Saturday, March 28, 2009

Caminhava com as meninas na direção do castelo para as aulas da manha, mas uma movimentação fora do comum chamou nossa atenção. Um aglomerado de alunos se amontoava na frente da Spartacus e rapidamente mudamos nosso rumo até lá. Logo encontrei Micah de braços cruzados conversando com um dos guarda-caças, descontraído. Parei ao lado dele curiosa, mas nem deu tempo de perguntar qualquer coisa, pois no mesmo instante identifiquei o motivo da multidão. Filipe estava colado na parede da casa, do lado de fora, e o professor de Lênin tentava desfazer o feitiço usado. Olhei para Micah esperando uma explicação, mas ele apenas sorriu e apertou a mão do homem, que se afastou em seguida.

‘O que está acontecendo?’ Perguntei apontando para o meu primo ainda colado na parede ‘Isso por acaso é alguma peça entre vocês e os garotos da Chronos?’

‘Sim’ Ele respondeu já erguendo as mãos para me impedir de interromper ‘Não tivemos culpa, Filipe foi pego ontem à noite e não sabíamos’

‘ELE PASSOU A NOITE AQUI FORA?’ Gritei furiosa e ele fez sinal de silencio, pois o guarda-caça nos olhou de lado ‘Micah, ele podia ter morrido congelado!’

‘Eu sei, mas não grite, não tive culpa! Filipe conseguiu se manter aquecido, está bem, mas vai pra enfermaria por algumas horas. O professor Lênin já vai tirá-lo de lá, calma’

‘Você os entregou ao guarda-caça, não é?’ Perguntei desconfiada, pois já sabia a resposta ‘Micah! Se vocês não entregarem, eu entrego!’

‘Você não vai entregar ninguém, fica na sua que a guerra é entre Spartacus e Chronos. Eu não me meto na briga da Avalon com a Atena. Deixa que nós vamos resolver isso, eles vão receber o troco’

Bufei irritada, mas ele me abraçou e acabei cedendo. Ficamos aguardando Filipe descer e o acompanhamos até a enfermaria. Ele estava gelado e mais pálido que nunca, mas parecia animado com tudo aquilo e não reclamava, apenas pedia a Micah que não o deixasse de fora da retaliação. Tinha certeza que em breve aquela guerra ia sair do nosso controle, e ai talvez seja tarde demais para consertar alguma coisa...

*****

‘Fechem os olhos e limpem suas mentes, não pensem em nada’ Ouvia a voz do professor Boris perto de mim. Mesmo de olhos fechados, sabia que ele passava perto de onde estava deitada ‘Deixem a poção fazer efeito e o cheiro do incenso invadir de vocês. Apenas relaxem’

Ajeitei meu corpo no tapete em que estava deitada e podia sentir o cheiro de canela invadir minhas narinas. Era forte, mas bom. Senti a mão de Micah procurar a minha e a apertei, relaxando como o professor havia pedido...

Estava em uma rua da Espanha com a minha família, estavam todos reunidos, até mesmo minha mãe. Vi Max andando de mãos dadas com ela, tinha no máximo 5 anos, e eu segurava a mão do meu irmão, olhando para os lados curiosa. Já anoitecia e de repente a rua foi tomada por homens usando capuzes brancos em forma cônica. Eram muitos e carregavam uma cruz. Soltei a mão de Max e, sem perceber, fui me afastando dele e me aproximando daquelas figuras encapuzadas. Quando dei por mim, já estava perdida. Tudo que via eram roupas brancas por todos os lados e gritava pela minha mãe, mas ninguém me ouvia.

Já chorava desesperada por não encontrar ninguém quando senti uma mão agarrar meu pulso e me puxar com força para fora da procissão. Era meu tio Ivo. Ele me arrastava de volta para a calçada ignorando meus soluços de choro. Quando chegamos a uma parte da rua menos tumultuada, pude ver minha mãe chorando nervosa, olhando para todos os lados.

‘Ella! Não posso passar por isso de novo!’ Ouvi ela dizer nervosa, gesticulando para tia Madalena

‘Eva, acalme-se! Vamos encontrar a Evie!’ Minha tia segurou os braços da minha mãe, mas ela não se acalmou.

‘Mamãe!’ Gritei me soltando da mão do meu tio e correndo pra ela

‘Evie!’ Mamãe se abaixou e me puxou para um abraço apertado. Ela soluçava incontrolavelmente ‘Ah meu amor, você está bem? Onde estava?’

‘Desculpa. Eu fui ver as pessoas de branco mais de perto e me perdi. Desculpa, mamãe’ Disse chorando assustada. Tinha ficado apavorada por estar vendo minha mãe daquele jeito.

‘Está tudo bem, querida, está tudo bem! A mamãe só estava assustada. Eu olhei para o lado e não vi você, pensei que alguém pudesse tê-la levado embora’

Mamãe me puxou para outro abraço apertado e secou as lágrimas do meu rosto, sorrindo aliviada.


‘Muito bem, acordem’ A voz do professor Boris me trouxe a realidade e quando ele estalou os dedos, abri os olhos assustada ‘Bom dia, acabou o cochilo. Agora cada um de vocês vai descrever o sonho em um pergaminho e entregar ao colega ao lado, para que ele possa interpretar’

‘O que houve?’ Micah perguntou vendo que tinha o olhar vago

‘Não sei’ Respondi olhando para ele ainda aérea ‘Não sei o que aconteceu’

‘Sr. Wade, pegue um pergaminho na mesa e anote seu sonho, depressa’ O professor passou estalando os dedos e Micah levantou apressado ‘Srta. Stanislav, está tudo bem?’

Fiz que sim com a cabeça, levantando do chão e indo pegar o pergaminho na mesa. Descrevi o sonho como me lembrava e entreguei a Micah, recebendo o dele em troca. Foi a analise de sonho mais sem sentido que fiz desde que comecei a ter aulas de adivinhação, mas minha cabeça estava longe. Não consegui mais prestar atenção no resto da aula e quando o professor nos liberou, me separei dos meus amigos e fui direto até o escritório do meu avô. Sabia que era tarde e ele provavelmente estaria dormindo, mas precisava de algumas respostas e não me importava se tivesse que acordá-lo para isso.

‘Vovô! Vovô!’ Batia na porta do escritório sem parar ‘Vovô, preciso falar com o senhor!’

‘Evie?’ Ele abriu a porta de roupão e pela sua expressão confusa, já estava deitado ‘O que aconteceu?’

‘Quem é Ella?’ Disparei a pergunta que estava me consumindo há meses e ele reagiu com espanto.

‘Ella? Não conheço ninguém com esse nome, minha filha’ Ele gaguejou um pouco antes de falar.

‘Vovô, com todo respeito, o senhor não mente bem’ Entrei no escritório sem esperar que ele desse passagem e ele fechou a porta.

‘Minha querida, já está tarde, porque não volta para sua republica? Amanha conversamos’

‘Venho sonhando com uma criança parecida comigo chamada Ella tem alguns meses, agora mamãe também aparece nesses sonhos e eles são muito reais. E hoje lembrei de uma coisa que aconteceu quando eu tinha 5 anos’ Comecei a falar sem parar, não dando tempo dele interromper ‘Lembra de quando me perdi naquela páscoa, no meio da procissão? Quando tio Ivo me encontrou e me levou de volta pra mamãe, ouvi-a falando com a tia Madalena que não podia passar por isso de novo e disse o nome da menina dos sonhos!’ Olhei para ele suplicante ‘Vovô, por favor, quem é essa menina?’

Vovô me olhou cansado e pela primeira vez desde que vovó morreu, o vi abatido. Ele tirou os óculos do rosto e sentou na poltrona, encarando o chão. Parecia tomar fôlego, como se estivesse se preparando para dizer alguma coisa importante. Aguardei ansiosa e depois de segundos que pareceram horas, ele me encarou com uma expressão triste, que já me deixou abalada só por vê-lo assim.

‘Ella era sua irmã’ Ele falou em um tom de voz misturado a um suspiro melancólico ‘Eleanor era o seu nome, Ella era como a chamávamos em casa’

‘Minha irmã?’ Falei surpresa ‘Como era? O que aconteceu?’

‘Ela morreu aos 5 anos, você e Max eram apenas bebês de 1 mês na época, jamais se lembrariam dela’ Fiz menção de interromper, mas ele levantou a mão pedindo que o deixasse falar ‘Seus pais estavam na nossa casa de praia na Espanha e seu pai a perdeu de vista por 2 minutos, então ela desapareceu. Ficamos todos desesperados, procuramos por toda parte, mas só a encontramos na manha seguinte’

‘Trazida pelo mar’ Completei por ele, sem perceber que falava ‘Desculpe’

‘Como sabe disso?’

‘Sonhei com isso. Acordei chorando e passei o dia inteiro mal’ Encarei-o já com lagrimas nos olhos ‘Ela se afogou?’

‘Não sabemos até hoje’ Vovô deu outro longo suspiro e sabia que era por estar admitindo uma derrota ‘Ela tinha marcas de dedos nos braços e pernas e um ferimento na cabeça, mas a policia não soube dizer o que causou a morte dela, se foi por afogamento ou por ter batido em alguma pedra’

‘Por que ninguém nunca me contou isso?’

‘Por que contar? Por que reviver um sofrimento como esse?’ Ele recolocou os óculos no rosto e me encarou ‘Você e Max não tinham como se lembrar e seus primos mais novos sequer a conheceram. Pillar e Andrei mal se lembram dela. Pillar acha que era uma amiga imaginaria. Entendeu dessa forma tudo que aconteceu e Nikolai decidiu que era a melhor maneira de evitar que ela sofresse’

‘Vocês a apagaram da família, então?’ Perguntei indignada ‘Não existe uma foto dela que prove sua existência?’

‘Sua avó guardou muitas fotos, nada foi jogado fora. Se quiser, quando formos para casa posso mostrar a você. Apenas não deixamos muitas lembranças com a sua mãe, a fazia sofrer demais’

‘Eu gostaria de ver essas fotos’ Ele sorriu cansado e assentiu com a cabeça, levantando para me abraçar ‘Desculpe obrigar você a falar disso, mas eu precisava saber’

‘Está tudo bem, não tem problema. Agora volte para a sua republica e tente não pensar nisso’

‘Vou tentar. Boa noite, vovô’

Ele beijou minha testa me desejando boa noite também e sai do escritório. Enquanto refazia o caminho da Avalon, um filme ia passando na minha cabeça. Era como se de uma hora pra outra, fatos isolados da minha infância fossem voltando a minha memória. Coisas estranhas que presenciei e que não lembrava mais, mas que agora que sabia da existência de uma irmã mais velha, tudo fazia sentido. Era impossível deitar sem pensar nela, tinha certeza que ia amanhecer de olhos bem abertos na cama, tentando processar tudo que ouvi. E o pior de tudo aquilo era que alguma coisa me fazia acreditar que minha irmã não morreu afogada no mar.

Saturday, March 14, 2009

Já que depois da liberação do confinamento, cada uma de nós podia aproveitar o fim de semana do jeito que quisesse, eu ia ficar na república escrever cartas para casa, e talvez dar umas voltas pelo vilarejo sozinha, pois todos já tinham coisas a fazer, e eu não tinha vocação para castiçal dos casais, resolvi ficar na minha cama até mais tarde.
Luka apareceu na república pela hora do almoço e me chamou para sair. No começo eu olhei desconfiada e ele disse:
- Vocês tiveram uma vitória sobre a Athena ontem, não quer celebrar?
- Celebrar fazendo o que?
- Podemos comer alguma coisa, ir ao cinema, passear por aqui, ou se você confiar em mim, podemos sair sem rumo certo. Só temos que estar de volta, amanhã à noite. Vamos nos aventurar por ai. - falou me olhando intensamente.
- Não sei Luka... Não quero levar isso a sério...
- Só vai ficar sério, se você quiser Milla. Somos amigos lembra? O que você decide?- e me estendeu a mão.
- Bem, acho que não tem muito que pensar não é? Vou confiar em você. - respondi pegando sua mão.

Something always brings me back to you.
It never takes too long.
No matter what I say or do I'll still feel you here 'til the moment I'm gone


Passamos o dia em Varna, e foi muito bom aproveitar o sol, numa praia que íamos quando crianças, visitamos algumas lojas, passeamos de barco... Á noite fomos ao cinema assistir uma comédia, parecia que eu estava conhecendo um outro Luka. Era engraçado, o jeito que ele ria das piadas sem noção da tela, ele parecia aquele garoto que as minhas amigas diziam que eu gostava.
- Que foi? A comida tá ruim?- ele perguntou enquanto terminava o refrigerante e pegava mais algumas batatas, do meu prato, no restaurante perto da pousada.
- Você está diferente. Parece feliz.
- Estou com você, isso me deixa feliz.
- Ughh, que brega isso. Andou lendo algum romance adolescente é? - rimos e ele disse sério, me dando um pacote com um laço vermelho.
- Não somos namorados, mas eu queria te dar isso, pelo dia de hoje...
- Você não precisava me dar nada...- eu dizia enquanto abria o pacote e lá dentro havia um frasco de perfume todo trabalhado. Era a coisa mais bonita que eu já tinha visto e quando coloquei o perfume em mim, senti um odor simplesmente maravilhoso, algo que fazia eu me sentir muito bem, parecia que eu tinha borboletas no estomago e nada podia me atingir. Parecia que eu estava num daqueles comerciais trouxas, que diz que você se sente poderosa com aquele perfume caro. E era assim que eu me sentia. Eu me aproximei dele e o toquei. Ele me puxou para um abraço, aspirou o perfume e perguntou:
- Gostou??
- Sim, ele é maravilhoso. Nunca tive algo que cheirasse tão bem assim...
- Você merece, porque é especial...Use-o sempre e lembre-se de mim quando eu estiver longe. Você vai usá-lo só para mim, Milla?- disse em meu ouvido e aquele perfume gostoso ao nosso redor, sorri e o beijei rapidamente nos lábios:
- Parece difícil resistir a isso...- disse ofegante.
- Não resista Ludmilla... - senti uma necessidade urgente de fica mais perto de Luka, e com aquela fragrância nos envolvendo, puxei-o pela camisa e o beijei. Eu o queria perto de mim, de uma forma que nunca quis antes. Acho que eu estava me apaixonando por ele novamente.

Set me free, leave me be. I don't want to fall another moment into your gravity.
Here I am and I stand so tall, just the way I'm supposed to be.
But you're on to me and all over me.


- Milla, acorda…
- Humm… Mais 5 minutos…
- Se você dormir mais 5 minutos, pode dar adeus à primeira aula. É Transfiguração.
- Certo...Ivana... IVANA? - pulei da cama desesperada e sai feito louca correndo para o banheiro, por sorte tinha alguma roupa limpa pelo caminho e me arrumei rapidamente. Desci as escadas, escovando o cabelo e segurando um biscoito com a boca, estava faminta. Estávamos indo tomar o café da manhã, quando Evie que estava de mãos dadas com Micah comentou:
- O fim de semana foi bom hein? Não vimos você voltar...- eu ri e Micah perguntou:
- Arrumou namorado novo, ‘Milles’??
- Antes fosse, ela voltou pro Luka. - disse Ty reprovador e resmunguei:
- Você também estava fora ontem Ty, porque não cuida da sua vida?
- Eu cuido da minha vida, mas você já parou para pensar que o Luka pode estar tentando tirar informações da Evie através de você?
- Você está paranóico Ty. Eu sair com o Luka, não tem anda a ver com o problema da Evie...Para sua informação, nós nem falamos sobre a escola... Não falamos muita coisa e...- meus amigos me olhavam debochados e eu disse:
- Luka e eu temos um acordo. O que acontece na escola, fica na escola ok? Não se preocupem, não vou trair a confiança de vocês, ainda mais com algo tão ‘físico’. - e eles riram.
- Mas e ele Milla? Ele anda com Max, e pode estar cumprindo ordens do meu pai. - disse Evie preocupada.
- Não Luka não faria isso e...- lembrei-me de uma cicatriz nas costas de Luka e olhei de olhos arregalados para eles:
- Ele também é da Sociedade não é?- eles ficaram calados enquanto eu lembrava dos sumiços de Luka, nestes anos. Ty quebrou o silêncio:
- Milla, Ivanov é um tipo instável. Eu o conheço mais do que você imagina e sei do que ele é capaz, você precisa tomar cuidado. Ele e Max obedecem cegamente ao pai da Evie, e se ele desconfiar que você sabe...
- Luka não vai me machucar Ty, confio nele. E você precisa se acalmar. Agora o pai do Chris, tomou conta da situação e tudo vai ficar bem. - disse teimosamente e antes que Ty dissesse mais alguma coisa, vi Luka mais à frente e ele acenou para mim.
Engraçado olhar para ele, fazia com que aquele perfume viesse à minha memória. Sorri e ele retribuiu, mal notei Max carrancudo ao seu lado. Só percebi que cheguei na sala e estava ao lado dele, quando a professora Mesic, depois de me chamar umas duas vezes, mandou eu me sentar com Annia, que fazia dupla comigo e treinássemos como mudar a forma de nossos rostos, para praticar os feitiços de Animagia.
Eu parecia fora de mim, de tão aérea que eu me sentia e isso apesar de estranho, não era ruim. Talvez seja o stress de tudo que vivemos com a historia dos vampiros cobrando o seu preço ou quem sabe, Luka faz com que eu me sinta assim, nas nuvens.

You loved me 'cause I'm fragile.
When I thought that I was strong.
But you touch me for a little while and all my fragile strength is gone.


N.Autora: Música, Gravity, de Sarah Bareilles

Friday, March 13, 2009

Acontecia uma vez por ano, sempre em uma sexta-feira. Durante anos, a presidente eleita da Avalon escolhia um dia do ano para realizar a noite do confinamento. A noite era reservada para jogos, conversas e, principalmente, uma melhor integração das moradoras da casa. Nenhuma garota poderia sair e ninguém de fora poderia entrar, a partir do momento em que o sol se escondesse até a hora que nascesse outra vez. Era uma tradição aprovada por todas as garotas da casa, mas pela primeira vez, ao menos uma não estava totalmente satisfeita com a idéia de ficar trancada dentro da república até o amanhecer.

‘Não tem um jeito de você fugir disso?’ Micah perguntou pela vigésima vez a Evie, a segurando pela cintura ‘Não acredito que vai passar a sexta-feira presa sem poder sair comigo’

‘É uma tradição, não vou ser a primeira garota da Avalon a quebrar isso’ Evie respondeu firme, mas sem entusiasmo na voz ‘Sinto muito, mas podemos compensar amanha. Assim que o sol sair, estamos livres e sou toda sua’

‘Olha que eu vou gravar essa frase e cobrar depois’ Disse sarcástico, beijando seu pescoço.

‘Pode cobrar’ Ela sorriu e o afastou ‘Acha que ele vai ficar bem?’

‘Tenho certeza que sim. O pai do Chris já procurou seu pai, não notou que Max sequer se aproximou de um de nós dois hoje? Já foi instruído a se afastar’

‘É, mas até quando?’ Ela questionou desanimada.

‘Antes que ele descubra como reverter isso, vamos ter o controle total da situação. Eu garanto’

‘Você. Fora!’ Micah ouviu uma voz familiar e riu, sentindo a dona dela bater em seu ombro ‘Vamos trancar a república em menos de 1 minuto’

‘Georgia, vai mesmo me obrigar a passar a primeira sexta-feira desde que voltei longe da minha namorada?’ Micah tentou apelar uma ultima vez, mas com a pessoa errada.

‘Tradição é tradição. E não costumamos quebrá-las aqui na Avalon’ Ela sorriu amigável e abriu a porta ‘Fora’

Micah beijou Evie e saiu da república, mesmo contrariado. Georgia fechou a porta outra vez e encarou a sala. Já estava cheia, todas as garotas da casa espalhadas pelos sofás e cadeiras, aguardando o inicio oficial do confinamento. Evie ficou parada ao lado de Georgia e ela puxou a varinha da calça jeans.

‘Ok, veteranas e calouras, é hora de começar o confinamento’ Georgia falou alto e as conversas paralelas cessaram ‘A agenda de hoje será diferente dos outros anos, não vamos seguir uma programação obrigatória, como de costume’ Evie olhou espantada para ela e em seguida encarou as amigas, que também pareciam surpresas ‘Esqueçam aquelas bobagens de colagens expressando nossos sonhos e expectativas e círculos de relaxamento. Tem um carrinho de sorvete na cozinha, toneladas de pacotes de biscoito salgado no balcão, um barril de cerveja amanteigada na despensa... Não Betsy, whisky de fogo está proibido, ou você já esqueceu o que fez na ultima festa que tinha liberado?’ Betsy, a menina da nossa turma que era famosa pelos porres que tomava, abaixou a mão desanimada e rimos ‘Temos alguns jogos de tabuleiro, um tapete de twister e um karaokê, a disposição para quem quiser soltar a voz. E como tradição, ninguém entra e ninguém sai até o amanhecer’ Georgia parou de falar e sorriu para as colegas de casa, se virando para a porta com a varinha em riste ‘Cave Inimicum’ Ela murmurou e uma luz azul forte saiu da varinha, fazendo a porta brilhar ‘Protego Horribilis’ Agora Georgia apontou a varinha também para as janelas e uma luz amarela iluminou a parede da frente da república, ofuscando a vista das que estavam mais próximas ‘Precauções. Assim ninguém entra aqui sem que tenhamos um aviso prévio. Vamos começar a diversão?’

Georgia guardou a varinha outra vez e as meninas gritaram animadas, se espalhando pela sala em grupos para procurar algo para fazer. Evie foi direto para a cozinha atrás do carrinho de sorvete e as amigas foram atrás, levando tudo para a sala e experimentando todos os sabores disponíveis. O barril de cerveja amanteigada também foi logo cercado e em questão de horas a sala já estava tomada por pequenos círculos de garotas ocupando os jogos de tabuleiro que encontraram perdidos. O karaokê também não demorou a ser usado e as vozes eram as mais desafinadas possíveis, mas ninguém se importava. O clima na casa era de descontração, como há muito tempo não se via. Por uma noite, as diferenças foram esquecidas e até mesmo Inês se pegou sendo educada com Evie, mesmo que durasse breves segundos.

‘Atenção!’ Evie subiu em uma cadeira batendo palma e as garotas olharam para ela. Já passava da meia noite e estavam todas mais descontraídas ‘Para quem ainda não sabe, gostaria de informar que temos uma moradora nova. Shannon, levante de onde estiver e venha se apresentar’

‘É, apareça, Shannon!’ Milla falou alto, procurando pela garota ‘Todas se apresentaram quando chegaram aqui, você não vai escapar’

‘Ok, não precisa ameaçar, eu falo’ Shannon olhou rindo para Miyako e lhe entregou o copo que segurava ‘Olá, meu nome é Shannon Austen, tenho 17 anos e sou de Los Angeles, Califórnia. Um amigo me convenceu a se transferir pra cá junto com ele e como meu namorado estuda aqui, aceitei. Já conhecia algumas das meninas daqui por causa das Olimpíadas e agora vou ter mais tempo de conhecer as outras, mas vocês são muitas, então facilitem pra mim, ok?’ E as meninas riram

‘Shannon, muito bem vinda a Avalon’ Evie tornou a falar, erguendo o copo e foi copiada pelo resto das garotas ‘Mas temos uma noticia não muito boa, ao menos para você’ Evie parou de falar fazendo suspense e Shannon a olhou desconfiada, principalmente quando suas amigas riram ‘Mesmo sendo do ultimo ano, aqui dentro você é caloura. E caloura paga trote quando chega à escola...’

‘Ah, nem vem com essa, Evie!’ Shannon protestou e buscou o apoio de Miyako, mas ela ergueu as mãos indicando que não podia fazer nada ‘Já estamos em Março, não acabou isso?’

‘Quanto mais você protestar, pior fica’ Evie falou debochada ‘Vina, pegue o bebê’

‘Bebê? Que bebê?’ Shannon perguntou mais desconfiada ainda e viu Vina entrar na cozinha e voltar logo em seguida com algo embrulhado em um pano ‘O que é isso?’

‘Isso é sua responsabilidade durante essa semana’ Milla pegou o embrulho da mão de Vina e entregou a Shannon. Ela desenrolou e viu que era um ovo ‘É um ovo de Bibra, pegamos emprestado com o professor Asimov e ele quer de volta inteiro. Sua tarefa é cuidar dele, não deve perdê-lo de vista um segundo sequer!’

‘Estão brincando, não é?’ Shannon soltou uma risada descrente, encarando o ovo em sua mão.

‘Estamos com cara de quem está brincando?’ Nina falou séria, de braços cruzados ‘O ovo é sua responsabilidade, Austen! Quebre-o, e além de ter que se explicar ao professor Asimov, sofrerá conseqüências aqui dentro!’

‘Queremos o ovo de volta na próxima sexta’ Annia se aproximou ‘E vamos ficar de olho para checar se está com o ovo 24hs por dia. Somos muitas, não adianta tentar trapacear’

‘Acredita nisso?’ Shannon se conformou com a tarefa e sentou ao lado de Miyako outra vez ‘Cuidar de um ovo! Como se já não tivesse coisas demais para fazer nesse processo de adaptação!’

‘Não reclame, ouvi relatos de trotes bem piores das calouras daqui’ Miyako alertou, rindo do ovo em seu colo ‘Já pensou num nome?’

Shannon cerrou os olhos, mas nunca chegou a responder. Um barulho vindo da varanda da casa chamou a atenção de algumas meninas e Georgia correu para a janela, pedindo silencio. Era o alerta contra inimigos, um dos feitiços usados para proteger a casa que fora lançado por ela. Annia, Evie, Milla, Nina, Vina, Martina, Kay e as outras meninas do conselho correram para o lado dela, as varinhas já a postos, aguardando instruções.

‘Elas vão entrar’ Georgia alertou, olhando para Vina e Nina ‘Peguem a munição na despensa. Calouras, virem os sofás e todas em suas posições!’

Nina e Vina correram atropelando quem estivesse no caminho e sumiram dentro da despensa. As calouras, assustadas com a voz enérgica de Georgia, viraram os sofás de modo que ficassem em forma de barreiras e se esconderam atrás da mesa. Shannon correu para se abrigar em uma poltrona, o ovo preso debaixo do braço e enrolado no pano. As meninas voltaram com várias caixas enfeitiçadas flutuando e as largaram no chão, revelando dezenas de balões cheios de água. Milla distribuiu as caixas em grupos e se atirou atrás do sofá com as amigas, cada uma com as duas mãos ocupadas com balões. Annia agitou a varinha e apagou as luzes da casa.

‘Somente quando eu falar’ Georgia deu um ultimo aviso antes de se calar, aguardando.

A república caiu em silêncio por alguns segundos e a porta se abriu com um estrondo. A sombra de uma garota alta cobriu o chão e atrás dela, varias outras apareceram. Eram as meninas da Athena, república rival da Avalon, e sua líder era Sarah Petrova. Ela correu os olhos pela sala aparentemente vazia e Georgia ficou de pé, atrás do sofá.

‘FOGO!’ Berrou com a mão para o alto, atirando um balão de água na garota.

Uma a uma, as garotas da Avalon levantaram de seus esconderijos e tudo que se via eram balões coloridos voando pela sala, atingindo os alvos de pé na porta. O barulho da água se espalhando quando eles estouravam tomou conta do ambiente e, despreparadas para um ataque molhado, as garotas da Athena se defendiam com feitiços de proteção, não tinham tempo de revidar. Depois de atirarem os balões que tinham nas mãos, as mais velhas começaram a enfeitiçar os que restavam nas caixas e os faziam voar sozinhos até elas, ininterruptamente.

‘RECUAR! ABORTAR A MISSAO!’ Sarah ergueu as mãos para proteger o rosto e gritava para suas companheiras de republica

‘Covardes!’ Evie gritou em meio a risadas das amigas ‘Lutem como homens!’

‘Fujam, suas maricas!’ Vina gritou atirando mais um balão, acertando Sarah pelas costas ‘Se não sabem preparar um ataque, então fiquem em casa!’

‘Vai ter volta, Yelchin!’ Sarah apontou furiosa para Georgia, ensopada ‘Pode esperar!’

‘Sai fora!’ Georgia atirou outro balão e Sarah se esquivou dele, fechando a porta sob vaia das meninas ‘Corram de volta pro ninho, suas cobras!’

As vaias deram lugar a aplausos animados, todas as meninas vibravam com a vitória sobre as rivais. Georgia ordenou que as calouras colocassem os moveis no lugar outra vez e agitou a varinha na direção do som, colocando uma música alta. Milla e Annia trouxerem mais um barril de cerveja amanteigada da cozinha e Evie secou a sala com um feitiço pratico, liberando a pista outra vez para quem quisesse dançar as músicas dos Duendeiros que tocavam na RRB. Havia sido o primeiro confinamento com invasão, mas também foi de longe o mais divertido de todos. Havia compensado perder uma noite fora no vilarejo por um pouco de diversão com as amigas, pois Evie sabia que muito em breve não as veria com muita freqüência.

Wednesday, March 11, 2009

A chave de portal que nos levaria para Durmstrang estava marcada para 20:30 e às 20:35 eu já estava batendo na porta da Avalon, com Shannon ao meu lado tremendo de frio. Quem abriu a porta foi Inês e me encarou espantada, medindo Shannon de cima a baixo em seguida.

‘Pensei que tinha ido embora’ Falou com voz de desdém e Shannon revirou os olhos.

‘Pensou errado’ Mesmo sem ela abrir caminho, forcei a passagem e entramos ‘Ela está aqui?’

‘Não sei, não sou secretária particular da madame’ Ela respondeu fechando a porta, anda encarando Shannon.

‘Pra uma caloura, você é muito abusada. Devia saber responder coisas simples como essa’ Revidei impaciente e ela resmungou algo que não entendi, apontando para as escadas ‘Melhorou agora. Shan, espere aqui, Georgia vai instalar você quando aparecer’

Shannon assentiu com a cabeça se largando no sofá, sob o olhar atento de Inês. Subi as escadas correndo e alguns degraus antes de chegar ao quarto das meninas, já pude ouvir parte da conversa delas. Parei na porta e vi Evie, Milla, Vina e Annia sentadas no chão, de costas para mim.

‘Não quero colocar Dimitri em perigo, não vou cobrar dele que entregue meu pai aos aurores se isso for deixá-lo em uma situação ruim’ Ouvi Evie dizer com uma voz de choro.

‘Vai dar tudo certo, o pai do Chris vai ajudar’ Interrompi a conversa delas e as 4 olharam para trás, assustadas.

Ao ouvir minha voz, Evie saltou do chão no mesmo instante. Ela correu pelo quarto e me abraçou, afundando a cabeça em meu ombro e recomeçando a chorar. Aquilo fez com que me sentisse extremamente aliviado, tinha receio de sua reação quando me visse novamente, mesmo tendo conversado com ela pelo telefone alguns dias antes.

‘Vai dar tudo certo, eu nunca mais vou deixar você sozinha’ Eu repetia, enquanto acariciava seus cabelos.

‘Vamos deixar vocês sozinhos’ Vina falou saindo do quarto

‘Bem vindo de volta, Micah’ Milla passou também, sorrindo, seguida por Annia

‘Você é um imbecil!’ Ela se soltou do abraço assim que a porta se fechou e me bateu, mas segurei suas mãos a impedindo de continuar.

‘Sim, eu sou um imbecil’ Ela tentou se soltar, mas era mais forte e a fiz me encarar ‘Já chegamos a esse consenso, não é? Podemos ir para o próximo tópico?’

‘Você não devia estar aqui, perdeu o juízo? E se Max viu você passando?’

‘Estou pouco me importando com o seu irmão. Ele estava vigiando cada passo seu, sabia disso?’ Perguntei a encarando sério e pela reação, ela não sabia ‘Pois é, e Josh estava me vigiando. Se decidissem fazer alguma coisa, fariam. E eu nunca ia me perdoar se não pudesse fazer nada pra ajudar, estando tão longe’

‘Você foi embora, sumiu por 2 meses’ Ela ignorou por completo o que falei e mudou de assunto. Tentei não rir, já sabia que a conversa seria sem pé nem cabeça ‘Fiquei 2 meses sem ter noticias suas’

‘Você teria noticias se tivesse me procurado, eu tive noticias suas através dos garotos’ Olhei para ela e fazia um enorme esforço para não rir ‘Decida-se, você queria que eu procurasse você ou que ficasse afastado? Por que acabou de dizer que não deveria estar aqui’

‘Quando você parou de mentir pra mim?’ E mais uma vez ela não respondeu e mudou o assunto.

‘Você quer saber quando eu me dei conta de que estava gostando de você?’ Ela confirmou com a cabeça e sorri ‘Acho que começou naquele natal que tivemos tempo de conversar direito, que eu pude conhecer você melhor. Mas eu só fui me dar conta de que não estava mais jogando depois do meu aniversario. Foi ai que eu tive certeza’

‘Por que no seu aniversário?’

‘Porque foi a primeira vez que tive medo de te perder. Tive medo de que, por minha causa, Max fizesse mal a você’

‘Estou com medo’ Ela me encarou e era nítido que ela estava mesmo com medo

‘Você confia em mim?’ Ela assentiu com a cabeça e a puxei para um abraço ‘Então fica tranqüila que eu não vou deixar que nada de ruim aconteça a você’

‘Isso não vai ser fácil, não é?’ Ela me abraçou com mais força e sua voz saiu abafada pelo meu casaco

‘Não, mas a gente vai sobreviver’ Afastei-a segurando seu rosto, de maneira que ela me encarasse ‘Eu não vou mais sair de perto de você, ainda vai ter que me aturar muito’

‘Que bom’ Ela sorriu e passou as mãos em volta do meu pescoço, me beijando ‘Porque se você for embora de novo, não precisa mais voltar’

‘Não mesmo?’ Falei sorrindo debochado, isso era algo que não podia controlar ‘Você disse a mesma coisa há 2 meses atrás’

‘Dessa vez é sério’ Ela não riu ‘Essa deve ser a vigésima chance que dou a você e eu garanto que é a última. Você me magoou muito, Micah. Se pisar na bola outra vez, eu posso morrer de tristeza, mas não vou voltar atrás’

‘Eu sei, não vou mais pisar na bola. Me desculpa por tudo?’ Segurei o rosto dela bem próximo ao meu e nossas testas se tocaram ‘Eu te amo, você sabe disso, não é?’

‘Eu também te amo, mas...’ E a interrompi com um beijo

‘Eu não vou mais magoar você. Chega de mentiras a partir de agora, vou provar que pode confiar em mim’

‘Eu já confio em você’ Ela sorriu um pouco, secando as lagrimas ‘Jogo limpo a partir de agora?’

‘Jogo limpo, somente a verdade’ Disse sorrindo e a abracei ‘Quando foi que deixamos a coisa chegar a esse ponto?’

‘Acho que começou com você me enganando e eu acreditando como uma boba, sempre dando mais uma chance a você’ Ela respondeu séria, mas riu em seguida.

‘Você vai jogar isso na minha cara por mais quanto tempo?’

‘Não sei... Até sua consciência estar 100% limpa, talvez’

‘Ótimo, pro resto da vida então’

‘É bom mesmo você não esquecer, assim não pensa em fazer de novo’ Ela alfinetou e a agarrei pela cintura, a derrubando na cama e mordendo seu pescoço, enquanto ela gritava e ria ‘Para, sai de cima de mim, não começa’ Ela me empurrou pro lado e sentamos na cama.

‘Posso esperar até amanha’ Disse convencido e ela me olhou de lado, mas sorriu ‘Então, vamos resolver essa coisa com o Dimitri amanha mesmo?’

‘Sim, quero resolver isso logo. Se o pai do Chris pode ajudar, então amanha mesmo quero falar com ele’

‘Vamos até a Spartacus falar com ele, ainda nem passei lá’ Levantei da cama estendendo a mão a ela ‘Shannon está ai também, trouxe ela na bagagem’

‘Ela vai se formar aqui?’ Evie se espantou ‘Que ótimo! Chris vai enlouquecer, ele já sabe?’

‘Ainda não, ela quis fazer surpresa. Vai saber agora, que vamos até lá’

‘Micah?’ Ela me chamou quando já estávamos na porta e parei, olhando para o lado ‘Senti sua falta’

‘Eu também’ Puxei-a para um beijo demorado e descemos as escadas abraçados. Essa semana mesmo daríamos um jeito na nossa situação, mesmo que temporariamente. Mas eu não ia deixar ninguém me impedir de ficar ao lado dela.

I've found a reason for me
To change who I used to be
A reason to start over new
And the reason is you

I've found a reason to show
A side of me you didn't know
A reason for all that I do
And the reason is you

The Reason - Hoobastank

Wednesday, March 04, 2009

Eva correu até a porta e a abriu, sentindo a brisa gelada bater nela como uma faca. Olhou para o mar violento e viu as ondas batendo no litoral com força. Uma tempestade estava por vir, ela tinha quase certeza disso. O céu agora estava cinza e a atmosfera havia mudado de leve e com brisa para pesada e forte.

Ela desceu as escadas da varanda depressa, parando na cerca do quintal e correndo até a praia, procurando por Ella em todas as direções possíveis. A área estava quase deserta, com apenas algumas pessoas vagando com sorrisos no rosto, indiferentes à preocupação de Eva. Ela temia que sua filha tivesse sido levada pelo mar. Se esforçava para enxergar o mais longe possível, mas as lágrimas atrapalhavam a visão. Com um soluço, ela caiu de joelhos no chão, escondendo o rosto em suas mãos e chorando incontrolavelmente. Eva sentiu seu mundo desabar com a imagem do corpo sem vida de Ella, sendo devolvido pelas ondas à praia. A idéia dela tendo que enterrar a única pessoa que amava por completo era algo que ela não poderia suportar.


Evie saltou da cama assustada, as cobertas a prendendo na cama e a impedindo de se debater. Sentou ofegante e sentiu o rosto gelado, passando a mão nas bochechas. Foi só então que ela se deu conta de que estava chorando. Conseguiu se livrar das cobertas, saindo da cama e deixando o quarto na ponta do pé. Seu coração batia acelerado, descompassado. Era a terceira vez naquela semana que sonhava com sua mãe e sempre acordava com um aperto no peito. Ignorando o frio, saiu da república e sentou no banco da varanda, contemplando o jardim vazio àquela hora da madrugada. Ou quase vazio. Um barulho chamou sua atenção e Evie debruçou na varanda, observando algo que brilhava não muito longe dali. Olhando com mais atenção, percebeu que seu professor de Adivinhação, Boris Vladimirovich, mexia em um telescópio montado no gramado.

‘Sem sono, professor?’ Evie falou alto e o homem deu um salto, procurando a dona da voz na escuridão ‘Desculpe, não queria assustá-lo’

‘Ah, Srta. Stanislav, que belo susto me deu agora’ Ele acendeu a varinha e riu ao reconhecê-la ‘O que faz fora da cama há essa hora?’

‘Perdi o sono’ Evie respondeu caminhando até o professor, apertando o roupão quente contra o corpo ‘O que está fazendo?’

‘Ante me emprestou este magnífico telescópio para que pudesse observar as constelações e traçar alguns mapas para minha turma do sétimo ano’ Respondeu animado, espiando pela lente mais uma vez.

‘Não ficaria mais fácil fazer isso da torre de astronomia?’ Ela sugeriu, rindo.

‘Sim, muito mais fácil’ Ele respondeu e como ela o encarou sem entender, completou ‘Não conte ao Ante, mas fiquei com preguiça de localizar a torre há essa hora. Daqui posso fazer meu trabalho’ Ele piscou e ela riu ‘Venha, olhe também, já localizei uma’

Ele se afastou e Evie se aproximou, observando vários pontos brilhantes pela lente do telescópio. Seu conhecimento em Astronomia, embora limitado, permitia que reconhecesse algumas das estrelas que formavam a constelação que ele observava. Ela lhe devolveu o telescópio dando um passo para trás e ficou o observando fazer algumas anotações, inquieta. Ele notou que ela queria falar alguma coisa e parou de escrever, a encarando sorrindo.

‘Professor, é normal sonhar com alguma coisa e acordar sentindo as emoções do sonho?’ Ela perguntou, mas incerta se estava conseguindo expressar sua duvida ‘Como se o sonho fosse real, sabe?’

‘É perfeitamente normal. Se você sonha que está caindo, vai acordar com a sensação de que está caindo da cama. Se você sonha que está se afogando, vai acordar com falta de ar’ Explicou ‘Mas por que essa dúvida? Nunca teve essas sensações?’

‘Mas não é uma vez ou outra, é sempre. Tenho sonhado quase todo dia e sempre acordo chorando ou então passo o dia inteiro triste, sem saber o motivo. Hoje acordei chorando e com um aperto no coração que não consigo explicar’ Evie começava a soar desesperada enquanto explicava e ele notou

‘Esses sonhos, são sempre com a mesma pessoa?’ Ele perguntou parecendo preocupado ‘É com você ou alguma outra pessoa que conheça?’

‘Geralmente é comigo, mas às vezes tem uma criança que não sei quem é, sempre a mesma. Hoje minha mãe também estava e ela era a mãe dessa criança’ Evie notou a preocupação no tom da voz do professor e se alarmou ‘O que está acontecendo, professor?’

‘São sonhos premonitórios. Eles estão tentando lhe dizer alguma coisa. E em alguns casos, raros, porém não impossíveis, são coisas que já aconteceram. Depois das aulas de hoje, passe na minha sala e podemos conversar melhor sobre isso’

Evie assentiu com a cabeça e depois de trocarem mais algumas palavras, voltou para a república. Mas não voltou ao quarto. Amanheceu sentada no sofá da sala, pensando nos sonhos que vinha tendo e que significado eles poderiam ter, o que poderiam querer lhe dizer? A resposta nunca veio e ela adormeceu já com o dia claro, abraçada a uma almofada.

*****

‘Evie?’ A voz de Milla invadiu o quarto escuro ‘Está ai?’

‘Por onde você andou?’ Vina apareceu atrás dela, acendendo a luz ‘Não apareceu nos clubes e Georgia está atrás de você como um cão farejador por causa do jornal’

‘Você está chorando?’ Ela ouviu a voz de Annia entrando no quarto e as três se aproximaram ‘O que aconteceu?’

‘Conversei com o Dimitri’ Ela respondeu, a voz abafada pelo choro ‘Ele me contou que matou uma pessoa’

‘O que??’ As três fizeram coro, espantadas, e se sentaram de frente para a amiga

‘Aquele homem que apareceu morto no lago aqui perto, foi Dimitri’ Ela falava e era difícil compreender por causa das lágrimas, mas era impossível controlá-las ‘Disse que meu pai entregou a ele uma seringa com veneno de Grindylow e o pressionou a injetar no homem, ele acabou cedendo. Disse que se arrependeu, mas não podia fazer mais nada e que Micah testemunhou e meu pai sabe disso’

‘Merlin, que horror!’ Vina falou horrorizada ‘Então seu pai persegue o Micah por causa disso? Por que ele sabe que Micah viu o assassinato?’

‘Não, Dimitri disse que não sabe o motivo, mas começou assim que Micah pisou aqui’

‘Mas o que Dimitri vai fazer?’ Annia perguntou ‘Se ele contou isso a você, significa que vai nos ajudar?’

‘Ele quer ajudar, mas tem medo’ Evie respondeu, o choro diminuindo, mas ainda presente ‘Quem executou foi ele, sabe que vai ser prejudicado’

‘Mas ele tem 13 anos, é menor de idade’ Milla interrompeu ‘Quem vai responder processo é o seu pai, ainda mais que foi ele que instigou o garoto a fazer isso’

‘Eu sei, disse isso a ele, mas ele tem mais medo do que pode acontecer a ele quando meu pai descobrir que ele se entregou. Envolve a Sociedade também, ele não sabe o que fazer, envolve muita gente’

‘Então vamos falar com os meninos, os mais velhos da Sociedade podem ajudar, eles vão saber o que fazer’ Vina sugeriu e Annia e Milla concordaram com a cabeça

‘Não quero colocar Dimitri em perigo, não vou cobrar dele que entregue meu pai aos aurores se isso for deixá-lo em uma situação ruim’

‘Vai dar tudo certo, o pai do Chris vai ajudar’ Uma voz masculina invadiu o quarto e Evie saltou do chão no mesmo instante.

Micah estava parado na porta, ainda de mochila nas costas, e sorria cansado. Ela correu pelo quarto e o abraçou, afundando a cabeça em seu ombro e recomeçando a chorar.

‘Vai dar tudo certo, eu nunca mais vou deixar você sozinha’ Ele repetia, enquanto acariciava seus cabelos. E ela sabia que era verdade. Ele jamais sairia do seu lado outra vez.


I love you, I've loved you αll αlong
And I forgive you for being αwαy for fαr too long
So keep breαthing 'cαuse I'm not leαving you αnymore
Believe it, hold on to me αnd never let me go

Nickelback – Far Away

Monday, March 02, 2009

Avalon, tarde da noite.

‘Então você ligou mesmo pra ele?’ Milla perguntou ansiosa e todas trocaram olhares rápidos ‘Conta como foi!’

‘Foi... Maravilhoso’ Admiti, um pouco sem graça ‘Só de ouvir a voz dele já teria valido a pena’

‘E vocês se entenderam de vez?’ Vina questionou ‘Resolveram tudo?’

‘Não tudo, não falamos de muitas coisas, por telefone é ruim. Mas ao menos agora eu sei que queremos a mesma coisa, que queremos fazer dar certo, independente de tudo que tem acontecido’

‘Bom, já é um começo’ Nina falou e elas concordaram ‘E quando vocês pretendem se encontrar?’

‘Não sei, depende de conseguirmos alguma coisa que mantenha meu pai longe, não é?’

Dario abriu a boca para responder, mas foi interrompido por uma batida na porta. Annia levantou para abrir e se espantou. Ty, Chris, Gabriel, Miyako, Victor, Ricard, Reno, Seth e Griffon entraram em fila e nos encaravam esquisito. Trocaram olhares rápidos e Ty foi quem falou primeiro.

‘Nós já sabemos que vocês estão atrás da mesma coisa que a gente’ Ele falou sério e nos olhamos confusas ‘Bom, sabemos que a Evie está, então deduzimos que todas estejam’

‘Alguém traduz, por favor’ Annia falou perdida e rimos.

‘Micah nos contou que você ligou para ele’ Gabriel virou pra mim ‘E disse que você estava tentando “resolver as coisas por aqui”. Você está tentando encontrar um meio de manter seu pai afastado, não é?’

‘Como vocês sabem disso?’ Perguntei espantada e as meninas também pareciam surpresas.

‘Por que Micah pediu a nossa ajuda’ Agora era Chris que falava ‘Quando ele foi ameaçado pelo seu pai, me procurou e pediu ajuda. Estamos tentando encontrar um meio de fazê-lo voltar em segurança desde então’

‘Micah foi ameaçado pelo pai dela?’ Milla ficou de pé e encarou os meninos ‘Evie foi ameaçada por ele!’

‘Como é que é?’ Victor entrou na conversa, e cada vez mais ficávamos confusos ‘Ele ameaçou os dois, então? Porque pro Micah ele disse bem claramente que, caso ele se aproximasse de você outra vez, quem pagaria seria você’ Disse apontando para mim.

‘Pois pra mim ele disse que daria um jeito de tirar o Micah de circulação se eu insistisse no namoro’ Respondi cada vez mais indignada com tudo que estava acontecendo

‘O fato é que com ou sem ameaça, Micah está voltando’ Ty falou e olhei para ele alarmada ‘Ele disse que não vai mais se esconder, quer ficar aqui e lutar’

‘Mas ele não pode!’ Falei exaltada ‘E se acontecer alguma coisa? Meu pai não está brincando. Vocês acham que o conhecem pelas coisas que contei, mas ele pode ser bem pior’

‘Não adianta, Evie, ele disse que vai voltar e está decidido. Você o conhece, sabe que quando enfia uma coisa na cabeça, ninguém o faz mudar de idéia’ Gabriel completou

‘Ele disse quando está vindo?’ Perguntei sem conseguir esconder a ansiedade

‘Isso ele não disse, mas achamos que não vai demorar’ Victor respondeu ‘Fica tranqüila, Evie. Vai dar tudo certo’

‘O cara neutralizou os dois lados, ele sabe bem o que faz’ Dario falou caminhando até a janela para fechar o vidro e cortar o vento gelado que entrava ‘Mas já passamos por uma guerra contra vampiros, não vamos ser derrubados por ele’

Dario se esticou para puxar a janela e sua camisa levantou, deixando a mostra uma marca na região lombar. Era uma cruz e eu tinha certeza já ter visto aquela marca em alguém, mas não me lembrava quem. E enquanto me pegava tentando recordar, percebi que Ty, Chris e Reno se olharam espantados e encararam Dario. Foi uma troca de olhares rápida, mas carregada, e que se tivesse sido combinada talvez às expressões não tivessem saído tão sincronizadas. Ele abaixou a camisa depressa ao perceber que havíamos visto a cruz e estava esperando ver quem seria o primeiro a se pronunciar.

‘Quando você entrou?’ Chris perguntou enigmático

‘Há um mês’ Dario respondeu no mesmo tom e nossas cabeças iam de um para o outro

‘Você foi o novato que bateu no Max’ Ty constatou, e soltou uma gargalhada satisfeita ‘Não acredito’

‘Então todas já sabem?’ Foi a vez de Reno perguntar e não entendermos

‘Sim, já sabem. Entrei com o propósito de ajudar’

‘Pelo amor de Merlin, o que nós já sabemos??’ Vina explodiu de curiosidade e eles se assustaram.

‘Acho que eles estão falando da tal Sociedade’ Nina sugeriu e Ty confirmou com a cabeça

‘Então vamos abandonar esse ar de mistério, ne? Todo mundo já sabe, não tem mais bosta nenhuma secreta aqui!’ Miyako quebrou o clima tenso e acabamos rindo do jeito que ela falou

‘Miyako está certa, estamos todos atrás da mesma coisa’ Gabriel a apoiou e nos encarou ‘Vocês já conseguiram alguma coisa ou estão perto de algo?’

‘Nada que nos dê segurança. E vocês?’ Milla respondeu não muito animada

‘Tínhamos uma pista, mas acabou que não nos levou a lugar algum’ Ricard respondeu também desanimado.

‘Bom, mesmo sem nada na manga, Dario tem razão. O que é um homem e talvez alguns aliados quando já enfrentamos vampiros sanguinários?’ Annia falou um pouco mais animada, buscando apoio no pessoal.

‘Esse é o espírito!’ Griffon falou empolgado ‘Não vamos deixar nada acontecer a vocês, Evie. Disso não tenha duvida’

‘E eu acho que a prioridade no momento é descobrir porque o pai dela odeia tanto assim o Micah’ Seth sugeriu ‘Isso não é normal, alguma coisa tem ai’

‘Também acho. Nosso novo ponto de partida deveria ser esse, já que não conseguimos mais nada. Muita coisa pode ser esclarecida se conseguirmos entender esse ódio todo’ Milla concordou e todos apoiaram.

‘Evie?’ Chris estalou o dedo na minha frente e sai do transe, o encarando ‘Estava nos ouvindo?’ E confirmei com a cabeça

‘Dimitri’ Falei alto, mas era como se falasse comigo mesma ‘Ele tem uma marca dessas. Ele também é da Sociedade?’ Disse apontando para Dario.

‘Sim, Dimitri também faz parte’ Ty respondeu ‘Por quê?’

‘Micah disse para conversar com ele. Que ele poderia ajudar mais do que eu posso imaginar’ Respondi encarando os três ‘Ele pode ajudar?’

Os três se encararam e não foi preciso uma resposta falada para que soubesse que Dimitri sabia mais do que aparentava. Exatamente o que teria que falar com ele eu ainda não sabia, mas ia procurá-lo no dia seguinte, assim que acordasse. Se Micah estava mesmo voltando, não dava mais para descansar até que começássemos a obter algumas respostas.

Tuesday, February 24, 2009

A Segunda Tarefa

22 de Fevereiro de 2000

- Que foi?! – Eu falei rabugento, jogando um travesseiro em Bram. – Me deixa dormir!
- Uau, você acordando mais tarde que eu? – Ele falou surpreso, recebendo outro travesseiro.
- Se não parar de me encher, eu juro que te transformo em um rato bem gordo e dou de comer para algum gato. – Falei com raiva, mudando de posição. As cortinas foram abertas e o sol iluminou o quarto, me fazendo bufar de raiva.
- Vamos logo, dorminhoco! Ta na hora de acordar. – Outra voz falou, pulando na cama em cima de mim, me fazendo acordar.
- O que você ta fazendo aqui, Julianne?! – Eu falei, pulando assustado e sentando-me na cama.
- Viemos te acordar, o que mais podia ser?! Já é quase hora do almoço e você ainda está dormindo! – Dessa vez foi Annia que falou, jogando um travesseiro em cheio no meu rosto.
- Poupe-me! Hoje é sábado e dentro de dois dias estou competindo, deixem-me dormir! – Falei, tentando voltar pra cama, porém Julianne me abraçou e me fez ficar sentado.
- Você ta um caco, hein, Reno. – Victor lançou um travesseiro em mim, enquanto Chris e Wes riam.
- Que isso?! Meu quarto virou festa?! Me deixem dormir! – Falei jogando mais travesseiros neles, mas já estava totalmente acordado e fizemos uma pequena guerra de travesseiros. Depois que eu estava definitivamente acordado, saímos todos juntos para almoçar, para durante a tarde eu continuar com mais alguns treinos, apesar que não havia muito mais que eu pudesse fazer. Estava confiante!
O dia 24 de Fevereiro estava chegando, e com ele meu humor começava a cair vertiginosamente. A Segunda Tarefa era extremamente importante para mim, uma vez que minha Primeira tarefa foi um fiasco! Eu não aceitaria uma derrota nessa tarefa e faria tudo para conseguir a vitória, pois só assim eu poderia me considerar ainda na reta de competição. Em dois dias eu estaria entrando no lago para competir pela minha posição no torneio. Por isso, todos os dias eu nadava por pelo menos 2 horas, explorando o máximo do lago que eu conseguisse, e sabia que eu tinha uma vantagem em relação à Gina e ao Gabriel, pois estava acostumado ao frio, enquanto eles não. Essa tarefa parecia tudo que eu precisava para ganhar, e não a desperdiçaria de nenhum modo!
No último mês, seguindo os conselhos de mamãe, comecei a treinar ainda mais alquimia avançada, uma vez que debaixo d’água, magia seria provavelmente inútil, pois não conseguiria falar os feitiços com perfeição, e não tinha tempo para treinar executar feitiços sem um encantamento. Por isso eu passava a maior parte da tarde ou da noite com a Annia, que me ajudava a encontrar uma forma de ganhar vantagem na água. Nós dois conseguimos transmutar algumas coisas que poderiam me ajudar, e conseguimos desenvolver diversos círculos de transmutação que não se dissolviam em água, além de uma forma de eu respirar debaixo d’água. Quase beijei a Annia quando ela me mostrou o que tinha conseguido!
É claro que Julianne, July como eu a chamava às vezes, não gostava muito disso, porém ela não mostrava ciúmes, sabendo que Annia era como minha irmã apenas. Ela até brincava que durante a noite ela deixava eu ter minha amante, a alquimia. Nosso relacionamento estava caminhando bem, pois ela sabia como lidar com meu jeito e uma vez quando discutimos, terminamos de brigar rindo e tacando coisas um no outro. Nós passamos nosso primeiro Dia dos Namorados juntos passeando por Paris, que ela fez questão de me levar para conhecer e passamos um longo dia andando pela cidade e conhecendo seus pontos turísticos, e tenho que admitir Paris é uma bela cidade, com lugares muito bonitos. Eu prometi que a levaria para conhecer os melhores lugares da Bulgária e da Alemanha.
Em relação aos vampiros, eu continuava com um alvo nas costas, mas sabia que eles não me machucariam, pois me queriam vivo para obter outra Pedra Filosofal, para o que eu não sei. Vampiros são imortais por natureza, porque eles precisariam da Pedra? Riquezas? Eles não precisam disso...Passei algumas noites pensando nisso, mas não consegui descobrir um motivo e preferi me concentrar em outras coisas. Os Chronos mantinham uma vigilância pesada em Durmstrang, ainda sob o comando de Isaac e dos gêmeos, porém, Seth agora tinha uma nova ligação com os vampiros e ele sabia que eles não atacariam tão cedo.

24 de Fevereiro, Manhã da Segunda Tarefa.

Eram 8 da manhã e eu já estava totalmente acordado, com meu short de natação, meu estojo preparado e minha varinha pronta. Eu sei que não poderia levar muita coisa para debaixo d’água, mas o estojo continha apenas as coisas que eu precisaria e o largaria assim que entrasse no lago. A competição só começaria as 9 da manhã, mas eu queria estar acordado bem cedo, e as 8 eu já tomava café e apenas aguardava o horário para ir para o lago. Todos os alunos da escola me desejavam boa sorte e me davam tapinhas no ombro, outros, esses eu marquei para me vingar depois, falavam para eu não ficar com medo de algum Grindylow.
Gina chegou cedo para tomar café também, acompanhada por vários amigos e alunos de Hogwarts, que pareciam confiantes, mas o mesmo não podia dizer dela. Ela sentou-se do meu lado e me deu um sorriso fraco, eu sorri de volta desejando-lhe boa sorte. Nós fomos juntos para o lago, acompanhados de nossos amigos, e July andava de mãos dadas comigo, enquanto do outro lado Annia segurava minha mão também, desejando-me sorte, quando nos separamos perto do lago.
Eu rapidamente tirei a camisa, ficando apenas de short, já me alongando e me preparando, enquanto Gina sentou em um banco próximo ao lago totalmente agasalhada, encarando-o como se fosse um monstro preste a devorá-la. Só faltava o Gabriel, e eu já começava a ficar preocupado quando ele finalmente apareceu, aproximando-se de mim e de Gina. A multidão nas arquibancadas gritava torcendo por seus campeões. Nós três nos cumprimentamos e desejamos sorte, quando Fedorovich nos chamou e após conferir alguns papeis aumentou sua voz magicamente:
- Para completar a segunda tarefa, nossos campeões dependerão não só de suas habilidades em feitiços de defesa, como também de uma boa memória. Irei contar uma história a eles e, uma vez dentro do lago, deverão procurar os sereianos guardiões dos 14 pedestais. Em cada pedestal haverá uma pergunta sobre a história. Acertem a pergunta e receberão uma bandeira, podendo seguir para o próximo. Errem, e receberão um bastão. Para completar o ciclo de perguntas é preciso ter 7 bandeiras na mão. Ao entregarem as 7 bandeiras ao sereiano responsável, enfrentarão um último desafio indicado por ele – ele parou de encarar o público e nos encarou sério - Nesse desafio, vocês irão se deparar com uma escolha difícil. Não há certo ou errado, apenas sua própria consciência. Ao passarem por ele, retornem a superfície para encerrar a prova. Vocês terão uma hora para completar tudo.
Ele pigarreou e começou a contar a história da vida de Gellert Grindelwald, e eu não pude segurar um sorriso. A Segunda Tarefa seria realmente minha! A história de Grindelwald muitas vezes se misturava a de Durmstrang e todo aluno dessa escola conhecia-a completamente, e isso era uma imensa vantagem para mim. Após terminar a história, Ivanovich levantou-se das mesas dos jurados, indicando que nos preparássemos. Eu ajeitei meu estojo de alquimia, enquanto nos aproximávamos da água. Ivanovich ergueu a mão acima da cabeça e concentrei-me nele, em seguida ouvimos um apito alto, enquanto o Diretor abaixava a mão rapidamente. Era o sinal.
Eu mergulhei de cabeça no lago, já abrindo o estojo de alquimia enquanto nadava. Vi que os outros campeões perderam preciosos segundos tirando casacos, enquanto eu pegava um papel com círculo de transmutação e tocava a varinha nele. A água ao redor dele começou a brilhar e flutuou até minha boca, nariz e olhos, criando uma fina película de água prateada em meu rosto, isso me permitia respirar normalmente, pois transmutava água em ar. Depois apontei a varinha para os pés e prendi dois outros círculos neles, diminuindo o atrito com a água. Soltei o estojo e deixei ele flutuar para a superfície enquanto começava a nadar velozmente para o fundo do lago.
Mal atingi o fundo e vi um dos pilares, nadando rapidamente para ele. O sereiano que o guardava olhou para mim e entregou uma placa, que continua a pergunta:
- Em que ano Gellert Grindelwald nasceu? – Eu apontei a resposta rapidamente, 1883, e o sereiano me entregou uma bandeira vermelha, que prendi ao short, voltando a nadar rapidamente.
Eu nadava próximo ao fundo do lago, guiando-me para outros pedestais e fui atacado por alguns Grindylows, repelidos facilmente por um impedimenta, pois minha transmutação me permitia falar perfeitamente, espantando-os. Em pouco tempo eu já tinha conseguido mais três bandeiras, sem errar nenhuma vez, quando avistei o quinto, nadando rapidamente para lá, recebendo outra placa do sereiano.
- Qual o símbolo de Gellert Grindelwald? – Eu indiquei o triângulo com um círculo e um traço em seu interior e o sereiano me deu outra bandeira.
Eu nadei para outro pedestal e recebi nova pergunta, acertando novamente. Eu notei que em todos pedestais que passei, sempre havia uma pergunta, isso indicava que eu estava na frente dos outros. Só faltava mais um pedestal e eu nadei rapidamente para ele, ignorando alguns dilátex vorazes, jogando um pedaço de carne que tirei do bolso como iscas para eles. O sereiano me deu a última placa e eu li rapidamente
- Qual o ano em que Gellert Grindelwald entrou para Durmstrang? – Eu sorri e respondi aliviado o ano de 1894, ganhando a última bandeira, assim como a indicação da última parte da tarefa.
Nadei com todas minhas forças na direção indicada pelo sereiano e cheguei a uma imensa estrutura feita de pedras e algas, com um sereiano na entrada. Eu sorri para ele, ganhando o que parecia um sorriso e entreguei as sete bandeiras, notando que não havia mais nenhuma outra. Ele me entregou uma placa em troca:
“Existem dois caminhos para se chegar ao fim desta tarefa. No mais longo você enfrentará criaturas aquáticas e no fim encontrará aquele que é o seu maior desafeto, mas que aguarda o seu resgate. No mais curto existem poucas criaturas, mas você poderá encontrar a pista que o levará a Taça Tribruxo. Suas escolhas mostram quem você é. Não há certo ou errado, apenas sua própria consciência”.
Eu devolvi a placa e olhei para as duas entradas. Podia pensar em vários que poderiam estar no fundo do labirinto longo, que não mereciam minha ajuda, e comecei a rumar para o caminho mais curto, porém parei embaixo de sua entrada e algo me dizia que quem estaria do outro lado era o Seth. Isso me fez pensar, pois estávamos nos dando melhor agora, fora que ele arriscara a vida para defender a escola. E principalmente, eu sabia que isso poderia me ajudar de alguma forma. Eu me decidi e nadei para o caminho mais longo, entrando sem olhar para trás.
Eu segui o caminho facilmente, sem encontrar quase nenhum inimigo, apenas um guidão sozinho que ficou com medo de mim e fugiu. Quando cheguei ao final do trajeto, eu tive um ataque de risos e fiquei alguns segundos encarando Seth. Pois ele estava preso a um poste de madeira, porém estava acordado me olhando nos olhos com uma cara de quem queria me matar.
- Dá pra vir logo?! To cansado de ficar aqui embaixo. – Ouvi sua voz em minha mente, junto de um brilho feroz em seus olhos. Eu nadei até ele rindo e cortei suas cordas, puxando-o para cima. Assim que ele se soltou, um sereiano surgiu e me entregou um objeto de plástico que continha um papel dentro, me deixando sem entender, porém decidi ir logo. Seth nadou sem ajuda e nadamos até a superfície rapidamente.
Assim que coloquei a cabeça para fora da água, ouvi a multidão gritar, enquanto eu e Seth nadávamos para fora do lago, sendo recebidos pela enfermeira que tentou cuidar de Seth, mas ele disse que estava bem, e ela veio me ver, tratando de alguns arranhões devido minhas lutas na água. Notei com felicidade que nem Gina nem Gabriel estavam fora do lago e soube que havia sido o primeiro. Nesse momento, Gina colocou a cabeça para fora d’água e precisou de ajuda da enfermeira para sair de lá, enquanto desfazia o seu feitiço de cabeça-de-bolha. Ela não trazia ninguém com ela, apenas um objeto exatamente igual ao meu na mão, me deixando intrigado. Ela sentou-se ao meu lado, tremendo muito, enrolada em um cobertor. Eu dei meu cobertor para ela e ela agradeceu aliviada, tentando se manter mais aquecida.
- Nada mal, vocês fizeram em menos de 40 minutos. – Seth comentou, sentando-se ao lado de Gina, abraçando-a para mantê-la quente. Ele também não precisava de cobertor, e tentava acalmar e aquecer uma Gina que tremia muito.
- Obrigada, Seth, sei que Luna não vai me matar por isso. – Gina falou rindo, um pouco mais recuperada, enquanto mantinha-se abraçada a Seth. – Você sabe como fomos?
- Pelos meus cálculos, o Reno fez em 32 minutos e você deve ter feito em uns 33 ou 34.
- Nada do Gabriel ainda? – Perguntei, preocupado.
- Nada. Os juízes disseram que ele se enrolou um pouco.
Nós ficamos calados então, aguardando que Gabriel surgisse a qualquer momento na superfície da água, mas ele demorava cada vez mais. O imenso relógio na mesa dos juízes já indicava um tempo de prova de 50 minutos e eu estava de pé, andando de um lado para o outro, enquanto Gina estava deitada em uma maca, ambos preocupados com Gabriel. Seth voltara às arquibancadas, mas também parecia preocupado com a demora. Então, por volta dos 55 minutos, Gabriel finalmente surgiu na superfície da água, cuspindo água e respirando velozmente. Gina correu para ajudá-lo assim como a enfermeira. Conversando juntos, descobrimos que a última parte não passava de uma pegadinha e todos os três conseguiram a última pista para a última tarefa. Depois de algum tempo, Ivanovich nos chamou, e ficamos diante da bancada dos juízes.
- Senhoras e senhores, já chegamos a uma decisão. Em um máximo de cinqüenta, decidimos atribuir a cada campeão, as seguintes notas... - ele tornou a abrir o pergaminho e pigarreou alto - O Sr. Renomaru Kollontai, que usou uma forma avançada de alquimia quase completa, mas eficiente, foi o primeiro a voltar e trouxe consigo o refém - os alunos de Durmstrang fizeram muito barulho e batiam os pés no chão - Portanto, recebeu quarenta e sete pontos.
- Nada mal. – Gabriel me deu os parabéns enquanto eu respirava aliviado e feliz.
- A senhorita Gina Weasley, em uma excelente demonstração do feitiço Cabeça-de-Bolha, foi a segunda a retornar, apenas um minuto depois do Sr. Kollontai - agora era a arquibancada de Hogwarts que gritava - No entanto, ela não trouxe o refém e receberá quarenta pontos.
- Droga, esses 5 pontos vão fazer falta. Maldita Romilda Vane! - Gina resmungou do meu lado, fazendo eu e Gabriel rirmos.
- O Sr. Gabriel Lupin usou guelricho com grande eficácia - a torcida de Beauxbatons gritou animada – Mas como foi o último a retornar, também sem trazer o refém e quase estourando o tempo, receberá trinta e cinco pontos.
- Ufa, achei que ia receber uns vinte – Gabriel respirou quase caindo no chão de alívio e rimos juntos.
- A terceira e última tarefa será realizada ao anoitecer do dia vinte e quatro de junho - continuou o diretor - Os campeões serão informados do que os espera exatamente um mês antes. Agradecemos o apoio dado aos campeões e até a última tarefa!
O Diretor terminou de falar e nos deu um sorriso de parabéns, antes da enfermeira da escola começar a nos levar de volta para a tenda, assim como os reféns que foram retirados do lago. Eu estava radiante e estava a ponto de pular de gritar, pois consegui uma excelente pontuação que me fazia saltar no quadro geral! Agora estaria mais calmo até Maio, sem me preocupar muito com a terceira tarefa, e sem me sentir péssimo por uma má atuação.

Friday, February 20, 2009

I'm so tired of all we're going through
I don't want to live like that
I'm so tired of all we're going through
I don't want to love like that
I just want to be with you
Now and forever, peaceful, true...

Elaborate Lives- Tim Rice and Elton John- Aida


Micah estava deitado na cama encarando o teto, imaginando o que ela estaria fazendo. Quando ele a deixou, há dois meses, ele fez algumas promessas a si mesmo, e uma delas era que iria consertar as coisas. Faria tudo que pudesse para reparar o dano que ele causou e não mediria esforços para mantê-la segura, mesmo sabendo que ela ainda poderia estar o odiando.

Evie às vezes não fazia sentido algum. O jeito que ela tinha para lidar com os problemas era apenas uma das coisas que não combinavam com ela. Ela provavelmente pensava que merecia tudo isso. Ele não a conhecia há anos, mas conhecia tempo suficiente para imaginar seus motivos.

Mas agora ele já havia desistido de fingir que havia a esquecido. Ele havia desistido de fingir que não o matava não tê-la ao seu lado. Depois de deixá-la para trás e voltar para a escola da Califórnia à força, ele havia dito a Chris que não iria desistir e ele dizia a verdade.

Seu telefone estava jogado em cima da almofada ao seu lado, a almofada que era dela e que acidentalmente ainda carregava seu perfume. Ele queria tê-la outra vez só para ele e não sabia como lidar com isso. Então, quando seu telefone tocou ao seu lado e ele viu o nome dela na tela, quis ignorar. Mas se pegou atendendo ao primeiro toque.

‘Alô?’ Ela não podia falar, sua garganta parecia estar fechada ‘Evi’ Ela mordeu os lábios, concentrada no jeito que a voz dele dizia seu nome.

Ele a ouviu se mexer do outro lado da linha e desejou que ela ao menos admitisse que era ela, mas sabia o quanto a tinha custado para ligar para ele primeiro. Ele tentou então ficar feliz que ela tenha ligado no fim das contas.

‘Eu tenho pensado em você, sabia? Você é persistente’ Ela sorriu, entendendo aquele sentimento ‘Ultimamente tenho me focado no jeito que você fica quando dorme. Sabia que você fala durante o sono às vezes? Nada revelador, na verdade não faz sentido algum, mas é adorável’ Ela fechou os olhos e apenas o ouviu ‘Sabe, você não precisa…’ Ele parou e ela abriu os olhos, esperando apreensiva.

Ele queria dizer a ela que ela não precisava ligar para ele, que ela não precisava estar sozinha. Ele queria dizer a ela para ir até ele. Mas ele sabia que não podia.

‘… esqueca. Então, você vai falar comigo?’ Ela não respondeu ‘Ok então. Isso vai ser divertido’

Ele se atrapalhou um pouco, incerto do que dizer. Se ela estivesse sentada ao lado dele, eles não precisariam estar conversando.

‘O que você está pensando?’ Ela sorriu, imaginando os braços dele em volta dela enquanto ele sussurrava em seu ouvido.

‘O que você acha?’ Ela respondeu baixo

‘Ela está viva!’ Ele estava mais do que feliz por ouvir a voz dela, era quase patético. Ele sentou na cama para ficar mais confortável e passou a encarar a janela.

‘Cale a boca’ Ela o provocou, torcendo para ele não levar a sério

‘Ok’ Ele concordou com ela. Ele queria fazê-la falar, queria ouvi-la.

‘Não!’ Sua voz era cheia de necessidade e ela odiava que ele a deixasse tão desesperada às vezes.

‘Não o que, meu amor?’ Ele se sentiu culpado, mas sabia que ele não poderia ser o único disposto a manter a conversa. Ela teria que trabalhar para isso também, ou no fim não teria significado algum.

‘Continue falando’ Ela sabia que se ele não continuasse falando eles teriam que desligar, e sendo um erro ou não, ela não queria que terminasse ainda. Apenas ouvi-lo parecia acalmar o caos um pouco.

‘Por que?’

‘Você precisa de um motivo?’

‘Sim’

Ele não iria recuar e ela sabia que se quisesse ele de volta em sua vida, ela teria que superar o medo de se entregar por completo. Ele não estava pedindo muito, ele apenas queria saber por que ela queria ouvir sua voz.

‘Ta bom’ Ela cedeu com um suspiro ‘Porque eu gosto de ouvir você’

Ele não pode impedir o sorriso que se formou em seu rosto, não pode evitar a sensação de sentir o estomago revirar.

‘Ah é?’ Ele perguntou torcendo para que ela confirmasse

Ele tinha que saber que quando ele falava assim, a fazia querê-lo ainda mais. Ela podia imaginar o sorriso pretensioso que ele tinha no rosto, aquele sorriso afetado que a enlouquecia.

‘É, mas não deixe que isso suba à sua cabeça’ Ele sabia que as bochechas dela estavam vermelhas, que ela havia virado a cabeça para o lado tímida. Ela sorriu, mais feliz do que havia estado há dias. Apenas em falar com ele sobre nada fazia da vida mais simples, fazia eles parecerem poder dar certo.

‘Então’ Ela levantou do chão caminhando até a cama, o olhar dos primos a seguindo e nenhum dos dois emitia qualquer tipo de som.

‘Então’ Ele respondeu no mesmo tom. Eles se calaram por alguns segundos.

‘Eu talvez sinta sua falta’ Ela confessou, toda a tequila ingerida mais cedo enchendo-a de coragem.

‘Eu sinto sua falta’ Ele admitiu de verdade

‘Você acha que…’ Ela queria pedir que ele ficasse na linha, mas ela não tinha esse direito e era bobo e estúpido. Ele provavelmente tinha coisas melhores para fazer. E também ele ainda devia estar chateado com ela. Claro que ele estava sendo legal agora, mas se ela começasse a soar carente ele não iria adiante.

‘Eu acho o que, Evi?’ Ele podia dizer que era importante, ela sempre ficava hesitante quando queria pedir algo que precisasse.

‘Nada’ Ela respondeu depressa, lamentando ter levantado o assunto.

‘Você pode falar comigo, Evi’ Ele imploraria se fosse preciso

‘É idiota’

‘Eu duvido’ Por que ela tinha que questionar tudo?

‘Eu não mereço você’ Ela sussurrou

‘Você está errada’ Ela se culpava, ele estava certo.

Ela suspirou, sentindo-se cansada. Talvez fosse a conversa. Ou talvez ele apenas a fizesse sentir-se tão segura e capaz que estar com ele daquele jeito, ouvindo sua voz, baixa e suave, gentil e carinhosa, a acalmava.

‘Você parece sonolenta. Estava bebendo, não é?’

‘Talvez um pouco’ Ela admitiu e virou para o outro lado, abraçando o travesseiro e esfregando o nariz nele por um momento, imaginando o perfume dele.

‘Queria estar ai’ Ele sussurrou suave. Ela sorriu.

‘Eu queria que você estivesse aqui também, mas ainda há muitas coisas que você não sabe. Coisas que não posso contar a você ainda’ Ela suspirou e virou de costas. Ele merecia mais dela e ela não podia oferecer mais a ele até que seu pai estivesse fora do caminho.

Ele quase desejou que pudesse contar a ela que ele sabia, tornar as coisas mais fáceis, mas teria que ser assim. Ele não podia arriscar colocar a vida dela em risco, por um deslize seu. Faria as coisas como havia planejado.

‘Eu só preciso ouvir a sua voz’ Ela odiava ter se tornado tão dependente dele. Mas isso era tudo que ela conseguia pensar, no jeito que a voz dele soava, o jeito que ele a fazia se sentir tão segura e amada. Ouvi-la implorando quase partiu seu coração.

‘Eu talvez tenha outros sentimentos por você’ Ele disse suavemente, seus dedos brincando com o fio solto do telefone. Esperando ela cortá-lo, como sempre.

‘Eu sei’ Ela respondeu no mesmo tom.

‘Você não vai fazer nenhuma objeção quanto a isso?’ Ele se surpreendeu com a reação dela.

‘Não posso e acho que você sabe o porquê’ Ela agora brincava com a ponta do cobertor. Dario e Marta trocavam olhares rápidos vez ou outra, atentos a tudo.

‘Evi, por que você não diz logo?’ Ele suspirou. Sempre um passo a frente, dois para trás.

‘Então, eu tenho pensado em dar um nome ao cachorro’ Ela comentou mudando de assunto.

‘Entendi, assunto encerrado’ Ele suspirou e saiu da cama, encarando o sol que fazia do lado de fora. Sua mala com os casacos que separava para voltar a Durmstrang aberta no chão.

‘Só…’ ela parou, abrindo a porta da varanda do hotel e saindo ‘…espere’ A chuva que caia estava diminuindo, mas o frio não passava.

‘Para sempre?’ Ele perguntou impaciente, os dedos batucando na janela.

‘Apenas não agora’ Ela deixou um suspiro escapar e entrou outra vez, se atirando na cama outra vez.

‘Ok, então, o que está fazendo?’ Ele perguntou enquanto voltava para a cama, deitando de costas.

‘Falando com você’ Ela riu

‘Obrigado, já havia decifrado essa parte’ A risada alta dela o fez sorrir ‘Evi, eu...’

‘Não, Micah’ Ele se calou. Ela apenas queria que ele soubesse, e não sabia como dizer a ele.

‘Eu não preciso da sua pena e não quero só um encontro casual com você, especialmente pelo telefone’ Sua voz era firme, inflexível, e ela sabia que ir além seria inútil, mas ela não podia deixá-lo com o pensamento de que aquilo tudo não significava nada para ela.

‘Não é nada disso que você pensa!’

‘Então o que é?’ Ele realmente não sabia e era inteiramente culpa dela. Como ele poderia saber que ela estava morrendo por dentro por tê-lo deixado ir embora? Ele estava certo em exigir mais dela. Sempre voltaria àquele ponto. Mas ainda assim ela esperava que ele pudesse ler nas entrelinhas e enxergar o quanto ele significava para ela. Talvez ela nunca fosse capaz de dizer isso a ele.

‘Se você não sabe, então não vale a pena. Boa noite’ Ela puxou o telefone para longe do ouvido e estava prestes a apertar o botão para desligar, mas as palavras dele foram altas o suficiente para que ela ouvisse.

‘Eu apenas não sei o meu lugar ao seu lado. Você me diz que quer mais, mas veta quando eu tento avançar’

‘Não posso’ Ela recolocou o telefone no ouvido e respondeu a ele

‘Certo’ Ele disse sem emoção. Como se ela estivesse fazendo de propósito.

‘Ah, por favor. Não seja um cretino sobre isso’ Ele podia dizer que ela estava com raiva, mas ele tinha o direito de ficar puto e ela teria que lidar com isso. Ele estava cansado e de saco cheio dela afastá-lo.

‘Não, eu tenho que fingir que está tudo ótimo!’ Ele exigiu saber

‘O que você quer de mim?’ Ela revidou. Se ele pensava que isso era fácil para ela, ele estava louco.

‘Algum tipo de confirmação não seria ruim’ Ele fez uma pausa, esperando. Sempre esperando por ela.

‘Você quer que eu diga que eu te amo!’ Ela levantou outra vez e empurrou a almofada da cama para o chão, irritada.

‘Não exatamente. Eu não sei se acredito em você’ Suas palavras foram cruéis e ele sabia disso, mas não se importava. Não mais. Ele socou a parede irritado, incapaz de se conter.

‘Eu não quero brigar com você. Nada que eu lhe ofereça será o suficiente’ Ele era um idiota. Ela o odiava tanto por fazê-la querer chorar ‘Só porque eu estou aqui, não significa que não estou com você’ Ela murmurou.

‘Na verdade meu amor, significa sim’ Ele não podia mais ouvir isso. Não podia mais fazer isso. Ele pensou que pudesse suportar, pensou que apenas ouvir a voz dela outra vez fosse o suficiente. Ele estava errado.

‘Eu lhe prometo Micah…’ Ela sussurrou, sentando encolhida no cama, uma mão segurando firme o telefone e a outra apertando os joelhos.

‘Não faça promessas que não pode cumprir’

‘Eu lhe prometo que se você for um pouco mais paciente...’

‘O que?’ Ele exigiu. O que ele poderia ganhar por ficar esperando sentado algo mais dela?

‘Você também não diz as palavras’ Ela o acusou, com raiva por ele não querer dar mais tempo a ela.

‘Não sou eu que estou sendo questionado’

‘Como você sabe disso, Micah? Como você sabe que eu não questiono você todos os dias? Você apenas se aproximou de mim para se vingar do Josh, e agora eu supostamente deveria acreditar que você não tem outros motivos? Você mentiu também’

Ela não tinha pensado que isso a incomodava, mas a verdade era que incomodava sim. A incomodava e muito que ele também não dissesse. O que ela sabia que era extremamente egoísta e hipócrita da parte dela. Quantas vezes ela havia o impedido de dizê-las?

‘Eu não menti. Você sabe que não’ Ele negou as acusações, não tendo parado para pensar que talvez ela também não pudesse confiar nele.

‘Isso é ótimo… Você acha que ainda seremos capazes de ter uma conversa sem discutirmos?’ Ela se viu lutando contra as lágrimas outra vez.

Ela confiava sim nele, mais do que em qualquer outra pessoa, mas a parte dela que ela não podia entregar a ele cairia sempre no mesmo assunto. Talvez tudo isso fosse sem sentido.

‘Algum dia, talvez’ Ele esperava mais que tudo que suas palavras fossem verdade. Esperava que um dia tudo isso fosse parte do passado, uma parte que talvez fosse necessária, mas que finalmente houvesse terminado.

‘Isso foi uma péssima idéia’ Ela suspirou, sem ter certeza se ela tinha se referido ao telefonema ou ter se envolvido com ele

‘Não, não foi. Nunca mais pense assim’ Ele tentou fazer com que ela visse que não era. Que ela havia feito tanto por ele, deixando ele saber tanto com aquele telefonema. Que ela fez a vida dele melhor, fez dele uma pessoa melhor. Isso nunca poderia ter sido um erro. E ela não poderia pensar isso.

‘Eu quero poder demonstrar o quanto sinto sua falta. Eu quero fazer você se sentir como eu me sinto. Eu não queria brigar’ Uma lágrima escorregou por sua bochecha enquanto ela deitava na cama, puxava o travesseiro outra vez para si e fechava os olhos.

‘Eu quero que isso dê certo’ Ele sussurrou

‘Eu também’ O tom da sua voz, o jeito com que aquelas palavras saíram tão convincentes. Ele acreditava nela.

‘Eu te amo’ Ele sentiu sua garganta se fechar com aquelas palavras

‘…porque?’ Ele mal ouviu ela falar

‘Eu não deveria, sabe…’ Ela sorriu de leve. Ela sabia. Ela conhecia aquela sensação muito bem. Nada disso deveria ter acontecido. Quando ela havia perdido o controle da situação?

Talvez tenha sido a primeira vez na vida que ela estava feliz por ter perdido o controle. Ela nunca havia aprendido como era essa sensação.

‘Eu sei’ Ela confirmou, mas ainda esperando que ele respondesse sua pergunta.

‘Por que eu te amo?’ Ele perguntou sentando na cama outra vez, feliz por ter tirado aquele peso dos ombros. Ele não precisava mais temer que ela rejeitasse seus sentimentos, que ela não se importava mais.

‘Sim’

‘Porque… você é linda. Quando você não está tentando ser outra pessoa, quando você está realmente comigo, eu sinto que posso fazer tudo, como se tudo de errado que já fiz fosse esquecido. Você é tão… você’ Ele admitiu. Tudo na vida dele era incerto, espontâneo, menos Evie. Como ele se sentia em relação ela, aquilo era uma certeza.

‘Eu quero valer isso tudo’ Ela admitiu. Suas lágrimas caindo na frente dos primos como um livro aberto.

‘Ah meu amor… Eu quero valer a pena para você. Não entende? Talvez nós sejamos exatamente o que merecemos’ Suas palavras foram tão convincentes e cheias de paixão, ela não podia evitar acreditar nele.

‘Eu quero você aqui ao meu lado’

‘Me diga o que lhe impede’ A constatação dela deu a coragem que ele precisava e ele a pressionou

‘Tenho medo do que pode acontecer se eu for até ai’

‘Eu nunca deixaria nada acontecer a você, Evi’ Ele prometeu e ela sabia que ele acreditava nisso. O problema é que nem sempre ele tinha o controle de tudo

‘Eu sei que você acredita nisso. Eu também. Eu só preciso resolver algumas coisas antes de nós...’ ela tentou explicar. Sim, ela queria o mesmo que ele, só precisava de um tempo.

‘Antes de termos o que nós queremos?’ Ele tentou arrancar uma confirmação de que ele não estava esperando em vão, que ela realmente queria as mesmas coisas que ele, e que mais cedo ou mais tarde, eles finalmente ficariam juntos.

‘Sim. O que nós queremos’ Ela sorriu e ele quase pode ouvir através do telefone.

‘Evie, procure o Dimitri’ Ele relutou durante toda a conversa para dizer aquelas palavras, mas finalmente se convenceu de que era a única saída.

‘Por quê?’ Ela estava confusa. O que seu irmão mais novo poderia fazer?

‘Apenas me prometa que vai procurá-lo. Ele pode ajudar mais do que pensa’

‘Ok’ Ela concordou, embora incerta do que poderia dizer a Dimitri.

‘Você parece cansada’ Ele podia dizer que ela não ia resistir por mais muito tempo.

‘Não muito, só um pouco bêbada’ Seus olhos fecharam enquanto ela lutava contra o sono, querendo ficar com ele um pouco mais.

‘Você é linda, Evi. Essa é minha hora favorita de olhar pra você, logo que você pega no sono’ Ele murmurou suavemente.

‘Micah?’

‘O que?’

‘Eu te amo’

‘Eu sei. Durma’ Ele sabia que ela estava quase apagando, mas não se importou. Ela o amava.

Thursday, February 19, 2009

Com toda a agitação devido ao ataque dos vampiros e todo o cerco que o Ministério fazia, quase nenhum aluno optava por passar o fim de semana na escola. Restavam apenas aqueles que moravam em outros países ou alguns veteranos ocupados demais com deveres para se importar com a vigilância constante e a liberdade perdida. Evie era uma das alunas que não suportava mais ficar em Durmstrang e fugia toda sexta-feira para a casa com o avô, mas pela primeira vez, os planos mudaram. Vendo que a prima começava a se animar outra vez com o teatro, Dario sugeriu passarem o fim de semana em Londres, onde poderiam assistir algumas peças no West End e se desligar um pouco dos problemas. Junto com eles estaria Marta, a prima de ambos que estudava na Espanha e compartilhava com eles a paixão pela dança. Seriam apenas os três, sem regras e horário para nada, apenas curtindo as poucas horas que tinham antes de voltarem à escola.

‘Adorei a peça’ Marta se atirou na cama do hotel cansada, tirando os sapatos ‘Não achava que fosse gostar de Les Mirésables’

‘Eu também gostei, mas é muito triste’ Evie respondeu sentando em sua cama, cabisbaixa ‘Me deprimiu’

‘Ah nada disso’ Dario levantou da cama e encarou as duas ‘A peça é triste, mas nada de choro aqui hoje!’

‘Não estou chorando, só disse que não sai da peça dando saltos de felicidade’ Evie respondeu irritada e Marta também ficou de pé

‘Sabe o que devíamos fazer?’ Ela cortou o assunto antes que começassem a brigar ‘Devíamos fazer o teste para o elenco de Cats!’

‘Olha só, Evie, ela pirou’ Dario falou debochado e Evie acabou rindo ‘Está louca, mulher?’

‘Não estou louca não, o que temos a perder?’

‘A nossa dignidade?’ Evie sugeriu e foi a vez de Dario rir

‘Bobagem, ninguém nos conhece aqui’ Ela ignorou os dois e abriu o armário do quarto, puxando uma garrafa de tequila de dentro ‘Tudo que precisamos são de algumas doses de coragem. Quem me acompanha?’

‘Eu pego o sal’ Dario se prontificou, animado.

‘E eu o limão!’ Evie levantou animada também, já esquecendo que estava triste.

*****

‘Não tenho mais visto Hanna com você’ Evie comentou depois de virar sua sexta dose de tequila. A mesa do quarto estava suja de sal, respingos de tequila e continha diversos bagaços de limão ‘Não que isso seja da minha conta, só estou fazendo uma observação’

‘Querem saber o que aconteceu?’ Dario forçou uma risada ‘Não me incomodo em contar a vocês’

‘Sim, estou curiosa, admito’ Ela encarou o primo e deu um sorriso fraco

‘Algumas pessoas na escola estão comentando coisas sobre mim’ Ele deixou um suspiro escapar e passou a encarar o copo vazio enquanto falava ‘E Hanna teve sua parcela de culpa, foi ela quem espalhou, por vingança’

‘O que Hanna espalhou, Dario?’ Marta perguntou curiosa, com um pedaço de limão preso na boca ‘Por que Hanna quis se vingar de você?’

‘Eu sou gay’ Dario foi direto e elas se assustaram, embora Evie já tenha ouvido boatos ‘E quando Hanna descobriu e me confrontou, eu confiei nela e me abri’ Sua voz era de desgosto enquanto falava ‘Foi o maior erro da minha vida. Ela não aceitou como eu esperava que aceitasse e contou aos nossos pais, que por sua vez também não reagiram bem a noticia. E como não queria que as pessoas soubessem, ela passou a me chantagear, me cobrar favores e eu era obrigado a obedecê-la. Mas eu cansei disso, cansei de me esconder e não me importo mais que as pessoas saibam. Então quando me recusei a espionar você para ela, ela espalhou a fofoca pra escola toda’

‘Não acredito que Hanna tenha feito isso!’ Evie falou enjoada ‘Pedir pra você me espionar pra que? Pra ter o que contar a Inês? Sei que elas andam juntas!’ E Dario confirmou com a cabeça ‘E chantagear você, que horrível’

‘Não aja como se não conhecesse minha irmã, Evie. Você sabe que ela seria perfeitamente capaz de algo assim. Mas Hanna não dá ponto sem nó, ela deve estar vendo alguma vantagem nisso tudo, ou não teria se metido. Não sei o que ela pode estar ganhando, mas agora meu pai praticamente me escorraçou de casa e quando as aulas acabarem, eu não tenho pra onde ir’

‘Como você não tem pra onde ir? Fale com o vovô, conte isso a ele! Ele nunca ia deixar você na rua’ Marta falou indignada, com raiva de Hanna. Dario sempre teve muitos defeitos, mas era família e agora um de seus melhores amigos, ela não admitia que lhe fizessem mal.

‘Não tenho coragem de dizer que meu pai me odeia e me expulsou de casa. Tenho vergonha de dizer a ele o que sou’ Ele pareceu derrotado. Era a primeira vez que elas viam o primo assim ‘Mas o que mais me magoa foi o que Hanna fez. Você acha que conhece uma pessoa, confia sua vida a ela, e ela trai você’

Evie não respondeu. Estava pensando na última coisa que ele havia dito. Sabia bem como era aquela sensação, de confiar em alguém e ser traída. Era a pior sensação do mundo, e agora ela não se sentia mais tão segura em confiar em qualquer outra pessoa. Ela não suportaria passar por tudo outra vez.

‘E você? Não vai voltar a falar com Max nunca mais?’ Dario pegou-a de surpresa ‘Já faz quanto tempo que estão brigados? Um ano?’

‘Algum dia acha que vai perdoar Hanna e voltar a falar com ela?’ Evie perguntou no lugar da resposta e Dario se calou, rindo de leve e balançando a cabeça ‘Pronto, já respondeu sua própria pergunta’

‘Dario, deixe de bobagens e fale com o vovô’ Marta foi direta, enchendo outra vez os copos ‘Se você não falar, falo eu. Você não vai ficar sem casa, é patético pensar isso com a família que você tem. Todos vão lhe apoiar’

‘Estou sendo um idiota, não estou?’ Dario perguntou sem encarar as primas

‘Sim’ As duas responderam juntas e ele riu, levantando a cabeça.

‘Ok, ok, vou conversar com ele quando voltarmos. Prometo’ Ele sorriu parecendo mais animado e lambeu o sal da mão, virando mais um copo e mordendo o limão em seguida ‘Argh, já está começando a queimar. Acho que não consigo andar até o teatro’

‘Vocês estão mesmo pensando em ir fazer esse teste?’ Evie encarou os dois, espantada ‘Só podem estar brincando, não é? São 3 horas da manha, nem dormimos e estamos bêbados!’

‘Bobagem, podemos fazer o teste sim. Só temos que subir no palco e cantar Memories’ Marta respondeu confiante ‘Você só precisa de mais doses de coragem, tome’ E estendeu mais um copo a prima.

‘Preciso de doses de coragem pra tanta coisa...’ Ela respondeu baixo, mais para si mesma do que para os primos.

‘Está falando dele?’ Marta perguntou olhando para Dario, receosa.

‘Sim’ Evie virou a bebida de uma vez só e devolveu o copo a ela, para encher outra vez ‘Queria dizer tanta coisa a ele’

‘O que te impede de pegar aquele telefone ali, agora, e ligar pra ele?’ Dario pressionou ‘Medo do seu pai?’

‘Não é por medo, é por falta de coragem’ Ela respondeu encarando o chão, a voz fraca ‘Acho que ia ouvir a voz dele e travar, não ia conseguir dizer nada’

‘Mas só de poder ouvir a voz dele já seria bom, não é?’ Marta perguntou e Evie assentiu com a cabeça, sentindo seu rosto corar ‘Então! Liga pra ele, Evie. Tenho certeza que ele vai ficar feliz, mesmo que você não diga nada’

‘Liga, liga, liga, liga’ Dario começou a repetir, batendo com a mão na mesa de leve, e Marta se juntou ao coro. Evie ainda tentou resistir, mas não conseguiu segurar o riso.

Marta levantou do chão e caminhou até o criado mudo, pegando o telefone e estendendo a Evie. A garota ainda relutou, mas acabou cedendo e pegando o aparelho. Fechou os olhos e respirou fundo, discando o numero que já sabia de cabeça, sem nem precisar olhar para as teclas.

((Continua...))
Fevereiro de 2007

-Ora, ora...O que o leão faz fora da toca?- o dono da casa perguntou ao visitante.
- Porque você foi à minha casa assustar a minha família?
- Fui apenas fazer uma visita, não tive a intenção de perturbar ninguém. Só quero retomar as velhas amizades...- o homem disse cínico.
- Quero que você fique longe deles...- disse o visitante sério.
- Deles ou dela? Tem medo que ela queira relembrar os velhos tempos?
- Não seja ridículo. Somos felizes e nos amamos.
- Se você tivesse tanta certeza disso, não teria vindo aqui. - e o homem percebeu ter tocado num ponto sensível do outro, e aproveitou a vantagem.
- O tempo fez bem a ela, está bonita e talvez ela tenha sentido a minha falta...
- Não ouse se aproximar dela, ou eu sou capaz de matá-lo.- disse o visitante segurando o homem pelas vestes, e o homem respondeu cínico:
- Posso até não me aproximar dela, mas nada impede que ela venha até a mim. Lembro-me de que ela era um furacão. Ainda é assim? - e o homem deu-lhe um soco jogando ao chão.
- Fique longe da minha família, estou avisando. - e o visitante foi embora, batendo a porta ao sair.
O homem levantou-se do chão, desamassando as vestes e disse para si próprio na sala vazia, enquanto massageava o maxilar dolorido:
- Acho que chegou a hora de tomar de volta o que é meu.

Fevereiro de 2000

Depois do ataque dos vampiros, a escola começou a voltar ao ritmo ‘normal’. O diretor Ivanovich procurava manter uma certa normalidade, mas víamos que cada pequena coisa que ele conseguia manter como antes, era conquistada a duras penas, via-se pelas expressões irritadas dos aurores encarregados da censura.
O trabalho da professora Mira foi uma surpresa. Com o ataque dos vampiros, estávamos nos protegendo no castelo, e nem lembramos de levar os nossos ‘filhos’ e eles registraram maus tratos, alguns bebês até queimaram os circuitos internos de tanto chorar. Tínhamos receio de reprovar na matéria dela, mas quando ela nos perguntou o que achamos da experiência de criar um filho e ter uma família ainda na escola, a maioria explicou a ela que ter filhos não estava em nossos planos, pois éramos muito jovens, ela sorriu contente, dizendo que o seu objetivo havia sido alcançado. E deu uma nota boa para todos.

Não haveria baile pelo dia dos Namorados, em respeito aos aurores mortos defendendo a escola, teríamos um jantar, então a nova esposa do diretor, que era a mãe das gêmeas Julianne e Beatrice, cuidou pessoalmente da decoração e das comidas e bebidas e deixou tudo muito elegante. Dava para ver o orgulho do pai da Annia enquanto andava pelo salão cumprimentando os alunos e professores com a esposa ao lado, e era nítido que ela realmente gostava do diretor e queria vê-lo feliz. Atormentávamos Annia, chamando-a de a Nova Cinderela, já que ela agora tinha irmãs, e uma madrasta, todas bonitas rsrs.
Com a tarefa do torneio Tribruxo a cada dia mais próxima, a escola teve que antecipar a aplicação dos simulados dos NIEM’s e isso não deixou ninguém contente. Por todo o castelo via-se a turma do sétimo ano de 3 escolas, estudando, revisando feitiços, ficando até tarde na biblioteca. Na nossa, república, Nina era o desespero em pessoa, não havia post-it suficiente para ela colar pelas paredes do nosso quarto e nós já estávamos nos acostumando com a decoração colorida. Ruim mesmo era quando ela enfeitiçou alguns destes papeizinhos coloridos com alarmes que tocavam nas horas mais doidas da noite. Junte-se a tudo isso, a nossa pesquisa à tal sociedade secreta, estava um pouco conturbada. Não podíamos sair quando quiséssemos, e também tínhamos que ser discretas, mesmo contando com aurores do clã Chronos nos seguindo, era difícil. Pois algumas pistas estavam difíceis de serem rastreadas, e não podíamos deixar que Max percebesse o que fazíamos ou ele contaria ao pai. E isso colocaria toda a investigação abaixo, e deixaria Evie num perigo maior ainda.

Enfim os simulados do NIEMS começaram e isso ocupou todos os nossos pensamentos. Quando vimos nossas notas, suspiramos aliviadas. E para meu espanto, DCAT foi a minha melhor nota em 7 anos, eu tirei um A, claro que eu teria que agradecer e muito ao treinamento intensivo contra vampiros que tivemos nestes últimos tempos. E fomos bem em listar as maldições e contra maldições que o professor solicitou, graças ao papeis coloridos da Nina.
Como o Berrador, o jornal criado pelos alunos em reação à censura do jornal, circulava pela escola denunciando os desmandos do Ministério, era comum ver os aurores confiscando os jornais subversivos, mas é claro que sempre apareciam outros para substituir.
Os aurores encarregados pelo fechamento do jornal quiseram interrogar a Geórgia e os outros membros do staff, mas o diretor foi em defesa deles e não permitiu. Disse que não permitiria o interrogatório de alunos sem provas. E o melhor foi que as diretoras de Beauxbatons e Hogwarts o apoiaram, ameaçando escrever uma denúncia aos ministros de se seus países. Claro que a auror prepotente teve que recuar, mas não sem antes lançar olhares irritados para a galera do jornal. Óbvio, que isso não os impediria de pensar em uma nova edição do jornal.

Os simulados haviam acabado e teríamos um fim de semana livre, então combinamos de ir até a boate nova para dançar. Conseguimos convencer a Evie a vir conosco, então estávamos animados. Quer dizer, eu estava um pouco chateada, pois havia visto no Profeta Diário uma foto de Iago, beijando Hannah Montgomery, artilheira do Harpias de Hollyhead, mas o que eu poderia fazer? Ele não era meu namorado, podia sair com quem quisesse, assim como eu, afinal este era o combinado. Mas porque colocar em prática, este acordo doía tanto?

Estávamos dançando e bebendo há um tempo, quando Luka se aproximou de nossa mesa. Os meninos o olharam feio, mas ele ignorou, me olhava intensamente.
-Milla você poderia vir comigo um pouco? Quero conversar com você, sobre nossos irmãos...- falou perto do meu ouvido, e eu acenei afirmativamente e sai com ele, depois de acenar para as meninas.
- Como vai seu irmão?- ele perguntou.
- Yuri está bem na medida do possível, trabalhando...E Irina?
- Está deprimida. Meu pai diz que ela emagreceu e os médicos acham que ela não vai conseguir levar a gravidez até o final.
- O bebê corre risco?- perguntei alarmada e ele respondeu:
- Ainda não, mas minha irmã parece ter perdido a vontade de viver. Eu queria te pedir um favor. Será que seu irmão poderia falar com ela?
- Acho difícil convencê-lo. Seu pai ofendeu ao meu irmão e ao meu pai, Luka, ele ofereceu suborno, como se Yuri quisesse colocar a Irina na cadeia.
- Meu pai acha que o dinheiro resolve tudo, mas nesse caso não vai resolver. Acredito que se Yuri conversar com ela, ela começa a reagir a se cuidar...
- Seu pai sabe disso? - perguntei
- Não, meu pai não sabe, mas eu não quero perder minha irmã sem fazer nada para ajudar. Eu sei que ela errou feio, Milla, mas há um bebê envolvido nisso, não posso ficar de braços cruzados. É o nosso sobrinho. Você me ajuda?- e ele parecia tão sincero em sua preocupação com sua irmã, que respondi:
- Sim, ajudo. Acho que mesmo que estejam separados, o bebê é o mais importante agora. - na hora começou a tocar uma musica, ele estendeu a mão para mim e começamos a dançar e íamos conversando:
- Você está com o Iago?- ele perguntou.
- Não. Estamos muito ocupados com nossos assuntos, e namoro a distância nunca dá certo. - respondi e ele me encarava bem perto. A forma como suas mãos subiam e desciam pelas minhas costas, me deixava estremecida. Estávamos tão perto que ele começou a me beijar, e eu correspondi. Após alguns segundos, eu interrompi o beijo, ele encostou o rosto ao meu enquanto falávamos.
- Eu sinto sua falta Milla, éramos amigos antes...
- Sim, éramos, mas você mudou Luka. Deixou de ser o garoto idealista que eu...- parei de falar e ele insistiu me puxando para mais perto, acho que o álcool em meu sangue me fez soltar a língua:
- Apesar de nossas brigas, eu admirava o jeito que você conseguia controlar os problemas, não havia brigas com o seu pai e você defendia o que você acreditava, procurava ser justo, mas de uns tempos para cá você mudou, nem seus amigos o reconhecem mais...Eu me decepcionei com você.
-Isso foi porque eu cedi à pressão do meu pai e não lutei por nós não é? Eu fui imaturo e covarde. Você tem razão em tudo, mas você nunca errou? Nunca pediu uma segunda chance? Mesmo rodeada de amigos, às vezes, não se sente sozinha?- e seu abraço era tão confortador, que respondi:
- Seu pai não me aprova e...
-Ssshh! Esqueça o meu pai, tudo que importa é o agora.
- E amanhã Luka?
- Vamos viver o amanhã quando ele chegar, Milla, você não se cansa de sempre pensar no futuro?
Sim, eu me cansava. Eu suspirei e o puxei mais perto quando senti seus lábios nos meus.

Everyone's known someone they just can't help but want
Even though we just can't make it work out
Well the want to lingers on
So once again we wind up in each other's arms pretending that it's right
I may hate myself in the morning
But I'm gonna love you tonight


N.Autora: trecho da música: I may hate myself in the morning, Lee Ann Womack