Thursday, June 21, 2012

Mitchell

Após uma conversa com o psicólogo, resolvi procurar o professor Wade na sala que ele usava para nos dar aula do curso de Auror, e o encontrei conversando com Tyrone McGregor  e eles riam, deviam estar armando algum teste maluco para nós. Quando ele me viu, acenou para que eu entrasse.

- Hey, Callahan, o que houve?- disse o professor e eu estiquei o papel em branco decidido:

- Vim devolver o formulário. Não vou me inscrever para nenhuma Academia, senhor.

- Eu já esperava por isso, ser auror nunca foi sua primeira opção não é?

- O curso me fez aprender muita coisa não ssobre ser auror, mas sobre mim também. Eu ficaria satisfeito em ser seu colega e quem sabe, um dia, fazer parte do grupo tático, mas eu gosto muito mais de jogar quadribol, me sinto feliz. – vi quando ele passou uma moeda ao senhor McGregor, enquanto dizia:

- Você ganhou , Ty. Droga, odeio quando perco um dos bons. – e o McGregor riu:         

- Ele é um jogador bom demais para ficar indo atrás de bandidos, Micah. – e o professor Wade disse:

- O curso tem o objetivo de ajuda-los a decidir quem vai continuar conosco ou não. Você se sairia muito bem na Academia, mas sei que vai se sair melhor  rebatendo balaços. Qualquer coisa que precisar, me procure ok?

- Obrigado por tudo, senhor.- fui dispensado e quando comecei a sair, me lembrei de algo e quis saber:

- Professor me explica uma coisa...O crime de sequestro de uma criança prescreve? Mesmo que não tenha sido notificado?- e ambos ficaram em alerta, mas o professor Wade respondeu:

- Não, sequestro é um crime que não prescreve.E a notificação pode ser feita a qualquer momento.- fiquei olhando para os dois, assenti, e comecei a sair, quando o senhor McGregor me chamou novamente.

- Mitchell, há algo que você queira nos contar? Você sabe que Micah é do FBI e eu faço parte da Interpol, talvez possamos te ajudar alguma maneira...- pensei no que Oleg havia me contado sobre a família Ivashkov  e pensei que a melhor forma de proteger Leonora, seria ter ajuda das autoridades, mesmo que indiretamente. Fechei a porta e contei a eles tudo o que a minha namorada havia descoberto .


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Leonora, sexta feira à noite...


Quando acabei de ler os diários de minha avó, comecei a entender muita coisa. Não devia perder mais tempo em procurar Sasha e contar a ela a verdade  sobre nós duas. Olhei no relógio e vi que Mitchell iria demorar para voltar do treino, e como sabia que aquele era o horário que Sasha, costumava estar em casa, resolvi ir até lá e conversar com ela. Ele ficaria chateado comigo por eu não esperar por ele, mas eu teria que fazer isso sozinha.

Fui até a casa dela e quando estava chegando, vi que um homem saía pela porta da frente, e ficaram conversando de cabeças juntas por uns segundos, depois disso, ele segurou o rosto dela e lhe deu um beijo na testa e foi embora. Tudo estaria bem, se eu não o reconhecesse como um ex jogador de quadribol casado e com filhos pequenos. Não pude evitar de me sentir decepcionada.Ok, eu não tinha nada a ver com a vida dela, mas poxa, ela é minha mãe e estava agindo errado. Comecei a ir embora, quando ouvi meu nome ser chamado, me virei e vi Apolo vindo em minha direção.

- Olá, senhorita Leonora, como vai? Veio nos visitar?

- Sasha, deve estar ocupada, não deveria vir sem ligar antes...

- Não há problemas, amigos sempre são bem vindos. Venha, fará bem à patroa receber a sua visita, ela gosta muito de você e eu quero te mostrar os novos aparelhos da sala de ginástica, renovei tudo. - Eu adorava  Apolo,  e comecei a rir pela sua empolgação, que me lembrava muito de Robbie. Quando entramos na casa de Sasha, ela veio me receber toda animada e nós três começamos a conversar, e eu coloquei de lado por um tempo, o motivo real de eu estar ali, enquanto contava a ela sobre tudo que estava acontecendo na escola, os estudos, meus amigos, quando  Apolo comentou:

- E nosso amigo, deu alguma noticias sobre o tal detetive?          

- Não, TJ ainda não descobriu quem ele é, mas vai descobrir.

- TJ é o homem que saiu daqui agora há pouco,  quando  estavamos chegando? Achei que o reconhecia de algum lugar.

- Sim, é TJ McGregor. Rory e ele virão aqui amanhã, Apolo, é a sua vez de cozinhar.- vi o segurança assentir e não me contive:

- Este, TJ não  é casado?- e me arrependi, porque Sasha me olhou tensa, porém foi direta em sua resposta:

- Tenho consideração por você e só por isso vou esclarecer as coisas: Ele foi um cliente e depois se tornou meu amigo.  Rory é a esposa dele, e ela sabe tudo sobre a nossa amizade e não nos julga por isso. E amanhã, eles virão aqui, porque é dia de poker e desta vez, eu serei a anfitriã. - senti meu rosto esquentar.

- Desculpe-me , Mariska...Sasha.- me corrigi e ela me olhou séria:

- Não me lembro de haver lhe dito meu nome de batismo.-  percebi quando ela e Apolo trocaram olhares desconfiados e eu vi que devia esclarecer logo as coisas.

- É verdade, você não disse, foi o meu detetive que descobriu o seu nome e me contou.

- Porque você contratou um detetive para me investigar, Leonora? O que está acontecendo? É o homem que TJ está procurando?

- Sim, é. E não foi para investigar você especificamente, mas mulheres que tiveram bebês  em 31 de outubro de 1997, o dia em que eu nasci. Então ele descobriu que você havia sido mãe de uma menina nesta data, foi uma coincidência nós já nos conhecermos. – fiquei pasma quando vi seus olhos se encheram de lágrimas, mas ela as segurou, Apolo disse tenso:

- Porque está fazendo isso, garota? Não vê que a machuca?- e  Sasha o acalmou dizendo:

- Não se preocupe, meu amigo. Já passou muito tempo, dói menos. Sim, eu tive um bebê neste dia, mas  minha filha morreu, antes mesmo que eu pudesse segura-la...Morte súbita, é comum em bebês, foi o que me disseram.

- Quem é o pai da sua filha?- perguntei enfática e ela se esquivou:

- O bebê era meu, e de mais ninguém. Porque isso é importante para você?- e eu respondi:

- A filha de Christine Ivashkov morreu naquele dia.  -  vi que ela arregalou os olhos e olhou para Apolo, confesso que pensei que estava num filme da Disney e que ela milagrosamente ligaria os pontos, olharia para mim com reconhecimento e começariamos a cantar felizes, mas ela não o fez.

- Que absurdo! Você é filha deles, e está bem viva na minha frente, não sei porque quer saber da minha vida pessoal, acho que seria bom você ir embora, não estou gostando desta situação.- vi Apolo, se levantar com cara de poucos amigos, para me tirar dali, me aproximei dela, a olhei nos olhos e disse:

- Escute por favor: naquele dia, a filha de Christine morreu no berço, e ela não queria que George soubesse, então ela se aproveitou que uma mãe, estava muito dopada no leito de hospital e trocou as crianças. Você não entende? A  criança trocada naquele hospital era eu. Eu sou a sua filha.

- O que é que você está dizendo? Isso é surreal demais...- ela dizia me encarando, porém sem se deixar tocar.Embora, fosse dificil para mim, eu disse:

-Sasha, eu sei que é dificil de acreditar, mas poderiamos fazer um exame de DNA e ai tudo seria esclarecido, eu poderia inclusive saber sobre o meu pai... – ela começou a levantar a mão para me tocar, mas parou séria:

- Não! Isso não pode ser verdade, eu saberia se a minha filha tivesse sido tirada de mim. Você deve estar querendo irritar a sua mãe e o seu pai, e quer me usar para isso.  – eu ri sem humor algum.

- Eu poderia dizer a Christine que ela é um ogro e ela nunca iria ligar, porque não temos a menor afinidade, e George? Ele me despreza, porque sabe que não sou filha dele, acha que sou filha de um amante da Christine. Não nasci dela, nasci de você, e sinto muito que você não consiga acreditar. Eu acredito nisso, porque li os diários de minha avó e lá ela conta toda a situação, inclusive sobre a herança que ela fez chegar às mãos da minha mãe biológica. E eu sei que você recebeu uma herança alguns meses depois que eu nasci...- e ela me cortou:

- Sim, recebi uma herança de um parente e não de sua avó. Gostaria muito que esta história fosse verdade, Leonora, você é uma menina incrível, mas eu não sou a sua mãe, não poderia ser. Esqueça isso, e siga a sua vida, será melhor para todos.  – nos olhamos por alguns segundos  e eu me rendi, pois percebi que ela falava a sério:

- Peço desculpas pelo inconveniente, não queria aborrece-la. Adeus. – sai da casa dela e não olhei para trás. Eu só queria voltar para casa e dormir muito para esquecer este dia.


o-o-o-o-o-o-o-


A porta mal se fechou atrás de Leonora, e Sasha se atirou no peito do amigo, chorando. Apolo, a segurou com carinho e quis saber:
- Mariska, porque você fez isso? Aquela menina pode ser sua, porque não dar crédito a ela?
- Eu não queria acreditar quando ela começou a contar a sua história, mas quando ela falou sobre a herança, eu me convenci de que ela é minha.Céus, minha filha está viva, Apolo, e é linda, estou tão feliz por isso, é mais do que mereço.- recomeçou a chorar, e o homem a abraçou dizendo:
- Então porque você não disse que ela estava certa? Você chora até hoje pela sua menininha...
- Porque quando eu recebi aquele dinheiro, uma das condições fosse de que eu nunc a mais me aproximasse de George ou da sua família, e eu concordei sem nenhum remorso, estava magoada com ele, e havia perdido o que mais amava no mundo. Sim, eu sabia que era dinheiro da velha Leonora. Achei que era uma mãe  defendendo o casamento da filha e hoje percebo que não era isso. – como ele a olhasse confuso, ela explicou:
- Você não entende? Sem saber eu vendi a minha filha.


Continua....

Wednesday, June 20, 2012

Por Robbie von Hoult

Era a primeira vez que resolvia passar o fim de semana em casa desde março. Sempre preferia ficar em Durmstrang com Alec ou acompanhar as meninas em algum passeio do que passar dois dias em casa aturando meu pai questionando tudo que faço, mas meu namorado precisou ir para casa com o irmão e as meninas estavam ocupadas demais com seus próprios namorados, então resolvi encarar as criticas.

A casa inteira cheirava a carne cozida quando abri a porta da sala. Reconheceria aquele cheiro a quilômetros de distancia, alguém estava fazendo Hachee, carne cozida em holandês, o prato favorito de minha mãe. Segui o aroma até a cozinha e fui pego de surpresa ao ver mamãe sentada no balcão lendo uma revista e papai atrás do fogão mexendo nas panelas. O balcão estava uma bagunça, com os ingredientes do cozido espalhados por todo lado. Mamãe abriu os braços para que fosse até ela com um sorriso animado no rosto. Abracei-a apertado, estava morrendo de saudades, e sentei ao seu lado no balcão.

- O que está acontecendo aqui? – perguntei vendo a bagunça – Por que está deixando papai cozinhar? Está tentando se envenenar?
- Sua pouca fé me ofende, Robert – papai disse com um tom divertido, algo raro – Já esqueceu que era um forte concorrendo no concurso de Leonora?
- Eu sei que o senhor era um dos participantes, mas não lembro da parte do forte.
- Pois saiba que fui longe na competição e sou um excelente chef – ele pegou uma colher na gaveta e pegou um pedaço da carne, estendendo-a pra mim – Se não acredita, prove.
- Vá em frente, prove – mamãe me encorajou quando hesitei e peguei a colher.
- Uau, isso está mesmo bom – disse surpreso devolvendo a colher vazia.
- É claro que está bom, por que acha que sua mãe está comigo até hoje? Não é só pelo meu charme, mantenho-a comigo porque ela também se apaixonou pelo meu Hachee.
- É verdade, seu pai preparou esse prato em um jantar entre amigos para me convencer de que era um bom partido – mamãe disse rindo – Não acreditava muito nele, mas é tão raro encontrar um homem que saiba cozinhar que resolvi dar uma chance.
- E o resto é história... – papai completou e se debruçou no balcão para dar um beijo nela – Você sabia que o nome de sua mãe significa “Pura Beleza”?
- Que bonitinho, papai. Não sabia que era tão romântico.
- Seu pai sabe ser encantador quando quer – mamãe piscou para ele.
- Nunca julgue um livro pela capa.

Ele voltou à atenção ao Hachee, mamãe continuou folheando sua revista e puxei um jornal da mochila, abrindo no espaço limpo do balcão. Era o último exemplar do Aurora Boreal que havia salvado da destruição. Estava encucado com uma palavra-cruzada que sempre tinha nas edições. As perguntas eram as mais bizarras possíveis e estava convencido que não era uma simples brincadeira, que ele tinha algum significado. Estava encarando o quadro em branco há tanto tempo que mamãe já havia saído da cozinha e minha fixação naquele pedaço de papel acabou chamando a atenção de papai.

- O que está fazendo, Robert? – perguntou curioso.
- Não consigo concluir essa palavra-cruzada, é muito esquisita.
- É o jornal da escola?
- Mais ou menos... É um jornal clandestino, Lucian vem tentando acabar com ele, mas é pior que erva daninha. Quanto mais arrancamos, mais copias aparecem.
- Sou bom em palavras-cruzadas, diga o que tem ai.
- Sete letras. Amante de Morgana e inimigo de Artur – li a primeira pista.
- Accolon – ele respondeu de imediato e vi que cabia no espaço.
- Sim, serve. Muito bom pai!
- Mande outro.
- Oito letras. Condestável e um dos principais conselheiros de Artur.
- Bedivere – mais uma vez serviu.
- Cinco letras. Rei de Gaunes, irmão de Leonel, primo de Lancelot e de Heitor. Um dos que chegou ao fim da demanda do Graal.
- Boors – ele disse menos empolgado dessa vez, mas igualmente rápido – Filho, quem faz esse jornal?
- Ninguém sabe, mas definitivamente é um aluno – respondi e voltei a ler as dicas – Ok, esse é grande, 11 letras. Filho de Cador e que se tornou Rei após a morte de Artur.
- Constantino – papai respondeu sem nem pestanejar – Se não sabe quem faz esse jornal, por que está tão empenhado em completar isso?
- Porque acho que em algum lugar aqui, tem uma pista sobre o autor. Esse cara é muito arrogante, roubou os textos do Lucian e os publicou como se fossem seus, ele gosta de aparecer. Tem que ter uma pista.
- Talvez seja melhor não mexer com isso, não sabe com quem pode estar lidando.
- É um aluno, pai. Tem no máximo 17 anos, o quão perigoso pode ser? Vamos lá, só faltam mais alguns.

Papai hesitou em continuar me ajudando, mas acabou cedendo. Completamos todas as perguntas e vi que a palavra chave era Cinturão de Orion. Palavra estranha e sem sentido para ser o destaque de uma palavra-cruzada, o que só me deu mais certeza de que tinha algum significado oculto. A panela pediu a atenção de meu pai e deixei-o sozinho na cozinha, me acomodando no sofá e recomeçando a ler o jornal inteiro com mais atenção, mas depois de alguns minutos ele apareceu na sala e o tomou de minha mão.

- Pai! Estava lendo isso! – tentei pegar o jornal de volta, mas ele não deixou.
- O que está fazendo, Robert?
- Tentando descobrir quem é o autor do jornal, já disse. Cinturão de Orion é uma constelação e não tem nada a ver com esses nomes malucos que você ditou como resposta, não é possível que seja só uma simples palavra-chave.
- Está perdendo seu tempo com isso, quando devia estar se dedicando ao seu futuro – e já ia começar o sermão.
- Eu estou! Jornalismo investigativo! Isso é uma profissão decente, não acha? – respondi irritado.
- Você nunca se interessou por jornalismo, só está dizendo isso para justificar essa perda de tempo! – e sacudiu o jornal na minha cara – Está perdendo tempo com jornalismo quando deveria estar se preparando para a audição na Julliard!
- O que? – baixei o tom de voz em estado de choque.
- Não foi sempre esse o seu sonho? Conseguir uma vaga nessa academia? – assenti ainda em choque – Então por que não está se preparando?
- Eu não... Pensei que... Por que está me cobrando isso? Você sempre disse que arte é uma perda de tempo.
- Bom, eu não acho mais. Não quero que escolha uma profissão só para me agradar e acabe a vida inteira infeliz por isso. Se o que você quer é entrar para Julliard, vou lhe apoiar.
- Não sei bem como reagir a isso.
- Que tal começar a se preparar? Anda praticando no piano?
- Sim, pratico toda semana.
- Até quando é o prazo para enviar o vídeo de inscrição?
- Acho que semana que vem. Por quê?
- Porque vamos gravá-lo hoje. Vá para o piano agora mesmo, vou buscar a câmera.

Papai subiu as escadas correndo com o jornal na mão e quando desceu não estava mais com ele. Não vi alternativa senão sentar na frente do piano e praticar um pouco. Mamãe sentou ao meu lado para me ajudar a corrigir o que precisasse e papai ligou o laptop e ia lendo as perguntas da ficha de inscrição em voz alta para que eu respondesse e ele digitasse. Ele me filmou tocando Sonata ao Luar e lacrou tudo em um envelope pardo, garantindo que segunda-feira pela manhã estaria no correio.

Todo o apoio de papai e sua determinação em me fazer conseguir a vaga em Julliard eram ótimos, pela primeira vez em anos estávamos nos entendendo e curtindo a companhia um do outro sem brigas, mas em momento algum me esqueci do jornal. A reação dele enquanto me ditava as respostas não passou despercebida, ainda mais depois da explosão na sala quando o tomou da minha mão.

Optei por não tocar mais no assunto para não comprometer o fim de semana, mas quando pisei de volta em Durmstrang no domingo à tarde, a primeira coisa que fiz foi correr até a Kratos para falar com Lucian. Ele estava com Lenneth na sala quando entrei e expliquei toda a história, desde as respostas esquisitas da cruzada, a palavra-chave sem sentido e a reação de me pai. Ele ouviu a tudo calado e pela sua expressão, sabia que estava convencido que tinha algo maior acontecendo.

- Tem alguma ideia do que pode ser isso? – perguntei ansioso.
- Talvez, mas não posso dizer, não sei até que ponto é seguro – disse misterioso e achei melhor não insistir. Investigar tudo bem, me colocar em risco nem pensar.
- Cinturão de Orion pode ser algum tipo de senha.
- Acham que tem algo a ver com Orion? – Lenneth perguntou falando baixo.
- Não, não acredito que seja ele – Lucian não parecia inteiramente convencido quando falou – Mas em todo caso, não coloco minhas mãos no fogo.
- Se isso é uma senha, é usada em que? – ele perguntou.
- Onde quer que ele use para fazer o jornal. Lembra quando ele publicou alguma baboseira sobre aptos a ajudar encontrarão o caminho? – eles assentiram – E se o caminho inclui uma senha?
- Mas como saber para onde ir? – Lenneth perguntou.
- Correndo o risco de soar como teoria da conspiração... – eles riram – Acho que a localização muda sempre, e cada edição vem dizendo onde encontra-lo na próxima vez.
- Acha que tem algum enigma espalhado pelas matérias? Isso faz sentido... – Lucian agora havia embarcado no meu delírio.
- Não sei onde pode estar, mas estou disposto a ler um por um, dúzias de vezes, até descobrir.
- Eu ajudo! – Lenneth prontamente se ofereceu.
- Certo, vamos fazer isso – ele concordou – Tenho uma cópia de cada exemplar trancado na redação do Expresso Polar, cada um fica com uma pilha. Vamos analisar cada centímetro desse jornal até encontrarmos uma pista. Não vou me formar sem descobrir quem é esse Antaris.

Fui com eles até a redação do nosso jornal e voltamos para as repúblicas cada um com uma pilha de jornal nos braços. Sei que devia reservar todo o meu tempo livre estudando para os exames, mas estava gostando da ideia de investigar o tal Antaris. Estava convencido que as edições iam nos levar até ele e não ia descansar enquanto não provasse que estava certo. E eu nunca estava errado. 

Thursday, June 07, 2012

Voltei para a república e ela estava vazia, afinal era sexta feira. Poucos são os que passam o fim de semana na escola quando podem ir para suas casas ver suas famílias. Subi para o quarto e após me trocar, voltei a olhar as pastas que o detetive havia me dado. Uma delas trazia um presente e a outra era um dossiê detalhado sobre minha possível mãe biológica. Porque por mais que meu detetive fosse competente, só mesmo um exame de DNA, iria comprovar o meu parentesco com Sasha.
Não consegui ficar parada, e comecei arrumar o meu guarda roupa, talvez trabalho duro fizesse com que eu tivesse idéias mais claras. Quando Parv chegou eu já havia separado uma mala de roupas e sapatos que não queria mais. Ela foi pegar seu pijama e se espantou:
- Voê arrumou meu guarda roupa também?
- Sim, também separei umas roupas suas para lavar....Acho que vou arrumar o lado da Jude, será que ela se importa? - disse já abrindo uma gaveta, quando senti Parv me segurar pelo braço e me virar para ela:
- Léo, o que está acontecendo? Você parece preocupada...– e me olhou séria, me desvencilhei:
- Não, não leia meus pensamentos....
- Não vou fazer isso, eu só quero saber o que está havendo? É sexta-feira à noite e você normalmente está com o Mitchell em algum canto namorando.
- Ele foi treinar em Sofia. Hey, você também tem namorado porque não está com ele?- disse defensiva e ela respondeu:
- Treino extra de hóquei. Conte-me o que o detetive descobriu, e que está te deixando maluca assim. Somos amigas lembra?- assenti e quando abri a boca, Robbie abriu a porta e já foi entrando com uma sacola dizendo:
- Parece que cheguei no momento certo da fofoca. Estamos falando de quem??- disse pegando duas cervejas amanteigadas e nos entregando, enquanto Parv respondia:
- Vamos falar da Léo. Ela falou com o detetive e voltou preocupadissima, já fez faxina no guarda roupa dela e no meu. Daqui a pouco desce para cozinha.
- Santa Lady Gaga, a situação é grave.Conte-nos tudo e não esconda nada,Léo. O que o detetive bonitão descobriu?- Tomei um gole da cerveja e disse:
- Ele investigou todas as mulheres que tiveram meninas, e...descobriu a mulher que pode ser a minha mãe biológica.
- Sério? Isso é ótimo! Não é?- quis saber Parvati e eu me levantei impaciente:
- Sim, é. Quer dizer...Não sei....
- Leonora Marie, desembucha logo, não estou ficando mais jovem com esta espera.- resmungou Robbie e eu resolvi usar a técnica do band-aid em machucado, de puxar de uma vez, no meu caso foi falar:
- A mulher que perdeu um bebê horas depois de nascer, chama-se Mariska Dobrev, é empresária, nunca se casou e não consta o nome do pai da criança nos documentos do Hospital ou algo sobre um relacionamento sério. - Robbie abriu a boca e não o deixei falar, continuando:
- Temos o mesmo tipo sanguíneo, ela é loira, tem a idade adequada...Ah e eu a conheço. Ela é uma boa pessoa, mas o problema são os negócios dela. Ela é dona da Luxury. Sim, minha ‘mãe’ é dona do inferninho do vilarejo. Depois disso, vocês sabem que não vou mais poder ficar com o Mitchell, é claro. Como vou dizer para a familia dele que minha mãe é uma striper aposentada? O que vão pensar de mim? Eu não quero dizer isso a ele, e isso está me deixando louca.- falei e fiquei olhando para meus amigos. Parvati após alguns segundos se virou para Robbie e disse:
- Acho que vou fazer mechas californianas...
- Inaugurou um salão ótimo no vilarejo, posso marcar uma hidratação e podemos ir juntos, o que acha?- olhei para o bate papo dos dois e interrompi:
- Hey, o assunto aqui sou eu, podemos voltar ao meu problema?- Robbie se virou e disse:
- Problema?? Leonora você está nos cansando com a mania de querer terminar com o Mitchell por coisas idiotas.  E se você fizer isso, juro que darei a maior força para ele nunca mais olhar na sua cara, detesto covardes.
- Coisas idiotas? Não são...- Parvati interrompeu séria:
- São idiotices sim. E daí que a sua mãe possa ser uma stripper, é muito melhor do que a psicótica da Christine não é? Não me parece que ela seja uma pessoa ruim, já que ela ajudou você e o Finn, daquela vez.E Robbiem está certo, você está sendo covarde.Ela é ruim?
- Cautela não é covardia. Não, ela não é ruim, Sasha é legal. Muito!  Sabe... quando eu disse que fui para um Spa, eu não disse a verdade, fiquei hospedada na casa dela em Sofia. O segurança dela foi quem me ensinou a malhar.Foram muito atenciosos comigo... E a casa dela é normal, ela tem bom gosto.- expliquei:
- Viu? É uma boa pessoa e não obriga ninguém a ir ao estabelecimento dela, vai quem quer. – disse Robbie e Parv completou:
- Acho que o único problema que temos aqui é se você deixar o preconceito falar mais alto, e isso não tem nada a ver. Não somos mais aquelas pessoas.  - suspirei e respondi:
- É não somo mais...O pior é que sinceramente eu não ligo para o que ela fazia ou faz da vida, não posso e não tenho direito de julga-la, porém estou com receio de dizer a ela que sua filha não morreu e o que vai acontecer a partir daí. Ela não teve tempo de ser mãe de um bebê, será que vai querer ser mãe de uma filha adulta? Não que eu precise de uma mãe, mas...
- Léo, você só vai saber disso quando contar a ela, e acho que pelo menos amigas vocês já são, então isso não vai mudar, deixa o resto vir com o tempo. Eca, fui tão ‘Doutor Pace’ agora..- disse Parvati:
- Se você quiser, podemos ir juntos com você, até a Luxury, tenho curiosidade de ver como é lá dentro. Os garotos voltam empolgadíssimos, vamos? Diga que sim, diga que sim. – pediu Robbie animado e acabamos rindo:
- Não vou falar com ela hoje, ainda há coisas no diário da vovó que preciso entender para poder explicar como tudo aconteceu. E não vou mais pensar em terminar com o Mitchell ok? O surto passou. – ficamos conversando até tarde, quando Ozzy e Alec apareceram na república para buscar os seus pares, aproveitei e fui me deitar, teria que ir cedo para Sofia. Era o momento de conversar com o meu advogado e confirmar se aquela pasta azul, me daria a segurança que eu precisava.

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Depois de conversar com o Doutor Jarod, fui para casa e após cobrir de carinhos uma Condessa que a cada dia estava mais pesada, fui para a minha cama e continuei a ler os diários de minha avó. Havia muitos relatos das reuniões de família e inclusive uma foto rasgada que estava colada com fita adesiva, eu tinha uns quatro anos. Era o dia dos Pais e eu havia dado a George, um peso de papel roxo, feito de argila, no formato da minha mão e ele sorria, enquanto comparávamos o tamanho de nossas mãos, e nos abraçávamos para a fotografia. Fechei os olhos, ainda podia ouvir claramente nossas vozes em minha cabeça:
-“ Você gostou papai? Sim querida, é o presente mais bonito que ganhei, vai ficar comigo no escritório’....’Te amo papai’...”Eu também te amo, filha’... – não me lembro de termos trocado mais nenhum abraço depois daquele dia. Afastei as lembranças e continuei a ler os diários, e haviam muitos detalhes, que me fizeram entender o quanto minha avó me amou e lutou por mim. Adormeci e acordei com Mitchell me beijando:
- Nossa, dormi tanto assim? Você até ja voltou para casa.- e não falei mais nada, enquanto ele se deitava ao meu lado, me abraçando forte e me cobrindo de beijos. Mais tarde, estavamos na cozinha jantando e enquanto Mitchell comia com vontade, eu jogava a comida de um lado a outro no prato. Ele parou, e perguntou:
- Algum problema? Você está calada e não está comendo.
 - Conversei com o detetive.- respondi e ele me olhou mais atentamente. Deixou o prato de lado, esperando que eu me decidisse a falar o que quer que estivesse me incomodando, e eu contei tudo o que havia dito a Robbie e Parv, inclusive a parte de que pensei em terminar com ele, por causa da minha possível mãe biológica. 
- Se você quer terminar porque não me ama mais, eu aceito. Mas por causa de sua mãe ter sido uma stripper? Esqueça, arrume uma desculpa melhor, porque esta não me convenceu. – comecei a sorrir mas ele levantou a mão, e juro que nunca o vi tão zangado:
-Sabe eu odeio o George, que foi um covarde por não ter amado você, que te mostrasse que nem todos os homens fogem quando a situação fica difícil.
- Eu não sou a filha dele...
- Ah por favor, Madison não tem o nosso sangue e meu pai é maluco por ela. Aquele homem  foi um egoísta desgraçado, que descarregou a raiva numa criança indefesa e isso eu não consigo perdoar. Isso fez com que você ficasse insegura, frágil e cruel. Sim, cruel porque me ofende a cada vez que pensa que eu não posso estar apaixonado por você e que vou te deixar quando os problemas aparecerem. Pois eu não vou Leonora, não vou! –disse se levantando e com a voz alterada e eu disse:
-Entendi Mitchell, não precisa gritar. – e ele se sentou mais calmo, porém irritado e eu continuei: - Você tem razão em tudo o que disse, eu só queria que você soubesse sobre o meu passado, para não se sentir enganado, quando tudo vier à tona, pode ser um escândalo. - e ele respondeu:
- Entrei em nosso relacionamento de olhos bem abertos, sou grandinho.- e eu o olhei firme nos olhos:
- Sim, você é. E eu o amo, não vou mais pensar em terminar nosso namoro, até porque Robbie disse que se eu ousar fazer isso, ele vai te dar a maior força, talvez até te arrume uma namorada linda. – e ele deu um  sorriso de canto de boca, e tomou um pouco de água. Levantei-me fui até a sala e peguei a pasta azul, e dei a ele para ler. Após olhar os papéis, ele voltou os olhos para mim:
- Não sabia que você tinha estado comprando o controle das ações das empresas. George desconfia que você detém o poder de destituí-lo da presidência?
- Não, ainda não, mas quando souber, ele e Christine virão com tudo para cima de mim. – ele deixou a pasta em cima da mesa e veio me abraçar dizendo:
- E vamos estar prontos para enfrenta-los, Leonora. Juntos!

I don't wanna be someone who walks away so easily
I'm here to stay and make the difference that I can make
Our differences they do a lot to teach us how to use
The tools and gifts we've got yeah we got a lot at stake
And in the end, you're still my friend
At least we didn't intend
For us to work we didn't break, we didn't burn
We had to learn how to bend without the world caving in
I had to learn what I've got, and what I'm not
And who I am
I won't give up on us
Even if the skies get rough
I'm giving you all my love

Nota da autora: Trecho da música ‘I won’t give up’, Jason Mraz

Wednesday, June 06, 2012

Maio de 2016

A conversa que tive com meus pais uma semana depois de descobrir minha verdadeira origem foi a mais difícil da minha vida. Quando finalmente entenderam o que estávamos dizendo, depois de passado o choque inicial de ouvir a parte de nunca mais morrer, mamãe começou a chorar e papai ficou tão transtornado que tudo que conseguia dizer era que ia processar o hospital nem que isso lhe custasse o emprego.

Os dois se acalmaram depois de um tempo, mas mesmo vendo a foto de Emma e todas as semelhanças que ela tinha com Alexis, papai insistiu em não fazermos nada antes de um exame de DNA. Embora não fosse realmente necessário, ambos me asseguraram que nada mudaria na nossa vida, independente do resultado. E o resultado, é claro, provou que eu não era filha deles.

- Queria me ver, Dr. Pace? – bati na porta aberta do escritório dele, uma semana depois de lhe contar o resultado do exame.
- Sim, entre e feche a porta, por favor – ele indicou o sofá e sentei – Conversei com Emma e seus pais.
- E então?
- Bom, digamos que a reação deles foi melhor que a sua.
- Eles estão felizes com isso? – perguntei espantada e ele riu.
- É claro que não, mas foi mais fácil para eles aceitarem. A notícia trouxe mais explicações do que questionamentos. Os pais dela, seus pais, querem lhe conhecer. Seus pais também querem conhece-la, não é mesmo?
- Sim, querem, mas eu ainda não estou pronta para conhecê-los. Se eles quiserem conhecer Emma não me incomodo, mas ainda não estou pronta.
- Sem problemas, ninguém vai forçá-la a nada. Quando achar que está na hora, basta me avisar e arranjo o encontro.
- Como eles são?
- Não hesitou dessa vez – ele me olhou surpreso e sorri – Nikolaj e Emilia são excelentes pais e tenho certeza que irá gostar muito deles.
- Só isso?
- Isso é tudo que precisa saber. Vá para sua viagem de formatura e aproveite a semana para relaxar e esquecer isso tudo. Quando voltar, conversaremos mais sobre eles. Prometo.

Assenti sem discutir e voltei para a Atena para arrumar a mala. Partiríamos para uma semana no Hawaii no dia seguinte e tudo que pretendia fazer era tomar sol deitada em uma espreguiçadeira. Longe de Durmstrang, longe do drama. Uma semana de paz.

°°°°°°°°°°

A ideia da semana de paz durou menos de 24h. Na manhã seguinte, quando a professora Yelchin nos organizava para a partida, descobrimos que essa viagem seria simultânea a viagem de formatura de todas as grandes escolas bruxas do mundo. Resumindo, estaríamos hospedados no mesmo hotel que todos os alunos do 7º ano das delegações que competiram nas Olimpíadas um ano antes. Ou seja, por uma semana eu estaria no mesmo hotel que Emma Blanchard.

Estávamos hospedados no Sheraton Kauai e era um hotel tão maravilhoso e com tantas coisas a oferecer que por cinco dias não precisei de nenhuma desculpa mais elaborada para não acompanhar meus amigos nos passeios pela cidade ou em uma simples ida à praia e passava o tempo inteiro evitando contato com outras pessoas. Durante a semana inteira aproveitei tudo que o hotel oferecia, em especial o spa, com massagens diárias, ofurô e aulas de pilates. Eram tantas coisas com a intenção de relaxar você que passava boa parte do meu dia em outra dimensão, mas sempre que alguém estranho se aproximava todo o tempo gasto em relaxamento evaporava. Era extremamente cansativo. Se pudesse passaria o dia inteiro trancada no quarto, mas não podia me esconder pra sempre.

- Você vai à festa hoje – Ozzy sentou na espreguiçadeira ao meu lado.
- Er... Não, obrigada.
- Não perguntei se quer ir. É a nossa última noite aqui e eles vão fechar o parque aquático à noite pra uma confraternização com todas as escolas de magia. Todo mundo vai e você também.
- E como isso vai acontecer? Pretende me arrastar até lá à força? – perguntei sarcástica.
- Se for preciso, sim. Desde que chegamos você não saiu de dentro do hotel, Parv! Não fez nenhum passeio com a gente, não conheceu nenhum lugar. Essa viagem é para aproveitarmos nossos últimos dias juntos e você se escondeu de todo mundo. Poxa, nós mal passamos tempo juntos.
- Desculpa, também queria ter passado algum tempo com você.
- Por que esse medo todo? Já parou pra pensar que ela pode estar se escondendo de você também?
- Isso não me ocorreu.
- Anda, vamos – ele levantou da espreguiçadeira e estendeu a mão pra mim – A festa começa em uma hora e não vou deixar você passar a última noite aqui sozinha.
- E se eu entrar em pânico e me desconcentrar? Com toda aquela gente no parque vou entrar em colapso.
- Não vou sair do seu lado, pode se desconcentrar a vontade.

Peguei sua mão e deixei que ele me puxasse pra cima dele e me beijasse. Ozzy tinha razão, as viagens de formatura sempre tinham o propósito de unir as turmas e permitir que elas tivessem um pouco de diversão e tempo livre antes de cada um seguir o seu caminho. Muitos de nós nunca mais nos veríamos e até então eu não tinha aproveitado nenhum tempo livre com meus amigos. Se esbarrasse com Emma no parque, então teria que lidar com isso. Não ia sacrificar minhas últimas horas no Hawaii me escondendo.

°°°°°°°°°°

Sempre gostei de parques aquáticos. Subir até o topo das imensas escadas e descer a toda velocidade pelos variados tubos de água é sempre uma experiência única, mas visitar um parque aquático durante a noite é sem duvida a mais única de todas. Todos os tubos gigantes estavam decorados com luzes coloridas, uma mesa imensa com frutas e bebidas não-alcoólicas estava montada na praia da piscina de ondas e um palco havia sido montado no fim da piscina, onde um DJ ocupava todo o espaço com um equipamento de ultima geração. Todas as atrações do parque funcionavam normalmente, como se estivéssemos à luz do dia, então muitos alunos passavam correndo de um lado pro outro com bóias enormes debaixo do braço enquanto dançavam no ritmo da musica que o DJ mandava para as caixas de som.

- Relaxe um pouco, meu amor – Ozzy riu quando uma garota loira esbarrou em mim e apertei seu braço com força – Qual o problema se esbarrar com ela?
- O problema é que não vou saber o que fazer! O que digo a ela? Isso é muito estranho.
- Ela também não deve saber o que dizer, então diga apenas oi – ele sorriu e beijou meu rosto – E tem milhares de pessoas aqui, a probabilidade de você encontrá-la é mínima.
- Ah ótimo, por que foi dizer isso? Agora tenho certeza que vamos nos encontrar!
- Só porque eu disse que é improvável? – ele riu outra vez, mas eu não estava achando graça.
- Lei de Murphy. Ela não falha nunca.

Era verdade, ela nunca falhava. Separamos-nos de nossos amigos e caminhamos sozinhos até a mesa de frutas, estava morrendo de fome. Com tanto tempo relaxando acabava me esquecendo de comer e peguei um cacho de uva da mesa. Quando o ergui, outra pessoa tinha pego o mesmo cacho. Ia me desculpar e devolver o cacho quando ergui a cabeça e vi que era ela. Emma Blachard estava parada na minha frente, segurando a outra ponta dele. Soltamos na mesma hora e o cacho se espatifou no chão, rolando uva para todo lado. Congelei na mesma hora e ela virou de costas em pânico, agarrando o braço de um garoto que estava de pé ao seu lado.

- Dave, vamos embora agora! – ouvi-a dizer com a voz esganiçada.
- Em, calma. Não temos que ir embora – ele respondeu em um tom de voz reconfortante alisando seu braço.
- Sim, temos! – ela insistiu e me virei para Ozzy, que assentiu me incentivando.
- Não, não tem. Nenhuma de nós precisa ir embora – disse calma e o garoto que a segurava sorriu.

A hesitação dela era nítida, mas depois do que pareceram vários minutos, Emma me encarou. Era como se tivessem se passado três anos e Alexis estivesse mais uma vez diante de mim. A semelhança entre as duas era tão grande que por um instante me desestabilizei, mas Ozzy estava colado em mim como um guarda-costas e não houve nenhum acidente. Ela também me olhava com uma expressão estranha e por um breve segundo ouvi o nome Adam em seus pensamentos. Ozzy apontou para uma mesa vazia do outro lado da piscina e o seguimos.

- Certo... – Ozzy falou depois de um longo silencio – Oscar, mas pode me chamar de Ozzy. Sou namorado da Parvati – e estendeu a mão ao garoto.
- David, ou Dave – ele apertou-a animado – Namorado da Emma.
- Você trouxe algum baralho, Dave? – Ozzy perguntou e David riu. Dei um beliscão em sua perna.
- Olha, isso é tão esquisito pra mim quanto deve ser pra você, mas estou com fome e não peguei aquelas uvas, então vamos acabar logo com isso – disse de uma vez e acabei quebrando o clima tenso, porque ela riu.
- Isso é muito esquisito. Você é tão parecida com Adam que é como se ele tivesse crescido e virado mulher – David engasgou prendendo um riso e Emma o encarou.
- Quem é Adam?
- Meu irmãozinho. Quer dizer, nosso irmãozinho. Ele tem sete anos.
- Você se parece com alguém também. Alexis é... – parei de falar de repente e Ozzy apertou minha mão – Ela era minha irmã, nossa irmã, mas morreu ano passado.
- No acidente que permitiu que descobríssemos da troca – ela completou e assenti.
- Acho que já nos encontramos antes... – David falou pensativo e nós duas olhamos para ele, confusas – Sim, já nos encontramos! Nas Olimpíadas, foi você! Em, foi ela que quebrou a raquete na minha cabeça!
- Merlin, era você! – tapei a boca horrorizada e Ozzy começou a rir – Desculpa!
- Por que você quebrou uma raquete na cabeça dele?
- Ela atirou a raquete na minha direção, na verdade – David corrigiu e agora Emma ria sem parar – Chamei o garoto que fazia dupla com ela de gazela saltitante no calor do momento, juro que não sou homofóbico. Pedi desculpas depois, quando a forçaram a se desculpar na enfermaria.
- Robbie às vezes merece o apelido, não o julgo. Queria ter visto isso.
- Foi uma cena e tanto – Emma continuava rindo.
- E ainda assim vocês avançaram pra final?
- O jogo já tinha terminado e tínhamos perdido, não anularam o resultado – ela deu de ombros – Não acredito que era você. Como não reconheci Adam em você?
- E eu não reconheci Alexis em você.
- Bom, acho que todos concordamos que você estava muito ocupada atirando raquetes em estranhos pra notar as semelhanças – Ozzy sugeriu e David concordou.

Começamos a rir e dai em diante, a conversa fluiu com uma naturalidade impressionante. Emma não era parecida apenas fisicamente com Alexis, tinha muito de sua personalidade e era extremamente fácil conversar com ela. E David, tirando o episodio da raquete, era realmente legal. Passamos a festa inteira naquela mesa, trocando informações sobre nossas famílias enquanto todos se divertiam nos tobogãs e pista de dança. Voltamos para o hotel quando o parque ficou em silêncio e percebemos que a música havia parado. Despedimo-nos ainda no saguão, não íamos ter tempo de nos falarmos pela manhã, e prometemos uma reunião das famílias para o mês seguinte. Não achei que fosse estar preparada tão cedo, mas a verdade era que agora estava ansiosa para conhecê-los. 

Tuesday, May 29, 2012


Abril 2016

Algumas memórias de Leonora Carrara

Quando aceitei a idéia de Stefan Salvatore para fazer um concurso onde as pessoas usariam o azeite da minha fábrica, eu não pensei muito no trabalho que teria, pois o concurso se tornou um sucesso, fazendo com que a marca de azeite criada por meu avô há mais de 70 anos, voltasse a ser reconhecida como uma das melhores tanto em sabor quanto versatilidade e isso possibilitou que a fábrica voltasse a ser rentável, evitando que George Ivashkov tivesse algum motivo para vendê-la, demitindo todos os trabalhadores.  Quando a final do concurso chegou, convidei meus amigos para irem comigo para a Itália e claro, que foi uma ótima idéia, pois precisávamos de um tempo para nós, sem nossos namorados. E nos divertimos muito com os irmãos Salvatore, e por incrível que pareça Stefan, era um cara legal, quando deixava de bancar o santinho. Retornamos para a escola mais animados do que nunca e voltamos para a nossa rotina de estudar para as provas dos NIEM’S, com cada aluno do sétimo ano se descabelando para ser aprovado e ter uma carreira. Quer dizer nem todos, pois até Robbie, já sabia que queria seguir os passos da professora Yelchin, enquanto eu ainda tinha dúvidas sobre o que fazer, e muitas vezes eu me pegava com inveja ao ouvir Parvati e Lenneth, comentando sobre suas carreiras e sonhos para o futuro.
Após o sucesso do concurso continuei a sentir vontade de aprender mais sobre administração, então sempre conversava com tio Klaus, pai de Robbie, e ele me dava dicas de livros que eu poderia ler para aprender mais sobre negócios, e por isso nas reuniões de Conselho, eu não ficava mais com cara de boba quando se falava em produção industrial, marketing ou mesmo sobre o mercado de ações. Eu já sabia o básico, e a cada dia me interessava mais pelo assunto, porém não comentava nada com meus amigos, afinal não tinha mesmo certeza se isso seria o certo para mim, ainda havia muitas coisas sobre mim que eu ainda precisava saber e resolver. A principal delas: quem eram os meus pais?Só pedia aos céus que eles não estivessem presos, seria castigo demais.
Quando descobri que não era uma Ivashkov, chamei o senhor Greywolf, para fazer uma investigação detalhada sobre meu nascimento, meus possíveis pais, e porquê do hospital não descobrir a farsa de Christine. Na mesma reunião conversei com meu advogado, doutor  Jerrod, sobre as implicações disso em minha herança, pois por mais abalada que eu esteja, eu costumo ser uma pessoa prática e eu tinha que garantir que ao final daquela investigação o patrimônio de vovó não iria para as mãos de sua filha. Isso soa como vingança? Sim, é, mas eu prefiro o termo reparação de danos, é muito mais apropriado ao meu caso.

-o-o-o-o-

O meu namoro com Mitchell estava cada dia melhor, e seus pais me tratavam bem. Com isso resolvido, passei a frequentar a casa de sua família, conheci seus tios e primos que moravam em Sofia, e seus pais começaram a me incluir em seus eventos em sua casa, e  sempre que possível íamos a Manhattan. Claro, que senti os joelhos bambos quando fui à primeria vez ao enorme apartamento deles, no Upper East Side, e queria muito que Robbie e Parv estivessem comigo, iriam amar, só quem já leu Gossip Girl, sabe do que falo quando digo que me senti a própria Blair Waldorf no meio de todo aquele glamour, e claro a enorme falsidade rs.
Numa destas visitas, reencontrei Camille e ela estava acompanhando Cooper, irmão de Mitchell e eu me controlei o máximo que pude, para não voar no pescoço dela, quando me olhou com aquele ar superior, mas percebi que perto de Cooper ela se controlava para não me provocar, mas como nada é perfeito, acabei encontrando-a sozinha perto do bar e ela não se conteve:
- Ainda não cansou de ser o que não é, Leonora? Sabe que isso não vai durar, eles são da nobreza e você finge ser da classe operária.- disse enquanto pegava um drink de uma bandeja apontando com o queixo para o meu namorado que conversava com o irmão.
- Antes da classe operária, do que uma sanguessuga. E você, querida, não cansa de tentar fisgar um marido? Cooper é muito inteligente, não pense que o engana, e Deus sabe o quanto ele tem se sacrificado para aguentar você pelos negócios.- respondi cínica.
- Ora sua...- ela disse irritada, mas foi cortada antes que começassemos a brigar, pela senhora Callahan, dizendo que havia adorado o meu vestido, e que devia ir com ela para conhecer alguns de seus amigos e acabei longe de minha irmã o resto da noite, o que me deixava grata.
Não ia me enganar achando que me tornaria a nora favorita de Cecily, a mãe de Mitchell, mas como entramos em trégua não verbal, nos dávamos bem, e eu até a achava divertida. Já, Angus era diferente, me tratava muito bem, e muitas vezes se mostrava protetor, volta e meia o filho precisava dizer a ele, que estava tudo bem conosco, pois ele se mostrava preocupado se me visse calada. Ele me aprova? É provável, mas não sou tola, os negócios entre a Vésper e a Galway, estão indo bem, por isso tanta preocupação.
Mais tarde, antes de dormir, comentava a noite com Mitchell, na penumbra de nosso quarto no hotel:
-... e Camille disse que vocês são da nobreza, ela é tão ridícula com a necessidade de chamar a atenção que inventa coisas.Nobreza, até parece... - ri e ele ficou calado. Levantei minha cabeça do seu ombro e o olhei:
- Desculpe, não quis zombar dizendo que sua familia não pode ser da nobreza, mas soa tão patético vindo dela...Peraí, tem alguma verdade nisso? – quis saber e ele suspirou:
- Os Callahan são um ramo da família de Robert de Bruce. Ele foi um guardião do reino, isso equivalia a ser da nobreza naquela época, mas isso não é importante hoje em dia.
- Robert de Bruce, aquele de ‘ Coração Valente’ que traiu Mel Gibson para se salvar? Ele era tão lindo..- eu disse me sentando indignada e ele sorriu:
- Robert de Bruce, aquele que ‘no filme’ achou melhor sacrificar alguns pela paz da Escócia...Ok, ele salvou sua própria pele antes. Mas Wallace foi traído por um cavaleiro, cujo nome não é citado nos livros, então não falamos muito nisso, é passado.- ficamos nos olhando e comecei a sorrir e ele ficou curioso e expliquei:
- Imaginei você com o rosto pintado de azul e usando kilts...Muito atraente.- e ele riu entrando na brincadeira. Levantou rápido e com seu peso me prendeu na cama dizendo:
- Considere-se o meu espólio de guerra, milady.

-o-o-o-o-o-o

Maio passou rápido demais o que fez com que tivessemos muitas coisas para fazer e pouco tempo para tudo: professores exigentes com as matérias, revisões insanas para os NIEM’S, o jornal, o grêmio, a comissão de formatura e para ajudar, Parvati descobriu que os Karev não são sua família biológica, que sempre teve sangue imortal, e que foi trocada na maternidade. Era muita coisa para digerir e isso  nos deixou apavorados com a idéia de que ela pirasse novamente e tivesse que usar a camisa branca de lacinhos cafona.*eca*
Acho que troca de bebês na maternidade deve ter sido moda nos anos 90, então Robbie como era paranóico começou a achar que tivesse sido trocado também, tivemos que lembra-lo de que aquele cabelo lindo e o rosto perfeito, não tinha como ser fabricado, é genético e foi herdado de tio Klaus, então ele se acalmou. Este drama todo me distraiu por tempo suficiente  para que não pensar na demora do meu detetive em descobrir o meu passado.Perto do fim de semana, recebi uma mensagem do detetive, pedindo para encontra-lo e que era importante ir sozinha. Como Mitchell teria que ir para Sofia, após o almoço na sexta para treinos com o time,  eu disse que ficaria na escola porque ainda tinha lições para terminar. Ele me olhou sério por alguns segundos e eu o encarei de volta firme. Acho que ele sabia que eu estava mentindo, mas não me pressionou.
Cheguei ao Raimbow Room, perto da hora do jantar e ele já me aguardava.Estava mais sério do que o normal, mas sorriu assim que me viu:
- Senhorita Carrara, boa noite, desculpe entrar em contto assim de forma tão abrupta, mas achei que iria gostar das novidades. O de sempre?- assenti e ele pediu ao garçom uma água de gilly para mim.
-Espero que as notícias sejam boas, senhor Greywolf, tive uma semana complicada.  – me sentei e ele logo me entregou uma pasta azul. Abri e quando li o seu conteúdo, não me contive:
- Impressionante. Confesso que não achei que fosse possível...
-Agora é tudo seu, basta tomar posse. Costumo cumprir minhas missões. - ele disse e nesta hora, o encarei, e percebi que ele tinha uma marca arroxeada no lado direito do rosto. Ele percebeu e ficou sério, limpou a garganta e disse:
- Algumas vezes, meu trabalho pode ficar um pouco violento. Descobri tudo o que você queria saber sobre o seu nascimento. – abri minha boca, mas me calei quando ele continuou:
- Investiguei o hospital, e consegui os nomes das mulheres que naquele dia tiveram bebês do sexo feminino. Foram cinco mulheres e eu investiguei cada uma delas. Duas delas se mudaram, uma para Lovech e outra para Vratsa, e suas filhas têm características da família, consegui cópias de suas fichas escolares. – abri a pasta e pude ver as duas garotas morenas e também cópias dos documentos dos pais delas.- separei as folhas e olhei a próxima:
- Esta jovem foi gerada por inseminação artificial e vive em Sofia, com os tios, os pais morreram, há três anos em um acidente de avião, o pai era diplomata. Eu a investiguei e ela é  quem diz ser.- peguei a ficha e vi a garota ruiva, muito parecida com o pai. - ele deu uma pausa e eu quis saber:
- Então só restam mi...Christine e a outra mulher. Você sabe quem ela é?
- Sim, eu a investiguei. Seu nome é Mariska Dobrev, mãe solteira, teve uma única filha que morreu horas depois de nascida. O pai é desconhecido, unca se casou. Tornou-se empresária, alguns meses após a morte da filha, pois recebeu uma herança.Vocês duas possuem o mesmo tipo sanguíneo: O negativo. - e ele parou de falar, parecia tenso.- olhei para ele que continuou:
- Você a conhece.
- Ah é? Quem? AIMEUPAI, minha mãe é tia Karen?? Diga que sim! - disse toda esganiçada com os olhos brilhando e ele se espantou com o meu delírio, mas se recuperou.
- Não, o nome dela não é Karen, sua mãe biológica é a dona da Luxury.
- O clube de strip tease? Você se enganou, Greywolf, a dona da Luxury, chama-se Sasha, e eu a conheço. E ela não pode ser a minha mãe, aliás não a vejo como mãe de ninguém, é tão jovem. – comecei a sorrir mas parei quando ele me olhou e disse baixo:
- Senhorita Carrara...Sasha, é o nome artístico de Mariska Dobrev.




Monday, May 21, 2012

"Aceite com sabedoria o fato de que o caminho está cheio de contradições. Há momentos de alegria e desespero, confiança e falta de fé, mas vale à pena seguir adiante."

Paulo Coelho

Depois que Ozzy contou a Parvati sobre sua verdadeira origem, a noticia se espalhou como rastilho de pólvora. Leo correu até a Kratos para contar a Robbie e em questão de minutos a sala da Atena já estava ocupada por Lucian, Finn, Lenneth, Julie, Mitchell e um Alec e um Oleg apavorados.  Todos queriam saber o que Parvati faria, mas quando Ozzy desceu ao encontro dos amigos uma hora depois, não estava acompanhado.

- Então? – Lucian perguntou ansioso – Como ela está?
- Mal. Conseguiu falar alguma coisa depois de um tempo, mas só repete o quanto a vida é injusta.
- Já chega – Julie levantou do sofá irritada – É minha vez de falar com ela.
- O que vai fazer? – Leo perguntou alarmada, conhecia Julie o suficiente para saber que ela talvez não fosse a pessoa mais adequada para lidar com a situação.
- Conversar com ela, já devia ter feito isso antes.
- Acho que não é uma boa ideia, deixe que nós cuidamos disso – Ozzy sugeriu e ela lhe lançou um olhar atravessado.
- Ninguém aqui tem o direito de decidir quando e como eu devo falar com ela. Lembre-se que vocês são amigos e namorado, mas família só eu.
- Bom, tecnicamente... – Robbie começou, mas parou no meio – Vou ficar calado.
- Foi a decisão mais sábia de toda a sua vida – Julie respondeu atravessado e foi em direção às escadas – Ninguém sobe, entendeu?

Ela não precisou olhar pra trás para saber que ninguém ia segui-la. Parvati estava encolhida na cama quando ela entrou e moveu apenas a cabeça para ver quem tinha chegado ao quarto. Resmungou algo que Julie não entendeu e cobriu a cabeça com o cobertor para ignorar sua presença. Julie fechou a porta e caminhou até a cama, montando em cima dela e começando a lhe bater.

- Ai, para, o que está fazendo? – Parvati já estava sem a coberta e tentava se defender dos tapas da prima, mas choramingava mais do que se protegia.
- Eu sou a vida e estou lhe dando uma surra! – Julie acertou um tapa em sua cabeça e o arco que ela usava voou pelo quarto – O que vai fazer a respeito? Lutar comigo ou choramingar feito um bebê?
- Você é maluca! Sai de cima de mim! – Parvati empurrou a prima, mas continuou apanhando.
- Anda, reage! Vai deixar a vida lhe dar uma surra sem nem ao menos tentar vencê-la? – um soco acertou seu braço com força – Você é assim tão inútil e fraca?
- Para com isso! – Parvati conseguiu acertar um tapa no rosto de Julie, fazendo-a recuar – Desculpa!
- Foi assim tão difícil?
- Você é maluca.
- Funcionou, você reagiu.
- Já está sabendo então?
- Sim, e se falar outra vez que a vida é injusta vou voltar a lhe bater.
- Não foi você quem foi trocada na maternidade, é muito fácil dizer que estou exagerando.
- Parvati, por Merlin! Você foi trocada na maternidade, ok, isso não é legal, mas me diz onde está a injustiça da vida? É porque você foi criada por uma família horrível que a maltratava e deixava você trancada por dias sem comida em um porão ou porque de repente sua verdadeira família é ainda mais maravilhosa que a que lhe criou e você poderia ter crescido ainda mais mimada?
- Falando assim fico parecendo idiota...
- Se soa idiota é porque é idiota. Olha, eu entendo que não é uma noticia para se comemorar com fogos de artificio, mas você pesou a mão no drama. Você não perdeu uma família, você ganhou outra.
- Karen vai ficar devastada.
- Não, não faça isso! – Julie disse severa – Não comece a chamá-la de Karen, ela é sua mãe, não importa o que o seu sangue diga. E tio Demetri é seu pai, assim como eu sou e sempre vou ser sua prima.
- Muita coisa faz sentido agora, como mamãe sempre dizendo que eu não parecia com nenhum dos meus primos porque era única. Todos vocês se parecem, eu sempre fui a única que não lembrava ninguém.
- É, eu costumava achar que você era tão pentelha que ninguém queria se parecer com você.
- Engraçadinha – Julie riu - Tive que descobrir que não somos realmente parentes pra nos entendermos?
- É, gostamos de dificultar as coisas – Parvati deu um sorriso fraco e Julie puxou algo do bolso, estendendo a ela – Já devia ter devolvido isso a você.
- Seu colar. Você está usando a pulseira – disse apontando para o pulso direito da prima.
- Seu colar, não meu. Nós duas esquecemos a promessa, mas eu fiz pior quando o tirei. Não vou mais fazer isso e espero que continue a usar o seu. Agora, mais do que nunca, não podemos esquecer o que eles significam.
- Família – Parvati colocou o colar de volta no pescoço e estendeu a mão a Julie.
- Família – ela respondeu a segurando e as duas sorriram.

Agora elas sabiam que a promessa que fizeram quando tinham sete anos nunca mais seria quebrada.

°°°°°°°°°°°

Nunca uma sessão de terapia com Martin Pace foi tão aguardada por Parvati. Embora estivesse se sentindo melhor depois de apanhar da prima e ouvir o que ninguém tinha coragem de dizer, ainda sentia-se perdida e sem saber o que fazer a seguir. Sabia que precisava contar aos pais, mas como começar aquela conversa? Eram tantas explicações para dar até chegar àquela descoberta que ela se sentia mal só de pensar no assunto.

Alheio aos últimos acontecimentos em Durmstrang, Martin ouviu atentamente à história que estava sendo contada por Parvati e Ozzy. Ouvia com tanta atenção que, à primeira vez que o nome do suposto bebê trocado por Parvati foi mencionado, não fez a ligação. Foi só quando Ozzy o disse pela segunda vez que veio o estalo. Ele levantou com um salto do sofá e correu até as pastas de alunos do curso de Auror em Hogwarts.

- Como é o nome da menina? – perguntou passando as pastas em um ritmo frenético.
- Emma Blanchard... – Parvati repetiu olhando curiosa para Ozzy – Por quê? Você a conhece?
- O nome soou familiar... Ah, achei! – ele estendeu uma pasta aos dois – Emma Blanchard, 18 anos, aluna da Lufa-Lufa e melhor da turma do curso de auror em Hogwarts.
- Merlin... É ela, não tenho a menor duvida – Parvati não conseguiu impedir que uma lágrima escorresse pelo seu rosto enquanto fitava a foto na ficha – Não precisa nem perder tempo fazendo um exame de DNA.
- Como tem tanta certeza? – Martin perguntou.
- Porque ela é a Alexis, três anos mais velha – Parvati entregou a foto a Ozzy.
- É, é ela mesma – ele confirmou.
- Merlin, tenho mesmo que contar à minha mãe? – Parvati abaixou a cabeça – Não posso fingir que nada disso está acontecendo?
- Você não tem que fazer nada, Parvati – Martin disse tranqüilo e Ozzy o encarou surpreso.
- Ela não precisa contar aos pais?
- Se ela não quiser, não. Você deve contar? Sim. Você precisa? Não. Você tem que fazer o que achar certo, mas esse segredo virá à tona mais cedo ou mais tarde. Cabe a você decidir se prefere deixar que eles descubram através de outras pessoas ou por você.
- Eu quero contar, mas não sei como. Vou precisar explicar tantas coisas até chegar a como descobri isso, eles vão me internar naquele hospício outra vez, nunca vão acreditar.
- Você não precisa fazer isso sozinha, vou estar com você – Ozzy apertou sua mão – E Katarina também, ela e seu pai são amigos há anos, trabalham juntos. Quando ela confirmar sua história, eles vão acreditar.
- Ouça o que Oscar está dizendo. Conte tudo a eles e quando vocês estiverem preparados para entrar em contato com a outra família, vou estar aqui para ajudar. Emma é minha paciente, ela confia em mim, eu mesmo contarei a ela.
- Como... Como ela é? – Parvati não se conteve, embora não tivesse certa de que queria ouvir a resposta.
- Quando me fizer essa pergunta sem hesitar, terá sua resposta. Conversamos outra vez semana que vem.

Martin os dispensou sem deixar que ela contestasse sua resposta e Parvati se deu por vencida. Ele tinha razão, ela não estava pronta para saber detalhes de como era a verdadeira filha dos Karev. No momento, tudo que precisava ocupar sua mente era o que seria a conversa mais difícil que já teve com os pais em 18 anos. E quanto mais ela demorasse a contar, mais doloroso seria, então ela já estava decidida: ia pra casa no próximo fim de semana e contaria tudo, começando pelo dia em que sua irmã morreu.

Monday, May 14, 2012

O tempo chuvoso, tão raro nessa época do ano em Sofia, me pegou desprevenido quando aparatei de dentro da estação de trem para o portão da minha casa. Elvis, um dos nossos elfos domésticos, cuidava de uma das muitas plantas de minha mãe e sorriu animado quando me viu. Joe, o segurança da casa, conversava com ele enquanto tentava proteger os dois da chuva com uma sombrinha gigante.

- Mestre Oscar, não o esperávamos em casa esse fim de semana – Elvis disse surpreso e Joe assentiu.
- Mudança de planos de última hora – respondi sem muita animação.
- Problemas com a namorada? – Joe perguntou e assenti – Então nada melhor do que vir para o conforte da sua casa.
- Tem alguém em casa?
- Mestre Ilana chegou nesse instante – Elvis respondeu animado como sempre.
- Obrigado.

Caminhei até a casa sem me importar com a chuva. Fui direto até o quarto de minha mãe avisar que estava em casa e ela teve a mesma reação de surpresa que Elvis e Joe, mas me abraçou animada. Era sempre bom vir pra casa e ser mimado.

- Por que não avisou antes que viria? Quase não me encontrou aqui. Ia para Paris com seu pai, mas ele precisou adiar por conta de um problema e uma das boates.
- Decidi de ultima hora, Parvati e eu não estávamos nos entendendo e achei melhor dar um espaço pra ela e aproveitar pra ver vocês.
- O que houve? Não é possível que já estejam brigando!
- Não é nada demais, ela só ficou braba porque defendi o ponto de vista de Julie nessa briga idiota das duas. Nem ao menos fiquei ao lado de Julie, só disse que entendia e ela ficou uma fera.
- Ela é sua namorada, é o seu dever defender o ponto de vista dela, não da outra parte da confusão.
- Julie é minha melhor amiga! – disse indignado, mas ela só riu e balançou a cabeça.
- Seu pai tem mais de 200 anos e também nunca me entendeu, não sei por que ainda me surpreendo.
- O que quer dizer com isso? – olhei torto pra ela e mamãe riu ainda mais, beijando minha testa.
- Não se preocupe, vocês vão se entender. Só evite tomar partido de outras pessoas de agora em diante.
- Farei o possível para me lembrar disso.

Passei um dia agradável em casa. Com papai fora cuidando dos problemas da empresa e nenhum dos meus irmãos por perto para me atormentar, não precisei dividir a atenção da minha mãe com ninguém. Conversamos sossegados como há muito tempo não fazíamos e à noite saímos para jantar em seu restaurante favorito, mas como tudo que é bom dura pouco, quando chegamos em casa encontramos Katarina esparramada no sofá. Mamãe logo se apressou em abraçá-la, feliz por vê-la em casa.

- Pensei que o propósito de você casar era que não a veria mais por aqui o tempo todo – disse meio azedo depois que mamãe subiu para trocar de roupa.
- Também amo você, maninho.
- O que veio fazer aqui, afinal?
- Falar com você. Passei aqui para ver se tinha vindo para casa antes de ter que ir até Durmstrang e Joe disse que tinha saído para jantar com a mamãe.
- E não podia esperar até amanha? Está tarde.
- Por que está tão rabugento? O assunto é sério, é sobre a sua namorada.
- O que houve? – notei o tom grave na voz dela e fiquei preocupado.
- Vou contar a história desde o começo, assim você tira suas próprias conclusões e quem sabe elas digam que eu estou errada. Merlin sabe o quanto quero estar errada.
- Está me assustando.
- Deveria ficar mesmo. Lembra que achei curioso ela, uma humana normal, ter sobrevivido ao ritual e voltado com poderes e tudo mais? – assenti e ela continuou – Resolvi pesquisar, queria entender isso melhor e encontrei um livro muito antigo na biblioteca pessoal do vovô que falava sobre o assunto. Acontece que qualquer pessoa pode se tornar Imortal, porque o que nos torna assim não é a nossa linhagem sangüínea, mas sim o encantamento. Por isso é tão importante que somente poucas pessoas saibam como fazê-lo, por isso o processo de escolha para os futuros Mestres é tão rigoroso. Se qualquer um tivesse acesso a isso, teríamos um mundo cheio de pessoas que não podem morrer e ia virar um caos.
- Ok, então você descobriu o que já sabíamos. Por que esse pânico todo?
- O livro diz que pessoas que não descendem de famílias de Imortais podem passar pelo ritual, mas não adquirem habilidades especiais. Isso eu acertei, elas fazem parte da nossa linhagem sangüínea.
- Os Karev são Imortais? – perguntei confuso.
- Não. Procurei por eles em todos os livros de registro e não tem nada.
- Então está querendo dizer que Parvati não é uma Karev? – ela assentiu e me senti tonto – Acho que preciso sentar.
- Procurei outra explicação, qualquer coisa que pudesse indicar que estou errada, mas não encontrei. E tem mais.
- O que mais? – minha voz já soava desesperada.
- Quando não encontrei outra possibilidade, procurei os registros do nascimento dela no hospital. Olhei todas as fichas de crianças nascidas no dia 8 de abril de 1998 e tem uma família de Imortais nelas. Os Blanchards. Eles tiveram uma menina naquele dia, Emma.
- E onde eles estão? Não tem nenhuma Emma Blanchard em Durmstrang. Ela estaria na nossa turma, eu saberia.
- Não sei onde estão também e não podia sair perguntando pras pessoas sem um bom motivo ou iam desconfiar que estou escondendo alguma coisa. Mas onde quer que eles estejam, tem uma família de Imortais muito intrigada com a falta de habilidades da filha.
- Merlin... Como vou contar isso a ela?
- Não sei, mas mais cedo ou mais tarde nossa família vai saber o que vocês fizeram e quando souberem que ela pode ler mentes, perguntas vão começar a ser feitas. Uma hora ela vai descobrir, então melhor que seja agora.
- É, acho que sim.
- Esse era o destino dela. Acho que o universo encontrou uma maneira de consertar as coisas.
- E matou duas pessoas como dano colateral? Desde quando você acredita nessas bobagens?
- Não importa no que acredito, tem que contar a verdade a ela.

Conversamos mais um pouco e quando Katarina foi embora fiquei sozinho na sala com o pensamento longe. Era tarde, não adiantava voltar a Durmstrang e tirar o sono dela, o melhor era pegar o primeiro trem pela manhã. Não consegui pregar o olho a noite inteira. Quando o dia amanheceu, me despedi de minha mãe dizendo que queria me entender com Parvati logo e sai. Antes das 10h já estava de volta à escola e fui direto para a Atena.

- O que você quer? – uma aluna do 3º ano perguntou hostil quando abriu a porta.
- Falar com a minha namorada, por quê? Algum problema com isso?
- Ela não quer falar com você e nos proibiu de deixá-lo entrar até ela mandar.
- Olha, não estou com paciência pra discutir com pirralhos, dá pra sair da frente?
- Você não tem autorização de entrar – outra garota apareceu e de repente a sala estava cheia delas, todas bloqueando minha passagem, e começamos a bater boca.
- O que está acontecendo? – Leo apareceu na escada atraída pela discussão.
- Preciso falar com a Parv e não me deixam entram – respondi olhando diretamente para ela – É importante.
- Deixem-no passar – Leo ordenou, percebendo o tom de urgência na minha voz. Elas protestaram, mas obedeceram – O que houve? – ela perguntou quando a alcancei na escada.
- Vocês são mais parecidas do que imaginam – respondi a encarando sério – Ela não é uma Karev.
- Como é que é? – Leo engasgou.
- Longa história, mas preciso contar a ela primeiro – alcançamos a porta do quarto e entrei sem bater.
- Ozzy, está cedo, agora não – Parv já falou sem paciência quando me viu.
- Parv, é melhor ouvir o que ele tem a dizer.

O tom de voz de Leo, além do fato dela ter me apoiado, fez com que Parvati abaixasse a guarda e me ouvisse. Calmamente contei a ela a conversa que tive com Katarina e estava esperando que ela começasse a chorar ou entrasse em desespero, mas a única reação que Parvati teve foi ficar parada no meio do quarto, encarando o vazio como se Leo e eu não estivéssemos presentes. Aproximei-me cauteloso e a abracei, mas ela não correspondeu ao abraço e continuou imóvel, e foi então que compreendi. Parvati havia entrado em estado de choque.

((Continua...))