Tuesday, May 29, 2012
Abril 2016
Algumas memórias de Leonora Carrara
Quando aceitei a idéia de Stefan Salvatore para fazer um concurso onde as pessoas usariam o azeite da minha fábrica, eu não pensei muito no trabalho que teria, pois o concurso se tornou um sucesso, fazendo com que a marca de azeite criada por meu avô há mais de 70 anos, voltasse a ser reconhecida como uma das melhores tanto em sabor quanto versatilidade e isso possibilitou que a fábrica voltasse a ser rentável, evitando que George Ivashkov tivesse algum motivo para vendê-la, demitindo todos os trabalhadores. Quando a final do concurso chegou, convidei meus amigos para irem comigo para a Itália e claro, que foi uma ótima idéia, pois precisávamos de um tempo para nós, sem nossos namorados. E nos divertimos muito com os irmãos Salvatore, e por incrível que pareça Stefan, era um cara legal, quando deixava de bancar o santinho. Retornamos para a escola mais animados do que nunca e voltamos para a nossa rotina de estudar para as provas dos NIEM’S, com cada aluno do sétimo ano se descabelando para ser aprovado e ter uma carreira. Quer dizer nem todos, pois até Robbie, já sabia que queria seguir os passos da professora Yelchin, enquanto eu ainda tinha dúvidas sobre o que fazer, e muitas vezes eu me pegava com inveja ao ouvir Parvati e Lenneth, comentando sobre suas carreiras e sonhos para o futuro.
Após o sucesso do concurso continuei a sentir vontade de aprender mais sobre administração, então sempre conversava com tio Klaus, pai de Robbie, e ele me dava dicas de livros que eu poderia ler para aprender mais sobre negócios, e por isso nas reuniões de Conselho, eu não ficava mais com cara de boba quando se falava em produção industrial, marketing ou mesmo sobre o mercado de ações. Eu já sabia o básico, e a cada dia me interessava mais pelo assunto, porém não comentava nada com meus amigos, afinal não tinha mesmo certeza se isso seria o certo para mim, ainda havia muitas coisas sobre mim que eu ainda precisava saber e resolver. A principal delas: quem eram os meus pais?Só pedia aos céus que eles não estivessem presos, seria castigo demais.
Quando descobri que não era uma Ivashkov, chamei o senhor Greywolf, para fazer uma investigação detalhada sobre meu nascimento, meus possíveis pais, e porquê do hospital não descobrir a farsa de Christine. Na mesma reunião conversei com meu advogado, doutor Jerrod, sobre as implicações disso em minha herança, pois por mais abalada que eu esteja, eu costumo ser uma pessoa prática e eu tinha que garantir que ao final daquela investigação o patrimônio de vovó não iria para as mãos de sua filha. Isso soa como vingança? Sim, é, mas eu prefiro o termo reparação de danos, é muito mais apropriado ao meu caso.
-o-o-o-o-
O meu namoro com Mitchell estava cada dia melhor, e seus pais me tratavam bem. Com isso resolvido, passei a frequentar a casa de sua família, conheci seus tios e primos que moravam em Sofia, e seus pais começaram a me incluir em seus eventos em sua casa, e sempre que possível íamos a Manhattan. Claro, que senti os joelhos bambos quando fui à primeria vez ao enorme apartamento deles, no Upper East Side, e queria muito que Robbie e Parv estivessem comigo, iriam amar, só quem já leu Gossip Girl, sabe do que falo quando digo que me senti a própria Blair Waldorf no meio de todo aquele glamour, e claro a enorme falsidade rs.
Numa destas visitas, reencontrei Camille e ela estava acompanhando Cooper, irmão de Mitchell e eu me controlei o máximo que pude, para não voar no pescoço dela, quando me olhou com aquele ar superior, mas percebi que perto de Cooper ela se controlava para não me provocar, mas como nada é perfeito, acabei encontrando-a sozinha perto do bar e ela não se conteve:
- Ainda não cansou de ser o que não é, Leonora? Sabe que isso não vai durar, eles são da nobreza e você finge ser da classe operária.- disse enquanto pegava um drink de uma bandeja apontando com o queixo para o meu namorado que conversava com o irmão.
- Antes da classe operária, do que uma sanguessuga. E você, querida, não cansa de tentar fisgar um marido? Cooper é muito inteligente, não pense que o engana, e Deus sabe o quanto ele tem se sacrificado para aguentar você pelos negócios.- respondi cínica.
- Ora sua...- ela disse irritada, mas foi cortada antes que começassemos a brigar, pela senhora Callahan, dizendo que havia adorado o meu vestido, e que devia ir com ela para conhecer alguns de seus amigos e acabei longe de minha irmã o resto da noite, o que me deixava grata.
Não ia me enganar achando que me tornaria a nora favorita de Cecily, a mãe de Mitchell, mas como entramos em trégua não verbal, nos dávamos bem, e eu até a achava divertida. Já, Angus era diferente, me tratava muito bem, e muitas vezes se mostrava protetor, volta e meia o filho precisava dizer a ele, que estava tudo bem conosco, pois ele se mostrava preocupado se me visse calada. Ele me aprova? É provável, mas não sou tola, os negócios entre a Vésper e a Galway, estão indo bem, por isso tanta preocupação.
Mais tarde, antes de dormir, comentava a noite com Mitchell, na penumbra de nosso quarto no hotel:
-... e Camille disse que vocês são da nobreza, ela é tão ridícula com a necessidade de chamar a atenção que inventa coisas.Nobreza, até parece... - ri e ele ficou calado. Levantei minha cabeça do seu ombro e o olhei:
- Desculpe, não quis zombar dizendo que sua familia não pode ser da nobreza, mas soa tão patético vindo dela...Peraí, tem alguma verdade nisso? – quis saber e ele suspirou:
- Os Callahan são um ramo da família de Robert de Bruce. Ele foi um guardião do reino, isso equivalia a ser da nobreza naquela época, mas isso não é importante hoje em dia.
- Robert de Bruce, aquele de ‘ Coração Valente’ que traiu Mel Gibson para se salvar? Ele era tão lindo..- eu disse me sentando indignada e ele sorriu:
- Robert de Bruce, aquele que ‘no filme’ achou melhor sacrificar alguns pela paz da Escócia...Ok, ele salvou sua própria pele antes. Mas Wallace foi traído por um cavaleiro, cujo nome não é citado nos livros, então não falamos muito nisso, é passado.- ficamos nos olhando e comecei a sorrir e ele ficou curioso e expliquei:
- Imaginei você com o rosto pintado de azul e usando kilts...Muito atraente.- e ele riu entrando na brincadeira. Levantou rápido e com seu peso me prendeu na cama dizendo:
- Considere-se o meu espólio de guerra, milady.
-o-o-o-o-o-o
Maio passou rápido demais o que fez com que tivessemos muitas coisas para fazer e pouco tempo para tudo: professores exigentes com as matérias, revisões insanas para os NIEM’S, o jornal, o grêmio, a comissão de formatura e para ajudar, Parvati descobriu que os Karev não são sua família biológica, que sempre teve sangue imortal, e que foi trocada na maternidade. Era muita coisa para digerir e isso nos deixou apavorados com a idéia de que ela pirasse novamente e tivesse que usar a camisa branca de lacinhos cafona.*eca*
Acho que troca de bebês na maternidade deve ter sido moda nos anos 90, então Robbie como era paranóico começou a achar que tivesse sido trocado também, tivemos que lembra-lo de que aquele cabelo lindo e o rosto perfeito, não tinha como ser fabricado, é genético e foi herdado de tio Klaus, então ele se acalmou. Este drama todo me distraiu por tempo suficiente para que não pensar na demora do meu detetive em descobrir o meu passado.Perto do fim de semana, recebi uma mensagem do detetive, pedindo para encontra-lo e que era importante ir sozinha. Como Mitchell teria que ir para Sofia, após o almoço na sexta para treinos com o time, eu disse que ficaria na escola porque ainda tinha lições para terminar. Ele me olhou sério por alguns segundos e eu o encarei de volta firme. Acho que ele sabia que eu estava mentindo, mas não me pressionou.
Cheguei ao Raimbow Room, perto da hora do jantar e ele já me aguardava.Estava mais sério do que o normal, mas sorriu assim que me viu:
- Senhorita Carrara, boa noite, desculpe entrar em contto assim de forma tão abrupta, mas achei que iria gostar das novidades. O de sempre?- assenti e ele pediu ao garçom uma água de gilly para mim.
-Espero que as notícias sejam boas, senhor Greywolf, tive uma semana complicada. – me sentei e ele logo me entregou uma pasta azul. Abri e quando li o seu conteúdo, não me contive:
- Impressionante. Confesso que não achei que fosse possível...
-Agora é tudo seu, basta tomar posse. Costumo cumprir minhas missões. - ele disse e nesta hora, o encarei, e percebi que ele tinha uma marca arroxeada no lado direito do rosto. Ele percebeu e ficou sério, limpou a garganta e disse:
- Algumas vezes, meu trabalho pode ficar um pouco violento. Descobri tudo o que você queria saber sobre o seu nascimento. – abri minha boca, mas me calei quando ele continuou:
- Investiguei o hospital, e consegui os nomes das mulheres que naquele dia tiveram bebês do sexo feminino. Foram cinco mulheres e eu investiguei cada uma delas. Duas delas se mudaram, uma para Lovech e outra para Vratsa, e suas filhas têm características da família, consegui cópias de suas fichas escolares. – abri a pasta e pude ver as duas garotas morenas e também cópias dos documentos dos pais delas.- separei as folhas e olhei a próxima:
- Esta jovem foi gerada por inseminação artificial e vive em Sofia, com os tios, os pais morreram, há três anos em um acidente de avião, o pai era diplomata. Eu a investiguei e ela é quem diz ser.- peguei a ficha e vi a garota ruiva, muito parecida com o pai. - ele deu uma pausa e eu quis saber:
- Então só restam mi...Christine e a outra mulher. Você sabe quem ela é?
- Sim, eu a investiguei. Seu nome é Mariska Dobrev, mãe solteira, teve uma única filha que morreu horas depois de nascida. O pai é desconhecido, unca se casou. Tornou-se empresária, alguns meses após a morte da filha, pois recebeu uma herança.Vocês duas possuem o mesmo tipo sanguíneo: O negativo. - e ele parou de falar, parecia tenso.- olhei para ele que continuou:
- Você a conhece.
- Ah é? Quem? AIMEUPAI, minha mãe é tia Karen?? Diga que sim! - disse toda esganiçada com os olhos brilhando e ele se espantou com o meu delírio, mas se recuperou.
- Não, o nome dela não é Karen, sua mãe biológica é a dona da Luxury.
- O clube de strip tease? Você se enganou, Greywolf, a dona da Luxury, chama-se Sasha, e eu a conheço. E ela não pode ser a minha mãe, aliás não a vejo como mãe de ninguém, é tão jovem. – comecei a sorrir mas parei quando ele me olhou e disse baixo:
- Senhorita Carrara...Sasha, é o nome artístico de Mariska Dobrev.
Monday, May 21, 2012
"Aceite com sabedoria o fato de que o
caminho está cheio de contradições. Há momentos de alegria e desespero,
confiança e falta de fé, mas vale à pena seguir adiante."
Paulo
Coelho
Depois que Ozzy contou a Parvati sobre sua
verdadeira origem, a noticia se espalhou como rastilho de pólvora. Leo correu
até a Kratos para contar a Robbie e em questão de minutos a sala da Atena já
estava ocupada por Lucian, Finn, Lenneth, Julie, Mitchell e um Alec e um Oleg
apavorados. Todos queriam saber o que
Parvati faria, mas quando Ozzy desceu ao encontro dos amigos uma hora depois,
não estava acompanhado.
- Então? – Lucian perguntou ansioso – Como ela
está?
- Mal. Conseguiu falar alguma coisa depois de um
tempo, mas só repete o quanto a vida é injusta.
- Já chega – Julie levantou do sofá irritada – É
minha vez de falar com ela.
- O que vai fazer? – Leo perguntou alarmada,
conhecia Julie o suficiente para saber que ela talvez não fosse a pessoa mais
adequada para lidar com a situação.
- Conversar com ela, já devia ter feito isso
antes.
- Acho que não é uma boa ideia, deixe que nós
cuidamos disso – Ozzy sugeriu e ela lhe lançou um olhar atravessado.
- Ninguém aqui tem o direito de decidir quando e
como eu devo falar com ela. Lembre-se que vocês são amigos e namorado, mas família
só eu.
- Bom, tecnicamente... – Robbie começou, mas
parou no meio – Vou ficar calado.
- Foi a decisão mais sábia de toda a sua vida –
Julie respondeu atravessado e foi em direção às escadas – Ninguém sobe,
entendeu?
Ela não precisou olhar pra trás para saber que
ninguém ia segui-la. Parvati estava encolhida na cama quando ela entrou e moveu
apenas a cabeça para ver quem tinha chegado ao quarto. Resmungou algo que Julie
não entendeu e cobriu a cabeça com o cobertor para ignorar sua presença. Julie
fechou a porta e caminhou até a cama, montando em cima dela e começando a lhe
bater.
- Ai, para, o que está fazendo? – Parvati já
estava sem a coberta e tentava se defender dos tapas da prima, mas choramingava
mais do que se protegia.
- Eu sou a vida e estou lhe dando uma surra! –
Julie acertou um tapa em sua cabeça e o arco que ela usava voou pelo quarto – O
que vai fazer a respeito? Lutar comigo ou choramingar feito um bebê?
- Você é maluca! Sai de cima de mim! – Parvati
empurrou a prima, mas continuou apanhando.
- Anda, reage! Vai deixar a vida lhe dar uma
surra sem nem ao menos tentar vencê-la? – um soco acertou seu braço com força –
Você é assim tão inútil e fraca?
- Para com isso! – Parvati conseguiu acertar um
tapa no rosto de Julie, fazendo-a recuar – Desculpa!
- Foi assim tão difícil?
- Você é maluca.
- Funcionou, você reagiu.
- Já está sabendo então?
- Sim, e se falar outra vez que a vida é injusta
vou voltar a lhe bater.
- Não foi você quem foi trocada na maternidade, é
muito fácil dizer que estou exagerando.
- Parvati, por Merlin! Você foi trocada na
maternidade, ok, isso não é legal, mas me diz onde está a injustiça da vida? É
porque você foi criada por uma família horrível que a maltratava e deixava você
trancada por dias sem comida em um porão ou porque de repente sua verdadeira
família é ainda mais maravilhosa que a que lhe criou e você poderia ter
crescido ainda mais mimada?
- Falando assim fico parecendo idiota...
- Se soa idiota é porque é idiota. Olha, eu
entendo que não é uma noticia para se comemorar com fogos de artificio, mas
você pesou a mão no drama. Você não perdeu uma família, você ganhou outra.
- Karen vai ficar devastada.
- Não, não faça isso! – Julie disse severa – Não
comece a chamá-la de Karen, ela é sua mãe, não importa o que o seu sangue diga.
E tio Demetri é seu pai, assim como eu sou e sempre vou ser sua prima.
- Muita coisa faz sentido agora, como mamãe
sempre dizendo que eu não parecia com nenhum dos meus primos porque era única.
Todos vocês se parecem, eu sempre fui a única que não lembrava ninguém.
- É, eu costumava achar que você era tão pentelha
que ninguém queria se parecer com você.
- Engraçadinha – Julie riu - Tive que descobrir
que não somos realmente parentes pra nos entendermos?
- É, gostamos de dificultar as coisas – Parvati
deu um sorriso fraco e Julie puxou algo do bolso, estendendo a ela – Já devia
ter devolvido isso a você.
- Seu colar. Você está usando a pulseira – disse
apontando para o pulso direito da prima.
- Seu colar, não meu. Nós duas esquecemos a promessa,
mas eu fiz pior quando o tirei. Não vou mais fazer isso e espero que continue a
usar o seu. Agora, mais do que nunca, não podemos esquecer o que eles
significam.
- Família – Parvati colocou o colar de volta no
pescoço e estendeu a mão a Julie.
- Família – ela respondeu a segurando e as duas
sorriram.
Agora elas sabiam que a promessa que fizeram
quando tinham sete anos nunca mais seria quebrada.
°°°°°°°°°°°
Nunca uma sessão de terapia com Martin Pace foi
tão aguardada por Parvati. Embora estivesse se sentindo melhor depois de
apanhar da prima e ouvir o que ninguém tinha coragem de dizer, ainda sentia-se
perdida e sem saber o que fazer a seguir. Sabia que precisava contar aos pais,
mas como começar aquela conversa? Eram tantas explicações para dar até chegar
àquela descoberta que ela se sentia mal só de pensar no assunto.
Alheio aos últimos acontecimentos em Durmstrang,
Martin ouviu atentamente à história que estava sendo contada por Parvati e
Ozzy. Ouvia com tanta atenção que, à primeira vez que o nome do suposto bebê
trocado por Parvati foi mencionado, não fez a ligação. Foi só quando Ozzy o
disse pela segunda vez que veio o estalo. Ele levantou com um salto do sofá e
correu até as pastas de alunos do curso de Auror em Hogwarts.
- Como é o nome da menina? – perguntou passando
as pastas em um ritmo frenético.
- Emma Blanchard... – Parvati repetiu olhando
curiosa para Ozzy – Por quê? Você a conhece?
- O nome soou familiar... Ah, achei! – ele
estendeu uma pasta aos dois – Emma Blanchard, 18 anos, aluna da Lufa-Lufa e
melhor da turma do curso de auror em Hogwarts.
- Merlin... É ela, não tenho a menor duvida –
Parvati não conseguiu impedir que uma lágrima escorresse pelo seu rosto
enquanto fitava a foto na ficha – Não precisa nem perder tempo fazendo um exame
de DNA.
- Como tem tanta certeza? – Martin perguntou.
- Porque ela é a Alexis, três anos mais velha –
Parvati entregou a foto a Ozzy.
- É, é ela mesma – ele confirmou.
- Merlin, tenho mesmo que contar à minha mãe? –
Parvati abaixou a cabeça – Não posso fingir que nada disso está acontecendo?
- Você não tem que fazer nada, Parvati – Martin
disse tranqüilo e Ozzy o encarou surpreso.
- Ela não precisa contar aos pais?
- Se ela não quiser, não. Você deve contar? Sim.
Você precisa? Não. Você tem que fazer o que achar certo, mas esse segredo virá à
tona mais cedo ou mais tarde. Cabe a você decidir se prefere deixar que eles
descubram através de outras pessoas ou por você.
- Eu quero contar, mas não sei como. Vou precisar
explicar tantas coisas até chegar a como descobri isso, eles vão me internar
naquele hospício outra vez, nunca vão acreditar.
- Você não precisa fazer isso sozinha, vou estar
com você – Ozzy apertou sua mão – E Katarina também, ela e seu pai são amigos
há anos, trabalham juntos. Quando ela confirmar sua história, eles vão
acreditar.
- Ouça o que Oscar está dizendo. Conte tudo a
eles e quando vocês estiverem preparados para entrar em contato com a outra
família, vou estar aqui para ajudar. Emma é minha paciente, ela confia em mim,
eu mesmo contarei a ela.
- Como... Como ela é? – Parvati não se conteve,
embora não tivesse certa de que queria ouvir a resposta.
- Quando me fizer essa pergunta sem hesitar, terá
sua resposta. Conversamos outra vez semana que vem.
Martin os dispensou sem deixar que ela
contestasse sua resposta e Parvati se deu por vencida. Ele tinha razão, ela não
estava pronta para saber detalhes de como era a verdadeira filha dos Karev. No
momento, tudo que precisava ocupar sua mente era o que seria a conversa mais
difícil que já teve com os pais em 18 anos. E quanto mais ela demorasse a
contar, mais doloroso seria, então ela já estava decidida: ia pra casa no
próximo fim de semana e contaria tudo, começando pelo dia em que sua irmã
morreu.
Monday, May 14, 2012
O tempo chuvoso, tão raro nessa época do ano em Sofia, me
pegou desprevenido quando aparatei de dentro da estação de trem para o portão
da minha casa. Elvis, um dos nossos elfos domésticos, cuidava de uma das muitas
plantas de minha mãe e sorriu animado quando me viu. Joe, o segurança da casa,
conversava com ele enquanto tentava proteger os dois da chuva com uma sombrinha
gigante.
- Mestre Oscar, não o esperávamos em casa esse fim de semana
– Elvis disse surpreso e Joe assentiu.
- Mudança de planos de última hora – respondi sem muita
animação.
- Problemas com a namorada? – Joe perguntou e assenti –
Então nada melhor do que vir para o conforte da sua casa.
- Tem alguém em casa?
- Mestre Ilana chegou nesse instante – Elvis respondeu
animado como sempre.
- Obrigado.
Caminhei até a casa sem me importar com a chuva. Fui direto
até o quarto de minha mãe avisar que estava em casa e ela teve a mesma reação
de surpresa que Elvis e Joe, mas me abraçou animada. Era sempre bom vir pra
casa e ser mimado.
- Por que não avisou antes que viria? Quase não me encontrou
aqui. Ia para Paris com seu pai, mas ele precisou adiar por conta de um
problema e uma das boates.
- Decidi de ultima hora, Parvati e eu não estávamos nos
entendendo e achei melhor dar um espaço pra ela e aproveitar pra ver vocês.
- O que houve? Não é possível que já estejam brigando!
- Não é nada demais, ela só ficou braba porque defendi o
ponto de vista de Julie nessa briga idiota das duas. Nem ao menos fiquei ao
lado de Julie, só disse que entendia e ela ficou uma fera.
- Ela é sua namorada, é o seu dever defender o ponto de
vista dela, não da outra parte da confusão.
- Julie é minha melhor amiga! – disse indignado, mas ela só
riu e balançou a cabeça.
- Seu pai tem mais de 200 anos e também nunca me entendeu,
não sei por que ainda me surpreendo.
- O que quer dizer com isso? – olhei torto pra ela e mamãe
riu ainda mais, beijando minha testa.
- Não se preocupe, vocês vão se entender. Só evite tomar
partido de outras pessoas de agora em diante.
- Farei o possível para me lembrar disso.
Passei um dia agradável em casa. Com papai fora
cuidando dos problemas da empresa e nenhum dos meus irmãos por perto para me
atormentar, não precisei dividir a atenção da minha mãe com ninguém.
Conversamos sossegados como há muito tempo não fazíamos e à noite saímos para
jantar em seu restaurante favorito, mas como tudo que é bom dura pouco, quando
chegamos em casa encontramos Katarina esparramada no sofá. Mamãe logo se
apressou em abraçá-la, feliz por vê-la em casa.
- Pensei que o propósito de você casar era que não a veria
mais por aqui o tempo todo – disse meio azedo depois que mamãe subiu para
trocar de roupa.
- Também amo você, maninho.
- O que veio fazer aqui, afinal?
- Falar com você. Passei aqui para ver se tinha vindo para
casa antes de ter que ir até Durmstrang e Joe disse que tinha saído para jantar
com a mamãe.
- E não podia esperar até amanha? Está tarde.
- Por que está tão rabugento? O assunto é sério, é sobre a
sua namorada.
- O que houve? – notei o tom grave na voz dela e fiquei
preocupado.
- Vou contar a história desde o começo, assim você tira suas
próprias conclusões e quem sabe elas digam que eu estou errada. Merlin sabe o
quanto quero estar errada.
- Está me assustando.
- Deveria ficar mesmo. Lembra que achei curioso ela, uma
humana normal, ter sobrevivido ao ritual e voltado com poderes e tudo mais? –
assenti e ela continuou – Resolvi pesquisar, queria entender isso melhor e
encontrei um livro muito antigo na biblioteca pessoal do vovô que falava sobre
o assunto. Acontece que qualquer pessoa pode se tornar Imortal, porque o que
nos torna assim não é a nossa linhagem sangüínea, mas sim o encantamento. Por
isso é tão importante que somente poucas pessoas saibam como fazê-lo, por isso
o processo de escolha para os futuros Mestres é tão rigoroso. Se qualquer um
tivesse acesso a isso, teríamos um mundo cheio de pessoas que não podem morrer
e ia virar um caos.
- Ok, então você descobriu o que já sabíamos. Por que esse
pânico todo?
- O livro diz que pessoas que não descendem de famílias de
Imortais podem passar pelo ritual, mas não adquirem habilidades especiais. Isso
eu acertei, elas fazem parte da nossa linhagem sangüínea.
- Os Karev são Imortais? – perguntei confuso.
- Não. Procurei por eles em todos os livros de registro e
não tem nada.
- Então está querendo dizer que Parvati não é uma Karev? –
ela assentiu e me senti tonto – Acho que preciso sentar.
- Procurei outra explicação, qualquer coisa que pudesse
indicar que estou errada, mas não encontrei. E tem mais.
- O que mais? – minha voz já soava desesperada.
- Quando não encontrei outra possibilidade, procurei os
registros do nascimento dela no hospital. Olhei todas as fichas de crianças
nascidas no dia 8 de abril de 1998 e tem uma família de Imortais nelas. Os
Blanchards. Eles tiveram uma menina naquele dia, Emma.
- E onde eles estão? Não tem nenhuma Emma Blanchard em Durmstrang. Ela
estaria na nossa turma, eu saberia.
- Não sei onde estão também e não podia sair perguntando
pras pessoas sem um bom motivo ou iam desconfiar que estou escondendo alguma
coisa. Mas onde quer que eles estejam, tem uma família de Imortais muito
intrigada com a falta de habilidades da filha.
- Merlin... Como vou contar isso a ela?
- Não sei, mas mais cedo ou mais tarde nossa família vai
saber o que vocês fizeram e quando souberem que ela pode ler mentes, perguntas
vão começar a ser feitas. Uma hora ela vai descobrir, então melhor que seja
agora.
- É, acho que sim.
- Esse era o destino dela. Acho que o universo encontrou uma
maneira de consertar as coisas.
- E matou duas pessoas como dano colateral? Desde quando
você acredita nessas bobagens?
- Não importa no que acredito, tem que contar a verdade a
ela.
Conversamos mais um pouco e quando Katarina foi embora
fiquei sozinho na sala com o pensamento longe. Era tarde, não adiantava voltar a
Durmstrang e tirar o sono dela, o melhor era pegar o primeiro trem pela manhã. Não
consegui pregar o olho a noite inteira. Quando o dia amanheceu, me despedi de
minha mãe dizendo que queria me entender com Parvati logo e sai. Antes das 10h
já estava de volta à escola e fui direto para a Atena.
- O que você quer? – uma aluna do 3º ano perguntou hostil
quando abriu a porta.
- Falar com a minha namorada, por quê? Algum problema com
isso?
- Ela não quer falar com você e nos proibiu de deixá-lo
entrar até ela mandar.
- Olha, não estou com paciência pra discutir com pirralhos,
dá pra sair da frente?
- Você não tem autorização de entrar – outra garota apareceu
e de repente a sala estava cheia delas, todas bloqueando minha passagem, e
começamos a bater boca.
- O que está acontecendo? – Leo apareceu na escada atraída
pela discussão.
- Preciso falar com a Parv e não me deixam entram – respondi
olhando diretamente para ela – É importante.
- Deixem-no passar – Leo ordenou, percebendo o tom de
urgência na minha voz. Elas protestaram, mas obedeceram – O que houve? – ela
perguntou quando a alcancei na escada.
- Vocês são mais parecidas do que imaginam – respondi a
encarando sério – Ela não é uma Karev.
- Como é que é? – Leo engasgou.
- Longa história, mas preciso contar a ela primeiro –
alcançamos a porta do quarto e entrei sem bater.
- Ozzy, está cedo, agora não – Parv já falou sem paciência
quando me viu.
- Parv, é melhor ouvir o que ele tem a dizer.
O tom de voz de Leo, além do fato dela ter me apoiado, fez
com que Parvati abaixasse a guarda e me ouvisse. Calmamente contei a ela a
conversa que tive com Katarina e estava esperando que ela começasse a chorar ou
entrasse em desespero, mas a única reação que Parvati teve foi ficar parada no
meio do quarto, encarando o vazio como se Leo e eu não estivéssemos presentes.
Aproximei-me cauteloso e a abracei, mas ela não correspondeu ao abraço e
continuou imóvel, e foi então que compreendi. Parvati havia entrado em estado
de choque.
((Continua...))
Thursday, April 26, 2012
Georgi Karev havia
reunido os netos mais velhos para fazer uma busca pelo terreno da casa e
arredores da floresta, deixando uma ordem expressa para que os mais novos não
saíssem de dentro da casa. Entre os que foram deixados para trás estavam Jack,
Julie e Parvati, inconformados em não poderem ajudar na busca por Rambo. Os
três ficaram na varanda vendo os primos carregando lanternas e ouvindo as
instruções do avô, e no minuto que a avó se distraiu com os mais novos dentro
de casa, Julie e Parvati dispararam na direção da floresta. Jack ainda tentou
convencê-las a ficar, mas elas nunca o ouviam.
Munidos de apenas uma
lanterna que um dos primos havia deixado pra trás, as duas perderam a trilha de
vista poucos minutos depois de entrarem na floresta. Sem perceber que estavam
caminhando em um terreno sem marcação, continuaram indo cada vez mais fundo
procurando pelo pastor alemão. Um trovão ecoou e um raio caiu a poucos metros
de distancia de onde eles estavam.
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O som do raio atingindo a árvore me acordou. Cai da cama
assustada e no mesmo instante minha cabeça de encheu com o som dos sonhos de
todas as meninas da república. Meu coração estava disparado com o susto no
sonho e não conseguia me concentrar para que as vozes parassem. Tudo que
consegui fazer foi agachar no chão com as mãos tapando os ouvidos e gritar.
- Parvati, o que houve? – Leo apareceu na minha frente, um
semblante assustado.
- O que aconteceu? – Jude surgiu atrás dela, a mesma
expressão assustada.
- Alguém vá chamar o Ozzy, rápido! – Leo gritou agachando ao
meu lado e vi Flora correr em direção à porta.
A imagem de Leo tentando me erguer do chão com a ajuda de
Jude e Penny foi a última coisa que lembro. Minha cabeça começou a latejar de
uma forma tão intensa que achava que fosse explodir. Meu nariz começou a
sangrar em seguida e então tudo ficou preto.
°°°°°°°°°°
- Ela está voltando – ouvi vozes agitadas e reconheci uma
delas como sendo de Ozzy – Parv? Está me ouvindo?
- O que aconteceu? – perguntei com a voz fraca. Minha cabeça
ainda doía, mas não como antes, e não ouvia mais nenhuma voz.
- Você acordou gritando e desmaiou, nos deu o maior susto! –
Leo respondeu ainda com a voz abalada – Saiu tanto sangue do seu nariz que
Penny ameaçou desmaiar também.
- O que houve? – Ozzy perguntou com a voz calma, alisando
meu cabelo – Estava sonhando com alguma coisa?
- Com a casa do lago outra vez. Entrei na floresta com Jack
e Julie e uma arvore do nosso lado foi atingida por um raio. Foi quando acordei
assustada com o barulho – olhei para Ozzy me esforçando para não começar a
chorar – Não aguento mais isso. Sempre que sonho com isso fico tão atordoada
que não consigo manter o controle. O que vai acontecer quando você não estiver
aqui pra me ajudar?
- Eu sempre vou estar aqui – ele beijou minha testa e me
puxou mais pra perto dele.
- Então fica aqui essa noite, por favor. Se você estiver
aqui não vou sonhar com isso.
- Não sei, Parv, não é muito legal... – ele olhou para as
meninas, incerto – E se algum professor aparecer...
- Se tudo que fizer for abraçá-la, pode ficar aqui essa
noite – Leo falou e as meninas assentiram.
- Obrigada – sussurrei pra ela, enquanto Ozzy envolvia os
braços em volta de mim.
- É, mas não acostuma – Leo atirou uma almofada pra ele e
voltou pra sua cama – É só essa noite.
Não foi só aquela noite. Com Ozzy abraçado a mim a noite
inteira, não voltei a sonhar com a casa do lago, tampouco acordei assustada com
vozes invadindo minha mente. E quando na noite seguinte elas tiveram que
chama-lo na Kratos porque eu estava mais uma vez a ponto de desmaiar, ele
passou as duas noites seguintes comigo sem nem ao menos ir para a sua república
na hora de dormir.
- Você se acomodou – Leo disse enquanto caminhávamos para a
aula de educação física – Ficou confortável pra você tê-lo do seu lado a noite
inteira e não está pensando em uma maneira de resolver isso sozinha.
- Nem eu passo tanto tempo assim dormindo no quarto de vocês
– Robbie completou – Se algum professor resolve dar uma incerta nas repúblicas,
vocês estão ferrados.
- Não estamos fazendo nada demais – me defendi, mas sabia
que estava errada e eles não precisaram fazer nada além de me olhar sérios – Eu
sei, eu sei, tenho que me virar sozinha. Só não sei como fazer isso.
- Bom, se bem me recordo das divertidas aulas de Adivinhação
que tínhamos até dois anos atrás, a professora Silmeria diria que o fato de
você sonhar sempre com a mesma coisa significa que não é um sonho, mas sim uma
lembrança. E existe uma mensagem nessa lembrança que você precisa decifrar.
- Uma mensagem, certo. Mas que mensagem? – perguntei
impaciente.
- Sei lá, ora! É a sua lembrança, o que aconteceu naquele
dia que você deveria saber? Algum acidente ou experiência que mudou sua vida?
- Até onde sei, não aconteceu nada demais. Ninguém morreu ou
desapareceu, o cachorro do meu primo viveu até ficar bem velhinho, então o
encontramos naquela noite.
- Alguma coisa aconteceu, ou você não estaria sendo quase
assombrada por essa lembrança – Leo disse e Robbie assentiu, mas eu ainda não
estava convencida.
- Não aconteceu nada, além de Julie e eu nos perdermos na
floresta. Desobedecemos meu avô, Jack não quis ir, ele nunca desobedecia a uma
ordem, mas nós duas éramos teimosas, fazíamos o que queríamos e éramos
inseparáveis. Não sei o que posso estar deixando- - parei de repente, minha
cabeça começando a latejar, mas não era por causa das vozes, mas porque tinha
acabado de entender – É ISSO!
- Isso o que? – Leo perguntou rindo, quando Robbie saltou
assustado.
- Jack disse que pra fazer as pazes com Julie eu tinha que
lembrar como era quando éramos crianças – eles me olharam como se eu fosse
maluca – No Halloween, quando o fantasma dele apareceu.
- Tinha esquecido essa informação, sabe que não gosto de
fantasmas – Robbie se benzeu e revirei os olhos.
- Que tipo de bruxo é você?
- Leo indagou e rimos.
- Fantasmas me dão arrepio. São pessoas mortas, elas não
deveriam andar por ai! – ele respondeu
mal humorado, mas não dei confiança.
- Certo, já sei o que fazer, mas não sei como. Sempre acordo
no meio do sonho, preciso descobrir um jeito de não acordar.
- Não faço ideia de como ajudar, a menos que acertar sua
cabeça com um taco de beisebol seja uma opção – Leo sugeriu e Robbie desfez a
cara feia, rindo.
- Essa não é uma opção.
- Ei, vocês três, já posso começar a aula ou precisam de
mais tempo para tricotar? – Maddox gritou do meio da quadra.
Apertamos o passo e logo já estávamos junto do resto da
turma. Robbie, Leo e eu quase nunca participávamos das aulas de educação
física, mas como Leo agora era adepta da malhação nos deixava faltar muito
pouco. Por mais que os exercícios do curso de auror fossem de treinamento
militar, odiava aquela aula. Eram as duas horas semanais que a turma tinha pra
se transformar em um bando de selvagens. Os jogos eram sempre violentos demais
e por mais que o professor apitasse faltas o tempo inteiro, alguém sempre saia
machucado.
Hoje a partida seria de handebol e eu já estava querendo
chorar. Pelo menos Maddox separou os garotos das garotas, mas a partida não foi
menos violenta. Parei de contar quantas vezes já tinham me jogado no chão com
uma trombada ou quantas boladas tinha levado antes da metade do segundo tempo. Quando
as duas partidas terminaram, Finn estava cuspindo sangue pra todo lado.
Colocaram ele como goleiro e Robbie, em um surto de força, acertou a bola de
couro em cheio na sua boca. Ele não parava de pedir desculpas e apesar de Finn
estar dizendo que não tinha problema, os garotos riam tanto que não estavam
ajudando nem um pouco.
- Pronta pra sessão com o Dr. Pace? – Ozzy me abraçou quando
saímos dos vestiários, ambos de banho tomado e limpos outra vez. Encolhi o
corpo quando seu braço bateu em um dos hematomas – Foi massacrada hoje?
- Hoje fui o saco de pancada, me derrubaram centenas de
vezes – reclamei fazendo careta e ele riu.
- Se serve de consolo, a boca do Finn inchou e Derek quebrou
o nariz.
- É, ajuda um pouco.
Caminhamos juntos até a sala do Dr. Pace e ele parecia
bastante ocupado quando entramos, mas como sempre fazia, colocou as pastas de
lado e abriu um sorriso acolhedor. Desde que começamos a namorar, o sorriso no
rosto dele se transformou em um misto de satisfação e cautela. Mesmo se dizendo
feliz por termos resolvido nossos problemas, recusava-se a nos liberar. Há dois
meses ficaria indignada, mas já estava tão acostumada ao nosso bate papo
semanal que ia sentir falta se não precisasse mais das sessões. Então quando
ele disse que elas continuariam, não houve contestação.
- Parvati, algum problema? – Dr. Pace chamou minha atenção
no meio da conversa.
- O que?
- Está distraída. Perguntei por que não gosta das aulas de
educação física.
- Desculpa. Não estava prestando atenção.
- Algo está lhe incomodando? – assenti e Ozzy me encarou –
Diga o que é, vamos ver se encontramos a solução.
- Acho difícil. É um sonho que tenho quase todo dia, sempre
acordo incapacitada de me concentrar e acabo perdendo o controle. É mesmo a
mesma coisa.
- Não é um sonho então, é uma memória – ele repetiu as
palavras de Robbie.
- Sonho ou memória, não consigo me livrar dele. E nunca vou
até o fim, sempre acordo com o trovão. Se é mesmo uma memória, então tenho que
ver tudo. Acho que só isso vai me fazer parar de sonhar. E é impossível, não posso
controlar até que parte do sonho quero ver.
- Talvez não – Ozzy falou – Acho que posso ajudar.
- Como? – Dr. Pace perguntou primeiro.
- Lembra que minha irmã disse que nossa habilidade vai muito
além de ler mentes? – ele respondeu olhando pra mim – Uma das coisas que
podemos fazer é algo que ela chama de “mente presa”. Podemos criar uma ilusão ou
um sonho e prender a pessoa nele. É como se ela tivesse em coma, mas sua mente
está presa naquela ilusão. Nada pode acordá-la, a menos que quem a prendeu a
desperte. Ela fica vivendo naquela ilusão até ser despertada.
- Então você pode me forçar a ver todo o sonho? – ele assentiu,
mas Dr. Pace parecia alarmado.
- Isso não é perigoso? – ele perguntou, incerto se aquela
era mesmo a solução.
- Só se eu não despertá-la, o que não vai acontecer. Se a
pessoa viver muito tempo presa na ilusão, pode acordar um pouco maluca.
- Se não tem perigo, vamos fazer isso agora mesmo! – disse ansiosa,
já deitando no sofá – Faça o que tiver que fazer, estou pronta. Confio em você.
- Eu sei o que fazer, não se preocupe – ele falou olhando
para o Dr. Pace, que ainda não estava muito seguro, depois olhou pra mim – Vou ver
o mesmo que você quando tiver dormindo. Quando perceber que já encontrou o que
queria, a trarei de volta.
Assenti sem nem pensar duas vezes, confiava nele, e fechei
os olhos. Senti suas mãos na minha testa e segundos depois estava de volta ao
sonho. Não sei se ele mesmo tinha me colocado lá ou se eu automaticamente
voltei à floresta, mas já tinha descrevido o sonho a ele tantas vezes que ele
pode ter criado tudo sozinho.
Estava mais uma vez na floresta, sozinha com Julie. O raio
havia acabado de atingir a árvore ao nosso lado e o susto que levamos foi tão
grande que Julie deixou a lanterna cair e no desespero de encontra-la, prendi
meu pé em uma raiz de árvore e o torci. Entramos em pânico imediatamente, mas
Julie conseguiu se recompor e estava fazendo de tudo para me acalmar. Eu, com
meus sete anos, estava fazendo o que qualquer criança naquela idade, machucada
e na chuva, perdida em uma floresta faria: chorava sem parar, chamando pela
minha mãe.
- Fica calma, Parv – Julie dizia sem parar, abraçada a mim
no chão – Jack vai avisar ao vovô que entramos sozinhas e eles vão nos
encontrar.
Não adiantava, eu não conseguia me acalmar. Continuei chorando,
até que Julie tirou uma corrente que tinha no pescoço e me deu. Era um pingente
em forma de trevo de quatro folhas que sabia ter sido um presente da mãe dela,
Jack tinha um igual. Ela mandou que ficasse com ele porque ele a protegia, e
enquanto eu o tivesse comigo estaria segura. O colar me distraiu e parei de
chorar, mas ao invés de coloca-lo no pescoço, tirei uma das pulseiras que
sempre usava e dei a ela. Era a pulseira que meu pai havia comprado pra mim e
tinham duas dela. Eu deveria dar a outra para Alexis, mas nunca o fiz porque
sabia que ela ia perder e Julie era como uma irmã pra mim, então achei justo que
ficasse com ela. Combinamos que, enquanto usássemos aquele colar e aquela
pulseira, estaríamos sempre uma ao lado da outra.
Pouco tempo depois vimos várias lanternas piscando no meio
da floresta e vovô e nossos primos, Jack entre eles, apareceram na clareira. Rambo
estava com eles, latindo desesperado enquanto farejava o ar. Vovô estava uma
fera, mas tão aliviado por estarmos vivas que não levamos bronca. Quando ele me
pegou no colo, Ozzy me despertou e voltei à sala da terapia. Minha reação imediata
foi colocar a mão no pescoço. A corrente ainda estava lá, nunca havia tirado.
Ozzy me olhava sorrindo, mas Dr. Pace tinha a expressão mais intrigada do mundo
no rosto. Contei a ele o que tinha acontecido.
- Acho que dessa vez não preciso aconselhá-la, não é mesmo? –
ele disse depois de ouvir a história toda.
- Não, eu sei o que preciso fazer.
- Então estão liberados. Vire mais essa página.
Saímos da sala de mãos dadas, mas estava tão nervosa que
estava esmagando os dedos de Ozzy. Sabia que tudo que tinha que fazer era
conversar com Julie. Fazê-la lembrar da promessa que havíamos feito quando só tínhamos
sete anos. A promessa que, de alguma forma, não conseguimos manter. Não conseguia
me lembrar de quando havíamos esquecido ela, mas sentia-me muito triste por
saber que havíamos perdido a amizade que tínhamos. Ozzy me deixou na porta da
Atena e voltou para a Kratos. Aquilo era algo que tinha que fazer sozinha, ele não
podia ajudar daqui pra frente.
Ela estava sozinha na sala de estudos, debruçada sobre
livros de Alquimia, e nem percebeu quando entrei. Ou talvez tenha fingido que não
me viu. A segunda possibilidade me irritou e tirei a corrente do pescoço,
atirando em cima da mesa. Isso atraiu sua atenção e ela a pegou, olhando pra
mim. Acho que ela sequer percebeu, mas quando viu a corrente, sua mão esquerda
automaticamente procurou o pulso direito, onde a pulseira que havia dado a ela não
estava mais.
- Você lembra, não é? – perguntei, mas ela não respondeu – Sim,
você lembra. Posso ter esquecido o que isso significava pra mim, mas nunca a
tirei. Você perdeu um irmão no acidente e me culpa por isso, mas adivinha? Eu também
perdi uma irmã e também me culpo pelo que aconteceu. Todos me dizem que não podia
evitar e existem até provas disso, mas eu sempre vou me culpar, não importa o
que digam ou mostrem. Então se você acha que sua vida é uma droga e ninguém lhe
entende, pense mais um pouco. Sinto sua falta, Julie. Já perdi minha irmã de
verdade, não quero perder a postiça também.
Julie continuou sem dizer nada, apenas me encarando séria. Quando
ela desviou o olhar e passou a encarar fixamente a corrente em cima da mesa,
virei as costas e fui embora. Naquele momento soube que ela nunca ia me
perdoar. Também tinha perdido minha irmã postiça.
Tuesday, April 03, 2012
Quando me afastei do beijo de Ozzy e corri para longe dele, tudo que queria era o colo da minha mãe. Estava vendo toda a conversa que tivemos depois do casamento de Katarina passar como um filme na minha cabeça, e como da última vez, quando cheguei ao dormitório afundei a cabeça no travesseiro e comecei a chorar.
ºººººº
- Parvati? – senti alguém me sacudindo, mas não me mexi – Parv, acorda, vai se atrasar pra aula. Já são 8h!
Reconheci a voz como sendo de Leo e entendi que devia ter chorado até dormir ontem à noite, antes que ela pudesse voltar da reunião do jornal. Ela me sacudiu outra vez, mas resmunguei que não queria assistir a aula e ela puxou o lençol de cima de mim, agarrando meus braços e me arrastando pra fora da cama.
- Me deixa em paz, Leo, não quero sair – puxei a coberta de volta e me enrolei nela.
- O que houve? Quando cheguei ontem estava dormindo e nem trocou de roupa.
- Não estou me sentindo bem, quero ficar aqui.
- Não parece bem mesmo – ela colocou a mão na minha testa, mesmo eu tentando afastá-la – É, você está com febre. Vou passar na ala hospitalar e pedir para a enfermeira vir até aqui. No intervalo venho ver como está.
Leo saiu e voltei a me encolher na cama. Devo ter dormido na mesma hora, porque não nenhuma lembrança daquela manhã de quarta-feira. Quando senti alguém me sacudindo outra vez e reconheci sua voz, deduzi que já era hora do almoço. Ela me agarrou com as duas mãos, como fez de manhã, mas ao invés de me puxar pra fora da cama, me virou na direção dela. Robbie estava ao seu lado e os dois estavam sérios.
- O que aconteceu ontem na terapia? – Robbie disse firme, os braços cruzados.
- E não diga que não aconteceu nada, porque Ozzy também não foi à aula hoje – Leo completou – Alec disse que ele não está doente, mas está esquisito, então pode soltar o verbo.
Sentei na beira da cama me sentindo fraca, mas conhecia-os bem o suficiente pra saber que, a menos que eu desmaiasse, teria que contar a verdade. Sem opção, contei tudo que aconteceu na sessão com o Dr. Pace, incluindo o que causou toda a confusão entre Ozzy e eu há quase três anos. Como já era esperado, ouvi um sermão deles de como eu já deveria ter contado aquilo há muito tempo e que não deveria ter deixado essa história se arrastar até hoje. Ouvi tudo sem dizer nada, apenas concordando, e dei graças a Merlin quando a enfermeira entrou no quarto para ver como eu estava e os expulsou, pois o horário de almoço já havia terminado.
Foram dois dias inteiros de cama com febre alta, o que acabou por comprovar o que minha mãe havia dito sobre minhas recaídas serem puramente emocional. Eu não fazia ideia de como agir agora que sabia o que realmente havia acontecido. Se eu pensava em ficar com ele? É claro que sim, isso nunca deixou de ser uma hipótese, mesmo quando eu estava com raiva dele. Nunca deixei de pensar em todo esse tempo o que poderia ter acontecido se eu não tivesse entrado no bar do hotel e ouvido a conversa entre eles. Será que estaríamos juntos até hoje ou já teríamos terminado, ainda mais magoados um com o outro?
Acordei me sentindo melhor na sexta-feira, mas não consegui sair da república. Ainda não estava pronta pra encará-lo, a ideia de que uma conversa seria inevitável estava me apavorando, mas eu não ia poder me esconder por muito mais tempo. Nessa semana a aula do curso de auror era naquela sexta à noite e não tinha a menor possibilidade de faltar, isso deixaria uma marca negativa na minha ficha e todo o esforço até agora teria sido em vão. Então às 19:40 eu já estava amarrando meu coturno, pronta para sair, mas não consegui levantar da cama.
- Você só pode estar brincando – Leo entrou no quarto depois da reunião do jornal e me encarou séria.
- Eu vou, só estou me preparando.
- Você não está indo pedi-lo em casamento, por Merlin! – ela atirou o exemplar do jornal pronto em cima de mim – Tudo que precisam fazer é conversar! Como pode ser tão difícil?
- Eu sei, eu sei! – atirei o jornal de volta nela e levantei, vestindo o casaco – Já estou saindo.
- Volte pra cá depois, quero saber como foi.
- Não espere acordada, não faço ideia do que é a aula. Só fomos instruídos a nos agasalhar, então não sei que horas volto.
Deixei a república pela primeira vez em dois dias e caminhei até a sala onde aconteciam as aulas do curso. Todos já estavam lá, fui a última a chegar. Por obrigação, tive que me posicionar ao lado de Ozzy. Nos cumprimentamos quando me aproximei, mas não nos encaramos. Era obvio que ele também não sabia o que dizer, o que tornava aquilo tudo ainda mais complicado. Se ele não tocasse no assunto, quem o faria? Eu certamente não seria. Por sorte não teria que pensar nisso agora, porque com a turma completa, as instruções da aula iam começar e pelos rabiscos no quadro negro, tinha muita coisa a ser dita.
A aula seria de vigilância, mas assim que alguns garotos começaram a se animar com a ideia de perseguir algum bruxo das trevas, professor Wade nos jogou um balde de água fria dizendo que nossa tarefa era apenas observar e reportar se algo suspeito aparecesse, sequer tocaríamos nossas varinhas. Cada dupla ficaria em um ponto especifico da praça do vilarejo, de onde teríamos uma visão diferente da outra do palco montado no meio dela. Palco onde minha mãe e todo o seu comitê politico iriam discursar em algum momento. Era um comício para as próximas eleições e eles estariam ali toda a madrugada.
Ozzy e eu acabamos sozinhos em um apartamento vazio em um prédio em frente ao palco. Estávamos no 3º andar e Oleg e Mitchell foram instalados no apartamento embaixo do nosso. Tudo que tinha dentro dele era um radio, que usaríamos para nos comunicar com os professores, e algumas velas, que fomos instruídos a não usarmos mais que uma a menos que fosse absolutamente necessário. O objetivo de uma vigilância era não chamar atenção, e uma luz em um apartamento deserto chama atenção. Ozzy sentou de um lado da janela e eu sentei do outro. Ficamos os dois em um silêncio horrível.
- Consigo ver tudo daqui – disse numa tentativa de quebrar aquele silencio – O que devemos observar, exatamente?
- Suspeitos. Alguém encarando demais outra pessoa, ou com a mão no bolso por muito tempo, essas coisas – ele respondeu olhando pela janela – Também consigo ver tudo daqui.
O assunto acabou e o silêncio voltou. Àquela altura eu já estava rezando para que ele falasse alguma coisa, que me forçasse a confrontá-lo, porque aquilo estava me fazendo mal e eu não tinha coragem de dizer nada, a menos que alguém me obrigasse. Leo e Robbie estariam me batendo agora, se pudessem, mas eu não conseguia. Talvez ele tenha lido meus pensamentos, estava tão atordoada que não estava tentando bloquear nada.
- Então... Vamos passar a noite inteira aqui fingindo que não aconteceu nada?
- Eu não sei o que dizer – admiti, com minha cabeça apoiada nos joelhos e sem encará-lo – Passei tanto tempo o odiando por algo que não era verdade que não sei o que deveria sentir agora.
- Você estava mesmo doente ou só queria me evitar?
- As duas coisas – ficamos em silêncio mais um tempo – Não sabia o que fazer, foi mais fácil fugir.
- É, você faz muito isso. Se tivesse me confrontado naquele dia, poderíamos ter evitado tanta coisa.
- Como sabe que eu teria acreditado que era tudo mentira?
- Como pode pensar que eu diria aquilo de você?
- Como pode dizer aquilo, mesmo sendo mentir? – rebati – Eu nunca diria isso sobre alguém por quem eu estava me apaixonando, mesmo que fosse pra calar a boca de alguém.
- Você estava se apaixonando por mim? – ele perguntou, mas não respondi e ficamos em silêncio outra vez – Olha, sinto muito por tudo isso, se pudesse voltar atrás, acredite, já teria feito isso. Naquela época eu era um idiota desesperado pela aprovação dos irmãos mais velhos em tudo, não percebia o quão idiota eles eram e o quão idiota eu era por querer que eles me achassem legal. Eu tinha 15 anos. Estava apaixonado pela garota mais popular da escola e queria que ela fosse minha namorada, mas ao mesmo tempo queria que meus irmãos pensassem que eu era descolado. Está vendo o conflito? – levantei a cabeça e o encarei, seu rosto refletido na única vela que fomos autorizados a acender – A única coisa que mudou foi que eu não ligo mais para o que eles pensam de mim.
Desviei o olhar dele e levantei do chão. Minha cabeça estava dando um nó e comecei a andar de um lado pro outro no apartamento. Não demorou muito e Ozzy levantou também, me parando quando passei por ele. Ele me forçou a encará-lo.
- Você me ama? – ele perguntou direto e me pegou desprevenida.
- Que pergunta é essa?
- Uma pergunta simples, que a resposta só pode ser sim ou não. Você me ama?
- Eu não sei.
- Sabe sim. Você sabe bem o que sente, mas se puder olhar pra mim e dizer que não sente nada, se disser isso olhando nos meus olhos, prometo que a deixo em paz.
- Está me dando um ultimato?
- Sim, eu estou lhe dando um ultimato, porque estou cansado de esperar. Esperei dois anos e meio pra entender o que aconteceu naquela noite e agora que sei a verdade, estou disposto a apagar tudo que aconteceu e recomeçar.
- Você consegue apagar tudo que fizemos e dissemos um ao outro nesses últimos dois anos?
- Sim, consigo, porque eu sou apaixonado por você desde muito antes daquele verão e quero que isso dê certo. O que você quer fazer?
- Eu quero que dê certo, mas não sei se consigo esquecer tudo.
- Ainda não respondeu minha primeira pergunta – ele me encarou sério e abaixei a cabeça, mas acabei confirmando.
- Você sabe que sim.
- Então podemos fazer dar certo - ele me puxou pra perto dele e fez menção de me beijar, mas o afastei.
- Não, não posso fazer isso com Lukas – disse o empurrando com as mãos.
- Isso nunca a impediu antes, porque justo agora?
- Está vendo? – gritei do nada, furiosa – É por isso que nunca vamos dar certo! Você não controla o que diz e eu também não!
- Desculpa! Droga! – ele gritou também, frustrado – Eu não vou mais fazer isso, vou aprender a me controlar.
- Lusth, Karev – ouvimos a voz do professor Wade saindo do radio.
- Lusth na escuta – Ozzy respondeu pegando o rádio.
- O que foi que eu disse quando expliquei o proposito de uma vigilância?
- Que não podemos ser vistos ou ouvidos pela pessoa que estamos vigiando.
- Então explique pra mim porque eu estou vendo vocês dois em pé no meio da sala e acabei de ouvir a Karev gritar.
- Desculpa professor, não vai acontecer outra vez – ele me olhou alarmado e tapei a boca.
- É melhor que não. O que quer que tenham pra resolver, ou esperem até que os libere ou mantenham as vozes baixas.
Sentamos depressa no chão, voltando às posições iniciais e mais uma vez ficamos em silêncio, mas dessa vez não durou muito. Ozzy pegou a vela do chão e aproximou do rosto, fazendo uma careta que me obrigou a rir.
- Não quis dizer que não quero ficar com você quando disse que não podia fazer isso com Lukas.
- Então o que é?
- Não posso fazer isso sem terminar com ele antes. Já o enganei tantas vezes e mesmo sabendo de tudo, ele continuou ao meu lado quando eu mais precisei. Não quero ser aquela garota outra vez, entende? Ele não merece isso.
- Eu entendo. E acho que está certa.
- Eu realmente quero que isso dê certo.
- Vamos fazer com que dê certo – ele estendeu a mão e a peguei – Já esperei tanto tempo, posso esperar mais um pouco.
Sorri pra ele e entrelacei meus dedos nos seus. Passamos a noite toda naquela posição, afastado pela vela queimando de mãos dadas, concentrados na tarefa que foi dada. Quando o comício terminou e entregamos os relatórios para sermos liberados pelo professor, me despedi de Ozzy e procurei minha mãe antes que ela fosse embora, pedindo uma carona pra casa. Precisava de uma chave de portal até o Canadá.
Voltei a Durmstrang no final da tarde de domingo, depois de passar um tempo em casa aproveitando a folga do meu pai. Com mamãe ocupada com a reeleição, tivemos a oportunidade de passar mais tempo juntos. Fomos a um parque de diversões que Mason estava louco pra ir e há muito tempo não me divertia tanto. Saímos para almoçar fora do parque e depois ele me deixou na estação para pegar o último trem expresso para Durmstrang. Estavam todos sentados nos bancos da praça conversando quando desembarquei, incluindo Ozzy, e fui até eles. Parei ao lado dele, mas continuei de pé.
- Lembra que você disse que ia voltar na sexta? – Leo perguntou me olhando feio, mas ri.
- Foi mal, precisei resolver algumas coisas.
- Foi pra casa? – Robbie perguntou e estava tão indignado quando Leo por tê-los deixado dois dias sem noticias.
- Sim, mas também fui ao Canadá.
- Ah, foi visitar o Lukas? Como ele está? – Lucian perguntou animado.
- Não exatamente. Fui pra terminar com ele – Leo, Robbie e Lenneth abriram um sorriso enorme, mas os outros reagiram surpresos.
- Como foi? – Alec perguntou – Está tudo bem?
- Foi uma conversa longa, dolorosa e sincera, mas estou bem.
- Então você terminou mesmo com ele? – Ozzy falou pela primeira vez desde que cheguei.
- Sim, terminei, não temos mais nada. Tem algo a dizer sobre isso?
- Não – ele respondeu e ficou de pé de frente pra mim – Prefiro fazer.
Ozzy me tomou nos braços e me beijou na frente de todo mundo. E se aquilo me incomodaria a algum tempo atrás, agora não tinha mais importância. Há muito tempo não me sentia feliz assim, e o que mais queria era que meus amigos soubessem disso.
But what do you say to taking chances,
What do you say to jumping off the edge?
Never knowing if there's solid ground below
Or hand to hold, or hell to pay,
What do you say?
I just want to start again,
And maybe you could show me how to try.
What do you say to taking chances,
What do you say to jumping off the edge?
Taking Chances – Celine Dion
ºººººº
- Parvati? – senti alguém me sacudindo, mas não me mexi – Parv, acorda, vai se atrasar pra aula. Já são 8h!
Reconheci a voz como sendo de Leo e entendi que devia ter chorado até dormir ontem à noite, antes que ela pudesse voltar da reunião do jornal. Ela me sacudiu outra vez, mas resmunguei que não queria assistir a aula e ela puxou o lençol de cima de mim, agarrando meus braços e me arrastando pra fora da cama.
- Me deixa em paz, Leo, não quero sair – puxei a coberta de volta e me enrolei nela.
- O que houve? Quando cheguei ontem estava dormindo e nem trocou de roupa.
- Não estou me sentindo bem, quero ficar aqui.
- Não parece bem mesmo – ela colocou a mão na minha testa, mesmo eu tentando afastá-la – É, você está com febre. Vou passar na ala hospitalar e pedir para a enfermeira vir até aqui. No intervalo venho ver como está.
Leo saiu e voltei a me encolher na cama. Devo ter dormido na mesma hora, porque não nenhuma lembrança daquela manhã de quarta-feira. Quando senti alguém me sacudindo outra vez e reconheci sua voz, deduzi que já era hora do almoço. Ela me agarrou com as duas mãos, como fez de manhã, mas ao invés de me puxar pra fora da cama, me virou na direção dela. Robbie estava ao seu lado e os dois estavam sérios.
- O que aconteceu ontem na terapia? – Robbie disse firme, os braços cruzados.
- E não diga que não aconteceu nada, porque Ozzy também não foi à aula hoje – Leo completou – Alec disse que ele não está doente, mas está esquisito, então pode soltar o verbo.
Sentei na beira da cama me sentindo fraca, mas conhecia-os bem o suficiente pra saber que, a menos que eu desmaiasse, teria que contar a verdade. Sem opção, contei tudo que aconteceu na sessão com o Dr. Pace, incluindo o que causou toda a confusão entre Ozzy e eu há quase três anos. Como já era esperado, ouvi um sermão deles de como eu já deveria ter contado aquilo há muito tempo e que não deveria ter deixado essa história se arrastar até hoje. Ouvi tudo sem dizer nada, apenas concordando, e dei graças a Merlin quando a enfermeira entrou no quarto para ver como eu estava e os expulsou, pois o horário de almoço já havia terminado.
Foram dois dias inteiros de cama com febre alta, o que acabou por comprovar o que minha mãe havia dito sobre minhas recaídas serem puramente emocional. Eu não fazia ideia de como agir agora que sabia o que realmente havia acontecido. Se eu pensava em ficar com ele? É claro que sim, isso nunca deixou de ser uma hipótese, mesmo quando eu estava com raiva dele. Nunca deixei de pensar em todo esse tempo o que poderia ter acontecido se eu não tivesse entrado no bar do hotel e ouvido a conversa entre eles. Será que estaríamos juntos até hoje ou já teríamos terminado, ainda mais magoados um com o outro?
Acordei me sentindo melhor na sexta-feira, mas não consegui sair da república. Ainda não estava pronta pra encará-lo, a ideia de que uma conversa seria inevitável estava me apavorando, mas eu não ia poder me esconder por muito mais tempo. Nessa semana a aula do curso de auror era naquela sexta à noite e não tinha a menor possibilidade de faltar, isso deixaria uma marca negativa na minha ficha e todo o esforço até agora teria sido em vão. Então às 19:40 eu já estava amarrando meu coturno, pronta para sair, mas não consegui levantar da cama.
- Você só pode estar brincando – Leo entrou no quarto depois da reunião do jornal e me encarou séria.
- Eu vou, só estou me preparando.
- Você não está indo pedi-lo em casamento, por Merlin! – ela atirou o exemplar do jornal pronto em cima de mim – Tudo que precisam fazer é conversar! Como pode ser tão difícil?
- Eu sei, eu sei! – atirei o jornal de volta nela e levantei, vestindo o casaco – Já estou saindo.
- Volte pra cá depois, quero saber como foi.
- Não espere acordada, não faço ideia do que é a aula. Só fomos instruídos a nos agasalhar, então não sei que horas volto.
Deixei a república pela primeira vez em dois dias e caminhei até a sala onde aconteciam as aulas do curso. Todos já estavam lá, fui a última a chegar. Por obrigação, tive que me posicionar ao lado de Ozzy. Nos cumprimentamos quando me aproximei, mas não nos encaramos. Era obvio que ele também não sabia o que dizer, o que tornava aquilo tudo ainda mais complicado. Se ele não tocasse no assunto, quem o faria? Eu certamente não seria. Por sorte não teria que pensar nisso agora, porque com a turma completa, as instruções da aula iam começar e pelos rabiscos no quadro negro, tinha muita coisa a ser dita.
A aula seria de vigilância, mas assim que alguns garotos começaram a se animar com a ideia de perseguir algum bruxo das trevas, professor Wade nos jogou um balde de água fria dizendo que nossa tarefa era apenas observar e reportar se algo suspeito aparecesse, sequer tocaríamos nossas varinhas. Cada dupla ficaria em um ponto especifico da praça do vilarejo, de onde teríamos uma visão diferente da outra do palco montado no meio dela. Palco onde minha mãe e todo o seu comitê politico iriam discursar em algum momento. Era um comício para as próximas eleições e eles estariam ali toda a madrugada.
Ozzy e eu acabamos sozinhos em um apartamento vazio em um prédio em frente ao palco. Estávamos no 3º andar e Oleg e Mitchell foram instalados no apartamento embaixo do nosso. Tudo que tinha dentro dele era um radio, que usaríamos para nos comunicar com os professores, e algumas velas, que fomos instruídos a não usarmos mais que uma a menos que fosse absolutamente necessário. O objetivo de uma vigilância era não chamar atenção, e uma luz em um apartamento deserto chama atenção. Ozzy sentou de um lado da janela e eu sentei do outro. Ficamos os dois em um silêncio horrível.
- Consigo ver tudo daqui – disse numa tentativa de quebrar aquele silencio – O que devemos observar, exatamente?
- Suspeitos. Alguém encarando demais outra pessoa, ou com a mão no bolso por muito tempo, essas coisas – ele respondeu olhando pela janela – Também consigo ver tudo daqui.
O assunto acabou e o silêncio voltou. Àquela altura eu já estava rezando para que ele falasse alguma coisa, que me forçasse a confrontá-lo, porque aquilo estava me fazendo mal e eu não tinha coragem de dizer nada, a menos que alguém me obrigasse. Leo e Robbie estariam me batendo agora, se pudessem, mas eu não conseguia. Talvez ele tenha lido meus pensamentos, estava tão atordoada que não estava tentando bloquear nada.
- Então... Vamos passar a noite inteira aqui fingindo que não aconteceu nada?
- Eu não sei o que dizer – admiti, com minha cabeça apoiada nos joelhos e sem encará-lo – Passei tanto tempo o odiando por algo que não era verdade que não sei o que deveria sentir agora.
- Você estava mesmo doente ou só queria me evitar?
- As duas coisas – ficamos em silêncio mais um tempo – Não sabia o que fazer, foi mais fácil fugir.
- É, você faz muito isso. Se tivesse me confrontado naquele dia, poderíamos ter evitado tanta coisa.
- Como sabe que eu teria acreditado que era tudo mentira?
- Como pode pensar que eu diria aquilo de você?
- Como pode dizer aquilo, mesmo sendo mentir? – rebati – Eu nunca diria isso sobre alguém por quem eu estava me apaixonando, mesmo que fosse pra calar a boca de alguém.
- Você estava se apaixonando por mim? – ele perguntou, mas não respondi e ficamos em silêncio outra vez – Olha, sinto muito por tudo isso, se pudesse voltar atrás, acredite, já teria feito isso. Naquela época eu era um idiota desesperado pela aprovação dos irmãos mais velhos em tudo, não percebia o quão idiota eles eram e o quão idiota eu era por querer que eles me achassem legal. Eu tinha 15 anos. Estava apaixonado pela garota mais popular da escola e queria que ela fosse minha namorada, mas ao mesmo tempo queria que meus irmãos pensassem que eu era descolado. Está vendo o conflito? – levantei a cabeça e o encarei, seu rosto refletido na única vela que fomos autorizados a acender – A única coisa que mudou foi que eu não ligo mais para o que eles pensam de mim.
Desviei o olhar dele e levantei do chão. Minha cabeça estava dando um nó e comecei a andar de um lado pro outro no apartamento. Não demorou muito e Ozzy levantou também, me parando quando passei por ele. Ele me forçou a encará-lo.
- Você me ama? – ele perguntou direto e me pegou desprevenida.
- Que pergunta é essa?
- Uma pergunta simples, que a resposta só pode ser sim ou não. Você me ama?
- Eu não sei.
- Sabe sim. Você sabe bem o que sente, mas se puder olhar pra mim e dizer que não sente nada, se disser isso olhando nos meus olhos, prometo que a deixo em paz.
- Está me dando um ultimato?
- Sim, eu estou lhe dando um ultimato, porque estou cansado de esperar. Esperei dois anos e meio pra entender o que aconteceu naquela noite e agora que sei a verdade, estou disposto a apagar tudo que aconteceu e recomeçar.
- Você consegue apagar tudo que fizemos e dissemos um ao outro nesses últimos dois anos?
- Sim, consigo, porque eu sou apaixonado por você desde muito antes daquele verão e quero que isso dê certo. O que você quer fazer?
- Eu quero que dê certo, mas não sei se consigo esquecer tudo.
- Ainda não respondeu minha primeira pergunta – ele me encarou sério e abaixei a cabeça, mas acabei confirmando.
- Você sabe que sim.
- Então podemos fazer dar certo - ele me puxou pra perto dele e fez menção de me beijar, mas o afastei.
- Não, não posso fazer isso com Lukas – disse o empurrando com as mãos.
- Isso nunca a impediu antes, porque justo agora?
- Está vendo? – gritei do nada, furiosa – É por isso que nunca vamos dar certo! Você não controla o que diz e eu também não!
- Desculpa! Droga! – ele gritou também, frustrado – Eu não vou mais fazer isso, vou aprender a me controlar.
- Lusth, Karev – ouvimos a voz do professor Wade saindo do radio.
- Lusth na escuta – Ozzy respondeu pegando o rádio.
- O que foi que eu disse quando expliquei o proposito de uma vigilância?
- Que não podemos ser vistos ou ouvidos pela pessoa que estamos vigiando.
- Então explique pra mim porque eu estou vendo vocês dois em pé no meio da sala e acabei de ouvir a Karev gritar.
- Desculpa professor, não vai acontecer outra vez – ele me olhou alarmado e tapei a boca.
- É melhor que não. O que quer que tenham pra resolver, ou esperem até que os libere ou mantenham as vozes baixas.
Sentamos depressa no chão, voltando às posições iniciais e mais uma vez ficamos em silêncio, mas dessa vez não durou muito. Ozzy pegou a vela do chão e aproximou do rosto, fazendo uma careta que me obrigou a rir.
- Não quis dizer que não quero ficar com você quando disse que não podia fazer isso com Lukas.
- Então o que é?
- Não posso fazer isso sem terminar com ele antes. Já o enganei tantas vezes e mesmo sabendo de tudo, ele continuou ao meu lado quando eu mais precisei. Não quero ser aquela garota outra vez, entende? Ele não merece isso.
- Eu entendo. E acho que está certa.
- Eu realmente quero que isso dê certo.
- Vamos fazer com que dê certo – ele estendeu a mão e a peguei – Já esperei tanto tempo, posso esperar mais um pouco.
Sorri pra ele e entrelacei meus dedos nos seus. Passamos a noite toda naquela posição, afastado pela vela queimando de mãos dadas, concentrados na tarefa que foi dada. Quando o comício terminou e entregamos os relatórios para sermos liberados pelo professor, me despedi de Ozzy e procurei minha mãe antes que ela fosse embora, pedindo uma carona pra casa. Precisava de uma chave de portal até o Canadá.
Voltei a Durmstrang no final da tarde de domingo, depois de passar um tempo em casa aproveitando a folga do meu pai. Com mamãe ocupada com a reeleição, tivemos a oportunidade de passar mais tempo juntos. Fomos a um parque de diversões que Mason estava louco pra ir e há muito tempo não me divertia tanto. Saímos para almoçar fora do parque e depois ele me deixou na estação para pegar o último trem expresso para Durmstrang. Estavam todos sentados nos bancos da praça conversando quando desembarquei, incluindo Ozzy, e fui até eles. Parei ao lado dele, mas continuei de pé.
- Lembra que você disse que ia voltar na sexta? – Leo perguntou me olhando feio, mas ri.
- Foi mal, precisei resolver algumas coisas.
- Foi pra casa? – Robbie perguntou e estava tão indignado quando Leo por tê-los deixado dois dias sem noticias.
- Sim, mas também fui ao Canadá.
- Ah, foi visitar o Lukas? Como ele está? – Lucian perguntou animado.
- Não exatamente. Fui pra terminar com ele – Leo, Robbie e Lenneth abriram um sorriso enorme, mas os outros reagiram surpresos.
- Como foi? – Alec perguntou – Está tudo bem?
- Foi uma conversa longa, dolorosa e sincera, mas estou bem.
- Então você terminou mesmo com ele? – Ozzy falou pela primeira vez desde que cheguei.
- Sim, terminei, não temos mais nada. Tem algo a dizer sobre isso?
- Não – ele respondeu e ficou de pé de frente pra mim – Prefiro fazer.
Ozzy me tomou nos braços e me beijou na frente de todo mundo. E se aquilo me incomodaria a algum tempo atrás, agora não tinha mais importância. Há muito tempo não me sentia feliz assim, e o que mais queria era que meus amigos soubessem disso.
But what do you say to taking chances,
What do you say to jumping off the edge?
Never knowing if there's solid ground below
Or hand to hold, or hell to pay,
What do you say?
I just want to start again,
And maybe you could show me how to try.
What do you say to taking chances,
What do you say to jumping off the edge?
Taking Chances – Celine Dion
Tuesday, March 27, 2012
"Nossa dúvidas são traiçoeiras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar se não fosse o medo de tentar."
William Shakespeare
Passar 48h acorrentado a alguém que não quer sequer ouvir sua voz não é o que se pode chamar de uma atividade produtiva, mas aquele fim de semana revelou muita coisa a Ozzy sobre a pessoa presa ao seu pulso esquerdo. Ele agora podia dizer, com toda certeza, que Parvati era alguém que não se deve contrariar. Foi de longe o pior fim de semana que ele já passou e quando a hora de tirar as correntes chegou, os dois foram os primeiros a aparecer na sala de aula. Dr. Pace as retirou e ambos notaram o olhar de reprovação, mas não havia nada que pudessem fazer. Ozzy ainda tentou conversar com ela, pedir desculpas, mas depois de ser ignorado pela quarta vez, deu-se por vencido. A avaliação seria ruim, mas ele ao menos poderia dizer que havia se esforçado.
A semana não prometia ser muito melhor. Se quando estava atado a ela não conseguiu convencê-la a ouvi-lo, agora que estavam livres um do outro seria mais complicado. A esperança de Ozzy em força-la a escutar o que tinha a dizer era na consulta com o Dr. Pace, mas encontrar ele naquela semana significava ouvir tudo que ele tinha a dizer sobre a dinâmica do fim de semana e o quão mal eles se saíram, e aquilo era algo que Ozzy não estava nem um pouco ansioso para presenciar.
Parvati já estava na sala quando ele chegou, mas apenas Dr. Pace o cumprimentou quando se sentou em seu lugar no sofá.
- Sinto que a sessão hoje será interessante – ele comentou e Ozzy deixou escapar uma risada nervosa – Vamos começar com a avaliação da dinâmica das correntes.
- Nos saímos bem? – Parvati perguntou sarcástica.
- Você acha isso divertido, Parvati? Todas as duplas tiveram contratempos, mas conseguiram encontrar um ritmo. E vocês dois, os únicos que eu tinha certeza que se sairiam bem, foram os únicos a serem reprovados no exercício. Isso não é pra ser engraçado, o futuro de vocês como auror depende da avaliação final do curso. Uma avaliação ruim, ou até mesmo mediada, e nenhuma academia aceitará os dois. Ainda querem rir ou acha que já podemos falar sério?
- Foi minha culpa, doutor, eu disse coisas que não devia, mas tentei pedir desculpas e ela se recusou a aceitar – Ozzy respondeu e Parvati reagiu ao seu lado.
- Falar e depois pedir desculpas é muito fácil, porque não pensa antes de abrir a boca? – ela retrucou, irritada.
- Ah, está falando comigo agora?
- Você é ridículo, não acredito que um dia pensei que isso daria certo.
- Não daria mesmo, não tenho vocação pra corno manso, isso é função do Hölzenben.
- Ah, olhe só, você ouviu, não é? – Parvati olhou para o psicólogo – Agora ele pede desculpas e devemos todos fingir que nada aconteceu. Hipócrita!
- Chega! – Dr. Pace interferiu, visivelmente irritado – Parem agora mesmo. Não estou acreditando no que estou vendo. Quantos anos vocês dois têm? Vão mesmo jogar fora toda a evolução que fizeram nesses últimos meses por causa de uma desavença sem sentido? Os dois estão errados! Eu não me especializei em psicologia infantil, trabalho com adultos e espero esse comportamento de duas pessoas que já completaram 17 anos e são considerados maiores de idade pelas leis bruxas – nenhum dos dois respondeu, o que fez com que Dr. Pace balançasse a cabeça cansado – Muito bem, acho que agora é a hora de vocês me dizerem o que aconteceu de verdade.
- O que quer dizer? – Ozzy perguntou sem entender – Já contamos o que houve.
- Não estou me referindo ao último sábado. Quero saber o que aconteceu há dois anos e meio atrás, que desencadeou essa série de brigas sem sentido entre os dois. E que eles nunca haviam contado aquilo para ninguém, nem mesmo seus amigos mais próximos.
Ninguém disse nada. Agora, pela primeira vez desde que entraram na sala, os dois se encararam. Trocaram um olhar cheio de mágoa, mas não disseram uma única palavra. Estava mais do que claro para Martin que uma parte importante da história dos dois estava sendo omitida e ele não estava disposto a liberá-los sem antes ouvi-la.
- Ninguém sai dessa sala hoje sem contar essa história – ele alertou e os dois o encararam surpresos – Não importa se é algo que não gostam de comentar. Já ficou claro que, o que quer que tenha acontecido, é o que impede que vocês deixem suas diferenças de lado e tenham uma boa convivência. Então, quem vai começar?
Silêncio outra vez. Os dois trocaram outro olhar magoado e acusatório e Parvati abaixou a cabeça, mas Ozzy encarou Martin. Houve um segundo de hesitação, mas ele contou tudo. Martin ouviu durante uma hora Ozzy contar a história de quando as duas famílias se encontraram por acaso em um resort no Havaí, no verão de 2013. Ouviu-o contar que, naquela época, nenhum dos dois era o que poderia se considerar amigo, mas se davam bem, até passaram alguns dias de férias juntos e o que antes não significava nada, se transformou em atração, levando os dois a passarem os dois meses de férias juntos.
Martin já esperava por alguma revelação daquele tipo, no fundo ele sempre soube que os dois já haviam se envolvido de alguma forma, mas não esperava ouvir aquele desfecho, quando Ozzy contou sobre o último dia das férias. O dia em que ele havia planejado tornar especial e tudo deu errado.
- Ela me largou na praia sem roupas – ele não conseguia olhar pra ela enquanto narrava a história – Foi embora rindo, dizendo que eu era um idiota. Como não posso ter raiva de alguém assim?
- Parvati? – Martin a chamou, que até o momento parecia alheia ao que ele contava, sem interrompe-lo – Gostaria de contar a sua versão?
- Ele fala como se fosse inocente e eu a vaca que o enganou, mas eu ouvi você mais cedo naquele dia – ela o encarou pela primeira vez desde que começou a contar a história – Estava no bar do hotel.
- Você ouviu aquilo? – Ozzy reagiu surpreso.
- Sim, eu ouvi. Ainda bem que ouvi, ou teria continuado acreditando em você.
- O que você disse que ela ouviu, Oscar? – Martin interrompeu.
- Ele estava com os irmãos e eles estavam o interrogando sobre quanto tempo mais ia levar pra “subir a saia da loirinha” – Parvati disse com desprezo na voz – E ele riu, dizendo que não ia passar daquela noite. Que eu era difícil, mas ele já havia me dobrado.
- Não, você entendeu tudo errado! – ele agora parecia desesperado – Nada daquilo era verdade, só disse isso para eles saírem do meu pé! Ramon e Georgi são dois idiotas, que acham que não vale a pena se prender a uma pessoa só e estavam me enchendo desde quando começamos a ficar. Eu só os ignorava, mas estavam começando a me vigiar e a única forma de tirá-los do meu pé era concordando com eles. Eu nunca quis dizer nada daquilo. Parvati, eu ia pedir você em namoro naquela noite. As férias estavam acabando e eu tive medo que pensasse que tinha sido só um caso de verão que não significou nada, queria continuar com você quando voltássemos a Durmstrang.
Pela quarta vez naquela noite, a sala caiu em silêncio. Ambos abaixaram a cabeça e Martin percebeu quando Parvati rapidamente enxugou uma lágrima que começava a cair. Ozzy, por sua vez, permaneceu de cabeça baixa sem emitir nenhum som. A sessão havia terminado, não restava dúvida.
- Não posso força-los a dizer mais nada, a partir de agora só posso aconselhar – Martin quebrou o silencio depois de intermináveis cinco minutos de anotações – O que aconteceu foi um grave problema de falta de comunicação, mas agora que já sabem o que realmente aconteceu, os motivos que levaram aos atos de quase três anos atrás, o que pretendem fazer? Vão jogar para debaixo do tapete ou esclarecer de uma vez por todas tudo que passou? Pensem nisso, conversamos outra vez na semana que vem.
Os dois levantaram calados do sofá e saíram da sala, mas assim que pisaram no corredor, Ozzy segurou Parvati pelo braço forçando-a a parar. Ela o encarou com os olhos vermelhos por estar prendendo o choro e quando a primeira lágrima finalmente desceu, Ozzy a secou, alisando seu rosto. Parvati abaixou a cabeça, mas ele ergueu seu queixo e a puxou para um beijo. Como da última vez, Parvati cedeu ao beijo. E como também aconteceu na última vez, ela o interrompeu de forma repentina e o afastou com as mãos, correndo em seguida. Ozzy encostou-se à parede e deixou o corpo escorregar até estar sentado no chão, voltando a abaixar a cabeça e apoiá-la nos joelhos. Pela primeira vez em muito tempo, ele não tinha ideia do que fazer.
Here we are
Isn't it familiar
I haven't had someone to talk to
In a such long time
And it's strange
All we have in common
And your company was just the thing
I needed tonight
But somehow I feel I should apologize
Cause I'm just a little shaken by
What's going on inside
I Should Go – Levi Kreis
William Shakespeare
Passar 48h acorrentado a alguém que não quer sequer ouvir sua voz não é o que se pode chamar de uma atividade produtiva, mas aquele fim de semana revelou muita coisa a Ozzy sobre a pessoa presa ao seu pulso esquerdo. Ele agora podia dizer, com toda certeza, que Parvati era alguém que não se deve contrariar. Foi de longe o pior fim de semana que ele já passou e quando a hora de tirar as correntes chegou, os dois foram os primeiros a aparecer na sala de aula. Dr. Pace as retirou e ambos notaram o olhar de reprovação, mas não havia nada que pudessem fazer. Ozzy ainda tentou conversar com ela, pedir desculpas, mas depois de ser ignorado pela quarta vez, deu-se por vencido. A avaliação seria ruim, mas ele ao menos poderia dizer que havia se esforçado.
A semana não prometia ser muito melhor. Se quando estava atado a ela não conseguiu convencê-la a ouvi-lo, agora que estavam livres um do outro seria mais complicado. A esperança de Ozzy em força-la a escutar o que tinha a dizer era na consulta com o Dr. Pace, mas encontrar ele naquela semana significava ouvir tudo que ele tinha a dizer sobre a dinâmica do fim de semana e o quão mal eles se saíram, e aquilo era algo que Ozzy não estava nem um pouco ansioso para presenciar.
Parvati já estava na sala quando ele chegou, mas apenas Dr. Pace o cumprimentou quando se sentou em seu lugar no sofá.
- Sinto que a sessão hoje será interessante – ele comentou e Ozzy deixou escapar uma risada nervosa – Vamos começar com a avaliação da dinâmica das correntes.
- Nos saímos bem? – Parvati perguntou sarcástica.
- Você acha isso divertido, Parvati? Todas as duplas tiveram contratempos, mas conseguiram encontrar um ritmo. E vocês dois, os únicos que eu tinha certeza que se sairiam bem, foram os únicos a serem reprovados no exercício. Isso não é pra ser engraçado, o futuro de vocês como auror depende da avaliação final do curso. Uma avaliação ruim, ou até mesmo mediada, e nenhuma academia aceitará os dois. Ainda querem rir ou acha que já podemos falar sério?
- Foi minha culpa, doutor, eu disse coisas que não devia, mas tentei pedir desculpas e ela se recusou a aceitar – Ozzy respondeu e Parvati reagiu ao seu lado.
- Falar e depois pedir desculpas é muito fácil, porque não pensa antes de abrir a boca? – ela retrucou, irritada.
- Ah, está falando comigo agora?
- Você é ridículo, não acredito que um dia pensei que isso daria certo.
- Não daria mesmo, não tenho vocação pra corno manso, isso é função do Hölzenben.
- Ah, olhe só, você ouviu, não é? – Parvati olhou para o psicólogo – Agora ele pede desculpas e devemos todos fingir que nada aconteceu. Hipócrita!
- Chega! – Dr. Pace interferiu, visivelmente irritado – Parem agora mesmo. Não estou acreditando no que estou vendo. Quantos anos vocês dois têm? Vão mesmo jogar fora toda a evolução que fizeram nesses últimos meses por causa de uma desavença sem sentido? Os dois estão errados! Eu não me especializei em psicologia infantil, trabalho com adultos e espero esse comportamento de duas pessoas que já completaram 17 anos e são considerados maiores de idade pelas leis bruxas – nenhum dos dois respondeu, o que fez com que Dr. Pace balançasse a cabeça cansado – Muito bem, acho que agora é a hora de vocês me dizerem o que aconteceu de verdade.
- O que quer dizer? – Ozzy perguntou sem entender – Já contamos o que houve.
- Não estou me referindo ao último sábado. Quero saber o que aconteceu há dois anos e meio atrás, que desencadeou essa série de brigas sem sentido entre os dois. E que eles nunca haviam contado aquilo para ninguém, nem mesmo seus amigos mais próximos.
Ninguém disse nada. Agora, pela primeira vez desde que entraram na sala, os dois se encararam. Trocaram um olhar cheio de mágoa, mas não disseram uma única palavra. Estava mais do que claro para Martin que uma parte importante da história dos dois estava sendo omitida e ele não estava disposto a liberá-los sem antes ouvi-la.
- Ninguém sai dessa sala hoje sem contar essa história – ele alertou e os dois o encararam surpresos – Não importa se é algo que não gostam de comentar. Já ficou claro que, o que quer que tenha acontecido, é o que impede que vocês deixem suas diferenças de lado e tenham uma boa convivência. Então, quem vai começar?
Silêncio outra vez. Os dois trocaram outro olhar magoado e acusatório e Parvati abaixou a cabeça, mas Ozzy encarou Martin. Houve um segundo de hesitação, mas ele contou tudo. Martin ouviu durante uma hora Ozzy contar a história de quando as duas famílias se encontraram por acaso em um resort no Havaí, no verão de 2013. Ouviu-o contar que, naquela época, nenhum dos dois era o que poderia se considerar amigo, mas se davam bem, até passaram alguns dias de férias juntos e o que antes não significava nada, se transformou em atração, levando os dois a passarem os dois meses de férias juntos.
Martin já esperava por alguma revelação daquele tipo, no fundo ele sempre soube que os dois já haviam se envolvido de alguma forma, mas não esperava ouvir aquele desfecho, quando Ozzy contou sobre o último dia das férias. O dia em que ele havia planejado tornar especial e tudo deu errado.
- Ela me largou na praia sem roupas – ele não conseguia olhar pra ela enquanto narrava a história – Foi embora rindo, dizendo que eu era um idiota. Como não posso ter raiva de alguém assim?
- Parvati? – Martin a chamou, que até o momento parecia alheia ao que ele contava, sem interrompe-lo – Gostaria de contar a sua versão?
- Ele fala como se fosse inocente e eu a vaca que o enganou, mas eu ouvi você mais cedo naquele dia – ela o encarou pela primeira vez desde que começou a contar a história – Estava no bar do hotel.
- Você ouviu aquilo? – Ozzy reagiu surpreso.
- Sim, eu ouvi. Ainda bem que ouvi, ou teria continuado acreditando em você.
- O que você disse que ela ouviu, Oscar? – Martin interrompeu.
- Ele estava com os irmãos e eles estavam o interrogando sobre quanto tempo mais ia levar pra “subir a saia da loirinha” – Parvati disse com desprezo na voz – E ele riu, dizendo que não ia passar daquela noite. Que eu era difícil, mas ele já havia me dobrado.
- Não, você entendeu tudo errado! – ele agora parecia desesperado – Nada daquilo era verdade, só disse isso para eles saírem do meu pé! Ramon e Georgi são dois idiotas, que acham que não vale a pena se prender a uma pessoa só e estavam me enchendo desde quando começamos a ficar. Eu só os ignorava, mas estavam começando a me vigiar e a única forma de tirá-los do meu pé era concordando com eles. Eu nunca quis dizer nada daquilo. Parvati, eu ia pedir você em namoro naquela noite. As férias estavam acabando e eu tive medo que pensasse que tinha sido só um caso de verão que não significou nada, queria continuar com você quando voltássemos a Durmstrang.
Pela quarta vez naquela noite, a sala caiu em silêncio. Ambos abaixaram a cabeça e Martin percebeu quando Parvati rapidamente enxugou uma lágrima que começava a cair. Ozzy, por sua vez, permaneceu de cabeça baixa sem emitir nenhum som. A sessão havia terminado, não restava dúvida.
- Não posso força-los a dizer mais nada, a partir de agora só posso aconselhar – Martin quebrou o silencio depois de intermináveis cinco minutos de anotações – O que aconteceu foi um grave problema de falta de comunicação, mas agora que já sabem o que realmente aconteceu, os motivos que levaram aos atos de quase três anos atrás, o que pretendem fazer? Vão jogar para debaixo do tapete ou esclarecer de uma vez por todas tudo que passou? Pensem nisso, conversamos outra vez na semana que vem.
Os dois levantaram calados do sofá e saíram da sala, mas assim que pisaram no corredor, Ozzy segurou Parvati pelo braço forçando-a a parar. Ela o encarou com os olhos vermelhos por estar prendendo o choro e quando a primeira lágrima finalmente desceu, Ozzy a secou, alisando seu rosto. Parvati abaixou a cabeça, mas ele ergueu seu queixo e a puxou para um beijo. Como da última vez, Parvati cedeu ao beijo. E como também aconteceu na última vez, ela o interrompeu de forma repentina e o afastou com as mãos, correndo em seguida. Ozzy encostou-se à parede e deixou o corpo escorregar até estar sentado no chão, voltando a abaixar a cabeça e apoiá-la nos joelhos. Pela primeira vez em muito tempo, ele não tinha ideia do que fazer.
Here we are
Isn't it familiar
I haven't had someone to talk to
In a such long time
And it's strange
All we have in common
And your company was just the thing
I needed tonight
But somehow I feel I should apologize
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I Should Go – Levi Kreis
Monday, March 26, 2012
Algumas anotações de Mitchell Callahan, Março de 2016.
‘Família é o lugar onde as mentes entram em contato entre si. Se essas mentes amam umas as outras, o lar será tão bonito quanto um jardim florido. Mas se essas mentes entrarem em desarmonia umas com as outras, será como uma tempestade que destrói o jardim’. Buda
Quando cheguei na casa da Leonora, estava suado e faminto por causa do treino de quadribol, mas senti que alguma coisa estava errada. Entrei e vi que a gata dela, Condessa, estava toda arrepiada andando de um lado a outro no hall de entrada, e quando me viu, miou alto e passou pelas minhas pernas, era como se quisesse me mostrar alguma coisa, me apressei a entrar na sala, e acabei vendo que Leonora estava caída no chão chorando, rodeada por cadernos velhos. Me aproximei e ela me agarrou soluçando e tudo o que eu pude fazer, foi me sentar no chão e segura-la bem forte, esperando que a crise passasse, enquanto ela ia me falando sobre suas descobertas.
Quando ela falou que havia sido roubada na maternidade, minha primeira reação foi de choque, e depois lembrando de como aquela familia agia com ela, comecei a pensar que tudo poderia ser verdade, a ouvi dizer que ela era uma farsa, eu apenas fiz que não com a cabeça, pois já pensava numa forma de averiguarmos sobre isso, e até pensei em perguntar ao professor Wade, como funcionava uma investigação deste tipo quando a vi jogar um dos diários revoltada, antes que eu a acalmasse, Soren, entrou pela porta trazendo a sacola com a comida que eu havia pedido para ele comprar.Peguei as sacolas e o dispensei.
- Hora do jantar...- tentei soar animado.
- Estou sem fome.- ela disse séria e eu respondi:
- É comida chinesa, você adora.- e ela desviou do assunto:
- Você não devia ir embora para a casa da sua tia? Você havia dito que ela queria te ver.
- Minha tia pode esperar. Esta noite eu à sua disposição.- disse soltando a sacola e tentando beijar seu pescoço para distraí-la e ela me repeliu tensa.
- Não estou legal hoje, tenho muita coisa para fazer, quero ver todos estes diários, separar o que é relevante e levar para a república, preciso falar com meu advogado...
- Acalme-se, eu estou do seu lado, Leonora. Sei pelo que você está passando.
- Ah é? O quê? O que eu estou passando?- disse nervosa e eu tentei soar o mais racional possivel:
- Sente-se magoada por descobrir segredos que afetam a sua vida e da sua familia, através da sua avó, a pessoa que você mais amava e confiava. Também está pensando que se ela realmente a amasse deveria ter lhe contado a verdade, por mais dolorosa que fosse...
- Não queira bancar o psicólogo comigo, isso só funciona no seu curso de auror.
-Eu não tenho intenção de bancar o analista, é só que eu conheço você...- e ela me interrompeu:
- Nós temos um namoro, ou pelo fato de dormirmos juntos podemos até chamar de caso, e só por isso não quer dizer que você me conheça, então não se empolgue muito.- ela disse me dando aquele olhar superior, que às vezes me irritava e tentou sair de perto de mim, mas eu a segurei pelos braços e seus olhos se arregalaram:
- Quando você não pára de pensar numa pessoa em nenhum momento do dia, isso não é um caso....Quando você se lembra do toque dela,como se ela estivesse ao seu lado, isso não é só um caso... Se você quer ficar sozinha, para processar tudo o que descobriu, eu respeito isso, mas não queira diminuir o que nós temos, que é muito mais forte que seu mau humor de menina mimada.- disse soltando-a e sai porta afora, mas não fui longe. Fiquei sentado no degrau da entrada e Condessa veio se juntar a mim.
Depois de meia hora, achei que ela talvez estivesse mais calma, e voltei. Quando entrei, senti cheiro de queimado e vi que saía muita fumaça da cozinha. Corri para lá e Leonora estava abrindo as janelas. Fui ajuda-la:
- Fui esquentar a sopa e acho que a queimei...- ela disse entre uma tosse e outra:
- Você acha? Pelo que estou vendo sua panela esta perdida.- disse quando joguei a panela dentro da pia e corri para o forno que apitava feito um doido e tirei de lá de dentro vários pedaços de carvão fumegando. Senti o cheiro do papelão queimado. ‘Ela não sabe que tem que tirar a comida da embalagem antes?? pensei mas não disse nada. – me ocupei em dispersar aquele cheiro com um aceno da varinha.
- Mas você queimou toda aquela comida?- perguntei e ela recomeçou a chorar quando ouviu meu estômago roncar.
- Hey,não fica assim, é só comida.- disse enquanto enxugava uma lágrima do seu rosto com o meu polegar, e ela me abraçou:
- Desculpa, ter bancado a megera antes, eu estava me sentindo péssima, Mitchell, eu realmente estava...
- Eu sei, e achou que se eu a visse vulnerável, descobrindo coisas sobre seu passado e precisando de ajuda, eu fugiria e a deixaria sozinha. Não fui ok? Tava sentado na escada aqui da frente de casa com a Condessa, achei que você iria me chamar.- eu admiti e ela sorriu:
- Vi vocês pela janela, e pensei em atraí-lo de volta com a comida, mas estraguei tudo.- e eu ri:
- Leonora, ainda bem que você não precisa testar as receitas do seu concurso pessoalmente, seria um risco à saúde pública. - e ela gargalhou, mas depois tornou a ficar séria:
- Passei a minha vida toda contando apenas com meus avós, depois só com vovó, até entrar em Durmstrang e conhecer Robbie e Parvati. Nem Finn, tem tanto acesso a mim quanto eles, e agora você... Depois de descobrir sobre o meu nascimento, e pensar em todas as dúvidas que passaram pela minha cabeça sobre quem eu sou realmente, se meus amigos vão continuar sendo os meus amigos....Acabei descontando em quem não merecia
- É compreenssível, no seu lugar eu também surtaria. Sou mais forte do que pareço, e nâo tenho medo de lutar pelo que eu acredito, e eu acredito em nós, nunca tenha dúvidas disso. E você não deve ter dúvidas sobre quem você é, amor é mais forte do que o sangue. Sua avó, a amou muito e a criou para ser uma mulher forte, independente, Robert e Parvati são os irmãos que você escolheu e sei que eles pensam o mesmo, e eu...Eu vou estar ao seu lado, te apoiando, só porque amo você, se concentra nisso e tudo vai ser mais fácil.
- Eu estou com medo, Mitchell.- ela me disse após refletir sobre as minhas palavras, assenti e a segurei firme entre os meus braços, enquanto beijava o alto de sua cabeça.
‘Família é o lugar onde as mentes entram em contato entre si. Se essas mentes amam umas as outras, o lar será tão bonito quanto um jardim florido. Mas se essas mentes entrarem em desarmonia umas com as outras, será como uma tempestade que destrói o jardim’. Buda
Quando cheguei na casa da Leonora, estava suado e faminto por causa do treino de quadribol, mas senti que alguma coisa estava errada. Entrei e vi que a gata dela, Condessa, estava toda arrepiada andando de um lado a outro no hall de entrada, e quando me viu, miou alto e passou pelas minhas pernas, era como se quisesse me mostrar alguma coisa, me apressei a entrar na sala, e acabei vendo que Leonora estava caída no chão chorando, rodeada por cadernos velhos. Me aproximei e ela me agarrou soluçando e tudo o que eu pude fazer, foi me sentar no chão e segura-la bem forte, esperando que a crise passasse, enquanto ela ia me falando sobre suas descobertas.
Quando ela falou que havia sido roubada na maternidade, minha primeira reação foi de choque, e depois lembrando de como aquela familia agia com ela, comecei a pensar que tudo poderia ser verdade, a ouvi dizer que ela era uma farsa, eu apenas fiz que não com a cabeça, pois já pensava numa forma de averiguarmos sobre isso, e até pensei em perguntar ao professor Wade, como funcionava uma investigação deste tipo quando a vi jogar um dos diários revoltada, antes que eu a acalmasse, Soren, entrou pela porta trazendo a sacola com a comida que eu havia pedido para ele comprar.Peguei as sacolas e o dispensei.
- Hora do jantar...- tentei soar animado.
- Estou sem fome.- ela disse séria e eu respondi:
- É comida chinesa, você adora.- e ela desviou do assunto:
- Você não devia ir embora para a casa da sua tia? Você havia dito que ela queria te ver.
- Minha tia pode esperar. Esta noite eu à sua disposição.- disse soltando a sacola e tentando beijar seu pescoço para distraí-la e ela me repeliu tensa.
- Não estou legal hoje, tenho muita coisa para fazer, quero ver todos estes diários, separar o que é relevante e levar para a república, preciso falar com meu advogado...
- Acalme-se, eu estou do seu lado, Leonora. Sei pelo que você está passando.
- Ah é? O quê? O que eu estou passando?- disse nervosa e eu tentei soar o mais racional possivel:
- Sente-se magoada por descobrir segredos que afetam a sua vida e da sua familia, através da sua avó, a pessoa que você mais amava e confiava. Também está pensando que se ela realmente a amasse deveria ter lhe contado a verdade, por mais dolorosa que fosse...
- Não queira bancar o psicólogo comigo, isso só funciona no seu curso de auror.
-Eu não tenho intenção de bancar o analista, é só que eu conheço você...- e ela me interrompeu:
- Nós temos um namoro, ou pelo fato de dormirmos juntos podemos até chamar de caso, e só por isso não quer dizer que você me conheça, então não se empolgue muito.- ela disse me dando aquele olhar superior, que às vezes me irritava e tentou sair de perto de mim, mas eu a segurei pelos braços e seus olhos se arregalaram:
- Quando você não pára de pensar numa pessoa em nenhum momento do dia, isso não é um caso....Quando você se lembra do toque dela,como se ela estivesse ao seu lado, isso não é só um caso... Se você quer ficar sozinha, para processar tudo o que descobriu, eu respeito isso, mas não queira diminuir o que nós temos, que é muito mais forte que seu mau humor de menina mimada.- disse soltando-a e sai porta afora, mas não fui longe. Fiquei sentado no degrau da entrada e Condessa veio se juntar a mim.
Depois de meia hora, achei que ela talvez estivesse mais calma, e voltei. Quando entrei, senti cheiro de queimado e vi que saía muita fumaça da cozinha. Corri para lá e Leonora estava abrindo as janelas. Fui ajuda-la:
- Fui esquentar a sopa e acho que a queimei...- ela disse entre uma tosse e outra:
- Você acha? Pelo que estou vendo sua panela esta perdida.- disse quando joguei a panela dentro da pia e corri para o forno que apitava feito um doido e tirei de lá de dentro vários pedaços de carvão fumegando. Senti o cheiro do papelão queimado. ‘Ela não sabe que tem que tirar a comida da embalagem antes?? pensei mas não disse nada. – me ocupei em dispersar aquele cheiro com um aceno da varinha.
- Mas você queimou toda aquela comida?- perguntei e ela recomeçou a chorar quando ouviu meu estômago roncar.
- Hey,não fica assim, é só comida.- disse enquanto enxugava uma lágrima do seu rosto com o meu polegar, e ela me abraçou:
- Desculpa, ter bancado a megera antes, eu estava me sentindo péssima, Mitchell, eu realmente estava...
- Eu sei, e achou que se eu a visse vulnerável, descobrindo coisas sobre seu passado e precisando de ajuda, eu fugiria e a deixaria sozinha. Não fui ok? Tava sentado na escada aqui da frente de casa com a Condessa, achei que você iria me chamar.- eu admiti e ela sorriu:
- Vi vocês pela janela, e pensei em atraí-lo de volta com a comida, mas estraguei tudo.- e eu ri:
- Leonora, ainda bem que você não precisa testar as receitas do seu concurso pessoalmente, seria um risco à saúde pública. - e ela gargalhou, mas depois tornou a ficar séria:
- Passei a minha vida toda contando apenas com meus avós, depois só com vovó, até entrar em Durmstrang e conhecer Robbie e Parvati. Nem Finn, tem tanto acesso a mim quanto eles, e agora você... Depois de descobrir sobre o meu nascimento, e pensar em todas as dúvidas que passaram pela minha cabeça sobre quem eu sou realmente, se meus amigos vão continuar sendo os meus amigos....Acabei descontando em quem não merecia
- É compreenssível, no seu lugar eu também surtaria. Sou mais forte do que pareço, e nâo tenho medo de lutar pelo que eu acredito, e eu acredito em nós, nunca tenha dúvidas disso. E você não deve ter dúvidas sobre quem você é, amor é mais forte do que o sangue. Sua avó, a amou muito e a criou para ser uma mulher forte, independente, Robert e Parvati são os irmãos que você escolheu e sei que eles pensam o mesmo, e eu...Eu vou estar ao seu lado, te apoiando, só porque amo você, se concentra nisso e tudo vai ser mais fácil.
- Eu estou com medo, Mitchell.- ela me disse após refletir sobre as minhas palavras, assenti e a segurei firme entre os meus braços, enquanto beijava o alto de sua cabeça.
Tuesday, March 20, 2012
Chegamos às 17h em ponto na sala do curso de auror e nos deparamos com um aviso na porta mandando todos seguirem para o campo de quadribol. Ninguém tinha ideia do que nos esperava, mas uma coisa era certa: se a aula era em campo aberto, íamos cansar. E acertamos em cheio. Quando pisamos no campo vimos uma estrutura enorme montada, parecendo uma pista de obstáculos de treinamento militar: tinha uma plataforma alta, uma rede de escalada, uma pinguela, pneus enfileirados, vários troncos altos e baixos e uma pista de lama com cordas em cima, onde ficou bem claro que teríamos que rastejar por baixo delas pra passar.
- Boa noite, senhores – o professor Wade falou em seu tom de voz mais sádico. Aquilo era um mau sinal – Como já notaram, hoje vamos fazer algo diferente.
- Hoje nós vamos avaliar como anda a comunicação entre as duplas, e quanto vocês confiam um no outro – a professora O’Shea explicou – Um de vocês vai ficar vendado, enquanto o outro, de cima daquela plataforma, vai guiar o parceiro pelos obstáculos. Vocês vão começar em lados opostos e o objetivo é fazer o seu parceiro chegar até a sua plataforma em segurança.
- Não é uma corrida, isso não é Survivor e vocês não estão lutando pela imunidade, então não se apressem. Encontrem uma maneira de se comunicarem de forma eficaz, porque todos vão gritar ao mesmo tempo e vai ser difícil para o seu parceiro ouvir suas instruções. Vocês têm cinco minutos para decidir quem vai ficar vendado e quem vai guiar e bolarem uma estratégia antes de começarmos.
- Não acho que consigo gritar alto o suficiente – Parvati disse logo – Acho melhor você guiar.
- Você sabe que vai ter que rastejar na lama, não é? – perguntei rindo, mas ela deu de ombros – Ok então, eu guio.
Quando eles autorizaram o inicio do exercício, um caos se instalou. Todos gritavam ao mesmo tempo instruções confusas e os que estavam vendados, do outro lado da pista, pareciam galinhas decepadas andando rumo. Demorou até que Parvati conseguisse distinguir minha voz no meio daquela confusão, mas quando ela conseguiu me ouvir, trabalhamos bem. Passou sem muita dificuldade pela rede de escalada (quase saiu do alto dela, mas se segurou a tempo), atravessou os pneus sem pressa e seguindo minhas instruções para não tropeçar, passou pela pinguela colocando um pé na frente do outro e com os braços estendidos como mandei e pulou e passou por baixo de todas as traves que tinham no caminho sem acidentes. Só faltava o rastejo e quase todas as duplas estavam nele, as vozes começaram a se embolar outra vez e precisei gritar mais alto.
- Parvati, pra baixo! Você precisa rastejar!
- O QUE? OZZY? NÃO CONSIGO OUVÍ-LO.
- ABAIXA! VOCÊ PRECISA RASTEJAR!
- AI! – Oleg trombou feio com ela, derrubando Parvati por cima das cordas.
- Desculpa! – ele tentou ajuda-la a levantar, mas vendado estava atrapalhando mais do que ajudando – Quem caiu?
- Parvati! Quem é? Oleg?
- OLEG, SAI DAI! – Mitchell gritou da plataforma do meu lado – ESQUERDA, VAI PRA SUA ESQUERDA!
- PARVATI, FICA ABAIXADA! VOCÊ PRECISA RASTEJAR PRA ATRAVESSAR AS CORDAS!
Parvati finalmente ouviu e fez sinal de positivo, seguindo o que mandei e passando rastejando pela lama debaixo das cordas. Incentivei-a a continuar dizendo que faltava pouco e quando ela passou por todo o percurso de cordas, a professora O’Shea apitou e saltei da plataforma para encontra-la.
- Karev e Lusth estão ok, pode tirar a venda! – ela deu sinal positivo e Parvati arrancou a venda dos olhos. Estava suada, o rosto vermelho e toda suja de lama.
- Acho que fomos bem – ela falou quase sem folego, limpando a lama do rosto.
- Sim, vocês foram muito bem – a professora se aproximou – Apanharam um pouco no começo, mas quando conseguiram se comunicar Parvati confiou nas suas instruções e passou sem problemas pelo percurso – ela sorriu e apitou outra vez – Callahan e Karpov ok, pode tirar a venda!
Oleg tirou a venda dos olhos e vi que tinha um corte no supercilio direito, de quando não ouviu Mitchell mandando que abaixasse e deu uma cabeçada na trave. Também estava todo sujo, mas fora o machucado, eles passaram bem pelo percurso e tinham cumprido o objetivo da prova. Demorou mais meia hora até que todos tivessem concluído o percurso e sentamos na grama para ouvir a avaliação.
- No geral, todos se saíram bem. Alguns tiveram mais dificuldades, alguns até se machucaram – e Oleg passou a mão na testa na hora, fazendo a turma rir – Mas todos provaram que a comunicação entre as duplas está boa e que vocês confiam um no outro.
- O próximo exercício de dinâmica entre as duplas, como já havíamos avisado, é nesse fim de semana. Nós só vamos chegar aqui às 17h, então quem vai orientar vocês é o Dr.Pace. Estejam na sala de aula pontualmente às 10h.
- O que vai ser o exercício? – Mitchell perguntou com a mão levantada.
- Sábado vocês vão descobrir. Lembre-se que ninguém vai poder ir pra casa, ele vai ocupar todo o fim de semana, também já havíamos avisado sobre isso.
- Vocês vão gostar, é divertido – mais uma vez, o tom de voz sádico – Agora antes de liberarmos vocês, 50 voltas no campo. Vamos, vamos! – ele bateu palmas e gritou e todo mundo levantou depressa.
Corremos as 50 vezes que ele mandou em volta do campo de quadribol e conforme íamos terminando, éramos liberados da aula. Já eram quase 21h quando cheguei à Kratos e desmaiei na cama antes mesmo de considerar tomar banho. Ainda bem que não tinha sido eu a atravessar o percurso, ou teria dormido todo sujo de lama.
°°°°°°°°
Sexta-feira passou como um raio e quando me dei conta já era sábado e estava mais uma vez preso na escola por conta de algum trabalho do curso de Auror. Como havíamos sido orientados, às 10h estávamos todos na sala de aula esperando que o Dr. Pace chegasse para explicar o que teríamos que fazer. Foi impossível não notar que em cima da mesa dele havia uma caixa de madeira enorme e aquilo me preocupou. O que quer que fosse, se seria passado aos alunos por ele, a avaliação teria um valor muito maior do que parecia. Ele entrou logo depois que nos acomodamos e estava animado. Outro sinal de preocupação. O que deixa um psicólogo animado dificilmente anima seus pacientes.
- Bom dia, turma, como estão? – todos o cumprimentaram de volta e ele sorriu ainda mais animado – Muito bem, vou ser bem direto para podermos começar logo a dinâmica – ele abriu a caixa e puxou uma espécie de algema de dentro, mas era de pano e tinha uma corrente um pouco maior – Hoje, vocês serão acorrentados às suas duplas e terão que passar 48h assim. Só poderão retirá-las para usar o banheiro, mas a outra pessoa deverá ficar por perto. O que vamos avaliar nessa dinâmica é a habilidade de vocês em trabalhar juntos. Para a dinâmica funcionar, vocês precisam encontrar o ritmo.
- Dr. Pace, nem todos moram na mesma republica. Não podemos tirar pra dormir também? – Mitchell perguntou e todo mundo apoiou.
- Não, não podem, pois já pensamos na solução para isso – ele colocou a mão na caixa outra vez e puxou um saco de dormir – Para aqueles que não conseguirem chegar a um consenso sobre onde dormir, como é apenas uma noite vamos montar um acampamento aqui na sala e podem vir pra cá. A corrente pode ser usada nas mãos ou nos pés, cabe a vocês decidir onde fica melhor.
- Podemos ir até o vilarejo com elas? – perguntei
- Sim, podem. Só não devem ir para casa, mas podem circular normalmente pelo vilarejo. Estarei observando vocês de perto, assim como Micah e Shannon quando retornarem de Hogwarts. Amanhã às 17h recolheremos as correntes e entregaremos as avaliações durante a semana.
Um por um, as duplas foram até a mesa para receber a corrente e ser liberado. A maioria estava achando divertido e brincando com a idéia, como Oleg e Mitchell, que já começavam a ensaiar andar com os passos iguais, mas eu não estava achando aquilo muito divertido. Era verdade que se fosse um ano antes eu ia querer enforcar Parvati com aquela corrente, mas mesmo nos dando bem agora, passar 48h acorrentado a ela não tinha como dar certo.
Decidimos usar a corrente no braço, porque no pé íamos parecer uma dupla de presidiários. E no instante em que nos prendemos um ao outro, a falta de sincronia ficou clara. Passei pela porta e virei à esquerda, enquanto ela foi pra direita. Fomos puxamos de volta pra perto à força e ela alisou o pulso, reclamando de ter machucado.
- Isso não vai dar certo.
- Tem que dar certo, são 48 horas assim. Só temos que nos comunicar melhor.
- Certo, então vamos pra direita, porque eu tenho que passar no jornal.
- Eu tenho que ir ao vilarejo. Katarina pediu que a encontrasse no café às 10:30.
- Não vou ao vilarejo com isso.
- Eu tenho que ir até lá, ela disse que era importante.
- Ok, tudo bem, mas vamos passar no jornal antes.
- Não pode ser depois? Fico a tarde inteira lá se quiser, mas temos que ir até o vilarejo agora.
Ela finalmente cedeu e seguimos para a cidade. As ruas ainda estavam vazias, nenhum aluno circulava por elas ainda, todos deviam estar dormindo. Parvati caminhava depressa pra ninguém ter tempo de ver a corrente nos prendendo e sentamos na mesa mais afastada do café. Como sempre, Katarina estava atrasada. Já estávamos esperando há quase 10 minutos quando ela finalmente apareceu.
- Desculpe o atraso, maninho, mas não controle os acidentados que chegam ao hospital! – ela já chegou se explicando e puxando uma cadeira – Olá Parvati, que bom que veio!
- Não tive muita escolha – ela levantou nossas mãos e Kat viu a corrente.
- Curso de Auror? – ela perguntou e assentimos – Por isso escolhi ser Curandeira.
- Ok Kat, você disse que era urgente, então que tal começar a falar? – disse impaciente.
- Muito bem. Primeira coisa, não precisa mais bloquear a mente dela, eu já sei de tudo.
- Sabe tudo o que?
- Sei que ela morreu, e depois voltou – ela abaixou a voz e ficamos tensos – Sei o que você e os gêmeos fizeram.
- Quem contou isso a você?
- Ninguém me contou, mas você contou Eddie e isso bastou – ela deu um sorriso cínico e me amaldiçoei por ter dito a ele – Ele não teve culpa, bastou olhar pra ele e vi tudo.
- Por que você contou a ele? – Parvati perguntou nervosa.
- Ele sabia, ele leu o relatório da policia que o Dr. Pace me deu e me confrontou. Não pude mentir, ele queria saber por que só salvamos você.
- E por que você o deixou ler isso? Droga Ozzy, isso deveria ser um segredo, você mesmo disse que ninguém podia saber! – ela quase gritou, irritada.
- Eu não entreguei a ele, ok? – respondi tão irritado quanto ela – Ele viu em cima da cômoda e pegou! O que eu devia fazer? Tomar da mão dele e rasgar? Só ia piorar as coisas!
- Ok, se acalmem vocês dois! – Kat interferiu a tempo, pois já estávamos quase rosnando – Não vim aqui para dar bronca, vim para ajudar.
- O que? Você não vai nos denunciar ao Conselho?
- Está maluco? Tem idéia do que pode acontecer com vocês se eu entregá-los? Não quero perder meu irmãozinho, então não, não vou denunciar os três patetas.
- Então o que? Vai nos chantagear?
- Oscar, você tem muita pouca fé na sua irmã. Não vim chantagear ninguém, já disse que quero ajudar.
- Em que exatamente você pode ajudar? – Parvati perguntou em um tom mais gentil.
- Sei que você tem a mesma habilidade que nós dois, e existem tantas coisas que posso fazer que vocês nem podem imaginar. Isso vai muito além de ler mentes. Quero ajudá-la a aprender todas.
- E...? – emendei, pois aquela era Kat, tinha algo mais.
- E eu fiquei muito curiosa por saber que o ritual funcionou em uma mortal comum, sem ofensas – ela adiantou depressa e Parvati fez sinal de tudo bem – Não sabia que isso era possível. E você ainda voltou com poderes, achava isso ainda mais impossível.
- Por que impossível? Não é o ritual que desencadeia isso tudo?
- Eu sempre achei que fosse algo relacionado à linhagem sanguínea, mas acho que ficou provado que não é. Quero descobrir o que é.
- Cuidado com essas pesquisas, pode atrair a atenção de alguém.
- Não se preocupe, sei ser discreta quando preciso.
- O que exatamente podemos fazer, além de ler mentes? – Parvati perguntou de repente, como se só aquela parte da conversa tivesse lhe interessado.
- Ah, isso é conversa pra outra hora, quando eu tiver mais tempo – ela chamou o garçom – Um café para viagem, por favor. Preciso voltar para o hospital, mas quando forem para casa em um fim de semana e eu tiver folga, conversamos.
Kat pagou pelo café e assim que nos despedimos ela aparatou de volta pra Sofia. Pedimos cafés para viagem também e saímos para a rua. Ela já estava lotada, os moradores da cidade que ainda estavam dormindo quando chegamos agora já ocupavam a praça e as lojas do vilarejo. Parvati recolheu a corrente que nos separava e agarrou minha mão.
- O que está fazendo?
- Não quero que ninguém veja essa corrente idiota, vamos voltar depressa.
Andamos de mãos dadas cerca de um minuto até tudo dar errado. Quando fizemos a curva para pegar a estrada que subia até os portões do castelo, Lukas estava encostado no muro esperando por ela. A primeira reação dela foi sorrir animada, mas quando a expressão no rosto dele se fechou, ela percebeu que ainda segurava minha mão. Soltou depressa, mas era tarde demais. Lukas passou batido por nós dois e quando estava fora do alcance da proteção contra aparatação, desapareceu. Parvati correu até onde ele desaparatou, mas continuei parado e a corrente a freou.
- Solta essa coisa do meu pulso, tenho que ir atrás dele! – ela começou a desatar a corrente, mas segurei sua mão para impedi-la.
- Ficou maluca? Não podemos sair!
- Eu preciso ir, ele está pensando besteira!
- Ninguém morreu, então não pode sair! Estamos presos goste você ou não e eu não vou colocar em risco minha chance de ir pra Academia de Auror porque você quer ir atrás dele! Se não está levando isso a sério e prefere priorizar esse namoro falso, não devia ter se inscrito no curso!
- Namoro falso? Quem você pensa que é pra falar isso?
- Você nem gosta dele! Só está com ele porque não quer ficar sozinha! Relaxa, ele já está mais que acostumado com o peso do chifre, e um imaginário não vai fazer diferença – ok, eu tinha ido longe demais e nem teria sido necessário olhar pra expressão no rosto dela – Desculpa, não quis dizer isso.
- Não, você quis sim.
- Onde está indo? – perguntei quando ela passou por mim na direção dos portões – Ah, não vai me responder?
- Tenho que ficar 48h acorrentada a você, mas não precisamos conversar. Estamos entendidos?
Assenti sem opção e voltei para o castelo atrás dela. Como previ, não tinha como passar 48h acorrentado a Parvati sem que alguma coisa desse errado. Eu só esperava que demorasse um pouco mais para as coisas desandarem.
- Boa noite, senhores – o professor Wade falou em seu tom de voz mais sádico. Aquilo era um mau sinal – Como já notaram, hoje vamos fazer algo diferente.
- Hoje nós vamos avaliar como anda a comunicação entre as duplas, e quanto vocês confiam um no outro – a professora O’Shea explicou – Um de vocês vai ficar vendado, enquanto o outro, de cima daquela plataforma, vai guiar o parceiro pelos obstáculos. Vocês vão começar em lados opostos e o objetivo é fazer o seu parceiro chegar até a sua plataforma em segurança.
- Não é uma corrida, isso não é Survivor e vocês não estão lutando pela imunidade, então não se apressem. Encontrem uma maneira de se comunicarem de forma eficaz, porque todos vão gritar ao mesmo tempo e vai ser difícil para o seu parceiro ouvir suas instruções. Vocês têm cinco minutos para decidir quem vai ficar vendado e quem vai guiar e bolarem uma estratégia antes de começarmos.
- Não acho que consigo gritar alto o suficiente – Parvati disse logo – Acho melhor você guiar.
- Você sabe que vai ter que rastejar na lama, não é? – perguntei rindo, mas ela deu de ombros – Ok então, eu guio.
Quando eles autorizaram o inicio do exercício, um caos se instalou. Todos gritavam ao mesmo tempo instruções confusas e os que estavam vendados, do outro lado da pista, pareciam galinhas decepadas andando rumo. Demorou até que Parvati conseguisse distinguir minha voz no meio daquela confusão, mas quando ela conseguiu me ouvir, trabalhamos bem. Passou sem muita dificuldade pela rede de escalada (quase saiu do alto dela, mas se segurou a tempo), atravessou os pneus sem pressa e seguindo minhas instruções para não tropeçar, passou pela pinguela colocando um pé na frente do outro e com os braços estendidos como mandei e pulou e passou por baixo de todas as traves que tinham no caminho sem acidentes. Só faltava o rastejo e quase todas as duplas estavam nele, as vozes começaram a se embolar outra vez e precisei gritar mais alto.
- Parvati, pra baixo! Você precisa rastejar!
- O QUE? OZZY? NÃO CONSIGO OUVÍ-LO.
- ABAIXA! VOCÊ PRECISA RASTEJAR!
- AI! – Oleg trombou feio com ela, derrubando Parvati por cima das cordas.
- Desculpa! – ele tentou ajuda-la a levantar, mas vendado estava atrapalhando mais do que ajudando – Quem caiu?
- Parvati! Quem é? Oleg?
- OLEG, SAI DAI! – Mitchell gritou da plataforma do meu lado – ESQUERDA, VAI PRA SUA ESQUERDA!
- PARVATI, FICA ABAIXADA! VOCÊ PRECISA RASTEJAR PRA ATRAVESSAR AS CORDAS!
Parvati finalmente ouviu e fez sinal de positivo, seguindo o que mandei e passando rastejando pela lama debaixo das cordas. Incentivei-a a continuar dizendo que faltava pouco e quando ela passou por todo o percurso de cordas, a professora O’Shea apitou e saltei da plataforma para encontra-la.
- Karev e Lusth estão ok, pode tirar a venda! – ela deu sinal positivo e Parvati arrancou a venda dos olhos. Estava suada, o rosto vermelho e toda suja de lama.
- Acho que fomos bem – ela falou quase sem folego, limpando a lama do rosto.
- Sim, vocês foram muito bem – a professora se aproximou – Apanharam um pouco no começo, mas quando conseguiram se comunicar Parvati confiou nas suas instruções e passou sem problemas pelo percurso – ela sorriu e apitou outra vez – Callahan e Karpov ok, pode tirar a venda!
Oleg tirou a venda dos olhos e vi que tinha um corte no supercilio direito, de quando não ouviu Mitchell mandando que abaixasse e deu uma cabeçada na trave. Também estava todo sujo, mas fora o machucado, eles passaram bem pelo percurso e tinham cumprido o objetivo da prova. Demorou mais meia hora até que todos tivessem concluído o percurso e sentamos na grama para ouvir a avaliação.
- No geral, todos se saíram bem. Alguns tiveram mais dificuldades, alguns até se machucaram – e Oleg passou a mão na testa na hora, fazendo a turma rir – Mas todos provaram que a comunicação entre as duplas está boa e que vocês confiam um no outro.
- O próximo exercício de dinâmica entre as duplas, como já havíamos avisado, é nesse fim de semana. Nós só vamos chegar aqui às 17h, então quem vai orientar vocês é o Dr.Pace. Estejam na sala de aula pontualmente às 10h.
- O que vai ser o exercício? – Mitchell perguntou com a mão levantada.
- Sábado vocês vão descobrir. Lembre-se que ninguém vai poder ir pra casa, ele vai ocupar todo o fim de semana, também já havíamos avisado sobre isso.
- Vocês vão gostar, é divertido – mais uma vez, o tom de voz sádico – Agora antes de liberarmos vocês, 50 voltas no campo. Vamos, vamos! – ele bateu palmas e gritou e todo mundo levantou depressa.
Corremos as 50 vezes que ele mandou em volta do campo de quadribol e conforme íamos terminando, éramos liberados da aula. Já eram quase 21h quando cheguei à Kratos e desmaiei na cama antes mesmo de considerar tomar banho. Ainda bem que não tinha sido eu a atravessar o percurso, ou teria dormido todo sujo de lama.
°°°°°°°°
Sexta-feira passou como um raio e quando me dei conta já era sábado e estava mais uma vez preso na escola por conta de algum trabalho do curso de Auror. Como havíamos sido orientados, às 10h estávamos todos na sala de aula esperando que o Dr. Pace chegasse para explicar o que teríamos que fazer. Foi impossível não notar que em cima da mesa dele havia uma caixa de madeira enorme e aquilo me preocupou. O que quer que fosse, se seria passado aos alunos por ele, a avaliação teria um valor muito maior do que parecia. Ele entrou logo depois que nos acomodamos e estava animado. Outro sinal de preocupação. O que deixa um psicólogo animado dificilmente anima seus pacientes.
- Bom dia, turma, como estão? – todos o cumprimentaram de volta e ele sorriu ainda mais animado – Muito bem, vou ser bem direto para podermos começar logo a dinâmica – ele abriu a caixa e puxou uma espécie de algema de dentro, mas era de pano e tinha uma corrente um pouco maior – Hoje, vocês serão acorrentados às suas duplas e terão que passar 48h assim. Só poderão retirá-las para usar o banheiro, mas a outra pessoa deverá ficar por perto. O que vamos avaliar nessa dinâmica é a habilidade de vocês em trabalhar juntos. Para a dinâmica funcionar, vocês precisam encontrar o ritmo.
- Dr. Pace, nem todos moram na mesma republica. Não podemos tirar pra dormir também? – Mitchell perguntou e todo mundo apoiou.
- Não, não podem, pois já pensamos na solução para isso – ele colocou a mão na caixa outra vez e puxou um saco de dormir – Para aqueles que não conseguirem chegar a um consenso sobre onde dormir, como é apenas uma noite vamos montar um acampamento aqui na sala e podem vir pra cá. A corrente pode ser usada nas mãos ou nos pés, cabe a vocês decidir onde fica melhor.
- Podemos ir até o vilarejo com elas? – perguntei
- Sim, podem. Só não devem ir para casa, mas podem circular normalmente pelo vilarejo. Estarei observando vocês de perto, assim como Micah e Shannon quando retornarem de Hogwarts. Amanhã às 17h recolheremos as correntes e entregaremos as avaliações durante a semana.
Um por um, as duplas foram até a mesa para receber a corrente e ser liberado. A maioria estava achando divertido e brincando com a idéia, como Oleg e Mitchell, que já começavam a ensaiar andar com os passos iguais, mas eu não estava achando aquilo muito divertido. Era verdade que se fosse um ano antes eu ia querer enforcar Parvati com aquela corrente, mas mesmo nos dando bem agora, passar 48h acorrentado a ela não tinha como dar certo.
Decidimos usar a corrente no braço, porque no pé íamos parecer uma dupla de presidiários. E no instante em que nos prendemos um ao outro, a falta de sincronia ficou clara. Passei pela porta e virei à esquerda, enquanto ela foi pra direita. Fomos puxamos de volta pra perto à força e ela alisou o pulso, reclamando de ter machucado.
- Isso não vai dar certo.
- Tem que dar certo, são 48 horas assim. Só temos que nos comunicar melhor.
- Certo, então vamos pra direita, porque eu tenho que passar no jornal.
- Eu tenho que ir ao vilarejo. Katarina pediu que a encontrasse no café às 10:30.
- Não vou ao vilarejo com isso.
- Eu tenho que ir até lá, ela disse que era importante.
- Ok, tudo bem, mas vamos passar no jornal antes.
- Não pode ser depois? Fico a tarde inteira lá se quiser, mas temos que ir até o vilarejo agora.
Ela finalmente cedeu e seguimos para a cidade. As ruas ainda estavam vazias, nenhum aluno circulava por elas ainda, todos deviam estar dormindo. Parvati caminhava depressa pra ninguém ter tempo de ver a corrente nos prendendo e sentamos na mesa mais afastada do café. Como sempre, Katarina estava atrasada. Já estávamos esperando há quase 10 minutos quando ela finalmente apareceu.
- Desculpe o atraso, maninho, mas não controle os acidentados que chegam ao hospital! – ela já chegou se explicando e puxando uma cadeira – Olá Parvati, que bom que veio!
- Não tive muita escolha – ela levantou nossas mãos e Kat viu a corrente.
- Curso de Auror? – ela perguntou e assentimos – Por isso escolhi ser Curandeira.
- Ok Kat, você disse que era urgente, então que tal começar a falar? – disse impaciente.
- Muito bem. Primeira coisa, não precisa mais bloquear a mente dela, eu já sei de tudo.
- Sabe tudo o que?
- Sei que ela morreu, e depois voltou – ela abaixou a voz e ficamos tensos – Sei o que você e os gêmeos fizeram.
- Quem contou isso a você?
- Ninguém me contou, mas você contou Eddie e isso bastou – ela deu um sorriso cínico e me amaldiçoei por ter dito a ele – Ele não teve culpa, bastou olhar pra ele e vi tudo.
- Por que você contou a ele? – Parvati perguntou nervosa.
- Ele sabia, ele leu o relatório da policia que o Dr. Pace me deu e me confrontou. Não pude mentir, ele queria saber por que só salvamos você.
- E por que você o deixou ler isso? Droga Ozzy, isso deveria ser um segredo, você mesmo disse que ninguém podia saber! – ela quase gritou, irritada.
- Eu não entreguei a ele, ok? – respondi tão irritado quanto ela – Ele viu em cima da cômoda e pegou! O que eu devia fazer? Tomar da mão dele e rasgar? Só ia piorar as coisas!
- Ok, se acalmem vocês dois! – Kat interferiu a tempo, pois já estávamos quase rosnando – Não vim aqui para dar bronca, vim para ajudar.
- O que? Você não vai nos denunciar ao Conselho?
- Está maluco? Tem idéia do que pode acontecer com vocês se eu entregá-los? Não quero perder meu irmãozinho, então não, não vou denunciar os três patetas.
- Então o que? Vai nos chantagear?
- Oscar, você tem muita pouca fé na sua irmã. Não vim chantagear ninguém, já disse que quero ajudar.
- Em que exatamente você pode ajudar? – Parvati perguntou em um tom mais gentil.
- Sei que você tem a mesma habilidade que nós dois, e existem tantas coisas que posso fazer que vocês nem podem imaginar. Isso vai muito além de ler mentes. Quero ajudá-la a aprender todas.
- E...? – emendei, pois aquela era Kat, tinha algo mais.
- E eu fiquei muito curiosa por saber que o ritual funcionou em uma mortal comum, sem ofensas – ela adiantou depressa e Parvati fez sinal de tudo bem – Não sabia que isso era possível. E você ainda voltou com poderes, achava isso ainda mais impossível.
- Por que impossível? Não é o ritual que desencadeia isso tudo?
- Eu sempre achei que fosse algo relacionado à linhagem sanguínea, mas acho que ficou provado que não é. Quero descobrir o que é.
- Cuidado com essas pesquisas, pode atrair a atenção de alguém.
- Não se preocupe, sei ser discreta quando preciso.
- O que exatamente podemos fazer, além de ler mentes? – Parvati perguntou de repente, como se só aquela parte da conversa tivesse lhe interessado.
- Ah, isso é conversa pra outra hora, quando eu tiver mais tempo – ela chamou o garçom – Um café para viagem, por favor. Preciso voltar para o hospital, mas quando forem para casa em um fim de semana e eu tiver folga, conversamos.
Kat pagou pelo café e assim que nos despedimos ela aparatou de volta pra Sofia. Pedimos cafés para viagem também e saímos para a rua. Ela já estava lotada, os moradores da cidade que ainda estavam dormindo quando chegamos agora já ocupavam a praça e as lojas do vilarejo. Parvati recolheu a corrente que nos separava e agarrou minha mão.
- O que está fazendo?
- Não quero que ninguém veja essa corrente idiota, vamos voltar depressa.
Andamos de mãos dadas cerca de um minuto até tudo dar errado. Quando fizemos a curva para pegar a estrada que subia até os portões do castelo, Lukas estava encostado no muro esperando por ela. A primeira reação dela foi sorrir animada, mas quando a expressão no rosto dele se fechou, ela percebeu que ainda segurava minha mão. Soltou depressa, mas era tarde demais. Lukas passou batido por nós dois e quando estava fora do alcance da proteção contra aparatação, desapareceu. Parvati correu até onde ele desaparatou, mas continuei parado e a corrente a freou.
- Solta essa coisa do meu pulso, tenho que ir atrás dele! – ela começou a desatar a corrente, mas segurei sua mão para impedi-la.
- Ficou maluca? Não podemos sair!
- Eu preciso ir, ele está pensando besteira!
- Ninguém morreu, então não pode sair! Estamos presos goste você ou não e eu não vou colocar em risco minha chance de ir pra Academia de Auror porque você quer ir atrás dele! Se não está levando isso a sério e prefere priorizar esse namoro falso, não devia ter se inscrito no curso!
- Namoro falso? Quem você pensa que é pra falar isso?
- Você nem gosta dele! Só está com ele porque não quer ficar sozinha! Relaxa, ele já está mais que acostumado com o peso do chifre, e um imaginário não vai fazer diferença – ok, eu tinha ido longe demais e nem teria sido necessário olhar pra expressão no rosto dela – Desculpa, não quis dizer isso.
- Não, você quis sim.
- Onde está indo? – perguntei quando ela passou por mim na direção dos portões – Ah, não vai me responder?
- Tenho que ficar 48h acorrentada a você, mas não precisamos conversar. Estamos entendidos?
Assenti sem opção e voltei para o castelo atrás dela. Como previ, não tinha como passar 48h acorrentado a Parvati sem que alguma coisa desse errado. Eu só esperava que demorasse um pouco mais para as coisas desandarem.
Thursday, March 15, 2012
- Vocês não querem vir comigo? Podemos fazer uma sessão de filmes trash, a tv é ótima, Mitchell quem escolheu. Imagina ver ‘Piranhas 3D’?- comentei e observei Robbie e Parvati trocarem olhares maliciosos entre eles.
- Eu já tenho planos, e não vou ficar de vela.Já é dificil quando vocês estão juntos no grêmio...Ou na biblioteca...Ou no salão de jantar...- zoou Parv e Robbie completou:
- Adoraria uma sessão trash, mas já fiz planos com Alec. Não vou empatar, quando vocês tão claramente no estágio seis.
- Estágio seis? Que isso?- perguntei e Robbie riu:
- Vai me dizer que você não sabe o que é o estágio seis? É do manual básico em relacionamento.- e Parv riu:
- Robbie, ela parou de ler as revistas adolescentes, agora que está firme com o Mitchell, não sabe do ‘estágio seis’.- olhei feio:
- haha, muito engraçado que coisa é esta de estágio seis que não estou sabendo? E eu odeio não saber das coisas.- e Robbie assumiu um tom professoral:
- Amiga, um relacionamento sério é composto de vários estágios, começa com o estágio um que é:- e apontou para Parv que respondeu:
- Assumir que está a fim.- e Parv começou a contar nos dedos, enquanto respondia:
- Estágio dois: passar o fim de semana juntos.Vocês fazem muito isso.- e Robbie continuou, enquanto eu prestava atenção:
- Estágio três: dar a cópia das chaves, sabemos que Mitchell a tem, ou ele não teria pego você esparramada em cima do Finn e pirado de ciúmes, e causado toodo aquele drama.
- Eu não estava esparramada em cima do Finn, cai por acidente, quantas vezes vou ter que dizer isso?- e eles riram, e continuaram:
- O número quatro é o fim de semana sensual: pelas olheiras que você chegou aqui semana passada, é claro que já passaram deste estágio. Amiga, não é só Deus que mata ok?- joguei uma almofada nele que riu:
- O estágio cinco são férias prolongadas, também já tiveram isso, e o estágio seis é morar junto. Ops, já moram juntos.Estágio seis completado.
- Nós não moramos juntos.- eu disse defensiva e ambos riram:
- Seus empregados compram as frutas que ele gosta para o café da manhã?
- Sim, mas é uma cortesia, assim como fariam com qualquer hóspede...
-E ele tem roupas na sua casa, posso até dizer que você separou um espaço no closet para as coisas dele. – disse Parv e Robbie não perdeu a deixa continuando:
- Vocês enfeitiçaram uma cama juntos e o mais decisivo: compraram uma super tv cheia de recursos, trocaram os sofás...
- Ele comentou com Oleg,que se acontecer algum acidente durante os jogos ou no treinamento de auror, o contato de emergências, é o seu.
- O segurança dele, o Soren, meu pai quem tem um nome destes? Bem, o segurança dele, reforçou a segurança da sua casa.- disse Parv e eu abria e fechava a boca como se fosse um peixe, olhando para os dois e ambos riram:
- Viu? Vocês moram juntos.- finalizou Robbie e depois de olhar para eles, disse séria:
- Isso não pode continuar assim.- e eles pararam de rir.
- Ai droga, Robbie! Sabia que ela não estava preparada para ouvir a verdade, já está pensando em besteira...- disse Parv e eu ralhei com ela:
- Pára de ler meus pensamentos, é falta de educação.
- Não preciso, sua cara diz que você está apavorada e se te conheço vai fazer alguma coisa para sabotar seu namoro. Não ouse terminar com o Mitchell de novo, nós gostamos dele.
- Não vou terminar...Mas morar junto?A família dele não gosta de mim...Nem saímos da escola ainda...E se não der certo? - e Robbie me segurou pelos braços olhando em meus olhos:
- Querida, vocês estão apaixonados, e isso é o importante aqui. E sei que lá do Paraíso, vovó está torcendo por vocês dois, acalme-se. – assenti e Parv completou:
- A única certeza que temos é que viver o presente intensamente, pode fazer um futuro melhor.Não se prenda às convenções Léo, sobre serem jovens ou a aprovação das famílias. Com o tempo tudo vai se ajeitando.Nossa, a convivência com o doutor Pace está me contaminando. – rimos e nós três nos abraçamos e nos despedimos, mas eu estava com a cabeça cheia, precisava pensar em toda esta coisa dos ‘estágios’.
-o-o-o-o-o-o-
A reunião havia começado da forma usual: a apresentação dos relatórios, os comentários, George até havia começado a me provocar sobre o concurso, mas quando ele começou a ver que membros do Conselho estavam animados, comentando sobre as receitas, a publicidade positiva que havia sido gerada e me cumprimentavam pela iniciativa, ele fechou a cara e não tocou mais no assunto, e se apressou em continuar a reunião. Terminamos cedo e eu voltei para a casa que a vida inteira eu conheci como sendo a casa de minha avó, mas agora era minha. Eu ainda me sentia estranha em entrar na casa e não encontrar vovó esperando por mim e o serviço de chá pronto, mas eu tinha que seguir em frente. Mantive todos os empregados, mas fiz algumas mudanças na casa, deixando tudo com a minha cara. Claro que Robbie, me deu algumas dicas, inclusive me deu a idéia de transformar o sotão em uma academia já que eu agora levava a sério, esta coisa de malhar. Optei por manter muitas coisas da vovó pela casa, como seus livros preferidos, suas fotos antigas com meu avô, alguns objetos queridos e muitas fotos nossas, que retratavam a minha infância. Segurei o porta retratos com uma foto em que eu usava marias chiquinhas e estava ao lado do meu avô. Eu exibia toda orgulhosa, meu primeiro dólar de prata dado pela fada do dente, eu tinha seis anos. Ao longo da minha vida, eu nunca entendi o porquê destas fotos estarem aqui e não na casa de meus pais, e agora eu sabia. Entendia o porquê das mães das outras crianças sempre irem nas festas da escola e no meu caso, eram vovô e vovó que sempre estavam presentes, e quando meu avô morreu, eu tinha quase nove anos, vovó tomou para si todas estas obrigações. Ela havia sido a minha mãe em todos os sentidos, e eu sentia muita falta dela. Enxuguei o rosto, coloquei a foto no lugar e subi para o sotão, acompanhada de Condessa, que desde o Natal, morava na casa, e como vovó adorava bichos de estimação e minha gata estava feliz aqui, não me incomodava. Era sempre bom saber que pelo menos algo familiar estaria em casa me esperando.
O sótão não era como os dos filmes, todo sujo, escuro e empoeirado. Era limpo, organizado, porém havia muitas caixas por lá, que eu precisava olhar antes de mandar pintar e comprar os aparelhos de ginástica.
Comecei a olhar umas malas antigas, quando uma pequena caiu e se espalhou, deixando alguns diários cairem no chão. Reconheci a letra de minha avó e abri um deles.Vi que eram coisas do seu começo de casamento, suas dúvidas...No começo fiquei constrangida de ler coisas tão pessoais e coloquei de lado, mas em algumas havia trechos de músicas antigas, receitas, lembrei que para vovó devia ter sido dificil, orfã e pobre, casar aos dezoito anos, com um homem de trinta e cinco anos, temperamental e rico. Naquelas páginas, pude entender as dúvidas dela, seus medos, e saber que eles haviam tentado ter filhos por muito tempo, até que conseguiram minha mãe. As palavras felizes, as esperanças...Folheando mais rapidamente, pulei vários estágios daquele crescimento e li que criaram minha mãe como se ela fosse dona do mundo e ela agia como tal. Algumas vezes, eles brigaram por isso, fizeram as pazes...Vovô era um pai babão, dava tudo o que a filha queria, não a punha de castigo mesmo que ela houvesse levado suspensão da escola e minha avó, impunha limites, até que quando ele morreu, minha avó parou de fazer as vontades de minha mãe, agora uma mulher adulta e mãe de duas filhas, porém continuava extremamente mimada. Claro que as coisas não sairam bem, mas quem poderia culpa-las? Ambas tinham gênio forte e queriam tudo à sua maneira.
Pensei que se vovó escrevia tudo em diários, poderia haver alguma coisa relacionada ao meu nascimento, e me animei. Comecei a procurar pelos outros, e encontrei alguns, Condessa resmungou com fome, e eu decidi levar aqueles diários comigo para a sala, e enquanto minha gata comia a sua lata de atum, eu tomava uma xicara de café e ia folheando os diários e voltei um pouco para o tempo antes do casamento de meus pais.
Li sobre os muitos namorados de minha mãe, sua expulsão da escola secundária, por conduta inadequada, sobre suas companhias que vovó não aprovava, e depois quando ela conheceu George Ivashkov, filho de familia rica e e decidiu que ele seria seu marido.
Tornei a ler, mas vovó havia dito isso mesmo: Christine decidiu que George seria dela, e se empenhou para consegui-lo, mesmo ele sendo alguns anos mais velho. Vovó até pensou que ela realmente gostasse dele, mas após o casamento as brigas começaram e eles viviam como cão e gato, tendo se separado algumas vezes, mesmo quando minha mãe estava grávida de Camille.
Nossa, isso estava rendendo mais que novela mexicana. Senti que Condessa se deitou sobre meus pés, mas nem e mexi continuei a ler, até que cheguei na parte onde vovó falava sobre a segunda gravidez de Christine e que desta vez ela suspeitava que teria um menino, e que todos estavam muito animados, pois este bebê faria com que finalmente George rompesse com sua jovem amante, e ele e Christine, seguissem com o seu casamento.
Como assim o segundo filho dela seria um menino? George tinha uma amante?- me perguntei enquanto procurava pela continuação e quando encontrei comecei a ler sem nem me preocupar em acender as luzes. Seu relato era tão contundente, que parecia que eu estava vendo as cenas como se fossem um filme.
'O parto de minha filha foi doloroso, mas a menina mesmo prematura, tinha bom tamanho e parecia forte. George estava viajando a trabalho e viria assim que possivel, estranhei porque ele não quis saber o sexo da criança. Depois que deixei Camille com a babá, voltei para passar a noite com Christine, na maternidade, embora ela tenha insistido que não era preciso, mas algo me incomodava, e achei melhor estar com minha filha.
Quando cheguei ao hospital passava da meia noite, quase não havia movimento nos corredores. Entrei, no quarto e a vi colocando o bebê dentro do berço, e sua feição era dura ao olhar para a criança, não era a mesma mãe amorosa que eu havia visto horas antes. Já havia ouvido sobre depressão pós parto, e comecei a me preocupar.
-O que houve Christine? Você está bem? Não deveria estar em repouso?- e olhei para o bebê e notei que a roupa estava mal arrumada e também percebi coisas diferentes, como o tom do cabelo, que estava mais claro, e a criança parecia maior. Fiquei apreensiva:
- Estou muito bem.- tentei me aproximar e ela se colocou na frente, dizendo:
- Mãe, preciso de sua ajuda.É para salvar meu casamento, é sobre este bebê....
- Como assim? Seu marido, estava animado quando contei que o bebê nasceu.
- Você disse a ele o sexo?
- Não, ele só queria saber se você estava bem, e que ele estava a caminho....O que aconteceu Christine?- e ela se virou para mim nervosa:
- O que vou lhe dizer, mãe, não pode sair daqui, de maneira nenhuma. Jure por todos os santos e pela saúde desta criança, que você não vai contar a ninguém o que aconteceu. Não foi minha culpa, eu só fiz o que era preciso para salvar meu casamento...Mamãe,não conte a ninguém ou sou capaz de me matar.... JURE!- ela disse tão nervosa que jurei, inclusive beijei o crucifixo que eu usava no pescoço. Ela se acalmou, pois sabia que eu falava a sério, e após olhar para a criança mais uma vez disse:
- O bebê morreu.- e eu me desvencilhei dela e me aproximei do berço e vi que a criança dormia bem.
- Não diga tolices, Christine, sua filha está bem.
- Agora que dei um jeito, é claro que ela está bem.- ela respondeu sarcástica.
- Seria bom você dormir um pouco, não está falando coisa com coisa - e ela me encarou e deu uma risada estranha.
- A boa e velha Leonora, aquela que é perfeita em tudo, querida por todos, acha que a filha enlouqueceu, tsc, tsc...
- Não filha, você esta exausta, seu parto foi complicado....- tentei dizer mas ela me interrompeu:
-A menina estava no berço e dormia tranquila, levantei para vê-la e ela estava fria, deve ter morrido enquanto dormia. Na hora saí para o corredor para pedir ajuda, mas sabia que por mais que tentassem meu bebê estava morto, e se ela acordasse que futuro ela teria? Estava sem respirar a tempo demais, para voltar a ser uma criança normal, e ai sim George não teria mais motivos para ficar comigo, e eu não vou acabar a minha vida cuidando sozinha de uma criança retardada.Então, consegui um outro bebê.
-Como assim, Christine? Onde está minha neta, o que você fez?- segurei seus braços com força e ela se soltou:
- Por ironia, uma moça no final do corredor teve um filho quase na mesma hora e está sedada. Troquei nossas crianças, afinal nenhum filho de alguém como ela teria futuro mesmo.
- Não se pode roubar o filho de uma mãe assim, isso é monstruoso.Não posso aceitar isso...
- Não me interessa, agora esta criança será filha de George, seu único defeito é ser filha daquela mulher...Mas você jurou segredo. Se contar, não só eu, mas esta criança também morrerá.
- Christine, converse com seu marido, ele vai entender....
- Entender o quê? – e era George parado na porta do quarto, e Camille se transformou e começou a chorar:
- Que eu me enganei, não esperava um menino George, tive uma menina, desculpe-me querido...sinto-me uma fracassada.- e ele entrou no quarto e a amparou:
- Não tem problemas, querida, vamos cuidar da nossa filha com todo amor e carinho. – e ele após beijar Christine na testa, se aproximou do bercinho e segurou a criança e nesta hora ela abriu os olhos, e George sorriu:
- Veja ela tem os meus olhos...
- Sim, ela é toda você meu amor.- disse minha filha e ela tinha uma expressão calculista no rosto e George continuou:
- Ola, Leonora Marie, eu sou o seu pai.- senti um baque, e abri a boca para acabar com aquele teatro, quando ouvimos um grito de cortar o coração e as pessoas começarem a correr no corredor....’.
- Leonora? O que houve, meu amor?- meus olhos estavam tão embaçados pelas lágrimas, que sabia que era Mitchell, pelo som de sua voz.Soltei o diário e me agarrei a ele e comecei a soluçar, e embora ele estivesse todo suado por causa do treino, não me importei. Ele se sentou no chão e me segurou em seu colo até que eu parasse de chorar.
- O que aconteceu, Leonora? Porque você está triste? São os diários da sua avó?
- Ela não é minha avó.- eu disse e tornei a chorar e ele ficou sem entender, após algum tempo, eu disse, depois de assoar o nariz:
- Eu sempre quis entender, o porque eu não era amada por meus pais, e lendo os diários de vo...dela, eu entendi.
- Certo, você entendeu porque seus pais são dois estúpidos, lendo uns diários velhos, parabéns economizou uma fortuna com terapeutas.- ele disse tentando soar engraçado, mas eu o olhei séria e disse:
- Eles não são os meus pais. Fui roubada da maternidade no dia em que nasci. – apontei para mim mesma e completei: - Esta pessoa aqui na sua frente? É uma farsa!
- Eu já tenho planos, e não vou ficar de vela.Já é dificil quando vocês estão juntos no grêmio...Ou na biblioteca...Ou no salão de jantar...- zoou Parv e Robbie completou:
- Adoraria uma sessão trash, mas já fiz planos com Alec. Não vou empatar, quando vocês tão claramente no estágio seis.
- Estágio seis? Que isso?- perguntei e Robbie riu:
- Vai me dizer que você não sabe o que é o estágio seis? É do manual básico em relacionamento.- e Parv riu:
- Robbie, ela parou de ler as revistas adolescentes, agora que está firme com o Mitchell, não sabe do ‘estágio seis’.- olhei feio:
- haha, muito engraçado que coisa é esta de estágio seis que não estou sabendo? E eu odeio não saber das coisas.- e Robbie assumiu um tom professoral:
- Amiga, um relacionamento sério é composto de vários estágios, começa com o estágio um que é:- e apontou para Parv que respondeu:
- Assumir que está a fim.- e Parv começou a contar nos dedos, enquanto respondia:
- Estágio dois: passar o fim de semana juntos.Vocês fazem muito isso.- e Robbie continuou, enquanto eu prestava atenção:
- Estágio três: dar a cópia das chaves, sabemos que Mitchell a tem, ou ele não teria pego você esparramada em cima do Finn e pirado de ciúmes, e causado toodo aquele drama.
- Eu não estava esparramada em cima do Finn, cai por acidente, quantas vezes vou ter que dizer isso?- e eles riram, e continuaram:
- O número quatro é o fim de semana sensual: pelas olheiras que você chegou aqui semana passada, é claro que já passaram deste estágio. Amiga, não é só Deus que mata ok?- joguei uma almofada nele que riu:
- O estágio cinco são férias prolongadas, também já tiveram isso, e o estágio seis é morar junto. Ops, já moram juntos.Estágio seis completado.
- Nós não moramos juntos.- eu disse defensiva e ambos riram:
- Seus empregados compram as frutas que ele gosta para o café da manhã?
- Sim, mas é uma cortesia, assim como fariam com qualquer hóspede...
-E ele tem roupas na sua casa, posso até dizer que você separou um espaço no closet para as coisas dele. – disse Parv e Robbie não perdeu a deixa continuando:
- Vocês enfeitiçaram uma cama juntos e o mais decisivo: compraram uma super tv cheia de recursos, trocaram os sofás...
- Ele comentou com Oleg,que se acontecer algum acidente durante os jogos ou no treinamento de auror, o contato de emergências, é o seu.
- O segurança dele, o Soren, meu pai quem tem um nome destes? Bem, o segurança dele, reforçou a segurança da sua casa.- disse Parv e eu abria e fechava a boca como se fosse um peixe, olhando para os dois e ambos riram:
- Viu? Vocês moram juntos.- finalizou Robbie e depois de olhar para eles, disse séria:
- Isso não pode continuar assim.- e eles pararam de rir.
- Ai droga, Robbie! Sabia que ela não estava preparada para ouvir a verdade, já está pensando em besteira...- disse Parv e eu ralhei com ela:
- Pára de ler meus pensamentos, é falta de educação.
- Não preciso, sua cara diz que você está apavorada e se te conheço vai fazer alguma coisa para sabotar seu namoro. Não ouse terminar com o Mitchell de novo, nós gostamos dele.
- Não vou terminar...Mas morar junto?A família dele não gosta de mim...Nem saímos da escola ainda...E se não der certo? - e Robbie me segurou pelos braços olhando em meus olhos:
- Querida, vocês estão apaixonados, e isso é o importante aqui. E sei que lá do Paraíso, vovó está torcendo por vocês dois, acalme-se. – assenti e Parv completou:
- A única certeza que temos é que viver o presente intensamente, pode fazer um futuro melhor.Não se prenda às convenções Léo, sobre serem jovens ou a aprovação das famílias. Com o tempo tudo vai se ajeitando.Nossa, a convivência com o doutor Pace está me contaminando. – rimos e nós três nos abraçamos e nos despedimos, mas eu estava com a cabeça cheia, precisava pensar em toda esta coisa dos ‘estágios’.
-o-o-o-o-o-o-
A reunião havia começado da forma usual: a apresentação dos relatórios, os comentários, George até havia começado a me provocar sobre o concurso, mas quando ele começou a ver que membros do Conselho estavam animados, comentando sobre as receitas, a publicidade positiva que havia sido gerada e me cumprimentavam pela iniciativa, ele fechou a cara e não tocou mais no assunto, e se apressou em continuar a reunião. Terminamos cedo e eu voltei para a casa que a vida inteira eu conheci como sendo a casa de minha avó, mas agora era minha. Eu ainda me sentia estranha em entrar na casa e não encontrar vovó esperando por mim e o serviço de chá pronto, mas eu tinha que seguir em frente. Mantive todos os empregados, mas fiz algumas mudanças na casa, deixando tudo com a minha cara. Claro que Robbie, me deu algumas dicas, inclusive me deu a idéia de transformar o sotão em uma academia já que eu agora levava a sério, esta coisa de malhar. Optei por manter muitas coisas da vovó pela casa, como seus livros preferidos, suas fotos antigas com meu avô, alguns objetos queridos e muitas fotos nossas, que retratavam a minha infância. Segurei o porta retratos com uma foto em que eu usava marias chiquinhas e estava ao lado do meu avô. Eu exibia toda orgulhosa, meu primeiro dólar de prata dado pela fada do dente, eu tinha seis anos. Ao longo da minha vida, eu nunca entendi o porquê destas fotos estarem aqui e não na casa de meus pais, e agora eu sabia. Entendia o porquê das mães das outras crianças sempre irem nas festas da escola e no meu caso, eram vovô e vovó que sempre estavam presentes, e quando meu avô morreu, eu tinha quase nove anos, vovó tomou para si todas estas obrigações. Ela havia sido a minha mãe em todos os sentidos, e eu sentia muita falta dela. Enxuguei o rosto, coloquei a foto no lugar e subi para o sotão, acompanhada de Condessa, que desde o Natal, morava na casa, e como vovó adorava bichos de estimação e minha gata estava feliz aqui, não me incomodava. Era sempre bom saber que pelo menos algo familiar estaria em casa me esperando.
O sótão não era como os dos filmes, todo sujo, escuro e empoeirado. Era limpo, organizado, porém havia muitas caixas por lá, que eu precisava olhar antes de mandar pintar e comprar os aparelhos de ginástica.
Comecei a olhar umas malas antigas, quando uma pequena caiu e se espalhou, deixando alguns diários cairem no chão. Reconheci a letra de minha avó e abri um deles.Vi que eram coisas do seu começo de casamento, suas dúvidas...No começo fiquei constrangida de ler coisas tão pessoais e coloquei de lado, mas em algumas havia trechos de músicas antigas, receitas, lembrei que para vovó devia ter sido dificil, orfã e pobre, casar aos dezoito anos, com um homem de trinta e cinco anos, temperamental e rico. Naquelas páginas, pude entender as dúvidas dela, seus medos, e saber que eles haviam tentado ter filhos por muito tempo, até que conseguiram minha mãe. As palavras felizes, as esperanças...Folheando mais rapidamente, pulei vários estágios daquele crescimento e li que criaram minha mãe como se ela fosse dona do mundo e ela agia como tal. Algumas vezes, eles brigaram por isso, fizeram as pazes...Vovô era um pai babão, dava tudo o que a filha queria, não a punha de castigo mesmo que ela houvesse levado suspensão da escola e minha avó, impunha limites, até que quando ele morreu, minha avó parou de fazer as vontades de minha mãe, agora uma mulher adulta e mãe de duas filhas, porém continuava extremamente mimada. Claro que as coisas não sairam bem, mas quem poderia culpa-las? Ambas tinham gênio forte e queriam tudo à sua maneira.
Pensei que se vovó escrevia tudo em diários, poderia haver alguma coisa relacionada ao meu nascimento, e me animei. Comecei a procurar pelos outros, e encontrei alguns, Condessa resmungou com fome, e eu decidi levar aqueles diários comigo para a sala, e enquanto minha gata comia a sua lata de atum, eu tomava uma xicara de café e ia folheando os diários e voltei um pouco para o tempo antes do casamento de meus pais.
Li sobre os muitos namorados de minha mãe, sua expulsão da escola secundária, por conduta inadequada, sobre suas companhias que vovó não aprovava, e depois quando ela conheceu George Ivashkov, filho de familia rica e e decidiu que ele seria seu marido.
Tornei a ler, mas vovó havia dito isso mesmo: Christine decidiu que George seria dela, e se empenhou para consegui-lo, mesmo ele sendo alguns anos mais velho. Vovó até pensou que ela realmente gostasse dele, mas após o casamento as brigas começaram e eles viviam como cão e gato, tendo se separado algumas vezes, mesmo quando minha mãe estava grávida de Camille.
Nossa, isso estava rendendo mais que novela mexicana. Senti que Condessa se deitou sobre meus pés, mas nem e mexi continuei a ler, até que cheguei na parte onde vovó falava sobre a segunda gravidez de Christine e que desta vez ela suspeitava que teria um menino, e que todos estavam muito animados, pois este bebê faria com que finalmente George rompesse com sua jovem amante, e ele e Christine, seguissem com o seu casamento.
Como assim o segundo filho dela seria um menino? George tinha uma amante?- me perguntei enquanto procurava pela continuação e quando encontrei comecei a ler sem nem me preocupar em acender as luzes. Seu relato era tão contundente, que parecia que eu estava vendo as cenas como se fossem um filme.
'O parto de minha filha foi doloroso, mas a menina mesmo prematura, tinha bom tamanho e parecia forte. George estava viajando a trabalho e viria assim que possivel, estranhei porque ele não quis saber o sexo da criança. Depois que deixei Camille com a babá, voltei para passar a noite com Christine, na maternidade, embora ela tenha insistido que não era preciso, mas algo me incomodava, e achei melhor estar com minha filha.
Quando cheguei ao hospital passava da meia noite, quase não havia movimento nos corredores. Entrei, no quarto e a vi colocando o bebê dentro do berço, e sua feição era dura ao olhar para a criança, não era a mesma mãe amorosa que eu havia visto horas antes. Já havia ouvido sobre depressão pós parto, e comecei a me preocupar.
-O que houve Christine? Você está bem? Não deveria estar em repouso?- e olhei para o bebê e notei que a roupa estava mal arrumada e também percebi coisas diferentes, como o tom do cabelo, que estava mais claro, e a criança parecia maior. Fiquei apreensiva:
- Estou muito bem.- tentei me aproximar e ela se colocou na frente, dizendo:
- Mãe, preciso de sua ajuda.É para salvar meu casamento, é sobre este bebê....
- Como assim? Seu marido, estava animado quando contei que o bebê nasceu.
- Você disse a ele o sexo?
- Não, ele só queria saber se você estava bem, e que ele estava a caminho....O que aconteceu Christine?- e ela se virou para mim nervosa:
- O que vou lhe dizer, mãe, não pode sair daqui, de maneira nenhuma. Jure por todos os santos e pela saúde desta criança, que você não vai contar a ninguém o que aconteceu. Não foi minha culpa, eu só fiz o que era preciso para salvar meu casamento...Mamãe,não conte a ninguém ou sou capaz de me matar.... JURE!- ela disse tão nervosa que jurei, inclusive beijei o crucifixo que eu usava no pescoço. Ela se acalmou, pois sabia que eu falava a sério, e após olhar para a criança mais uma vez disse:
- O bebê morreu.- e eu me desvencilhei dela e me aproximei do berço e vi que a criança dormia bem.
- Não diga tolices, Christine, sua filha está bem.
- Agora que dei um jeito, é claro que ela está bem.- ela respondeu sarcástica.
- Seria bom você dormir um pouco, não está falando coisa com coisa - e ela me encarou e deu uma risada estranha.
- A boa e velha Leonora, aquela que é perfeita em tudo, querida por todos, acha que a filha enlouqueceu, tsc, tsc...
- Não filha, você esta exausta, seu parto foi complicado....- tentei dizer mas ela me interrompeu:
-A menina estava no berço e dormia tranquila, levantei para vê-la e ela estava fria, deve ter morrido enquanto dormia. Na hora saí para o corredor para pedir ajuda, mas sabia que por mais que tentassem meu bebê estava morto, e se ela acordasse que futuro ela teria? Estava sem respirar a tempo demais, para voltar a ser uma criança normal, e ai sim George não teria mais motivos para ficar comigo, e eu não vou acabar a minha vida cuidando sozinha de uma criança retardada.Então, consegui um outro bebê.
-Como assim, Christine? Onde está minha neta, o que você fez?- segurei seus braços com força e ela se soltou:
- Por ironia, uma moça no final do corredor teve um filho quase na mesma hora e está sedada. Troquei nossas crianças, afinal nenhum filho de alguém como ela teria futuro mesmo.
- Não se pode roubar o filho de uma mãe assim, isso é monstruoso.Não posso aceitar isso...
- Não me interessa, agora esta criança será filha de George, seu único defeito é ser filha daquela mulher...Mas você jurou segredo. Se contar, não só eu, mas esta criança também morrerá.
- Christine, converse com seu marido, ele vai entender....
- Entender o quê? – e era George parado na porta do quarto, e Camille se transformou e começou a chorar:
- Que eu me enganei, não esperava um menino George, tive uma menina, desculpe-me querido...sinto-me uma fracassada.- e ele entrou no quarto e a amparou:
- Não tem problemas, querida, vamos cuidar da nossa filha com todo amor e carinho. – e ele após beijar Christine na testa, se aproximou do bercinho e segurou a criança e nesta hora ela abriu os olhos, e George sorriu:
- Veja ela tem os meus olhos...
- Sim, ela é toda você meu amor.- disse minha filha e ela tinha uma expressão calculista no rosto e George continuou:
- Ola, Leonora Marie, eu sou o seu pai.- senti um baque, e abri a boca para acabar com aquele teatro, quando ouvimos um grito de cortar o coração e as pessoas começarem a correr no corredor....’.
- Leonora? O que houve, meu amor?- meus olhos estavam tão embaçados pelas lágrimas, que sabia que era Mitchell, pelo som de sua voz.Soltei o diário e me agarrei a ele e comecei a soluçar, e embora ele estivesse todo suado por causa do treino, não me importei. Ele se sentou no chão e me segurou em seu colo até que eu parasse de chorar.
- O que aconteceu, Leonora? Porque você está triste? São os diários da sua avó?
- Ela não é minha avó.- eu disse e tornei a chorar e ele ficou sem entender, após algum tempo, eu disse, depois de assoar o nariz:
- Eu sempre quis entender, o porque eu não era amada por meus pais, e lendo os diários de vo...dela, eu entendi.
- Certo, você entendeu porque seus pais são dois estúpidos, lendo uns diários velhos, parabéns economizou uma fortuna com terapeutas.- ele disse tentando soar engraçado, mas eu o olhei séria e disse:
- Eles não são os meus pais. Fui roubada da maternidade no dia em que nasci. – apontei para mim mesma e completei: - Esta pessoa aqui na sua frente? É uma farsa!
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