Sunday, September 26, 2010

– P R E F Á C I O –

Drammen, Noruega.
[Outubro de 2004]

- Está tudo certo. Nós podemos ir embora daqui e nunca mais vão nos encontrar.

A mulher, que era conhecida nas redondezas como “Madame Castoriadis”, sussurrou convincente para Charles Talemoe – que ainda parecia manter muitas ressalvas quanto ao plano de fuga.

- Não sei... Você poderia ao menos mudar o seu nome comercial, como eu fiz com o meu barco. Aliás, eu mudei muita coisa do antigo “Penélope”. Phoebe não vai conseguir nos encontrar se seu melhor palpite for ele. Mas o seu nome...
- Você não entende. Não é como mudar o nome de um barco, Charles. “Castoriadis” é o meu nome desde que me formei em magia e comecei a trabalhar como astróloga. Eu não me encontraria em outro nome. – ela disse com um leve tom de desespero na voz. – Mas você não precisa se preocupar com nada. Heine logo vai entender que nunca conseguiria encontrar, sozinho, o paradeiro de dois bruxos formados. E Phoebe nem sabe sobre nós... Você pode simplesmente dizer que vai navegar, e nunca mais volta. Ela vai te dar por morto. Logo eles nos esquecem. Acredite em mim, o plano é bom.

Charles raciocinava muito rápido. Sua cabeça formava em velocidades incríveis vários flashes de possíveis desenlaces de toda a trama, para ter certeza de que nada estava lhe escapando. Emily, entretanto, interrompeu seus pensamentos quando se aproximou dele e colou suas testas, decidida a encerrar o assunto.

- Vamos meu amor. Pare de pensar no que pode dar errado. Vamos embora daqui. Eu não agüento mais aquela casa. – ela disse em sussurros, enquanto o encarava fixamente e passeava os dedos de suas mãos pelo rosto e pescoço dele, que ia amolecendo gradativamente.
- Eu também não agüento mais “ela”. Está me deixando louco toda sua obsessão. E não agüento mais o trabalho no Ministério. Não agüento mais minha vida aqui. Só tenho pena de Penélope... Eu queria poder levar minha filha conosco. Queria poder “salvá-la” também. – ele disse deprimido.
- Você acha que também não está me matando a idéia de deixar meus filhos com “ele”? Mas o que nós poderíamos oferecer para eles, Charles? Nós nem temos um destino fixo ainda. Pelo menos com “eles” os futuros dos nossos filhos estão garantidos... E quem sabe ambos não se transformem quando formos embora? Quem sabe não se dediquem totalmente às crianças, e elas sejam felizes – mesmo crescendo longe de nós? Mas é um risco que teremos de correr se quisermos fazer algo por nós mesmos. Para sermos felizes.

Ambos se encararam em silêncio por um longo tempo, até Charles fechar os olhos e se render.

- Você está certa. Nós temos que fazer isso por nós. Nós temos que ir embora daqui o mais rápido possível. – abriu os olhos, decidido, e ela sorriu.
- Quando?
- Amanhã. Vamos sumir para longe daqui, amanhã.
- E nunca mais vão nos encontrar. – ela completou antes de beijá-lo intensamente.

ººººº


Instituto Durmstrang.
[Março de 2010]

- Mandou me chamar, professor? – Penélope entrou na sala do diretor um tanto receosa. Levou um susto quando um elfo doméstico da escola interrompeu a aula de Feitiços pedindo que ela o acompanhasse. Igor Ivanovich confirmou com a cabeça, em um ar sério, e dispensou o elfo.
- Sente-se. – ele disse com calma, apontando a cadeira na sua frente e ela se sentou ainda mais nervosa.
- Aconteceu alguma coisa?
- Ainda não... Mas as notícias não são boas, e você vai precisar ficar calma. – como a menina parecia assustada o suficiente com toda a situação, ele decidiu não prolongar mais o assunto. – Sua mãe está muito doente. Deu entrada ontem no St. Alborghetti, mas os curandeiros não estão criando muitas expectativas... E ela está chamando por você. Quer te ver o mais rápido possível.

Penélope puxou o ar com força e ficou tonta. De repente a sala do diretor foi ficando fora de foco e, se ela não estivesse sentada, teria certeza de estar caindo. Quando sua cabeça voltou ao eixo normal, Igor Ivanovich estava agachado em frente a ela e a segurava pelos ombros.

- Você quer ir vê-la? – ele perguntou gentilmente e ela sentiu a boca secar.
- Sim.
- Vou providenciar uma chave de portal para você, tudo bem? Vá até sua república e prepare uma mochila para alguns dias... Depois volte para cá. Vou te acompanhar até o hospital.

Ela assentiu com a cabeça, ainda se sentindo muito fraca pra dizer qualquer outra coisa, e saiu correndo da sala. Atena estava deserta àquela hora da manhã, já que todas suas outras moradoras estavam em aula. Dez minutos depois, Penélope já estava correndo novamente de volta à sala do diretor, com uma mochila improvisada nas costas. Sua mãe precisava dela.

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Penélope se assustou quando entrou na enfermaria onde sua mãe estava internada e viu seu estado. Desde o Natal a mãe tinha perdido muito peso e tinha profundas olheiras sob os olhos.

- Mãe?! – Penélope chamou baixo em uma espécie de sussurro deprimente. Segurou a mão fria da mãe, que não se alterou.
- Penélope... Você veio. – Phoebe respondeu devagar, ainda com os olhos fechados e uma tentativa frustrada de sorrir. Penélope sentiu algumas lágrimas escorrerem por seu rosto, mas manteve as duas mãos agarradas na mãe.
- O que aconteceu com você?
- Eu...não...consigo...mais. – Phoebe abriu os olhos de repente e encarou a filha com o que parecia ser o último vestígio de vitalidade que ainda possuía. – Prometa que não vai desistir de encontrar seu pai.
- Você não vai morrer mãe. – a menina respondeu desesperada, e tentando parecer convincente, mas sua voz falhou.
- Prometa. Por favor. Eu não agüento mais. – ela apertou o braço da menina, que se assustou.
- Prometo. Eu vou encontrar meu pai. – Penélope disse tentando parecer firme, o que parece ter sido o suficiente pra sua mãe (que afrouxou o aperto de seu braço e fechou novamente os olhos, cansada). – Mãe...

Mas já era tarde demais. Antes que uma das duas pudesse dizer qualquer outra coisa, Penélope sentiu a mão de sua mãe amolecer definitivamente entre suas mãos e ela soube que estava sozinha no mundo.

ººººº

Berna, Suíça.
[Agosto de 2012]

Penélope desceu sozinha do trem e olhou para o amontoado de edifícios estranhos que se empilhavam à sua frente. Depois, puxou um caderno preto – de aparência muito gasta – de dentro da bolsa e abriu-o. Tratava-se de um diário de Charles Talemoe, seu pai, do ano de 2002. (Dois anos antes de ele, misteriosamente, desaparecer - após ter saído para navegar).
Depois que sua mãe morreu e deixou Penélope com a promessa de que não desistiria de encontrar seu pai, a menina se desesperou. Não sabia nem por onde poderia começar a procurá-lo, (já que nem ao menos se lembrava dele com muita nitidez). E até mesmo pensou em deixar para pagar as conseqüências de sua promessa não cumprida quando essas lhe chegassem, mas, acidentalmente – enquanto passava sozinha o último pedaço das férias de verão em casa (como fazia todos os anos, depois de voltar da casa dos avôs maternos, na Grécia) –, encontrou o caderno em um fundo falso do armário de seus pais, e passou a analisá-lo minuciosamente atrás de pistas que pudessem lhe ajudar em alguma coisa.
Chegou à conclusão de que seu pai fora um homem medíocre. (E ela chegou a essa conclusão em um tempo passado, pois, ao contrário de sua mãe, ela já considerava o pai como uma vítima de um naufrágio, ou qualquer coisa assim.) Em todos os seus relatos, ele parecia miserável no trabalho que tinha no Ministério da Magia; miserável no casamento com Phoebe; miserável nas diversas relações sociais às quais se via obrigado a tecer dia após dia... E só uma pessoa parecia lhe compreender. Era uma cigana de nome “Madame Castoriadis”, por quem ele descrevia ter uma relação bastante forte de amizade e confiança, e compartilhar com ela todos os seus problemas e sonhos de se ver livre de tudo.
Penélope leu e releu o caderno diversas vezes, e acabou se rendendo ao pouco que tinha. (Ela sabia que era inútil buscar pelo barco de seu pai em todos os portos do mundo, pois Phoebe já tinha feito isso várias vezes, antes de desistir.) Então, decidiu buscar por “Madame Castoriadis”. Se ela tivesse a sorte de encontrar essa cigana, poderia estar muito perto de descobrir o verdadeiro destino de Charles...
E, por algum tempo, ela se sentiu com muita sorte. Ao contrário do que pensou, encontrar uma cigana cartomante que se utilizasse deste nome, foi muito fácil. Havia um registro disponível no Ministério da Magia, e uma única com esse nome – que trabalhava na capital da Suíça. E foi isso que levou a menina até Berna naquele verão...
De dentro do diário ela tirou um mapa da cidade e abriu-o para verificar sua posição. Um ponto vermelho marcado no mapa – a algumas quadras de onde ela se encontrava – marcava o ponto onde a cigana deveria estar trabalhando. Penélope começou a andar pela avenida, no sentido indicado pelo mapa, e seu coração acelerou. (Ela não entendeu o motivo de estar nervosa, mas achou que deveria ser por sua mãe. Sua mãe morrera sem ter tido nenhuma pista tão boa de Charles quanto a que Penélope achava que poderia ter.)
Andou por vários minutos e entrou na rua indicada. Era uma ruela sem saída, e cercada por paredes contínuas de prédios altos e escuros. Diminuiu o ritmo enquanto passava por eles, até parar na frente de um – quase no final da rua – e o analisar. Conferiu o número na parede com o número anotado no mapa e sentiu o coração acelerar ainda mais quando viu ser o certo. Tocou a campainha do apartamento 206 e esperou. Pouco tempo depois, uma voz feminina, suave e tranqüila, chamou-a acima de sua cabeça, pela sacada.

- Quer tirar as cartas, minha querida? – perguntou a mulher sorrindo graciosamente. Penélope puxou o ar com força.
- Não... Mas quero conversar com “Madame Castoriadis” se possível. É muito importante. – ela disse com a voz um pouco esganiçada de nervoso.

A mulher avaliou-a muito bem antes de voltar a sorrir e falar.

- Ah, entendo. “Outros serviços” então. Pode subir. – disse ela dando uma piscadinha e abrindo o portão.

Penélope sentiu as pernas gritarem a cada degrau que subia. Ela não estava se sentindo bem. Alguma coisa no jeito com que aquela mulher a havia olhado. Alguma coisa não estava certa. Mas, embora Penélope ficasse repetindo isso para si mesma durante toda a subida, a menina não pensou em retroceder em nenhum instante. Estava fazendo aquilo por sua mãe. A porta do apartamento já estava entreaberta quando ela chegou, e ela respirou fundo mais uma vez antes de entrar.

- Com licença?! – disse baixo enquanto entrava na sala de estar minúscula e fazia careta com o cheiro impregnado de incenso que atingiu suas narinas.
- Fique à vontade minha querida. Qual o seu nome? – Madame Castoriadis respondeu com sua mesma voz suave atrás de Penélope, que se exaltou de susto. A mulher, porém, sorriu e conduziu a menina até um pufe de veludo da sala.
- Penélope.

Ela já esperava muitas reações diferentes da mulher, mas nem tinha lhe passado pela cabeça que já começariam a ser mostradas logo após a menina se identificar. Ao falar seu nome, a graciosa e suave mulher que sorria para Penélope sumiu e deu lugar a outra, séria e preocupada, pálida como a vela que estava acesa entre elas na mesa. O espanto durou alguns segundos antes de ela se recompor parcialmente e esboçar um novo sorriso.

- Bonito nome. Como posso te ajudar, Penélope?

Era chegada a hora.

- Eu tinha esperanças que você pudesse me ajudar a encontrar o paradeiro de meu pai, Charles Talemoe. Ele está desaparecido desde 2004. – Penélope disse tudo de uma vez e puxou novamente o diário da bolsa, abrindo-o. – Ele cita o seu nome diversas vezes. Vocês eram confidentes. Aliás, era você, não era?

Penélope estava tão ansiosa em dizer tudo que nem se preocupou em olhar para Madame Castoriadis enquanto falava. Mas, quando olhou, sentiu os pêlos de seus braços se arrepiarem na mesma hora. Ela tinha os olhos exaltados e a boca torcida, e encarava Penélope fixamente, com fúria.

- Vá embora. – a mulher se levantou de um rompante e apontou o dedo para Penélope, ameaçadoramente.
- O que? – a menina perguntou assustada e não se moveu.
- VÁ EMBORA!

Penélope se sentiu em um plano diferente da realidade e demorou a acreditar que aquilo de fato estava acontecendo. Levantou de um salto da cadeira quando a mulher se projetou para cima dela, e em passos rápidos foi saindo para a porta, mas não rápida o suficiente. Paralisou quando foi agarrada por duas mãos frias.

- Nunca mais volte aqui. Nunca mais procure por Charles Talemoe.
- Me solta. – a menina pediu em pânico, mas a mulher continuava encarando-a fixamente com uma expressão de psicopatia.
- Todos os seus amores morrerão. – sua voz era grossa e definitiva, e ela proclamou cada palavra como uma lei.

Penélope sentiu uma pontada forte na cabeça e seus olhos se encheram de lágrimas. Com toda a força que conseguiu reunir, ela puxou seu braço das mãos da cigana e saiu correndo para fora dali. Tinha sido amaldiçoada.

ººººº

Atena, Instituto Durmstrang.
[Setembro de 2014]

Penélope acordou assustada e suando. Localizou-se no dormitório da Atena, república onde morava em Durmstrang, e respirou fundo para se acalmar.
Fechou os olhos novamente e se forçou a pensar, contínuas vezes, de que tudo ficaria bem. Um dia, tudo ficaria bem.

Thursday, September 23, 2010

Instituto Durmstrang, 1º de Setembro de 2014

Ah, lar gelado lar. Depois de dois meses quentes de férias, nada como voltar pra nossa segunda casa, no paraíso da hipotermia. Estou sendo chata, eu sei. Gosto de Durmstrang e seu clima gelado, mas às vezes cansa. Andar toda encapotada nem sempre nos favorece. Mas o melhor de voltar era poder rever a turma. O jantar de boas vindas era sempre um falatório incontrolável, nosso diretor, Igor Ivanovich, precisava ampliar a voz com magia para conseguir ser ouvido. Sempre me sentava com Leo, Robbie, Jude e Penny para colocarmos o assunto em dia e Robbie nos contava sobre seu novo namorado, Alec Karpov, quando fomos interrompidos por um pigarro assustadoramente alto do diretor. Em um momento raro, o salão caiu em silêncio para olhar para ele.

- V Olimpíadas Interescolares Bruxas. Como muito se comentou ano passado, esse ano teremos novamente uma edição dos jogos – o falatório ameaçou recomeçar, mas ele conseguiu manter a voz elevada – Os jogos desse ano serão sediados pela Instituto de Bruxaria de Melbourne, na Austrália, entre os dias 14 e 27 de Novembro. Nossa delegação sairá no dia 13 de Novembro, pontualmente às 10h. Aos interessados em competir, haverá uma lista disponível com os professores de Artes e Educação Física, vocês têm duas semanas para procurá-los e se inscreverem nas modalidades existentes. Lembrando que aqueles que não forem competir, deverão permanecer no castelo com os alunos do 1º ano, que não podem participar, e acompanhar a transmissão dos jogos que será feita pela equipe do nosso jornal. Espero ver muitos de vocês na nossa delegação. Agora podem voltar às suas repúblicas, e bem vindos de volta.

Todos começaram a levantar quando ele acabou de falar e de repente a fofoca sobre o novo namorado de Robbie não era mais urgente. Nossa urgência no momento era encontrar alguma modalidade que não exigisse muito esforço, só para poder acompanhar a delegação de Durmstrang para a Austrália. Nem morta ia ficar pra trás, imprimindo noticiário da equipe do jornal!

ºººººº

O despertador do quarto tocou às 7h em ponto, mas já passava das 8h quando decidi abrir os olhos. Não adiantava correr, a republica ficava um caos de manhã cedo, todas querendo usar o banheiro primeiro, então era sempre uma das últimas. Moro na Atena, uma das repúblicas mais disputadas de Durmstrang, e divido o quarto com mais seis pessoas. É, outro caos, mas ao menos são minhas amigas. Julie, Leo, Penny, Jude, Flora e Lisera são excelentes companheiras para madrugadas sem sono, teorias conspiratórias e planos de vingança.

- Vai levantar ou não? – Leo atirou uma almofada em cima de mim, mas não me mexi.
- Olhe a minha cara de quem está animada para ter uma aula com criaturas mágicas – fiz uma careta de dor e ela riu.
- O professor é o Karl... – Liseria entrou no quarto.
- Ok, já levantei! – saltei da cama num único impulso e corri para o banheiro, ouvindo as risadas no quarto.

Quinta-feira era um dia longo pra mim, a maioria das aulas não me interessavam, mas no fim teria Artes, que eu amava. Mas tinha mais um incentivo, que era o professor de Trato de Criaturas Mágicas, Karl Neitchez. Ele era simplesmente perfeito, mas infelizmente devia me achar burra. Como aprender alguma coisa, quando se tem algo melhor prendendo sua atenção?

Sobrevivi a todas as aulas e clubes do dia e quando faltavam menos de cinco minutos para as 20h, já estava dentro do teatro. Nem esperei o novo professor de Poções autorizar nossa saída e isso pode me custar caro depois, mas sinceramente, quem se importava? Uma detenção a mais, uma detenção a menos... As 20h em ponto a porta do teatro se abriu a uma mulher loira, que exalava poder até no jeito de andar, caminhou até o palco. Meu queixo foi no chão.

- Merlin! – apertei o braço de Robbie com tanta força que minhas unhas deixaram uma marca – É Georgia Yelchin!
- A atriz da Broadway? – Leo riu – Está louca?
- É ela sim!
- Santa Lady Gaga... – Robbie levantou da poltrona em câmera lenta.
- Boa noite! – ela falou de cima do palco, sorrindo – Me chamo Georgia Yelchin e a pedido do diretor Ivanovich, serei a professora de Artes pelos próximos dois anos. Por favor, cheguem mais pra frente, para que possamos começar a nos conhecer melhor. Quero todos ocupando as três fileiras da frente.
- Gente, mas o que ela está fazendo aqui nesse fim de mundo? – Leo perguntou espantada, enquanto caminhávamos para frente.
- Eu estudei aqui, Durmstrang um dia também foi minha casa – ela pareceu ter ouvido a pergunta – Foi aqui que minha carreira começou. Sim? – e vi Robbie com a mão levantada.
- Só queria dizer que sou seu fã – ela riu e senti uma vergonha alheia enorme, mas ele não estava se importando.
- Obrigada. Antes de pedir que cada um diga o nome, quero avisar que na minha aula, todos fazem alguma coisa. E se quiserem passar, terão que cantar, dançar ou fazer algum outro numero que esteja dentro do cronograma que criei – um principio de reclamação ameaçou se espalhar, mas ela tinha um olhar severo, então não foi longe.
- Mas todo mundo tem que cantar? – Ozzy perguntou com uma cara desanimada. Não pude deixar de sorrir vendo o desespero dele.
- Sim, senhor...?
- Oscar Lusth.
- Oscar. Sim, todos terão que fazer algo. Se não sabe cantar, pode dançar. Se não dança, encontre uma música e aprenda a cantá-la. Não espero ver nenhum tenor no palco, sei que nem todos cantam bem, o que vou avaliar é a criatividade, o comprometimento com o trabalho. Não avalio a voz.
- Podemos nos apresentar em conjunto? – Alec, o novo namorado de Robbie, perguntou – Seria menos constrangedor.
- Podem trabalhar em duplas, trios, grupos, como quiserem, desde que todos façam sua parte. Se tiverem 39 pessoas cantando e 1 apenas mexendo a boca, eu vou localizar essa pessoa, não tenham duvida disso.
- Vai ter alguma peça? – perguntei.
- Ainda não sei, primeiro quero conhecê-los melhor e então verei o que podemos fazer. A única coisa certa é que, independente do que seja, todos irão participar. Agora que os avisos foram dados, quero conhecer todos vocês. Começando pelo garoto de camisa amassada da ponta esquerda, digam nome e o que gostam de fazer.

Durou toda a hora de aula a apresentação dos alunos e como primeiro trabalho para a próxima aula, deveríamos encontrar uma música com que nos identificássemos e apresentá-la no palco. Foi muito divertido ver o pânico estampado no rosto daqueles que estavam acostumados a ter os tempos de artes como livre. A turma começou a caminhar de volta para as repúblicas ainda discutindo a aula, mas eu ainda tinha reunião com o conselho do grêmio estudantil naquela noite. A professora Mira já nos esperava na porta da redação do jornal quando chegamos. O conselho era composto por alguns alunos selecionados a dedo por ela, e era formado por mim, meu namorado Lukas, Leo, Robbie, Ozzy Lusth, meu primo Jack, Lucian Valesti, Yanic Andreatta, Maria Schuster e Valeria Stankovich.

- Olá, boa à noite a todos, sentem-se em seus lugares e vamos começar a reunião.
- Professora, vamos poder trabalhar de alguma forma da organização das Olimpíadas? – Lucian perguntou.
- Vamos chegar nesse assunto daqui a pouco, antes tenho um anúncio para o novo ano – ela se sentou em seu lugar e entregou uma ficha de tarefas para cada um – Como todos sabem, ano passado pedi que me apresentassem suas plataformas, se quisessem o cargo de presidente do conselho. Avaliei todas as fichas durante as férias e tomei uma decisão. Esse ano, quem vai presidir o Grêmio Estudantil da escola será Parvati Karev.
- O QUE? – Ozzy bateu na mesa, indignado – Professora, a senhora só pode estar brincando. Essa desmiolada vai ser a presidente e mandar no conselho?
- Mais respeito com sua colega, Sr. Lutsh – Mira brigou com ele e o olhei enfezada – A Srta Karev é perfeitamente capaz de assumir o cargo.
- É, fica na sua, patinador. Sou mais capaz que você, já que ela me escolheu.
- Não me faça voltar atrás, Parvati... – ela me olhou severa e me desculpei – Outro aviso: Olimpíadas. Não há nada que possamos fazer na organização do evento oficial, mas há muito a ser feito aqui no Instituto, antes, durante e depois dela. Nessa ficha estão as tarefas que cada um tem para a preparação para a competição. Quero idéias de como podem ser feitas para a próxima reunião, que passará a ser conduzida pela presidente eleita. Estarei aqui apenas como orientadora.
- E a semana das repúblicas? Já é quinta-feira e ela começa na segunda – Yanic perguntou.
- Era o próximo tópico, idéias do que faremos para receber os calouros sem incidentes como o do ano passado?

Jack e Ozzy abafaram risadas e revirei os olhos. Durante a semana das repúblicas do ultimo ano, um calouro da Chronos acabou colado na parede da Kratos e todos sabíamos que tinha sido o time de Hóquei, mas ninguém foi punido. Agora que eu estava no comando, não ia permitir essa bagunça. E se por acaso alguma coisa saísse do controle, eles não iam escapar ilesos. Era o começo de uma nova era no Instituto Durmstrang. E eu estava no topo dela.

Monday, September 20, 2010

Sofia, Bulgária, Setembro de 2014

- Lu, você tem visitas! – Meu irmão gritou do primeiro andar, e respondi.

- Pede pra subir, diz que estou ocupado!

Eu estava digitando mais um dos meus vários textos. Ele estava incompleto ainda e como eu odiava deixar textos incompletos. O texto era uma pequena história, uma crônica se preferir, sobre um homem que desejava tanto o poder que era capaz de sacrificar os próprios amigos. Era algo triste, mas que refletia muito dos homens.

Quando digo digitar, alguns bruxos podem achar estranho, mas eu tenho um laptop, um aparato trouxa que os permite entre outras coisas escrever rapidamente, sem precisar gastar pilhas e pilhas de pergaminhos. Ele tinha outras vantagens também como a internet, que eu gosto de comparar com uma coruja super rápida, e permite assistir as fotos-em-movimento dos trouxas, que Ayala me ensinou serem chamados de vídeos.

- Até nas férias escrevendo? – Uma voz conhecida me chamou e virei sorrindo, a tempo de ver Lenneth me abraçando pelo pescoço. Phil veio logo atrás, sorrindo.

- Claro, nas férias é quando eu tenho mais tempo! – Eu falei, afagando seus cabelos com carinho. Eu me levantei e dei um abraço em Phil também.

- Mas hoje você vai parar um pouco. Ayala chega hoje e vamos sair para fazer alguma coisa. Já falei com o Ozzy e os garotos do time também.

- Ah finalmente o Ayala vai voltar! – Falei alegre também.

- Sim, ele conseguiu se livrar de algumas coisas da Faculdade e vai vir nos visitar. Ele vai ficar uma semana aqui conosco, na casa dos avós. E vamos comemorar o seu aniversário! Atrasados, mas vamos! – Lenneth falou com um largo sorriso. Eu havia feito aniversário um mês antes, mas como nem todos os meus amigos estariam presentes, deixamos para comemorar depois.

- Eu vou falar com a Liseria então, apesar de que ela estava na França.

- Diga pra ela vir imediatamente! – Phil falou.

Enquanto os dois iam descendo para falar com meus pais e meu irmão, já que eles os conheciam desde crianças, peguei meu celular e mandei uma mensagem para Liseria, pedindo que me ligasse. O celular era outro aparato trouxa que os permitia conversar e mandar cartas por longas distâncias, quase em tempo real, e nisso tenho que concordar às vezes eram mais eficientes que lareiras e corujas (ainda mais que eu ainda não sabia usar o patrono direito). Mas o celular foi idéia de Liseria, pois assim que ela os descobriu, comprou um para mim e para ela para que pudéssemos nos falar com mais facilidade quando não estivéssemos no Instituto.

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Fomos buscar Ayala no Aeroporto de Sofia por volta das 1 da tarde. Meus pais foram conosco no carro da família. Ayala era trouxa e estudava na Inglaterra, em Cambridge, porém costumava passar suas férias na casa dos avós, que eram meus vizinhos. Foi assim que nos conhecemos. Ele costumava freqüentar a livraria de minha família e desde jovem foi muito inteligente. Ele cresceu comigo, com Phil e com Lenneth. Nós quatro éramos grandes amigos e eu os considerava como meus irmãos, sendo que eles me consideravam como o irmão mais velho, apesar de ter a mesma idade que Phil e Ayala.

- Bem vindo de volta! – Eu falei, quando o avistamos saindo do terminal de chegada dos vôos internacionais do aeroporto. Ayala veio sorrindo e nos abraçou.

- Feliz Aniversário, Lucian! Finalmente posso desejar pessoalmente. E ai, como estão as coisas? – Ele perguntou, já entregando duas malas para eu e Phil levarmos.

- Continua abusado não é? – Phil falou, dando um soco de leve em seu ombro. Ayala deu de ombros, enquanto apertava a mão de meus pais e de meu irmão.

- Vamos logo, uma grande festa nos espera hoje! – Lenneth falou, e Ayala sorriu para ela.

Almoçamos todos em minha casa, inclusive os avós de Ayala, que eram amigos de meus pais. Foi um almoço agitado, cheio de gargalhadas e risadas. Ayala contava novidades da faculdade, enquanto contávamos das coisas que aprendemos durante o ano letivo. Ele era trouxa, mas sabia e muito do mundo bruxo, e o fato dele ser trouxa nunca foi problema para nós quatro.

Enquanto almoçávamos, a campainha tocou e fui abrir a porta. Quase fui derrubado no chão por Ozzy, Alec, Oleg e Jack, enquanto Julie esperava na porta sorrindo. Eu cai na gargalhada, enquanto Ozzy já corria para a sala, cumprimentando a todos.

- Chegamos na hora! – Alec falou, enquanto cumprimentava a todos.

- Vocês não tem educação? – Julie falou, balançando a cabeça. Oleg e Ozzy deram de ombros. – Boa tarde a todos.

- Viemos chamá-los, vamos começar a festa agora. Vamos dar uma passeada pela cidade, Ayala tem que ficar a par de todas as notícias! – Oleg explicou, enquanto cumprimentava Ayala.

- Vocês iam sem mim? – Ouvimos alguém na porta, e me levantei sorrindo, abraçando-a com força. Liseria sorria, enquanto beijava meu rosto. – Olá, querido.

- Não sabia se tinha recebido a mensagem. Como chegou tão rápido? – Perguntei, enquanto ela cumprimentava a todos. Àquela altura meu pai já havia conjurado cadeiras extras, enquanto mamãe distribuía alguns bombons.

- Pedi que minha mãe me aparatasse, não perderia seu aniversário de jeito algum.

Assim que todos terminaram de tomar ao menos um copo de suco de abóbora e comer alguns doces, mamãe achou que estávamos alimentados e a turma inteira saiu. Passamos a tarde inteira andando pela cidade, conversando e nos divertindo. Ozzy e Oleg divertiam a todos contando todos os acontecimentos do Instituto, enquanto Ayala contava novidades do mundo trouxa. Liseria contou sobre sua viagem à França, e depois ficou conversando animada com Julie e Lenneth sobre diversos assuntos. Phil perguntou de Ferania, a irmã mais velha de nosso grupo, pois ele sempre teve uma queda por ela. Ferania, porém, apesar de ter aparatado na minha casa no dia do meu aniversário, disse que estaria muito ocupada para ir na festa, mas não quis me dizer o porquê. Ferania era mais velha do que nós, mas junto de Lenneth era uma de minhas amigas mais antigas e mais queridas.

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Eram 9 da noite quando a festa começou em si.

Os pais do Ozzy fecharam um dos andares da filial em Sofia para nós e Phil e Ozzy encarregaram-se das músicas, escolhendo principalmente minhas músicas favoritas, além de outras de seu próprio gosto.

Haviam muitas pessoas do Instituto. Todo o time de Hóquei estava na festa, assim como toda a equipe do jornal. Parvati jamais perderia uma festa e divertia-se observando a todos para o jornal, enquanto conversava com Leonora. Levantei uma sobrancelha para elas, mas elas fizeram-se de desentendidas. Yanic atraia a atenção de todos com seu jeito entusiasmado e alegre, e o cumprimentei feliz, por considerá-lo muito. Derek marcou presença também, porém notei como ele olhava para o palco, como se desejasse estar ali cantando. Finn e Orion chegaram na hora da festa e não estiveram conosco durante o dia, mas logo estavam conversando com todos. Apesar de que Ayala não falava muito com Orion, o que sempre acontecia, pois Ayala não vai muito com a cara do Orion, e eu não sei bem o porquê até hoje.

- Ele tem um ar falso. O sorriso dele é meio falso. – Ayala sempre respondia, dando de ombros, quando eu perguntava o porquê da inimizade.

Eu estava muito feliz com a atenção e o carinho de todos, e não conseguia ficar parado um segundo, toda hora sendo chamado por alguém para fotos, conversas e danças. Agradecia também por Liseria e Lenneth estarem se dando bem, pois no ano passado elas tiveram algumas brigas. E como eu odiava ver duas garotas tão importantes para mim brigando.

Já era tarde da noite, quando Lenneth subiu ao palco e pediu a palavra. Ela estava linda como sempre e eu sorri para minha querida irmãzinha adotada.

- Boa noite a todos! Gostando da festa? – Ela perguntou, fazendo todos gritarem. – Desculpem-me a intromissão, prometo ser rápida. Mas o motivo disto, é também o motivo da festa! Lucian, temos uma surpresa pra você!

Assim que ela terminou de falar, holofotes caíram em cima de mim e eu fiquei um pouco envergonhado, enquanto todos batiam palmas. Em seguida, a música mudou para uma de minhas favoritas, “Stairway to Heaven”, e o telão começou a mostrar diversas fotos minhas e de meus amigos, em uma homenagem feita por eles.

Eu senti lágrimas nos olhos e consegui apenas levantar um copo enquanto gritava agradecendo a todos. Todos gritaram juntos, e começaram a cantar “Happy Birthday to you”, com Lenneth no microfone.

Liseria me beijou, e depois me levou para a pista de dança, onde começou a tocar “Nothing Else Matters”. Os demais casais espalharam-se ao nosso redor, enquanto eu me deixava envolver pela melodia daquela bela música, sorrindo para Liseria.


- Você ainda gosta do Lucian, não gosta? – Phil perguntou, enquanto bebia um drink ao lado de Lenneth. Ela por sua vez olhava para Lucian e Liseria que dançavam uma música lenta, abraçados. Ela ficou um tempo em silêncio sem responder.

- Eu não sei, Phil, realmente não sei.

- Você tem que se decidir. Se demorar demais para decidir, vai perdê-lo para sempre.

- E você acha que eu ainda tenho chance? – Ela perguntou, suspirando, quando viu os dois se beijando. – Olhe pra eles, estão felizes. E ele me vê apenas como irmã.

- Porque você nunca se decidiu. Você até hoje não sabe se gosta ou não dele. Eu apoiaria o namoro de vocês, e daria muito certo.

- Não me incentive, Phil. Não vou acabar com a alegria dele.

- E por isso vai ficar se remoendo pelos cantos? Pense mais em si mesma, Val.

- É que eu não sei. Já fiquei com outros garotos, já gostei de outros garotos.

- Mas ainda é o Lucian que mexe com você, não é? Dá pra ver como você o olha.

- É tão na cara assim? – Lenneth falou, ficando sem jeito.

- Não, pior que não. Eu diria que apenas eu e Lucian notaríamos isso. Você esconde bem, apenas quem te conhece bem saberia ver isso. E ele não verá, pois não imagina isso.

- Prefiro que ele continue sem imaginar. Eu preciso dar a chance para outros tomarem o lugar dele.

- Tentar apagar não é a coisa certa... Mas, deixa de conversa séria, vem, hoje você dança comigo! – Phil falou, puxando sua melhor amiga pela mão, enquanto ela ria. Phil gostava de Lenneth como sua irmã, assim como de Lucian. Ele era o único que sempre notara que Lenneth poderia ser apaixonada pelo amigo, mas ela nunca sabia se era de verdade ou não. Para Phil, era seu dever dar apoio a ela e ele sempre faria isso.

Wednesday, September 01, 2010

Sofia, Bulgária, Agosto de 2014

Lucky to have been where I have been
Lucky to be coming home again
Lucky to have stayed where we have stayed
Lucky to be coming home someday
Ohhhohhhohhhohhohhohhhohh


-Graças a Merlin vocês estão aqui!- eu disse para meus amigos Parvati e Robert, quando os encontrei perto do bar em um daqueles eventos que se faz para angariar dinheiro para uma causa nobre. E como era nossa ultima semana de férias, supus que acabaria encontrando todos os meus amigos por lá e não me decepcionei.
- O que foi? A bulímica está atrás de você com uma mangueira de lipo?- disse Robbie enquanto trocavamos beijinhos no ar e Parvati já me esticava um copo de ponche.
- Não, muito pior. A ‘succubus’ arrumou uma nova vítima e está passeando com ele pelo salão, e está dando enjôo do mel que escorre. E os outros vieram?- disse e quase cuspi o ponche, mas o engoli. Minha garganta queimou um pouco no processo.
- O que tem aqui?- perguntei.
-Um pouco disso, daquilo, você não iria querer tomar o original, era saudável demais, então o batizamos. - disse Robbie e Parvati riu enquanto respondia à minha outra pergunta:
- Não sabemos dos outros, nem todos curtem aparecer numa festa deste tipo, é tedioso demais.Mas como avisamos que estaríamos aqui, podem ir chegando aos poucos. O que vamos fazer depois? Não me produzi toda para dormir cedo
- Bom, podemos terminar a noite dançando. É a última semana de férias e não vou desperdiça-la ficando em casa.- disse Robert e concordamos e aos poucos, outros de nossos amigos foram aparecendo com suas familias. Apesar de tudo, aquilo poderia ser divertido.

-o-o-o-o-o-o

Os fotógrafos da festa volta e meia tiravam fotos nossas, e Parv adorava isso, e fazia caras e bocas, e isso os atraía ainda mais, e como estavamos todos juntos, éramos muito fotografados. A mãe de Parvati nos avisou que os fotografos iriam tirar fotos das familias patrocinadoras do evento, e eu sabia que teria de estar junto com os meus pais.
Numa das pausas fomos ao banheiro feminino, e combinamos com os garotos que depois das fotos, iríamos sair dali direto para a Lutsh, a boate mais badalada de Sofia, comandada pelo irmão do Ozzy.
O banheiro era um daqueles estilo anos 20, com uma chaise de veludo vermelho no meio dele, poltronas almofadadas em frente ao espelho e vários vidros de perfume importado, à disposição e maquiagem para retoque, estávamos na parte mais afastada, eu estava em um box, terminando de arrumar nossos vestidos, quando ouvimos uma voz conhecida. Ficamos caladas, puxei Parvati para dentro e fechamos a porta para ouvir:
- ...você precisa fazer alguma coisa mamãe...Não quero sair na coluna social ao lado daquele saco de batatas...Nem se vestir direito ela sabe...Aliás nem aqueles garotos que andam com ela não é? - dizia minha irmã Camille e minha mãe respondeu:
- Não vamos ser tão exigente com sua irmã querida. Veja, ela até conseguiu uma roupa exclusiva, não está tão ruim assim.
- Não ficaria ruim, em alguém dentro dos padrões normais, mas ela conseguiu transformar um Galliano em uma roupa de loja de departamentos. O que podemos fazer para evitar as fotos?Não quero Sebastian me associando a ela.
- Não podemos fazer nada, Camille. Seu pai disse que é importante os acionistas verem que ele se dá bem com a sua irmã, e lembre-se a reunião de diretoria está próxima, não vamos estressar o seu pai....E logo ela volta para a escola e ficaremos livres por um bom tempo.
- e depois do barulho de torneiras se fechando, não pudemos ouvir mais nada, porque logo a porta fez barulho de ser fechada e o banheiro ficou silencioso.
Parvati saiu bufando do box, arrumando o vestido:
- Como aquela porca anoréxica se atreve a dizer que nós não nos vestimos bem? Ah mas eu queria que ela dissesse isso na minha frente, porque eu ia fazer aquele nariz plastificado dela voltar à forma original. – eu já estava acostumada com a minha familia, mas ve-las falar mal de meus amigos, me magoou e ofendeu muito mais. Parvati andava de um lado a outro bufando e parou de repente me encarando:
- Ah! Não se atreva a derramar uma lágrima Leonora Marie, elas não valem isso. Vamos lá, quero ver seu olhos injetados de sangue porque vamos matar aquela vaca da sua irmã. – e eu pisquei dizendo:
- Sim, tem razão, precisamos de sangue. Tudo o que me vem à mente agora é jogar aquele ponche todo na cabeça dela.
- Não! Isso é pouco e ela ainda vai sair de vitima....Precisamos mexer com algo que ela goste...- Parvati andou de um lado a outro e parou me olhando:
- Quanto você tem de dinheiro na bolsa?
- Tenho uma quantia normal, mas se precisar de mais trouxe meu novo amigo, não te contei que ele chegou hoje?...- abri a minha bolsa e peguei um cartão de plastico dizendo:
- Plat, honey, diga olá para mamãe.- e o acenei enquanto Parvati ria e me puxava para fora do banheiro:
- Não existe nada mais bonito que você, aqui no momento, Plat. Venha, vamos falar com os rapazes, vamos precisar da ajuda deles.

Saimos do banheiro e Parvati contou aos garotos qual era a sua idéia, no começo eles ficaram receosos, mas acabaram topando, e ela foi conversar com a mãe que achou a idéia um pouco estranha, mas quando dissemos que o dinheiro arrecadada seria para a caridade e que faria o evento ser muito mais divulgado, a mãe dela aceitou. Não demorou e a senhora Karev começou a percorrer o salão em busca de novos colaboradores e ninguém se atreveria a dizer não para a prefeita, e em pouco tempo, ela subiu ao palco e começou o show:
- Atenção todos! Como é uma noite beneficente, alguns amigos de minha filha engajados em causas sociais, tiveram uma brilhante idéia: no começo fiquei um pouco receosa, mas após conversar com várias pessoas e ter a anuência de vários convidados, que aprovaram a idéia, poderemos arrecadar mais dinheiro para a nossa causa, através de um leilão de solteiros.- ouviram-se alguns burburinhos,mas a prefeita continuou:
- Não será nada escandaloso, posso assegurar, afinal estamos entre amigos e é por uma boa causa. O solteiro, terá que disponibilizar 4 horas de seu tempo, para o vencedor do leilão.Não se inclui nada humilhante ou degradante, é bom salientar, e os jovens que estão subindo ao palco entraram no espirito esportivo e querem colaborar. Então minhas caras, quem vai dar o primeiro lance por este jovem?
E o leilão começou um pouco morno, então para animar dávamos lances só para provocar e todas as mulheres entraram na onda. Quando chegou a vez do namorado de Parvati, ela não me decepcionou, quando bateu lance a lance de uma socialite enjoadinha que vivia lançando olhares melosos para Lukas. E quando o arrematou deu-lhe um beijão no palco mesmo só para mostrar que ele tinha dona.
Quando chegou a vez de Robbie, começamos a dar lances e ele estava sendo um dos mais altos até o momento e nosso amigo estava vibrando. Os lances começaram a subir, e antes que eu desse a minha última oferta, nosso colega de escola Alec, deu um lance que praticamente dobrava o meu. Olhei para ele e ele me encarou de volta, parecia avisar que ele cobriria qualquer lance que eu desse, então assenti concordando em parar por ali. Quando Alec foi buscar o seu ‘prêmio’, víamos as pessoas olhando-os chocadas, mas Robbie exibia um olhar do tipo: ‘sou demais’. Ah! Seriam anos aguentando ele se pavonear, mas era um preço baixo a pagar rs.
O leilão correu animado, por mais algum tempo e logo o solteiro leiloado seria Sebastian Bach. Sim, o alvo de minha irmã e eu não me envolvi enquanto ela e outras garotas o disputavam, e o tipo loiro de academia, exibia dentes excessivamente brancos num rosto bronzeado artificialmente, rindo convencido.
Quando ficou claro, que a oferta de Camille seria a vencedora, eu levantei a mão e ofereci o cinquenta por cento a mais. Ela subiu mais um pouco e eu aumentei, e vi o olhar alarmado no rosto do Sebastian. Vi que ela ela bufava de raiva e falou com meus pais, na certa pedindo mais dinheiro e meu pai fez um gesto negativo com a cabeça. Sorri zombeteira e como golpe de misericórdia, eu dobrei a oferta, e não demorou a prefeita disse batendo o martelo:
- Vendido para Leonora Ivashkov.Palmas para ela! E muito obrigada a todos, nosso leilão foi um sucesso. – e enquanto eu subia ao palco os flashes pipocavam e tiraram uma foto minha com o Sebastian, dizendo que iria para a pagina central. Claro que Camille veio marchando irada em nossa direção e quando viu que eu segurava o braço de Sebastian, disse:
- Você fez de propósito sua...sua...
- Estamos em local público, queridinha. Quer sair na coluna de fofocas? Não é tão glamourosa, garanto a você.
- Você sabe que eu e ele estamos saindo juntos...Quis me humilhar.
- Não preciso fazer algo que você já faz sozinha, Camille e por mais que você pense o contrário, o mundo não gira ao seu redor. E foi por uma causa nobre, que eu o comprei o Bastian, não é querido? E agora vamos curtir e muito as nossas 4 horas juntos. –disse passando a mão nos ombros dele, e o loiro de máquina de bronzeamento artificial me olhava assustado.
- Você é patética, só assim você arranja alguém para sair com você.- atacou Camille e eu respondi:
- Não vou ficar aqui discutindo com você, se você o quer pague o preço.Oh, esqueci você não tem dinheiro. Acho que se eu fosse Bastian, avaliaria muito bem, qual das irmãs Ivashkov tem o toque de Midas.
Saimos dali e no trajeto até a boate Lutsh, Sebastian de ‘assustado’ passou a galanteador, segurando a minha mão e querendo jogar charme, e eu dava risadinhas afetadas, parecendo encantada. Meus amigos me olhavam intrigados, mas eu continuava na minha. Antes de chegar na porta da boate pedi a ele que comprasse uma rosa para mim e enquanto ele foi fazer isso, continuei andando com meus amigos, e entramos. Ele veio rápido e tentou passar mas o segurança o barrou, afinal estavamos num local exclusivo:
- Eu estou com ela. Leonora, meu bem diga a ele que estamos juntos.- virei-me e depois de o olhar com desprezo de cima a baixo disse:
- Não, nós não estamos juntos. Eu enjôo fácil do que compro Adeusinho!- e eu e meus amigos rimos da reação irada dele, quando o segurança o mandou se afastar, quando ele começou a gritar.
É, quando as pessoas dizem que a vingança é um prato que se come frio, elas têm razão: "Vingança é um prato que se come frio, regado a um bom champagne francês'.

N.da Autora: trechos da música Lucky, Jason M’raz.
Succubus = é um demônio com aparência feminina que invade o sonho dos homens a fim de ter uma relação sexual com eles para lhes roubar a energia vital.

Tuesday, August 31, 2010

19 de Julho de 2014

Era o meu aniversário de 16 anos. Em vez de uma festa comum, com bebida e música alta, estava tudo no mais completo silêncio. Eu estava deitado em uma mesa de pedra, em uma masmorra. Meu avô, Oscar Sênior, usava um manto negro e misturava ingredientes de uma poção de cheiro desagradável. Pelo canto do olho via meus pais e irmãos de um lado, parecendo tranqüilos. Do outro lado, meus dois melhores amigos, Alec e Oleg, pareciam mais apreensivos. O que não me deixava exatamente calmo.

Aquela era uma poção para desacelerar os batimentos cardíacos, até que não existisse mais nenhum. Fazia parte do ritual. Não que eu não confiasse em meu avô. Claro que não, ele já havia feito aquilo dezenas de vezes. Mas não comigo. E se meu organismo decidisse que não ia obedecer ao seu encantamento, e eu morresse de vez? E se não desse tempo para ele me trazer de volta?

- Beba, Oscar. – vovô me entregou o cálice fumegante e antes que continuasse pensando demais, bebi de uma só vez. Não tinha gosto de nada, parecia água.
- O que tinha... – Não consegui completar a frase. Minha boca ficou mole e meus dedos começaram a formigar. Meu coração acelerou de um jeito assustador, depois me senti totalmente sem forças e apaguei.

ºººººº

As pessoas na masmorra estavam em silêncio, observando atentas meu avô parado ao meu lado, próximo a minha cabeça. Ele mantinha uma das mãos no meu pescoço, o dedo indicador posicionado em cima de uma marca de nascença que tinha. Parecia uma cicatriz e ficava bem abaixo da orelha esquerda. Ele falava baixo ao meu ouvido um encantamento muito antigo, como uma canção suave. Não entendia uma única palavra, mas era bonito. Alec e Oleg continuavam me olhando apreensivos demais para sequer respirar e agora meu irmão mais novo, Edgar, tinha a mesma expressão dos dois. Os outros continuavam observando como se aquilo fosse rotina. E era, na verdade.

Vovô repetia as palavras cada vez mais depressa, acelerando a canção. Senti alguma coisa me puxar, e então meu avô olhou para o alto, diretamente para mim. Foi quando me dei conta do modo que estava vendo aquela cena. Meu corpo estava deitado sobre a mesa de pedra, imóvel, os olhos fechados, sem respiração alguma. Entendi que a canção estava me chamando de volta a meu corpo e obedeci ao seu comando.

ºººººº

Quando abri os olhos outra vez, a primeira pessoa que vi foi meu avô. Ele me lançou um olhar enigmático e me estendeu a mão, me ajudando a levantar. Talvez esperasse que eu dissesse alguma coisa inteligente, mas tudo que consegui fazer foi abrir e fechar as mãos, me certificando que tinha o controle delas outra vez. Sentia-me do mesmo jeito de antes. Deveria me sentir diferente, ou a única coisa diferente era que agora eu era um Imortal? Como se isso fosse algo banal. Meus irmãos e amigos se aproximaram, curiosos.

- E ai? Está sentindo alguma coisa diferente? –Georgi, meu irmão mais velho, perguntou. Fiz que não com a cabeça, mas me arrependi instantaneamente.

Senti uma dor horrível, que nem de longe poderia ser comparada a uma dor de cabeça comum. De repente eu ouvia tudo, até mesmo uma leve respiração. Meus irmãos e amigos conversavam em um tom de voz normal, mas era como se eles estivessem gritando a plenos pulmões. Tapei os ouvidos depressa, mas as vozes não foram nem remotamente abafadas. Não demorou muito e senti meu nariz sangrar. Não sabia se continuava com as mãos nos ouvidos, mesmo que inutilmente, ou tentava conter o sangramento.

- Isso vai passar – ouvi a voz de minha irmã, Katarina, atrás de mim – No começo é um pouco ruim, mas você se adapta.
- Como assim? O que é isso?
- Seu poder, maninho – ela apertou meu ombro e soltou uma risada como se estivesse se divertindo – Está ouvindo todo o tipo de som, não é? Vozes altas? – assenti com a cabeça e ela latejou de novo – Você agora pode ler mentes, como eu.
- Ah ótimo, temos dois desse em casa agora – Ramon, meu outro irmão, falou desolado e todos riram. As risadas soaram como uma platéia de stand up comedy minha cabeça.
- Ande, levante daí – Oleg me puxou pela manga da camisa e me arrastou pra fora da mesa de pedra – Ainda é seu aniversário e temos uma comemoração especial – notei que ele trocou um olhar travesso com Alec e Georgi, mas não consegui processar uma pergunta com aquela dor latejando.
- Oscar – vovô me deteve antes que chegássemos à porta e pôs a mão sobre a marca de nascença que tinha no pescoço – Tome cuidado.

Assenti outra vez, embora não tenha entendido o que ele quis dizer. Talvez soubesse, mas no momento não me lembrava. Vovô ia me perdoar por isso. Tinha a sensação que minha cabeça explodiria em mil pedaços a qualquer momento, não podia desperdiçar meus últimos minutos com ela pensando. E não pensar pareceu apropriado, uma vez que chegamos ao local da “comemoração especial” do meu aniversário. Era um estúdio de tatuagens. Acho que hesitei, pois eles me empurraram pra dentro do estúdio os três juntos, bloqueando qualquer possibilidade de sair.

- Você tem que fazer uma! – Alec me empurrou sentado numa cadeira e puxou a barra da calça, deixando o tornozelo a mostra. Tinha uma tatuagem nele – Eu fiz uma, você não vai amarelar.
- Não é isso, mas e se ficar ruim? Vou ficar com ela pro resto da vida. Literalmente.
- Deixe de ser fresco, Ozzy! – Oleg atirou um catalogo aberto no meu colo e apontou para uma das tatuagens.

Era um Uróboro, o símbolo da eternidade. O mesmo do tornozelo de Alec. Oleg arregaçou a manga da camisa e deixou o dele amostra também. Meu irmão fez o mesmo, mostrando o que tinha nas costas. Todos eram iguais. Eles haviam feito daquilo uma tradição da qual eu não sabia.

- Não seja uma mulherzinha – Georgi bateu em meu ombro com força – Ramon e Katarina também fizeram uma, não vai ser você a quebrar a corrente, não é?

Olhei para eles e entendi que não ia sair dali sem ela. O tatuador já estava com o aparelho com aparência letal na mão, me esperando. Olhei mais uma vez para a tatuagem no papel. Uma serpente engolindo a própria cauda. Tirei a camisa antes de reconsiderar e deitei na mesa, deixando que ele marcasse a parte de trás do meu pescoço com aquela agulha. A dor de cabeça pareceu insignificante comparada a ela, mas era tarde demais para voltar atrás. E eu também não queria. Era hora de começar a viver a vida do jeito certo.
We´re back, baby!

É isso ai, voltamos. Depois de um ano de hiatus, o blog Instituto Durmstrang dá início a uma nova fase. A história agora começa em 2014, ou seja, 14 anos depois que a última turma se formou.

São novas histórias, sem vínculos com as antigas, embora alguns rostos conhecidos serão vistos com certa freqüência.

Então sem mais enrolações, está oficialmente aberta a nova fase do Instituto Durmstrang.

Bem vindos, novatos!

Tuesday, March 09, 2010


Sunday, July 05, 2009

It's time to say goodbye...





~*~*~*~*~

Terminar um Blog é sempre triste, principalmente quando foi um Blog que criamos de uma hora pra outra, e da mesma forma se tornou um dos nossos favoritos. Nossos personagens sofreram em nossas mãos, mas todos cresceram com tudo que passaram e terminam os estudos com futuros promissores. Daqui pra frente, cada um continuará suas histórias no seu próprio espaço e o Instituto Durmstrang ficará fechado.

Para sempre? Claro que não. Logo ele será ativado outra vez, com novos personagens e novas histórias sinistras para contar, mas ainda não temos previsão de quando eles darão as caras por aqui.

Então enquanto os novatos não vêm, ficamos acompanhando as doideiras que os nossos bons e velhos personagens irão inventar agora que já são adultos formados e cada um tem as responsabilidades da carreira que escolheu.

Agora é cada um no seu quadrado:

http://www.fairytales-in-reverse.blogspot.com/
http://www.close-ward.blogspot.com/
http://www.sweet-sinister.blogspot.com/
http://www.redemption-word.blogspot.com/
http://www.just-for-boys.blogspot.com/
http://www.alchemist-boy.blogspot.com/
http://www.os-renegados.blogspot.com/

Sendo assim, declaro encerradas as atividades no Instituto Durmstrang, ao menos até que nosso juízo entre de férias e novos personagens passem das nossas mentes férteis para o papel.

Malfeito Feito.
"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, ria, dance, chore e viva intensamente cada momento de sua vida, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos."

Charles Chaplin



Depois da noite agitada de formatura, com a festa terminando mais de 2 horas da manha, havíamos combinado que ninguém podia dormir. Íamos passar nossa última noite em Durmstrang todos juntos, então depois que nossas famílias foram embora, nos reunimos na beira do lago. Vimos o dia amanhecer sentados na grama, encolhidos do frio e tentando nos aquecer com cobertores, enquanto falávamos bobagens, contávamos histórias e fazíamos planos para as férias. Havíamos todos passado a semana inteira adiando aquele momento, mas com o sol já iluminando os jardins, não podíamos mais deixar para depois: era hora de arrumar as malas.

Nos separamos dos meninos no caminho das repúblicas e antes mesmo de pisarmos na varanda da Avalon o clima já era de tristeza. Ao mesmo tempo que estávamos muito felizes pela formatura, estávamos tristes por isso significar ir embora para sempre. A república ainda estava silenciosa, a maioria das meninas dormia sem preocupação, apenas esperando a hora de tomar café e embarcar para as férias de verão, e subimos sem fazer barulho até o sótão.

Cada uma tratou logo de se ocupar com a sua cômoda e tentávamos não conversar, apenas se concentrar em dobrar as roupas e colocar na mala, para evitar que começássemos a chorar. Mas era como tentar evitar o inevitável. Não demorou muito e ouvi Milla fungar baixinho. Olhei para ela e mesmo estando de costas, sabia que estava segurando uma peça de roupa. Ao ouvir Milla ameaçar começar a chorar, Vina não agüentou e caiu em prantos, esfregando um cachecol no rosto. Abandonamos tudo e corremos até ela no mesmo instante.

‘O que foi, Vi?’ Nina perguntou segurando suas mãos.

‘Esse cachecol, ele... ele...’ Vina sacudiu o pedaço de pano e começou a chorar mais alto.

‘Vina, não estamos entendendo o que você está dizendo’ Falei tentando tirar o cachecol da mão dela, mas Vina o puxou com força e afundou o rosto nele.

‘Eu estava usando esse cachecol quando conheci o Victor e o Ricard!’ Vina falou com a voz abafada por ele e a abraçamos todas juntas ‘Eu não quero ir embora!’

‘Ai gente, é melhor arrumarmos essas malas logo, ou vamos inundar o quarto’ Annia se separou do abraço e voltou até sua cama.

Milla e Nina fizeram o mesmo, mas eu não sai do lugar. Minha atenção se desviou por alguns segundos para uma marca na parede atrás da porta. Caminhei até lá e sorri ao passar a mão nos rabiscos. Era onde marcávamos nossa altura, desde que nos mudamos para cá.

‘Lembram de quando começamos a marcar isso aqui?’ Falei apontando para a parede e todas pararam de arrumar as malas outra vez ‘Não consigo me lembrar o motivo’

‘Foi porque vocês falaram que eu ia ficar anã, pois não tinha crescido nada no verão’ Nina falou fazendo uma careta.

‘Ah é verdade, foi logo que começamos o segundo ano’ Milla parou do meu lado na parede e riu ‘Nina quis provar que estava crescendo e acabamos todas marcando a parede no começo de todo ano’

‘Uma pena que as novas moradoras vão acabar apagando isso’ Vina comentou dando um longo suspiro ‘Vou sentir tanta saudade desse quarto... Lembram como viemos parar aqui?’

‘Claro, como vamos esquecer?’ Annia riu ‘Fomos banidas aqui por matar o Bolhinha da mamãe’ Disse imitando a voz da Olga, a veterana que presidia a republica no nosso primeiro ano e rimos.

‘Aquela garota tinha sérios problemas’ Comentei voltando para minha cama e elas concordaram ‘Por causa daquele peixe idiota, tivemos um primeiro ano difícil’

‘É, ela não facilitou as coisas mesmo, mas a gente se divertiu muito aqui rindo pelas costas dela’ Milla completou e rimos.

‘Meninas?’ Ouvimos uma batida na porta e o rosto de Georgia apareceu pela fresta ‘Posso falar com vocês um minuto?’

‘Claro, Georgia, entre’ Nina respondeu e ela sorriu, entrando no quarto.

‘Não vou demorar muito, sei que estão ocupadas, só queria dizer algumas coisas’ Georgia respirou fundo, como se estivesse tomando coragem, e nos encarou uma a uma ‘Sei que fui uma vaca durante seis anos aqui e nunca ajudei vocês em nada, sempre arrumava um jeito de dificultar as coisas e hoje admito que fazia isso por inveja. Sempre tive inveja da amizade entre vocês, sempre tão unidas. Mas acho que nesse ultimo ano eu mudei e pude até conhecer vocês melhor, o que me permitiu descobrir que perdi seis anos onde poderia ter tido ótimas amigas. Enfim, só queria agradecer por terem me dado esse voto de confiança e dizer que, graças a vocês, hoje posso dizer que tenho amigos de verdade’

Georgia parou de falar e continuou nos encarando, mas logo abaixou os olhos. O primeiro contato que fiz foi com Vina, que deu de ombros parecendo um pouco perdida, então fomos olhando uma para as outras e abrimos um sorriso, indo todas juntas para cima de Georgia e a abraçando ao mesmo tempo, fazendo bagunça. Georgia acabou relaxando e riu.

‘Bom, eu acho que falo por todas aqui quando digo que, contrariando todas as expectativas, hoje também podemos chamar você de amiga’ Falei sorrindo e as meninas concordaram.

‘Mas você foi mesmo uma vaca’ Milla completou e Georgia riu ‘Muito vaca. De verdade’

‘Ok, acho que ela já entendeu, Milla’ Nina falou olhando séria para Milla e rimos.

‘Eu sei, e peço desculpas por qualquer transtorno que tenha causado a vocês’ Georgia falou sorrindo, mas se apressou em secar uma lágrima que queria escorrer ‘Obrigada por tudo que vocês fizeram por mim esse ano, meninas. Não se assustem muito, mas eu amo vocês, ok?’

‘Oohnn!’ Fizemos caras de tia apertando sobrinho fofo e abraçamos Georgia de novo, que acabou não conseguindo conter o choro. Quando nos afastamos ela tinha o rosto todo molhado e o abanava tentando não piorar a situação.

‘Agora preciso ir, ainda quero passar no teatro uma última vez e me despedir do professor Ivo’ Ela sorriu secando o restante das lágrimas e abriu a porta ‘Nos vemos no trem’

Georgia saiu do quarto e depois de nos recuperarmos do choque, demos um tempo nas recordações e voltamos a arrumar nossas malas. Já estávamos acostumadas com o processo de desfazer nossa bagunça nas gavetas e amontoar tudo em uma única mala, mas sempre sem preocupação caso ficasse alguma coisa pra trás, afinal, íamos voltar dentro de dois meses. Agora era diferente, não podíamos esquecer de nada e só de pensar que o motivo era porque não voltaríamos nunca mais, dava até um aperto no coração. Mas cada uma seguiu com a sua arrumação em silencio, controlando a vontade de chorar, e uma hora depois nossas malas já estavam fechadas em cima das camas e as gaiolas com gatos e corujas encostadas no canto perto da porta.

‘É, acho que terminamos’ Nina falou olhando ao redor do quarto ‘Não faltou nada, empacotamos tudo’

‘Mas então porque estou com a sensação de que está faltando alguma coisa?’ Vina suspirou, sentando na beirada de sua cama.

‘Podíamos deixar um registro nosso... O que acham?’ Milla sugeriu.

‘Claro, vamos pixar uma propriedade particular, papai vai adorar’ Annia falou com sarcasmo e rimos.

‘Mas já riscamos a parede, que mal vai fazer mais um pouco de tinta?’ Nina falou dando de ombros ‘E o que pode acontecer? Sermos expulsas?’ E rimos.

‘Se Nina Olenova está dizendo que devemos fazer isso, então é porque não é ilegal’ Falei já animada, puxando uma pena da bolsa ‘E esse quarto foi nosso primeiro, ninguém esteve aqui antes, é nosso direito’

‘Certo, tudo bem!’ Annia se convenceu ‘Mas o que vamos fazer? Só deixar nossos nomes?’

‘Que tal deixar um recado pras próximas gerações de isoladas que morarem aqui?’ Sugeri com um sorriso no rosto e entreguei a pena a Vina ‘Sua letra é mais bonita, você escreve’

‘Escrevo o que e aonde?’ Vina pegou a pena e perguntou.

‘Aqui atrás, assim não fica visível e na primeira arrumação do quarto, elas encontram’ Milla arrastou a cômoda que ficava encostada na parede da janela para o lado, liberando um espaço limpo.

Nos ajoelhamos perto da parede e perdemos um tempo decidindo o que poderíamos escrever, mas logo já sabíamos exatamente o que fazer. Vina molhou a pena no tinteiro e encostou a ponta na parede, começando a desenhar as palavras.

“Atenção, novatas,

Vocês agora são donas de um quarto mágico, e com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. Ele não é um quarto qualquer. Aqui, fortes laços de amizades foram construídos. E devemos tudo a esse quarto isolado do resto da república, que permitiu que nos conhecêssemos melhor. Aqui nós crescemos, amadurecemos, regredimos, choramos, rimos, rimos uma das outras, brigamos, fizemos as pazes, nos apoiamos, nos consolamos, sofremos, nos magoamos, juramos odiar garotos, percebemos que não vivemos sem eles, bolamos planos que nunca foram para frente, perdemos pessoas queridas, acolhemos novos amigos, ficamos sem chão, encontramos uma mão que nos puxasse de volta, dividimos momentos bons e ruins, superamos obstáculos, enfim, aqui fomos muito felizes. E esperamos que todas as gerações de meninas que dividam esse quarto daqui pra frente, possam passar por tudo que passamos e tenham uma à outra para se apoiar e chegar ao fim dos sete anos de estudo com a certeza de que fizeram amizades para a vida inteira. Porque nós fizemos.

Boa sorte.

Evie Stanislav, Milla Kovac, Vina Durigan, Annia Ivanovich e Nina Olenova. As meninas da Avalon.”

Vina terminou de escrever e assinamos nossos nomes, arrastando o móvel de volta para o lugar. Ficamos de pé e enfeitiçamos nossas malas e gaiolas para descerem sozinhas, enquanto olhávamos uma última vez para aquele cantinho que nos proporcionou tantos momentos inesquecíveis. Não dava mais para enrolar, era a hora de deixar as lembranças para trás e seguir em frente. Nina sacudiu a varinha fechando as cortinas e nos abraçamos, saindo juntas do quarto enquanto eu fechava a porta com o pé, sem olhar mais para trás.


The End.

Os exames foram como estavam previstos que seriam: uma loucura. Tentávamos manter a sanidade entre uma maratona de estudos e outra, mas cheguei a duvidar que tivéssemos êxito caso eles se prolongassem muito mais.
Felizmente, como todas as outras semanas estavam sendo, eles terminaram e nos deixaram um gosto ainda mais amargo na boca: o da despedida. Agora faltava pouco menos de uma semana para irmos embora de Durmstrang e tudo parecia ter adquirido um toque nostálgico entre os formandos.

- Vou sentir saudades daqui. Foi minha casa durante todos esses anos. Não sei como vai ser em Julliard e se vou conseguir me adaptar...

Geórgia comentou cabisbaixa enquanto caminhávamos de mãos dadas entre as fileiras do teatro – que já havia sido preparado para a nossa apresentação de “Rent” àquela noite. Nos sentamos em duas cadeiras da primeira fileira e não nos encarávamos, pois ambos tinham os pensamentos distantes agora. Vários minutos se passaram dessa maneira.

- O que vamos fazer? – ela perguntou com a voz baixa virando a cabeça para o meu lado e a encarei.
- Em relação a...?
- A nós dois. O que vamos fazer depois que nos formarmos? Eu vou estar em Nova York e você vai continuar aqui, trabalhando para o Ministério. Quase não vamos ter tempo e vamos estar longe um do outro.

Eu estava preparado para aquela pergunta. Durante os últimos dias, ela vinha me assombrando e, agora que ela pairava no ar como uma barreira invisível entre nós, eu só conseguia ficar calado. Sem tirar os olhos dela, respirei fundo antes de responder.

- Acho que a pergunta certa não é essa, porque para distância e tempo eu posso propor várias soluções. A pergunta é: você quer continuar comigo depois que nos formarmos? Mesmo com todos esses problemas?
- Você quer? – ela era realmente engraçada quando se sentia encurralada por alguma coisa. Devolveu a pergunta de imediato para mim e parecia incerta agora. Ri e ela acabou relaxando e rindo também.
- Bem... Durante todos esses anos em Durmstrang, eu sempre fui uma espécie de cupido e espectador dos casais que meus amigos formavam. Nessas posições, era muito fácil dizer para eles que “se gostassem realmente, tudo seria muito fácil de resolver”. E tudo isso sempre fez sentido para mim, até conhecer você. – a encarava com firmeza e pude ver seus olhos vacilarem um pouco, mas ela disfarçou.
- Então, gostar realmente não foi o suficiente comigo? Não vai ser, quer dizer. Eu sei, eu te entendo. Além de tudo, serão outras circunstâncias e virão outras pessoas... Não podemos prever nada. – ela disparou a falar e segurei seu rosto com firmeza para fazê-la parar por uns instantes.
- Você, como sempre, precipitada em conclusões. – ela sorriu e colocou as duas mãos sobre as minhas ainda em seu rosto. – De fato, todas as teorias perderam o sentido com você porque você, dentre todas as outras até hoje, foi a única que me fez entender todos os meus amigos, quando se viam em crises tempestuosas por problemas aparentemente minúsculos.
- Se eu sou muito precipitada, você poderia ser menos redundante agora? Estou ficando um pouco perdida no meio de tantas conclusões.
- Ok. Rápido e direto, então. Você me perguntou se eu quero continuar com você depois da formatura, certo?! Então a minha resposta é: sim. Sim, Geórgia Yelchin. Eu definitivamente quero continuar com você, mesmo que tenha que começar a praticar mais minhas aparatações para longas distâncias e... eu REALMENTE gosto de você. – finalizei de uma vez e o brilho em seus olhos se intensificou à medida que abria um largo sorriso.
- Eu também quero continuar com você, ou pelo menos tentar. E eu também gosto muito de você, Ricard. Mais do que imaginei que fosse gostar no começo. Somos tão previsíveis, não acha? – rimos.

---

A peça havia sido um absoluto sucesso. Mais uma vez, Geórgia tinha razão sobre a maravilhosa sensação que era estar em cima de um palco. Enquanto realizávamos nossas performances musicais, via os vultos negros na platéia se movimentarem agitados conosco e, quando ela terminou, todos estavam de pé e aplaudiam freneticamente.
As cortinas finalmente se fecharam na nossa frente e todos começavam a entrar para os camarins. Do outro lado, a platéia ainda estava barulhenta e eu soube que era só uma questão de tempo até que todos nossos amigos invadissem os bastidores... Geórgia e eu ainda estávamos no meio do palco nos encarando. Me aproximei dela e sorrimos maliciosamente. Ouvi vários passos pesados subindo as escadas.

- Vamos ver o que eles vão achar disso.

Dizendo isso, puxei Geórgia ao meu encontro e a beijei longamente, entrelaçando minhas mãos em seus cabelos. As cortinas se abriram e, imediatamente, ouvimos vários sons de assovios e aplausos ao redor, mas não demos importância. Mais do que tudo e todos, estávamos selando um compromisso. Ou, melhor dizendo: estávamos lançando nossa sorte no ar e, dali para frente, tudo seria como deveria ser.

ººººº

Lavínia estava sentada sozinha nos fundos da Avalon e quando me aproximei ela nem virou o rosto para mim. Continuou calada observando a noite escura enquanto me sentava ao seu lado.

- Nós precisamos conversar. – disse com simplicidade, mas ela não se moveu.
- Estou escutando.
- Não, Vina. – respondi com um pouco mais de firmeza puxando seu braço. Ela me olhou assustada pela atitude, mas logo abaixou os olhos para o chão, irredutível como sempre. – Dessa vez, não estou aqui para dizer que você está errada; e não quero falar comigo mesmo enquanto você finge me ignorar. Eu quero que você fale comigo também, como um diálogo.
- O que você quer que eu diga Ricard? Durante todo esse ano você vem agindo como se não fosse a mesma pessoa. Saindo com pessoas estranhas para se auto-afirmar e me afastando de você sempre que eu fazia uma tentativa. Então... o que exatamente você quer que eu diga agora? Que eu sempre sou a errada e que não sei de nada do que é melhor pra você? Ótimo. Sou. Satisfeito agora? – seu rosto adquiriu tons salpicados de vermelho.
- Sim. Por incrível que pareça, estou satisfeito. E vou te dizer o motivo: você não mudou nada. Continua agindo exatamente como uma mãe super protetora que, só porque o filho não contou sobre a nova namorada, decidiu que a melhor coisa a se fazer é um bico. – ela abriu a boca para responder, mas a cortei. – Não precisa ficar brava por ter que admitir quem você é, Vina, porque você esteve certa o tempo todo. Durante todo esse tempo, eu quis forçar alguém que eu não era com pessoas que não tinham nada a ver comigo. E te afastei sim, mas não porque você não sabe o que é melhor pra mim e sim porque você sabe exatamente. Eu não queria continuar escutando todas aquelas verdades de você e continuar fingindo que eram calúnias e escândalos imbecis que você fazia para chamar minha atenção. Enfim. Você é a certa e eu sou o idiota.

Enquanto eu falava, notei que sua expressão ia mudando drasticamente. Passou pela raiva, pela mágoa, pela surpresa, e agora estava estagnada em uma espécie de piedade. Eu sorri.

- Você é minha melhor amiga, e é insubstituível, entende isso agora? Você é chata, intransigente, mandona, orgulhosa, teimosa... Lavínia. E eu não quero me formar com esse clima estranho entre nós. Nunca me perdoaria por isso. Então, por favor, me perdoa? – perguntei em tom suplicante e ela sorriu finalmente, aliviada.
- Eu pensei que fosse morrer se tivesse que passar toda a nossa formatura te ignorando e tratando como um estranho. E você sabe que eu ia conseguir. Sou sim teimosa, mas você é um ignorante e sem noção! Não faça mais isso, ok? Nunca mais. – ela deu socos leves no meu peito e me abraçou com força em seguida. – Senti saudades das suas ironias.
- E eu senti saudades dos seus palpites... Aliás... O que achou da Geórgia?
- Você não poderia ter escolhido uma pior. Parabéns. Mas, eu acho que posso me acostumar com isso. – ela respondeu em tom de brincadeira e rimos, enquanto colocávamos toda a conversa em dia.

Certas coisas nunca mudariam.

ººººº

- Durigan, Lavínia.

Me levantei da cadeira tremendo, enquanto Ricard acabava de voltar e agora se unia à chuva de aplausos que meus amigos puxavam.
Durante anos, havia sonhado com aquele momento. Durante anos eu soube exatamente o que iria querer fazer, depois que estivesse formada.

Você é mesmo uma contradição, Lavínia”, dizia para mim mesma enquanto apertava meu diploma entre a mão.

Agora que aquele momento de “ser quem eu sempre quis ser” finalmente havia passado, eu percebia a fraude por trás de tudo. Eu não queria me formar, nem tampouco ser adulta. Não queria ter que deixar o único lugar onde fora feliz de verdade, para sempre. E, definitivamente, não queria ter que encarar a realidade de todos esses fatos. Mas, enquanto caminhava de volta à minha cadeira, encontrei o olhar de Vlade – que, nesta noite, estava junto da família de Victor e sorria triunfante abraçado à Christine e aquela cena me fez rir.

Sete anos haviam se passado e, por mais relutante que estivesse para admitir naquele momento, eu mal podia esperar pelos próximos anos que estavam por vir.

ººººº

Depois que Gina, Milla e Ty terminaram seus discursos, os diretores começaram a chamar nossos nomes para recebermos o diploma. Ao meu lado, Ricard e Vina já comemoravam suas formaturas com os diplomas na mão. Eu, pelo contrário, me sentia anestesiado. Ainda não conseguia acreditar que aquela seria minha última noite no castelo.

- Neitchez, Victor.

Acordei dos devaneios quando uma zorra se instaurou ao meu redor e Ricard me cutucou com violência para que me levantasse. Após receber o canudo e agradecer todos os professores, me parei um instante até encontrar minha família. Não foi difícil; grande e pouquíssimo discretos como era sempre, se destacaram entre os outros e sorriam orgulhosos para mim, que retribui. Assim que me sentei novamente, Vina me puxou para um beijo extasiado e, quando nos afastamos, nos encaramos por breves segundos – que foram o suficiente para mim.

Eu tinha ao meu lado tudo o que precisava para ser feliz, e devia tudo ao Instituto Durmstrang.

It's time to change;
throw out the books and start again.
Break all the rules,
fall on your face, don't be ashamed.
You can't waste more time,
'cause you've been gone for far too long;
Trapped in his arms, safe without harm,
Follow your heart, don't be afraid.

Don't hideaway,
'Cause I know that you've got what it takes;
I believe you can be what you wanna be.

Let yourself go, don't you worry about a thing;
Breaking the chains, so hard to begin,
Follow your heart, don't be afraid.

Hideaway – The Corrs

FIM.

N.A.: Essas três letras aqui em cima estão me assustando. Muito. Juro que ainda consigo lembrar, com detalhes, do dia em que decidimos criar a Durmstrang. E de como os perfis foram surgindo na minha cabeça de imediato...

Terminar mais uma etapa é uma conquista indescritível e, como sempre, só tenho a agradecer essas três pessoas que continuaram aqui, comigo, dividindo as loucuras. Óbvio que esse “fim” é só simbólico, afinal, as histórias vão continuar, mas... And, Ju, Renan... com vocês, “formar” perfis de personagens até eles se “formarem” é uma diversão constante. OBRIGADA!!!

Para demais leitores e personagens... Até mais.

Tandi.

Wednesday, July 01, 2009

‘Hoje meus amigos, nossas vidas começam. E eu pelo menos, não vejo a hora de começar minha nova vida. Parabéns aos formandos da turma do ano 2000’

Ty encerrou seu discurso e ficamos todos de pé, aplaudindo entusiasmados. Ele voltou para a cadeira ao lado de Miyako e o diretor deu inicio a entrega dos diplomas, começando por Hogwarts. Depois foi a vez dos alunos de Beauxbatons e os de Durmstrang encerraram a cerimônia. Ivanovich ia nos chamando um por um e entregava pessoalmente os diplomas. Ouvi meu nome ser chamado e levantei depressa, caminhando até o palco. Ele me cumprimentou, apertando minha mão com entusiasmo, e quando ia descer troquei um olhar rápido com Michael e Andrea, que sorriam orgulhosos. Connor estava de pé na cadeira e se dividia entre fazer sinal de positivo com as mãos e aplaudir.

‘Georgia Eustace Yelchin!’ Ele chamou o último nome e Georgia foi até o palco, enquanto eu assobiava.

O diretor entregou seu diploma e ela o abraçou sem cerimônias, erguendo o canudo para a platéia quando ia descer e fazendo todo mundo aplaudir animado. O diretor parecia um pouco constrangido com o abraço inesperado, mas se recompôs e voltou ao microfone.

‘Senhoras e senhores, a classe de 2000!’ Ele anunciou animado.

Todas as três turmas ficaram de pé mais uma vez e, em um único gesto, atiramos os chapéus de feiticeiros para o alto, colorindo o ar de vermelho, azul e preto.

*****

A festa de formatura já havia começado há horas e depois da surpresa de ver a banda da Jolie no palco abrindo o show dos Duendeiros, nos divertíamos rindo uns dos outros com aquelas roupas malucas inspiradas nos anos 80. Evie e eu formávamos um par bem incomum, porque eu estava vestido de Michael Jackson e ela com uma roupa baseado no filme Flashdance. Shannon também não ficava de fora do Hall da Vergonha, usava uma roupa rosa choque inspirada na Madonna e Ty provava que não tinha vergonha nenhuma, vestido de Prince. O mais normal era Gabriel, que usava uma roupa inspirada no Cazuza.

Depois de algum tempo tocando, o vocalista chamou no palco o Ben O’Shea e as meninas foram ao delírio. Ele cantou algumas musicas antigas com eles e nós estávamos bem na frente do palco, cantando empolgados, quando eles fizeram uma pausa repentina e ele parou bem na nossa frente com o microfone na mão.

‘Pessoal, vou cantar uma música que é um ícone dos anos 80, é um sucesso que vai atravessar gerações e quem souber a coreografia pode fazê-la, vai ficar muito legal’ Ben O’Shea anunciou e apontou para mim ‘Você aí Michael Jackson, preparado?’ E uma luz forte iluminou o lugar onde eu estava.

Ty e Chris começaram a rir atrás de mim, mas agarrei a mão de Evie e a de Shannon e elas seguraram a mão deles antes que pudessem recuar.

‘Estamos sim’ Respondi alto e comecei a caminhar para o meio do salão com eles.

Ty e Chris vinham puxando Victor e Gabriel, que também se agarraram a alguém e a fila ia aumentando. Quando os Duendeiros começaram a tocar Thriller, o salão já estava lotado e todos organizados para a coreografia, que foi puxada por Shannon e eu.

Quando a música chegou ao fim todo mundo aplaudiu dando muitas risadas e eles voltaram a tocar outros sucessos dos anos 80, mantendo a pista animada. Vi Michael e Andrea saindo da pista ainda rindo e puxei Evie para fora dela um pouco, indo atrás deles.

‘Dançou bem, Michael!’ Falei me aproximando deles ‘Não sabia que tinha ritmo’

‘Está pensando o que, rapaz?’ Ele respondeu fingindo indignação ‘Isso ai embalou minha juventude, podia até ter puxado a coreografia!’

‘Ah, essa eu ia querer ver!’ Andrea falou rindo e me abraçou ‘Micah, nós não vamos demorar muito a ir embora, Connor já está dormindo na mesa’ E indicou meu irmão desmaiado nas cadeiras ‘Se não conseguir me despedir de você e seu irmão, nos vemos em casa’

‘Vou avisar ao Wes que vocês já estão indo, digam ao Connor que não me despedi dele para não acorda-lo’ Dei um beijo no rosto dela e apertei a mão de Michael, voltando para a pista com Evie depois que ela se despediu deles também.

‘Por que não os chama de mãe e pai?’ Evie perguntou quando já estávamos mais afastados ‘Sei que eles não são seus pais de verdade, mas é tão estranho ver você os chamando pelo nome’

‘Eu já tentei, mas ainda não consigo’ Disse sincero ‘Me dê mais um tempo, eu chego lá’

Ela sorriu e apertou minha mão, me guiando para a mesa de sua família, que estava vazia. Todos os seus tios e primos estavam soltos no meio do salão, dançando empolgados, e aproveitamos o momento para ficar um pouco a sós. Da mesa podíamos ver os gêmeos Mario e Diego tirando as jaquetas e girando no ar como se fossem fazer um strip-tease, enquanto suas tias e primas gritavam agarrando os dois, provocando muitas risadas das pessoas em volta.

‘Sua família é louca’ Comentei com a cabeça deitada no colo dela, observando a bagunça.

'Está preparado para fazer parte dela?' Ela me perguntou, rindo.

'Não vai ser fácil, seus primos não vão pegar leve comigo, mas estou pronto para encarar a tropa' Levantei do colo dela e alisei seu rosto 'Quando decidi me transferir pra cá, não foi com a melhor das intenções. Vim com um pensamento ruim na cabeça, de vingança, mas não me arrependo de nada. Por mais que a idéia fosse estúpida, vir para cá na tentativa de ferir Josh permitiu que conhecesse você, a pessoa que hoje é a mais importante na minha vida. Se pudesse voltar no tempo, talvez mudasse algumas coisas, evitasse algumas brigas, mas faria tudo de novo para estar onde estou hoje'

'É, apesar dos acontecimentos que levaram a gente até aqui, também não me arrependo de nada e faria tudo de novo se fosse preciso' Ela segurou meu rosto também, sorrindo 'Obrigada por ser tão idiota a ponto de tramar um plano de vingança e vir para cá'

'Disponha' Sorri de volta e a beijei lentamente.

'Ei, pombinhos!' Ouvimos a voz de Ty e senti alguma coisa me atingir nas costas. Era um pedaço de pão 'Deixem isso pra depois da festa, estamos reunindo todo mundo na frente do palco para uma foto das turmas, vamos!'

Atirei o pedaço de pão de volta em cima dele e levantamos, o seguindo até a frente do palco. As três turmas já estavam lá, tentando se organizar por escolas. Demorou um tempo, mas conseguiram separar os alunos entre Hogwarts, Beauxbatons e Durmstrang e o fotógrafo começou a tirar as fotos. Depois ele mandou que nos misturássemos e foi a maior confusão. Era aluno correndo pra todo lado, procurando os amigos que haviam feito nas outras escolas e a sessão de fotos foi uma bagunça, com Ty pendurado em cima de mim enquanto eu tentava me jogar em cima de Gabriel. Victor encenava um beijo de cinema com Vina e as meninas se amontoaram em cima de Miyako, Beatrice, Gina e Shannon, em um montinho gigante. Ricard estava abraçado a Georgia, Chris, Wes, Dario e Griffon enforcavam um ao outro e Julianne estava pendurada nas costas de Reno, enquanto Seth carregava Luna no colo.

No meio da sessão de fotos malucas, parei um instante para olhar para aquelas pessoas rindo e brincando a minha volta. Percebi que aquela seria a última vez, por um bom tempo, que estaríamos todos juntos. O fotógrafo nos liberou e o nosso grupo se reuniu no canto do salão, enquanto Ty e Gabriel corriam até a mesa de bebidas, voltando com duas bandejas com taças de abóboras espumantes. Cada um pegou uma rapidamente e ergui minha mão primeiro, apertando a de Evie com a outra.

- Um brinde à melhor turma de formandos que já pisou nessa geleira, e que as amizades feitas aqui durem para a vida toda!

Todos ergueram as taças junto à minha para selar o brinde e viramos a bebida de uma só vez. Não sabíamos o que nos aguardava lá fora agora que estávamos formados e nos tornávamos, oficialmente, adultos. Não sabíamos também como seria não se encontrar todos os dias e estar sempre perto um do outro para as horas boas e ruins, mas de uma coisa todos tínhamos certeza. Sabíamos que as amizades feitas nesses últimos dois anos seriam para sempre. E agora era mais do que oficial: estávamos enfim, formados.

Tuesday, June 30, 2009

No dia da última tarefa, meus primos Hansein e Andrey vieram me visitar e passamos a manhã inteira conversando e visitando a escola. Eles são primos por parte de pai, uma vez que restam poucos da família da minha mãe. Mamãe e Julianne não puderam passar o dia conosco, uma por estar dando aula e a outra por estar tendo aula, logo ficamos nós três andando pelos terrenos da escola. Eles tentavam me fazer esquecer ao máximo possível a última tarefa e até conseguiram, pois quando voltamos para almoçar eu estava muito tranqüilo.

Na hora do almoço, Gabriel e Gina estavam com seus familiares e o mesmo para mim, de forma que almoçamos eu, mamãe, Julianne, Andrey, Hansein, Beatrice, Bram e Annia. Eles todos riam e tentavam me fazer esquecer da tarefa, mas como sempre meu humor começava a oscilar e às vezes eu respondia um pouco torto.

- Caramba, July, como você agüenta ele?! – Beatrice perguntou, rindo após eu ignorar uma pergunta de Andrey.
- Eu queria saber como o Bram e a Annia aturam na verdade. July é namorada, ela tem obrigação! – Hansein falou rindo, com forte sotaque búlgaro.
- Eu aturo só porque ele é Campeão de Durmstrang, é claro! Acha que eu estaria com ele se não fosse? – Julianne falou rindo, enquanto deitava a cabeça em meu ombro. Eu ri também e a olhei com os olhos estreitos.
- E eu só aturo você porque você é... Bonitinha. – Eu falei, olhando-a de cima abaixo. Ela riu também e deu um tapa no meu braço, antes de me beijar.
- Vocês se dão muito bem, um consegue aturar o outro, pronto! – Mamãe falou rindo de nós dois.
- Annia, ainda tem volta, tem certeza que quer passar mais alguns anos estudando com ele? – Andrey perguntou, rindo ao lembrar que iríamos para a mesma Escola no Cairo.
- Vocês não entendem, a Annia e o Reno são um caso antigo... Não se separam. – Bram falou implicando conosco. Annia deu um tapa no ombro dele, mas rindo.
- Claro, não sabiam não? Meu namoro com o John é fachada, eu gosto mesmo é do Reno! – Annia falou, deitando a cabeça em meu ombro também. – Sem ciúmes, ta July?
- Ciúmes? Pode ficar! – Julianne falou, empurrando-me para Annia, enquanto ria. – Aproveita e joga ele no Nilo, soube que tem crocodilos!
- Excelente idéia! Quando ele começar a perturbar demais eu jogo ele no Nilo!
- Mas me avisa antes pra eu te ajudar! – July falou rindo, enquanto eu revirava os olhos e abraçava-a pelos ombros.
- Se é pra se livrar desse chato, eu quero também! – Beatrice falou rapidamente, sendo ecoada por Hansein, Andrey e Bram.
- Bem tragam ao menos um pedacinho dele de recordação, por favor. – Mamãe falou, rindo conosco.
- Até você mãe! – Eu falei, fingindo estar chocado e triste.

Continuamos conversando por um tempo até mamãe ter que ir embora para terminar as últimas aulas da tarde. Como todos também tinham aula, com exceção de mim e de meus primos, eu acompanhei Julianne até a sua sala de aula, enquanto meus primos me esperavam no salão comunal, pois prometi que faríamos uma visita à vila vizinha.

- Pronto, boa aula, July. Espero que esteja pronta para ver seu campeão vitorioso! – Eu falei convencido. – É pra torcer pra mim!
- Vou torcer para todos, menos para você! – Ela falou, me dando um beijo longo. – Aproveite a tarde com seus primos pra se acalmar, sei que vai bem, e mesmo se não ganhar, já estou orgulhosa de você.
- Obrigado, July. Eu queria te falar algo importante. – eu falei, olhando em volta e tendo certeza de que não haveria mais ninguém no corredor. – Na verdade duas coisas.
- Está me deixando curiosa! – Ela falou, os olhos brilhando de curiosidade.
- Bem, a primeira delas. – Eu falei, puxando um saquinho do meu bolso. Eu fechei minhas mãos sobre ele e após um brilho metálico, despejei um conteúdo na mão dela. Ela abriu um largo sorriso. – Isso é para você, a partir do próximo semestre. É a chave do meu apartamento no Cairo. E quero a chave do seu. – Eu falei piscando o olho para ela.
- Eu irei providenciar com certeza, Reno. – Ela falou, debruçando-se em meu pescoço e me beijando novamente, com a chave apertada em sua mão. – E o que mais queria dizer? Não me diga um anel!
- Ainda não. – Eu falei e vi que seus olhos se iluminaram. – Mas um dia quem sabe? O que eu quero falar, é que eu decidi algo...
- Diga logo!
- Essa noite, independente do resultado do Torneio, eu assumirei o nome da família de minha mãe durante as entrevistas. A partir de hoje serei um Flamel. – Eu expliquei, sendo que já contara para ela toda minha história. Ela sorriu e me beijou novamente.
- Tem todo meu apoio. Que maravilha, dentro de alguns anos, serei a Senhora Flamel! – Ela falou rindo e foi minha vez de rir e beija-la também, despedindo-me em seguida.

Eu estava decidido, nessa noite diria ao mundo minha verdadeira origem, pensei enquanto apertava o último fragmento da Pedra de meu bisavô.

********

- Campeões a postos, quando eu apitar podem começar! Três, dois, um...

Ouvi Ivanovich apitar e disparei para minha entrada do labirinto, ouvindo as torcidas nas arquibancadas gritarem em nosso apoio, porém assim que atravessei o arco de sebe, o som morreu completamente e eu só conseguia ouvir o barulho da noite. Eu saquei minha varinha e o meu mapa, abrindo-o rapidamente e começando a lê-lo. Na parte de baixo do mapa haviam diversos números que eu identifiquei como coordenadas, vendo que marcava o lugar onde a taça estava. Com um toque da varinha no mapa, eu marquei o lugar onde ela deveria estar e me animei ao ver que era um caminho curto, começando a correr, um olho no mapa e outro no caminho.

Mal dei dois passos e tropecei em uma raiz, praguejando. Eu tomei impulso rapidamente para o alto, tentando me levantar, mas fui puxado para o chão novamente e assustado vi que a raiz ganhava vida e envolvia meu pé, puxando-me para os arbustos. Eu praguejei ao reconhecer Visgo do Diabo, apontando minha varinha para ele e gritando “Incendio”. Da minha varinha saiu uma pequena labareda e a usei para assustar o Visgo, que tem medo de fogo e luz. Eu me levantei, mantendo a labareda apontada para o Visgo e procurando o meu mapa.

Nessa hora meu coração parou, pois vi que um Crustáceo de Fogo estava bem em cima dele. O Crustáceo me encarava ameaçadoramente e eu estava cercado, pois de um lado havia o Visgo ainda tentando me atacar e do outro um Crustáceo pronto para lançar chamas em mim. Eu pensei rapidamente e conjurei um feitiço de proteção para o mapa, enquanto encarava o Crustáceo. Ele, porém irritou-se com meu feitiço e soltando uma espécie de rugido para mim, começou a lançar chamas contra mim. Eu praguejei, mas pensei rápido e me joguei no chão. A bola de fogo que ele lançou passou raspando por mim e atingiu o Visgo, e ouvi uma espécie de grito vindo da planta. A planta enfureceu-se e sues tentáculos jogaram-se contra o Crustáceo e eu aproveitei a oportunidade, pulando para frente e pegando o mapa, saindo correndo no mesmo momento.

Eu ainda podia ouvir o barulho de tentáculos me seguindo e me joguei em um buraco que vi na sebe, caindo em uma trilha. Eu transmutei a sebe, fechando o buraco e olhei o mapa novamente, que por sorte estava inteiro. Eu me guiei rapidamente e voltei a correr, furioso por ter perdido tempo. Eu virei uma esquina a toda velocidade e dei um encontrão em algo ou alguém, caindo no chão ao mesmo tempo. Levantei assustado e olhei perplexo para o Gabriel, que ajeitava os óculos me encarando surpreso.

- O que você ta fazendo aqui?! – Nós dois perguntamos juntos.
- Essa é a minha trilha! – Falamos juntos novamente, a tensão impossibilitando que caíssemos na gargalhada. Nesse momento ouvimos passos rápidos e nos viramos no mesmo momento em que Gina aparecia.
- O que vocês fazem aqui?! – Ela fez a mesma pergunta que começamos a fazer, e acabamos por rir um pouco. – Essa é a MINHA trilha!

Eu e Gabriel nos entreolhamos e sacamos o mapa rapidamente, e os dois praguejaram, correndo em direções diferentes e pude ouvir Gina falando alto enquanto corria “Homens, não tem senso de direção”. Eu abri novamente o buraco que havia fechado e olhei com cuidado, procurando o Visgo ou o Crustáceo, e comecei a correr, sempre olhando para trás, procurando-os.

Eu corri por mais alguns minutos, cada vez mais próximo da taça, mas a cada passo que eu chegava perto dela, mais armadilhas surgiam. Eu tive que enfrentar uma verdadeira turba de gnomos que ao me ver correram na minha direção gritando e balançando galhos como maças. Eu chutei um deles enquanto fazia um desenho com a varinha no chão, e ao tocar o círculo com minha mão, fiz uma espécie de cerca surgir do chão, prendendo o restante deles, correndo novamente. Pouco depois eu dei de cara com algo duro no ar e vi que era uma parede invisível. Tudo estava muito escuro e murmurei “Lumus”, sabendo que isso talvez me ajudasse. A parede piscou por um momento e apagou-se e eu tateei o ar, procurando-a, e ao ter certeza que ela tinha sumido, voltei a correr.

A todo momento eu me guiava usando o feitiço dos quatro pontos e o mapa e algo me dizia que estava muito próximo da taça, na verdade eu já podia vê-la em cima de um pedestal. Mas então encontrei meu maior desafio. De repente tudo ficou escuro e senti um forte calafrio e cheguei a assoviar ao ver o que barrava minha passagem. Um dementador. O monstro barrava meu caminho, sugando o ar e sentindo minha presença. Ele virou seu rosto sem face para mim e avançou, enquanto eu sentia suas energias negras me capturando. Eu dei alguns passos para trás, apenas para ganhar tempo e então pensei em Julianne e na Pedra em meu peito, enquanto falava “Expectro Patronus” e um lobo prateado saltava para o chão, rosnando para o dementador, que pareceu vacilar, o que deu tempo ao lobo de saltar, mordendo a pele de sombras dele. O dementador mergulhou entre os arbustos, desaparecendo. Nesse momento ouvi uma explosão seguida por uma cascata de luzes multicoloridas e sabia que alguém havia pego a taça, suspirando. Eu sorri ao olhar pra frente e ver Gabriel jogado em cima da taça, parecendo com dificuldade de respirar.

Eu corri para ele, preocupado, pois seu pé sangrava muito, apesar de ataduras que ele criara com um feitiço. Ele se assustou ao me ouvir chegando, apontando a varinha para mim, como se esperasse algum inimigo, mas respirou aliviado ao me ver.

- Gabriel! Você está bem? Não se mexa. – Eu falei enquanto me abaixava perto dele. Eu tirei meu cordão e segurei a Pedra, enquanto pressionava o machucado. Houve um brilho branco e as ataduras foram recolocadas, assim como o sangue estancado.
- Isso vai segurar o sangramento até sairmos daqui.
- Obrigado, Reno, muito obrigado.
- Meninos! – Ouvimos Gina gritar ao nos ver no pedestal. Ela sorriu para Gabriel e junto de mim nos jogamos em cima dele, abraçando-o enquanto ele gritava que o pé doía.
- Parabéns!! – Nós falamos juntos.
- Ai! Ai! Obrigado, mas o pé ta doendo! – Ele falou, enquanto ríamos. Eu e Gina o apoiamos e começamos a voltar para a saída do labirinto, que agora não possuía mais nenhuma armadilha.

Demoramos alguns minutos, pois Gabriel tinha dificuldades em andar e nós o apoiávamos, mas finalmente chegamos à saída do labirinto e ouvimos o berro das torcidas. Porém, elas calaram-se novamente, sem saber quem havia ganhado, pois saímos os três juntos.

- Eles não sabem quem ganhou. – Eu falei rindo, e Gina riu também, enquanto falava para Gabriel.
- Vai lá, Campeão! Mostra quem é o vencedor do Torneio.
- Preparado para a glória?! – Eu perguntei enquanto apoiava o seu peso, enquanto ele se preparava para levantar a taça.
- Não mesmo! – Ele falou ao levantar a taça com as duas mãos e a torcida de Beauxbatons explodiu em comemoração.

A torcida invadiu os gramados, sendo Seth o primeiro deles. Ele tirou Gabriel de nós e o abraçou, jogando-o para o alto em seguida. Gabriel gritou que o pé doía, mas Seth fingiu não ouvir e o colocou nos próprios ombros, elevando-o acima do mar de alunos que corriam para dar os parabéns. Os Diretores das escolas vieram nos dar parabéns e tratar decentemente do pé de Gabriel, para depois dispersar os alunos, mandando-os para o Banquete do Final do Torneio. Os Campeões foram levados para suas Repúblicas, onde poderiam tomar um banho e mudar de roupa, e fomos acompanhados de nossos familiares.

Mamãe me acompanhou até a Chronos, feliz e orgulhosa de mim. Enquanto eu tomava um banho rápido, ela ficou no quarto da república, preparando tudo para mim e assim que sai do banho, com a roupa para a noite, ela veio me abraçar, com lágrimas nos olhos.

- Estou tão orgulhosa, filho! Você se tornou um homem excelente, apesar de um pouco rabugento.
- Obrigado, mãe. Hoje estou muito feliz. Foi um dia cansativo e mesmo não tendo ganhado a taça, estou feliz, pois foi um deles, que são meus amigos.
- Excelente! Seu pai teria muito orgulho de você, assim como seu bisavô. Eu soube que usou um pouco da Pedra para ajudar o Gabriel. – Mamãe falou, prendendo o pingente com a Pedra em meu pescoço. Ela estava agora acima da roupa, com sua forma verdadeira, uma esfera vermelha perfeita. – Está pronto?
- Sim, hoje à noite assumirei nossa família. Chega de fugir, iremos honrar nossos familiares.
- Chega de fugir, chegou à hora de enfrentarmos o mundo de frente.
- E temos amigos que estão dispostos a nos ajudar sempre.
- Exatamente. Vamos? – Ela falou, indicando a porta e eu lhe dei o braço e seguimos para o grande salão.

No meio do caminho, encontramos com Gabriel e Gina e mamãe seguiu em frente, deixando os três campeões sozinhos. Nós sorrimos um para o outro felizes, e nos abraçamos novamente, as cabeças encostadas, sem precisar falar nada, pois cada um sabia que o outro estava feliz. Suspiramos juntos e entramos juntos no grande salão, sendo recebidos por uma calorosa salva de palmas e diversos flashes, quando os repórteres dos jornais do mundo inteiro corriam para tirar uma foto nossa. Eles queriam fotos dos três juntos, e depois começaram a tirar fotos de cada um sozinho, mas principalmente do Gabriel, que suava frio, principalmente quando começaram as perguntas da entrevista.

- Como se sente sendo o grande Campeão, Gabriel? – Um jornalista perguntou em inglês, com sotaque espanhol.
- Ainda não consigo acreditar. – Gabriel falou sem jeito.
- E você Gina, como se sente sendo a terceira colocada? – Outro jornalista, este americano perguntou.
- Estou feliz, consegui chegar até aqui com esforço e minhas forças! Estou muito feliz. – Ela respondeu, sorrindo sem jeito.
- E você, Renomaru, está triste por ter perdido a taça? – Um jornalista do Profeta Diário Búlgaro me perguntou. Dos três eu era definitivamente o mais descontraído e respondia as perguntas com facilidade.
- Eu estou feliz e orgulhoso também, pois perdi para um bruxo excelente, Gabriel merece todos os parabéns, pois foi um competidor de primeira. Gina, você também foi uma excelente adversária, e teria adorado que você tivesse ganho a taça também. – Eu falei ganhando um aceno de cabeça de Gina e um olhar de Gabriel, pois todos queriam tirar novas fotos dele. Gabriel começava a ficar roxo, e eu ri enquanto murmurava para ele.
- Vou salvar sua pele!
- Por Merlin, me tire daqui! – Ele falou, rindo para mim. Eu então levantei a mão pedindo atenção e todos me olharam curiosos. Vi os olhares de meus amigos em mim, todos curiosos, com exceção de Seth, Julianne, Ty, Annia e Bram que já sabiam o que eu faria.
- Gostaria de pedir a atenção de todos um momento. – Eu falei, enquanto aguardava todos se virarem para mim. Ivanovich sorriu, pois ele também sabia do que se tratava e prestou atenção em mim, após sorrir para minha mãe. Os jornalistas ficaram entusiasmados e começavam a rabiscar rapidamente com suas penas, anotando cada detalhe. – Essa noite é uma noite especial, não apenas por ser o final do Torneio, mas também por marcar uma importante mudança na vida de todos. Dentro de alguns dias, muitos de nós estarão se formando, deixando de vez o mundo da escola, e entrando para o mundo bruxo.

Eu fiz uma pequena pausa, dramática eu sei, enquanto os jornalistas anotavam meu discurso com velocidade.

- Tomaremos diversos rumos, em diversas carreiras diferentes, mas manteremos sempre o espírito de união que nasceu de nossa amizade. E mais, arrisco dizer que este Torneio cumpriu seu objetivo maior: o de aumentar os laços entre as escolas mágicas. Hoje estamos mais unidos do que nunca, então gostaria de dar os parabéns a todos os organizadores do Torneio. – Eu falei, fazendo uma reverência para a mesa dos professores, onde todos se sentavam. Vi sorriso no rosto de todos, admirados por eu estar falando tanto.
- Porém, esta noite é ainda mais importante para mim. Por dois motivos: primeiro deles, gostaria de apresentar-lhes, minha namorada, Julianne, que me ajudou ao longo deste Torneio, mostrando-me muitas coisas importantes. – Eu indiquei com o braço onde July estava sentada, enquanto ela corava ao receber vários flashes. – E que um dia se tornará a Senhora Flamel. – Poucos captaram aquele nome, mas consegui ouvir alguns cochichos quando falei o famoso nome. – Pois, esta noite, eu assumo para o mundo minhas origens, gostaria de anunciar a todos – Eu falei enquanto levantava o cordão, deixando a Pedra à vista de todos. – Eu me chamo: Renomaru GoldenSun Kollontai Flamel, bisneto de Nicolau Flamel. – Eu falei fazendo uma reverência, enquanto a Pedra brilhava rapidamente, chamando a atenção de todos.

Todos ficaram chocados enquanto assimilavam a notícia, o salão em silêncio, até o momento em que Seth e Griffon puxaram uma salva de palmas e todos ecoaram-na. As penas dos repórteres pararam de correr por alguns segundos, enquanto seus donos ficavam boquiabertos. Então eles se tocaram da notícia que eu estava dando e começaram a tirar dezenas de fotos minhas e da famosa Pedra, enquanto choviam perguntas para mim. Eu sorri para todos e passei a ignorá-los, indo sentar-me com meus amigos. Gabriel e Gina esquivaram-se comigo para as mesas e me agradeceram com um olhar, uma vez que agora os repórteres me perseguiam, mas foram logo afastados por Ivanovich que veio me dar os parabéns, assim como outros professores e alunos, todos curiosos com a Pedra. Após algum tempo, a comoção de repórteres ocorreu novamente, dessa vez por causa de Victor Krum, de Harry Potter e Fleur Delacour, que apareçam na festa. Começou então uma nova série de fotos, com os antigos campeões e os novos e ficávamos sem saber quem desmaiaria primeiro: Victor ou Gabriel.

Os dias de Durmstrang estavam chegando ao fim, e isso trazia um sentimento bom e ruim ao mesmo tempo. O último ano fora complicado e perigoso: eu tive minha cabeça a prêmio, e ainda está, para vampiros, a King & Shadows extrapolou todos os limites, houve intervenção Ministerial, intervenção dos Chronos. Mas acima de tudo, esse ano fora maravilhoso, pois eu conhecera ótimos amigos, que levaria para todo o sempre. Eu sentiria saudades de Durmstrang, de suas Repúblicas, de seus corredores, de seus terrenos... Durmstrang foi um importante passo para meu futuro e para meu crescimento.