alheia enorme, mas ele não estava se importando.
- Obrigada. Antes de pedir que cada um diga o nome, quero avisar que na minha aula, todos fazem alguma coisa. E se quiserem passar, terão que cantar, dançar ou fazer algum outro numero que esteja dentro do cronograma que criei – um principio de reclamação ameaçou se espalhar, mas ela tinha um olhar severo, então não foi longe.
- Mas todo mundo tem que cantar? – Ozzy perguntou com uma cara desanimada. Não pude deixar de sorrir vendo o desespero dele.
- Sim, senhor...?
- Oscar Lusth.
- Oscar. Sim, todos terão que fazer algo. Se não sabe cantar, pode dançar. Se não dança, encontre uma música e aprenda a cantá-la. Não espero ver nenhum tenor no palco, sei que nem todos cantam bem, o que vou avaliar é a criatividade, o comprometimento com o trabalho. Não avalio a voz.
- Podemos nos apresentar em conjunto? – Alec, o novo namorado de Robbie, perguntou – Seria menos constrangedor.
- Podem trabalhar em duplas, trios, grupos, como quiserem, desde que todos façam sua parte. Se tiverem 39 pessoas cantando e 1 apenas mexendo a boca, eu vou localizar essa pessoa, não tenham duvida disso.
- Vai ter alguma peça? – perguntei.
- Ainda não sei, primeiro quero conhecê-los melhor e então verei o que podemos fazer. A única coisa certa é que, independente do que seja, todos irão participar. Agora que os avisos foram dados, quero conhecer todos vocês. Começando pelo garoto de camisa amassada da ponta esquerda, digam nome e o que gostam de fazer.

Durou toda a hora de aula a apresentação dos alunos e como primeiro trabalho para a próxima aula, deveríamos encontrar uma música com que nos identificássemos e apresentá-la no palco. Foi muito divertido ver o pânico estampado no rosto daqueles que estavam acostumados a ter os tempos de artes como livre. A turma começou a caminhar de volta para as repúblicas ainda discutindo a aula, mas eu ainda tinha reunião com o conselho do grêmio estudantil naquela noite. A professora Mira já nos esperava na porta da redação do jornal quando chegamos. O conselho era composto por alguns alunos selecionados a dedo por ela, e era formado por mim, meu namorado Lukas, Leo, Robbie, Ozzy Lusth, meu primo Jack, Lucian Valesti, Yanic Andreatta, Maria Schuster e Valeria Stankovich.

- Olá, boa à noite a todos, sentem-se em seus lugares e vamos começar a reunião.
- Professora, vamos poder trabalhar de alguma forma da organização das Olimpíadas? – Lucian perguntou.
- Vamos chegar nesse assunto daqui a pouco, antes tenho um anúncio para o novo ano – ela se sentou em seu lugar e entregou uma ficha de tarefas para cada um – Como todos sabem, ano passado pedi que me apresentassem suas plataformas, se quisessem o cargo de presidente do conselho. Avaliei todas as fichas durante as férias e tomei uma decisão. Esse ano, quem vai presidir o Grêmio Estudantil da escola será Parvati Karev.
- O QUE? – Ozzy bateu na mesa, indignado – Professora, a senhora só pode estar brincando. Essa desmiolada vai ser a presidente e mandar no conselho?
- Mais respeito com sua colega, Sr. Lutsh – Mira brigou com ele e o olhei enfezada – A Srta Karev é perfeitamente capaz de assumir o cargo.
- É, fica na sua, patinador. Sou mais capaz que você, já que ela me escolheu.
- Não me faça voltar atrás, Parvati... – ela me olhou severa e me desculpei – Outro aviso: Olimpíadas. Não há nada que possamos fazer na organização do evento oficial, mas há muito a ser feito aqui no Instituto, antes, durante e depois dela. Nessa ficha estão as tarefas que cada um tem para a preparação para a competição. Quero idéias de como podem ser feitas para a próxima reunião, que passará a ser conduzida pela presidente eleita. Estarei aqui apenas como orientadora.
- E a semana das repúblicas? Já é quinta-feira e ela começa na segunda – Yanic perguntou.
- Era o próximo tópico, idéias do que faremos para receber os calouros sem incidentes como o do ano passado?

Jack e Ozzy abafaram risadas e revirei os olhos. Durante a semana das repúblicas do ultimo ano, um calouro da Chronos acabou colado na parede da Kratos e todos sabíamos que tinha sido o time de Hóquei, mas ninguém foi punido. Agora que eu estava no comando, não ia permitir essa bagunça. E se por acaso alguma coisa saísse do controle, eles não iam escapar ilesos. Era o começo de uma nova era no Instituto Durmstrang. E eu estava no topo dela.

Monday, September 20, 2010

Sofia, Bulgária, Setembro de 2014

- Lu, você tem visitas! – Meu irmão gritou do primeiro andar, e respondi.

- Pede pra subir, diz que estou ocupado!

Eu estava digitando mais um dos meus vários textos. Ele estava incompleto ainda e como eu odiava deixar textos incompletos. O texto era uma pequena história, uma crônica se preferir, sobre um homem que desejava tanto o poder que era capaz de sacrificar os próprios amigos. Era algo triste, mas que refletia muito dos homens.

Quando digo digitar, alguns bruxos podem achar estranho, mas eu tenho um laptop, um aparato trouxa que os permite entre outras coisas escrever rapidamente, sem precisar gastar pilhas e pilhas de pergaminhos. Ele tinha outras vantagens também como a internet, que eu gosto de comparar com uma coruja super rápida, e permite assistir as fotos-em-movimento dos trouxas, que Ayala me ensinou serem chamados de vídeos.

- Até nas férias escrevendo? – Uma voz conhecida me chamou e virei sorrindo, a tempo de ver Lenneth me abraçando pelo pescoço. Phil veio logo atrás, sorrindo.

- Claro, nas férias é quando eu tenho mais tempo! – Eu falei, afagando seus cabelos com carinho. Eu me levantei e dei um abraço em Phil também.

- Mas hoje você vai parar um pouco. Ayala chega hoje e vamos sair para fazer alguma coisa. Já falei com o Ozzy e os garotos do time também.

- Ah finalmente o Ayala vai voltar! – Falei alegre também.

- Sim, ele conseguiu se livrar de algumas coisas da Faculdade e vai vir nos visitar. Ele vai ficar uma semana aqui conosco, na casa dos avós. E vamos comemorar o seu aniversário! Atrasados, mas vamos! – Lenneth falou com um largo sorriso. Eu havia feito aniversário um mês antes, mas como nem todos os meus amigos estariam presentes, deixamos para comemorar depois.

- Eu vou falar com a Liseria então, apesar de que ela estava na França.

- Diga pra ela vir imediatamente! – Phil falou.

Enquanto os dois iam descendo para falar com meus pais e meu irmão, já que eles os conheciam desde crianças, peguei meu celular e mandei uma mensagem para Liseria, pedindo que me ligasse. O celular era outro aparato trouxa que os permitia conversar e mandar cartas por longas distâncias, quase em tempo real, e nisso tenho que concordar às vezes eram mais eficientes que lareiras e corujas (ainda mais que eu ainda não sabia usar o patrono direito). Mas o celular foi idéia de Liseria, pois assim que ela os descobriu, comprou um para mim e para ela para que pudéssemos nos falar com mais facilidade quando não estivéssemos no Instituto.

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Fomos buscar Ayala no Aeroporto de Sofia por volta das 1 da tarde. Meus pais foram conosco no carro da família. Ayala era trouxa e estudava na Inglaterra, em Cambridge, porém costumava passar suas férias na casa dos avós, que eram meus vizinhos. Foi assim que nos conhecemos. Ele costumava freqüentar a livraria de minha família e desde jovem foi muito inteligente. Ele cresceu comigo, com Phil e com Lenneth. Nós quatro éramos grandes amigos e eu os considerava como meus irmãos, sendo que eles me consideravam como o irmão mais velho, apesar de ter a mesma idade que Phil e Ayala.

- Bem vindo de volta! – Eu falei, quando o avistamos saindo do terminal de chegada dos vôos internacionais do aeroporto. Ayala veio sorrindo e nos abraçou.

- Feliz Aniversário, Lucian! Finalmente posso desejar pessoalmente. E ai, como estão as coisas? – Ele perguntou, já entregando duas malas para eu e Phil levarmos.

- Continua abusado não é? – Phil falou, dando um soco de leve em seu ombro. Ayala deu de ombros, enquanto apertava a mão de meus pais e de meu irmão.

- Vamos logo, uma grande festa nos espera hoje! – Lenneth falou, e Ayala sorriu para ela.

Almoçamos todos em minha casa, inclusive os avós de Ayala, que eram amigos de meus pais. Foi um almoço agitado, cheio de gargalhadas e risadas. Ayala contava novidades da faculdade, enquanto contávamos das coisas que aprendemos durante o ano letivo. Ele era trouxa, mas sabia e muito do mundo bruxo, e o fato dele ser trouxa nunca foi problema para nós quatro.

Enquanto almoçávamos, a campainha tocou e fui abrir a porta. Quase fui derrubado no chão por Ozzy, Alec, Oleg e Jack, enquanto Julie esperava na porta sorrindo. Eu cai na gargalhada, enquanto Ozzy já corria para a sala, cumprimentando a todos.

- Chegamos na hora! – Alec falou, enquanto cumprimentava a todos.

- Vocês não tem educação? – Julie falou, balançando a cabeça. Oleg e Ozzy deram de ombros. – Boa tarde a todos.

- Viemos chamá-los, vamos começar a festa agora. Vamos dar uma passeada pela cidade, Ayala tem que ficar a par de todas as notícias! – Oleg explicou, enquanto cumprimentava Ayala.

- Vocês iam sem mim? – Ouvimos alguém na porta, e me levantei sorrindo, abraçando-a com força. Liseria sorria, enquanto beijava meu rosto. – Olá, querido.

- Não sabia se tinha recebido a mensagem. Como chegou tão rápido? – Perguntei, enquanto ela cumprimentava a todos. Àquela altura meu pai já havia conjurado cadeiras extras, enquanto mamãe distribuía alguns bombons.

- Pedi que minha mãe me aparatasse, não perderia seu aniversário de jeito algum.

Assim que todos terminaram de tomar ao menos um copo de suco de abóbora e comer alguns doces, mamãe achou que estávamos alimentados e a turma inteira saiu. Passamos a tarde inteira andando pela cidade, conversando e nos divertindo. Ozzy e Oleg divertiam a todos contando todos os acontecimentos do Instituto, enquanto Ayala contava novidades do mundo trouxa. Liseria contou sobre sua viagem à França, e depois ficou conversando animada com Julie e Lenneth sobre diversos assuntos. Phil perguntou de Ferania, a irmã mais velha de nosso grupo, pois ele sempre teve uma queda por ela. Ferania, porém, apesar de ter aparatado na minha casa no dia do meu aniversário, disse que estaria muito ocupada para ir na festa, mas não quis me dizer o porquê. Ferania era mais velha do que nós, mas junto de Lenneth era uma de minhas amigas mais antigas e mais queridas.

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Eram 9 da noite quando a festa começou em si.

Os pais do Ozzy fecharam um dos andares da filial em Sofia para nós e Phil e Ozzy encarregaram-se das músicas, escolhendo principalmente minhas músicas favoritas, além de outras de seu próprio gosto.

Haviam muitas pessoas do Instituto. Todo o time de Hóquei estava na festa, assim como toda a equipe do jornal. Parvati jamais perderia uma festa e divertia-se observando a todos para o jornal, enquanto conversava com Leonora. Levantei uma sobrancelha para elas, mas elas fizeram-se de desentendidas. Yanic atraia a atenção de todos com seu jeito entusiasmado e alegre, e o cumprimentei feliz, por considerá-lo muito. Derek marcou presença também, porém notei como ele olhava para o palco, como se desejasse estar ali cantando. Finn e Orion chegaram na hora da festa e não estiveram conosco durante o dia, mas logo estavam conversando com todos. Apesar de que Ayala não falava muito com Orion, o que sempre acontecia, pois Ayala não vai muito com a cara do Orion, e eu não sei bem o porquê até hoje.

- Ele tem um ar falso. O sorriso dele é meio falso. – Ayala sempre respondia, dando de ombros, quando eu perguntava o porquê da inimizade.

Eu estava muito feliz com a atenção e o carinho de todos, e não conseguia ficar parado um segundo, toda hora sendo chamado por alguém para fotos, conversas e danças. Agradecia também por Liseria e Lenneth estarem se dando bem, pois no ano passado elas tiveram algumas brigas. E como eu odiava ver duas garotas tão importantes para mim brigando.

Já era tarde da noite, quando Lenneth subiu ao palco e pediu a palavra. Ela estava linda como sempre e eu sorri para minha querida irmãzinha adotada.

- Boa noite a todos! Gostando da festa? – Ela perguntou, fazendo todos gritarem. – Desculpem-me a intromissão, prometo ser rápida. Mas o motivo disto, é também o motivo da festa! Lucian, temos uma surpresa pra você!

Assim que ela terminou de falar, holofotes caíram em cima de mim e eu fiquei um pouco envergonhado, enquanto todos batiam palmas. Em seguida, a música mudou para uma de minhas favoritas, “Stairway to Heaven”, e o telão começou a mostrar diversas fotos minhas e de meus amigos, em uma homenagem feita por eles.

Eu senti lágrimas nos olhos e consegui apenas levantar um copo enquanto gritava agradecendo a todos. Todos gritaram juntos, e começaram a cantar “Happy Birthday to you”, com Lenneth no microfone.

Liseria me beijou, e depois me levou para a pista de dança, onde começou a tocar “Nothing Else Matters”. Os demais casais espalharam-se ao nosso redor, enquanto eu me deixava envolver pela melodia daquela bela música, sorrindo para Liseria.


- Você ainda gosta do Lucian, não gosta? – Phil perguntou, enquanto bebia um drink ao lado de Lenneth. Ela por sua vez olhava para Lucian e Liseria que dançavam uma música lenta, abraçados. Ela ficou um tempo em silêncio sem responder.

- Eu não sei, Phil, realmente não sei.

- Você tem que se decidir. Se demorar demais para decidir, vai perdê-lo para sempre.

- E você acha que eu ainda tenho chance? – Ela perguntou, suspirando, quando viu os dois se beijando. – Olhe pra eles, estão felizes. E ele me vê apenas como irmã.

- Porque você nunca se decidiu. Você até hoje não sabe se gosta ou não dele. Eu apoiaria o namoro de vocês, e daria muito certo.

- Não me incentive, Phil. Não vou acabar com a alegria dele.

- E por isso vai ficar se remoendo pelos cantos? Pense mais em si mesma, Val.

- É que eu não sei. Já fiquei com outros garotos, já gostei de outros garotos.

- Mas ainda é o Lucian que mexe com você, não é? Dá pra ver como você o olha.

- É tão na cara assim? – Lenneth falou, ficando sem jeito.

- Não, pior que não. Eu diria que apenas eu e Lucian notaríamos isso. Você esconde bem, apenas quem te conhece bem saberia ver isso. E ele não verá, pois não imagina isso.

- Prefiro que ele continue sem imaginar. Eu preciso dar a chance para outros tomarem o lugar dele.

- Tentar apagar não é a coisa certa... Mas, deixa de conversa séria, vem, hoje você dança comigo! – Phil falou, puxando sua melhor amiga pela mão, enquanto ela ria. Phil gostava de Lenneth como sua irmã, assim como de Lucian. Ele era o único que sempre notara que Lenneth poderia ser apaixonada pelo amigo, mas ela nunca sabia se era de verdade ou não. Para Phil, era seu dever dar apoio a ela e ele sempre faria isso.

Wednesday, September 01, 2010

Sofia, Bulgária, Agosto de 2014

Lucky to have been where I have been
Lucky to be coming home again
Lucky to have stayed where we have stayed
Lucky to be coming home someday
Ohhhohhhohhhohhohhohhhohh


-Graças a Merlin vocês estão aqui!- eu disse para meus amigos Parvati e Robert, quando os encontrei perto do bar em um daqueles eventos que se faz para angariar dinheiro para uma causa nobre. E como era nossa ultima semana de férias, supus que acabaria encontrando todos os meus amigos por lá e não me decepcionei.
- O que foi? A bulímica está atrás de você com uma mangueira de lipo?- disse Robbie enquanto trocavamos beijinhos no ar e Parvati já me esticava um copo de ponche.
- Não, muito pior. A ‘succubus’ arrumou uma nova vítima e está passeando com ele pelo salão, e está dando enjôo do mel que escorre. E os outros vieram?- disse e quase cuspi o ponche, mas o engoli. Minha garganta queimou um pouco no processo.
- O que tem aqui?- perguntei.
-Um pouco disso, daquilo, você não iria querer tomar o original, era saudável demais, então o batizamos. - disse Robbie e Parvati riu enquanto respondia à minha outra pergunta:
- Não sabemos dos outros, nem todos curtem aparecer numa festa deste tipo, é tedioso demais.Mas como avisamos que estaríamos aqui, podem ir chegando aos poucos. O que vamos fazer depois? Não me produzi toda para dormir cedo
- Bom, podemos terminar a noite dançando. É a última semana de férias e não vou desperdiça-la ficando em casa.- disse Robert e concordamos e aos poucos, outros de nossos amigos foram aparecendo com suas familias. Apesar de tudo, aquilo poderia ser divertido.

-o-o-o-o-o-o

Os fotógrafos da festa volta e meia tiravam fotos nossas, e Parv adorava isso, e fazia caras e bocas, e isso os atraía ainda mais, e como estavamos todos juntos, éramos muito fotografados. A mãe de Parvati nos avisou que os fotografos iriam tirar fotos das familias patrocinadoras do evento, e eu sabia que teria de estar junto com os meus pais.
Numa das pausas fomos ao banheiro feminino, e combinamos com os garotos que depois das fotos, iríamos sair dali direto para a Lutsh, a boate mais badalada de Sofia, comandada pelo irmão do Ozzy.
O banheiro era um daqueles estilo anos 20, com uma chaise de veludo vermelho no meio dele, poltronas almofadadas em frente ao espelho e vários vidros de perfume importado, à disposição e maquiagem para retoque, estávamos na parte mais afastada, eu estava em um box, terminando de arrumar nossos vestidos, quando ouvimos uma voz conhecida. Ficamos caladas, puxei Parvati para dentro e fechamos a porta para ouvir:
- ...você precisa fazer alguma coisa mamãe...Não quero sair na coluna social ao lado daquele saco de batatas...Nem se vestir direito ela sabe...Aliás nem aqueles garotos que andam com ela não é? - dizia minha irmã Camille e minha mãe respondeu:
- Não vamos ser tão exigente com sua irmã querida. Veja, ela até conseguiu uma roupa exclusiva, não está tão ruim assim.
- Não ficaria ruim, em alguém dentro dos padrões normais, mas ela conseguiu transformar um Galliano em uma roupa de loja de departamentos. O que podemos fazer para evitar as fotos?Não quero Sebastian me associando a ela.
- Não podemos fazer nada, Camille. Seu pai disse que é importante os acionistas verem que ele se dá bem com a sua irmã, e lembre-se a reunião de diretoria está próxima, não vamos estressar o seu pai....E logo ela volta para a escola e ficaremos livres por um bom tempo.
- e depois do barulho de torneiras se fechando, não pudemos ouvir mais nada, porque logo a porta fez barulho de ser fechada e o banheiro ficou silencioso.
Parvati saiu bufando do box, arrumando o vestido:
- Como aquela porca anoréxica se atreve a dizer que nós não nos vestimos bem? Ah mas eu queria que ela dissesse isso na minha frente, porque eu ia fazer aquele nariz plastificado dela voltar à forma original. – eu já estava acostumada com a minha familia, mas ve-las falar mal de meus amigos, me magoou e ofendeu muito mais. Parvati andava de um lado a outro bufando e parou de repente me encarando:
- Ah! Não se atreva a derramar uma lágrima Leonora Marie, elas não valem isso. Vamos lá, quero ver seu olhos injetados de sangue porque vamos matar aquela vaca da sua irmã. – e eu pisquei dizendo:
- Sim, tem razão, precisamos de sangue. Tudo o que me vem à mente agora é jogar aquele ponche todo na cabeça dela.
- Não! Isso é pouco e ela ainda vai sair de vitima....Precisamos mexer com algo que ela goste...- Parvati andou de um lado a outro e parou me olhando:
- Quanto você tem de dinheiro na bolsa?
- Tenho uma quantia normal, mas se precisar de mais trouxe meu novo amigo, não te contei que ele chegou hoje?...- abri a minha bolsa e peguei um cartão de plastico dizendo:
- Plat, honey, diga olá para mamãe.- e o acenei enquanto Parvati ria e me puxava para fora do banheiro:
- Não existe nada mais bonito que você, aqui no momento, Plat. Venha, vamos falar com os rapazes, vamos precisar da ajuda deles.

Saimos do banheiro e Parvati contou aos garotos qual era a sua idéia, no começo eles ficaram receosos, mas acabaram topando, e ela foi conversar com a mãe que achou a idéia um pouco estranha, mas quando dissemos que o dinheiro arrecadada seria para a caridade e que faria o evento ser muito mais divulgado, a mãe dela aceitou. Não demorou e a senhora Karev começou a percorrer o salão em busca de novos colaboradores e ninguém se atreveria a dizer não para a prefeita, e em pouco tempo, ela subiu ao palco e começou o show:
- Atenção todos! Como é uma noite beneficente, alguns amigos de minha filha engajados em causas sociais, tiveram uma brilhante idéia: no começo fiquei um pouco receosa, mas após conversar com várias pessoas e ter a anuência de vários convidados, que aprovaram a idéia, poderemos arrecadar mais dinheiro para a nossa causa, através de um leilão de solteiros.- ouviram-se alguns burburinhos,mas a prefeita continuou:
- Não será nada escandaloso, posso assegurar, afinal estamos entre amigos e é por uma boa causa. O solteiro, terá que disponibilizar 4 horas de seu tempo, para o vencedor do leilão.Não se inclui nada humilhante ou degradante, é bom salientar, e os jovens que estão subindo ao palco entraram no espirito esportivo e querem colaborar. Então minhas caras, quem vai dar o primeiro lance por este jovem?
E o leilão começou um pouco morno, então para animar dávamos lances só para provocar e todas as mulheres entraram na onda. Quando chegou a vez do namorado de Parvati, ela não me decepcionou, quando bateu lance a lance de uma socialite enjoadinha que vivia lançando olhares melosos para Lukas. E quando o arrematou deu-lhe um beijão no palco mesmo só para mostrar que ele tinha dona.
Quando chegou a vez de Robbie, começamos a dar lances e ele estava sendo um dos mais altos até o momento e nosso amigo estava vibrando. Os lances começaram a subir, e antes que eu desse a minha última oferta, nosso colega de escola Alec, deu um lance que praticamente dobrava o meu. Olhei para ele e ele me encarou de volta, parecia avisar que ele cobriria qualquer lance que eu desse, então assenti concordando em parar por ali. Quando Alec foi buscar o seu ‘prêmio’, víamos as pessoas olhando-os chocadas, mas Robbie exibia um olhar do tipo: ‘sou demais’. Ah! Seriam anos aguentando ele se pavonear, mas era um preço baixo a pagar rs.
O leilão correu animado, por mais algum tempo e logo o solteiro leiloado seria Sebastian Bach. Sim, o alvo de minha irmã e eu não me envolvi enquanto ela e outras garotas o disputavam, e o tipo loiro de academia, exibia dentes excessivamente brancos num rosto bronzeado artificialmente, rindo convencido.
Quando ficou claro, que a oferta de Camille seria a vencedora, eu levantei a mão e ofereci o cinquenta por cento a mais. Ela subiu mais um pouco e eu aumentei, e vi o olhar alarmado no rosto do Sebastian. Vi que ela ela bufava de raiva e falou com meus pais, na certa pedindo mais dinheiro e meu pai fez um gesto negativo com a cabeça. Sorri zombeteira e como golpe de misericórdia, eu dobrei a oferta, e não demorou a prefeita disse batendo o martelo:
- Vendido para Leonora Ivashkov.Palmas para ela! E muito obrigada a todos, nosso leilão foi um sucesso. – e enquanto eu subia ao palco os flashes pipocavam e tiraram uma foto minha com o Sebastian, dizendo que iria para a pagina central. Claro que Camille veio marchando irada em nossa direção e quando viu que eu segurava o braço de Sebastian, disse:
- Você fez de propósito sua...sua...
- Estamos em local público, queridinha. Quer sair na coluna de fofocas? Não é tão glamourosa, garanto a você.
- Você sabe que eu e ele estamos saindo juntos...Quis me humilhar.
- Não preciso fazer algo que você já faz sozinha, Camille e por mais que você pense o contrário, o mundo não gira ao seu redor. E foi por uma causa nobre, que eu o comprei o Bastian, não é querido? E agora vamos curtir e muito as nossas 4 horas juntos. –disse passando a mão nos ombros dele, e o loiro de máquina de bronzeamento artificial me olhava assustado.
- Você é patética, só assim você arranja alguém para sair com você.- atacou Camille e eu respondi:
- Não vou ficar aqui discutindo com você, se você o quer pague o preço.Oh, esqueci você não tem dinheiro. Acho que se eu fosse Bastian, avaliaria muito bem, qual das irmãs Ivashkov tem o toque de Midas.
Saimos dali e no trajeto até a boate Lutsh, Sebastian de ‘assustado’ passou a galanteador, segurando a minha mão e querendo jogar charme, e eu dava risadinhas afetadas, parecendo encantada. Meus amigos me olhavam intrigados, mas eu continuava na minha. Antes de chegar na porta da boate pedi a ele que comprasse uma rosa para mim e enquanto ele foi fazer isso, continuei andando com meus amigos, e entramos. Ele veio rápido e tentou passar mas o segurança o barrou, afinal estavamos num local exclusivo:
- Eu estou com ela. Leonora, meu bem diga a ele que estamos juntos.- virei-me e depois de o olhar com desprezo de cima a baixo disse:
- Não, nós não estamos juntos. Eu enjôo fácil do que compro Adeusinho!- e eu e meus amigos rimos da reação irada dele, quando o segurança o mandou se afastar, quando ele começou a gritar.
É, quando as pessoas dizem que a vingança é um prato que se come frio, elas têm razão: "Vingança é um prato que se come frio, regado a um bom champagne francês'.

N.da Autora: trechos da música Lucky, Jason M’raz.
Succubus = é um demônio com aparência feminina que invade o sonho dos homens a fim de ter uma relação sexual com eles para lhes roubar a energia vital.

Tuesday, August 31, 2010

19 de Julho de 2014

Era o meu aniversário de 16 anos. Em vez de uma festa comum, com bebida e música alta, estava tudo no mais completo silêncio. Eu estava deitado em uma mesa de pedra, em uma masmorra. Meu avô, Oscar Sênior, usava um manto negro e misturava ingredientes de uma poção de cheiro desagradável. Pelo canto do olho via meus pais e irmãos de um lado, parecendo tranqüilos. Do outro lado, meus dois melhores amigos, Alec e Oleg, pareciam mais apreensivos. O que não me deixava exatamente calmo.

Aquela era uma poção para desacelerar os batimentos cardíacos, até que não existisse mais nenhum. Fazia parte do ritual. Não que eu não confiasse em meu avô. Claro que não, ele já havia feito aquilo dezenas de vezes. Mas não comigo. E se meu organismo decidisse que não ia obedecer ao seu encantamento, e eu morresse de vez? E se não desse tempo para ele me trazer de volta?

- Beba, Oscar. – vovô me entregou o cálice fumegante e antes que continuasse pensando demais, bebi de uma só vez. Não tinha gosto de nada, parecia água.
- O que tinha... – Não consegui completar a frase. Minha boca ficou mole e meus dedos começaram a formigar. Meu coração acelerou de um jeito assustador, depois me senti totalmente sem forças e apaguei.

ºººººº

As pessoas na masmorra estavam em silêncio, observando atentas meu avô parado ao meu lado, próximo a minha cabeça. Ele mantinha uma das mãos no meu pescoço, o dedo indicador posicionado em cima de uma marca de nascença que tinha. Parecia uma cicatriz e ficava bem abaixo da orelha esquerda. Ele falava baixo ao meu ouvido um encantamento muito antigo, como uma canção suave. Não entendia uma única palavra, mas era bonito. Alec e Oleg continuavam me olhando apreensivos demais para sequer respirar e agora meu irmão mais novo, Edgar, tinha a mesma expressão dos dois. Os outros continuavam observando como se aquilo fosse rotina. E era, na verdade.

Vovô repetia as palavras cada vez mais depressa, acelerando a canção. Senti alguma coisa me puxar, e então meu avô olhou para o alto, diretamente para mim. Foi quando me dei conta do modo que estava vendo aquela cena. Meu corpo estava deitado sobre a mesa de pedra, imóvel, os olhos fechados, sem respiração alguma. Entendi que a canção estava me chamando de volta a meu corpo e obedeci ao seu comando.

ºººººº

Quando abri os olhos outra vez, a primeira pessoa que vi foi meu avô. Ele me lançou um olhar enigmático e me estendeu a mão, me ajudando a levantar. Talvez esperasse que eu dissesse alguma coisa inteligente, mas tudo que consegui fazer foi abrir e fechar as mãos, me certificando que tinha o controle delas outra vez. Sentia-me do mesmo jeito de antes. Deveria me sentir diferente, ou a única coisa diferente era que agora eu era um Imortal? Como se isso fosse algo banal. Meus irmãos e amigos se aproximaram, curiosos.

- E ai? Está sentindo alguma coisa diferente? –Georgi, meu irmão mais velho, perguntou. Fiz que não com a cabeça, mas me arrependi instantaneamente.

Senti uma dor horrível, que nem de longe poderia ser comparada a uma dor de cabeça comum. De repente eu ouvia tudo, até mesmo uma leve respiração. Meus irmãos e amigos conversavam em um tom de voz normal, mas era como se eles estivessem gritando a plenos pulmões. Tapei os ouvidos depressa, mas as vozes não foram nem remotamente abafadas. Não demorou muito e senti meu nariz sangrar. Não sabia se continuava com as mãos nos ouvidos, mesmo que inutilmente, ou tentava conter o sangramento.

- Isso vai passar – ouvi a voz de minha irmã, Katarina, atrás de mim – No começo é um pouco ruim, mas você se adapta.
- Como assim? O que é isso?
- Seu poder, maninho – ela apertou meu ombro e soltou uma risada como se estivesse se divertindo – Está ouvindo todo o tipo de som, não é? Vozes altas? – assenti com a cabeça e ela latejou de novo – Você agora pode ler mentes, como eu.
- Ah ótimo, temos dois desse em casa agora – Ramon, meu outro irmão, falou desolado e todos riram. As risadas soaram como uma platéia de stand up comedy minha cabeça.
- Ande, levante daí – Oleg me puxou pela manga da camisa e me arrastou pra fora da mesa de pedra – Ainda é seu aniversário e temos uma comemoração especial – notei que ele trocou um olhar travesso com Alec e Georgi, mas não consegui processar uma pergunta com aquela dor latejando.
- Oscar – vovô me deteve antes que chegássemos à porta e pôs a mão sobre a marca de nascença que tinha no pescoço – Tome cuidado.

Assenti outra vez, embora não tenha entendido o que ele quis dizer. Talvez soubesse, mas no momento não me lembrava. Vovô ia me perdoar por isso. Tinha a sensação que minha cabeça explodiria em mil pedaços a qualquer momento, não podia desperdiçar meus últimos minutos com ela pensando. E não pensar pareceu apropriado, uma vez que chegamos ao local da “comemoração especial” do meu aniversário. Era um estúdio de tatuagens. Acho que hesitei, pois eles me empurraram pra dentro do estúdio os três juntos, bloqueando qualquer possibilidade de sair.

- Você tem que fazer uma! – Alec me empurrou sentado numa cadeira e puxou a barra da calça, deixando o tornozelo a mostra. Tinha uma tatuagem nele – Eu fiz uma, você não vai amarelar.
- Não é isso, mas e se ficar ruim? Vou ficar com ela pro resto da vida. Literalmente.
- Deixe de ser fresco, Ozzy! – Oleg atirou um catalogo aberto no meu colo e apontou para uma das tatuagens.

Era um Uróboro, o símbolo da eternidade. O mesmo do tornozelo de Alec. Oleg arregaçou a manga da camisa e deixou o dele amostra também. Meu irmão fez o mesmo, mostrando o que tinha nas costas. Todos eram iguais. Eles haviam feito daquilo uma tradição da qual eu não sabia.

- Não seja uma mulherzinha – Georgi bateu em meu ombro com força – Ramon e Katarina também fizeram uma, não vai ser você a quebrar a corrente, não é?

Olhei para eles e entendi que não ia sair dali sem ela. O tatuador já estava com o aparelho com aparência letal na mão, me esperando. Olhei mais uma vez para a tatuagem no papel. Uma serpente engolindo a própria cauda. Tirei a camisa antes de reconsiderar e deitei na mesa, deixando que ele marcasse a parte de trás do meu pescoço com aquela agulha. A dor de cabeça pareceu insignificante comparada a ela, mas era tarde demais para voltar atrás. E eu também não queria. Era hora de começar a viver a vida do jeito certo.
We´re back, baby!

É isso ai, voltamos. Depois de um ano de hiatus, o blog Instituto Durmstrang dá início a uma nova fase. A história agora começa em 2014, ou seja, 14 anos depois que a última turma se formou.

São novas histórias, sem vínculos com as antigas, embora alguns rostos conhecidos serão vistos com certa freqüência.

Então sem mais enrolações, está oficialmente aberta a nova fase do Instituto Durmstrang.

Bem vindos, novatos!

Tuesday, March 09, 2010