Wednesday, April 23, 2008

Junho de 2000

- Onde você estava?
- Não interessa...
- Este cheiro... Você está bêbado?
- Fui beber com alguns amigos... Estou com a cabeça estourando...
- Amigos que só querem ir pra farra e não te dão um emprego, não é? Precisamos fazer alguma coisa... Ninguém me aceita para trabalhar...
- Como você fala demais. Onde está o resto do dinheiro?- ele procura pela bolsa dela.
- Este dinheiro é meu! Foram minhas amigas que me deram. É para pagar a hospedaria, e não para sustentar você e seus vícios... – ela tenta segura-lo pelo braço, enquanto ele revira sua bolsa.
- ME SOLTA!
PAFT!
Ela cai assustada, com a mão no rosto e os olhos arregalados:
- Você me bateu!- ela diz enquanto se levanta do chão e o olha como se o visse pela primeira vez.
- Foi sem querer, me perdoa, eu não sabia o que estava fazendo, foi... Aonde você vai?
- Preciso sair daqui para respirar um pouco. – ela chega perto da porta e se encolhe trêmula, quando ele se aproxima e tenta acalmá-la. Isso sempre funcionou no passado. Mas no passado ele tinha ajuda extra quando queria controlá-la, mas agora com a falta de dinheiro ele contava com o amor que ela já deveria sentir por ele.
- Eu vou resolver esta situação de uma vez por todas... Fica aqui, me espera, por favor... Nós nos amamos... Eu não vou suportar te perder, não depois de tudo... – ele diz desesperado saindo porta afora.
- Não se perde aquilo que nunca foi seu de verdade. – ela disse para o quarto vazio enquanto segura o rosto dolorido e cai no chão desmaiada, tomada por calafrios.

o-o-o-o-o-o

Abril de 1999

- Como você pôde participar de algo assim Luka?- Milla perguntava irritada.
- Não recuso ajuda aos meus amigos.
- Isso não foi ajuda, foi uma atitude covarde...
- Não somos covardes...
- Cinco contra um é muito justo, realmente. Têm noção que vocês quase o mataram?? Sinto vergonha por você.
- Você não devia tomar tanto as dores dele, sou seu namorado e...
- Por isso espero mais de meu namorado, você sempre procurou acertar as coisas sem violência. Já pensou o que o seu pai dirá disso?
-Você não devia se doer tanto pelo novato, e meu pai não saberá sobre isso, estou avisando...
- Ou o quê? Vai usar os punhos em mim também?– ele segurava os braços dela e nesta hora Annia que saía da sala perguntou:
- Milla estamos atrasadas para ir para a república, temos muita lição para fazer. - e olhou feio para Luka enquanto ela discretamente pegava sua varinha.
Milla o encarou e disse irritada:
- Me solta.
- Nos vemos depois. Isso não termina aqui. - ele disse entredentes, enquanto a soltava.
-Não quero vê-lo por um bom tempo, estou muito decepcionada com você. – ela respondeu e ele insistiu:
- Quero vê-la depois, Ludmilla. - e algo naquele tom de voz fez com ela parasse e após pensar por alguns segundos, dissesse com uma voz estranhamente calma:
- Está bem, Luka nos vemos depois. Annia a olhava curiosa e quando a questionou sobre essa mudança de atitude e ela respondeu mecanicamente:
- Eu o amo.

-o-o-o-o-

- Eu não vou até lá... Não posso.
- Não pegamos um bolo destes no castelo para você roer a corda agora, Yéti.
- Ela já fez a escolha dela, não vou ficar correndo atrás. É muita humilhação.
- Você que lembrou do aniversário da Milla, não está correndo atrás. Tá certo que não precisava passar tanto perfume...
- TY! Assim não você não está ajudando. – gritou Micah e Ty riu sem graça emendando:
- Seu perfume é legal, me empresta?- e os três começaram a rir.
- Quer saber? Eu vou lá sim, e se o Luka não gostar, que venha falar comigo. - disse Iago decidido.
- Isso aí, vamos quebrar alguns narizes hoje, minha mão até coça. – comentou Ty.
- Ty...- começou Chris e o garoto respondeu:
- Já sei, ser discreto e não atrair a atenção... Vou deixar para o clube de duelos. - e recebeu um olhar “reprovador” de Chris e deram risada.
Encontraram Ricard, Victor e Reno carregando algumas garrafas de cerveja amanteigada e foram até a Avalon. Ao chegar encontraram as meninas esperando e quando Milla chegou com Annia gritaram “Surpresa”. Comeram bolo, riram e conversaram sobre todas as atividades que teriam na feira e Iago pode aproveitar e conversar com Milla como nos velhos tempos, mas quando ele por força do hábito, tentou pegar a mão dela, ela sentiu uma vontade desesperada de estar com Luka.

Dias depois

Milla estava sentada fazendo algumas anotações sobre os animais que seriam expostos na Feira contra o Preconceito Contra as Criaturas Mágicas, e ela como monitora do clube de TCM, tinha que apresentar um relatório detalhado de cada animal que seria exposto e sua saúde, além de distribuir as credenciais para os encarregados de cuidar das criaturas para que não sofressem nenhum dano. Como o trabalho fosse exaustivo, contava com os membros do clube que estavam animados com a possibilidade de conhecer criaturas novas. Ela já havia passado ao professor Assimov, a carta de sua amiga Morgan, confirmando a presença na feira e trazendo um dragão de dorso cristado norueguês, com quatro anos e um ovo de dragão negro das Ilhas Hébridas, que seria exposto. Tudo corria bem, quando um par de mãos vestidas com luvas de couro de dragão, tampou os seus olhos. Ela levou as mãos até elas e sorriu dizendo:
- Yuri! Não sabia que vinha.
- Alguém tinha que trazer o dragão não é? Como você está? E aqui está o seu presente de aniversário atrasado. - e a girou nos braços enquanto se abraçavam felizes. Nicolai, estava perto e Irina exibia um sorriso, enquanto os colegas se agitavam com a expectativa de ver um dragão em tamanho natural ao de perto. - E a Morgan e o Carlinhos??- perguntou depois de notar que o irmão descansava a mão na cintura de Irina.
- Os gêmeos estão com catapora, então eles nos pediram para trazer o dragão e o ovo para a exposição. Norberto está dormindo, aonde vamos colocá-lo?- e saíram juntos para acomodar o dragão de 5 toneladas.
Quando conseguiu alguns momentos a sós com o irmão, Milla não se conteve e perguntou:
- Você e Mary brigaram?
- Não brigamos... Terminei o namoro porque descobri que amo Irina e vou me casar com ela.
- Casar? Mas vocês mal começaram a namorar...
- Ninguém explica o amor. Basta vivê-lo. E conheço Irina a minha vida toda. – e seu olhar era apaixonado.
Milla ficou triste por Mary, pois gostava dela, mas se era verdade que ele havia descoberto que queria se casar com Irina porque a amava, ela iria apóiá-lo.

- Então vocês estão juntos...
- Sim, ele me ama. – ela respondeu mais para si própria e o garoto retrucou:
- Claro que ama, quem poderia dizer o contrário? Passe a poção para cá. - disse Luka cínico e Irina disse:
- Você sabe que é perigoso usar isso... Algumas pessoas sofrem efeitos colaterais. – dizia enquanto passava a ele um vidro com uma poção de brilho perolado e quando ele abriu o vidro viu a espiral de fumaça subir e o cheiro de cera para polir vassouras encher o ambiente. Logo ele o tampou e disse:
- Não vou me arriscar mais do que você, mas se eu for apanhado, usarei a desculpa que todos usam: um amor desesperado. E se tiver que ir para a cadeia não irei sozinho... Pedirei uma cela perto da sua, para jogarmos baralho. – e após um olhar chocado da irmã, ambos sorriram enquanto observavam os dois irmãos que eram os seus respectivos “amores” conversarem ao longe.

Sunday, April 20, 2008

- Não sei se vocês estão se lembrando, mas caso não, faço questão de refrescar: neste castelo ainda não permitem namoros. Pelo menos não assim... tão... à vista. Disfarcem um pouco. – Ricard disse com uma careta de insatisfação quando Victor me abraçou no meio do corredor, mas logo sorrimos.
- Você diz isso por que nunca namorou. Quando namorar, vai entender. – Victor falou sorrindo e eu concordei com a cabeça. Ele levantou a sobrancelha.
- Muito obrigado por me lembrar do meu próprio ‘status’ de encalhado, Victor. Grande amigo que você é.
- Disponha.
- Desfaça essa sua cara feia, Ricard. Eu e Victor só estávamos nos abraçando, nada demais. Mas eu acho que é melhor irmos andando, ou vamos chegar atrasados para o Clube de Poções Avançadas. – consultei o relógio. Faltavam apenas dez minutos.
- Não sei como vocês se divertem tanto nesses clubes todos...
- Não nos divertimos. Nos garantimos, é diferente. Não jogamos trancabola como você, então temos que conseguir pontos extras em clubes. – Ricard respondeu avaliativo e eu concordei. Victor sacudiu os ombros. – Vamos andando. Nos vemos no Clube de Duelos. – Ricard saiu me puxando e acenamos para Victor.
- Vocês dois... – ele exclamou baixo, mais como um pensamento alto. Sorri.

°°°

- Então... Você e a Lavínia voltaram o namoro? – Naveen Odebrecht falou em tom de sarcasmo nas costas de Victor, que virou-se para encará-lo.
- Voltamos sim. Nos gostamos muito. Felizmente para nós dois e infelizmente para você, imagino. – Victor disse sorrindo e Naveen também riu, ironicamente.
- Imaginou errado. Fico muito feliz por vocês. Se combinam. A hipocondríaca e o problemático. Lindo casal. Além do mais, Lavínia e eu já aproveitamos muito o nosso curto tempo juntos. Devo dizer que ela sabe o que faz... Quem sabe daqui uns dias, quando vocês brigarem de novo e você quiser ‘causar’ demais, ela não venha correndo para desabafar comigo, não é? Já que somos bons amigos... Muito bons amigos. – ele sorriu ainda mais aberto.

Victor, que já estava tremendo, não percebeu quando puxou a varinha das vestes e lançou em Naveen a primeira maldição que lhe veio à cabeça. O garoto rodopiou no ar e caiu alguns metros adiante, mas se recuperou rapidamente e revidou, lançando um jato azul em Victor. Imediatamente, todos os outros alunos do Clube de Duelos abriram um círculo ao redor dos dois, se distanciando, e nenhum deles parecia disposto a escutar os gritos do líder, que os mandava parar.

°°°

Quando entrei no Clube de Duelos com Ricard, minhas amigas me encararam assustadas. Um círculo no meio da sala havia se formado e eu logo percebi que alguma coisa de errado estava acontecendo.

- O que é? – perguntei para elas, mas nenhuma me respondeu. Um segundo depois vi Victor levitando a uns dois metros do chão. O nariz saindo sangue. – VICTOR!

Atravessei a barreira de pessoas a tempo de ver Naveen apontando a varinha para o peito de Victor, enquanto o segurava no ar. Sua expressão era de puro ódio e ele parecia avaliar qual seria o melhor momento para jogar Victor dali de cima, completamente paralisado pelo feitiço. Ainda assustada, corri até ele. Quando viu me aproximando, ele cortou o feitiço e ouvi um baque surdo no chão, seguido de uma exclamação de dor. Micah, Ty, Ricard e Iago correram para onde Victor estava esticado no chão.

- O que vocês estavam fazendo? Quase se mataram! – eu gritei nervosa olhando de Naveen para Victor, que fazia esforço para se levantar sozinho e recusava a ajuda dos meninos. Naveen também tinha uns arranhões no rosto, e uns cortes mais profundos nos braços, mas parecia bem disposto.
- Estávamos duelando, é claro. Isso aqui é um Clube de Duelos, afinal. – Naveen falou cínico guardando a varinha na bainha da calça e olhando Victor, vitorioso.
- É um clube de duelos e não um ringue de luta livre! Vou ter que falar com o professor Skoblar sobre o comportamento de vocês. Com certeza vão levar uma suspensão do Clube. – Lev Nikolaievich disse se intrometendo, sério. Naveen deu uma risadinha.
- Me faça esse favor. Acho que já vou decretar suspensão para mim mesmo, desde já. Tenham uma ótima noite.

Ele foi saindo e dei um olhar significativo para Victor, antes de correr atrás dele. Alcancei-o quase na escada.

- Por que fez isso, Naveen? – perguntei de supetão e ele parou de andar para me encarar. Veio andando na minha direção e parou muito próximo.
- Você não sabe?
- Não.
- Ficamos juntos uma noite, você termina comigo sem mais nem por que, e volta correndo para ele? Que estava fazendo de tudo para que você sofresse. Devo ser mesmo muito chato, ou ter feito algo muito errado.
- Você não fez nada de errado, Naveen. Eu gosto de você. Como amigo. Mas eu amo o Victor, e eu sempre deixei isso muito claro, nunca te enganei. E você também gosta da Deborah!
- Tudo bem. Eu já tinha entendido e aceitado tudo isso, não precisava repetir para mim. Diga isso para o seu namorado, por que acho que ele não se garante... Foi ele quem começou. Se eu revidei, foi só para me defender.

Ficamos nos encarando uns segundos e ele falava tão convincente que não consegui responder. Ele sorriu.

- Está tudo bem. – ele disse ainda me olhando. – Somos amigos, ele goste ou não.
- Não preciso da permissão dele pra ser sua amiga. Só não queria que ficassem lutando por aí.
- Não vai mais acontecer, não se preocupe.
- Lavínia... – Victor apareceu nos encarando sério e Naveen fechou a cara.
- A gente se vê, então... – eu disse e ele concordou. Encarou Victor mais uma vez e sumiu na escada.
- O que ele queria com você? – perguntou limpando o nariz, que ainda estava sangrando um pouco. O rosto estava muito machucado. Acompanhou Naveen com o olhar até ele desaparecer completamente e depois se virou para mim.
- Nada demais. – respondi azeda.
- Não quero te ver perto dele, Vina. Ele não presta.
- WOW, começamos a impor limites, é isso? Estamos namorando, Victor. Naveen é meu amigo. Aceite isso. Você também não é amigo daquela... menina?
- É muito diferente.
- Não vejo por que. Pare de agir feito criança. Estou namorando você agora, não precisa travar duelos com todos os meus amigos e ex-namorados. E se eu fosse você, aproveitaria o fato de que foi suspenso do Clube para ir até a enfermaria. Está ficando pálido.

Voltei para a sala e Victor ficou parado no mesmo lugar, mas ainda escutei ele dizer:

- Você ainda vai se impressionar com esse seu amigo. Vai descobrir como ele é, na verdade.

°°°

- Visgo do diabo? – Mikhail analisou os ramos atentamente, parecendo muito interessado. - É uma muda muito jovem ainda, mas com certeza temos espaço para ela na Imperial. Vocês estudaram bastante as mudas maiores no mês passado, sobraram poucas. Vamos lá agora, para plantarmos.

Segui com ele até a Estufa Imperial, segurando o vaso com a muda de visgo do diabo que o pai de Victor havia mandado. Quando chegamos ao patamar subterrâneo, precisei forçar os olhos para enxergar. Era tudo muito escuro e fechado ali embaixo.

- Tome cuidado aqui. Não encoste em nenhuma planta. Todas que estão aqui são perigosas.

Andamos devagar e com cautela pela fileira de plantas e paramos quase no final, onde uma grande acomodação de ramos do visgo do diabo se espalhava pelo chão. Mikhail acendeu a varinha e elas se retraíram, o que possibilitou que ele acomodasse a nova muda ali do lado. Teríamos ido embora logo em seguida, mas quando voltávamos pelo mesmo corredor, agora com a varinha acesa, ele parou de caminhar e se aproximou de uma planta com folhas escuras e viscosas, observando curioso. Olhei atentamente e identifiquei.

- Isso é... Belladona? – perguntei assombrada e ele concordou. Pegou um par de luvas de couro de dragão que estava ali do lado e agarrou um dos ramos. Nitidamente dava para ver que um corte havia sido feito ali, há poucos dias. A seiva ainda escorria fresca.
- Você veio aqui em baixo, Lavínia? – ele perguntou em um tom de voz rouco e sério que me deu medo. Foi agarrando outros ramos diversos, todos mutilados.
- Não, professor. Eu somente uso a parte de cima da Estufa. O senhor mesmo separa as plantas que quer que eu estude com os outros alunos do Clube...
- Só nós dois temos a chave da Estufa, e alguém certamente esteve aqui recentemente podando a Belladona. Você sabe as conseqüências disso, não sabe? – ele perguntou se virando para mim mais sério do que nunca e eu tremi. Concordei.
- Professor, eu posso garantir que nunca estive aqui, e não toquei esta planta.

Ele me encarou alguns segundos, sem desviar os olhos. Sustentei. Estava sendo sincera. Nunca havia estado ali embaixo, e nunca teria coragem de mutilar uma Belladona, sabendo o que ela pode causar. Como nenhum dos dois fraquejou, ele pareceu se convencer, pelo menos momentaneamente de que estava sendo sincera. Virou-se novamente para a planta e analisou os ramos mais uns minutos, depois, tirou as luvas.

- Vou descobrir quem esteve aqui, e é melhor que eu descubra rápido. Quem quer que tenha feito isso, tem um plano com essas folhas, e eu tenho a impressão de que não é boa coisa. Não quero ser envolvido em nada disso. – ele disse alto e sério, uma ruga de preocupação marcando a testa. – Vamos embora.

Segui-o para fora da Estufa. A cabeça girando. Quem poderia ter entrado na Estufa? E por quê?

Thursday, April 17, 2008

Evie acordou mais cedo que o normal no primeiro dia de volta às aulas depois do feriado. A enfermeira já estava ficando louca com seus apelos para que fosse liberada o quanto antes e apressou em retirar as bandagens, permitindo que ela saísse antes que as aulas começassem. Mas ela nem chegou às salas de aula. Assim que pisou do lado de fora do castelo, percebeu que todos os alunos caminhavam na direção do campo de quadribol.

O diretor havia pedido que todos se reunissem no campo antes do inicio das aulas para um comunicado e procurou as amigas para se juntar a elas, as encontrando nas arquibancadas da Mannaz.

‘Evie!’ Nina exclamou surpresa ‘Onde estava? Por que não voltou no trem ontem?’

‘Perdi a saída dele e meu pai não me deixou vir de Noitebus’ Respondeu sentando entre elas ‘Cheguei agora cedo, chave de portal’

‘Você sempre perde esse trem’ Milla caçoou ‘Já sei o que dar de presente no seu aniversario, um relógio!’

‘Não é sempre, só de vez em quando’ Riu também e notou que Micah a observava com uma expressão estranha ‘O que foi? Que cara é essa?’

Ele sacudiu a cabeça e não respondeu, mas ela não teve tempo de perguntar outra vez. Um silvo alto fez todos taparem os ouvidos assustados e logo a voz do diretor ecoava pelo campo. Começou relembrando pela décima vez sobre a feira cultural que a escola faria em duas semanas, repassando as atividades que teriam e dando um último prazo para os alunos que queriam participar do show de talentos a se inscreverem com o professor Ivo. Depois passou o microfone ao professor de educação física, Maddox.

‘Bom dia a todos’ Começou com seu tom seco ao natural e alguns alunos riram ‘Todos sabem que o Trancabola é um esporte violento, e embora não seja proibido para as meninas, nenhuma até hoje teve coragem de se aventurar’ Os alunos riram outra vez e ele parecia mais a vontade, arriscando sorrir ‘O que quero propor é justamente isso. Quero dar às meninas a chance de jogar Trancabola, nem que seja por um dia. Durante a feira teremos um jogo amistoso, chamado Jogo do Pó-de-arroz, entre vocês, garotas. Será bem menos violento, é claro, e algumas regras serão mudadas para garantir isso. Teremos duas equipes e eles serão treinados por dois jogadores do meu time que ainda irei escolher. É totalmente opcional, ninguém é obrigado a jogar. Mas tenho certeza que aquelas que me procurarem para se inscrever, irão se divertir bastante. Os treinos serão durante a próxima semana e a partida não irá valer pontos para nenhuma casa, é apenas pela diversão. Esse é o nosso primeiro jogo, mas se der certo, faremos dele um evento anual. As inscrições vão até domingo. Espero que participem’

Maddox encerrou sua explicação e devolveu o microfone ao diretor, mas ninguém mais prestou atenção. Annia e Milla pareciam animadas e dispostas a participar e Nina parecia considerar a idéia, mas Evie e Vina faziam caretas de reprovação. Participar desse massacre com consentimento definitivamente estava fora dos planos das duas. O diretor dispensou os alunos para se encaminharem para as salas e antes que pudesse sair da arquibancada, Micah segurou o braço de Evie.

‘Suas chaves’ Disse estendendo para ela ‘Ia devolver no sábado, mas você não apareceu na casa do Chris’

‘Meu pai inventou um almoço em família, não pude sair’ Pegou a chave e guardou na mochila, mas quando a colocou no ombro direito, tirou depressa fazendo cara de dor

‘Está tudo bem?’ Perguntou indicando seu ombro

‘Está sim, me machuquei no Noitebus, não é nada demais’ Mentiu, pendurando a mochila no outro ombro ‘Ele dá umas freadas bruscas, me pegou de surpresa. Tenho que ir, ainda não passei na republica. Vejo você depois!’

Saiu apressada para fora do campo e não deu a ele chance de questionar mais nada.

~*~*~*~*~

Já haviam se passado três dias desde que as aulas recomeçaram e embora as dores tivessem diminuído bastante, ainda não haviam sumido por completo. Evie continuava evitando que esbarrassem em suas costas e para não dar brecha para Micah questionar mais nada, passara a carregar os livros nas mãos para todos os lados, deixando a mochila no dormitório. Sentiu um grande alivio quando a única aula do dia que faltava era de artes e não precisava carregar nenhum peso.

A aula hoje, por estar perto do dia da feira, seria inteiramente para que alunos que participariam do show de talentos pudessem ensaiar. Embora não fosse apresentar nenhum numero, Evie e Nina foram para a aula normalmente, pensando em assistir aos ensaios. Chris e Ty conversavam distraídos nas poltronas da última fileira e antes que pudesse chegar até eles, Evie ouviu algo que a fez parar. Estavam falando dela.

‘Ele precisa contar para a Evie’ Chris falou sem perceber que ela estava a poucos metros de distancia ‘Já falei isso ao Micah milhões de vezes, mas até agora ele não fez nada’

‘Ela tem mesmo que saber o que o Max fez com ele, mas não somos nós que vamos contar, não é?’ Ty ponderou, mesmo que contrariado ‘Isso é ele quem tem que fazer’

‘O que eu preciso saber?’ Interrompeu os dois, que saltaram assustados da cadeira e logo começaram a balbuciar, mas sem conseguir formar sentenças ‘Então? Vão contar ou vou ter que arrancar a força? O que o Max fez que o Micah tem que me contar?’

Os dois se entreolharam sem saber o que fazer, mas Evie não estava disposta a deixar pra lá e ir embora sem uma explicação. Esperou de braços cruzados até que um dos dois se pronunciasse, e Nina também começava a ficar curiosa. Chris se ajeitou na cadeira e a encarou.

‘Que fique claro que eu não a procurei pra contar nada, estou sendo pressionado’ Disse olhando para Ty, que assentiu com a cabeça

‘Christopher William, fale de uma vez!’ Evie disse já sem paciência

‘Você sabe que bateram no Micah, certo?’ Ela confirmou com a cabeça e ele continuou ‘Sei que falamos que não sabíamos quem tinha sido, mas era mentira. A verdade é que Max, junto com Luka, Naveen, Serj e aquele idiota que anda atrás deles, o Klaus, se juntaram para bater nele’

‘Os cinco covardes o pegaram desprevenido e Micah não teve a menor chance de se defender!’ Ty completou com a voz irritada

‘Desculpa não ter dito nada antes, Evie’ Chris continuou ‘Mas Micah pediu que não contássemos e concordamos, pois quem devia ter dito isso a você era ele, e não nenhum de nós’

‘Sabemos que ele é seu irmão e sinto muito por isso, mas aquele garoto não presta’ Ty falou mais contido, mas ainda irritado

‘Não vai dizer nada?’

Evie continuou encarando os dois por mais alguns segundos com uma expressão de completo desgosto no rosto e saiu do teatro sem dizer nada. Não encontrava uma palavra exata que descrevesse o que estava sentindo depois de ouvir aquilo tudo, mas ao menos de uma coisa tinha certeza: sentia uma mistura de raiva e nojo do irmão, que dificilmente seria esquecida.

~*~*~*~*~

Evie bateu a porta da Spartacus com raiva e saiu andando pelo gramado, mas Max correu atrás dela e a fez parar. Ambos tinham expressões sérias e os rostos vermelhos, indicando que estavam discutindo. Ele ameaçou segurar seu braço, mas um único olhar dela o fez recuar.

‘Não finja que não sabia, Evie’ Max começou ‘Eu avisei para ficar longe dele’

‘Fingir que não sabia o que? Que meu irmão é um monstro e quase matou uma pessoa?’ Respondeu ríspida ‘Não Max, eu não sabia!’

‘Não acredito que vai ficar do lado de lá. Você não sabe nada sobre ele, devia confiar na sua família!’

‘Confiar na minha família?’ Ela riu e ele a encarou espantado. Esticou o braço para ele e arregaçou a manga do casaco, deixando a mostra uma marca roxa ‘Está vendo isso? Olha pro meu braço, Max!’ Gritou com ele, o forçando a olhar ‘Foi a última vez que isso aconteceu. Eu já cansei, então fique preparado, porque a partir de agora quem vai pagar a pato vai ser você’

Escondeu a marca outra vez e deu as costas para ele, se afastando. Max não se moveu e ela parou quando já estava a alguns passos de distancia, o encarando uma última vez.

‘Fica longe de mim’ Disse baixo, mas sabia que ele havia escutado. Virou as costas novamente e dessa vez não olharia mais para trás.

MURAL DE DURMSTRANG:

I FCPCM (Feira contra o Preconceito às Criaturas Mágicas).

A FCPCM é uma iniciativa da Frente de Defesa aos Animais e Criaturas Mágicas do Instituto Durmstrang, que liderados pelo professor Isaac Asimov e seus mais empenhados estudantes, busca aumentar a aceitação de todas as Criaturas Mágicas entre os bruxos. Todos estão convidados para este singular evento que se dará nos dias 26 e 27 de abril. Abaixo, a programação completa:

Sábado, 26 de abril:

08:00 – 09:00 hrs.: Palestra com Hermione Granger sobre a Frente de Apoio e Libertação dos Elfos (um projeto que ela deu início e agora cresce entre os mais discutidos fóruns sobre os direitos dos Elfos). Além disso, a palestrante vai ressaltar a importância dos Elfos Domésticos na vida cotidiana das famílias bruxas e a importância de seus direitos trabalhistas.
P.S.: Os alunos que se mostrarem ainda mais interessados pela F.A.L.E., ainda poderão se cadastrar membros e comprarem buttons, camisetas e adesivos.
09:00 – 10:00 hrs.: Palestra com Rubeus Hagrid, guarda-caças e professor de Trato das Criaturas Mágicas da Escola de Magia e Bruxaria Hogwarts. O palestrante vai falar sobre o preconceito aos gigantes e meio-gigantes, contar experiências próprias e quebrar tabus sobre essas GRANDES criaturas. Além disso, vai apresentar seu irmão, Grope, um típico gigante das cavernas que está sendo educado a viver entre os homens.
10:00 - 12:00 hrs.: Show da The Dobbys, uma banda formada por Elfos Domésticos de Hogwarts e Grope, o Gigante. Com músicas que misturam vários estilos, para todos os gostos, a banda é uma nova explosão nas rádios bruxas.
P.S.: A origem da banda se deu após a morte de Dobby, o primeiro elfo que amou sua liberdade e levantou esta bandeira em Hogwarts. Muitos de seus integrantes eram amigos do Elfo, por isso, fizeram-lhe essa homenagem ao escolherem o nome.
- Almoço no castelo de Durmstrang.
14:00 – 16:00 hrs.: Palestras com Ivana Mesic, Remo Lupin e Gui Weasley. Ela, professora de Transfiguração do Instituto Durmstrang, falará tecnicamente sobre as transformações dos lobisomens e as dificuldades que essas criaturas enfrentam a cada mês para manterem suas maldições sob seus controles. Eles, um lobisomem e um meio-lobisomem, vão contar abertamente como foram mordidos, e o que tiveram de mudar em suas vidas, desde então... O objetivo dos palestrantes é mostrar aos bruxos que lobisomens, assim como os gigantes e demais criaturas, também podem viver socialmente sem serem agressivos.
O restante da tarde está aberto aos participantes conhecerem exposições de variados objetos dos duendes e outras criaturas, e brincadeiras variadas. Lembrando a todos que tanto as exposições e vendas de produtos, como as brincadeiras, estarão acontecendo paralelamente durante todos os dois dias do evento.

Domingo, 27 de abril:

08:00 – 09:00 hrs.: Palestra com Luna Lovegood. Conhecida por seu grande interesse às mais diversas espécies de animais mágicos, a palestrante falará um pouco sobre a biodiversidade do mundo mágico e da importância de criaturas raríssimas e pouco divulgadas e estudadas.
09:00 – 10:00 hrs.: Apresentação de nado sincronizado das sereias do Instituto Durmstrang, com um belíssimo espetáculo.
10:00 – 11:00 hrs.: Desfile de centauros por toda a extensão do vilarejo. Uma perfeita demonstração de beleza, união, inteligência e magnitude dessas criaturas.
12:00 hrs. - Almoço no castelo de Durmstrang.
A partir das 14:00 hrs. começará o tão esperado SHOW DE TALENTOS preparado principalmente por apresentações de diversos tipos dos alunos de Durmstrang. Imperdível!
18:00 hrs. – Jogo do Pó-de-Arroz seguido de um breve encerramento do professor Isaac Asimov e do diretor Igor Ivanovich.

Observações:

- Não somente a quermesse, exposições e brincadeiras estarão acontecendo paralelamente. Haverá também uma larga amostra de animais mágicos, raros e comuns, em tendas espalhadas em lugares seguros e de fácil acesso a todos. Animais como dragões, quimeras, grindylows, kappas, hipógrifos, testrálios, e muito mais.
- Vendas de livros sobre Criaturas Mágicas, buttons, camisetas, artesanatos e outros, também estarão abertas durante todo o evento.


Desde já, contamos com a presença e colaboração de todos vocês.

Tuesday, April 15, 2008

Estava na casa de Chris passando o feriado de páscoa e era nossa última tarde lá, na manha seguinte pegaríamos o trem de volta para Durmstrang. Aproveitando que a família conversava na sala, o pai e os tios dele me chamaram até o escritório para conversarmos. Explicaram-me o que estavam planejando fazer e as medidas de segurança que deveria tomar daqui pra frente, e por tempo indeterminado. Já havia perdido a noção do tempo que estávamos trancados lá dentro.

‘Então enquanto não conseguirmos provar, você está absolutamente proibido de andar sozinho pelo castelo, Micah’ O pai de Chris, Kegan, falou muito sério

‘Eu sei o que eu vi, eu lembro!’ Exclamei revoltado ‘Antes de me apagarem, vi o rosto de cada um. E depois, mesmo usando máscaras, reconheci suas vozes. Não estou louco, foram eles!’

‘Nós sabemos e acreditamos em você’ Agora era o padrinho dele que falava ‘Mas não temos provas, e até conseguirmos elas, não há nada que possamos fazer’

‘Tem mais alguma coisa que você queira nos contar, Micah?’ O tio dele que era Ministro me olhou desconfiado e desviei o olhar dele

‘Não é nada demais’ Respondi tentando fazer parecer besteira

‘Deixe que a gente decida se não é nada demais mesmo, conte’ Ben insistiu

‘Dois dias antes de me pegarem, ia encontrar com um cara da Irmandade. Descobri o nome dele em uns arquivos antigos, entrei em contato e ele se dispôs a me contar tudo que sabia. Mas nunca cheguei a conhecê-lo, pois ele furou comigo no dia seguinte vi no jornal que ele tinha morrido’

‘Por que não nos contou isso desde o começo, Micah?’ Kegan levantou andando de um lado para o outro

‘Porque eu já tenho ficha na polícia, não queria passar por tudo que passei outra vez!’ Respondi irritado ‘Acha que não iam me deter assim que descobrissem que tinha marcado com o cara horas antes dele aparecer morto boiando em um lago?’

‘Você tem ficha na polícia?’ Wayne perguntou curioso ‘O que fez?’

‘Isso não vem ao caso’

‘Tudo bem, não importa. Isso é tudo? Não deixou de contar nada?’

Desviei o olhar dele calado e em segundos, um filme passou pela minha cabeça. Lembrei dos vultos perto do lado, do encapuzado que agora sabia ser Arthur Strauss, da masmorra, os garotos, o adulto entregando a seringa ao mais magro, ele hesitando, mas matando o homem, e seu rosto sendo revelado com uma expressão de pânico. Voltei a encarei os três, que me observavam com atenção.

‘Não, é só isso’

‘Já terminaram?’ Chris entrou no escritório com um telefone na mão ‘Estão começando a achar esquisito vocês quatro trancados aqui, já não sei mais o que inventar’

‘Já terminamos, vamos voltar pra sala’ Levantei depressa do sofá e caminhei até ele ‘Evie já chegou? Ainda estou com a chave dela’

‘Não, ela não vem mais’ Disse desanimado ‘Dimitri acabou de ligar avisando que ela não ia poder vir. Falou algo sobre um almoço em família, não entendi bem. A voz dele estava esquisita’

‘Posso usar seu telefone?’

‘Claro, à vontade’

Peguei o telefone e liguei para a casa da Evie. Estava com a chave dela e queria devolver antes de voltarmos para a escola. Uma mulher atendeu e pedi para chamá-la. Passaram alguns segundos e ouvi a voz de um homem indagando quem era e depois pegando o telefone.

‘Evangeline não pode falar com você’ O homem falou ríspido ‘Não sei como tem esse número, mas não ligue mais pra cá, entendeu?’

Ele desligou o telefone na minha cara e fiquei encarando o aparelho sem entender nada. Chris parou do meu lado me olhando confuso.

‘O que foi? Conseguiu falar com ela?’

‘Não, uma mulher que devia ser a madrasta dela atendeu e disse que ia chamar, mas ai um homem pegou o telefone e disse que ela não podia falar, e desligou’ Esqueci propositalmente de contar a parte onde ele mandou que não ligasse mais para lá

‘Deve ser o pai dela, ele é meio esquisitão mesmo. Detesta ser incomodado às vezes, depois você tenta de novo’

Dei de ombros e voltei com ele para a sala onde sua mãe já chamava todos para o almoço. Tinha alguma coisa muito errada acontecendo...

---------------------

O trem parou na estação já à noite e devagar os alunos começaram a desembarcar. Segui com Chris e Ty de volta para a república e como não vi sinal da Evie durante toda viagem, deixei a mochila no quarto e sai outra vez. As meninas estavam conversando na porta da Avalon quando cheguei, e já foram logo avisando que ela não tinha chegado. Dei meia volta para ir até a enfermaria pegar o novo estoque de poções que ainda precisava tomar, mas Ty, Iago e Chris me frearam antes que pudesse dar mais que cinco passos.

‘Onde pensa que vai?’ Iago parou bem na minha frente ‘Esqueceu que não pode andar sozinho, ainda mais à noite?’

‘Só ia até a enfermaria, estão todos nas repúblicas!’

‘Eles estão só esperando um deslize seu, Micah’ Ty apoiou Iago ‘Quando verem você sozinho, atacam outra vez’

‘Ok, ok, vocês venceram. Vamos logo’

Caminhei com eles na minha cola até a enfermaria e quando chegamos à entrada do castelo que levava a ela, eles sentaram no banco do jardim para esperar e entrei sozinho. Alguns passos ao menos eu podia dar sem as sombras atrás. Abri a porta da enfermaria, mas parei na metade. Ouvi a voz de Evie vindo lá de dentro e a empurrei apenas mais um pouco, o suficiente para que pudesse ver sem ser visto. Ela estava sentada em uma das camas e tinha uma tipóia no braço. A enfermeira entregou um copo com um liquido quase transparente em sua mão e ela bebeu, fazendo uma careta.

‘Sei que é ruim, mas já devia estar acostumada ao gosto’ Disse pegando o copo de volta

‘Nunca vou me acostumar’

‘Conhece as regras, não posso deixar que volte para a república hoje. Vai passar a noite aqui para a poção fazer efeito e amanha de manhã pode sair’

‘Eu sei, não estava pensando em sair de qualquer forma’ Respondeu com uma voz abatida e deitando na cama

‘Você precisa contar a alguém, minha querida’ A enfermeira falou com uma voz terna

‘Foi um acidente, ninguém teve culpa’ Evie respondeu a cortando e virou de lado ‘Acho melhor eu dormir, assim não sinto dor’

A enfermeira soou cansada e voltou para a sala dela sem dizer mais nada. Fechei a porta devagar e voltei para o jardim, onde os três discutiam sobre quadribol.

‘Não pegou as poções?’ Chris perguntou vendo minhas mãos vazias

‘Não estão prontas ainda, pego amanha de manhã. Vamos voltar, está muito frio’

Eles acreditaram no que disse e não questionaram, voltando a falar de quadribol enquanto caminhávamos de volta para a república. Se antes já achava que algo estava errado, agora tinha certeza. Só não fazia idéia do que, e nem de como descobrir sem desencadear uma nova série de brigas com ela.

"Faça da sua ausência o bastante para que alguém sinta sua falta, mas não a prolongue demais para que esse alguém não aprenda a viver sem ti."

Autor Desconhecido


- Xeque-mate. – Ricard avançou sua torre em direção ao meu rei, derrubando-o. Era a décima sexta partida de xadrez, consecutiva, e o placar marcava uma boa vantagem pra ele.

Recomecei a organizar as peças no tabuleiro sem muita empolgação, e Ricard jogou o peso do corpo para trás na cadeira, fazendo-a balançar sob dois pés. A Osíris estava completamente deserta e escura na noite de sábado, e o feriado de Páscoa no castelo, um completo tédio.

Fiz o primeiro movimento com um dos meus peões e Ricard olhou para suas próprias peças, intactas. Antes que pudesse movimentar qualquer uma delas, a porta da República se abriu e um vento frio passou por nós. Uma figura parou na entrada nos observando. Era Victor.

- O que raios você está fazendo aqui?! – Ricard perguntou assustado. Victor entrou na sala, fechando a porta e jogando a mochila no chão.
- Voltei mais cedo. O clima lá em casa ficou um pouco pesado hoje de tarde, então eu... – ele parou quando me viu do outro lado da mesa o encarando. Senti o rosto queimar e levantei.
- Já estou indo. Amanhã terminamos o nosso torneio, Ricard.
- Se você está indo embora por minha causa, não se dê ao trabalho. Por mim, pode ficar aqui. Você já conhece muito bem a minha família... – Victor disse seco e se sentou na poltrona. Olhei para Ricard, que sacudiu os ombros e balançou a cabeça. Sentei-me novamente.

Ficamos calados esperando que Victor começasse a falar, mas ele ficou nos observando em silêncio. Ricard perdeu a paciência.

- Vai falar o que aconteceu, ou não? – Victor o observou uns segundos e então puxou o ar, começando a contar.
- Há mais ou menos um mês, Charlotte comprou um gato para ela. Christine contou que ela ficou tão empolgada com esse gato que passava até perfume. – Victor fez uma careta e eu e Ricard rimos imaginando a situação. Ele continuou. – O gato desapareceu há uns dois dias atrás, e Charlotte chegou a fazer até mesmo alguns cartazes para espalhar pelo vilarejo, mas não precisou...
- Então ela encontrou o gato? – Ricard concluiu e Victor concordou com a cabeça, segurando um sorriso.
- Encontrou. Morto. – ele disse rindo e eu arregalei os olhos horrorizada.
- E você está rindo... disso?! – perguntei e ele riu mais ainda.
- Não estou rindo do fato de ela ter encontrado o gato morto, estou rindo de ONDE ela o encontrou. Na estufa do papai! Ele provavelmente foi estrangulado por... visgo do diabo. Acreditam que papai tinha um visgo do diabo imenso? – ele contou e riu alto. Ricard também. Senti meu estômago dar uma volta.
- Acredito... – disse em voz baixa. – Eu já sabia. Ele me mostrou quando estávamos na sua casa. – eles pararam de rir e olharam para mim assombrados. Sacudi os ombros. – O que é? Não podia contar para vocês, não é?
- Então é por isso... – Victor falou pensativo.
- Por isso, o que? – perguntei.
- Por isso que ele te mandou uma muda. – ele disse apontando para um vaso de plantas pequeno, perto da mochila. – Ele disse que era pra te entregar isso, por que você saberia o que fazer com ele... Primeiro eu pensei que fosse por que você era líder do Clube de Herbologia, mas agora eu entendi. Você já sabia.

Ficamos calados alguns minutos. Eu, observando os pequenos ramos de visgo do diabo dentro do vaso. Não pude deixar de sorrir.

- Então o clima ficou pesado por que Charlotte descobriu que o pai de vocês cultivava visgo do diabo e foi o assassino do gato dela? – Ricard perguntou quebrando o silêncio.
- Também. Vocês já devem estar imaginando o tamanho do grito que ela soltou, não é? Mas tudo ficou realmente muito tenso quando mamãe foi conferir o que havia acontecido. Disse para papai escolher entre ela e o visgo do diabo, e ele, é claro, começou a cortar várias mudas para se desfazer da planta. Mandou uma para você, - disse se virando para mim - algumas para um amigo de Karl e Adam, que queria, e as outras, vendeu. Mas mesmo assim, mamãe ainda estava muito nervosa, então, para não me estressar junto, decidi antecipar minha volta.
- Coitada da Charlotte. – Ricard disse se divertindo e os dois riam. Me levantei.
- É... Melhor eu ir, então. Boa noite.

Fui até a porta apanhando o vaso de visgo. Os dois me acompanharam com o olhar.

- Boa noite. – Ricard falou também se levantando. Victor não disse nada.

Caminhei sozinha pelos jardins e já estava quase chegando à Avalon quando um par de braços me segurou.

- Chega. – Victor disse olhando sério para mim. – Acho que já passou da hora de conversarmos.
- Também acho. – disse firme, mas me sentindo um pouco tonta. Ele soltou meu braço.
- Então pode começar a falar.
- Foi você quem me parou. Comece você.
- Não sei por onde começar. Para falar a verdade, nem me lembro bem por que nos separamos. Lembro de ter falado tudo o que não gostava em você, e você ter confundido isso.
- Eu não confundi nada!
- Ótimo, então por que pediu um tempo? Ficou muito decepcionada comigo ao perceber que eu também enxergava seus defeitos??? Não significa que eu não goste de você!
- Então você ainda gosta de mim? – eu perguntei rápido.
- Claro que gosto! – ele respondeu sem pensar muito e então parou. – Ah, você sabe disso. Não adianta eu tentar esconder.

Ficamos nos encarando um segundo e ele abaixou a cabeça.

- Foi você quem me beijou aquela noite, não foi? E depois ficou fingindo que eu estava maluca. Que não tinha sido você. – perguntei nervosa e ele me encarou.
- Fui eu sim, e se quer saber, foi muito bom ter feito aquilo. Tive que me controlar bastante para no dia seguinte, não te abraçar e fingir que tinha esquecido tudo e estava tudo bem. Mas valeu a pena, por que você mesma me mostrou o quanto ainda gostava de mim. Ninguém precisou me dizer.
- Você é muito presunçoso.
- E você é muito teimosa. Se sabia desde o começo que estávamos brigados por sua culpa, por que não me procurou e pediu desculpas?
- A culpa não foi só minha! – eu quase gritei e ele riu. – Está rindo por quê?
- Estou rindo de nós dois. Será que não vamos mudar nunca?
- Do que você está falando?

Ele se aproximou bem de mim e tirou o vaso de visgo da minha mão, colocando-o no chão. Então, me encarou bem de perto.

- Estou falando que estou com saudades de brigar com você.
- Como?
- Isso mesmo. Estou dizendo que sei que ainda vamos brigar muito, por que é isso que sabemos fazer de melhor. Eu vou te chamar de “teimosa”, você vai me chamar de “arrogante”, “presunçoso”, “idiota” e variações, mas logo depois eu vou me dar conta de que é isso o que eu quero pro resto da minha vida, entendeu? Brigar com você, só para fazermos as pazes depois. – Ele se aproximou tanto que podia contar os riscos dos olhos verdes dele, mas não se encostou em mim. – Antes de darmos um tempo, você disse que era melhor só voltarmos quando os dois tivessem certeza de que era isso mesmo que queríamos... Bom, eu sei o que eu quero, e eu quero você. A pergunta é: você também quer isso?

Ele me encarava firme esperando uma resposta e a voz parecia não sair. Fiquei alguns segundos tentando formular uma frase completa, mas sem sucesso.

- Você não passa de um estúpido narcisista... – comecei brava, mas não consegui manter a pose. - Mas é de você quem eu gosto.

Ele sorriu e me abraçou com força. Quando me beijou, foi como se os últimos meses tivessem sido apagados da minha cabeça e não houvesse mais ninguém no mundo. Ainda abraçados, andamos depressa pelas Repúblicas e paramos em uma cabana bem no final do castelo, escura e deserta. A antiga cabana dos guarda-caças, na orla da floresta. Victor bateu com a própria varinha na porta e ela se abriu. Entramos.

Acho que não me importo de viver o resto da vida brigando com ele, se todas elas sempre terminarem com boas “pazes”.

Friday, April 11, 2008

Poder passar um dia na casa dos Stanislav, embora não quisesse admitir, estava sendo prazeroso para Micah. Além de Max não aparecer na casa do avô, todos os tios e tias da amiga estavam sendo extremamente gentis durante todo o dia. E depois de um almoço agitado onde toda a família sentava junta na mesa, a maioria dos seus tios e primos se acomodaram em volta de uma enorme mesa redonda no salão de jogos.

‘Evie, vem logo!’ Seu tio Johann falou animado ‘Vamos que quero lhe dar uma surra hoje, é a minha vingança’

‘Micah, você está a um passo de conhecer o maior vicio da família Stanislav’ Evie falou virando para ele ‘Can-can!’

Micah notou, com certo espanto, que esse parecia mesmo ser um vicio. Em uma das paredes do salão tinha um quadro com o nome dos membros da família, e diversas bolinhas pretas ao lado dos nomes. Pontuação nos jogos, ele deduziu. O nome de Evie era o que mais acumulava pontos, seguida por Heinrich, que tinha 3 a menos.

Ele sentou-se à mesa ao lado dela e observou Sofia distribuir as cartas, enquanto explicava as regras. O jogo consistia em eliminar todas as cartas, e fazer os oponentes terminarem a rodada com as mãos cheias. Cada carta tinha uma numeração e ao final de cada rodada, eles somavam os pontos das cartas restantes de cada jogador, e aquele que atingisse 300 pontos primeiro na tabela era eliminado, até que restasse apenas um.

Um a um, os primos e tios de Evie foram sendo eliminados. Até que só restaram eles dois. Evie com apenas duas cartas na mão, e Micah com quatro.

‘Can-can’ Ela depositou a penúltima carta na pilha ‘O que me diz?’

Todos estavam sentados em volta dos dois, observando sem muito interesse ao que prometia ser mais uma vitória humilhante de Evie. Mas quando Micah demorou um pouco mais ao analisar suas cartas, as atenções voltaram a recair sobre o jogo. Todos observavam atentos agora.

‘Humm’ Ele puxou uma carta do leque e colocou na pilha. Era uma carta que pulava o próximo a jogar ‘Eu pulo você, e então é minha vez’ Ele pegou mais uma carta e depositou, dessa vez uma que voltava a jogada para ele ‘Então volto o jogo para mim’ Evie olhou de cara fechada quando ele puxou mais uma carta e ela viu ser uma que nada podia cortar ‘Então eu digo “can-can” e faço você comprar uma, e não jogar’ Ele puxou a ultima carta do leque rindo debochado ‘E finalmente, bato o jogo. O que me diz?’

‘Digo que odeio você!’ Falou revoltada ao constatar que a carta que havia comprado valia 50 pontos ‘Vocês todos estavam ajudando ele! Minha própria família!’ Disse sem soar tão indignada assim

‘Com 50 pontos ela soma 315’ Heinrich calculou a pontuação de Evie ‘Pica mula, Evie!’

‘É, vou mesmo, vocês roubam!’ Falou rindo, saindo do salão ‘Vou conversar com o Marko, que é o único que não trapaceia nessa casa. E isso porque ele é um bebê!’

‘Micah, quero dizer que estou muito feliz por você ter vencido a Evie hoje’ Madalena falou agitando a varinha e fazendo o nome dele aparecer no quadro ‘Por três anos consecutivos, Evie vence o torneio de Páscoa. Já estava insuportável!’

‘Nenhum outro amigo, ou um namorado dela, já venceu dela nesse jogo?’ Perguntou espantado ‘É tão simples’

‘Meu querido, você é a primeira pessoa que minha sobrinha traz aqui’ Disse sorrindo gentil ‘Evie nunca trouxe nem mesmo as amigas nessa casa, quem dirá o ex-namorado’

Madalena piscou para ele e começou a arrumar as cadeiras, enquanto ele recolhia as cartas da mesa sorrindo satisfeito.

~*~*~*~*~

Depois de ser derrotada por Micah no jogo do qual achava ser imbatível, Evie sugeriu que saíssem para alguma boate à noite, junto com seus primos, Gabriel e Chris, que estava hospedando Micah durante o feriado. E embora dissesse que não se importava, ele sabia que ela estava incomodada com o fato de ter perdido depois de três anos, e para ele.

Pilar, Marta, Helena, Dario, Afonso, Gabriel e Chris já haviam se perdido deles em meio à boate lotada e os dois começaram a travar um duelo para ver quem agüentava beber mais. E depois da terceira rodada de tequila Micah começou a ficar assustado com Evie. Ele nunca tinha visto a garota beber daquele jeito. Ou ao menos não estava sóbrio o suficiente para se lembrar. Evie já demonstrava sinais de que estava fora de si e ele tentou encerrar a bebedeira retirando os copos da mesa e fechando a garrafa.

‘Ah, huuu, Micah você é careta!’ Evie estava visivelmente alterada e falava muito alto. Micah olhou para os lados sem graça.

‘Já chega Evi. Você já bebeu demais. Só está querendo provar que pode me vencer em alguma coisa, e se não pode ser no can-can, vai ser na bebida, não é?’ Ela tomou a garrafa da mão dele e tornou a abri-la, pedindo outro copo ao garçom.

‘Se você é fraco para bebidas, sente e fique calado, aprenda com o mestre. Mas não atrapalhe a diversão’ Micah olhou para ela ofendido de verdade e pediu outro copo para o garçom, sentindo-se desafiado.

Se tinha uma coisa que incomodava Micah profundamente era ser desafiado e não poder encarar o desafio. E quando o desafiante era uma garota, era questão de honra. Principalmente se essa garota era a Evie. O garçom deixou os dois copos na mesa e eles sentaram um de frente pro outro, os olhares cerrados, desafiadores. Evie virou primeiro, fazendo careta ao engolir o álcool, todo o ritual do limão e do sal tendo sido feito antes. Micah acompanhou a amiga e fez esforço pra não demonstrar que já estava no limite. Ele resistiu até a 5ª rodada, quando percebeu que Evie já dava indícios de que sofreria de perda de memória recente se ingerisse mais um copo de tequila.

‘Parou Micah? Você não sabe beber!’ Evie encheu o 6º copo e virou depressa.

‘Não curto ressaca, meu bem. E você amanha vai acordar com uma das brabas’ Evie ignorou seu comentário e bebeu mais um copo. E mais um em seguida. ‘Chega. Vamos embora’ Micah agarrou seu braço, mas ela conseguiu se desvencilhar dele e correu pro meio das pessoas na pista de dança.

Saiu apressado atrás de Evie, encontrando-a alguns minutos depois. Estava sentada em um dos sofás da boate com um garoto que ele logo reconheceu ser aluno de Durmstrang. Ele falava no ouvido dela enquanto ela ria, e Micah parou do lado dos dois, puxando ele pelo braço sem delicadeza.

‘E ai? Como estão indo as coisas?’ Perguntou soltando o garoto, que estava visivelmente bêbado

‘Muito bem’ Respondeu se gabando ‘Ela é demais’

‘É mesmo? Legal!’ Micah fingiu empolgação

‘Acho que daqui a pouco consigo levar ela pra um dos corredores’ Disse confiante e Micah riu junto com ele, mas em seguida assumiu um ar ameaçador e o agarrou pela gola da camisa

‘Se você voltar a olhar pra ela ou falar com ela, aqui fora, na escola ou em outro planeta, eu acabo com você. Combinado?’

‘Sim, certo. Combinado’ Ele respondeu assustado e saiu na direção do sofá. Micah o reteve

‘É melhor você sair por ali’ Disse apontando para a direção contraria

‘É, isso. Estou indo’ E saiu esbarrando nas pessoas para longe

Ele esperou o garoto já estar longe e olhou para ela. Evie estava completamente fora de si. Já ameaçava levantar e se misturar às pessoas na pista, e vendo que alguns fotógrafos se aproximavam para registrar o momento, Micah a agarrou pelas pernas e a tirou do bar.

‘Me põe no chão!’ Evie ordenou, dando socos nas costas dele

‘Não. Você já aproveitou tudo que podia por hoje. Aqueles fotógrafos estavam prestes a registrar mais um momento seu nesse estado. Aposto que seu pai ia adorar abrir o jornal amanha e dar de cara com a filha dele desse jeito, estampada na primeira pagina da coluna de fofoca. Tenho certeza que o café da manha dele teria um gostinho especial’

Evie parou de se debater ouvindo o sermão, se deixando cair no ombro dele e ser carregada até o carro em silêncio. Ele a amarrou no cinto e pegou a chave na bolsa dela, ligando o carro e saindo antes que algum repórter resolvesse procurá-los do lado de fora. Evie se mantinha calada durante o percurso, mas tinha um sorriso estampado na cara difícil de decifrar. Micah decidiu parar de olhar pra ela e prestar atenção na estrada, quando uma patrulha da policia surgiu de repente com a sirene ligada e mandou que ele encostasse o carro.

‘Fica aqui, não sai do carro e nem fala nada’ Micah saiu tentando disfarçar o nervosismo. Tudo que ele não precisava naquele momento era que o policial visse o estado em que Evie se encontrava. Imediatamente ele deduziria que ele também andara bebendo.

‘Habilitação e documento do veículo, por favor’ o policial verificou a documentação que Micah lhe entregou e ele já estava prestes a voltar para o carro quando Evie apareceu na janela, sorrindo.

‘Ei, seu guarda, prende ele’ Disse atropelando as palavras

‘Evi, fica quieta’ Micah deu um sorriso amarelo para o policial.

‘Por que eu deveria prendê-lo, madame?’ o policial parecia estar se divertindo

‘Prende ele, porque ele vai me fazer mal’ Evie sorria enquanto falava e Micah começou a suar

‘Não liga pra ela, por favor. É minha noiva, ela bebeu um pouco a mais hoje. Evi, amor, entra no carro que eu já vou levar você pra casa’ Micah falava entre dentes enquanto entrava no carro.

‘Prende ele porque ele vai abusar de mim’ Evie ria enquanto falava

‘Dirija devagar garoto. E dá um café pra ela’ o policial lhe devolveu os documentos e Micah bateu a porta do carro, empurrando Evie de volta para o banco dela.

‘Você não o prendeu, agora já era... Ele vai se aproveitar de mim... ’ Evie alisava o corpo enquanto falava e Micah atingiu todas as cores do arco-íris vendo que o policial ria do que ela dizia. Ele odiava corar na frente dela, mas por sorte dessa vez ela dificilmente se lembraria.

Micah arrancou com o carro querendo esganá-la por fazê-lo passar vergonha na frente de um policial, mas ela estava tão bêbada que nem sabia o que estava fazendo. Ou sabia? Essa era a pergunta que não lhe deixaria dormir aquela noite. ‘Ela é louca. Essa garota é maluca’ ele pensava enquanto dirigia. Mesmo pensando que ela era doida, Micah não conseguia evitar um sorriso de satisfação no rosto enquanto a observava dormir no banco do carona. Ela definitivamente era diferente de todas as garotas que ele já havia conhecido. Ele parou o carro em frente ao apartamento da família dela e a carregou até o quarto. Deixando a chave do carro na mesa de cabeceira, Micah saiu, levando a chave da casa consigo para devolver no dia seguinte. ‘Ela é louca, mas é perfeita’ ele falou para si mesmo, enquanto caminhava a pé de volta para casa de Chris.

Wednesday, April 09, 2008

Véspera do aniversário do Micah, sexta feira à noite, num certo bar do vilarejo...

Cheguei na hora marcada e fiquei esperando que Jolie aparecesse. Ela atrasou um pouco, mas quando me levantei para falar com ela, o pessoal da banda entrava no bar atrás dela. E tinha um ar maroto no rosto.
- Nós tínhamos marcado, não sabia que você ia mudar os planos e trazer a banda com você. – resmunguei.
- O combinado era: mesma hora e mesmo lugar, não tenho culpa se você imaginou tratar-se de um encontro. – Jolie disse cínica, enquanto fazia o pedido das bebidas.
E ela achava que tinha levado a melhor sobre mim, resolvi virar o jogo. Se ela ia me dispensar fizesse isso cara a cara, nada de trazer um bando com ela.
- De certa forma era um encontro, Jolie, mas já que o pessoal está aqui, vou ficar com vocês.
Aproximei-me e sorri olhando-a nos olhos. Percebi que suas pupilas se dilataram e ela engoliu seco. Andei em direção ao pessoal da banda.
- Você não pode... - ela respondeu rápido, mas ignorei sentei-me na mesa, segurando minha cerveja amanteigada. Serj me olhou feio e resmungou:
- Porque você não vai embora garoto?- perguntou Serj.
- Aqui é um local público e quero conhecer um pouco mais meus novos colegas. – respondi e quando Jolie sentou-se, ele tentou colocar a mão sobre a dela e ela retirou, depois de algum tempo ele tornou a repetir o gesto, e segurou a mão dela antes que ela retirasse. Percebi que ela olhou feio para ele e disse:
- Fica na sua Serj.
Minha vontade de ficar se fortaleceu, e comecei a conversar com os outros membros da banda sobre os ensaios e trocar idéias sobre os arranjos de algumas músicas, quando Serj disse:
- Não quero que mudem os arranjos...
- As músicas que vamos tocar não são suas, portanto faremos os arranjos que quisermos. Se você tem problemas com isso, fale com o professor. – respondi seco e os outros na mesa ficaram pasmos com a minha resposta. Jolie olhava dele para mim, com receio, parecia esperar por uma briga. Ficamos nos avaliando e como nenhum dos dois cedia, Gustav, o baixista, desviou o assunto sobre as músicas que deveríamos tocar na feira de talentos. E aí sugeri uma musica que a Jolie havia cantado, para se aquecer nos ensaios.
- Acho que aquela sua música Jolie, precisa ser mais agitada, já tenho idéia do que fazer e com algumas entradas do Gustav, vai ficar muito legal. - e o tal de Serj resolveu se meter novamente.
- Aquela música é um protesto, não tem que ser animada. Assim você não valoriza a voz dela.
- A voz de Jolie se destaca naturalmente, e você pode fazer um protesto animado, as pessoas vão gostar mais e se juntar à causa. - e antes que ela respondesse, ele retrucou:
- Você não tem que agradar as pessoas, como um bom menino.
- Este é o pensamento medíocre de quem canta no chuveiro. No caso da banda queremos que faça sucesso, então temos que agradar ao público no dia da feira. E se a banda fizer sucesso, não só Jolie como os outros terão chance no mercado musical.
- O Ty tem razão, queremos que a banda dê certo, e vamos fazer os arranjos necessários, é para isso que ensaiamos. - disse Jolie e foi apoiada pelos outros músicos, pelo resto da noite, Serj se limitou a beber.

Durante a semana

Depois do ataque ao Micah, eu me reorganizei de forma a estar sempre junto com ele e facilitava muito estarmos em algumas aulas extras no mesmo horário, e mesmo os ensaios da banda, que eram antes do teatro, facilitavam muito, porém não ficávamos mais que o necessário fora da república.
O pessoal da banda pareceu notar que eu não andava mais atrás da Jolie e até mesmo ela parecia estranhar meu comportamento. Algumas vezes, a peguei me olhando, e eu a olhava como se ela fosse uma vidraça, e no ensaios me limitava a opinar sobre as músicas e só. Não que não gostasse dela, estava a cada dia mais interessado em sair com ela, mas já que ela havia decidido me esnobar, resolvi devolver, pelo visto estava dando certo, porque quando fui levar algumas partituras para a sala do professor a encontrei lá sozinha e ela se virou ríspida para mim, quando passei perto dela:
- Não achei que você fosse medroso, Ty.
- Por quê?
- Você sempre bancou o engraçadinho, e nos últimos dias está calado. Deve ser duro para você levar a sério uma banda de escola, já que quer ser um astro do quadribol. Se quiser, voltamos aos arranjos do Serj, ele está doido para ajudar.
- Não ouse estragar o que temos feito. - disse ríspido e a segurei pelo braço, virando-a para mim, ficamos nos encarando e de repente estávamos nos abraçando e beijando. Encostei-a na parede e ficamos um tempo perdidos um no outro quando ela pôs a mão no meu peito e me empurrou, sem me afastar muito:
- Você não devia ter feito isso, pensa que basta estalar os dedos e eu caio aos seus pés? - ela disse irritada e eu respondi de volta:
- Não fiz nada sozinho. Mal a toquei, e você disparou como um foguete. Não é minha culpa que estivesse tão necessitada.
-Necessitada? Eu? - seus olhos estavam a ponto de saltar das órbitas. – Ora, seu arrogante, insuportável e egoísta idiota! – disse espetando o dedo em riste no meu peito.
- Foi uma má escolha das palavras... –respondi e a provoquei mais:
- Eu deveria ter dito reprimida. Os caras daqui não tratam bem as garotas...
-Vou acabar com você. – ela levantou as mãos e eu as segurei com nossos rostos próximos:
-E... Deveria ter acrescentado que não gosto do fato de desejá-la.
- Pois eu também não gosto. – ela parecia cuspir as palavras.
- Não gosta que eu a deseje ou não gosta de me desejar? – perguntei.
- Ambas as coisas.
Ficamos nos encarando, esperando quem daria o próximo passo:
-Então resolveremos isso amanhã à noite, sem complicações. – eu disse.
-Não quero complicar, Ty. Quero fazer com que seja impossível.
-Por quê?
-Por que é óbvio, inclusive para você. – e ela tinha as faces vermelhas, um brilho nos olhos, que a deixava mais bonita.
- Não sei o quê tem essa atitude irada em você, mas me faz sentir... Já sei, você quer que seja algo tradicional, que a convide para sair, tudo isso?
Ela fechou os olhos e rezou para manter a paciência.
- Parece que não consigo me fazer compreender. -voltou a abri-los-. Não, não quero que me convide para sair, nem nada disso. O que aconteceu agora foi...
- Selvagem. – respondi.
- Uma aberração. – ela rebateu e respondi:
- Não seria muito difícil demonstrar que está enganada. Mas entendo... A assustei e agora está com medo de ficar sozinha comigo. Está com medo de perder o controle novamente.
- Não tenho medo de perder o controle, e muito menos medo de ficar sozinha com você. Tenho mais de 18 anos e você ainda...
- Sou um cara como outro qualquer, e se você for ligar pra este lance de idade, não é a pessoa que eu acho que é. Ninguém aqui está falando em casamento, e quer você goste ou não, tem alguma coisa rolando entre nós.
- Não vamos levar a sério uma simples atração física.
(Pelo menos ela reconhece que se sente atraída por mim)
Ficamos nos encarando e voltamos a nos beijar.
- Não pense que estamos juntos... - ela disse tentando recuperar o fôlego.
- Isso nem passou pela minha cabeça. – respondi.
- Não quero que as pessoas saibam, e que digam que falta objetividade em nós. Depois de hoje, tenho certeza que isso vai passar. - ela disse.
- Por mim tudo bem. Não acho que meus amigos te achem boa o bastante para mim. - e os olhos dela se estreitaram:
- Como não sou boa o bastante para você?- e eu levantei a boca num sorriso dizendo:
- Não falarei nada a ninguém, nem mesmo aos meus amigos, já que você quer assim. Afinal nem sabemos se vamos continuar... - ela tornou a me beijar.
Após mais alguns beijos, nos separamos e cada um foi para o seu lado. Reencontrei meus amigos e voltamos para a república, cada um com seus pensamentos, porém uma coisa eu sabia: a reação química que eu e Jolie tivemos um com o outro, não iria passar tão fácil.

Tuesday, April 08, 2008

Uma semana inteira já havia se passado desde que fui envenenado e ainda estava na ala hospitalar, mas finalmente seria liberado. Já não havia mais variações de poções que ainda não tivesse tomado e depois de ouvir milhares de recomendações da enfermeira, recebi permissão de voltar para a república. Ty, Reno, Iago e Chris já estavam me esperando na porta, e isso agora era rotina. Os quatro não saiam do meu pé e passaram a semana toda se revezando em inventar doenças malucas para poderem passar a noite na ala hospitalar. Andava suspeitando que contavam sempre a ajuda do professor de Herbologia, mas resolvi não perguntar, queria distancia de qualquer informação sobre esse assunto.

‘Pronto pra ir?’ Ty perguntou batendo continência em deboche ‘Sua guarda real já está a postos!’

‘Vou providenciar uma roupa da guarda real inglesa pra vocês’ Respondi também em deboche e Reno fez uma careta

‘Vamos logo, ainda dá tempo de pegar a aula do clube de transfiguração sem muita bronca, só começou há 5 minutos’ Chris falou impaciente

‘Nossa, vamos correndo então, não podemos perder uma aula de transfiguração!’ Falei sarcástico e Ty e Iago riram

‘Eu vejo vocês mais tarde, já estou atrasado também pra minha aula de Feitiços. Não aprontem nada na minha ausência’ Iago ajeitou a mochila nas costas e sumiu pelo corredor

Chris e Reno caminhavam acelerados em direção à sala de transfiguração, mas Ty e eu vínhamos mais atrás sem muita pressa. Ele ia me contando as últimas notícias da Spartacus, e de como Max, Luka, Naveen, Igor e Klaus ainda não faziam a menor idéia de que eu estava vivo e na escola. Ia ser difícil resistir à tentação de avançar contra eles lançando azarações, mas Chris e Iago nos fizeram prometer que manteríamos a calma. A situação já estava deveras ruim sem que iniciássemos um duelo que podia acabar mal no meio da escola.

Quando entramos na sala, as reações foram exatamente como imaginamos. Os cinco ergueram a sobrancelha e trocaram um olhar de espanto, mas tentaram disfarçar e logo se ocuparam em uma conversa aos sussurros. Sentei com eles perto da janela, mas foi impossível me concentrar. Passei uma hora inteira da aula com os olhos fixos no jardim, onde uma turma do 1º ano assistia a uma aula extra de Trato de Criaturas Mágicas.

‘Está tentando descobrir o impacto de um corpo caindo do 6º andar?’ Ty perguntou também sem prestar atenção à aula

‘Já avistei algumas moitas embaixo da janela, não me machucaria muito’

‘Você é igual gato, têm sete vidas’ Ele riu ‘Já desperdiçou uma, mas ainda lhe sobram seis. Relaxa’

‘Estou mais preocupado em descobrir o que eles tanto conversam do que saber quantas vidas ainda me restam’ Desviei o olhar da janela e encarei os cinco. Eles pararam de falar alguns segundos e me encararam, mas logo retomaram a conversa ‘Eles sabem que eu sei, olha como estão assustados’

‘Bom, tecnicamente não temos como provar ainda’ Chris ouvia a conversa e virou para trás ‘São apenas especulações, mesmo que muitas’

‘Claro que foram eles’ Ty lançou um olhar irritado pra direção deles antes de continuar ‘Pra mim, a fofoquinha das comadres ali só confirma a suspeita’

‘Ainda assim, não vamos fazer nada. Pelo menos por enquanto’ Chris virou para frente outra vez, voltando à atenção para o professor

Chris não voltou a virar para trás e Ty passou a copiar as instruções dadas pela professora para o processo de transfiguração em animagos que começaríamos trabalhar na próxima aula, mas continuei encarando o jardim. Quinta-feira começava o recesso de páscoa e queria ir para casa, mas os pais adotivos de Connor iam viajar com ele e o filho, então de nada adiantaria ir para a Califórnia se não poderia vê-lo. O sinal indicando o fim da aula finalmente tocou e caminhei com Chris direto para o teatro ao invés de ir para o campo de Trancabola. Para o meu alívio, Maddox havia desmarcado o treino de hoje e o professor Ivo aproveitou para marcar um ensaio extra antes do horário normal da aula. E como já tinha perdido dois ensaios, não poderia cogitar sequer chegar atrasado.

‘Boa noite, boa noite! Vamos entrando e se acomodando no palco’ Ivo gesticulava animado enquanto a turma ia chegando aos poucos ‘Micah, como está se sentindo?’

‘Estou bem, professor, obrigado’

‘Que ótimo, já estava preocupado se teria que substituir o astro principal do espetáculo!’ Falou empolgado e dei uma risada sem graça quando Chris deixou escapar uma gargalhada alta ‘Mas sentem-se, depressa. Quero começar logo a aula!’

Sentamos no palco ao lado de Evie e Nina e aguardamos o restante da turma chegar. Ouvimos o professor dar uma verdadeira palestra sobre musicais da Broadway sem entender exatamente o motivo daquilo e quando já eram quase 22h começamos o ensaio para a peça. Tive poucas cenas dessa vez, a maioria era com alguns dos figurantes, então sobrou bastante tempo para jogar conversa fora com Evie, Nina e Chris na platéia. O assunto era o recesso de páscoa.

‘Nem acredito que vamos ter quatro dias de folga!’ Nina disse empolgada, e concordei com a cabeça

‘Que bom que alguém está ansioso pelo recesso, pois eu não estou. Ir para casa com Max não é nada animador, não agüento mais ele no meu pé!’ Evi reclamou e senti que Chris me observava atentamente, mas fingi não notar

‘E o que pretendem fazer no feriado?’ Chris perguntou ‘Já têm planos?’

‘Ah, vou ficar em casa mesmo, né? Almoço tradicional com a família’ Evi não aparentava animação ‘E vocês? Vão ficar na escola?’

‘Não, Micah vai lá pra casa, minha família toda também vai’

‘Vou?’ Olhei para Chris sem entender e ele quase me desintegrou com o olhar ‘Ah é verdade, vou pra casa dele’

‘Que bom, podemos todos sair, pois também vou estar à toa em casa’ Nina logo se animou ‘O clima lá ainda está péssimo desde a morte do pai dos trigêmeos, nem mesmo Nico e Ivan conseguem animar’

‘Ótimo, então está combinado, vamos sair no feriado!’ Evi levantou o puxou Nina ‘Agora vamos, é nossa cena’

‘O que vou fazer na sua casa?’ Perguntei quando elas já estavam no palco ‘Podia ter me avisado! E se já tivesse me programado para ir até a Califórnia?’

‘Pare de drama, sabia que não ia para casa. Meu pai quer conversar com você, e ficar sozinho aqui na escola está fora de cogitação na sua situação. Não reclame, Gabriel e Shannon também vão, eles já sabem o que aconteceu’

‘Eles sabem tudo?’ Perguntei desconfiado

‘Sabem o necessário’ Respondeu olhando as meninas no palco ‘Ela ainda não sabe quem bateu em você, não é?’

‘Não. E não precisa saber’

‘Precisa sim. Conte a ela que foi Max e os amigos, ou eu contarei. Evie tem o direito de saber e é você quem deve contar. Não me obrigue a me meter’ Disse levantando e saindo das poltronas ‘Entramos na próxima cena, vou pro palco’

Chris voltou para junto do resto do elenco, mas ainda fiquei sentado alguns segundos. Não tinha a menor intenção de contar a ela toda a verdade, e nem mesmo a verdade parcial. Mas talvez seja melhor começar a pensar nisso, pois preferia que ela soubesse por mim o que realmente aconteceu antes do envenenamento do que e não por terceiros. E pior: antes que Max contasse sua versão dos fatos. Mas não hoje... Quem sabe depois do feriado?

Monday, April 07, 2008

Uma figura solitária esperou o jardim ficar deserto e o atravessou até as Estufas. Parou na porta da maior, que mais parecia uma grande catedral de vidro, dourada. Encostou-se na porta, olhando mais uma vez para os dois lados, e então puxou uma chave de dentro do bolso, abrindo-a. Entrou sorrateiramente.

‘Lumus’ ordenou para a varinha que segurava diante de si e foi caminhando entre os diversos balcões de plantas raras.

Ao final, parou diante de mais uma porta minúscula, e novamente destrancou-a com a chave. Desceu as escadas e se viu em uma espécie de porão mal cheiroso e escuro. Passou lentamente por entre o único corredor analisando. Encontrou o que procurava quase no final e não pode deixar de sorrir. Vestiu grossas luvas de couro de dragão e com um canivete, cortou um grande ramo da planta, desfolhando-a cuidadosamente e alojando as folhas em um saco plástico.

Repetiu o processo com mais dois ou três ramos, e quando conseguiu toda a quantidade que queria, fez o caminho de volta, sem deixar rastros.
Sentiu o gosto da vitória na boca enquanto caminhava para o vilarejo ao lado do castelo. Só faltava um detalhe para que seu plano fosse perfeito...


- Ah, acordou. Estávamos preocupadas. Nina e eu, já planejávamos colocar um espelho embaixo do seu nariz para ver se ainda estava respirando. – a voz de Annia falou irônica da porta do quarto. Continuei revirando meu malão.
- Como está Micah?
- Relativamente bem. Alguns arranhões e cortes, roxos e inchaços, mas ele sobreviveu, o que é mais importante.
- É... – respondi ainda jogando objetos para fora.
- O que você está fazendo Vina? – Nina perguntou, se deitando em sua cama e observando a bagunça ao meu redor. Encarei-as desesperada.
- Estou procurando a chave da estufa Imperial!
- Que chave? Ah... – Nina arregalou os olhos. – A cópia da chave que o professor Mikhail te deu?!

Quando concordei com a cabeça, ela soltou uma exclamação e Annia apertou os olhos com as mãos.

- Quando eu penso que os problemas finalmente se acabaram! – ela disse mais como um pensamento alto do que como qualquer outra coisa. – Você não usava isso ao redor do seu pescoço? Aquela corrente não tem fecho. Ou você tirou, ou ela caiu. Só essas duas alternativas.
- Obrigada. Me sinto muito melhor agora. – respondi azeda e ela cerrou os olhos para mim. – Eu não tirei essa corrente. E ela pode ter caído em qualquer lugar. Só se...

Um flash veio à minha cabeça e me fez voltar ao momento em que estávamos no camarim das dançarinas, trocando de roupa, completamente bêbadas.

- Ela pode ter caído na boate, quando trocamos de roupa para dançar! – quase gritei. Annia concordou com a cabeça enfaticamente e Nina fez uma careta horrível.
- Ficaria muito grata se vocês apagassem esse momento das nossas vidas. – disse. Eu e Annia nos entreolhamos e rimos.
- Não sei do que você está reclamando, Nina. Você nem dançou! Saiu correndo.
- Certo, mas a humilhação de ter subido no palco vestida de bombeiro já é o suficiente para minha honra se sentir muito lesada.

Rindo, me levantei e vesti uma capa. As duas me observaram com curiosidade.

- Aonde você vai hora dessas?
- Até a boate, claro. Tenho que recuperar essa chave o mais rápido possível.
- Você está maluca?! É domingo, bem de noite! A boate não está aberta hora dessas!
- Certo, mas ainda é final de semana. Se eu não for hoje, só sexta-feira! – eu completei e elas se olharam já sem argumentos. – Volto logo.

Bati a porta e desci correndo as escadas. Evie estava entrando na República com a expressão carregada e abatida, mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, passei correndo por ela, que parou para me observar.

- Annia e Nina te explicam.

Ela sacudiu os ombros e eu dei as costas saindo para os jardins, desertos àquela hora. Parei derrapando na porta da Osíris e entrei na República fazendo um pouco mais de barulho do que o necessário.

Ricard estava sentado na mesa da cozinha, lendo um livro. Se assustou a me ver.

- O que foi que aconteceu dessa vez?
- Preciso que vá comigo até a boate do vilarejo. Tenho certeza que a chave caiu lá.
- Você perdeu o juízo? Temos só mais 30 minutos para ficarmos fora do castelo. E não é hora de irmos até a boate... Ela não está aberta hoje.
- Se você parasse de falar e agisse, já estaríamos voltando. – Eu disse com raiva e ele nem se mexeu.
- Acho que a bebida alterou seus neurônios.
- Não vem comigo? Ótimo. Vou sozinha. – Estava quase alcançando a porta quando...
- Lavínia. Espera. Eu vou com você. Não adianta eu falar que provavelmente vamos levar uma detenção?
- Já disse que vou sozinha.
- Pois agora eu estou dizendo que vou com você e ponto final.

Um minuto depois estávamos atravessando o portão. Victor estava chegando, abraçado à mesma menina. Pareceu não ter nos notado uns segundos, mas quando eu me esbarrei propositalmente em seu braço, ele olhou.

- Desculpa, não te vi. – Pedi controlando minhas palavras e sentindo um calor subir e descer sem parar no meu corpo.
- Tudo bem. Também não tinha visto vocês... Ricard, os portões já vão se fechar. – ele avisou e a menina concordou com a cabeça apertando o abraço. Tremi. Ricard agarrou meu braço para continuarmos caminhando.
- Eu sei. Até mais.

Andamos depressa e em silêncio mais alguns segundos até eu explodir em indignações. Ricard escutou calado.

- “Também não tinha visto vocês...” – imitei a voz de Victor, debochando. – Não tinha visto uma @#$%!!! Desde quando ele tem problemas de visão?! E aquelas risadinhas da menina... “hihihi”... BLERGH! Um belo casal. Dois idiotas. Se merecem mesmo.
- Nossa. Hoje a sua espicondilite lateral está em alta. – Ricard comentou rindo abertamente.
- A minha o que? Ite é inflamação. É grave? Como você descobriu que eu tenho isso?
- Respira. Não é nada grave. Espicondilite lateral é popularmente conhecida como “dor de cotovelo”. – ele gargalhou e eu fechei a cara. Não disse mais nada até chegarmos em frente à boate.

Como havíamos previsto, estava fechada. Mas tinha luzes acesas e batemos na porta. Barulhos de passos se aproximando, e alguns segundos depois, uma fresta se abriu. Nicolau nos olhava surpreso.

- Desculpem, meninos. Não está funcionando hoje, e...
- Não viemos aqui para festa. Estou procurando uma coisa que me pertence e que tenho quase certeza de ter deixado cair aqui.

Nicolau nos observou mais uns segundos e então abriu a porta para nos deixar entrar. Estava muito diferente do que estava na festa. As mesas estavam empilhadas, assim como as cadeiras. O bar vazio. E nem as gaiolas estavam ali.

- O que é que você está procurando?
- Uma chave. Pequena, dourada. Estava em um cordão fino e dourado também. Grande o suficiente para passar pela minha cabeça, e...

Parei de falar pois uns segundos depois Nicolau puxou um cordão de dentro do bolso, analisando.

- Seria esta?
- É esta mesmo!!! Ah, não acredito! Pelas barbas de Merlin, se tivesse perdido essa chave... – disse aliviada enquanto colocava-a de volta ao redor do meu pescoço. – Obrigada.
- Não agradeça a mim. Você não a perdeu aqui dentro. Deveria estar no chão aqui na porta, ou na rua. Há apenas um par de horas atrás, alguém a colocou dentro de um envelope e jogou-o por debaixo da porta. Deixou um bilhete. – Ele puxou um papel rabiscado com pressa: “encontrei essa chave no chão aqui perto. Alguém deve ter perdido aí.”

Ele me entregou o bilhete, mas não reconheci a caligrafia. Agradecendo mentalmente a essa pessoa, eu e Ricard voltamos correndo para Durmstrang, eu me sentindo alguns quilos mais leve. Passamos um segundo antes dos portões serem fechados e paramos para respirar. Rimos.


- Então... conseguiu? – Milla que também havia chegado, perguntou assim que entrei no quarto, ainda suada. Todas elas me olhavam preocupadas.

Puxei o cordão e mostrei a elas, sorrindo e me sentando na cama.

- Essa foi por pouco, Vina. – Nina comentou e eu concordei.
- Será que alguém pode me contar o que exatamente aconteceu com Micah? Desde a hora que acordei (e não faz tanto tempo assim), só fiquei por conta dessa chave.

Evie engoliu em seco, exausta, e começou a contar. O dia havia sido difícil para todos nós...

Thursday, April 03, 2008

Iago havia levado Milla para a Avalon e estava voltando para a Chronos para dormir e conversando com ele, ia John McKellen, quando encontraram Luka próximo da república das garotas.
- O que você está fazendo aqui a esta hora? - Luka perguntou irritado.
- Nada que seja a sua conta. - respondeu Iago.
- Karkaroff, você devia parar de insistir sabia? A Milla está comigo...
- Aham... Sai fora Ivanov, não estou querendo estragar o meu dia, não depois da melhor noite da minha vida. – e quis continuar andando, mas o garoto alto segurou-o pelo braço e disse:
- Afaste-se dela.
- Não vou me afastar dela, estamos mais unidos que nunca, acostume-se a isso.
- Como assim “unidos”?
- Bom, um cavalheiro nunca comenta certas coisas, mas já que você nunca me considerou um cavalheiro antes... Ludmilla e eu estamos juntos em todo o sentido da palavra, e se você não sabe o que isso significa, precisa conversar com alguém sobre... Os fatos da vida. – ele respondeu e piscou para John que sorria, puxou o braço bruscamente e saiu assobiando pela rua. Luka ficou olhando os dois rapazes se afastarem e achou ter ouvido risos.

A noite havia sido longa...
Festa...
Bebida...
Risos...
Mais bebida...
Ciúmes...
Dança...
Amor...
O mundo girando em meio à escuridão...
Sede...
Enjôo...

Levantei da cama aos tropeções e corri ao banheiro sem ver direito aonde ia. Tudo o que queria era tirar de dentro de mim aquela sensação horrível que chegava queimando a minha garganta e descia para logo tornar a subir, tornando tudo pior. Não sei quanto tempo fiquei ali, abraçada ao vaso sanitário, só sei que depois de algum tempo, senti alguém passar um pano molhado em meu rosto e perguntar:
- Está melhor?
Aos poucos fui abrindo os olhos e Annia estava parada ao meu lado. Apesar da visão turva, dava para ver que ela estava preocupada e disse suave:
- Você precisa tomar um banho, e comer alguma coisa, vai melhorar depois disso. – sacudi a cabeça negativamente e o que restava de meu cérebro protestou, enviando uma onda de dor que me fez vacilar em direção ao vaso novamente.
- Eu vou morrer... Sei que vou... - resmunguei e ela apenas riu. Deixei que ela cuidasse de mim e Annia dizia em tom baixo, quando leu a pergunta em meus olhos:
- Iago a trouxe adormecida. Disse que depois vocês precisam conversar... E ele saiu daqui com um sorriso enorme, parecia feliz. – Só tive forças para deitar na cama e adormecer com um sorriso nos lábios.

- Milla, acorda, precisamos sair. - Annia me sacudia nervosa e acordei assustada:
- O que foi?- senti uma pontada de dor nos olhos.
- Micah foi atacado e está na enfermaria.
Coloquei mais roupas por cima da que usava e só vi que Vina mesmo depois do escândalo de Annia continuava desmaiada na cama.
Quando chegamos na enfermaria Micah, estava acordado e não sabia quem havia feito isso, mas após observar a troca de olhares entre Iago e Ty, sabia que ele estava mentindo.Na saída Iago me puxou para um canto e perguntou:
- Nos vemos depois? Agora preciso ver umas coisas...
- Sim, depois nos falamos. – e antes que ele se fosse apertei seu braço e disse:
- Tome cuidado.
- Você também. - respondeu passando a mão em meu rosto. Sentia-me feliz por ver o seu amor por mim em seus olhos.


- Luka, não posso mais ficar com você.
- Por quê?
- Iago e eu... Há uma chance de ficarmos juntos...
- Você merece o melhor... - ele disse sério.
- Fico feliz, que você me entenda Luka. Eu não seria a pessoa ideal para você.
- Você tem razão, você não está sendo a pessoa ideal para mim, mas vou corrigir isso. – e a garota não teve tempo de reagir quando o viu com a varinha levantada e sussurrar algumas palavras, deixando-a com os olhos desfocados. O garoto alto olhou-a friamente e disse entredentes:
- Agora Ludmilla, vamos conversar sobre como as coisas serão diferentes entre nós daqui em diante...

- Lud, precisamos conversar sobre tudo que aconteceu conosco...
- Sim, o que você gostaria de falar?
- Você está bem?- ele perguntou preocupado e ela sorriu.
- Claro, estou bem e você?
- Estou ótimo. - e levantou a mão para tocá-la.
- Que bom, Iago, fico feliz por você. - e ele estranhou quando ela esquivou-se do toque em seu rosto.
- Nós estamos juntos não é?- ele perguntou e ele sentiu um frio atravessa-lo, e não tinha nada a ver com o tempo. Ela o olhou parecendo ver através dele.
- Como assim “juntos”? Você terminou comigo e eu estou namorando o Luka.
- Mas ontem... Nós... Você e ele estavam brigados...
- Ah ontem... Foi uma loucura não? – ela riu, e continuou:
- Não espero que você leve a sério coisas que acontecem em momentos de completa embriaguez. E pelo que eu me lembre nenhum de nós fez nenhuma promessa não é?
- Sim, não houve promessas... Aliás, não falamos muito... Mas pensei que poderíamos tentar novamente...
- Iago, espero que o dia de ontem fique como uma boa lembrança entre nós. Agora preciso ir, Luka me espera, não quero deixá-lo esperando.
Ela foi embora e minutos depois ele continuava com a mesma sensação incômoda de que havia sido atropelado por um trem e nem estava na estação. Talvez fosse um efeito retardado da bebida da noite anterior.

Why did you let me leave?
It's not the way it's gotta be.
What's wrong with me?
Why don't you tell me to believe?
Why did you let me leave?
Is that the way this has to be?

N.autora: trecho da música Cinderella Story, Plain White T's

Trecho do diário de Lavínia Durigan:

“Eu não saberia responder exatamente o porquê de estar namorando Naveen. Lembro-me de ter bebido mais do que o necessário no Baile do dia dos namorados e ter visto Victor sumir para os jardins de mãos dadas com a garota do vilarejo. Senti raiva, ciúmes e uma sensação nova onde se mesclavam vingança e loucura.
Naveen me perguntou se eu queria dar uma volta, eu o acompanhei. Então, depois, só me lembro de estarmos nos beijando.

Ele tem um jeito fechado, grosso, rude, mas é bastante inteligente e sempre que pode, quer me agradar. Só não consegui ainda fazer com que eu não pense em Victor todas as vezes que ele me abraça, e chego até mesmo a compará-los algumas vezes, embora eu admita que os dois sejam completamente diferentes, em todos os aspectos”.

°°°°°

- Onde está o clorofila boy? – Ricard perguntou rindo sarcástico enquanto servia-se de ponche. Lavínia aproveitou para encher a taça que estava em sua mão, quase vazia.
- Onde está... Quem? – perguntou em voz alta fingindo não ter escutado por causa da música.
- Seu namorado.
- O nome dele é Naveen.
- E o apelido é clorofila boy, biodesagradável, Grinch... O que preferir. Micah tem um estoque imenso.

Ela não riu. A boate estava cercada de alunos de Durmstrang convidados para a festa particular de Micah. As dançarinas deslizavam no palco e em gaiolas, atraindo a atenção de quase todos os meninos ali presentes.

- Ele disse que viria um pouco mais tarde. Tinha de terminar um relatório. – Ela respondeu categórica.
- Hum, que bom partido! – Ricard disse em tom de ironia e quando ela o encarou, sorriu.
- Não comece as piadinhas, Ricard. Eu gosto do Naveen, ok? Aceite esse fato.
- Gosta mesmo? – ele provocou.
- Isso aqui é uma festa ou entrevista da Santa Inquisição? Vou ficar com as meninas que dá mais resultado.

Deixou Ricard para trás com um sorrisinho vitorioso no rosto que estava a irritando. Quando se aproximou da mesa onde as amigas estavam sentadas, percebeu que as intenções delas eram as piores, pois já haviam conseguido uma jarra inteira de ponche e se serviam sem parar. Entrou na roda.

Depois desse ponto, ela também se lembra de poucas coisas. Sabia que havia bebido exageradamente, mas não conseguia parar. Sentia cada gole de ponche entrar em sua cabeça e aliviar um dos problemas que passavam ali continuamente, principalmente nos últimos meses. Acabou aceitando se transformar em uma dançarina com Milla e Annia, deslizando em postes no palco, na frente de todos. Enquanto dançava, viu Naveen no fundo do local, sentado sozinho em uma mesa, observando-a sério.
Quando a música acabou, caminhou até ele e tirou a peruca de cabelos negros que escondiam os seus. Ao contrário do que imaginava, ele não pareceu surpreso a vê-la ali. Pelo contrário. Sorriu.

- Você demorou. – ela disse com a voz alterada e pegando um copo de whisky de fogo de uma bandeja próxima. Virou metade.

Ele continuou a encarando sem falar nada alguns segundos, então tirou o copo das suas mãos e colocou na mesa. Esticou as pernas, entrelaçando às dela, puxando-a para perto. Ela acabou perdendo o equilíbrio e caiu em cima dele, que agarrou seu rosto com um pouco de ferocidade e a beijou.

Ela sentiu os braços dele em torno de sua cintura a segurando com muita força enquanto as pernas continuavam a envolvê-la como se tivessem dado um nó. Ele puxava seus cabelos e a beijava com uma vontade louca, quase faminta.
Então pararam e se olharam um segundo, ambos recuperando o fôlego. Os dedos dele embaraçados no cabelo dela. Ele se aproximou bem do seu ouvido e deu uma mordidinha de leve que a fez arrepiar.

- Vamos sair daqui. - Disse baixo e ela concordou sem saber exatamente o que estava acontecendo. Estava em uma espécie de transe.

Ele se levantou, pegou uma garrafa inteira de whisky de fogo no bar e saiu puxando-a pela mão entre os corredores da boate.
Estavam em um quarto de cor vermelha viva, e ele serviu um copo de bebida para ela, que o tomou inteiro antes que ele a derrubasse na cama. Depois disso, escuro.

°°°°°

- Acorda, Gata Borralheira. – um par de mãos me sacudiu com violência e abri os olhos.

Uma claridade descomunal invadiu todo o meu ser. Os olhos queimaram, o estômago revirou, a cabeça inchou e me senti de ponta-cabeça. Ricard sentou-se na beirada da minha cama me observando.

- O que aconteceu? – foi a única pergunta que eu consegui fazer enquanto me esforçava para sentar, os olhos semi-fechados.
- O de sempre: você achou que todo o ponche do mundo fosse acabar ontem, dançou em cima do palco, depois sumiu com o Naveen. Hoje de manhã ele te trouxe para cá, e desde então, você está dormindo.

A onda de informações fez com que eu me sentisse ainda pior. Forcei a memória para me lembrar da festa, mas só vi alguns flashes confirmando o que Ricard havia acabado de dizer. Devo ter feito uma careta muito feia de arrependimento, por que ele riu.

- Consciência Pesada 1 X 0 Lavínia. – ele disse sem empolgação e o encarei com raiva. – Não adianta me olhar desse jeito. Não fui eu quem aprontou a noite toda. Toma esse café bem forte que é para o chão parar de rodar. Quando estiver mais bem disposta, estou lá embaixo te esperando.
- Onde estão as meninas? – perguntei olhando ao redor. Não havia sinal de Milla, Evie, Nina e Annia.
- Foram para a enfermaria.
- Estão passando mal?
- Podem estar, mas não ia adiantar nada. Lá não tem poção que cure ressaca moral. Toma um banho e desce, que te explico tudo o que aconteceu enquanto você estava “ausente”.

Ricard saiu do quarto me deixando sozinha e um tanto quanto zonza. Os acontecimentos da noite anterior passavam pela minha cabeça como flashes descompassados, e aos poucos eu fui montando o quebra-cabeça.

°°°°°

Desci as escadas em um tropeço e passei correndo por Ricard, que estava sentado na sala. Ele me acompanhou atravessar correndo a porta para os jardins e me seguiu.

- O que aconteceu? – ele gritou enquanto corria para me acompanhar.
- Preciso falar com o Naveen! Agora.
- Micah foi atacado! – foi a última coisa que o ouvi gritar antes de parar de correr atrás de mim. Mas não parei.

Entrei na Vulcano desabalada e encontrei Naveen sozinho, na sala. Ele parecia distraído olhando para o conteúdo que carregava dentro de uma caixinha preta, simples, de madeira. A me ver, fechou-a rapidamente e se levantou.

- Lavínia?! Você acordou agora? Está tudo bem?
- O que exatamente aconteceu ontem à noite?
- Como assim?
- Entre nós dois.

Ele não disse nada, mas o sorriso que abriu foi o suficiente para responder minha pergunta. Senti o rosto queimar e uma vontade doida de sair correndo dali.

- Você não se lembra? – ele perguntou maliciosamente.
- Não. De nada.
- Nossa. Parecia tão... acordada... ontem a noite.
- Olha, Naveen, foi um grande erro tudo o que aconteceu. Esquece, ok? Aliás, eu acho que nosso namoro está sendo um imenso equívoco, então é melhor se terminarmos aqui. Eu estava muito bêbada e,...

Ele andou até mim e ficou bem na minha frente e eu parei de falar. Olhou fundo nos meus olhos e se abaixou me dando um beijo rápido. Sorriu.

- Você tem razão. Acho que foi muito bom enquanto durou, mas é melhor se continuarmos apenas amigos.
- Então... está tudo bem pra você? – eu perguntei um tanto surpresa e levemente decepcionada. Ele parecia não estar se importando. Pelo contrário. Parecia estar feliz.
- Está. Se você prefere assim, então é melhor mesmo. Não quero perder sua amizade, que me foi sempre tão valiosa.
- Ótimo então. Amigos. – eu engoli em seco e o estendi a mão, que ele apertou sorrindo.

Saí da república alguns minutos depois e caminhei sozinha para a Avalon. Deveria estar me sentindo leve, mas alguma coisa estava me preocupando e eu não sabia exatamente o quê. Talvez fosse o ataque em Micah. Eu não sabia o que havia de fato acontecido com ele...
Passei a mão pelo peito e então parei de andar, aterrorizada. Procurei em volta do pescoço e nos bolsos, nada. A chave da Estufa Imperial havia sumido, da noite para o dia.