Monday, April 07, 2008

Uma figura solitária esperou o jardim ficar deserto e o atravessou até as Estufas. Parou na porta da maior, que mais parecia uma grande catedral de vidro, dourada. Encostou-se na porta, olhando mais uma vez para os dois lados, e então puxou uma chave de dentro do bolso, abrindo-a. Entrou sorrateiramente.

‘Lumus’ ordenou para a varinha que segurava diante de si e foi caminhando entre os diversos balcões de plantas raras.

Ao final, parou diante de mais uma porta minúscula, e novamente destrancou-a com a chave. Desceu as escadas e se viu em uma espécie de porão mal cheiroso e escuro. Passou lentamente por entre o único corredor analisando. Encontrou o que procurava quase no final e não pode deixar de sorrir. Vestiu grossas luvas de couro de dragão e com um canivete, cortou um grande ramo da planta, desfolhando-a cuidadosamente e alojando as folhas em um saco plástico.

Repetiu o processo com mais dois ou três ramos, e quando conseguiu toda a quantidade que queria, fez o caminho de volta, sem deixar rastros.
Sentiu o gosto da vitória na boca enquanto caminhava para o vilarejo ao lado do castelo. Só faltava um detalhe para que seu plano fosse perfeito...


- Ah, acordou. Estávamos preocupadas. Nina e eu, já planejávamos colocar um espelho embaixo do seu nariz para ver se ainda estava respirando. – a voz de Annia falou irônica da porta do quarto. Continuei revirando meu malão.
- Como está Micah?
- Relativamente bem. Alguns arranhões e cortes, roxos e inchaços, mas ele sobreviveu, o que é mais importante.
- É... – respondi ainda jogando objetos para fora.
- O que você está fazendo Vina? – Nina perguntou, se deitando em sua cama e observando a bagunça ao meu redor. Encarei-as desesperada.
- Estou procurando a chave da estufa Imperial!
- Que chave? Ah... – Nina arregalou os olhos. – A cópia da chave que o professor Mikhail te deu?!

Quando concordei com a cabeça, ela soltou uma exclamação e Annia apertou os olhos com as mãos.

- Quando eu penso que os problemas finalmente se acabaram! – ela disse mais como um pensamento alto do que como qualquer outra coisa. – Você não usava isso ao redor do seu pescoço? Aquela corrente não tem fecho. Ou você tirou, ou ela caiu. Só essas duas alternativas.
- Obrigada. Me sinto muito melhor agora. – respondi azeda e ela cerrou os olhos para mim. – Eu não tirei essa corrente. E ela pode ter caído em qualquer lugar. Só se...

Um flash veio à minha cabeça e me fez voltar ao momento em que estávamos no camarim das dançarinas, trocando de roupa, completamente bêbadas.

- Ela pode ter caído na boate, quando trocamos de roupa para dançar! – quase gritei. Annia concordou com a cabeça enfaticamente e Nina fez uma careta horrível.
- Ficaria muito grata se vocês apagassem esse momento das nossas vidas. – disse. Eu e Annia nos entreolhamos e rimos.
- Não sei do que você está reclamando, Nina. Você nem dançou! Saiu correndo.
- Certo, mas a humilhação de ter subido no palco vestida de bombeiro já é o suficiente para minha honra se sentir muito lesada.

Rindo, me levantei e vesti uma capa. As duas me observaram com curiosidade.

- Aonde você vai hora dessas?
- Até a boate, claro. Tenho que recuperar essa chave o mais rápido possível.
- Você está maluca?! É domingo, bem de noite! A boate não está aberta hora dessas!
- Certo, mas ainda é final de semana. Se eu não for hoje, só sexta-feira! – eu completei e elas se olharam já sem argumentos. – Volto logo.

Bati a porta e desci correndo as escadas. Evie estava entrando na República com a expressão carregada e abatida, mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, passei correndo por ela, que parou para me observar.

- Annia e Nina te explicam.

Ela sacudiu os ombros e eu dei as costas saindo para os jardins, desertos àquela hora. Parei derrapando na porta da Osíris e entrei na República fazendo um pouco mais de barulho do que o necessário.

Ricard estava sentado na mesa da cozinha, lendo um livro. Se assustou a me ver.

- O que foi que aconteceu dessa vez?
- Preciso que vá comigo até a boate do vilarejo. Tenho certeza que a chave caiu lá.
- Você perdeu o juízo? Temos só mais 30 minutos para ficarmos fora do castelo. E não é hora de irmos até a boate... Ela não está aberta hoje.
- Se você parasse de falar e agisse, já estaríamos voltando. – Eu disse com raiva e ele nem se mexeu.
- Acho que a bebida alterou seus neurônios.
- Não vem comigo? Ótimo. Vou sozinha. – Estava quase alcançando a porta quando...
- Lavínia. Espera. Eu vou com você. Não adianta eu falar que provavelmente vamos levar uma detenção?
- Já disse que vou sozinha.
- Pois agora eu estou dizendo que vou com você e ponto final.

Um minuto depois estávamos atravessando o portão. Victor estava chegando, abraçado à mesma menina. Pareceu não ter nos notado uns segundos, mas quando eu me esbarrei propositalmente em seu braço, ele olhou.

- Desculpa, não te vi. – Pedi controlando minhas palavras e sentindo um calor subir e descer sem parar no meu corpo.
- Tudo bem. Também não tinha visto vocês... Ricard, os portões já vão se fechar. – ele avisou e a menina concordou com a cabeça apertando o abraço. Tremi. Ricard agarrou meu braço para continuarmos caminhando.
- Eu sei. Até mais.

Andamos depressa e em silêncio mais alguns segundos até eu explodir em indignações. Ricard escutou calado.

- “Também não tinha visto vocês...” – imitei a voz de Victor, debochando. – Não tinha visto uma @#$%!!! Desde quando ele tem problemas de visão?! E aquelas risadinhas da menina... “hihihi”... BLERGH! Um belo casal. Dois idiotas. Se merecem mesmo.
- Nossa. Hoje a sua espicondilite lateral está em alta. – Ricard comentou rindo abertamente.
- A minha o que? Ite é inflamação. É grave? Como você descobriu que eu tenho isso?
- Respira. Não é nada grave. Espicondilite lateral é popularmente conhecida como “dor de cotovelo”. – ele gargalhou e eu fechei a cara. Não disse mais nada até chegarmos em frente à boate.

Como havíamos previsto, estava fechada. Mas tinha luzes acesas e batemos na porta. Barulhos de passos se aproximando, e alguns segundos depois, uma fresta se abriu. Nicolau nos olhava surpreso.

- Desculpem, meninos. Não está funcionando hoje, e...
- Não viemos aqui para festa. Estou procurando uma coisa que me pertence e que tenho quase certeza de ter deixado cair aqui.

Nicolau nos observou mais uns segundos e então abriu a porta para nos deixar entrar. Estava muito diferente do que estava na festa. As mesas estavam empilhadas, assim como as cadeiras. O bar vazio. E nem as gaiolas estavam ali.

- O que é que você está procurando?
- Uma chave. Pequena, dourada. Estava em um cordão fino e dourado também. Grande o suficiente para passar pela minha cabeça, e...

Parei de falar pois uns segundos depois Nicolau puxou um cordão de dentro do bolso, analisando.

- Seria esta?
- É esta mesmo!!! Ah, não acredito! Pelas barbas de Merlin, se tivesse perdido essa chave... – disse aliviada enquanto colocava-a de volta ao redor do meu pescoço. – Obrigada.
- Não agradeça a mim. Você não a perdeu aqui dentro. Deveria estar no chão aqui na porta, ou na rua. Há apenas um par de horas atrás, alguém a colocou dentro de um envelope e jogou-o por debaixo da porta. Deixou um bilhete. – Ele puxou um papel rabiscado com pressa: “encontrei essa chave no chão aqui perto. Alguém deve ter perdido aí.”

Ele me entregou o bilhete, mas não reconheci a caligrafia. Agradecendo mentalmente a essa pessoa, eu e Ricard voltamos correndo para Durmstrang, eu me sentindo alguns quilos mais leve. Passamos um segundo antes dos portões serem fechados e paramos para respirar. Rimos.


- Então... conseguiu? – Milla que também havia chegado, perguntou assim que entrei no quarto, ainda suada. Todas elas me olhavam preocupadas.

Puxei o cordão e mostrei a elas, sorrindo e me sentando na cama.

- Essa foi por pouco, Vina. – Nina comentou e eu concordei.
- Será que alguém pode me contar o que exatamente aconteceu com Micah? Desde a hora que acordei (e não faz tanto tempo assim), só fiquei por conta dessa chave.

Evie engoliu em seco, exausta, e começou a contar. O dia havia sido difícil para todos nós...

Thursday, April 03, 2008

Iago havia levado Milla para a Avalon e estava voltando para a Chronos para dormir e conversando com ele, ia John McKellen, quando encontraram Luka próximo da república das garotas.
- O que você está fazendo aqui a esta hora? - Luka perguntou irritado.
- Nada que seja a sua conta. - respondeu Iago.
- Karkaroff, você devia parar de insistir sabia? A Milla está comigo...
- Aham... Sai fora Ivanov, não estou querendo estragar o meu dia, não depois da melhor noite da minha vida. – e quis continuar andando, mas o garoto alto segurou-o pelo braço e disse:
- Afaste-se dela.
- Não vou me afastar dela, estamos mais unidos que nunca, acostume-se a isso.
- Como assim “unidos”?
- Bom, um cavalheiro nunca comenta certas coisas, mas já que você nunca me considerou um cavalheiro antes... Ludmilla e eu estamos juntos em todo o sentido da palavra, e se você não sabe o que isso significa, precisa conversar com alguém sobre... Os fatos da vida. – ele respondeu e piscou para John que sorria, puxou o braço bruscamente e saiu assobiando pela rua. Luka ficou olhando os dois rapazes se afastarem e achou ter ouvido risos.

A noite havia sido longa...
Festa...
Bebida...
Risos...
Mais bebida...
Ciúmes...
Dança...
Amor...
O mundo girando em meio à escuridão...
Sede...
Enjôo...

Levantei da cama aos tropeções e corri ao banheiro sem ver direito aonde ia. Tudo o que queria era tirar de dentro de mim aquela sensação horrível que chegava queimando a minha garganta e descia para logo tornar a subir, tornando tudo pior. Não sei quanto tempo fiquei ali, abraçada ao vaso sanitário, só sei que depois de algum tempo, senti alguém passar um pano molhado em meu rosto e perguntar:
- Está melhor?
Aos poucos fui abrindo os olhos e Annia estava parada ao meu lado. Apesar da visão turva, dava para ver que ela estava preocupada e disse suave:
- Você precisa tomar um banho, e comer alguma coisa, vai melhorar depois disso. – sacudi a cabeça negativamente e o que restava de meu cérebro protestou, enviando uma onda de dor que me fez vacilar em direção ao vaso novamente.
- Eu vou morrer... Sei que vou... - resmunguei e ela apenas riu. Deixei que ela cuidasse de mim e Annia dizia em tom baixo, quando leu a pergunta em meus olhos:
- Iago a trouxe adormecida. Disse que depois vocês precisam conversar... E ele saiu daqui com um sorriso enorme, parecia feliz. – Só tive forças para deitar na cama e adormecer com um sorriso nos lábios.

- Milla, acorda, precisamos sair. - Annia me sacudia nervosa e acordei assustada:
- O que foi?- senti uma pontada de dor nos olhos.
- Micah foi atacado e está na enfermaria.
Coloquei mais roupas por cima da que usava e só vi que Vina mesmo depois do escândalo de Annia continuava desmaiada na cama.
Quando chegamos na enfermaria Micah, estava acordado e não sabia quem havia feito isso, mas após observar a troca de olhares entre Iago e Ty, sabia que ele estava mentindo.Na saída Iago me puxou para um canto e perguntou:
- Nos vemos depois? Agora preciso ver umas coisas...
- Sim, depois nos falamos. – e antes que ele se fosse apertei seu braço e disse:
- Tome cuidado.
- Você também. - respondeu passando a mão em meu rosto. Sentia-me feliz por ver o seu amor por mim em seus olhos.


- Luka, não posso mais ficar com você.
- Por quê?
- Iago e eu... Há uma chance de ficarmos juntos...
- Você merece o melhor... - ele disse sério.
- Fico feliz, que você me entenda Luka. Eu não seria a pessoa ideal para você.
- Você tem razão, você não está sendo a pessoa ideal para mim, mas vou corrigir isso. – e a garota não teve tempo de reagir quando o viu com a varinha levantada e sussurrar algumas palavras, deixando-a com os olhos desfocados. O garoto alto olhou-a friamente e disse entredentes:
- Agora Ludmilla, vamos conversar sobre como as coisas serão diferentes entre nós daqui em diante...

- Lud, precisamos conversar sobre tudo que aconteceu conosco...
- Sim, o que você gostaria de falar?
- Você está bem?- ele perguntou preocupado e ela sorriu.
- Claro, estou bem e você?
- Estou ótimo. - e levantou a mão para tocá-la.
- Que bom, Iago, fico feliz por você. - e ele estranhou quando ela esquivou-se do toque em seu rosto.
- Nós estamos juntos não é?- ele perguntou e ele sentiu um frio atravessa-lo, e não tinha nada a ver com o tempo. Ela o olhou parecendo ver através dele.
- Como assim “juntos”? Você terminou comigo e eu estou namorando o Luka.
- Mas ontem... Nós... Você e ele estavam brigados...
- Ah ontem... Foi uma loucura não? – ela riu, e continuou:
- Não espero que você leve a sério coisas que acontecem em momentos de completa embriaguez. E pelo que eu me lembre nenhum de nós fez nenhuma promessa não é?
- Sim, não houve promessas... Aliás, não falamos muito... Mas pensei que poderíamos tentar novamente...
- Iago, espero que o dia de ontem fique como uma boa lembrança entre nós. Agora preciso ir, Luka me espera, não quero deixá-lo esperando.
Ela foi embora e minutos depois ele continuava com a mesma sensação incômoda de que havia sido atropelado por um trem e nem estava na estação. Talvez fosse um efeito retardado da bebida da noite anterior.

Why did you let me leave?
It's not the way it's gotta be.
What's wrong with me?
Why don't you tell me to believe?
Why did you let me leave?
Is that the way this has to be?

N.autora: trecho da música Cinderella Story, Plain White T's

Trecho do diário de Lavínia Durigan:

“Eu não saberia responder exatamente o porquê de estar namorando Naveen. Lembro-me de ter bebido mais do que o necessário no Baile do dia dos namorados e ter visto Victor sumir para os jardins de mãos dadas com a garota do vilarejo. Senti raiva, ciúmes e uma sensação nova onde se mesclavam vingança e loucura.
Naveen me perguntou se eu queria dar uma volta, eu o acompanhei. Então, depois, só me lembro de estarmos nos beijando.

Ele tem um jeito fechado, grosso, rude, mas é bastante inteligente e sempre que pode, quer me agradar. Só não consegui ainda fazer com que eu não pense em Victor todas as vezes que ele me abraça, e chego até mesmo a compará-los algumas vezes, embora eu admita que os dois sejam completamente diferentes, em todos os aspectos”.

°°°°°

- Onde está o clorofila boy? – Ricard perguntou rindo sarcástico enquanto servia-se de ponche. Lavínia aproveitou para encher a taça que estava em sua mão, quase vazia.
- Onde está... Quem? – perguntou em voz alta fingindo não ter escutado por causa da música.
- Seu namorado.
- O nome dele é Naveen.
- E o apelido é clorofila boy, biodesagradável, Grinch... O que preferir. Micah tem um estoque imenso.

Ela não riu. A boate estava cercada de alunos de Durmstrang convidados para a festa particular de Micah. As dançarinas deslizavam no palco e em gaiolas, atraindo a atenção de quase todos os meninos ali presentes.

- Ele disse que viria um pouco mais tarde. Tinha de terminar um relatório. – Ela respondeu categórica.
- Hum, que bom partido! – Ricard disse em tom de ironia e quando ela o encarou, sorriu.
- Não comece as piadinhas, Ricard. Eu gosto do Naveen, ok? Aceite esse fato.
- Gosta mesmo? – ele provocou.
- Isso aqui é uma festa ou entrevista da Santa Inquisição? Vou ficar com as meninas que dá mais resultado.

Deixou Ricard para trás com um sorrisinho vitorioso no rosto que estava a irritando. Quando se aproximou da mesa onde as amigas estavam sentadas, percebeu que as intenções delas eram as piores, pois já haviam conseguido uma jarra inteira de ponche e se serviam sem parar. Entrou na roda.

Depois desse ponto, ela também se lembra de poucas coisas. Sabia que havia bebido exageradamente, mas não conseguia parar. Sentia cada gole de ponche entrar em sua cabeça e aliviar um dos problemas que passavam ali continuamente, principalmente nos últimos meses. Acabou aceitando se transformar em uma dançarina com Milla e Annia, deslizando em postes no palco, na frente de todos. Enquanto dançava, viu Naveen no fundo do local, sentado sozinho em uma mesa, observando-a sério.
Quando a música acabou, caminhou até ele e tirou a peruca de cabelos negros que escondiam os seus. Ao contrário do que imaginava, ele não pareceu surpreso a vê-la ali. Pelo contrário. Sorriu.

- Você demorou. – ela disse com a voz alterada e pegando um copo de whisky de fogo de uma bandeja próxima. Virou metade.

Ele continuou a encarando sem falar nada alguns segundos, então tirou o copo das suas mãos e colocou na mesa. Esticou as pernas, entrelaçando às dela, puxando-a para perto. Ela acabou perdendo o equilíbrio e caiu em cima dele, que agarrou seu rosto com um pouco de ferocidade e a beijou.

Ela sentiu os braços dele em torno de sua cintura a segurando com muita força enquanto as pernas continuavam a envolvê-la como se tivessem dado um nó. Ele puxava seus cabelos e a beijava com uma vontade louca, quase faminta.
Então pararam e se olharam um segundo, ambos recuperando o fôlego. Os dedos dele embaraçados no cabelo dela. Ele se aproximou bem do seu ouvido e deu uma mordidinha de leve que a fez arrepiar.

- Vamos sair daqui. - Disse baixo e ela concordou sem saber exatamente o que estava acontecendo. Estava em uma espécie de transe.

Ele se levantou, pegou uma garrafa inteira de whisky de fogo no bar e saiu puxando-a pela mão entre os corredores da boate.
Estavam em um quarto de cor vermelha viva, e ele serviu um copo de bebida para ela, que o tomou inteiro antes que ele a derrubasse na cama. Depois disso, escuro.

°°°°°

- Acorda, Gata Borralheira. – um par de mãos me sacudiu com violência e abri os olhos.

Uma claridade descomunal invadiu todo o meu ser. Os olhos queimaram, o estômago revirou, a cabeça inchou e me senti de ponta-cabeça. Ricard sentou-se na beirada da minha cama me observando.

- O que aconteceu? – foi a única pergunta que eu consegui fazer enquanto me esforçava para sentar, os olhos semi-fechados.
- O de sempre: você achou que todo o ponche do mundo fosse acabar ontem, dançou em cima do palco, depois sumiu com o Naveen. Hoje de manhã ele te trouxe para cá, e desde então, você está dormindo.

A onda de informações fez com que eu me sentisse ainda pior. Forcei a memória para me lembrar da festa, mas só vi alguns flashes confirmando o que Ricard havia acabado de dizer. Devo ter feito uma careta muito feia de arrependimento, por que ele riu.

- Consciência Pesada 1 X 0 Lavínia. – ele disse sem empolgação e o encarei com raiva. – Não adianta me olhar desse jeito. Não fui eu quem aprontou a noite toda. Toma esse café bem forte que é para o chão parar de rodar. Quando estiver mais bem disposta, estou lá embaixo te esperando.
- Onde estão as meninas? – perguntei olhando ao redor. Não havia sinal de Milla, Evie, Nina e Annia.
- Foram para a enfermaria.
- Estão passando mal?
- Podem estar, mas não ia adiantar nada. Lá não tem poção que cure ressaca moral. Toma um banho e desce, que te explico tudo o que aconteceu enquanto você estava “ausente”.

Ricard saiu do quarto me deixando sozinha e um tanto quanto zonza. Os acontecimentos da noite anterior passavam pela minha cabeça como flashes descompassados, e aos poucos eu fui montando o quebra-cabeça.

°°°°°

Desci as escadas em um tropeço e passei correndo por Ricard, que estava sentado na sala. Ele me acompanhou atravessar correndo a porta para os jardins e me seguiu.

- O que aconteceu? – ele gritou enquanto corria para me acompanhar.
- Preciso falar com o Naveen! Agora.
- Micah foi atacado! – foi a última coisa que o ouvi gritar antes de parar de correr atrás de mim. Mas não parei.

Entrei na Vulcano desabalada e encontrei Naveen sozinho, na sala. Ele parecia distraído olhando para o conteúdo que carregava dentro de uma caixinha preta, simples, de madeira. A me ver, fechou-a rapidamente e se levantou.

- Lavínia?! Você acordou agora? Está tudo bem?
- O que exatamente aconteceu ontem à noite?
- Como assim?
- Entre nós dois.

Ele não disse nada, mas o sorriso que abriu foi o suficiente para responder minha pergunta. Senti o rosto queimar e uma vontade doida de sair correndo dali.

- Você não se lembra? – ele perguntou maliciosamente.
- Não. De nada.
- Nossa. Parecia tão... acordada... ontem a noite.
- Olha, Naveen, foi um grande erro tudo o que aconteceu. Esquece, ok? Aliás, eu acho que nosso namoro está sendo um imenso equívoco, então é melhor se terminarmos aqui. Eu estava muito bêbada e,...

Ele andou até mim e ficou bem na minha frente e eu parei de falar. Olhou fundo nos meus olhos e se abaixou me dando um beijo rápido. Sorriu.

- Você tem razão. Acho que foi muito bom enquanto durou, mas é melhor se continuarmos apenas amigos.
- Então... está tudo bem pra você? – eu perguntei um tanto surpresa e levemente decepcionada. Ele parecia não estar se importando. Pelo contrário. Parecia estar feliz.
- Está. Se você prefere assim, então é melhor mesmo. Não quero perder sua amizade, que me foi sempre tão valiosa.
- Ótimo então. Amigos. – eu engoli em seco e o estendi a mão, que ele apertou sorrindo.

Saí da república alguns minutos depois e caminhei sozinha para a Avalon. Deveria estar me sentindo leve, mas alguma coisa estava me preocupando e eu não sabia exatamente o quê. Talvez fosse o ataque em Micah. Eu não sabia o que havia de fato acontecido com ele...
Passei a mão pelo peito e então parei de andar, aterrorizada. Procurei em volta do pescoço e nos bolsos, nada. A chave da Estufa Imperial havia sumido, da noite para o dia.

Monday, March 31, 2008

Estava sentada junto das meninas em uma mesa próxima ao palco e reclamávamos das dançarinas nas gaiolas, enquanto esvaziávamos a jarra de ponche. Hoje tudo estava me irritando desde que discuti com Max pela enésima vez, e bem durante o almoço com o vovô. Sempre tentei evitar essas coisas na frente dele, mas Max estava cada dia mais insuportável com sua mania de achar que pode controlar minha vida e acabei batendo boca com ele na mesa. Ouvimos um sermão histórico do vovô e voltei pra republica de mau humor. Quando deu a hora de virmos para a boate já estava mais do que azeda, mas não ia ficar em casa. Ao menos aqui encontraria música e álcool pra me distrair e relaxar.

Enquanto bebia com elas, observava Micah do outro lado da boate. Mesmo sorrindo e conversando com as pessoas, em alguns momentos ele se afastava e ficava apenas olhando os outros se divertindo. Esperei até que ele estivesse no sozinho outra vez, enchi o copo já quase vazio e levantei, traçando uma reta até ele.

‘Geralmente quando estamos em uma boate, nós dançamos, sabia?’ Parei ao seu lado sorrindo e ele me abraçou

‘Estava esperando uma companhia’

‘Não está gostando da festa? Sempre que consegue, você foge das pessoas e fica quieto aqui’

‘Não, estou adorando! De verdade, obrigado por terem orquestrado isso tudo. É que estou cansado, só isso’

‘Deixe o cansaço para amanhã, hoje não é dia disso’ Larguei o copo em cima da mesa e segurei sua mão, já o puxando ‘Vem, vamos dançar’

Abri espaço entre as pessoas que se acotovelavam na pista e paramos bem no meio dela. O ritmo das músicas começava a diminuir e já tinha as mãos em volta do seu pescoço, enquanto ele segurava minha cintura. O clima era de paquera descarada. Não era só ele que me cantava, eu também dava em cima dele sem a menor vergonha.

‘Você é a primeira pessoa que ainda não tentou se aproveitar do fato de que já bebi pra tentar descobrir o que eu tenho’

‘Se você quisesse falar, já teria feito isso. Sei que tem alguma coisa preocupando você, isso é obvio. Mas se não quer falar, ninguém pode te obrigar’

‘Sou tão transparente assim, que todos têm tanta certeza de que alguma coisa me incomoda?’

‘Transparente como água’ Ri ‘Você é péssimo para disfarçar as coisas’

‘Mas é bom manter segredo de vez em quando’ Ele abaixou a cabeça pra falar perto do meu ouvido e senti minhas pernas fraquejarem ‘Assim quando você finalmente for minha namorada, ainda teremos coisas novas para descobrir um do outro’

Ele me abraçou mais forte enquanto beijava meu pescoço me puxando para o mais perto possível de seu corpo, mas senti alguém agarrar meu braço com força e me puxar para trás. Micah me soltou assustado e quando virei, dei de cara com Max. Ele continuava segurando meu braço e Micah me puxou para o lado, já preparado para brigar. Me pus entre os dois depressa.

‘Vamos embora, Evie’ Disse tentando me puxar outra vez, mas consegui soltar o braço

‘Está louco, não é?’ Respondi rindo e isso o irritou mais ‘Não vou a lugar algum com você’

‘O que está fazendo aqui?’ Micah falou irritado ‘Pelo que sei isso é uma festa particular, e você não foi convidado’

‘A boate não é sua, conheço o dono e entro aqui a hora que quero’

‘Não hoje. Será que não percebeu que está sobrando, Zorro? Cai fora, vai procurar sua turma’

‘Acha que pode me dar ordens?’ Max se adiantou para iniciar a confusão e o empurrei

‘Não vai estragar seu aniversario por causa dele, não vale a pena’ Disse virando para Micah enquanto segurava Max do outro lado ‘Deixe que eu resolvo isso’

‘Isso mesmo, não se mete que é assunto de família, e você não é bem vindo nela!’

‘Cala a boca, Max!’ Empurrei-o com raiva pra longe ‘Cala a boca, que você nem devia estar aqui hoje!’

‘Posso saber o que estava fazendo agarrada com aquele imbecil?’ Disse autoritário e cruzei os braços sem paciência ‘Se não chego a tempo, podia ter acontecido alguma coisa. Ele não é pra você, Evie. Não é de confiança’

‘Desculpe, mas desde quando é você quem decide quem é bom ou não pra mim?’ Soltei uma risada nervosa ‘Refresca a minha memória, porque devia estar em coma quando isso ficou acertado’

‘Sou seu irmão, sei o que é bom pra você. E o pai também não gosta dele, isso já devia bastar’

‘Ele nem conhece o Micah, como pode não gostar dele? E nem você o conhece para julgar. Tudo que faz desde que ele e Ty chegaram à escola é implicar. Agora vai embora que é o melhor que você tem a fazer e me deixa em paz!’

Dei as costas pra ele e comecei a andar na direção contraria, mas Max segurou meu braço outra vez e falou em um tom de voz ameaçador.

‘Fica longe dele. Se pegar você com esse sujeito outra vez, vou tomar uma providencia e você pode não gostar’

Puxei o braço pra longe da mão dele irritada e virei de costas outra vez, o ignorando. Podia sentir a fumaça saindo da minha cabeça, de tão nervosa que estava. Micah estava sentado sozinho no sofá e não pensei duas vezes. Caminhei até ele e quando ele levantou, agarrei seu rosto e o beijei com tanta vontade que quase perdi o fôlego. Ele não cortou o beijo e agarrou minha cintura, sentando outra vez e me puxando para cima dele. Tinha certeza que Max estava me vigiando, e queria mais é que ele me visse agarrada com Micah. E principalmente, que ainda estivesse vendo quando deixamos o sofá sem interromper os beijos e sumimos por horas pelos corredores da boate.

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O céu já começava a escurecer e aos poucos os alunos saiam do jantar para as aulas extras da noite, mas eu continuava sentada no mesmo lugar desde que havia saído da aula de poções. Encarava a entrada para o corredor da enfermaria tentando encontrar coragem de levantar e ir até lá, mas começava a desconfiar que ela só tomava conta de mim quando estava alcoolizada. Fechei os olhos ainda com dor de cabeça e deixei-a encostar-se à parede de pedra quando senti que alguém sentou do meu lado. Sabia pelo perfume que era Chris.

‘São só alguns passos até a enfermaria’ Falou rindo um pouco e abri os olhos ‘Sei que você consegue’

‘Pois pra mim parece que são 50 km’

‘Está tudo bem?’

‘Sim, na medida do possível’ Sorri de leve e abaixei a cabeça ‘Ressaca moral é o pior tipo que existe’

‘Concordo, mas não tem como voltar no tempo, então tudo que lhe resta é encarar’

‘Como ele está?’

‘Está bem, na medida do possível também, não é? Todo mundo já foi visitá-lo, menos você. E de todos, você é quem ele mais quer ver, embora não admita’

‘Estão amigos agora, é?’ Ri

‘O mundo dá voltas, não?’ Ele riu também e levantou ‘Quer que empurre você até lá, ou vai sozinha?’

‘Vou sozinha’ Levantei também ‘Pode dizer ao professor Skoblar que estava me sentindo mal?’

Ele assentiu com a cabeça e sorri, entrando no corredor e indo direto para a enfermaria. Se arrependimento matasse, já estaria a sete palmos da terra. Mas ele não mata, e não poderia ficar fugindo para evitar tocar no assunto. Só esperava não descobrir nessa visita que o que fizeram com Micah tem ligação com a ameaça de Max, ou as coisas iam se complicar ainda mais.

Sunday, March 30, 2008

Evie estava sentada sozinha no banco escrevendo freneticamente em um pedaço de pergaminho quando Micah se aproximou e deitou no espaço vazio do banco, encarando-a sorridente. Ela ainda tentou ignorar a presença dele, mas não conseguiu. Dobrou o pergaminho impaciente e o encarou também.

‘Bom dia, Keith Richards’ Ele disse debochado. Ela quase rosnou, corando

‘Quer alguma coisa?’

‘Sim. Quero saber onde está aquela garota que ficou comigo ontem na festa’

‘Ela era uma bêbada, garanto a você que nunca mais voltará a vê-la’

‘Uma pena, porque gostei dela’ Ele se mexeu no banco para se aproximar mais

‘Não amola Micah, somos só amigos e eu estava fora do meu juízo ontem’

‘Se todas as minhas amigas fizessem o que você fez ontem comigo, se falassem tudo que ouvi de você, ah meu amor, eu estaria no paraíso’ Ele riu e ela levantou do banco vermelha, olhando furiosa para ele antes de sair

Ele continuou rindo vendo ela se afastar irritada e o vulto de cinco pessoas atrás dele cobriram o gramado. A última coisa que Micah viu foram os cinco rostos sorrindo perigosamente antes de receber uma pancada forte na cabeça. Depois tudo ficou escuro.

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Vozes abafadas o acordaram. Ele abriu os olhos com dificuldade, sentia-os pesados. Virou a cabeça para o lado e notou que estava em um local escuro, abafado e feito de pedras. Uma masmorra familiar. Seu corpo inteiro doía. Suas mãos e pés estavam amarrados a estacas de ferro presas nas quatro pontas da mesa de pedra onde se encontrava deitado. Ele havia apanhado covardemente de cinco pessoas, sem chance de reagir. As mesmas pessoas donas das vozes abafadas que riam não muito longe de onde ele estava. Ele sabia quem eles eram, e isso não era bom. Ele sabia que não o deixariam sair dali com vida, arriscando entregá-los. Forçou os braços para tenta arrebentar as cordas, mas foi em vão. O barulho causado por seu esforço acabou chamando a atenção dos covardes. Eles se aproximaram dando risadas altas e forçadas, se divertindo com a expressão de horror estampada em seu rosto. Estavam todos usando máscaras, não tinham coragem de mostrar o rosto. O mais corpulento dos cinco se aproximou e apertou seu rosto com força. Os outros deram risada.

‘Olhem só, um cordeirinho acuado’ Falou com desdém e seus capachos riram com mais vontade ‘Você parecia mais valente ontem, se metendo com quem não devia’

‘Dê logo um fim nele, Gauvin’ Um dos garotos falou em um tom de voz vibrante

‘Cale a boca, não use meu nome!’ O corpulento respondeu furioso avançando para cima do outro, que recuou

‘Que diferença faz? Ele não vai poder contar a ninguém, não vai sair daqui’ O mais alto deles falou rindo

‘Tem razão, meu caro amigo. Boa noite, sangue-ruim’ Dizendo isso, o corpulento acertou o cotovelo em seu rosto com violência. Mais uma vez tudo ficou escuro.

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Quando Micah abriu os olhos outra vez, o cenário era o mais diferente possível do anterior. Paredes brancas e muitas janelas o cercavam. Suas mãos e pés estavam livres e estava deitado sobre uma cama macia e confortável. Tentou se sentar, mas o corpo ainda doía demais. O gosto de sangue ainda não saíra de sua boca e ele notou que sua mão direita estava enfaixada, assim como seu rosto continha alguns curativos. Alguém pigarreou ao seu lado e ele pareceu surpreso ao ver quem era.

‘Como está se sentindo?’ Chris perguntou com uma expressão sincera de preocupação

‘Estou ótimo, nunca me senti melhor’ Ele respondeu com sarcasmo. Chris não riu

‘Você podia ter morrido. Se não tivesse chegado a tempo, a poção que lhe deram não teria mais reversão’

‘Que gentil da sua parte, como poderei retribuir o favor?’ Micah mantinha o tom de deboche na voz

‘Que tal se começar parando de agir como um idiota?’ Chris pareceu irritado pela primeira vez ‘Tentaram te matar! Você tem consciência disso? Tem alguma noção de que poderia estar morto? Isso é sério, não é hora de bancar o engraçadinho. Fiquei desesperado quando encontrei você desmaiado com dificuldade para respirar!’

‘Desculpe’ Disse se sentindo desconfortável ‘Obrigado por me trazer para cá, mas por que fez isso?’ Não se conteve e perguntou

‘Por mais chocante que possa parecer pra você, não sou como eles. Já faz algum tempo que venho me afastando de algumas coisas, mas o que fizeram com você foi a gota d’água’

‘Mas como você-’

A porta da enfermaria se abriu com violência e Ty e Iago entraram correndo, assustando a enfermeira. Quando viu Chris parado ao lado da cama de Micah, Ty fechou os punhos e traçou uma reta até ele, mas foi detido por Iago.

‘O que veio fazer aqui?’ Falou com rispidez ‘Mandaram você vir checar se o trabalho foi bem feito?’

‘Não, o trabalho não foi bem feito, ele está vivo’ Chris respondeu paciente. Ty ia avançar para cima dele, mas Iago mais uma vez o segurou

‘Não Ty, tudo bem, foi ele que me salvou’ Micah falou com a voz ainda fraca

‘O Chris é legal, cara’ Iago falou parecendo satisfeito com o que ouviu ‘Sempre falei isso a vocês’

‘Como?’ Ty perguntou se desarmando, mas ainda encarando Chris com um olhar ameaçador

‘Era isso que ia começar a contar quando vocês invadiram a enfermaria feito dois hipogrifos’ Ele sentou outra vez na cama ao lado e os dois puxaram uma cadeira

Ninguém além de Chris falou durante os minutos que se passaram. Os três ouviam atentamente a ele contar que sabia desde o começo das investigações de Micah sobre a Irmandade e do perigo que ele corria ao presenciar além do que deveria, e que ao saber quem estava indo ao encontro dele horas depois do ocorrido, entrou em pânico imaginando o que poderia estar acontecendo. Ouviram sem interrupções ele contar que o encontrou minutos depois de deixar a república às pressas com a respiração quase inexistente e que por sorte havia um estoque de ingredientes de poções na masmorra, que lhe permitiu encontrar um bezoar que eliminasse o efeito do veneno que ele havia ingerido. E também de como entrou em contato com o pai quando ele voltou a respirar, antes de arrastá-lo até a enfermaria.

‘Por que não o trouxe direto até aqui?’ Ty o interrompeu ‘O tempo que perdeu procurando a porcaria da pedra poderia tê-lo matado!’

‘Depois de cinco meses, imaginei que não precisasse responder algo assim a você’ Chris riu um pouco ‘Como ia explicar a enfermeira que ele foi envenenado?’

‘Contando a verdade!’ Ty se exaltou e ficou de pé, mas Iago o puxou de volta à cadeira

‘Não podemos, ela correria perigo também’ Iago disse calmo, encarando Chris em busca de uma confirmação

‘Iago está certo. Micah já corre perigo, não poderíamos expor outra pessoa a isso. Mais simples explicar os machucados, se envolveu em uma briga, pronto’

‘Espere um pouco’ Micah falou pela primeira vez desde que Chris começou a contar sua história ‘Que história é essa de que corro perigo? E como todos vocês sabem disso?’

‘A tentativa de assassinato dessa manhã não lhe convenceu disso?’ Chris se virou para ele sério ‘Eles não pegaram você porque ontem estava agarrado com a Evie na festa, Micah. Isso foi apenas uma desculpa esfarrapada para tentar justificar. A verdade você sabe qual é. Tentaram apagar você por saber demais’

‘Mas e agora?’ Iago parecia preocupado ‘Quando eles souberem que Micah sobreviveu, as coisas vão se complicar. Eles vão tentar outra vez, não vai ficar por isso mesmo’

‘Foi por isso que entrei em contato com meu pai, e ele me deu ordens para que fique de olho nele. Pediu que não o deixasse sozinho, e que devia pedir ajuda a gente de confiança para mantê-lo vivo até que ele pense em uma solução. Posso contar com vocês para isso?’

‘Claro, vamos ser sua sombra agora, Micah’ Ty brincou, menos sério agora ‘Só não vou acompanhar você ao banheiro, tudo bem?’

‘Não quero três guarda-costas na minha cola!’ Micah reclamou irritado

‘Então que tal três amigos?’

Chris ficou de pé em sua frente e estendeu a mão. Micah ficou encarando-o por alguns segundos, e vendo que o garoto mantinha a mão firme, a apertou. Chris sorriu de leve e se virou para Ty, também estendendo a mão.

‘Tivemos um começo ruim, mas estou disposto a apagar os últimos sete meses e começar desse ponto. Você é o melhor amigo do meu primo, Gabriel gosta muito de você. Gostaria de ter a chance de descobrir o porquê’

Ty ficou de pé encarando-o sério, mas sorriu e apertou sua mão. Iago ergueu os braços no ar rindo, como se estivesse aliviado. Foi necessária quase uma tragédia, mas enfim, amigos.

Saturday, March 29, 2008

Como Micah andava meio distante, aproveitamos uma hora do almoço para combinar alguma coisa para a festa de aniversário dele:
- Podíamos ir a um parque de diversões no fim de semana. - sugeriu Nina e Chris Parker respondeu:
- Claro, comer algodão doce é o sonho de qualquer um quando faz 17 anos. Deve ser o seu não, Ninnys??- e Nina o fuzilou com os olhos e começamos a rir.
- Podemos fazer a festa em nossa república. - disse Annia e Reno que sempre era calado, respondeu:
- As garotas chatas que moram lá, vão adorar ter um motivo para expulsar vocês.
- É... - respondemos em coro.
- Precisamos de um lugar bem legal, com um som bom. Podia ser uma boate... - sugeri e Ricard completou:
- Tem a boate do vilarejo, mas vocês não fariam uma festa lá. Ou fariam?? O.o
- Mas a boate do vilarejo que vocês falam é a boate do Lalau? Aquilo é um p... - começou Vina e Ty disse:
- É uma boate, com um DJ muito maneiro e com gente animada. Micah precisa de animação, anda muito preocupado, e podíamos fechar o local só para convidados.
- Mas elas tiram as roupas. Não faz meu estilo ficar vendo mulher dançando pelada. - disse Evie e Iago riu antes de explicar.
- Elas só fazem isso quando são pagas. Mas como vai ser uma festa particular podemos mandar apenas dançarem, muitos convidados adorariam entrar lá para conhecer o lugar. – disse Iago cínico e eu e minhas amigas ficamos vermelhas. Conversamos mais algumas coisas e ao final tudo estava acertado: Micah teria uma festa memorável, mas o bônus seria nosso: finalmente iríamos ver o que havia de tão interessante na boate “proibida”.

o-o-o-o-o-

No começo ficamos com o pé atrás pela festa ser na boate do Lalau, mas quando chegamos tudo estava indo bem, e as moças do local apenas dançavam, sem tirar as roupas. E havia várias garçonetes servindo todo tipo de bebida. Como Micah, andava arredio e no dia da festa se recusava a sair do quarto, Ty tomou uma atitude extrema: chamou Iago, Victor, Ricard, Reno e os cinco imobilizaram o aniversariante e o trouxeram a força para o local da festa. No começo ele ficou todo irritado, mas quando viu que todos estavam lá para a sua festa de aniversário, acabou rindo e se animando.
Eu e as meninas havíamos bebido o suficiente para que fosse perigoso acender um fósforo perto de nós, e olhávamos irritadas para o jeito que os rapazes babavam para as garotas no palco. Isso porque elas apenas dançavam no palco e nas gaiolas instaladas ao redor do salão, sem tirar as roupas como faziam em outras noites.
- Ainda estou abismada com a facilidade com que eles conseguiram fechar a boate. Devem ter gastado uma fortuna. – comentou Vina e concordávamos com ela, virando copos do ponche de frutas que devia ser a especialidade da casa.
- Olha lá, se Iago abrir a boca mais um pouco, cabe uma melancia. - resmunguei.
- E o John então?? Parece que nunca viu um par de peitos falsos. Ele que venha... - começou a falar, mas quando viu nossas sobrancelhas arqueadas resmungou:
- Esqueçam! - e rimos quando ela pegou mais um ponche servido por uma moça usando um uniforme de copeira do tamanho da minha gravata da escola.
- Olha que ridículo. Aprenderam dança com algum vídeo pirata. Hunf!- disse Evie, e entornava o copo sem nem pensar muito. Parecia que buscava coragem na bebida. De repente ela resmungou algo que não entendemos e sumiu no meio dos convidados.
- Estas garotas se acham não? Como se não dançássemos melhor do que elas. - resmungou Nina e de repente ela tinha 3 pares de olhos cravados nela e perguntou assustada:
- Que foi?
- Você é um gênio.
- Sou?
- Sim, vamos mostrar que podemos dançar tão bem quanto às meninas do Lalau. - respondi eufórica.
- Ah, sim vamos... O QUÊ??- e teve que correr, pois eu, Annia e Vina fomos para os bastidores.
Quando entramos havia uma confusão de roupas, e garotas passando maquiagem, que ficamos meio atordoadas, até que uma delas e aproximou:
- A festa é lá fora meninas, não temos dançarinos homens aqui, a menos que tenham achado o que vieram procurar.- e riu com outras garotas.
- Queremos dançar no lugar de vocês. Uma música só. - disse decidida.
- Sim, será como um presente ao aniversariante. - completou Annia.
- Vocês beberam?- perguntou uma delas.
- Claro, isto é uma festa. E o ponche de frutas é fraquinho. – respondeu Vina rindo e uma das moças comentou:
- Fraco com vodka e rum misturados? Tenho certeza que amanhã vocês não dirão isso. - e elas riram, e nós rimos também, Nina depois de enxugar algumas lágrimas de riso completou:
- Se for o caso, poderemos pagar pelo incômodo. – e mostrou a bolsa de dinheiro. As garotas conversaram entre elas e aceitaram nossa proposta e começaram a ver roupas para nos produzirem. Depois de arrumadas com as fantasias delas, uma delas se aproximou com uma caixa nas mãos.
- Agora o toque final: perucas.
- Perucas pra que? Meus cabelos são saudáveis. - disse Vina, enquanto virava um copo do que perecia ser whisky de fogo.
- Hoje vocês podem estar animadas para se expor assim, mas amanhã depois que a bebida sair do corpo, não vão querer ser reconhecidas na escola como uma das meninas da boate. Não é?
- Éééé! – disse Nina e olhamos feio para ela.
- Quer dizer, não nos levem a mal, vocês são legais e nós ainda estamos na escola, ia ser difícil explicar, algumas pessoas lá não entenderiam. – eu disse em pedido de desculpas, e sorri quando peguei mais um copo de ponche que passava numa bandeja.
- Sem problemas, nossa aparência é diferente quando saímos daqui. – disse a garota de cabelos pretos e olhos azuis que usava a fantasia de policial, enquanto tirava a peruca e mostrava seus cabelos tão loiros quanto os meus. Colocamos as perucas e Nina encontrou umas máscaras que cada uma de nós colocou para melhorar o disfarce. Quando ouvimos o sinal combinado, as cortinas se abriram para que saíssemos, Nina teve um ataque de pânico e correu para o lado contrário. Alguns rapazes perceberam que as dançarinas eram diferentes e começaram a gritar e assobiar. Eu, Vina e Annia devíamos estar agradando, enquanto dançávamos uma musica de uma cantora trouxa, que fazia o tipo ninfeta.

Baby can't you see? I'm calling
A guy like you should wear a warning
It's dangerous, I'm falling
There's no escape, I can't wait
I need a hit, baby give me it
It's dangerous, I'm loving it

Vi quando Iago se aproximou do palco olhar mais de perto e comecei a dançar apontando para ele. Os outros rapazes em volta batiam em suas costas e ele sorria, em dado momento pulei do palco em seu colo e ele me segurou espantado. Ficamos nos encarando e eu aproximei o meu rosto dele e mordi o seu queixo, que estava áspero. Ele me colocou no chão e eu deslizei lentamente, fazendo com que ele fechasse os olhos para se concentrar. Comecei a dançar colada a ele, e ele parecia confuso, mas me segurava. Apóiei-me nele e com a língua tracei o contorno de sua boca. Não precisou de mais nada, ele começou a andar me puxando pela mão para sairmos dali. Não percebi aonde íamos, só que trocávamos carícias e minha cabeça rodava com tudo aquilo. Entramos num lugar com uma decoração duvidosa e vários espelhos ao redor .
- Não foi isso que combinamos... Era apenas para animar a festa. - ele disse rouco.
- Beije-me! Sinto falta de sua boca. – respondi e o senti ficar rígido quando ouviu minha voz normal.
- LUD! Disse espantado, e antes que ele me soltasse eu abri sua camisa arrancando os botões e disse:
- Sempre gostei do seu tórax... - e ouvi quando ele gemeu após receber um beijo no peito.
- Você não sabe o que está fazendo... E tem namorado... – parecia que ele dizia isso mais para si mesmo do que para mim.
- Quero você, você não me quer?? - E abri os botões da minha roupa, e mesmo em minha bebedeira consegui ver que ele respirava fundo, com os olhos pregados abaixo do meu pescoço e dizia:
- Quero você demais, mas você está bêbada. Amanhã estará arrependida. - tentou fechar minha blusa e suas mãos tremeram. Sorri maliciosamente, o agarrei e beijei de forma provocante, enquanto trançava minhas pernas ao redor de sua cintura e caímos na cama.
Em algum lugar na minha mente pensei ter ouvido o som de roupas se rasgando, mas não liguei, se havia um lugar onde eu me encaixava com perfeição bêbada ou sóbria, eram os braços de Iago.


N.Autora: trecho da música Toxic, Britney Spears

Thursday, March 27, 2008

Quinta-feira, 27 de Março de 1999

‘O acônito lapelo é uma planta extremamente venenosa da família do acônito, e juntamente com o acônito licoctono fazem parte de um mesmo gênero botânico’ O professor Mikhail falava enquanto caminhava pela estufa, observando atentamente nossas bancadas ‘Por que nem todos estão copiando? Vou cobrar plantas venenosas nos exames!’

No mesmo instante todos que ainda estavam de mãos vazias agarraram as penas e começaram a copiar suas palavras desesperados. O som da palavra “exame” sempre assustava. Mas Micah, que estava sentado na mesma bancada que eu, não se mexeu. Continuou fitando o professor com uma cara esquisita e depois de um tempo levantou a mão.

‘Professor, existe algum antídoto que possa reverter qualquer tipo de envenenamento?’ A turma parou de escrever para prestar atenção. Era a segunda vez no dia que ele questionava um professor sobre isso ‘Se, por exemplo, eu ingerir uma folha de acônito, ou um grindylow me morder, um mesmo antídoto pode salvar a minha vida?’

‘Excelente questão, Sr. Wade’ Mikhail pareceu animado com o interesse dele e sabia que agora faria de Micah um de seus favoritos ‘De fato, copiem todos, pois também será matéria dos exames. Existe apenas um único antídoto eficaz para todo tipo de envenenamento, e se chama bezoar. Todos já sabem o que é um bezoar, não preciso explicar. Mas se a pedra não for utilizada com rapidez, o veneno terá tempo suficiente de tornar-se irreversível’ Ele esperou até que estivéssemos copiado tudo e continuou ‘No entanto, existe um tipo de planta venenosa que nem o bezoar reverte. Ela se chama Belladona, e se dada a vitima pura ou em forma de chá, ela ganha uma passagem direta para abraçar Merlin’ Todo mundo riu e ele se virou para Micah ‘Tirei suas duvidas, Sr. Wade?’ Micah fez que sim com a cabeça e ele sorriu, voltando a falar do acônito.

Micah não falou mais nada pelo resto da aula, e se limitou a copiar tudo que o professor dizia. Vez ou outro o pegava folheando o livro, sempre em capítulos que abordassem venenos e antídotos, mas quando percebia que estava olhando, fechava e continuava a escrever no pergaminho. O sinal para o almoço tocou e ele saiu disparado da sala, sem nem esperar que juntássemos nossas coisas para acompanhá-lo. Ficamos sem entender nada e achando melhor nem tentar, seguimos direto para o salão principal. Já tínhamos até terminado de almoçar e discutíamos as ultimas noticias do Profeta Diário, agora que não tinha mais Expresso Polar, quando Micah apareceu. Sentou-se em silêncio do meu lado e se serviu com alguns bolinhos, começando a comer.

‘Que foi?’ Disse engolindo depressa um bolinho quando viu que olhávamos todos para ele

‘Você está esquisito’ Ty foi direto

‘Não estou esquisito, vocês que devem estar paranóicos’ Respondeu tentando rir, mas não convenceu

‘Qual é a desse seu súbito interesse por venenos e antídotos, hein?’ Vina perguntou curiosa

‘Não posso nem prestar atenção na aula e tirar uma dúvida que vocês já acham que estou armando alguma coisa?’

‘Armando sabemos que não está, pois para isso precisaríamos crer que vai assassinar alguém e depois tentar revivê-la’ Respondi séria ‘Mas está esquisito sim. Está muito calado, desde ontem que... O que foi?’

Parei de falar quando ele encarou o jornal aberto na mão de Milla, deixando o garfo cair no prato. Tinha o olhar fixo em uma notinha sobre um bruxo chamado Arthur Strauss, encontrado morto em um lago perto da escola depois de ser mordido por grindylows. Vi seu rosto empalidecer enquanto os olhos percorriam a notícia e empurrou o prato para longe, ficando de pé. Nem mesmo esperou perguntarmos o que estava acontecendo, jogou a mochila nas costas e saiu do salão sem terminar de comer.

‘Aconteceu alguma coisa com ele, e estou realmente preocupado’ Ty nos encarou sério, algo difícil de ver

‘Também estou preocupado. Ele está desde ontem assim, totalmente disperso. Está calado, se isolando e se assusta a toa’ Victor também tinha uma expressão séria

‘É, mas não adianta nada pressionarmos’ Dobrei o jornal depois de reler a notinha que ele viu e uma coruja parda pousou na minha frente, deixando um envelope cair ‘Ele não vai falar. Se quisesse contar o que está acontecendo, já teria feito’

Deixei que a coruja beliscasse algumas migalhas de pão antes de voar outra vez e peguei a carta, mas vi que não era para mim. Estava adereçada a Micah, e havia sido rasgada. Tentei remendar o estrago para entregar a ele, mas Annia puxou depressa da minha mão.

‘Isso não é seu, Annia’ Nina tentou pegar de volta, sem sucesso ‘Não pode abrir, é violação de privacidade’

‘Já está aberta, não estou violando nada’ Disse puxando o pergaminho de dentro do envelope ‘E isso pode nos dizer por que ele está tão esquisito. Se foi rasgada por alguém antes, é porque algo a esconder ele tem!’

Concordava com Nina que era errado ler correspondência alheia, mas também concordava com Annia que poderia nos dar uma pista do que estava acontecendo, e assim podermos tentar ajudá-lo. Milla tomou o pergaminho da mão dela e passou os olhos depressa, sorrindo no fim. Tornou a dobrá-lo e me devolveu.

‘É do irmão dele. Duvido que esse seja o motivo da esquisitice, mas hoje ele faz 17 anos. Apensar dele não ter nos contado, não podemos deixar passar em branco, certo?’

Olhamos-nos espantados por não sabermos que hoje era aniversário do Micah, mas logo esquecemos que ele andava travado e começamos a planejar uma festa surpresa para sábado. Afinal, nada como uma comemoração para se esquecer os problemas e se divertir um pouco, mesmo que por apenas algumas horas...

Wednesday, March 26, 2008

Terça-feira à noite, treino de trancabola

‘Vamos, vamos, vamos seus molengas!’ Maddox berrava da lateral do campo de olho no cronômetro ‘Alguém pare aquele homem!’

Olhei para frente e vi que Chris O’Shea era o mais próximo de Derek, que corria abraçado com a goles e se aproximava cada vez mais do caldeirão. Mas mesmo próximo ainda estava distante. Corri mais depressa dando a volta pela lateral do campo e segundos depois estava colado nele. Com um único salto o abracei e ele foi ao chão, deixando a goles livre para Victor recuperar e marcar o ponto final da nossa equipe. Comemoramos o fim da partida contra os reservas e Derek continuou estirado no chão com a mão na costela.

‘Muito bom, Micah! Excelente! Derek, tudo bem ai?’ Derek fez sinal de positivo com a mão, mas a careta o contradizia ‘O treino de hoje teve uma melhora significativa para o da semana passada, e isso é ótimo. Sexta vamos nos concentrar na partida de sábado. Agora podem ir para o chuveiro, por hoje é só!’

O time ainda continuou no campo por um tempo conversando e segui para o vestiário na frente. Não tinha intenção de tomar banho lá se poderia fazer isso no banheiro da republica, mas tinha meios mais interessantes de ocupar meu tempo, diferente dos outros. Procurei imediatamente pelo armário de Derek e com o canivete que ganhei de Shannon o abri. Como um sonho, sua saboneteira e sua toalha estavam dando sopa logo na prateleira da frente. Puxei uma seringa da mochila e espetei no sabonete, injetando o liquido rosa dentro dele. Guardei-o com cuidado e desdobrei a toalha, espalhando purpurina nela e redobrando devagar, recolocando no mesmo lugar. Quando ia fechar a porta do armário e sair, ouvi a porta do vestiário abrir.

‘O que está fazendo?’ O’Shea entrou me olhando desconfiado ‘Esse não é seu armário’

‘E dizem que você não é inteligente... Pessoas maldosas, tsc tsc tsc’ tentei disfarçar e me afastei do armário

‘Boa defesa, a ironia. Mas sabe que uma hora o saco de piadinha esvazia, não é?’

‘Você não tem mais o que fazer não, Peter Pan? Procurar a Sininho lá fora, por exemplo?’

‘Deixa adivinhar: a vitima da vez é o namorado da Evie?’ continuou falando e me ignorando ‘Que irônico! Você provoca, desdenha, pisa, faz o que quer, e quando ela finalmente se cansa, você fica com ciúme’

‘Quem falou em ciúme, garoto? Acho que levou uma pancada forte hoje, está delirando’

‘Você não é muito bom para se defender com palavras, se sai melhor em uma defesa física’

‘Ótimo, quer levar uma porrada agora ou daqui a pouco?’

‘Já quer partir pra ignorância? Assim denuncia logo que estou com a razão’

‘Não vou discutir com você, tenho mais o que fazer, dá licença’ passei por ele com a mochila nas costas dando um esbarrão com o ombro de propósito e com força

‘Você quer que ela odeie você? Porque se é isso que quer, então parabéns! Está indo pelo caminho certo!’ ainda o ouvi berrar antes de bater a porta

Vi o resto do time entrando no corredor do vestiário e pensei em voltar para ver o resultado do sabonete colorido, mas se topasse com o O’Shea outra vez íamos sair no braço, então achei melhor não voltar. Teria outras oportunidades de ver o nosso zagueiro brilhando e de cabelo rosa. E em todo caso, Victor chegaria na republica relatando o episodio às gargalhadas. Voltei direto para a Spartacus e depois de tomar banho, sai outra vez. Não estava com a menor vontade de ficar trancado dentro de casa, tampouco de assistir a aula de Astronomia. Quando ela estava quase começando, peguei minha câmera e fiz o caminho contrario a torre, parando já perto dos portões da escola.

Queria poder sair, andar sozinho no vilarejo um pouco, mas sabia que se sequer encostasse a mão no portão, logo um guarda-caça apareceria com uma detenção. Mas mesmo assim não voltei. Sentei no gramado encostado no muro e fiquei encarando o jardim escuro, pensativo. Nos últimos dias estava me sentindo seguido. Tinha a constante sensação de estar sendo observado de muito perto, não por uma, mas por várias pessoas. Isso estava começando a me incomodar, então prezava os momentos que conseguia ficar sozinho e isolado dos outros. Estava quase cochilando quando ouvi vozes abafadas vindas da direção do lago. Estava muito escuro e algo me dizia que iluminar o lugar com a varinha não era a melhor das idéias, então levantei e caminhei devagar na direção das vozes.

Já estava perto do lago e parei atrás de uma das árvores. Tinham cinco figuras com longos mantos negros andando em fila indiana, duas delas mais baixas comparadas as outras, e uma sexta mais afastada guiando uma pessoa com a cabeça coberta com um pano. Dava pra perceber nitidamente, mesmo no escuro, que o encapuzado estava quase apagado, e andava quase caindo. Mantinha-se de pé apenas por estar sendo segurado pelo outro. Sentia meu coração quase saltar pela boca, tinha certeza absoluta de que sabia do que aquilo se tratava. Esperei até que estivessem um pouco mais distantes e os segui, tomando cuidado para não ser visto. Segui os sete até as masmorras do castelo, mas quando estavam se aproximando das salas de aula, desviaram por um caminha que nunca tinha notado estar ali. Era quase imperceptível e tive que apertar o passo se não quisesse perdê-los de vista. O que liderava o grupo fez um movimento rápido com as mãos e a varinha tocando em uma parede de pedra e ela se abriu, dando passagem para eles. O último do cortejo, preocupado em manter o encapuzado de pé, não fechou a passagem ao entrar e me esgueirei pela fresta pequena que ficou aberta. Achei que não era seguro dar qualquer outro passo, e fiquei agachado atrás de algumas pedras logo na entrada. Assim mantinha distancia e conseguia ver e ouvi-los perfeitamente.

‘Pegue a caixa de madeira, Mordred!’ Um dos homens ordenou ríspido, e pelo som grave de sua voz, sabia que era um adulto

‘Para que?’ O que atendia pelo codinome de Mordred respondeu com a voz tremula e logo percebi que era um garoto, quase uma criança

‘Não faça perguntas, apenas obedeça!’ O outro homem disse sem paciência e o garoto tremeu de leve, obedecendo imediatamente

‘Sabe por que estão aqui hoje, Maleagent?’ Um terceiro homem indagou o outro mascarado baixinho e ele sacudiu a cabeça negando. O homem riu ‘Accolon, por favor’ Disse indicando o que Mordred tinha medo

‘Estão aqui hoje por que foram julgados especiais’ Começou a falar caminhando pela masmorra, e cada palavra que dizia era absorvida com atenção pelos outros ‘Todos os anos escolhemos aqueles que prometem ter grande destaque na Irmandade, e para determinar quem é de fato o escolhido, existe uma iniciação’

‘Vocês sabem quem é esse homem?’ O encapuzado que até então só escoltou o homem se pronunciou, atirando ele em cima de uma mesa de pedra e descobrindo seu rosto. O homem tinha uma expressão de pavor no rosto que nunca havia visto antes ‘Ele é um traidor! Seu nome é Perceval, e ele foi um de nós. Foi, pois a partir de hoje não é mais considerado um Rei e Sombra’

‘Perceval nos traiu. Contou segredos que jurou proteger a pessoas que não são dignas de saber tais coisas. Ele expôs os Reis e Sombras a meros bruxos mestiços!’

‘E agora deverá pagar o preço por sua traição’ Accolon pegou a caixa da mão de um tremulo Mordred e a abriu. Somente quando retirou os objetos de dentro que pude ver que eram uma seringa e um frasco com um liquido preto ‘Mordred, sabe o que é isso? E também o que ele faz?’

‘Veneno de Grindylow’ Respondeu com a voz falha ‘Ele deixa a pessoa confusa, com febre e vendo ilusões. E depois de algumas horas ela começa a evacuar sangue até morrer’

‘Qual dos dois vai dar ao traidor o que ele merece?’ O homem mais gordo dos adultos pegou a seringa da mão do outro e tentou empurrar aos menores. Eles recuaram assustados.

‘Calma, Agravain. Calma’ Accolon tirou a seringa da mão dele e estendeu a Mordred ‘Vá em frente, mostre que é meu filho de verdade. Gauvain não recuou quando teve sua chance, não me decepcione’

O garoto encarou o suposto pai e mesmo estando de máscara, sabia que sua expressão era tão apavorada quanto à do tal Percival, deitado na mesa de pedra e amarrado com cordas. Mas ainda que com medo, o garoto pegou a seringa e caminhou até o homem. Ele tremia da cabeça aos pés, duvidava que conseguisse cravar a agulha no braço dele naquele estado. Ele hesitou e olhou para o outro menino, que tremia mais do que ele. Pensei que ele ia se recusar, que fosse passar o fardo para o amigo, mas se virou de repente e em um golpe rápido, cravou a agulha no pescoço do homem. Percival parecia estar tendo uma convulsão, mas logo se acalmou e começou a babar. O garoto arquejava e seu amigo foi socorrê-lo, mas ele parecia estar com falta de ar. Num impulso, desesperado para conseguir respirar, arrancou a máscara que escondia seu rosto. Meu susto ao ver seu rosto foi tão grande que tropecei nas pedras e todos olharam alarmados na minha direção, atraídos pelo barulho. Levantei sem me importar em ser visto e corri desabalado para fora da masmorra, conseguindo chegar ao térreo e me misturar aos alunos que saiam da aula de astronomia antes que eles alcançassem. Meus amigos me olharam assustados, mas não disse nada. Segui junto com eles para as republicas com o rosto suado e pálido, e duvidava que fosse conseguir dormir. O pavor estampado no rosto daquele homem ainda ia me assombrar por muito tempo, assim como a expressão desesperada de seu assassino.

Monday, March 24, 2008

Segunda feira, 21:20 hs. 1º andar perto do salão principal

- Hey, o que vão fazer? - perguntei quando vi os nossos amigos saindo de suas aulas extras.
- Eu estou livre por hoje, até do Luka. - respondeu Milla que estava comigo no DQC e rimos.
- Eu ia voltar pra república... Mas estou aberta a sugestões rsrs. - respondeu Annia olhando para Vina que respondeu fingindo seriedade:
- Um pouco de distração até ajuda a aliviar o stress da segunda feira. - rimos e eu disse:
- Poderíamos ficar e ver os ensaios do Micah e da “Evi”. - disse provocando Micah e ele respondeu.
- O professor tá ocupado fazendo testes pro show de talentos, e depois disso ele isola o teatro, bocó :P - continuamos a andar para o teatro rindo e brincando, quando ouvimos a bronca do professor:
- Vocês já animaram velório??Não né? Porque lá ainda tem alguma alegria para alguém. Nem que seja o seguro de vida do morto. – bronqueava o professor Sanander para a banda que se encontrava no palco, enquanto as pessoas iam entrando e se ajeitando nos lugares para assistir ao final dos testes para o show e meu queixo caiu quando vi a vocalista.
Era a mesma garota do bar. Agora eu notava que seu cabelo era de um loiro escuro, bem mais curto do que lembrava, e seus olhos eram castanhos.
- Ih, hoje ele está difícil de agradar. E olha que ele “adorou” ouvir a voz da Milosevic, e ela é muito boa mesmo. - disse Evie sentando-se perto de nós, quando nos viu entrar.
Conseguimos alguns lugares nas primeiras filas e dava para ouvir tudo. Voltaram a tocar e parecia que a má vontade do baterista com a vocalista era palpável. Ela cantava e olhava para ele irritada, mas não perdia o tom da música.
- Até um orangotando toca melhor esta bateria... Ele quer aparecer mais que a menina. – comentei baixo.
O cara da bateria ficou irritado quando a vocalista reprimiu um sorriso. Ele levantou invocadinho e jogou as baquetas na minha direção:
- Tô atravessando ô sabe tudo? Então mostra como se faz. Estou fora!
- Acho que ele te chamou de orangotango... . - comentou Micah.
- Não quero saber de brigas aqui senhores. - disse o professor Ivo e após me olhar de cima em baixo perguntou:
- Senhor McGregor, toca bateria?
- Nada sério professor, só por brincadeira.
- E por brincadeira gostaria de tentar? Ouvi suas observações e concordo com algumas coisas, talvez possa injetar algo novo. Aceitei e subi no palco. Sentei-me no banco, girei as baquetas nas mãos, olhei para o pessoal da banda e depois para a vocalista. Respirei fundo e lembrei das coisas que Aidan fazia quando se sentava numa bateria e o mais importante: das minhas aulas de quando era criança.
- Ah propósito senhor McGregor... Seria bom cantar nem que seja o alfabeto enquanto toca. Ninguém quer ter que adivinhar o nome da música. – disse o professor e apenas sacudi a cabeça concordando.
- 1,2,3 ... – pararrarararaapapa, tum, tum, tum,tum
Comecei a tocar uma das minhas favoritas, e acho que estava tocando direito porque a um sinal do professor o baixista se juntou a mim e depois o professor apontou para a vocalista que começou a cantar do ponto onde eu estava, quando acabamos o pessoal começou a aplaudir e o professor falou empolgado:
- Jolie, você foi ótima e senhor McGregor... Isso é “brincar”?? Foram poucos erros. Parecia profissional. Onde estudou?
-Aprendi um pouco há tempos atrás e o marido de minha prima é baterista e sempre que dá toco com ele nas férias. Estou enferrujado.
- Ah é? Baterista de qual banda?- o professor parecia menos irritado, enquanto eu descia do palco e me juntava aos meus amigos.
- Os Duendeiros. – disse baixo.
- Aidan McCleary é o seu parente? E você toca com ele nas férias? - perguntou o professor e Micah aproveitou a deixa para me colocar em mais encrenca:
- É sim, e Ben O’Shea é o tio dele. A música está no sangue. - disse Micah.
- Não quero fazer Artes, seu amigo da onça. – disse pelo canto da boca.
- Se eu posso, você também agüenta. É só pensar no prêmio final. – ele respondeu baixo e na hora olhei para a vocalista que tinha o nome de “Jolie”. E quase não ouvi o que o professor sugeria:
-... Então o senhor poderia fazer parte da banda e se apresentar na feira de talentos do professor Mikhail. Todas as criaturas mágicas merecem o nosso apoio não é? Ou o senhor é daqueles que acham que elfos domésticos pediram a escravidão? – e com o olhar que ele me lançou, com certeza eu arrumaria um par de orelhas pontudas se desse a resposta errada.
- Não senhor, gosto muito dos elfos domésticos e acho que eles não têm o reconhecimento merecido.
- Muito bom, então posso contar com sua presença na banda da escola?? Não se preocupe, são todos amadores e fazem isso para colaborar e os ensaios não vão atrapalhar as suas outras aulas, clubes e afins e é por uma boa causa. Isso sem mencionar os créditos extras ao final.
- Está certo, professor pode contar comigo. – respondi.
Acabei conhecendo os outros integrantes da banda e fiquei sabendo sobre os dias de ensaios. Logo a garota tentou sair sem ser notada, pedi licença e fui atrás dela. Alcancei-a na parte de fora do castelo.
- Podemos conversar?- perguntei quando me aproximei dela.
- Se eu disser não, você vai continuar falando. – ela respondeu enquanto andávamos.
- O que você quer?- ela perguntou finalmente.
- Você é sempre assim tão agradável com quem salva a sua apresentação?? Porque não sei se percebeu, mas o tal de Serj estava te afundando. – ela ficou embaraçada por alguns segundos e disse:
- Certo, você salvou a apresentação, embora eu não tenha lhe pedido nada. Satisfeito?
- Eu te fiz alguma coisa?
- Tirando apostar que sairia comigo? Não. - ela respondeu cínica.
- Touché! - respondi e disse:
- Aproximei-me de você pelos motivos errados, mas eu realmente acho você interessante. E não devo ser tão repugnante assim, para você continuar a me tratar mal, afinal seremos colegas de banda. - e ela me olhou avaliadoramente, e disse:
- É... Você é até bonitinho... Mas é convencido, como todo jogador de quadribol que conheço. Não pense que vou ser mais uma da sua coleção.
- Claro que não, nem ousei pensar uma coisa destas. – fingi indignação, ela quase sorriu, mas continuou andando. Estávamos perto das repúblicas e ela parou na frente de uma chamada Atlântida.
- Então seu nome é Jolie... De onde você vem?- comecei.
- Da casa dos meus pais. - olhei sério para ela e ela suspirou, decidindo responder a minha pergunta.
- Meu pai é diplomata e como ele e minha mãe se mudavam muito, acabei nascendo no Marrocos e vivi lá até o ano passado. Sabe, você devia aproveitar e pagar a minha parte.
- O dinheiro você só vai ver sexta. – respondi.
- Agora que você sabe quem sou não precisamos disso.
Aproximei-me dela e disse olhando-a nos olhos. Ela se manteve firme.
- Não volto atrás quando alguém marca um encontro comigo.
- Eu não marquei um encontro com você. - disse indignada e eu sorri dizendo:
- Sexta, mesma hora, mesmo lugar. E não se engane: É um encontro. - virei as costas e fui embora.
Comecei a rir quando ela bateu o portão com força.

Saturday, March 22, 2008

Rabiscos de Renomaru G. Kollontai

- Ah me dá isso aqui!
- Quem tem que aprender? Eu ou você?!
- Você! Mas não tenho culpa se você tem o cérebro de um peixe!
Falei estressado para o Ty e tomando o frasco de terra das mãos dele. Joguei com um pouco de raiva o frasco na mesa e dando um tapa por cima dos cacos transmutei o seu conteúdo em pequenos fios de uma cor escura, fios este de pura terra, logo mais resistentes que um fio comum.
- Viu? Simples assim. – falei bufando.
- Que divertido! Agora posso te lembrar que sou EU que tenho que aprender?! Eu sei que você sabe fazer isso! Mas eu não!!
- Estou tentando te ensinar!
- Ah claro, ai na minha primeira tentativa você se estressa e arranca os ingredientes da minha mão! Como a Annia te agüenta?! Você precisa de um pouco mais de didática! E muito mais calma.
- E você precisa de mais neurônios! Infelizmente ainda não consigo transmutar ar em neurônios se não era só eu fazer isso e pronto! – Eu disse enquanto dava um tapa de leve na testa do Ty.
- Então aprenda logo isso e me ensine, porque aí posso transmutar esse seu rancor todo em um mínimo de paciência. – ele disse me dando um tapa no peito.
– Não se esqueça que você se ofereceu a me dar aulas.
- Afff tudo bem. Vou tentar ser mais calmo, feliz? – falei enquanto dava de ombros e lançava um olhar ácido.
- Maravilhoso! Só falta um sorriso para ficar melhor. Não, não faz isso não que eu acho que levo um susto...
- Posso continuar? – falei lançando-lhe um olhar de reprovação enquanto ele ria e fazia que sim com a cabeça, se concentrando nas minhas palavras.
– Muito bem...Você aprendeu o básico de alquimia nas aulas da minha mãe, pelo menos espero que tenha aprendido. Comigo é totalmente diferente dela e com a Annia. Não tenho paciência para ensinar e sou muito mais rígido. Vamos pular o básico então, vou fingir que você já domina o básico... Apenas fingir. -falei cutucando-o com as palavras e ele fingiu estar chocado.
– A Alquimia é a ciência que procura entender a natureza e modifica-la para uso próprio. A alquimia pode tanto ser usada de modo benigno quanto maligno. Com a alquimia você pode fortalecer os ossos de uma pessoa, criar um escudo ou uma parede de proteção do mais simples solo. Mas com ela você também pode quebrar as ligações entre partículas, abrindo buracos e rançando pedaços de membros de suas vítimas. Ela já foi inclusive usada como forma de tortura, pois através dele pode-se ao mesmo tempo tratar as feridas e provocar feridas piores. Na alquimia estudamos também os elementos e produtos destes, para melhor entender a estrutura dos objetos e seres e saber o melhor modo de usá-los; remonta-los, ou destruí-los. Está entendendo?
- Sim, não me trate como um idiota que não sabe nada. – Ele falou zangado, e notei que prestava atenção em cada uma das minhas palavras.
- É que com essa sua cara de bobo me faz crer que você é assim mesmo... Me prove que não é e eu pararei...Continuando... Então o básico para se fazer qualquer alquimia é conhecer a estrutura do que se quer transmutar, modificar, criar ou destruir. Isso é o pensamento mais básico da alquimia. Você não vai conseguir transmutar coisa alguma sem conhecer o mínimo que seja. Depois é necessário um canalizador para a transmutação. Existem várias formas de canalizadores, a maioria das pessoas utiliza círculos alquímicos, que são círculos com desenhos, runas e inscrições que servem para indicar que tipo de transmutação você quer fazer.
- Mas se é assim, esses círculos não são muito úteis porque se tornam muito específicos. – ele falou me cortando e me segurei para não brigar porque ele tinha dito algo inteligente.
- Até que você pensa... Muito bem é isso mesmo. Os círculos são muito específicos, e se você tem tempo de sobra para jogar fora você pode preparar o círculo antes de uma transmutação. Mas como seu objetivo é usar alquimia para defesa e ataque, seria inútil. Então para facilitar as coisas, eu uso o poder mágico, e a própria varinha como catalisadores. Porém, algumas das alquimias mais avançadas ainda precisam de círculos herméticos e transmutação. Por isso eu sempre ando com algumas prontas.
Abri meu casaco e mostrei vários papéis com círculos, runas e desenhos. Eu sabia para o que cada um deles servia e escolhia o que melhor me ajudaria, mas para o Ty eram coisas fascinantes, mesmo que ele não os entendesse direito.
- Hum... Eu já vi esse círculo em algum lugar... – Ele disse enquanto apontava para um círculo perfeito, com runas nas bordas e uma imensa estrela de seis pontas no centro.
- Sim, é um círculo de proteção, com ele você pode fortalecer qualquer material. Vou deixá-los com você. Muito bem vamos praticar agora? Quero que você se concentre na estrutura da terra. Concentre-se nos elétrons, prótons e nêutrons, concentre-se também nas partículas mágicas que esse pouco de terra possuiu e depois concentre-se na nova forma que você quer que ela assuma, enquanto libera energia para o processo. É bem parecido com transfiguração.
Falei enquanto tocava com a varinha nos grãos de terra e eles se transmutavam em várias miniaturas de terra. Ele sorriu e fechou os olhos enquanto se concentrava. Depois de um tempo ele deu um toque de leve com a varinha e uma fumaça acinzentada subiu. No lugar onde estavam os grãos de terra agora havia um grande buraco na mesa. Eu cai na gargalhada enquanto ele ficava sem graça e um pouco constrangido. Ele pegou mais um pouco de terra e tentou novamente. Dessa vez houve uma explosão e a terra e pedaços da mesa voaram para o rosto dele, prendendo nos cabelos e sujando seu rosto.
- Pronto, incrível, você conseguiu criar seu próprio elmo! Está muito avançado.
- Idiota. – ele falou com um pequeno sorriso e começou a tirar a terra dos olhos para tentar novamente. Dessa vez não aconteceu nada, parecia até que a terra estava rindo dele.
- Você que é um idiota, Ty!
- Que posso fazer se não sou como você?!
- Treine mais. Você não treina horas e horas de quadribol? Nunca o vejo treinando alquimia, por isso você não passa do básico. Enquanto algo inútil como o quadribol você dedica horas!
- Treino quadribol porque eu gosto e quero. E porque é mais divertido do que passar horas olhando para um monte de terra e não fazer mais nada!
- Ah e ficar correndo atrás de umas bolinhas estranhas montado em vassouras, enquanto recebe boladas e encontrões dos outros jogadores, é muito divertido se você gosta de um jogo de trogloditas! – falei irritado e ele alteou a voz para responder.
- Pelo menos assim eu tenho amizades e um círculo social maior do que frascos e desenhinhos circulares!
- O que você quer aqui, Tyrone? Você está fugindo de alguém? Está procurando algo? Porque nada do que você diz ou faz me faz crer que você está aqui por qualquer motivo plausível. Você fica se pavoneando por todos os lugares, querendo a atenção de todos. Querendo provar algo, mas que até não conseguiu nada!
Nós dois ficamos quietos nos encarando, sabendo que tínhamos ido longe demais. Depois de um tempo virei o rosto e olhei para o outro lado enquanto ele fazia o mesmo. Eu cerrava os punhos pelo que ele havia dito, por ter dito que eu não tinha amizades. Mas na verdade o que me deixava com mais raiva era que ele estava certo. Eu me fechava em um mundo pequeno e solitário, me afastando de quase todos... Cerrei mais o punho, agora com raiva de mim mesmo, e lágrimas de ódio vieram aos meus olhos, mas as controlei antes que se mostrassem. Então olhei um pouco para o Ty e ele também parecia estar se segurando, abrindo e fechando os punhos, talvez pensando em algo mais profundo e importante a dizer ou quem sabe ia me quebrar a cara. Ele parecia carregar um peso grande demais para seus ombros, grande demais para sua idade. Ele era uma pessoa madura, talvez mais do que eu, mas mesmo assim seja lá o que fosse que o atormentava, não era pouco. Eu havia visto aquele olhar e esse sentimento apenas em mais umas duas ou três pessoas.
- Me perdoe Tyrone. – falei enquanto soltava o ar lentamente, dando-me por vencido. Ele me encarou e sorriu levemente.
- Eu que peço desculpas, Reno. Não devia ter dito aquelas coisas horríveis.
- E eu também não devia tê-lo acusado e falado assim de você, sem saber seus motivos. E infelizmente você está certo. Eu me fecho nesse meu mundinho...
- Mas porque você faz isso? Você é inteligente, é até divertido, poderia ser muito popular. Mais do que você é. Porque você é popular, todos comentam da sua inteligência, até mais do que o fato de você ser rabugento... Mas você se afasta de todos.
- Porque eu realmente não quero me aproximar demais... Não sei quando terei que sumir novamente... Não sei quando vou ter que esquecer todos, mudar meu próprio nome.
- Sumir? Novamente?
- Tyrone...
- Ty, por favor. Tyrone só quando dona Alex quer me arrancar o couro. - riu e eu sorri com ele.
- O que vou lhe dizer é segredo absoluto. Nessa escola apenas minha mãe e a Annia sabem sobre isso. E eu juro pelo sol, pela lua, por Marte e por Mercúrio, que se você comentar isso com alguém, nem minha mãe vai conseguir achar os seus pedaços.
- Pode confiar em mim. – Ele falou, mas vi que engoliu em seco com minha ameaça.
- Eu e minha mãe já tivemos que nos mudar várias vezes. E mudamos nossos nomes, adotando o nome dela quando solteira, apagando os registros que nos ligam ao passado. Só estamos estáveis aqui em Durmstrang por causa da ajuda das pessoas daqui, da família da Annia, e dos Chronos.
- O que os Chronos têm a ver com seu passado?
- Nossas famílias sempre foram amigas. Minha mãe e a Celas Chronos foram amigas de infância e estudaram um tempo juntas. Nos piores momentos de cada uma, sempre estavam se apoiando. E os Chronos nos protegem até hoje. Porque meu pai foi assassinado por um comensal... – vi algo passar por seus olhos, uma mescla de surpresa e companheirismo, e uma tristeza que fez o peso que eu sentia em seus ombros aumentar.
– Alucard e Mirian Chronos capturaram quem matou meu pai, e este foi morto por Alucard que não resistiu ao saber da tortura que meu pai passou.
- Isso é bem coisa do Tio Lu...
- Esqueci que você o conhece...
- Ele é meu tio de consideração, como meu segundo pai... Mas porque seu pai foi morto?
- Meu pai era um alquimista. Realmente poderoso e inteligente. Ele é meu ídolo e tento me espelhar nele na alquimia. Por isso me empenho tanto, quero realizar alguns sonhos, meus e dele... E superar o meu passado...
- Que passado? Superar por quê?
- Meu nome de verdade é: Renomaru Goldensun Kollontai Honenheim Flamel.
- Flamel?! Peraí, Flamel de “Nicolau Flamel”?! – fiz sim com a cabeça e ele entendeu o que eu queria dizer e ficou chocado e surpreso.
- Sim, ele mesmo. Ele é meu tataravô... Minha mãe é trineta dele. Mas nós o chamamos de vovô.
Mas os Comensais achavam que meu pai era mais habilidoso e que meu avô passara os conhecimentos dele para ele. Eles queriam que ele criasse uma pedra filosofal para o Lord das Trevas. Meu pai se recusou, e eles o torturaram e o mataram... Desde então eu e minha mãe abandonamos o nome de vovô e de meu pai e passamos a usar o nome Kollontai, nome da vovó Nelle, quer dizer, Perenelle. Nós tivemos que nos esconder por um tempo, e os Chronos e a família da Annia nos ajudaram a nos estabelecermos secretamente aqui.
- Alguns já comentaram que meu dom em alquimia é parecido com o do meu avô, e às vezes me chamam de Flamel, mas eu não deixo que mantenham isso... É perigoso... Imagina se pegam algum de nossos amigos como refém? Hellion quis usar a imagem de sua irmã.
- Jamais imaginei que seus motivos poderiam ser estes... Sempre achei que era puramente um mau humor contínuo. Não se preocupe, Reno, seu segredo está a salvo comigo. E pode contar comigo para o que der e vier. Você tem um novo aliado aqui. – Ele falou e me estendeu a mão, que eu apertei feliz.
- E você também tem um aliado aqui, Ty. Não desejo que me conte seus motivos, nem seus interesses, mas peço que me permita ajudá-lo a aprender alquimia, sei que poderei ajudá-lo e quem sabe sermos amigos. - e vi quando ele sorriu maroto e puxou a metade de um sanduíche de carne das vestes e disse:
- Agora mostra que é bom mesmo em alquimia e vamos aumentar este sanduíche, a aula de hoje me deixou com fome. – fiquei dividido entre transmutá-lo em um burro ou rir. Acabei escolhendo a segunda opção e disse:
- Vem, comigo. Pelo menos por hoje você pode dizer que a alquimia te ajudou a conhecer um novo caminho para a cozinha.

Thursday, March 20, 2008

Rabiscados por Naveen Odebrecht

- Vai contar por que está namorando ela? – Max pressionou e o analisei. Luka estava sentado ao lado, escutando com atenção.

Não me sentia na obrigação de dar satisfações à ninguém, mas ambos já tinham me dado provas de confiança e fidelidade, e desde que tinha começado a namorar Lavínia, andava mesmo precisando de amigos por perto. Melhor ainda se fossem amigos que também participavam do círculo de “confiança” que ela e os outros mantinham.
Fui até o armário e peguei uma caixa de madeira escura, trancada por um cadeado de segredo. Abri-o e revirei seu conteúdo na cama: vários recortes de jornais, folhas de plantas encapadas, recortes de livros de herbologia e por último, uma cópia do histórico da enfermaria de Lavínia Durigan. Eles olhavam a tudo, ainda sem entender.

- Nessa caixa eu guardo todos os meus planos. Antes que eu comece a explicar, vocês têm que jurar que tudo o que for dito nesse quarto, fica nesse quarto. Se alguma coisa escapar...
- Não precisa terminar a frase. Isso fica aqui. – Max declarou.
- Morreu o assunto. – Luka completou já ansioso.
- Ótimo. Tudo começou no dia 13 de novembro de 1996. – Peguei um dos recortes de jornal mais antigos e entreguei para Max, que o leu com atenção ficando rígido a cada palavra. Passou para Luka ler, sem comentários. Quando ele terminou, devolveu, trocando um olhar significativo comigo. – Dia que meu pai foi assassinado por um grupo de aurores.
- Sinto muito. – Max começou, mas cortei.
- Eu também. Mas só fui descobrir os nomes dos aurores ano passado... – peguei um segundo recorte, menor do que o anterior, e li em voz alta:

Bulgária, 24 de outubro de 1998.

Será realizada hoje uma Conferência com Aurores de destaque do Norte Europeu. O objetivo da reunião é a nova abordagem dos aurores frente aos bruxos das trevas remanescentes.
Entre os convidados, destaque para Johnny Alenxinsky e Tohry Gheorghieff, protagonistas da maior captura de Comensais da Morte dos últimos 10 anos, em novembro de 1996.

- Já entendi tudo. Você está planejando alguma coisa contra esses dois aurores, certo? – Luka arriscou e Max franziu a testa.
- Certo. No dia da captura, eles prenderam todos os amigos do meu pai, mas o mataram. Somente ele. – despachei sentindo o sangue ferver.
- Previsível e compreensível que você queira se vingar. Mas ainda não entendi o que tudo isso tem a ver com a Lavínia. Se você está claramente namorando ela por interesse, qual é o papel dela nisso tudo?
- Ela não tem nenhum papel direto nessa história. Mas uma coisa que ela carrega o dia todo com ela é indispensável para que meu plano dê certo.
- Quer parar de falar em enigmas e ir direto ao ponto?! – Luka apressou e eu puxei uma das folhas de plantas que estavam plastificadas, mostrando-os.
- Essa é uma folha de Beladona, uma das plantas mais venenosas do mundo bruxo. A essência dela é bem fácil de ser encontrada, mas pode ser rapidamente combatida com bezoar, então, não me interessa. Ela só se torna realmente mortal se for ingerida diretamente, ou se cozinharmos uma boa quantidade de suas folhas em água. Duas gotas desse chá é capaz de matar um homem adulto em menos de 10 minutos, e ainda não encontraram antídoto. Por causa das baixas temperaturas daqui, é muito difícil plantar e cultivar uma boa muda dela, mas alguns bruxos conseguem, se alcançarem uma boa temperatura e luminosidade na estufa...
- Estou me sentindo em uma aula do Mikhail. Não tem como ser mais direto? – novamente Luka perguntou ansioso e o encarei.
- Direto ao ponto: em toda a extensão da Escandinávia e Bulgária, somente uma estufa conseguiu plantar com sucesso a Beladona em tamanho satisfatório para ser feito o chá: a estufa imperial do castelo do Instituto Durmstrang.

Eles se entreolharam montando o quebra-cabeças. Então, ambos se voltaram para mim.

- E a única pessoa que tem a chave da Estufa, além do professor Mikhail, é o líder do Clube de Herbologia, que este ano é... – Luka pensou alto.
- Lavínia Durigan O’Lattern. – Max completou. – É isso o que você quer dela. A chave. Por que se você tiver a chave, tem acesso a todos os compartimentos da estufa. Tem acesso à Beladona. Tem o chá. Se vinga por seu pai.
- Exatamente.

O quarto ficou em completo silêncio. Max analisava a folha de Beladona com atenção, enquanto Luka parecia estar pingando os últimos ‘is’. Depois de uns minutos, perguntou:

- Você já sabe exatamente quem são os aurores?
- Um pouco. Sei que Johnny e Tohry são os líderes do grupo que atacou o grupo do meu pai. Tohry vive sozinho, na Bulgária. Johnny é casado com Agatha Neitchez Alenxinsky, e tem dois filhos: Igor Neitchez Alenxinsky, que está terminando a Academia de Aurores esse ano, e Andrea Neitchez Alenxinsky, que está fazendo o 5° ano de Durmstrang.

Demorou mais tempo do que eu pensei que demoraria, até que eles relacionassem as últimas peças com outras. Max foi o primeiro a empalidecer.

- Neitchez... Victor Neitchez. Ex-namorado da Lavínia. Isso tudo é só uma grande coincidência ou...?
- Coincidência ou destino? Chame do que quiser. Mas Johnny Alenxinsky é tio de Victor Neitchez.
- Não pode ser. Nunca fiquei sabendo que ele tinha uma prima estudando em Durmstrang! – Max contestou. – Agora não estamos conversando muito, mas já fomos muito amigos.
- O motivo de ele ter escondido esse parentesco com a prima dele, não me interessa. E se te interessar, pergunte para ele. Os fatos são esses.

Ambos ficaram calados novamente. Comecei a guardar as coisas na caixa mais uma vez. Max interrompeu seus próprios pensamentos com um sorrisinho sarcástico.

- Pode parecer uma pergunta idiota, mas não consigo evitar: por que não Avada Kedavra? Acho que nós já sabemos muito bem como fazer, e não é muito mais prático do que tudo isso de namoro, chave, planta, chá? Quero dizer: é rápido. Bater e morrer.
- Em alguns pontos você tem razão... É bem mais simples e rápido. O problema é que eu teria de bolar um plano, muito mais complexo, para conseguir entrar na casa de cada um deles. Ou atrai-los até aqui. Se eles percebessem a emboscada, eu teria graves problemas.
- E o chá?
- O chá eu coloco na garrafa de café que vai todos os dias para a sala deles, no Departamento de Aurores do Ministério. Só preciso distrair um elfo doméstico. Mato dois coelhos com uma cajadada só.

Max concordou com a cabeça e novamente se pôs em silêncio. Foi a vez de Luka sair do transe.

- Só uma dúvida, a última. Como você vai fazer para pegar a chave? Lavínia deve carregar ela 24 horas por dia. Me parece quase impossível você tirar sem que ela perceba. Do jeito que é neurótica... – Rimos.
- Também concordo com você, em partes. Ela carrega a chave em uma corrente, em volta do pescoço. Mas não 24 horas por dia. Tira para tomar banho.
- Então seu brilhante plano é invadir o banheiro da Avalon? Se for, pode me incluir nessa aventura. – Luka riu com gosto.
- Não. Não vou pegar durante o banho. Óbvio que não. Se fosse assim, eu não precisaria estar namorando ela, não é? Só preciso que ela fique nua.

Os dois se entreolharam e riram maliciosamente.

- E se ela não tirar a roupa? – Max perguntou.
- Eu tiro por ela, claro.

Wednesday, March 19, 2008


Eu me virava agitado na cama enquanto dormia. Ouvia palavras desconexas, também gemidos de dor, que me apertavam o peito. Eu tentava sair do torpor que o sono havia me colocado, mas ao mesmo tempo algo me mantinha preso àquelas vozes abafadas. Os sons estavam cada vez mais perto e de repente o choro de um bebê me atingiu em cheio como se fosse um jato de água, senti uma espécie de alegria e dor ao mesmo que me fez sentar rápido na cama. Percebi que depois daquilo, não dormiria mais. Ainda bem que já era sexta feira.


Era o final da noite de sexta e havíamos saído das ultimas aulas e nos reunido no vilarejo para bebermos. Como Milla estava sentada com Luka, e ele devorava a cara dela, eu, Victor, Nina, Vina, Ricard, Annia, Reno, Micah, Evie, não queríamos ver aquele show de horrores, arrumamos uma mesa onde ficamos bebendo e batendo papo sobre como havia sido nossa semana. Claro que depois de algum tempo Derek se juntou a nós, e Naveen veio junto, afinal ele era o “novo namorado” da Vina. E eles eram até “legais”.
- Se ter aulas com a Annia já acabava comigo, com o Reno é pior, ele quer que eu recite os fundamentos de Trimegisto em latim. Têm noção disso? Mal decorei a tradução. – resmunguei.
- O problema do Ty é achar que focinho de porco e tomada são a mesma coisa... – disse Annia.
- Ele só vê diferença se o porco em questão for fêmea. - disse Reno e caímos na risada.
- Falando nisso... E aí Ricard?? Com quem você vai sair daqui hoje?- provoquei e rimos quando Vina o encarou séria.
- Sabem que sou um pouco tímido com garotas.
- Nós somos garotas e você não é tímido conosco. - provocou Evie.
- Éééé.- Annia e Nina a apoiaram.
- São minhas amigas, é diferente. Não é fácil escolher uma garota e dar em cima dela... - Ricard continuou.
- Claro que é. Basta ter coragem. O máximo que pode acontecer é levar um fora, mas você sobrevive. - respondeu Micah e eu completei:
- É, não existe mulher difícil aqui, só cantada mal feita. – respondi e as meninas me vaiaram enquanto os rapazes zoavam. Ricard provocou:
- Aposto que você não consegue sair com uma garota daqui hoje.
- Opa, senti um desafio no ar. Vai valer alguma grana?- respondi e Ricard disse:
- Vai! Eu escolho a garota e se você não sair com ela daqui depois de... Digamos 1 minuto, você perde.
- Ho,ho, esta até eu quero ver.- disse Micah pondo o galeão na mesa e os outros fizeram o mesmo. Coloquei o meu galeão junto e respondi:
- Ok, pode escolher.
Ele olhou em todo o salão e apontou para uma moça bem no canto do balcão, que bebia sozinha.
- Aquela tomando whisky de fogo no canto do balcão. Não se preocupe, ela é bonita. - olhei para o local aonde ele apontou e vi uma garota sozinha e era bem bonita.
- Feito! Dêem adeus aos seus galeões. Conte 1 minuto da abordagem hein?
- Sim, vamos lhe dar esta vantagem. - e ele e os que já estudavam em Durmstang começaram a rir.
Aproximei-me do local e falei com a garota:
- Posso pagar uma bebida para você?
- Já estou bebendo, obrigada. – olhei para a mesa e Micah apontou o relógio. Resolvi ser direto.
- Vi você aqui sozinha e te achei interessante. Nós podíamos sair e...
- Só saio com quem conheço e sabe meu nome. - ela respondeu seca.
- Muito justo: Eu sou o Ty e você é a garota mais bonita daqui, podíamos ser amigos... - estendi a mão.
Ela riu ignorando e disse:
- O tempo passa e vocês continuam previsíveis... Tsc,tsc...Vamos ser francos ok? Quanto você vai ganhar se eu sair daqui com você?
- Como?
- É, eu sei quem você é. Quanto tempo falta pra você perder a aposta?
- Acho que uns 20 segundos... - respondi depois de olhar para meus amigos de novo.
- Eu saio daqui com você agora e levo metade do que ganhar. Assim ficamos todos felizes. Aceita?- disse levantando e pegando a bolsa.
- Aceito. - peguei o casaco dela e coloquei em seus ombros enquanto saíamos. Dei uma olhadinha para a mesa dos meus amigos e eles estavam pasmos.
Ao sairmos do bar, ela andou mais rápido indo até um local onde poderia aparatar e disse:
- Próxima sexta, mesmo horário aqui, traga meu dinheiro ou eu conto a eles.
- Você poderia dizer o seu nome, caso eles me perguntem...
- Eles sabem quem eu sou. E a propósito: fique um pouco aqui, para dar mais “credibilidade” à sua conquista. - e fez um pop quando aparatou.
Que garota interessante... Pelo menos o rendimento da aposta foi bom: Tenho um encontro na sexta rsrsrs.