Novembro, sábado, final da tarde....
Quando chegamos em Sofia, nos dirigimos ao hospital para onde o pai do Finn havia sido levado,por sorte era o mesmo hospital onde o pai da Parvati trabalhava e quando chegamos na ala da emergência, encontramos a mãe do Finn, sentada numa cadeira com as lágrimas escorrendo por seu rosto. Quando nos viu, se jogou nos braços do filho e entre soluços dizia:
- Estavamos conversando sobre as coisas da casa, e de repente ele desmaiou...Chamei uma ambulância, foi tudo muito rápido, disseram que foi um AVC....O que está acontecendo com ele? Estão lá há tanto tempo.- e quando ela o soltou, me abraçou com força:
- Obrigada por vir também Léo, Sean vai gostar de te ver aqui, sabe o quanto ele te adora...
Infelizmente algum tempo depois, o médico da emergência que atendeu tio Sean, veio dar a noticia de que ele não havia sobrevivido ao segundo AVC que tinha sofrido no hospital.
Tomei todas as providências para o funeral e nossos amigos conseguiram vir da escola para dar uma força a Finn e sua mãe. Robbie, Ozzy e Lucian ficaram um tempo conversando sozinhos com ele, confortando-o e ele pareceu um pouco melhor, mas eu bem sabia que só o tempo iria amenizar sua dor.
- Finn, tem certeza de que vão ficar bem? Posso ficar mais uns dias com vocês, ajudar no que precisar.- perguntei mais uma vez, ainda na estação de trem. Ele sacudiu a cabeça e disse:
- Precisamos cuidar das coisas do papai e só eu e mamãe podemos fazer isso, para nos despedirmos, você sabe. Voltarei assim que possivel, e você me ajuda a me pôr em dia ok?- assenti sabendo que Finn mesmo que faltasse um mês na escola, não teria a menor dificuldade em acompanhar a matéria quando voltasse. – ele me puxou para um beijo demorado de despedida, e eu fui para o trem. Só quando a locomotiva partiu, eu me permiti chorar de saudades de tio Sean, minha avó, Jack, Alexis... Porque os bons vão embora cedo?
Novembro, quarta feira
- Leonora, se você cantar deste jeito na apresentação, vai aumentar o índice de suicidios nas festas de final de ano, e não queremos isso, certo meu bem? – disse Robbie parando o meu ensaio, para o show de Natal.
- Desculpe, Robbie, estou distraída hoje.- sorri sem graça e ele se aproximou e me segurou pelos ombros:
- Eu também fiquei chateado com o que aconteceu com o pai do Finn e também estou preocupado com ele, mas se ele precisar de algo sabe onde nos encontrar certo?- assenti e ele continuou:
- E você precisa estar afinadíssima, porque daqui a pouco Mitchell, vem pro ensaio de duplas, será que é por isso, o seu nervosismo?
- Robbie, não começa. Mitchell e eu somos amigos e eu estou com o Finn, eu acho.
- Sabe isso é uma coisa que eu não estou entendendo direito, mas como estamos sem tempo para um divã, vamos voltar ao ensaio. Solta a diva que existe ai dentro e mostre porque você vai arrasar neste show. – rimos e quando cantei, foi uma interpretação muito mais bonita.
Quando eu estava terminando, vi Parvati, Ozzy e Mitchell chegando. Sentei-me perto do palco, e Mitchell me cumprimentou seco e se sentou ao meu lado, já que Robbie iria começar o ensaio de duplas com Ozzy e Parv, já que Ozzy não conhecia a música que iria cantar, precisava de um pouco mais de tempo para pegar o jeito.Depois deles, e de Lucian e Liséria cantarem sua música, subi ao palco com Mitchell e começamos a nossa interpretação, e logo Robbie interrompia e passava a mão nos cabelos exasperado:
- Posso saber porque vocês não estão se olhando nos olhos como um casal fazendo as pazes quando cantam esta música?
- Talvez porque nós não somos um casal?- Mitchell disse engraçadinho e Robbie o olhou feio:
- Não vou discutir os vacilos de vocês agora, porque o consultório está fechado, então por favor, façam como a musica diz: 'deixem seus problemas lá fora', e sejam o casal apaixonado que eu preciso neste palco aqui e agora? Não vai doer e acredito que vocês até podem se divertir fingindo.- olhei para Mitchell e ele deu de ombros, me posicionei novamente e vi quando Mitchell relaxou os ombros e me olhou nos olhos, senti meu coração bater mais rápido, e algo em minha expressão deve tê-lo alertado, pois ele deu um pequeno sorriso e estendeu a mão, que segurei, entrelaçando meus dedos nos dele.
Quando acabamos, ficamos de mãos dadas no palco, enquanto Robbie dizia satisfeito que tinha sido muito bom, era só corrigir a afinação, escolher o figurino, e estaríamos prontos. Nos olhamos e soltamos nossas mãos devagar. Peguei minhas coisas para voltar para a república, e ele caminhou junto comigo, saimos do castelo, e no caminho encontramos Orion:
- Hey Léo, achei que você fosse precisar de companhia para voltar para a república.- após o episódio entre Lenneth e Patrick, todos os garotos ficaram um pouco paranóicos e começaram a ficar por perto para que não precisássemos circular sozinhas. Sorri e antes que eu respondesse, Mitchell disse:
- Ela já está comigo, Goulard.- Orion olhou feio para Mitchell:
- Prefiro que a Leonora responda: Então Léo, você vai voltar comigo ou com ele?- olhei para os dois e respondi:
- Orion, obrigada por ter vindo, mas Mitchell e eu temos que conversar sobre o nosso dueto.- Orion assentiu e foi embora.
Quando ele estava longe o bastante, Mitchell parou e segurou pelos braços me virando para ele, todo tenso:
- Finn sabe que você fica dando mole para este Orion? Achei que seu gosto tivesse melhorado.- reagi:
- Isso vindo de você que sai com alguém chamada Courtney? Me poupe, Mitchell, isso é nome de corista em fim de carreira.E eu não lhe devo satisfação.- Parei e perguntei direta:
- Você está com ciúmes do Orion? Do Orion?
- Você estava com ciúmes da Courtney?- ele devolveu, nos encaramos e dissemos ao mesmo tempo:
- Claro que não /Que piada.- ficamos nos olhando e senti suas mãos relaxadas subindo e descendo pelos meus braços. Tudo o que eu queria era que ele desse só mais um passo e me beijasse, mas na hora lembrei de Finn, e baixei os olhos, e ele me soltou, só ai percebi que já estávamos próximos da minha república:
- Nosso número será um sucesso.- comentei na falta do que dizer e ele concordou:
- Sim, será. Leonora, eu queria que nós...
- Aham...- virei-me quando ouvi uma voz conhecida:
- Léo!- era Finn e estava chegando com sua mochila, se aproximou de onde eu estava com Mitchell e me abraçou, me beijando:
- Senti saudades!- logo ele me soltou e olhou para Mitchell e estendeu a mão.
- Olá, Mitchell. Obrigado pela mensagem.
- Por nada, fui sincero em cada palavra.- disse apertando a mão do Finn, depois ele se virou para mim e disse:
- Bom, agora você está segura para voltar para sua república, até os ensaios, Leonora.- e partiu. Não tive tempo de me recompor pela partida de Mitchell, quando Finn me abraçou e beijou novamente, mas tudo o que eu pensava era que queria ter tido alguns minutos a mais com ele.
When was the last time you thought of me?
Or have you completely erased me from your memories?
Cause I often think about where I went wrong
The more I do, the less I know.
I gave you the space so you could breathe,
I kept my distance so you would be free,
I hope that you find the missing piece
To bring you back to me.
Why don't you remember, don't you remember?
The reason you loved me before,
Baby please remember you used to love me
Nota autora: trechos da música Don’t you remember, Adele
Tuesday, November 22, 2011
Monday, November 21, 2011
Lembranças de Lucian P. Valesti
- Por que você não me contou? – Eu perguntei, um pouco irritado. Liseria deu de ombros e passou pomada na minha mão.
- Porque ela me pediu que não falasse nada.
- E você iria deixa-lo batendo nela, machucando-a?
- Lucian, por Odin, isso já acabou. Você comprou as dores dos outros, ele foi punido e eles terminaram o namoro. Simples. – Ela respondeu, irritada também.
- Não é simples. Isso só aconteceu porque a Julie veio falar comigo. Não posso perdoar o que ele fez.
- Lucian, querido, eu concordo com você, mas não podíamos nos meter na vida dos dois! – Liseria falou, irritada.
- Ele podia ter feito coisas muito piores. – Eu falei, teimoso e também bem irritado.
- Ai seria culpa da Lenneth, por não falar nada. – Ela respondeu.
- Seria culpa nossa por não termos percebido!
- Aí está a questão. Você não se perdoa por não ter percebido nada antes e demorado a agir. – Ela falou, incisiva e eu abri a boca para falar, mas sabia que ela estava certa.
- Sim, eu admito. Devia ter prestado mais atenção... Ela é minha melhor amiga. – Eu falei e logo Liseria amarrou a cara.
- Sempre ela, não?
- Ah não, vai começar com o ciúme bobo de novo? – Eu me apressei a dizer e Liseria fechou ainda mais a cara. Ela bateu com força na minha mão e eu reclamei de dor.
- Vá pedir para sua “melhor amiga” passar então pomada e tratar de você sempre que se machucar. – Ela falou, levantando-se e saindo.
- Tenho certeza que ela me ajudaria e não esconderia nada de mim! – Eu falei, antes dela bater a porta.
Eu tinha brigado com Patrick, na verdade, batido nele, há uma semana. No mesmo dia, ouvindo a todos os deuses, Lenneth terminou com ele, mas eu não deixava de ficar preocupado. Patrick ainda estava recebendo detenções de Renomaru e se eu conhecia meu professor, estavam sendo rígidas. Mas Patrick merecia muito mais do que simples detenções.
Eu tinha que me controlar sempre que o via, pois toda vez que ele passava por mim, sentia vontade de bater nele mais um pouco. Pelo menos não era só comigo, e todos os nossos amigos tinham a mesma reação.
Apesar de tudo, a escola voltava a sua rotina normal e nós também. Tivemos uma notícia ruim recentemente, pois o pai do Finn faleceu de repente e foi um choque para ele e até mesmo para nós.
Eu fora proibido de ir para o vilarejo por uma semana e apenas hoje pude voltar a trabalhar na livraria de Fer. Ela me recebeu animada e conversamos sobre tudo que aconteceu. Eu contei pra ela sobre minha briga com a Liseria e ela falou que eu estava sendo cabeça-dura, mas pelo menos concordou comigo que Liseria também. Então comecei a ouvir uma música suave, vinda do andar de cima.
Fare thee well, little broken heart
Downcast eyes, lifetime loneliness
Whatever walks in my heart will walk alone
Constant longing for the perfect soul
Unwashed scenery forever gone
No love left in me
No eyes to see the heaven beside me
My time is yet to come
So I'll be forever yours
Era Lenneth cantando. Eu havia esquecido que ela tinha aulas de canto no andar de cima da livraria. Fui até a sala onde ela tinha aula e abri a porta devagar. Eu conhecia essa música, era uma música do Nightwish. A música era muito bonita, mas era triste, falando sobre corações partidos e uma busca eterna por carinho e amor. Fiquei parado na porta observando-a e vi como ela se esforçava para cantar e como gostava disso. Percebi que seus machucados estavam sumindo, e sua beleza permanecia a mesma de sempre.
- Você tem talento, Val. – Eu falei quando ela terminou de cantar. Ela se sobressaltou um pouco e ficou vermelha por eu tê-la ouvido cantar.
- Obrigada, mas ainda tenho muito que aprender.
- E sua professora? – Eu perguntei, sentando-me no sofá. Ela ficou atarefada mexendo em algumas partituras e não veio falar comigo. Parecia até querer evitar meu olhar.
- Ela já deve estar chegando, eu vim um pouco mais cedo para ensaiar essa música... Queria muito cantá-la. – Ela falou e sorriu para mim. Nesse momento, a professora dela bateu na porta e eu me desculpei e sai, deixando-as ensaiar.
----------------------------
Eu e Liseria nos resolvemos dois dias depois. Como sempre não conseguíamos ficar muito tempo brigados, mas voltamos a discutir no mesmo dia e nos afastamos por mais um dia. Só depois de três dias da primeira briga voltamos a nos falar normalmente.
Hoje saia mais uma edição do nosso jornal, em que fizemos a cobertura da festa de Halloween. Infelizmente, também saiu o jornal clandestino, que agora se denominava Aurora Boreal.
Foi um desastre essa nova edição deles.
Ainda não sabíamos como eles publicavam-na, pois todas as gráficas estavam informadas de não aceitar nenhuma publicação estranha daquele jornal.
Mesmo assim, na mesma manhã que nosso jornal saia, ele circulava entre os alunos. Haviam comentários e colunas sem o menor controle. Falavam mal de alunos abertamente, contavam sobre casos de namoros mal resolvidos, sobre quem havia ficado com quem, sobre quem tinha sido visto se agarrando em um local do jardim. Falaram sobre Lenneth, Patrick e eu, dizendo que eu queria impedir os homens “de verdade” de colocarem suas mulheres no lugar. Falaram mal até mesmo do diretor e de vários professores. Não haviam limites alguns. E claro, houveram ataques ao nosso jornal, além da publicação de meus textos.
O Diretor mandou recolher todos os jornais e disse que quem fosse pego com um exemplar receberia detenção e punição. Mas sempre haviam novas edições escondidas.
A maioria dos alunos fingia não ligar para o jornal novo, com medo da represaria do Instituto, mas muitos se divertiam e comentavam as matérias com escárnio e gritaria. Estava saindo do controle!
---------------------------
- Caro Derfel, que honra tê-lo conosco! – Arthur falou, a voz cheia de escárnio na voz.
- Foi difícil encontra-los, Vossa Majestade. – Lorde Derfel falou, fazendo uma referência a contra gosto. – Mudaram os locais de reunião e não fui informado.
- Não? Era papel do Lord Gwaine avisá-lo. – Arthur falou e olhou para Gwaine, como se brigasse com ele, mas havia diversão na voz de todos.
Derfel encarou os rostos mascarados e encapuzados. Viu o olhar de apoio de muitos de seus companheiros e soube que ainda tinha apoio ali. Mas não podia brincar com Arthur. Ele não era o líder deles a toa.
- Não há motivos para puni-lo, eu sou inteligente o bastante para encontrar os locais de reunião. – Derfel falou, jogando um exemplar do Aurora Boreal. – Vocês estão fazendo um grande trabalho, por não serem vistos.
- Obrigado, obrigado. – Arthur riu. – Mas devemos isso tudo a meu filho, Mordred. – Ele falou e um jovem saiu das sombras à sua direita. Ele tinha um ar metido e austero, sendo digno do título que carregava. – Mordred, acho que não conhece Lorde Derfel, ele era o responsável pelas iniciações.
- Mas amoleceu. Eu conheço sua história. – Mordred falou rindo. A temperatura da sala cresceu na mesma proporção que a tensão. Uma tocha acendeu-se do lado de Mordred, quase queimando seu rosto.
- Eu nunca amoleço, caro Mordred. Apenas aguardo a minha hora. – Derfel falou, o desafio claro na voz. – E sei quando atacar e como defender a mim e aos meus.
- Fico feliz que continue o mesmo.. Derfel... Mas vamos dar início às cerimônias? – Arthur falou e acenou com a mão. Três garotos, sem camisas, saíram de uma porta lateral. Seus olhos estavam vendados, mas eles caminhavam com orgulho. – Daremos boas vindas a novos irmãos essa noite, se eles se mostrarem dignos...
N.A.: Forever yours, Nightwish
- Por que você não me contou? – Eu perguntei, um pouco irritado. Liseria deu de ombros e passou pomada na minha mão.
- Porque ela me pediu que não falasse nada.
- E você iria deixa-lo batendo nela, machucando-a?
- Lucian, por Odin, isso já acabou. Você comprou as dores dos outros, ele foi punido e eles terminaram o namoro. Simples. – Ela respondeu, irritada também.
- Não é simples. Isso só aconteceu porque a Julie veio falar comigo. Não posso perdoar o que ele fez.
- Lucian, querido, eu concordo com você, mas não podíamos nos meter na vida dos dois! – Liseria falou, irritada.
- Ele podia ter feito coisas muito piores. – Eu falei, teimoso e também bem irritado.
- Ai seria culpa da Lenneth, por não falar nada. – Ela respondeu.
- Seria culpa nossa por não termos percebido!
- Aí está a questão. Você não se perdoa por não ter percebido nada antes e demorado a agir. – Ela falou, incisiva e eu abri a boca para falar, mas sabia que ela estava certa.
- Sim, eu admito. Devia ter prestado mais atenção... Ela é minha melhor amiga. – Eu falei e logo Liseria amarrou a cara.
- Sempre ela, não?
- Ah não, vai começar com o ciúme bobo de novo? – Eu me apressei a dizer e Liseria fechou ainda mais a cara. Ela bateu com força na minha mão e eu reclamei de dor.
- Vá pedir para sua “melhor amiga” passar então pomada e tratar de você sempre que se machucar. – Ela falou, levantando-se e saindo.
- Tenho certeza que ela me ajudaria e não esconderia nada de mim! – Eu falei, antes dela bater a porta.
Eu tinha brigado com Patrick, na verdade, batido nele, há uma semana. No mesmo dia, ouvindo a todos os deuses, Lenneth terminou com ele, mas eu não deixava de ficar preocupado. Patrick ainda estava recebendo detenções de Renomaru e se eu conhecia meu professor, estavam sendo rígidas. Mas Patrick merecia muito mais do que simples detenções.
Eu tinha que me controlar sempre que o via, pois toda vez que ele passava por mim, sentia vontade de bater nele mais um pouco. Pelo menos não era só comigo, e todos os nossos amigos tinham a mesma reação.
Apesar de tudo, a escola voltava a sua rotina normal e nós também. Tivemos uma notícia ruim recentemente, pois o pai do Finn faleceu de repente e foi um choque para ele e até mesmo para nós.
Eu fora proibido de ir para o vilarejo por uma semana e apenas hoje pude voltar a trabalhar na livraria de Fer. Ela me recebeu animada e conversamos sobre tudo que aconteceu. Eu contei pra ela sobre minha briga com a Liseria e ela falou que eu estava sendo cabeça-dura, mas pelo menos concordou comigo que Liseria também. Então comecei a ouvir uma música suave, vinda do andar de cima.
Fare thee well, little broken heart
Downcast eyes, lifetime loneliness
Whatever walks in my heart will walk alone
Constant longing for the perfect soul
Unwashed scenery forever gone
No love left in me
No eyes to see the heaven beside me
My time is yet to come
So I'll be forever yours
Era Lenneth cantando. Eu havia esquecido que ela tinha aulas de canto no andar de cima da livraria. Fui até a sala onde ela tinha aula e abri a porta devagar. Eu conhecia essa música, era uma música do Nightwish. A música era muito bonita, mas era triste, falando sobre corações partidos e uma busca eterna por carinho e amor. Fiquei parado na porta observando-a e vi como ela se esforçava para cantar e como gostava disso. Percebi que seus machucados estavam sumindo, e sua beleza permanecia a mesma de sempre.
- Você tem talento, Val. – Eu falei quando ela terminou de cantar. Ela se sobressaltou um pouco e ficou vermelha por eu tê-la ouvido cantar.
- Obrigada, mas ainda tenho muito que aprender.
- E sua professora? – Eu perguntei, sentando-me no sofá. Ela ficou atarefada mexendo em algumas partituras e não veio falar comigo. Parecia até querer evitar meu olhar.
- Ela já deve estar chegando, eu vim um pouco mais cedo para ensaiar essa música... Queria muito cantá-la. – Ela falou e sorriu para mim. Nesse momento, a professora dela bateu na porta e eu me desculpei e sai, deixando-as ensaiar.
----------------------------
Eu e Liseria nos resolvemos dois dias depois. Como sempre não conseguíamos ficar muito tempo brigados, mas voltamos a discutir no mesmo dia e nos afastamos por mais um dia. Só depois de três dias da primeira briga voltamos a nos falar normalmente.
Hoje saia mais uma edição do nosso jornal, em que fizemos a cobertura da festa de Halloween. Infelizmente, também saiu o jornal clandestino, que agora se denominava Aurora Boreal.
Foi um desastre essa nova edição deles.
Ainda não sabíamos como eles publicavam-na, pois todas as gráficas estavam informadas de não aceitar nenhuma publicação estranha daquele jornal.
Mesmo assim, na mesma manhã que nosso jornal saia, ele circulava entre os alunos. Haviam comentários e colunas sem o menor controle. Falavam mal de alunos abertamente, contavam sobre casos de namoros mal resolvidos, sobre quem havia ficado com quem, sobre quem tinha sido visto se agarrando em um local do jardim. Falaram sobre Lenneth, Patrick e eu, dizendo que eu queria impedir os homens “de verdade” de colocarem suas mulheres no lugar. Falaram mal até mesmo do diretor e de vários professores. Não haviam limites alguns. E claro, houveram ataques ao nosso jornal, além da publicação de meus textos.
O Diretor mandou recolher todos os jornais e disse que quem fosse pego com um exemplar receberia detenção e punição. Mas sempre haviam novas edições escondidas.
A maioria dos alunos fingia não ligar para o jornal novo, com medo da represaria do Instituto, mas muitos se divertiam e comentavam as matérias com escárnio e gritaria. Estava saindo do controle!
---------------------------
- Caro Derfel, que honra tê-lo conosco! – Arthur falou, a voz cheia de escárnio na voz.
- Foi difícil encontra-los, Vossa Majestade. – Lorde Derfel falou, fazendo uma referência a contra gosto. – Mudaram os locais de reunião e não fui informado.
- Não? Era papel do Lord Gwaine avisá-lo. – Arthur falou e olhou para Gwaine, como se brigasse com ele, mas havia diversão na voz de todos.
Derfel encarou os rostos mascarados e encapuzados. Viu o olhar de apoio de muitos de seus companheiros e soube que ainda tinha apoio ali. Mas não podia brincar com Arthur. Ele não era o líder deles a toa.
- Não há motivos para puni-lo, eu sou inteligente o bastante para encontrar os locais de reunião. – Derfel falou, jogando um exemplar do Aurora Boreal. – Vocês estão fazendo um grande trabalho, por não serem vistos.
- Obrigado, obrigado. – Arthur riu. – Mas devemos isso tudo a meu filho, Mordred. – Ele falou e um jovem saiu das sombras à sua direita. Ele tinha um ar metido e austero, sendo digno do título que carregava. – Mordred, acho que não conhece Lorde Derfel, ele era o responsável pelas iniciações.
- Mas amoleceu. Eu conheço sua história. – Mordred falou rindo. A temperatura da sala cresceu na mesma proporção que a tensão. Uma tocha acendeu-se do lado de Mordred, quase queimando seu rosto.
- Eu nunca amoleço, caro Mordred. Apenas aguardo a minha hora. – Derfel falou, o desafio claro na voz. – E sei quando atacar e como defender a mim e aos meus.
- Fico feliz que continue o mesmo.. Derfel... Mas vamos dar início às cerimônias? – Arthur falou e acenou com a mão. Três garotos, sem camisas, saíram de uma porta lateral. Seus olhos estavam vendados, mas eles caminhavam com orgulho. – Daremos boas vindas a novos irmãos essa noite, se eles se mostrarem dignos...
N.A.: Forever yours, Nightwish
Sunday, November 20, 2011
Novembro de 2015 - Segunda-feira
- E ela não ligou de volta ou tentou visitar?
- Pela milésima vez, não! – respondi sem paciência e Ozzy bufou do meu lado – Eu não tentei ligar pra ela como minha mãe queria, temia entrar em pânico se ela começasse a fazer perguntas.
- É, foi provavelmente uma sábia decisão. Isso não é bom, Parvati... – ele escorregou na poltrona – Se Kat está interessada em saber seu estado de saúde, pode estar suspeitando de alguma coisa.
- Acha que ela desconfia do que fizeram?
- Não, não acho que ela chegou a cogitar isso, mas ela está sentindo cheiro de coisa errada.
- Quando eu pedi a atenção de todos, isso incluía os dois sentados na platéia! – ouvimos a voz da professora Georgia nos olhando de cima do palco – Pra cá, agora.
Levantamos das poltronas e nos juntamos aos outros alunos no palco. Aquele era o meu primeiro para os shows, Leo e Robbie haviam me convencido a não abandonar o grupo e depois de uma conversa com a professora, ela havia aceitado minha volta. Estávamos todos um pouco desanimados naquela segunda, o pai de Finn havia morrido no fim de semana e todos nós fomos ao enterro, mas comparecemos ao teatro assim mesmo a pedido do próprio Finn, que ficou em casa por mais uns dias.
- Fico muito feliz que não estejam mais brigando, mas quando estão na minha aula exijo total atenção – ela brigou assim que pisamos no palco.
- Estávamos ouvindo lá de baixo – Ozzy falou e assenti, embora fosse mentira.
- Ah é mesmo? E o que o Lucian vai cantar? – ela cruzou os braços esperando a resposta.
- Jingle Bells? – ele arriscou e todo mundo riu.
- Muito engraçado, Sr. Lusth, mas precisamos de cantores aqui, não comediantes – ela entregou uma partitura para ele e outra pra mim – Vocês vão fazer um dueto.
- Baby It’s Cold Outside – ele leu o titulo da música e fez uma careta – Que música é essa?
- Como pode não conhecer essa música? – olhei pra ele incrédula, quase irritada pela estupidez.
- Sou obrigado a conhecer todas as músicas com temática natalina?
- Não, só os clássicos.
- Ok, chega – ela interrompeu – Se não conhece a música, dedique-se mais aos ensaios. Robbie estará aqui no teatro em todos os seus tempos vagos para ajudar.
- Sim, e não vou querer discussões idiotas nos meus ensaios – ele falou autoritário e ri, mas ele me encarou sério e vi que não estava brincando.
- Os outros dois duetos serão Leonora e Mitchell, com Have Yourself A Merry Little Christmas, e Lucian e Liseria, com A Christmas To Remember. Vamos fazer também dois números com grupos, um com as meninas e outro com os meninos.
- Todas as músicas vão ser de natal? – Oleg perguntou sacudindo a partitura e vi que tinha escrito Let It Snow nela.
- Sim, o show vai ser na véspera das férias de natal, no clube do vilarejo. O público vai ser adulto, muitas pessoas importantes, temos que manter o clima natalino.
- Na boate do meu pai? – Ozzy perguntou surpreso.
- Sim, mas só o primeiro show será nela. O próximo, em fevereiro, será em Sofia – todo mundo se agitou, mas ela interrompeu a animação com um único gesto – Em janeiro falaremos dele, agora vamos falar sobre a ordem das apresentações, Dario e eu já determinamos elas...
Ela puxou um papel da pasta e começamos a ditar a ordem em que nos apresentaríamos no show, como seria cada apresentação e a possibilidade de encaixar uma apresentação solo para Leo e eu, dependendo do tempo que todas as outras apresentações tomariam. Eram quase 21h quando ela nos liberou e os ensaios começariam, oficialmente, no dia seguinte. E eu já estava animada.
ººººººººº
Nossa escala para o ensaio com Robbie começou na terça-feira mesmo. Logo depois da aula de Alquimia Ozzy e eu fomos para o teatro. Leo estava saindo quando chegamos, tendo terminado de passar a música de sua apresentação solo, já que Mitchell também estava na Alquimia conosco.
Robbie era muito exigente, mas já estávamos acostumados com o jeito enérgico dele quando o assunto é música e não tivemos nenhum problema. Ozzy apanhou um pouco para pegar o ritmo da música, que tinha um jeito diferente de ser cantada – ele precisava começar as partes dele antes que eu terminasse as minhas – mas no fim já estava errando menos. Mais algumas horas de ensaio e estaríamos afinados para o show. O problema maior seria a coreografia, afinal, não podíamos ficar parados feito duas estátuas no palco. Essa parte ia ficar por conta da professora e já estava prevendo muitos aborrecimentos.
Saímos do teatro às 17h, depois de quase duas horas de ensaio, e Alec, Oleg e Julie estavam entrando para começarem os seus. Os dois nos cumprimentaram animados, mas Julie evitou me encarar quando passou do meu lado. Abaixei a cabeça desanimada e Ozzy percebeu.
- Ela vai amolecer – ele falou caminhando ao meu lado – Julie é durona, mas vai ceder.
- Jack disse que eu preciso fazer alguma coisa, mas não sei o que. Já tentei de tudo, mas ela ainda me culpa por tudo que aconteceu.
- Você vai encontrar um meio de se aproximarem outra vez. Confie um pouco em si mesma e tenha paciência.
- Paciência é a palavra de ordem, não é? – bufei e ele riu.
- Ah, Oscar, Parvati, que bom que os encontrei – o professor Wade nos interceptou no corredor – Podem me acompanhar, por favor?
Olhamos-nos intrigados, mas assentimos e o acompanhamos até a sala de duelos, onde aconteciam as aulas do curso. Não fazia idéia do que ele queria, será que estávamos indo mal nas aulas? Nem ele nem a professora O’Shea tinham nos dado uma avaliação negativa até agora e não estávamos mais brigando, então não conseguia imaginar qual era o problema. Quando chegamos à sala um homem estava de costas se despedindo de outra dupla das aulas, uma menina da Avalon e outra da Andrômeda. Elas saíram e ele nos mandou esperar, indo falar com o homem, que quando virou o reconheci como Dr. Martin Pace, o psicólogo que havia conversado com todas as duplas do curso quando ele começou. Eles conversaram por alguns minutos e depois se despediram. O Dr. Pace passou por nós dois nos cumprimentando e desapareceu no corredor.
- Entrem, por favor – ele sinalizou para entrarmos e apontou para as duas cadeiras na sua mesa.
- Aconteceu alguma coisa, professor? – Ozzy perguntou preocupado – Não estamos indo bem?
- Por que o Dr. Pace ainda está conversando com as duplas? – perguntei preocupada também.
- É exatamente sobre isso que quero conversar. O Dr. Pace ainda está aqui, porque depois da avaliação inicial que ele fez das duplas e de alguns relatórios que ele fez depois de acompanhar as aulas, algumas duplas vão continuar com as sessões.
- E nós somos uma dessas duplas? – Ozzy tinha o tom de voz mais desanimado do mundo. Se eu tivesse conseguido dizer alguma coisa, minha voz sairia parecida.
- Dr. Pace observou que existe um problema com confiança e isso pode atrapalhar o desenvolvimento de vocês no curso.
- Pensei que estávamos nos saindo bem – falei cansada.
- Vocês não estão indo mal, mas acho que podem melhorar. E enquanto não resolverem o que quer que esteja atrapalhando, não vão evoluir nas aulas.
- Certo, e o que precisamos fazer então? Só continuar com as sessões? Quantas? – Ozzy agora soava meio desesperado.
- Dr. Pace já consultou a grade de vocês e as consultas serão as quintas às 15h. Quantas sessões serão ou se vão ser mais de uma por semana fica a critério dele. As sessões serão aqui e começam essa semana, ele estará esperando os dois.
Assentimos e levantamos, saindo da sala. Não estava acreditando que íamos ter que fazer terapia de casal por causa do curso. Já estava começando a me arrepender de ter escolhido ser auror, mas ao menos esse ano estávamos nos entendendo. Se fosse no ano passado, eu já teria apresentado minha carta de desistência. Agora tudo que tínhamos que fazer era convencer o psicólogo de que não tínhamos problema nenhum e não estender as consultas. Ozzy era um manipulador de mentes, não podia ser difícil, não é?
- E ela não ligou de volta ou tentou visitar?
- Pela milésima vez, não! – respondi sem paciência e Ozzy bufou do meu lado – Eu não tentei ligar pra ela como minha mãe queria, temia entrar em pânico se ela começasse a fazer perguntas.
- É, foi provavelmente uma sábia decisão. Isso não é bom, Parvati... – ele escorregou na poltrona – Se Kat está interessada em saber seu estado de saúde, pode estar suspeitando de alguma coisa.
- Acha que ela desconfia do que fizeram?
- Não, não acho que ela chegou a cogitar isso, mas ela está sentindo cheiro de coisa errada.
- Quando eu pedi a atenção de todos, isso incluía os dois sentados na platéia! – ouvimos a voz da professora Georgia nos olhando de cima do palco – Pra cá, agora.
Levantamos das poltronas e nos juntamos aos outros alunos no palco. Aquele era o meu primeiro para os shows, Leo e Robbie haviam me convencido a não abandonar o grupo e depois de uma conversa com a professora, ela havia aceitado minha volta. Estávamos todos um pouco desanimados naquela segunda, o pai de Finn havia morrido no fim de semana e todos nós fomos ao enterro, mas comparecemos ao teatro assim mesmo a pedido do próprio Finn, que ficou em casa por mais uns dias.
- Fico muito feliz que não estejam mais brigando, mas quando estão na minha aula exijo total atenção – ela brigou assim que pisamos no palco.
- Estávamos ouvindo lá de baixo – Ozzy falou e assenti, embora fosse mentira.
- Ah é mesmo? E o que o Lucian vai cantar? – ela cruzou os braços esperando a resposta.
- Jingle Bells? – ele arriscou e todo mundo riu.
- Muito engraçado, Sr. Lusth, mas precisamos de cantores aqui, não comediantes – ela entregou uma partitura para ele e outra pra mim – Vocês vão fazer um dueto.
- Baby It’s Cold Outside – ele leu o titulo da música e fez uma careta – Que música é essa?
- Como pode não conhecer essa música? – olhei pra ele incrédula, quase irritada pela estupidez.
- Sou obrigado a conhecer todas as músicas com temática natalina?
- Não, só os clássicos.
- Ok, chega – ela interrompeu – Se não conhece a música, dedique-se mais aos ensaios. Robbie estará aqui no teatro em todos os seus tempos vagos para ajudar.
- Sim, e não vou querer discussões idiotas nos meus ensaios – ele falou autoritário e ri, mas ele me encarou sério e vi que não estava brincando.
- Os outros dois duetos serão Leonora e Mitchell, com Have Yourself A Merry Little Christmas, e Lucian e Liseria, com A Christmas To Remember. Vamos fazer também dois números com grupos, um com as meninas e outro com os meninos.
- Todas as músicas vão ser de natal? – Oleg perguntou sacudindo a partitura e vi que tinha escrito Let It Snow nela.
- Sim, o show vai ser na véspera das férias de natal, no clube do vilarejo. O público vai ser adulto, muitas pessoas importantes, temos que manter o clima natalino.
- Na boate do meu pai? – Ozzy perguntou surpreso.
- Sim, mas só o primeiro show será nela. O próximo, em fevereiro, será em Sofia – todo mundo se agitou, mas ela interrompeu a animação com um único gesto – Em janeiro falaremos dele, agora vamos falar sobre a ordem das apresentações, Dario e eu já determinamos elas...
Ela puxou um papel da pasta e começamos a ditar a ordem em que nos apresentaríamos no show, como seria cada apresentação e a possibilidade de encaixar uma apresentação solo para Leo e eu, dependendo do tempo que todas as outras apresentações tomariam. Eram quase 21h quando ela nos liberou e os ensaios começariam, oficialmente, no dia seguinte. E eu já estava animada.
ººººººººº
Nossa escala para o ensaio com Robbie começou na terça-feira mesmo. Logo depois da aula de Alquimia Ozzy e eu fomos para o teatro. Leo estava saindo quando chegamos, tendo terminado de passar a música de sua apresentação solo, já que Mitchell também estava na Alquimia conosco.
Robbie era muito exigente, mas já estávamos acostumados com o jeito enérgico dele quando o assunto é música e não tivemos nenhum problema. Ozzy apanhou um pouco para pegar o ritmo da música, que tinha um jeito diferente de ser cantada – ele precisava começar as partes dele antes que eu terminasse as minhas – mas no fim já estava errando menos. Mais algumas horas de ensaio e estaríamos afinados para o show. O problema maior seria a coreografia, afinal, não podíamos ficar parados feito duas estátuas no palco. Essa parte ia ficar por conta da professora e já estava prevendo muitos aborrecimentos.
Saímos do teatro às 17h, depois de quase duas horas de ensaio, e Alec, Oleg e Julie estavam entrando para começarem os seus. Os dois nos cumprimentaram animados, mas Julie evitou me encarar quando passou do meu lado. Abaixei a cabeça desanimada e Ozzy percebeu.
- Ela vai amolecer – ele falou caminhando ao meu lado – Julie é durona, mas vai ceder.
- Jack disse que eu preciso fazer alguma coisa, mas não sei o que. Já tentei de tudo, mas ela ainda me culpa por tudo que aconteceu.
- Você vai encontrar um meio de se aproximarem outra vez. Confie um pouco em si mesma e tenha paciência.
- Paciência é a palavra de ordem, não é? – bufei e ele riu.
- Ah, Oscar, Parvati, que bom que os encontrei – o professor Wade nos interceptou no corredor – Podem me acompanhar, por favor?
Olhamos-nos intrigados, mas assentimos e o acompanhamos até a sala de duelos, onde aconteciam as aulas do curso. Não fazia idéia do que ele queria, será que estávamos indo mal nas aulas? Nem ele nem a professora O’Shea tinham nos dado uma avaliação negativa até agora e não estávamos mais brigando, então não conseguia imaginar qual era o problema. Quando chegamos à sala um homem estava de costas se despedindo de outra dupla das aulas, uma menina da Avalon e outra da Andrômeda. Elas saíram e ele nos mandou esperar, indo falar com o homem, que quando virou o reconheci como Dr. Martin Pace, o psicólogo que havia conversado com todas as duplas do curso quando ele começou. Eles conversaram por alguns minutos e depois se despediram. O Dr. Pace passou por nós dois nos cumprimentando e desapareceu no corredor.
- Entrem, por favor – ele sinalizou para entrarmos e apontou para as duas cadeiras na sua mesa.
- Aconteceu alguma coisa, professor? – Ozzy perguntou preocupado – Não estamos indo bem?
- Por que o Dr. Pace ainda está conversando com as duplas? – perguntei preocupada também.
- É exatamente sobre isso que quero conversar. O Dr. Pace ainda está aqui, porque depois da avaliação inicial que ele fez das duplas e de alguns relatórios que ele fez depois de acompanhar as aulas, algumas duplas vão continuar com as sessões.
- E nós somos uma dessas duplas? – Ozzy tinha o tom de voz mais desanimado do mundo. Se eu tivesse conseguido dizer alguma coisa, minha voz sairia parecida.
- Dr. Pace observou que existe um problema com confiança e isso pode atrapalhar o desenvolvimento de vocês no curso.
- Pensei que estávamos nos saindo bem – falei cansada.
- Vocês não estão indo mal, mas acho que podem melhorar. E enquanto não resolverem o que quer que esteja atrapalhando, não vão evoluir nas aulas.
- Certo, e o que precisamos fazer então? Só continuar com as sessões? Quantas? – Ozzy agora soava meio desesperado.
- Dr. Pace já consultou a grade de vocês e as consultas serão as quintas às 15h. Quantas sessões serão ou se vão ser mais de uma por semana fica a critério dele. As sessões serão aqui e começam essa semana, ele estará esperando os dois.
Assentimos e levantamos, saindo da sala. Não estava acreditando que íamos ter que fazer terapia de casal por causa do curso. Já estava começando a me arrepender de ter escolhido ser auror, mas ao menos esse ano estávamos nos entendendo. Se fosse no ano passado, eu já teria apresentado minha carta de desistência. Agora tudo que tínhamos que fazer era convencer o psicólogo de que não tínhamos problema nenhum e não estender as consultas. Ozzy era um manipulador de mentes, não podia ser difícil, não é?
Tuesday, November 15, 2011
Tarde da noite, novembro de 2025
Eles haviam ido a um dos muito eventos da fundação que ela havia criado em apoio a crianças com câncer e suas familias. E depois de ver como estavam as suas filhas, ela entrava de volta no quarto deles, e começava a se preparar para dormir. O ritual era sempre o mesmo: ela ficava de frente para o enorme espelho, enquanto tirava os brincos das orelhas, ele se aproximava e abria o fecho de seu vestido, e fazia isso dando-lhe beijinhos pelo pescoço, enquanto ela comentava algum assunto:
- Ele fez um acampamento para eles, na biblioteca e agora estão lá, dormindo os três. Não sei como ele tem tanta paciência.
- Ele quer ser o melhor avô do mundo.- ele respondeu com a voz abafada.
- Nossas filhas o adoram e ele parece sentir o mesmo por elas, me pergunto como isso é possível...- ela parecia mesmo considerar o que dizia, porém não perdia um movimento das mãos fortes de seu marido, enquanto ele respondia:
- Acho que esta é forma que ele tem de tentar consertar as coisas com você.
- O passado não volta atrás. E o jogo como foi? Quero saber dos detalhes, você tem uma nova cicatriz no braço...- ela disse alisando o braço dele:
- Sou um atleta, algumas cicatrizes fazem parte do trabalho e não tente mudar de assunto: é impossível alguém fingir tanto afeto por duas crianças tão sapecas quanto as nossas, e ele as ama. Dê um voto de confiança a ele, da mesma forma que fez com a sua mãe.- ela suspirou e enquanto o vestido descia, os dedos dele tocavam sua pele bem devagar, e ele acariciou a lateral do seu corpo, e espalmou a mão sobre a sua barriga, enquanto seus olhos se encontravam refletidos no espelho, ele disse:
- Nossas filhas deixaram uma cartinha para o Papai Noel...
- Já? Mas ainda nem entramos em dezembro...- ela respondeu e ele sorriu:
- Você sabe que até a véspera de Natal elas vão mandar outras, mas esta tem o dedo dos padrinhos delas. Robbie e Parvati sugeriram que elas precisam de um closet, afinal elas já têm idade.
- Desde quando duas meninas de 5 anos têm idade para ter um closet? Só Robbie e Parv para terem estas idéias.- ela resmungou e ele riu, e algo em sua risada a fez virar a cabeça e olhar para cima, pois ele era bem mais alto que ela:
-Ó céus, você disse sim!- e ele abaixou a cabeça e deu uma mordidinha em seu ombro e assoprou logo em seguida:
- O empreiteiro vem segunda pela manhã.E você sempre disse que um closet pode salvar a vida de uma garota, bem nossas duas filhas decidiram que precisam de um.
- Você as mima demais... Isso não é bom, vai torna-las insuportáveis.- ela já sentia suas pernas vacilando.
- Mas vamos impor condições: elas terão que manter o lugar arrumado.
- Sua filhas? Duvido. São muito bagunceiras, puxaram a você.- e antes que falasse mais alguma coisa, ele disse a ela:
- Mas quando fazem um acordo conosco, elas cumprem. Quando você ia me contar que vamos ter mais um bebê?
- Vamos? Que eu saiba não estou grávida...
- Bom, acho melhor darmos um jeito nisso.- começaram a rir quando ele a pegou no colo e levou para a cama.
Novembro de 2015
Sábado pela manhã
-Acorda, Léo, tem um dia de sol lindo lá fora batendo na sua porta.
- Diz que ele bateu na porta errada.- resmunguei afundando a cara no travesseiro, mas Robbie era mais forte que eu, e puxou meu travesseiro:
- Você vai se levantar e vai comigo jogar softbol, Leonora Marie. Não serei o único a fazer programa de índio nesta geleira. Eu invoco o código sagrado dos amigos.- ele disse e eu me sentei na cama, fazendo cara feia:
- Você devia esperar Parv chegar para invocar este código.Você vai jogar softbol? Você?
- Ela foi esperta para fugir de nós, então só tenho você.E sim, por incrivel que pareça vou jogar, o que a gente não faz para queimar um balde de pipoca com manteiga, depois de uma noitada de filmes. Acho melhor você, se arrumar e vir comigo, você comeu uma barra grande de chocolate ontem.- e apenas esta lembrança me fez pular da cama e me mexer. Mesmo que fosse para participar de um jogo, onde eu não sabia o que fazer.
Não demorou muito e Alec, Finn, Lucian e Orion, passaram na república, e desci encontrando Lis e Lenneth, prontas. Na rua, vimos que haviam outras garotas e rapazes de outras repúblicas, indo para o mesmo lugar. Todos queriam ter algo para fazer, antes de voltar para a maratona de provas. Fomos para o campo coberto, localizado nas imediações do castelo, e Ozzy já estava lá, conversando com Craig Ollafson, e logo Mitchell e Oleg se aproximaram com outras duas garotas, da Atlantis, uma república rival. Ele acenou para nós, e retribuímos.
- Vamos lá pessoal, vamos formar os times! – gritou Ollafson e Ozzy juntou o nosso pessoal e Craig formou um outro time e como eu e Robbie éramos os últimos, Ozzy ficou conosco a contra gosto. Mas avisou que iria nos colocar na reserva. Claro que não reclamamos.
Bem, isso não adiantou muito, pois na sexta corrida, Lis, acabou dando mau jeito no tornozelo, então Ozzy precisava de um novo recebedor. Como eu sabia que o recebedor seria aquele que iria correr mais pelo campo, e como Robbie e eu não queriamos a posição, disputamos no pedra, papel e tesoura e ele perdeu.
Ozzy, olhava para o placar que estava contra nós em 12 a 8, e gritava as instruções para Robbie, que sempre corria das bolas, tornando o jogo engraçado. Finn era rebatedor e Mitchell também, e a garota que estava com ele era lançadora do time adversário, e estava toda metida dando em cima dele, de uma forma totalmente vulgar, volta e meia, se esticava de forma a encostar o corpo nele. Não percebi que rosnava, até Robbie me chamar a atenção quando correu fugindo de outra bola:
- Pára de olhar assim, Léo, ou ela vai virar uma estátua de sal.- Não deu tempo de responder, porque Finn se aproximou, indo para sua base, se preparando para rebater um lançamento:
- Tudo bem com você, Léo? Parece nervosa.
- Está tudo bem, comi pouco no café da manhã. – respondi enquanto via Mitchell e a garota trocarem um beijo rápido. Finn, me abraçou, e me deu um bombom:
- Trouxe, porque sei que você precisa de açucar pela manhã.- disse e quando fui pegar, me deu um beijinho rápido, e dei risada, dizendo que o adorava, quando ouvimos um assobio e Ozzy gritando:
- O casalzinho aí, pode ir se largando.Lenneth, cometeu faltas e não pode jogar este tempo, Léo, você vai ser a lançadora.
- Desculpa, Léo, não entendo muito deste jogo.- disse Lenneth, passando perto de mim e eu dei de ombros rindo:
- Eu também não. Hey, Coach, o que eu tenho que fazer?- e Ozzy explicou o que deveria fazer e eu me posicionei na minha base, esperando a minha vez, e do outro lado do campo eu via a garota e Mitchell se provocando novamente:
- Porque eles não vão para um quarto?- resmunguei desgostosa e Robbie, passou correndo de uma outra bola novamente, e disse:
- Faça alguma coisa, ganhe logo este jogo, não aguento mais correr destas bolas assassinas...- ri dele e me posicionei:
- Leonora, agora é com você, do jeito que combinamos, ok?- disse Ozzy e balancei a cabeça afirmativamente.Lancei uma bola e o recebedor deles que era o Orion, a pegou.
- Fora!- gritou Craig, depois de pegarem meu segundo lançamento, nesta hora Courtney, a garota que estava com Mitchell, provocou:
- Hey, Ivashkov, está com artrite? Minha avó lança melhor e mais forte que você.- ela mal terminou de falar e eu não pensei direito, lancei a bola que estava na minha mão com toda a força e acertei bem no meio do peito dela, que foi a nocaute.
-Ooops, achei que era para lançar na segunda base. Não era isso? – vi que Mitchell correu apra ela, que estava caida no chão, se contorcendo. De repente ergui os olhos e Finn me encarava soturno, e eu disse:
- Será que está doendo muito? Desculpa.- disse alto fingindo me desculpar, olhando para os colegas, e muitos se dividiam entre rir e ir ver o que havia acontecido com a garota.
- Garota, você matou os gêmeos dela, e acho que ela ainda nem terminou de pagar por eles.- disse Robbie, rindo a valer.
Como os ânimos ficaram exaltados, Alec, Oleg e Lucian, correram até Ozzy , que estava batendo boca com Craig e outros membros do time adversário e tentavam controlar a confusão que se formou.
- Agressão a jogadores, é errado, deste jeito nós vamos embora!- gritou Craig e Ozzy, respondeu:
- Se você vai embora, está desistindo do jogo, então meu time ganhou.- e Craig gritava que não, e Ozzy dizia que sim, enquanto Lenneth e Liséria enxugavam as lágrimas de riso.
Courtney se levantou com a ajuda de Mitchell e ela começou a fazer voz dengosa, dizendo que queria ir embora, e se ele a levaria. Vi bem, os olhos calculistas dela e fervi por dentro. Como alguém podia ser tão dissimulada e como os homens ainda caíam nestes truques?
Com a confusão controlada, Ozzy chamou todo mundo para irmos comer e festejar nossa vitória no softbol, e ele para me zoar, levantou um brinde pedindo vivas para “a lançadora assassina”, e todos ríamos da piada. Depois do almoço, algumas pessoas foram embora e eu aproveitei a deixa, disse ao Finn para ficar com os garotos, que eu tinha coisas chatas para fazer e Lenneth aproveitou para voltar comigo e Orion na hora disse que nos acompanharia. Nos despedimos na porta da república, e logo subi para meu quarto, com Lenneth e ela quis saber, ao me ver pensativa:
- Léo, sei que não somos tão próximas, mas você parece precisar conversar, e como Robbie e nem Parvati estão aqui, pode falar comigo se quiser.
Minha primeira reação seria dizer que nada me incomodava, mas me vi perguntando:
- Alguma vez, você já teve dúvidas sobre os seus sentimentos? Ao mesmo tempo que pensa amar alguém, começa a sentir o mesmo por outra pessoa e do nada faz coisas estranhas?- e ela me respondeu:
- Sim, também tenho sentimentos em conflito, ainda não cheguei ao ponto de tentar matar alguém com uma bola de softbol, mas já fiz coisas malucas, sim. Então sou a última pessoa que poderia te dar algum conselho, mas acho que você deve prestar atenção aos seus sentimentos e descobrir a diferença entre amor e paixão. E quando descobrir, ir atrás de quem você ama.
- Certo...E você vai fazer isso quando?- quis saber marota e ela riu:
- Não sou o assunto aqui, mata-peitos.- caímos na gargalhada, e começamos a comentar sobre o jogo deixando de lado aquele assunto. Tomei um banho rápido, e quando estava secando o cabelo, bateram na minha porta avisando que eu tinha visitas. Desci, e encontrei Finn, ainda usando as roupas do jogo.Seus olhos estavam assustados e ele disse rápido:
- Léo, é o papai.Ele está no hospital, você vem comigo?
Peguei minha bolsa e sai de mãos dadas com Finn, e enquanto esperávamos o professor Maddox, para nos levar a Sofia via chave de portal, eu o abracei, para conforta-lo, quando o soltei, vi Mitchell indo embora. Nesta hora, o professor chegou e não tive mais tempo de pensar em meus sentimentos. Agora era o momento de me concentrar em Finn, e em ajuda-lo a passar pelo que estivesse em seu caminho da melhor maneira possível.
Eles haviam ido a um dos muito eventos da fundação que ela havia criado em apoio a crianças com câncer e suas familias. E depois de ver como estavam as suas filhas, ela entrava de volta no quarto deles, e começava a se preparar para dormir. O ritual era sempre o mesmo: ela ficava de frente para o enorme espelho, enquanto tirava os brincos das orelhas, ele se aproximava e abria o fecho de seu vestido, e fazia isso dando-lhe beijinhos pelo pescoço, enquanto ela comentava algum assunto:
- Ele fez um acampamento para eles, na biblioteca e agora estão lá, dormindo os três. Não sei como ele tem tanta paciência.
- Ele quer ser o melhor avô do mundo.- ele respondeu com a voz abafada.
- Nossas filhas o adoram e ele parece sentir o mesmo por elas, me pergunto como isso é possível...- ela parecia mesmo considerar o que dizia, porém não perdia um movimento das mãos fortes de seu marido, enquanto ele respondia:
- Acho que esta é forma que ele tem de tentar consertar as coisas com você.
- O passado não volta atrás. E o jogo como foi? Quero saber dos detalhes, você tem uma nova cicatriz no braço...- ela disse alisando o braço dele:
- Sou um atleta, algumas cicatrizes fazem parte do trabalho e não tente mudar de assunto: é impossível alguém fingir tanto afeto por duas crianças tão sapecas quanto as nossas, e ele as ama. Dê um voto de confiança a ele, da mesma forma que fez com a sua mãe.- ela suspirou e enquanto o vestido descia, os dedos dele tocavam sua pele bem devagar, e ele acariciou a lateral do seu corpo, e espalmou a mão sobre a sua barriga, enquanto seus olhos se encontravam refletidos no espelho, ele disse:
- Nossas filhas deixaram uma cartinha para o Papai Noel...
- Já? Mas ainda nem entramos em dezembro...- ela respondeu e ele sorriu:
- Você sabe que até a véspera de Natal elas vão mandar outras, mas esta tem o dedo dos padrinhos delas. Robbie e Parvati sugeriram que elas precisam de um closet, afinal elas já têm idade.
- Desde quando duas meninas de 5 anos têm idade para ter um closet? Só Robbie e Parv para terem estas idéias.- ela resmungou e ele riu, e algo em sua risada a fez virar a cabeça e olhar para cima, pois ele era bem mais alto que ela:
-Ó céus, você disse sim!- e ele abaixou a cabeça e deu uma mordidinha em seu ombro e assoprou logo em seguida:
- O empreiteiro vem segunda pela manhã.E você sempre disse que um closet pode salvar a vida de uma garota, bem nossas duas filhas decidiram que precisam de um.
- Você as mima demais... Isso não é bom, vai torna-las insuportáveis.- ela já sentia suas pernas vacilando.
- Mas vamos impor condições: elas terão que manter o lugar arrumado.
- Sua filhas? Duvido. São muito bagunceiras, puxaram a você.- e antes que falasse mais alguma coisa, ele disse a ela:
- Mas quando fazem um acordo conosco, elas cumprem. Quando você ia me contar que vamos ter mais um bebê?
- Vamos? Que eu saiba não estou grávida...
- Bom, acho melhor darmos um jeito nisso.- começaram a rir quando ele a pegou no colo e levou para a cama.
Novembro de 2015
Sábado pela manhã
-Acorda, Léo, tem um dia de sol lindo lá fora batendo na sua porta.
- Diz que ele bateu na porta errada.- resmunguei afundando a cara no travesseiro, mas Robbie era mais forte que eu, e puxou meu travesseiro:
- Você vai se levantar e vai comigo jogar softbol, Leonora Marie. Não serei o único a fazer programa de índio nesta geleira. Eu invoco o código sagrado dos amigos.- ele disse e eu me sentei na cama, fazendo cara feia:
- Você devia esperar Parv chegar para invocar este código.Você vai jogar softbol? Você?
- Ela foi esperta para fugir de nós, então só tenho você.E sim, por incrivel que pareça vou jogar, o que a gente não faz para queimar um balde de pipoca com manteiga, depois de uma noitada de filmes. Acho melhor você, se arrumar e vir comigo, você comeu uma barra grande de chocolate ontem.- e apenas esta lembrança me fez pular da cama e me mexer. Mesmo que fosse para participar de um jogo, onde eu não sabia o que fazer.
Não demorou muito e Alec, Finn, Lucian e Orion, passaram na república, e desci encontrando Lis e Lenneth, prontas. Na rua, vimos que haviam outras garotas e rapazes de outras repúblicas, indo para o mesmo lugar. Todos queriam ter algo para fazer, antes de voltar para a maratona de provas. Fomos para o campo coberto, localizado nas imediações do castelo, e Ozzy já estava lá, conversando com Craig Ollafson, e logo Mitchell e Oleg se aproximaram com outras duas garotas, da Atlantis, uma república rival. Ele acenou para nós, e retribuímos.
- Vamos lá pessoal, vamos formar os times! – gritou Ollafson e Ozzy juntou o nosso pessoal e Craig formou um outro time e como eu e Robbie éramos os últimos, Ozzy ficou conosco a contra gosto. Mas avisou que iria nos colocar na reserva. Claro que não reclamamos.
Bem, isso não adiantou muito, pois na sexta corrida, Lis, acabou dando mau jeito no tornozelo, então Ozzy precisava de um novo recebedor. Como eu sabia que o recebedor seria aquele que iria correr mais pelo campo, e como Robbie e eu não queriamos a posição, disputamos no pedra, papel e tesoura e ele perdeu.
Ozzy, olhava para o placar que estava contra nós em 12 a 8, e gritava as instruções para Robbie, que sempre corria das bolas, tornando o jogo engraçado. Finn era rebatedor e Mitchell também, e a garota que estava com ele era lançadora do time adversário, e estava toda metida dando em cima dele, de uma forma totalmente vulgar, volta e meia, se esticava de forma a encostar o corpo nele. Não percebi que rosnava, até Robbie me chamar a atenção quando correu fugindo de outra bola:
- Pára de olhar assim, Léo, ou ela vai virar uma estátua de sal.- Não deu tempo de responder, porque Finn se aproximou, indo para sua base, se preparando para rebater um lançamento:
- Tudo bem com você, Léo? Parece nervosa.
- Está tudo bem, comi pouco no café da manhã. – respondi enquanto via Mitchell e a garota trocarem um beijo rápido. Finn, me abraçou, e me deu um bombom:
- Trouxe, porque sei que você precisa de açucar pela manhã.- disse e quando fui pegar, me deu um beijinho rápido, e dei risada, dizendo que o adorava, quando ouvimos um assobio e Ozzy gritando:
- O casalzinho aí, pode ir se largando.Lenneth, cometeu faltas e não pode jogar este tempo, Léo, você vai ser a lançadora.
- Desculpa, Léo, não entendo muito deste jogo.- disse Lenneth, passando perto de mim e eu dei de ombros rindo:
- Eu também não. Hey, Coach, o que eu tenho que fazer?- e Ozzy explicou o que deveria fazer e eu me posicionei na minha base, esperando a minha vez, e do outro lado do campo eu via a garota e Mitchell se provocando novamente:
- Porque eles não vão para um quarto?- resmunguei desgostosa e Robbie, passou correndo de uma outra bola novamente, e disse:
- Faça alguma coisa, ganhe logo este jogo, não aguento mais correr destas bolas assassinas...- ri dele e me posicionei:
- Leonora, agora é com você, do jeito que combinamos, ok?- disse Ozzy e balancei a cabeça afirmativamente.Lancei uma bola e o recebedor deles que era o Orion, a pegou.
- Fora!- gritou Craig, depois de pegarem meu segundo lançamento, nesta hora Courtney, a garota que estava com Mitchell, provocou:
- Hey, Ivashkov, está com artrite? Minha avó lança melhor e mais forte que você.- ela mal terminou de falar e eu não pensei direito, lancei a bola que estava na minha mão com toda a força e acertei bem no meio do peito dela, que foi a nocaute.
-Ooops, achei que era para lançar na segunda base. Não era isso? – vi que Mitchell correu apra ela, que estava caida no chão, se contorcendo. De repente ergui os olhos e Finn me encarava soturno, e eu disse:
- Será que está doendo muito? Desculpa.- disse alto fingindo me desculpar, olhando para os colegas, e muitos se dividiam entre rir e ir ver o que havia acontecido com a garota.
- Garota, você matou os gêmeos dela, e acho que ela ainda nem terminou de pagar por eles.- disse Robbie, rindo a valer.
Como os ânimos ficaram exaltados, Alec, Oleg e Lucian, correram até Ozzy , que estava batendo boca com Craig e outros membros do time adversário e tentavam controlar a confusão que se formou.
- Agressão a jogadores, é errado, deste jeito nós vamos embora!- gritou Craig e Ozzy, respondeu:
- Se você vai embora, está desistindo do jogo, então meu time ganhou.- e Craig gritava que não, e Ozzy dizia que sim, enquanto Lenneth e Liséria enxugavam as lágrimas de riso.
Courtney se levantou com a ajuda de Mitchell e ela começou a fazer voz dengosa, dizendo que queria ir embora, e se ele a levaria. Vi bem, os olhos calculistas dela e fervi por dentro. Como alguém podia ser tão dissimulada e como os homens ainda caíam nestes truques?
Com a confusão controlada, Ozzy chamou todo mundo para irmos comer e festejar nossa vitória no softbol, e ele para me zoar, levantou um brinde pedindo vivas para “a lançadora assassina”, e todos ríamos da piada. Depois do almoço, algumas pessoas foram embora e eu aproveitei a deixa, disse ao Finn para ficar com os garotos, que eu tinha coisas chatas para fazer e Lenneth aproveitou para voltar comigo e Orion na hora disse que nos acompanharia. Nos despedimos na porta da república, e logo subi para meu quarto, com Lenneth e ela quis saber, ao me ver pensativa:
- Léo, sei que não somos tão próximas, mas você parece precisar conversar, e como Robbie e nem Parvati estão aqui, pode falar comigo se quiser.
Minha primeira reação seria dizer que nada me incomodava, mas me vi perguntando:
- Alguma vez, você já teve dúvidas sobre os seus sentimentos? Ao mesmo tempo que pensa amar alguém, começa a sentir o mesmo por outra pessoa e do nada faz coisas estranhas?- e ela me respondeu:
- Sim, também tenho sentimentos em conflito, ainda não cheguei ao ponto de tentar matar alguém com uma bola de softbol, mas já fiz coisas malucas, sim. Então sou a última pessoa que poderia te dar algum conselho, mas acho que você deve prestar atenção aos seus sentimentos e descobrir a diferença entre amor e paixão. E quando descobrir, ir atrás de quem você ama.
- Certo...E você vai fazer isso quando?- quis saber marota e ela riu:
- Não sou o assunto aqui, mata-peitos.- caímos na gargalhada, e começamos a comentar sobre o jogo deixando de lado aquele assunto. Tomei um banho rápido, e quando estava secando o cabelo, bateram na minha porta avisando que eu tinha visitas. Desci, e encontrei Finn, ainda usando as roupas do jogo.Seus olhos estavam assustados e ele disse rápido:
- Léo, é o papai.Ele está no hospital, você vem comigo?
Peguei minha bolsa e sai de mãos dadas com Finn, e enquanto esperávamos o professor Maddox, para nos levar a Sofia via chave de portal, eu o abracei, para conforta-lo, quando o soltei, vi Mitchell indo embora. Nesta hora, o professor chegou e não tive mais tempo de pensar em meus sentimentos. Agora era o momento de me concentrar em Finn, e em ajuda-lo a passar pelo que estivesse em seu caminho da melhor maneira possível.
Thursday, November 10, 2011
Lembranças de Lenneth V. Aesir
Final de Setembro
- Você está excelente, garota! – Robbie falou, batendo palmas quando parou de tocar o piano. Eu respirava com dificuldade, tentando recuperar o fôlego, mas me sentia tão viva e feliz.
- Ainda tenho muito que aprender.
- Com certeza. Falta a você duas coisas: uma inspiração e aulas. A vontade de cantar e aprender você tem, agora precisa canalizar isso. Consegue pensar em alguma cantora ou mesmo cantor que possa te servir como inspiração?
- Tarja Turunen. – Eu falei, após pensar por poucos segundos. Sempre admirei a voz da Tarja, a ex-vocalista da banda trouxa Nightwish e a forma como ela se entregava as suas músicas. Uma das minhas maiores lembranças musicais era justamente ouvir “Phantom of the Opera” cantado por ela ao vivo em um show. Até hoje eu fico arrepiada lembrando daquilo e como quase chorei.
- Excelente escolha, combina com seu tom de voz e estilo. Mas é uma inspiração digna de desafio. É uma das maiores cantoras líricas da atualidade. Mas se depender de mim, você vai superá-la! – Ele falou e me abraçou alegre. Começamos a rodopiar no palco, cantarolando músicas aleatórias. Era meio que um exercício que ele fazia comigo, para treinar meu tempo musical e também lembrar de várias músicas que ele começava a cantarolar ou assobiar.
- O que está acontecendo aqui? – Ouvi alguém perguntando e nos assustamos pelo tom de voz. Patrick estava na beira do palco nos olhando como se eu estivesse tendo uma relação com Robbie. Na mesma hora o meu humor foi pro saco.
- Cantando e ensaiando, não está vendo? – Eu respondi, meio grosseira e vi quando ele ficou mais irritado. Ele marchou até nós e me puxou pelo braço, machucando-me.
- Está me machucando! – Eu reclamei e tentei me soltar. Robbie parecia indignado com o que via e não se movia, enquanto Patrick parecia descontrolado.
- Já te falei que não quero você assim tão agarrada com outros e que devia esquecer isso de cantar. – Ele falou e Robbie não se segurou mais. Ele empurrou Patrick para longe de mim e se colocou entre nós dois. Patrick era mais alto que Robbie e o olhava de cima.
- Com quem pensa que está falando? Com alguma garota qualquer? Ela é minha amiga, estamos ensaiando e vamos fazer do jeito que quisermos. E se ela tem talento e quer cantar, não vai ser você a impedi-la. – Robbie falou, enfezado e Patrick estufou o peito.
- Por mais que você seja gay, não o quero perto da minha namorada. E essas aulas vão acabar. – Patrick falou.
- Não vão mesmo. – Robbie teimou e Patrick o empurrou. Nessa hora eu não conseguia me mexer, amedrontada e assustada com o que via diante de mim. Então só ouvi quando alguém entrou correndo no palco.
- Ei, ei! – Era Lucian falando. Ele empurrou Patrick com força, afastando-o de mim e de Robbie. Robbie estava pronto para continuar brigando, mas vi que relaxou quando Lucian se meteu. – O que pensa que está fazendo?
- Isso não te diz respeito, Valesti. – Patrick respondeu entre dentes, dirigindo um olhar zangado para ele.
- Diz sim. Mexeu com meus amigos mexeu comigo. – Ele respondeu, encarando Patrick.
- E com a gente também. – Ouvimos mais pessoas chegando, agora eram Ozzy, Alec, Finn e Oleg que vinham até nós. Alec logo correu para Robbie. Patrick os encarou de cima abaixo e decidiu que não podia mais fazer nada e saiu andando, sem nem olhar para trás, dando uma ombrada em Lucian antes de sair.
- Você está bem? – Lucian perguntou, preocupado. Eu percebi então que tinha sentado no chão chorando. Ele me abraçou e eu chorei em seu ombro como sempre fazia quando éramos mais novos e eu tinha medo de alguma coisa, como quando Phillip me assustava.
- O que esse cara tá pensando que é? – Ozzy perguntou, com raiva. Eles começaram a discutir, mas quando viram que eu estava chorando pararam e ficaram calados, tentando me apoiar.
- Lucian, leva ela para a república. Ela precisa descansar. – Robbie falou, também preocupado.
Lucian assentiu e me ajudou a me levantar. Saí do teatro com a cabeça deitada em seu ombro e fomos andando abraçados. Aquela sensação era boa... Ele não falou nada, apenas me acalmou com tranqüilidade e carinho e eu comecei a relaxar. Mas então a dúvida nasceu dentro de mim de novo e me afastei, limpando as lágrimas. Continuamos andando em silêncio, as mãos dadas, apesar da confusão que eu sentia. Tinha vontade de beijá-lo a qualquer custo e era difícil controlar.
- Lenneth, por que você suporta isso? – Ele enfim perguntou. Eu fiquei um tempo calada.
- Eu gosto dele.
- Mesmo que goste, ele está passando dos limites. Podia ter machucado você ou o Robbie. – Ele falou preocupado. A confusão em meu coração me confundia...
- Ele só está com ciúmes...
- Do Robbie? De mim, do Ozzy eu até entenderia. Mas o Robbie tem um relacionamento com o Alec e não esconde de ninguém. Isso está ficando doentio. É perigoso para você.
- Isso não te diz respeito, Lucian. – Eu falei sem pensar. Ele então parou de andar e ficou um pouco atrás de mim.
- O que disse? – Ouvi incredulidade em sua voz.
- É o que falei. Isso não interessa a você ou a ninguém, não se meta na minha vida. – Eu soltei, mas assim que terminei de falar vi o quanto o magoei. Seus olhos ficaram vazios e tristes.
- Como quiser. – Ele falou zangado e passou por mim, andando rapidamente. Eu fiquei um tempo parada, sem acreditar no que tinha feito. Então comecei a correr atrás dele, chamando-o, mas ele me ignorou e sumiu por uma porta, quando o alcancei, ele já tinha ido embora.
--------------------------------------------------
Na mesma noite
- Ai! – Eu reclamei, quando Liseria puxou meu braço para ver.
- Quanto mais reclamar, pior vai ficar. – Ela falou simplesmente. Ela começou a massagear meu antebraço, onde um roxo em forma de mão estava marcado. Eu mordi os lábios, enquanto ela passava pomada. Julie andava de um lado para o outro, bufando. Parvati e Leonora não estavam conosco, em uma reunião do jornal. Era para Liseria estar lá também, mas ela conseguiu inventar uma desculpa para ficar comigo.
- Você não pode deixar isso ficar assim. – Ela por fim falou, encarando o roxo em meu braço.
- Não vai acontecer de novo. – Eu respondi, mas as duas me olharam incrédulas.
- Você tem que terminar esse namoro. Ele está passando do carinho, está virando obseção! – Lis falou indignada. Eu olhei pedindo ajuda para Julie, pois ela sabia o porquê de eu não terminar o namoro.
- Fale ao menos para os garotos. Se eles derem uma dura nele, ele vai parar com certeza. – Julie falou e Lis concordou, mas eu balancei a cabeça negativamente.
- Me prometam que não vão falar nada! Me prometam! Nem para o Lucian, Ozzy, Finn, Alec, Oleg ou mesmo Robbie! Nada disso deve sair daqui! – Ela começaram a protestar, mas eu balancei a cabeça novamente. – Prometam! – Por fim, elas prometeram e eu respirei aliviada. – Se isso chegar a qualquer um deles, vocês sabem que eles não vão deixar barato. Querem ver nossos amigos envolvidos em uma briga por minha causa?
- Não. – As duas concordaram, relutantes.
- Então nada disso deve sair daqui. – Eu completei e me deitei, olhando para o teto. O braço doía e o roxo parecia feio, mas eu não podia falar para ninguém... Depois de um tempo as duas deitaram do meu lado e começamos a conversar sobre outras coisas, como a festa de Halloween que chegaria em um mês.
---------------------------------
Festa de Halloween
O mês de Outubro tinha passado voando. E teve muitos acontecimentos.
Continuava namorando Patrick, que depois do incidente do palco, parecia mais calmo e parecia ignorar o que tinha acontecido. Eu havia imposto um tempo entre nós e o tratava friamente, mas ele continuava sempre perto de mim, apesar de não nos falarmos ou sairmos.
Robbie me arranjara uma professora de canto e eu tinha aula todas as segundas, quartas e sextas a noite. A professora vinha sempre para o vilarejo e nos encontrávamos para termos aula. Estava fazendo isso escondida do Patrick, em uma sala da livraria da Fer.
Isso implicava em ver cada vez mais o Lucian... Depois daquela minha mancada, eu o procurei no dia seguinte e me desculpei. Ele me perdoou, mas vi que ainda estava magoado. Eu nunca me arrependi tanto de algo como daquele dia... Ver no rosto dele a magoa e a tristeza por algo que eu tinha feito era horrível...
Mas haviam notícias boas! A festa de Halloween finalmente estava ganhando vida e trabalhávamos para transformar nossa república em uma casa de vampiras sanguinárias! Estava sendo divertido e o baile em si prometia ser lindo, com todas as decorações antigas e o clima antigo, misterioso, charmoso e belo do Conde Drácula, que seria vivido pelo próprio Lucian.
Outra notícia boa tinha sido dada pelo Renomaru. Em uma das aulas do clube de Alquimia, ele estava mais feliz do que nunca e iniciou a aula anunciando que sua esposa estava grávida de 4 meses. Comemoramos com ele e quase chorei, pois sabia como isso era importante para ele, ainda mais depois de terem perdido um filho há poucos meses. Ele disse que sua esposa estava passando bem e sendo tratada e monitorada pelos melhores médicos e curandeiros que eles conheciam e por isso eles achavam que tudo daria certo. Eu esperava que realmente desse certo!
No dia da festa, a nossa república fez um Cassino Vampiro e todos nos vestimos como vampiras sanguinárias. Eu em particular, vestia uma saia vermelha curta, uma blusa branca com decote e manchada de sangue, uma meia calça branca, além de olheiras e dentes postiços. Havia sido muito divertido amedrontar os visitantes com nossa encenação bem feita. Me diverti muito!
Na hora do baile em si, fomos todas juntas para o salão de festa, que já estava todo decorado em clima antigo. Era lindo, e eu me peguei imaginando como Durmstrang deveria ter sido há 400 anos atrás, como todo o seu clima imponente e majestoso. E o Lucian... Ele estava maravilhoso. A roupa antiga de Conde Drácula caia perfeitamente nele e lhe dava um ar majestoso. Ele estava recebendo todos com sorrisos galantes e misteriosos, totalmente envolvido com o papel. Quando ele me recebeu e dirigiu um olhar para mim, senti minhas pernas tremerem e quase derreti. Passei rápido por ele, para não ver Liseria, pois ele a recebeu com um beijo digno de um vampiro.
Passei a maior parte da noite conversando e dançando com meus amigos, sempre todos juntos. Acho que era uma forma de cada um ajudar o outro com relação ao Jack. Ele teria adorado aquela festa e tenho certeza que estaria fantasiado de vampiro, para atuar junto de Lucian. Já podia pensar em Jack sem querer chorar, mas sempre ficava aquela sensação de vazio...
Eu observava Patrick às vezes, preocupada por ele tentar fazer algo. Eu estava sempre acompanhada pelos meus amigos e nenhum dos garotos me deixavam sozinha, sempre olhando feio para Patrick. Ele estava conversando com seus amigos em uma mesa distante. Eu o vi bebendo várias vezes, o que não era anormal para ele. No que ele estava se tornando?
Eu dançava uma música animada com Alec, quando de repente senti um puxão em minha mão. Eu reclamei e tentei me soltar, mas não consegui. Vi então que era Patrick e ele começou a me arrastar para fora da pista de dança. Alec o empurrou, mas Patrick o ignorou e eu fiquei com medo, pois todos começavam a olhar. Me virei para Alec.
- Calma, eu resolvo isso. – Ele assentiu, mas ficou nos olhando. Saí com Patrick, ainda meio arrastada. Eu consegui me soltar nos jardins, estávamos perto de uma bela árvore enfeitada com luzes laranjas e vermelhas ao lado de uma das fontes, que barrava parcialmente a visão da porta do castelo.
- O que pensa que está fazendo? – Eu falei irritada, virando minhas costas para a árvore e encarando-o com raiva.
- Passando o baile com a minha namorada. Você está tão linda... – Ele falou e tentou me beijar. Eu o empurrei e ele me olhou estranho, de cima abaixo. Me senti constrangida, pois seus olhos se demoraram em meu decote e minhas pernas.
- Cuidado, ou vai perder a namorada. Ainda não perdoei as idiotices que você fez. – Eu falei, cruzando os braços. Ele deu de ombros.
- Não precisa perdoar, como já falei você é minha namorada. – Ele frisou o termo “minha” e eu descruzei os braços, pronta para discutir. Então, ele se aproximou rápido de mim e me empurrou contra a árvore, pressionando seu corpo junto ao meu. Ele me beijou a força. Eu tentei me afastar, mas ele era mais forte que eu. Uma de suas mãos desceu pela minha cintura e apertou minha perna com força, tentando afastá-las e subiu pela minha coxa, por baixo da minha saia. Eu entrei em desespero e tentei gritar, mas ele continuava me beijando e eu mal conseguia respirar. Sua mão subiu pela minha cintura, por dentro de minha blusa e chegou ao meu busto. Eu mordi seu lábio com força o empurrei com nojo, gritando. Dei um tapa em seu rosto, mas ele chegou a apertar meus seios com força e me machucara.
- Você está bêbado! Estou com nojo de você. – Eu falei irritada. Ele massageou o rosto e me olhou com raiva.
- Quem é você para bater em mim? – Ele perguntou e me segurou pelos dois braços novamente, me sacudindo. Eu gritei novamente, assustada e comecei a chorar.
Alguém o puxou pelo ombro e quando olhei deram um soco em seu rosto e ele foi jogado para trás. Lucian estava parado do meu lado, os olhos brilhando de raiva como eu nunca tinha visto. Ele se colocou entre eu e Patrick. Alec e Ozzy também estavam com ele, correndo até nós, acompanhado por dois dos professores vestidos de serviçais. Patrick cuspiu no chão e partiu para cima de Lucian, que conseguiu desviar, mas Patrick acertou um soco em sua barriga. Então Ozzy já estava perto da gente e deu outro soco em Patrick, enquanto Alec o empurrou com força.
- Chega! – Um dos professores, pela voz identifiquei como Maddox, falou separando todos os garotos com um feitiço. – Lokmov, detenção a partir de amanhã comigo. Os demais vou deixar voltarem para a festa, mas sem confusões!
O outro professor mascarado, acompanhou Patrick na direção de sua república. Maddox olhou para mim e perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim. Lucian massageava a barriga e eu o abracei, preocupada com ele e agradecendo. Ele se ofereceu para me acompanhar até a república, mas eu disse que não, ele era o anfitrião da festa. Ele teimou, mas para minha sorte Julie apareceu e eu fui com ela.
Eu estava assustada. Eu estava apavorada na verdade... Não acredito no que Patrick tinha tentado fazer. Meus seios doíam e eu sentia asco de pensar que ele os tocara. Sentia nojo ao pensar no que ele queria fazer... Eu tinha certeza que ninguém vira o que ele tentara e na confusão da briga, ninguém reparou em minha roupa amassada. Mesmo que o Lucian tenha sido rápido, ele não viu a tentativa do Patrick, se não o próprio Maddox teria expulsado-o ali mesmo... Eu tinha medo até de falar isso para Julie, com medo das implicações disso tudo.
Chegando na república que eu reparei como o pulso e o braço doíam, além do meu seio... Notei com terror que meu sutiã tinha sido rasgado... Mas o pior era a humilhação, o medo... Julie me ajudou e eu troquei de roupa, indo me deitar. Ela arregalou os olhos para as manchas no pulso e principalmente no seio e na coxa, mas eu não disse nada e ela se calou. Ela esperou até eu dormir, sentada do lado da minha cama. Eu estava chorando, me sentindo fraca... Não podia mais ter nada com o Patrick, não depois de hoje. Eu tinha medo dele agora... Se ele fizera aquilo tão perto de todos, o que não tentaria em outra ocasião? E se Lucian e os outros não tivessem chegado? Eu tremia só de pensar.
Adormeci pensando nisso, mas principalmente em Lucian, que mesmo vestido de Drácula parecia um cavaleiro medieval, salvando-me como nas histórias que ele me contava quando criança. Adormeci lembrando da balada de Beren e Luthien, a favorita de nós dois...
------------------
- Lucian, quero falar com você. – Julie falou assim que Lucian atendeu a porta. Era de manhã cedo, um dia após a festa de Halloween. Julie acordara cedo e foi logo para a Kratos, procurar por Lucian.
Eles eram amigos há muito tempo e sabia que ele sempre acordava cedo. Hoje estava um pouco cansado, pois ficara até tarde atuando como o Conde e namorando com Liseria.
- Pode falar, aconteceu algo? – Ele perguntou, esfregando os olhos.
- A Lenneth vai me odiar. Mas prefiro ser perjura do que continuar vendo minha amiga sofrer e ter medo. – Ela falou e contou para Lucian sobre os machucados e agressões. Os olhos de Lucian iam se arregalando e adquirindo um brilho raivoso.
------------------------
Não sabia que horas eram. Mas já era de manhã e devia ser cedo, pois o quarto estava silencioso.
Percebi então que havia alguém sentada em minha cama e me sobressaltei, apoiando-me em meus cotovelos, então ouvi uma voz calma e relaxei, deitando-me lentamente.
- Calma sou eu. – Era Lucian e sua voz era serena, mas marcada de preocupação. Ele estava sentado ao meu lado na minha cama e passava a mão em meus cabelos. Seus olhos desceram pelo meu corpo, parando no roxo em minha coxa. Ele me olhou nos olhos sem falar mais nada. Então ele pegou meu braço com delicadeza e olhou meu pulso machucado. Eu tentei afastar, mas ele resistiu, sem me machucar e olhou para a marca intensa.
- Onde mais? – Ele perguntou, simples e friamente.
Eu não disse nada, mas puxei o meu cabelo de lado e mostrei o roxo no braço. Ele apertou os lábios. Ele acariciou meu rosto e percebi como se controlava. Então eu me toquei que estava de camisola e me cobri com o lençol. Mas ele sabia da outra marca também. Eu sabia que ele tinha visto, pois enquanto estava apoiada em meu braço, ele a viu, já que a camisola era leve e fina. Eu senti uma sensação estranha com isso, que misturava nervoso, mas também ansiedade...
Ele então se levantou e vi que Julie estava em pé perto da porta.
- Cuide dela. – Ele falou e saiu pela porta rapidamente. Eu me levantei para ir atrás dele, mas Julie me segurou e me olhou séria.
- Deixa isso com ele.
Eu tentei discutir, mas ela foi irreversível e me obrigou a voltar para a cama. Mas era impossível dormir, sem saber o que aconteceria. Lucian não perdoaria Patrick pelo que tinha feito.
------------------------
Julie só me deixou sair da república na hora do café da manhã, por volta das 10. Então descobrimos o que aconteceu.
Lucian invadiu a república do Patrick e o tirou de lá a força, jogando-o no chão do pátio das repúblicas. Os garotos da república diziam que deixaram Lucian entrar, pois ele sempre foi bondoso com todos, mas assim que ele chegou no quarto de Patrick, o tirou da cama a pontapés e empurrões. Acho que adivinhando alguma coisa, Ozzy e Finn estavam por perto e viram quando tudo aconteceu. Disseram que Patrick estava zonzo de sono e de ressaca e mal podia revidar. Lucian o xingou de várias coisas e o acusou de bater em mulheres, chamando-o de covarde. Ele disse que se queria se impor e bater, porque não batia nele, em vez de ficar machucando pessoas indefesas. Ozzy e Finn o seguravam, enquanto outros garotos ajudavam Patrick a se manter em pé. Ele tinha um olho inchado do soco de Lucian e de Ozzy na noite anterior e tossia, devido a um soco que levou na barriga agora de manhã, quando Lucian o acordou.
A confusão só terminou quando os professores chegaram. Por sorte foi o Renomaru. Ele separou a briga com um olhar sério e deu uma bronca em Lucian. Reno, porém, perguntou ao redor e Ozzy confirmou as acusações de Lucian. Reno ficou enraivecido, mas não podia proteger ninguém. Ele mandou que levassem Patrick para a enfermaria e que ele estava proibido de sair de sua república por dois dias, a não ser para aulas. Ele receberia detenção com Maddox e com o próprio Reno por um mês. Lucian também seria punido e ficaria por duas semanas impedido de ir para a vila, apesar de ter livre acesso aos terrenos do castelo e república. Ele faria detenção com a professora Mira por 3 semanas.
Eu tinha que dar um ponto final naquilo tudo.
Procurei Patrick na enfermaria e ele sorriu ao me ver, como se nada tivesse acontecido. Fiquei longe dele, os braços cruzados, pois ele estava sentado na maca.
- Que bom que veio me ver. – Ele começou, mas eu o cortei.
- Acabou Patrick, não sou mais nem sua namorada, nem sua amiga. Quero que esqueça que eu existo. – Eu falei fria, agora com raiva dele. Seus olhos se arregalaram.
- Não estou entendendo.
- Não se faça de burro. Você é um idiota, mas não burro. Acabou. – Eu falei e ele tentou se levantar. Eu o empurrei de volta para a maca, sem me importar com seus machucados. – E se você se aproximar novamente de mim, se me tocar outra vez. – Eu falei, fechando os braços ao redor dos meus seios. – Eu juro que acabo com você. Vou denunciá-lo por abuso e tentativa de estupro.
Eu virei as costas sem mais falar nada e não olhei para trás.
Não acho que tenha sido um erro namorar o Patrick, pois eu precisava dar chances a outras pessoas. Mas foi um erro grave continuar com ele quando ele começou a se tornar possessivo... Isso tudo só servira para me deixar amedrontada perto dele... E nos últimos dias fortalecer o que eu sentia pelo Lucian...
O sentimento era puro e singelo, mas o desejo por ele crescia cada vez mais... Uma parte de mim dizia que eu teria deixado as mãos do Lucian me tocarem... Que eu faria tudo por ele... E que eu adoraria que ele fizesse isso...
E essa parte era cada vez mais forte, ameaçando ganhar da razão.
E eu não podia deixar isso acontecer.
Final de Setembro
- Você está excelente, garota! – Robbie falou, batendo palmas quando parou de tocar o piano. Eu respirava com dificuldade, tentando recuperar o fôlego, mas me sentia tão viva e feliz.
- Ainda tenho muito que aprender.
- Com certeza. Falta a você duas coisas: uma inspiração e aulas. A vontade de cantar e aprender você tem, agora precisa canalizar isso. Consegue pensar em alguma cantora ou mesmo cantor que possa te servir como inspiração?
- Tarja Turunen. – Eu falei, após pensar por poucos segundos. Sempre admirei a voz da Tarja, a ex-vocalista da banda trouxa Nightwish e a forma como ela se entregava as suas músicas. Uma das minhas maiores lembranças musicais era justamente ouvir “Phantom of the Opera” cantado por ela ao vivo em um show. Até hoje eu fico arrepiada lembrando daquilo e como quase chorei.
- Excelente escolha, combina com seu tom de voz e estilo. Mas é uma inspiração digna de desafio. É uma das maiores cantoras líricas da atualidade. Mas se depender de mim, você vai superá-la! – Ele falou e me abraçou alegre. Começamos a rodopiar no palco, cantarolando músicas aleatórias. Era meio que um exercício que ele fazia comigo, para treinar meu tempo musical e também lembrar de várias músicas que ele começava a cantarolar ou assobiar.
- O que está acontecendo aqui? – Ouvi alguém perguntando e nos assustamos pelo tom de voz. Patrick estava na beira do palco nos olhando como se eu estivesse tendo uma relação com Robbie. Na mesma hora o meu humor foi pro saco.
- Cantando e ensaiando, não está vendo? – Eu respondi, meio grosseira e vi quando ele ficou mais irritado. Ele marchou até nós e me puxou pelo braço, machucando-me.
- Está me machucando! – Eu reclamei e tentei me soltar. Robbie parecia indignado com o que via e não se movia, enquanto Patrick parecia descontrolado.
- Já te falei que não quero você assim tão agarrada com outros e que devia esquecer isso de cantar. – Ele falou e Robbie não se segurou mais. Ele empurrou Patrick para longe de mim e se colocou entre nós dois. Patrick era mais alto que Robbie e o olhava de cima.
- Com quem pensa que está falando? Com alguma garota qualquer? Ela é minha amiga, estamos ensaiando e vamos fazer do jeito que quisermos. E se ela tem talento e quer cantar, não vai ser você a impedi-la. – Robbie falou, enfezado e Patrick estufou o peito.
- Por mais que você seja gay, não o quero perto da minha namorada. E essas aulas vão acabar. – Patrick falou.
- Não vão mesmo. – Robbie teimou e Patrick o empurrou. Nessa hora eu não conseguia me mexer, amedrontada e assustada com o que via diante de mim. Então só ouvi quando alguém entrou correndo no palco.
- Ei, ei! – Era Lucian falando. Ele empurrou Patrick com força, afastando-o de mim e de Robbie. Robbie estava pronto para continuar brigando, mas vi que relaxou quando Lucian se meteu. – O que pensa que está fazendo?
- Isso não te diz respeito, Valesti. – Patrick respondeu entre dentes, dirigindo um olhar zangado para ele.
- Diz sim. Mexeu com meus amigos mexeu comigo. – Ele respondeu, encarando Patrick.
- E com a gente também. – Ouvimos mais pessoas chegando, agora eram Ozzy, Alec, Finn e Oleg que vinham até nós. Alec logo correu para Robbie. Patrick os encarou de cima abaixo e decidiu que não podia mais fazer nada e saiu andando, sem nem olhar para trás, dando uma ombrada em Lucian antes de sair.
- Você está bem? – Lucian perguntou, preocupado. Eu percebi então que tinha sentado no chão chorando. Ele me abraçou e eu chorei em seu ombro como sempre fazia quando éramos mais novos e eu tinha medo de alguma coisa, como quando Phillip me assustava.
- O que esse cara tá pensando que é? – Ozzy perguntou, com raiva. Eles começaram a discutir, mas quando viram que eu estava chorando pararam e ficaram calados, tentando me apoiar.
- Lucian, leva ela para a república. Ela precisa descansar. – Robbie falou, também preocupado.
Lucian assentiu e me ajudou a me levantar. Saí do teatro com a cabeça deitada em seu ombro e fomos andando abraçados. Aquela sensação era boa... Ele não falou nada, apenas me acalmou com tranqüilidade e carinho e eu comecei a relaxar. Mas então a dúvida nasceu dentro de mim de novo e me afastei, limpando as lágrimas. Continuamos andando em silêncio, as mãos dadas, apesar da confusão que eu sentia. Tinha vontade de beijá-lo a qualquer custo e era difícil controlar.
- Lenneth, por que você suporta isso? – Ele enfim perguntou. Eu fiquei um tempo calada.
- Eu gosto dele.
- Mesmo que goste, ele está passando dos limites. Podia ter machucado você ou o Robbie. – Ele falou preocupado. A confusão em meu coração me confundia...
- Ele só está com ciúmes...
- Do Robbie? De mim, do Ozzy eu até entenderia. Mas o Robbie tem um relacionamento com o Alec e não esconde de ninguém. Isso está ficando doentio. É perigoso para você.
- Isso não te diz respeito, Lucian. – Eu falei sem pensar. Ele então parou de andar e ficou um pouco atrás de mim.
- O que disse? – Ouvi incredulidade em sua voz.
- É o que falei. Isso não interessa a você ou a ninguém, não se meta na minha vida. – Eu soltei, mas assim que terminei de falar vi o quanto o magoei. Seus olhos ficaram vazios e tristes.
- Como quiser. – Ele falou zangado e passou por mim, andando rapidamente. Eu fiquei um tempo parada, sem acreditar no que tinha feito. Então comecei a correr atrás dele, chamando-o, mas ele me ignorou e sumiu por uma porta, quando o alcancei, ele já tinha ido embora.
--------------------------------------------------
Na mesma noite
- Ai! – Eu reclamei, quando Liseria puxou meu braço para ver.
- Quanto mais reclamar, pior vai ficar. – Ela falou simplesmente. Ela começou a massagear meu antebraço, onde um roxo em forma de mão estava marcado. Eu mordi os lábios, enquanto ela passava pomada. Julie andava de um lado para o outro, bufando. Parvati e Leonora não estavam conosco, em uma reunião do jornal. Era para Liseria estar lá também, mas ela conseguiu inventar uma desculpa para ficar comigo.
- Você não pode deixar isso ficar assim. – Ela por fim falou, encarando o roxo em meu braço.
- Não vai acontecer de novo. – Eu respondi, mas as duas me olharam incrédulas.
- Você tem que terminar esse namoro. Ele está passando do carinho, está virando obseção! – Lis falou indignada. Eu olhei pedindo ajuda para Julie, pois ela sabia o porquê de eu não terminar o namoro.
- Fale ao menos para os garotos. Se eles derem uma dura nele, ele vai parar com certeza. – Julie falou e Lis concordou, mas eu balancei a cabeça negativamente.
- Me prometam que não vão falar nada! Me prometam! Nem para o Lucian, Ozzy, Finn, Alec, Oleg ou mesmo Robbie! Nada disso deve sair daqui! – Ela começaram a protestar, mas eu balancei a cabeça novamente. – Prometam! – Por fim, elas prometeram e eu respirei aliviada. – Se isso chegar a qualquer um deles, vocês sabem que eles não vão deixar barato. Querem ver nossos amigos envolvidos em uma briga por minha causa?
- Não. – As duas concordaram, relutantes.
- Então nada disso deve sair daqui. – Eu completei e me deitei, olhando para o teto. O braço doía e o roxo parecia feio, mas eu não podia falar para ninguém... Depois de um tempo as duas deitaram do meu lado e começamos a conversar sobre outras coisas, como a festa de Halloween que chegaria em um mês.
---------------------------------
Festa de Halloween
O mês de Outubro tinha passado voando. E teve muitos acontecimentos.
Continuava namorando Patrick, que depois do incidente do palco, parecia mais calmo e parecia ignorar o que tinha acontecido. Eu havia imposto um tempo entre nós e o tratava friamente, mas ele continuava sempre perto de mim, apesar de não nos falarmos ou sairmos.
Robbie me arranjara uma professora de canto e eu tinha aula todas as segundas, quartas e sextas a noite. A professora vinha sempre para o vilarejo e nos encontrávamos para termos aula. Estava fazendo isso escondida do Patrick, em uma sala da livraria da Fer.
Isso implicava em ver cada vez mais o Lucian... Depois daquela minha mancada, eu o procurei no dia seguinte e me desculpei. Ele me perdoou, mas vi que ainda estava magoado. Eu nunca me arrependi tanto de algo como daquele dia... Ver no rosto dele a magoa e a tristeza por algo que eu tinha feito era horrível...
Mas haviam notícias boas! A festa de Halloween finalmente estava ganhando vida e trabalhávamos para transformar nossa república em uma casa de vampiras sanguinárias! Estava sendo divertido e o baile em si prometia ser lindo, com todas as decorações antigas e o clima antigo, misterioso, charmoso e belo do Conde Drácula, que seria vivido pelo próprio Lucian.
Outra notícia boa tinha sido dada pelo Renomaru. Em uma das aulas do clube de Alquimia, ele estava mais feliz do que nunca e iniciou a aula anunciando que sua esposa estava grávida de 4 meses. Comemoramos com ele e quase chorei, pois sabia como isso era importante para ele, ainda mais depois de terem perdido um filho há poucos meses. Ele disse que sua esposa estava passando bem e sendo tratada e monitorada pelos melhores médicos e curandeiros que eles conheciam e por isso eles achavam que tudo daria certo. Eu esperava que realmente desse certo!
No dia da festa, a nossa república fez um Cassino Vampiro e todos nos vestimos como vampiras sanguinárias. Eu em particular, vestia uma saia vermelha curta, uma blusa branca com decote e manchada de sangue, uma meia calça branca, além de olheiras e dentes postiços. Havia sido muito divertido amedrontar os visitantes com nossa encenação bem feita. Me diverti muito!
Na hora do baile em si, fomos todas juntas para o salão de festa, que já estava todo decorado em clima antigo. Era lindo, e eu me peguei imaginando como Durmstrang deveria ter sido há 400 anos atrás, como todo o seu clima imponente e majestoso. E o Lucian... Ele estava maravilhoso. A roupa antiga de Conde Drácula caia perfeitamente nele e lhe dava um ar majestoso. Ele estava recebendo todos com sorrisos galantes e misteriosos, totalmente envolvido com o papel. Quando ele me recebeu e dirigiu um olhar para mim, senti minhas pernas tremerem e quase derreti. Passei rápido por ele, para não ver Liseria, pois ele a recebeu com um beijo digno de um vampiro.
Passei a maior parte da noite conversando e dançando com meus amigos, sempre todos juntos. Acho que era uma forma de cada um ajudar o outro com relação ao Jack. Ele teria adorado aquela festa e tenho certeza que estaria fantasiado de vampiro, para atuar junto de Lucian. Já podia pensar em Jack sem querer chorar, mas sempre ficava aquela sensação de vazio...
Eu observava Patrick às vezes, preocupada por ele tentar fazer algo. Eu estava sempre acompanhada pelos meus amigos e nenhum dos garotos me deixavam sozinha, sempre olhando feio para Patrick. Ele estava conversando com seus amigos em uma mesa distante. Eu o vi bebendo várias vezes, o que não era anormal para ele. No que ele estava se tornando?
Eu dançava uma música animada com Alec, quando de repente senti um puxão em minha mão. Eu reclamei e tentei me soltar, mas não consegui. Vi então que era Patrick e ele começou a me arrastar para fora da pista de dança. Alec o empurrou, mas Patrick o ignorou e eu fiquei com medo, pois todos começavam a olhar. Me virei para Alec.
- Calma, eu resolvo isso. – Ele assentiu, mas ficou nos olhando. Saí com Patrick, ainda meio arrastada. Eu consegui me soltar nos jardins, estávamos perto de uma bela árvore enfeitada com luzes laranjas e vermelhas ao lado de uma das fontes, que barrava parcialmente a visão da porta do castelo.
- O que pensa que está fazendo? – Eu falei irritada, virando minhas costas para a árvore e encarando-o com raiva.
- Passando o baile com a minha namorada. Você está tão linda... – Ele falou e tentou me beijar. Eu o empurrei e ele me olhou estranho, de cima abaixo. Me senti constrangida, pois seus olhos se demoraram em meu decote e minhas pernas.
- Cuidado, ou vai perder a namorada. Ainda não perdoei as idiotices que você fez. – Eu falei, cruzando os braços. Ele deu de ombros.
- Não precisa perdoar, como já falei você é minha namorada. – Ele frisou o termo “minha” e eu descruzei os braços, pronta para discutir. Então, ele se aproximou rápido de mim e me empurrou contra a árvore, pressionando seu corpo junto ao meu. Ele me beijou a força. Eu tentei me afastar, mas ele era mais forte que eu. Uma de suas mãos desceu pela minha cintura e apertou minha perna com força, tentando afastá-las e subiu pela minha coxa, por baixo da minha saia. Eu entrei em desespero e tentei gritar, mas ele continuava me beijando e eu mal conseguia respirar. Sua mão subiu pela minha cintura, por dentro de minha blusa e chegou ao meu busto. Eu mordi seu lábio com força o empurrei com nojo, gritando. Dei um tapa em seu rosto, mas ele chegou a apertar meus seios com força e me machucara.
- Você está bêbado! Estou com nojo de você. – Eu falei irritada. Ele massageou o rosto e me olhou com raiva.
- Quem é você para bater em mim? – Ele perguntou e me segurou pelos dois braços novamente, me sacudindo. Eu gritei novamente, assustada e comecei a chorar.
Alguém o puxou pelo ombro e quando olhei deram um soco em seu rosto e ele foi jogado para trás. Lucian estava parado do meu lado, os olhos brilhando de raiva como eu nunca tinha visto. Ele se colocou entre eu e Patrick. Alec e Ozzy também estavam com ele, correndo até nós, acompanhado por dois dos professores vestidos de serviçais. Patrick cuspiu no chão e partiu para cima de Lucian, que conseguiu desviar, mas Patrick acertou um soco em sua barriga. Então Ozzy já estava perto da gente e deu outro soco em Patrick, enquanto Alec o empurrou com força.
- Chega! – Um dos professores, pela voz identifiquei como Maddox, falou separando todos os garotos com um feitiço. – Lokmov, detenção a partir de amanhã comigo. Os demais vou deixar voltarem para a festa, mas sem confusões!
O outro professor mascarado, acompanhou Patrick na direção de sua república. Maddox olhou para mim e perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim. Lucian massageava a barriga e eu o abracei, preocupada com ele e agradecendo. Ele se ofereceu para me acompanhar até a república, mas eu disse que não, ele era o anfitrião da festa. Ele teimou, mas para minha sorte Julie apareceu e eu fui com ela.
Eu estava assustada. Eu estava apavorada na verdade... Não acredito no que Patrick tinha tentado fazer. Meus seios doíam e eu sentia asco de pensar que ele os tocara. Sentia nojo ao pensar no que ele queria fazer... Eu tinha certeza que ninguém vira o que ele tentara e na confusão da briga, ninguém reparou em minha roupa amassada. Mesmo que o Lucian tenha sido rápido, ele não viu a tentativa do Patrick, se não o próprio Maddox teria expulsado-o ali mesmo... Eu tinha medo até de falar isso para Julie, com medo das implicações disso tudo.
Chegando na república que eu reparei como o pulso e o braço doíam, além do meu seio... Notei com terror que meu sutiã tinha sido rasgado... Mas o pior era a humilhação, o medo... Julie me ajudou e eu troquei de roupa, indo me deitar. Ela arregalou os olhos para as manchas no pulso e principalmente no seio e na coxa, mas eu não disse nada e ela se calou. Ela esperou até eu dormir, sentada do lado da minha cama. Eu estava chorando, me sentindo fraca... Não podia mais ter nada com o Patrick, não depois de hoje. Eu tinha medo dele agora... Se ele fizera aquilo tão perto de todos, o que não tentaria em outra ocasião? E se Lucian e os outros não tivessem chegado? Eu tremia só de pensar.
Adormeci pensando nisso, mas principalmente em Lucian, que mesmo vestido de Drácula parecia um cavaleiro medieval, salvando-me como nas histórias que ele me contava quando criança. Adormeci lembrando da balada de Beren e Luthien, a favorita de nós dois...
------------------
- Lucian, quero falar com você. – Julie falou assim que Lucian atendeu a porta. Era de manhã cedo, um dia após a festa de Halloween. Julie acordara cedo e foi logo para a Kratos, procurar por Lucian.
Eles eram amigos há muito tempo e sabia que ele sempre acordava cedo. Hoje estava um pouco cansado, pois ficara até tarde atuando como o Conde e namorando com Liseria.
- Pode falar, aconteceu algo? – Ele perguntou, esfregando os olhos.
- A Lenneth vai me odiar. Mas prefiro ser perjura do que continuar vendo minha amiga sofrer e ter medo. – Ela falou e contou para Lucian sobre os machucados e agressões. Os olhos de Lucian iam se arregalando e adquirindo um brilho raivoso.
------------------------
Não sabia que horas eram. Mas já era de manhã e devia ser cedo, pois o quarto estava silencioso.
Percebi então que havia alguém sentada em minha cama e me sobressaltei, apoiando-me em meus cotovelos, então ouvi uma voz calma e relaxei, deitando-me lentamente.
- Calma sou eu. – Era Lucian e sua voz era serena, mas marcada de preocupação. Ele estava sentado ao meu lado na minha cama e passava a mão em meus cabelos. Seus olhos desceram pelo meu corpo, parando no roxo em minha coxa. Ele me olhou nos olhos sem falar mais nada. Então ele pegou meu braço com delicadeza e olhou meu pulso machucado. Eu tentei afastar, mas ele resistiu, sem me machucar e olhou para a marca intensa.
- Onde mais? – Ele perguntou, simples e friamente.
Eu não disse nada, mas puxei o meu cabelo de lado e mostrei o roxo no braço. Ele apertou os lábios. Ele acariciou meu rosto e percebi como se controlava. Então eu me toquei que estava de camisola e me cobri com o lençol. Mas ele sabia da outra marca também. Eu sabia que ele tinha visto, pois enquanto estava apoiada em meu braço, ele a viu, já que a camisola era leve e fina. Eu senti uma sensação estranha com isso, que misturava nervoso, mas também ansiedade...
Ele então se levantou e vi que Julie estava em pé perto da porta.
- Cuide dela. – Ele falou e saiu pela porta rapidamente. Eu me levantei para ir atrás dele, mas Julie me segurou e me olhou séria.
- Deixa isso com ele.
Eu tentei discutir, mas ela foi irreversível e me obrigou a voltar para a cama. Mas era impossível dormir, sem saber o que aconteceria. Lucian não perdoaria Patrick pelo que tinha feito.
------------------------
Julie só me deixou sair da república na hora do café da manhã, por volta das 10. Então descobrimos o que aconteceu.
Lucian invadiu a república do Patrick e o tirou de lá a força, jogando-o no chão do pátio das repúblicas. Os garotos da república diziam que deixaram Lucian entrar, pois ele sempre foi bondoso com todos, mas assim que ele chegou no quarto de Patrick, o tirou da cama a pontapés e empurrões. Acho que adivinhando alguma coisa, Ozzy e Finn estavam por perto e viram quando tudo aconteceu. Disseram que Patrick estava zonzo de sono e de ressaca e mal podia revidar. Lucian o xingou de várias coisas e o acusou de bater em mulheres, chamando-o de covarde. Ele disse que se queria se impor e bater, porque não batia nele, em vez de ficar machucando pessoas indefesas. Ozzy e Finn o seguravam, enquanto outros garotos ajudavam Patrick a se manter em pé. Ele tinha um olho inchado do soco de Lucian e de Ozzy na noite anterior e tossia, devido a um soco que levou na barriga agora de manhã, quando Lucian o acordou.
A confusão só terminou quando os professores chegaram. Por sorte foi o Renomaru. Ele separou a briga com um olhar sério e deu uma bronca em Lucian. Reno, porém, perguntou ao redor e Ozzy confirmou as acusações de Lucian. Reno ficou enraivecido, mas não podia proteger ninguém. Ele mandou que levassem Patrick para a enfermaria e que ele estava proibido de sair de sua república por dois dias, a não ser para aulas. Ele receberia detenção com Maddox e com o próprio Reno por um mês. Lucian também seria punido e ficaria por duas semanas impedido de ir para a vila, apesar de ter livre acesso aos terrenos do castelo e república. Ele faria detenção com a professora Mira por 3 semanas.
Eu tinha que dar um ponto final naquilo tudo.
Procurei Patrick na enfermaria e ele sorriu ao me ver, como se nada tivesse acontecido. Fiquei longe dele, os braços cruzados, pois ele estava sentado na maca.
- Que bom que veio me ver. – Ele começou, mas eu o cortei.
- Acabou Patrick, não sou mais nem sua namorada, nem sua amiga. Quero que esqueça que eu existo. – Eu falei fria, agora com raiva dele. Seus olhos se arregalaram.
- Não estou entendendo.
- Não se faça de burro. Você é um idiota, mas não burro. Acabou. – Eu falei e ele tentou se levantar. Eu o empurrei de volta para a maca, sem me importar com seus machucados. – E se você se aproximar novamente de mim, se me tocar outra vez. – Eu falei, fechando os braços ao redor dos meus seios. – Eu juro que acabo com você. Vou denunciá-lo por abuso e tentativa de estupro.
Eu virei as costas sem mais falar nada e não olhei para trás.
Não acho que tenha sido um erro namorar o Patrick, pois eu precisava dar chances a outras pessoas. Mas foi um erro grave continuar com ele quando ele começou a se tornar possessivo... Isso tudo só servira para me deixar amedrontada perto dele... E nos últimos dias fortalecer o que eu sentia pelo Lucian...
O sentimento era puro e singelo, mas o desejo por ele crescia cada vez mais... Uma parte de mim dizia que eu teria deixado as mãos do Lucian me tocarem... Que eu faria tudo por ele... E que eu adoraria que ele fizesse isso...
E essa parte era cada vez mais forte, ameaçando ganhar da razão.
E eu não podia deixar isso acontecer.
Wednesday, November 09, 2011
- Um de nós devia ir com você – Robbie falava andando de um lado pro outro enquanto eu arrumava a mochila – Eu posso ir, não tenho planos pro fim de semana.
- Não preciso de babá 24h por dia – disse rindo - Eu vou ficar bem, não vai acontecer nada.
- Ah, então você também começou a ver o futuro? – disse debochado e Leo revirou os olhos.
- Robbie, pare com isso! – ela disse atirando uma almofada nele – Parvati não é demente e já provou que não é mais suicida, dê um voto de confiança e deixe-a ir pra casa sozinha.
- Obrigada! – sorri jogando a mochila nas costas e dei um beijo na bochecha dele – Se sair agora pego o trem de 17h e estarei em casa antes das 21h. Boa reunião no jornal, vejo vocês domingo.
Sai da Atena junto com as alunas que também já não tinham mais obrigações naquela sexta-feira e seguimos para a estação de trem do vilarejo. Muitos alunos de outras repúblicas já estavam lá, comprando seus bilhetes e ansiosos para chegar em suas casas. O trem sairia às 17h em ponto levando também muitos moradores da região para Sofia e me misturei a eles na hora do embarque, procurando um vagão com desconhecidos para fazer a viagem. Já conseguia manter a concentração e ao mesmo tempo conversar com alguém, mas era muito menos trabalhoso se fizesse isso em silêncio.
Sem as paradas que sempre acontecem na viagem das 21h, o trajeto até Sofia durou apenas três horas. Às 20h em ponto o trem parou na estação e as pessoas começaram a desembarcar. O motorista da minha mãe ia me buscar só meia hora mais tarde, então sai da estação sozinha. A praça da cidade estava apinhada de gente, acontecia algum tipo de festa. Não era nenhuma festa oficial, senão minha mãe teria me avisado, mas ainda assim era uma comemoração. Avistei um banco vazio próximo a estação e comecei a caminhar até lá, mas um carro passou a toda velocidade e quase me atropelou na calçada. O motorista vinha com a mão colada na buzina enquanto gritava e o barulho ensurdecedor dos gritos e vivas que acompanharam o carro tirou toda a minha concentração e aquilo foi o que bastou. Um segundo de falta de atenção e o pensamento de todas as pessoas na praça invadiram minha mente. Minha cabeça começou a girar e explodiu em dor. Passei a mão no rosto e vi que meu nariz estava sangrando. Então tudo ficou escuro.
ºººººººººº
Uma aglomeração se formou em volta do corpo caído na calçada. Um homem em um terno preto abriu espaço entre as pessoas e tentou reanimar a menina, sem sucesso. Sua expressão era de puro pavor. Ele pedia para as pessoas abrirem espaço e a deixarem respirar, mas ninguém obedecia.
- Por favor, ela precisa respirar! – ele gesticulava para a multidão, que se aglomerava cada vez mais – Senhorita Karev? Está me ouvindo?
- Karev? – alguém falou atrás dele – É a filha da prefeita!
- Saiam da frente! – uma mulher empurrou dois garotos e agachou ao lado do homem – Sou médica.
- Ela desmaiou, eu acho. Não vi o que aconteceu! Quando cheguei para buscá-la ela estava caída no chão. Ah meu Deus, olha quanto sangue!
- Calma, ela está respirando, só está desmaiada. O sangue é porque ela bateu a cabeça no chão, mas vai sobreviver. Você tem carro? – ele assentiu – Então a carregue até ele, vamos levá-la ao hospital. Ela precisa de uma tomografia.
O homem obedeceu e pegou a garota no colo com cuidado. A mulher ia abrindo caminho entre as pessoas sem nenhuma delicadeza e eles atravessaram a praça até onde seu carro estava estacionado. Era dia de jogo do time da cidade e o transito estava uma confusão, mas chegaram ao Hospital Geral de Sofia dez minutos depois.
- Dra. Lusth? – a enfermeira que estava na recepção se espantou – Pensei que tinha ido embora. Seu plantão não acabou?
- Voltei rapidinho, você não me viu aqui – ela indicou o homem com a garota nos braços – Ela bateu a cabeça no chão e está sangrando, coloque-a num quarto e chame o Dr. Karev.
- Não é melhor chamar um interno? Parece bem simples, ela provavelmente só vai precisar de uma tomografia – a enfermeira correu para indicar o caminho ao homem, checando o pulso da menina.
- É a filha dele, acho que vai querer chamá-lo – e a enfermeira arregalou o olho e correu para o telefone.
ºººººººººº
- Parv? – ouvi uma voz de criança me chamando – Parv? Você acordou?
Abri os olhos devagar e um par de olhos verdes me encarava muito perto. Saltei assustada e Mason pulou pro outro lado da cama, gritando. Consegui regular a respiração outra vez e forcei um sorriso que o fez se acalmar, mas ainda estava assustada. Mason era meu primo de seis anos, filho de uma das irmãs de meu pai, e ele era uma cópia fiel de Jack. Todos na minha família tinham alguma semelhança, muitos primos se pareciam, mas as semelhanças entre Mason e Jack sempre foram um pouco assustadoras. Estiquei os braços ainda sorrindo e ele se aproximou, me abraçando. Ele sempre foi meu xodó.
- Desculpe, mas você me assustou – disse beijando sua bochecha e ele beijou a minha – O que está fazendo aqui? Alias, onde eu estou?
- No hospital. Você bateu a cabeça no chão e desmaiou.
- Não me lembro disso. E o que você faz aqui?
- Mamãe e papai viajaram, foram esquiar na Suíça. Estou na sua casa até eles voltarem.
- Parvati! – mamãe entrou no quarto com o rosto pálido, mas sorriu quando viu que estava acordada – Meu Deus, que susto que nos deu!
- Como você está sentindo? – papai entrou logo depois dela e pousou a mão em minha cabeça, sorrindo também.
- Um pouco de dor de cabeça. Não lembro de ter batido a cabeça no chão, mas lembro de me sentir tonta.
- Você deve ter desmaiado e quando caiu, bateu a cabeça. Isso tem acontecido com freqüência?
- Não, nunca desmaiei na escola – não era mentira, mas também não era toda verdade.
O problema é que não podia contar a verdade a eles sem que me internassem outra vez. E tinha certeza que daquela vez eles iriam me colocar em uma camisa de força. Papai disse que não haviam encontrado nada na minha tomografia e que já podia ir para casa. Ele assinou minha alta e mamãe levou Mason e eu embora. Meu primo foi o caminho todo contando o que tinha feito desde que seus pais o deixaram com os meus e tentava ao máximo acompanhar as histórias, mas minha cabeça ainda doía muito e tudo que eu queria era deitar na minha cama e só acordar no dia seguinte.
ºººººººººº
Dormi instantaneamente quando deitei a cabeça no meu travesseiro, a primeira noite sem ouvir o sonho alheio, algo que sempre acontecia dividindo o quarto com mais quatro meninas. Não tinha uma noite tranqüila de sono desde que havia voltado para a escola, então quando acordei na manhã seguinte estava me sentindo leve e relaxada. Mason estava mais uma vez me olhando de perto, mas não me assustei. Ele pulou pra cima da cama quando viu que tinha acordado.
- Você precisa parar de fazer isso – disse lhe dando um beijo de bom dia.
- Você saiu no jornal – e me entregou um exemplar do jornal do dia, com uma notinha pequena contando que a filha da prefeita havia desmaiado no meio da rua.
- Ah que ótimo, me reconheceram – bufei e atirei o jornal no chão.
- Tia Karen precisou sair e tio Demetri já foi pro hospital. Você me leva no parque?
- Seus seguranças precisam ir?
- Mamãe diz que não posso sair sem eles.
- Tudo bem, vamos lá. Posso fingir que não tem ninguém nos seguindo.
Levantei da cama e fui tomar banho para sair com Mason. A irmã do meu pai, tia Amélia, era uma atriz no mundo trouxa mesmo sendo bruxa. Já tinha feito vários filmes e era constantemente seguida por paparazzis, assim como seu marido e Mason. Ela tinha verdadeiro pavor de expor ele à confusão que era sua vida, então nunca o deixava sair com quem quer que fosse sem que ao menos um de seus seguranças particulares estivesse junto. Então quando finalmente fiquei pronta e saímos para o quintal, um armário estava parado do lado da porta pronto para nos acompanhar.
O parquinho que Mason gostava de brincar não era longe da minha casa. Estava cheio de crianças naquela manhã e sentei no gramado, mais afastada, enquanto ele corria pros brinquedos. Ele finalmente cansou uma hora depois e sentou do meu lado. O segurança veio atrás dele, mas se manteve distante o bastante para não ouvir o que conversássemos, mas perto o suficiente para protegê-lo se fosse preciso.
- Por que você não foi brincar comigo? Você sempre brinca no balanço.
- Se eu contar uma coisa, você guarda segredo? – ele fez que sim com a cabeça, ansioso – Ninguém pode saber.
- Não vou contar pra ninguém, eu juro.
- Eu posso ouvir o que as pessoas pensam e isso é ruim, porque eu não sei como impedir. Não posso ficar no meio de muita gente senão minha cabeça dói.
- Foi por isso que você desmaiou ontem? – fiz que sim e ele fez uma cara de sábio que me fez rir – Por que você não foge pro seu lugar especial pra não ouvir as vozes?
- Lugar especial?
- É, como quando a família fica me olhando como se eu fosse o Jack, como se quisessem que eu fosse ele – sua voz ficou triste e tive que controlar a vontade de abraçá-lo – Isso me incomoda, então eu imagino que estou em outro lugar e não escuto mais ninguém falando ou me encarando. Sempre vou pra casa do lago do vovô. Por que você não tenta?
Sorri para ele e concordei em tentar, afinal, não tinha nada a perder. A casa do lago do vovô era o lugar onde eu sempre passava boa parte das férias na infância, com todos os meus primos. Era só ele e a vovó cuidando de uma verdadeira tropa, mas eles nunca se incomodaram ou tiveram problemas. Éramos muitos e bagunceiros, mas obedientes. Não íamos lá desde a morte do vovô, há dois anos, mas só tinha lembranças boas daquela época, então quando fechei os olhos a primeira imagem que vi a velha casa.
Era uma casa simples. Ela era toda feita de madeira e tinha dois andares, com quatro quartos espalhados na parte de cima. Uma era do vovô e da vovó e os outros eram cheios de beliches, para acomodar todos os netos. No andar de baixo tinha uma mesa enorme que acomodava todos, a cozinha onde vovó fazia as coisas mais gostosas do mundo e uma lareira, que era sempre acessa de noite para aquecer a casa. Relaxei mais e vi vovó na varanda, com uma Alexis de 4 anos no colo. Olhei para o quintal e vi minha versão de 6 anos passar correndo usando um maiô, com Julie e Jack também com roupas de banho correndo comigo. Nós três gritávamos enlouquecidos e corremos para o deque, mas ninguém sabia nadar e paramos na beirada. Vovô nos alcançou e pegou os três no colo com uma braçada só, nos fazendo cócegas. Riamos tanto que meu rosto ficou molhado de lágrimas. Vovó gritou da varanda que o lanche estava pronto e os netos começaram a aparecer de todos os lados, todos correndo para dentro da casa.
Abri os olhos e a imagem sumiu, mas não ouvia mais nada. O parque estava em silêncio. Os únicos sons eram a das crianças brincando, dos balanços indo de um lado pro outro e alguns poucos carros que passavam na rua. Nenhum pensamento.
- Funcionou? – Mason me encarava curioso.
- Você é um gênio – agarrei seu rosto e beijei sua bochecha – Vamos, vou comprar o maior sorvete que tiver na cidade, você merece.
Levantamos da grama e Mason segurou minha mão enquanto atravessávamos o parquinho na direção da sorveteria da cidade. Ele escolheu o sorvete que queria e comprei um pra mim também antes de voltarmos para casa. Mamãe já tinha voltado quando chegamos e reclamou que o sorvete ia estragar o almoço, mas não parecia realmente braba. Abracei-a feliz e ela retribuiu o abraço. Lembrei-me do que Alexis tinha dito, sobre cuidar dela. Mamãe estava sempre pálida desde o acidente, mas era a primeira vez que a via sorrir de verdade.
- Katarina passou aqui para lhe visitar, mas estava na rua com Mason. Pediu para deixar um abraço, mas não vai poder voltar mais tarde, tem uma viagem marcada com o noivo – mamãe falou enquanto nos acomodávamos na mesa para o almoço.
- Quem?
- Dra. Lusth, quem socorreu você na rua e a levou direto ao seu pai. Você não a conhece? Conhece seu irmão, Oscar, estudam juntos. Sei que não se gostam muito.
- Ah, ela – fui tomada por um pânico repentino, mas consegui disfarçar – Não sabia que ela era médica e que tinha me resgatado ontem.
- Ela é uma excelente médica, trabalha com seu pai há anos. Devia ligar para ela, agradecer por ontem. Ela estava preocupada quando veio aqui.
- Sim, vou ligar.
Mamãe ficou satisfeita e mudou de assunto, passando a falar sobre planos para um passeio em família à noite, quando papai chegasse do hospital. Eu sorria e concordava com tudo que ela dizia, mas minha mente já estava longe. Por que Katarina havia voltado para me ver hoje? Se ela era uma médica tão boa quanto minha mãe diz, saberia que não aconteceu nada demais e que eu estava bem, podia ter apenas ligado, afinal, tínhamos nos conhecido há apenas duas semanas e não éramos tão próximas assim. Se ela se deu ao trabalho de vir até aqui esperando me ver, era porque desconfiava de alguma coisa. Precisava avisar Ozzy o mais rápido possível, mas algo me dizia que não íamos conseguir manter o segredo por muito mais tempo.
- Não preciso de babá 24h por dia – disse rindo - Eu vou ficar bem, não vai acontecer nada.
- Ah, então você também começou a ver o futuro? – disse debochado e Leo revirou os olhos.
- Robbie, pare com isso! – ela disse atirando uma almofada nele – Parvati não é demente e já provou que não é mais suicida, dê um voto de confiança e deixe-a ir pra casa sozinha.
- Obrigada! – sorri jogando a mochila nas costas e dei um beijo na bochecha dele – Se sair agora pego o trem de 17h e estarei em casa antes das 21h. Boa reunião no jornal, vejo vocês domingo.
Sai da Atena junto com as alunas que também já não tinham mais obrigações naquela sexta-feira e seguimos para a estação de trem do vilarejo. Muitos alunos de outras repúblicas já estavam lá, comprando seus bilhetes e ansiosos para chegar em suas casas. O trem sairia às 17h em ponto levando também muitos moradores da região para Sofia e me misturei a eles na hora do embarque, procurando um vagão com desconhecidos para fazer a viagem. Já conseguia manter a concentração e ao mesmo tempo conversar com alguém, mas era muito menos trabalhoso se fizesse isso em silêncio.
Sem as paradas que sempre acontecem na viagem das 21h, o trajeto até Sofia durou apenas três horas. Às 20h em ponto o trem parou na estação e as pessoas começaram a desembarcar. O motorista da minha mãe ia me buscar só meia hora mais tarde, então sai da estação sozinha. A praça da cidade estava apinhada de gente, acontecia algum tipo de festa. Não era nenhuma festa oficial, senão minha mãe teria me avisado, mas ainda assim era uma comemoração. Avistei um banco vazio próximo a estação e comecei a caminhar até lá, mas um carro passou a toda velocidade e quase me atropelou na calçada. O motorista vinha com a mão colada na buzina enquanto gritava e o barulho ensurdecedor dos gritos e vivas que acompanharam o carro tirou toda a minha concentração e aquilo foi o que bastou. Um segundo de falta de atenção e o pensamento de todas as pessoas na praça invadiram minha mente. Minha cabeça começou a girar e explodiu em dor. Passei a mão no rosto e vi que meu nariz estava sangrando. Então tudo ficou escuro.
ºººººººººº
Uma aglomeração se formou em volta do corpo caído na calçada. Um homem em um terno preto abriu espaço entre as pessoas e tentou reanimar a menina, sem sucesso. Sua expressão era de puro pavor. Ele pedia para as pessoas abrirem espaço e a deixarem respirar, mas ninguém obedecia.
- Por favor, ela precisa respirar! – ele gesticulava para a multidão, que se aglomerava cada vez mais – Senhorita Karev? Está me ouvindo?
- Karev? – alguém falou atrás dele – É a filha da prefeita!
- Saiam da frente! – uma mulher empurrou dois garotos e agachou ao lado do homem – Sou médica.
- Ela desmaiou, eu acho. Não vi o que aconteceu! Quando cheguei para buscá-la ela estava caída no chão. Ah meu Deus, olha quanto sangue!
- Calma, ela está respirando, só está desmaiada. O sangue é porque ela bateu a cabeça no chão, mas vai sobreviver. Você tem carro? – ele assentiu – Então a carregue até ele, vamos levá-la ao hospital. Ela precisa de uma tomografia.
O homem obedeceu e pegou a garota no colo com cuidado. A mulher ia abrindo caminho entre as pessoas sem nenhuma delicadeza e eles atravessaram a praça até onde seu carro estava estacionado. Era dia de jogo do time da cidade e o transito estava uma confusão, mas chegaram ao Hospital Geral de Sofia dez minutos depois.
- Dra. Lusth? – a enfermeira que estava na recepção se espantou – Pensei que tinha ido embora. Seu plantão não acabou?
- Voltei rapidinho, você não me viu aqui – ela indicou o homem com a garota nos braços – Ela bateu a cabeça no chão e está sangrando, coloque-a num quarto e chame o Dr. Karev.
- Não é melhor chamar um interno? Parece bem simples, ela provavelmente só vai precisar de uma tomografia – a enfermeira correu para indicar o caminho ao homem, checando o pulso da menina.
- É a filha dele, acho que vai querer chamá-lo – e a enfermeira arregalou o olho e correu para o telefone.
ºººººººººº
- Parv? – ouvi uma voz de criança me chamando – Parv? Você acordou?
Abri os olhos devagar e um par de olhos verdes me encarava muito perto. Saltei assustada e Mason pulou pro outro lado da cama, gritando. Consegui regular a respiração outra vez e forcei um sorriso que o fez se acalmar, mas ainda estava assustada. Mason era meu primo de seis anos, filho de uma das irmãs de meu pai, e ele era uma cópia fiel de Jack. Todos na minha família tinham alguma semelhança, muitos primos se pareciam, mas as semelhanças entre Mason e Jack sempre foram um pouco assustadoras. Estiquei os braços ainda sorrindo e ele se aproximou, me abraçando. Ele sempre foi meu xodó.
- Desculpe, mas você me assustou – disse beijando sua bochecha e ele beijou a minha – O que está fazendo aqui? Alias, onde eu estou?
- No hospital. Você bateu a cabeça no chão e desmaiou.
- Não me lembro disso. E o que você faz aqui?
- Mamãe e papai viajaram, foram esquiar na Suíça. Estou na sua casa até eles voltarem.
- Parvati! – mamãe entrou no quarto com o rosto pálido, mas sorriu quando viu que estava acordada – Meu Deus, que susto que nos deu!
- Como você está sentindo? – papai entrou logo depois dela e pousou a mão em minha cabeça, sorrindo também.
- Um pouco de dor de cabeça. Não lembro de ter batido a cabeça no chão, mas lembro de me sentir tonta.
- Você deve ter desmaiado e quando caiu, bateu a cabeça. Isso tem acontecido com freqüência?
- Não, nunca desmaiei na escola – não era mentira, mas também não era toda verdade.
O problema é que não podia contar a verdade a eles sem que me internassem outra vez. E tinha certeza que daquela vez eles iriam me colocar em uma camisa de força. Papai disse que não haviam encontrado nada na minha tomografia e que já podia ir para casa. Ele assinou minha alta e mamãe levou Mason e eu embora. Meu primo foi o caminho todo contando o que tinha feito desde que seus pais o deixaram com os meus e tentava ao máximo acompanhar as histórias, mas minha cabeça ainda doía muito e tudo que eu queria era deitar na minha cama e só acordar no dia seguinte.
ºººººººººº
Dormi instantaneamente quando deitei a cabeça no meu travesseiro, a primeira noite sem ouvir o sonho alheio, algo que sempre acontecia dividindo o quarto com mais quatro meninas. Não tinha uma noite tranqüila de sono desde que havia voltado para a escola, então quando acordei na manhã seguinte estava me sentindo leve e relaxada. Mason estava mais uma vez me olhando de perto, mas não me assustei. Ele pulou pra cima da cama quando viu que tinha acordado.
- Você precisa parar de fazer isso – disse lhe dando um beijo de bom dia.
- Você saiu no jornal – e me entregou um exemplar do jornal do dia, com uma notinha pequena contando que a filha da prefeita havia desmaiado no meio da rua.
- Ah que ótimo, me reconheceram – bufei e atirei o jornal no chão.
- Tia Karen precisou sair e tio Demetri já foi pro hospital. Você me leva no parque?
- Seus seguranças precisam ir?
- Mamãe diz que não posso sair sem eles.
- Tudo bem, vamos lá. Posso fingir que não tem ninguém nos seguindo.
Levantei da cama e fui tomar banho para sair com Mason. A irmã do meu pai, tia Amélia, era uma atriz no mundo trouxa mesmo sendo bruxa. Já tinha feito vários filmes e era constantemente seguida por paparazzis, assim como seu marido e Mason. Ela tinha verdadeiro pavor de expor ele à confusão que era sua vida, então nunca o deixava sair com quem quer que fosse sem que ao menos um de seus seguranças particulares estivesse junto. Então quando finalmente fiquei pronta e saímos para o quintal, um armário estava parado do lado da porta pronto para nos acompanhar.
O parquinho que Mason gostava de brincar não era longe da minha casa. Estava cheio de crianças naquela manhã e sentei no gramado, mais afastada, enquanto ele corria pros brinquedos. Ele finalmente cansou uma hora depois e sentou do meu lado. O segurança veio atrás dele, mas se manteve distante o bastante para não ouvir o que conversássemos, mas perto o suficiente para protegê-lo se fosse preciso.
- Por que você não foi brincar comigo? Você sempre brinca no balanço.
- Se eu contar uma coisa, você guarda segredo? – ele fez que sim com a cabeça, ansioso – Ninguém pode saber.
- Não vou contar pra ninguém, eu juro.
- Eu posso ouvir o que as pessoas pensam e isso é ruim, porque eu não sei como impedir. Não posso ficar no meio de muita gente senão minha cabeça dói.
- Foi por isso que você desmaiou ontem? – fiz que sim e ele fez uma cara de sábio que me fez rir – Por que você não foge pro seu lugar especial pra não ouvir as vozes?
- Lugar especial?
- É, como quando a família fica me olhando como se eu fosse o Jack, como se quisessem que eu fosse ele – sua voz ficou triste e tive que controlar a vontade de abraçá-lo – Isso me incomoda, então eu imagino que estou em outro lugar e não escuto mais ninguém falando ou me encarando. Sempre vou pra casa do lago do vovô. Por que você não tenta?
Sorri para ele e concordei em tentar, afinal, não tinha nada a perder. A casa do lago do vovô era o lugar onde eu sempre passava boa parte das férias na infância, com todos os meus primos. Era só ele e a vovó cuidando de uma verdadeira tropa, mas eles nunca se incomodaram ou tiveram problemas. Éramos muitos e bagunceiros, mas obedientes. Não íamos lá desde a morte do vovô, há dois anos, mas só tinha lembranças boas daquela época, então quando fechei os olhos a primeira imagem que vi a velha casa.
Era uma casa simples. Ela era toda feita de madeira e tinha dois andares, com quatro quartos espalhados na parte de cima. Uma era do vovô e da vovó e os outros eram cheios de beliches, para acomodar todos os netos. No andar de baixo tinha uma mesa enorme que acomodava todos, a cozinha onde vovó fazia as coisas mais gostosas do mundo e uma lareira, que era sempre acessa de noite para aquecer a casa. Relaxei mais e vi vovó na varanda, com uma Alexis de 4 anos no colo. Olhei para o quintal e vi minha versão de 6 anos passar correndo usando um maiô, com Julie e Jack também com roupas de banho correndo comigo. Nós três gritávamos enlouquecidos e corremos para o deque, mas ninguém sabia nadar e paramos na beirada. Vovô nos alcançou e pegou os três no colo com uma braçada só, nos fazendo cócegas. Riamos tanto que meu rosto ficou molhado de lágrimas. Vovó gritou da varanda que o lanche estava pronto e os netos começaram a aparecer de todos os lados, todos correndo para dentro da casa.
Abri os olhos e a imagem sumiu, mas não ouvia mais nada. O parque estava em silêncio. Os únicos sons eram a das crianças brincando, dos balanços indo de um lado pro outro e alguns poucos carros que passavam na rua. Nenhum pensamento.
- Funcionou? – Mason me encarava curioso.
- Você é um gênio – agarrei seu rosto e beijei sua bochecha – Vamos, vou comprar o maior sorvete que tiver na cidade, você merece.
Levantamos da grama e Mason segurou minha mão enquanto atravessávamos o parquinho na direção da sorveteria da cidade. Ele escolheu o sorvete que queria e comprei um pra mim também antes de voltarmos para casa. Mamãe já tinha voltado quando chegamos e reclamou que o sorvete ia estragar o almoço, mas não parecia realmente braba. Abracei-a feliz e ela retribuiu o abraço. Lembrei-me do que Alexis tinha dito, sobre cuidar dela. Mamãe estava sempre pálida desde o acidente, mas era a primeira vez que a via sorrir de verdade.
- Katarina passou aqui para lhe visitar, mas estava na rua com Mason. Pediu para deixar um abraço, mas não vai poder voltar mais tarde, tem uma viagem marcada com o noivo – mamãe falou enquanto nos acomodávamos na mesa para o almoço.
- Quem?
- Dra. Lusth, quem socorreu você na rua e a levou direto ao seu pai. Você não a conhece? Conhece seu irmão, Oscar, estudam juntos. Sei que não se gostam muito.
- Ah, ela – fui tomada por um pânico repentino, mas consegui disfarçar – Não sabia que ela era médica e que tinha me resgatado ontem.
- Ela é uma excelente médica, trabalha com seu pai há anos. Devia ligar para ela, agradecer por ontem. Ela estava preocupada quando veio aqui.
- Sim, vou ligar.
Mamãe ficou satisfeita e mudou de assunto, passando a falar sobre planos para um passeio em família à noite, quando papai chegasse do hospital. Eu sorria e concordava com tudo que ela dizia, mas minha mente já estava longe. Por que Katarina havia voltado para me ver hoje? Se ela era uma médica tão boa quanto minha mãe diz, saberia que não aconteceu nada demais e que eu estava bem, podia ter apenas ligado, afinal, tínhamos nos conhecido há apenas duas semanas e não éramos tão próximas assim. Se ela se deu ao trabalho de vir até aqui esperando me ver, era porque desconfiava de alguma coisa. Precisava avisar Ozzy o mais rápido possível, mas algo me dizia que não íamos conseguir manter o segredo por muito mais tempo.
Sunday, October 30, 2011
Sábado, 31 de Outubro de 2015
- Como estou? – Leo virou a cabeça pra trás, mostrando as presas de vampiro falsas.
- Está torto – respondi rindo – Ainda não acredito que vamos mesmo fazer parte disso.
- Nem eu, mas se vestir de crupiê vampira não é tão ruim assim, vai – Leo arrumou a presa torta e se afastou do espelho – Pronto, vamos logo. Quanto mais rápido acabarmos com isso, mais cedo chegamos na festa.
Fechei o estojo de maquiagem que tinha no colo e descemos as escadas para nos juntarmos as outras meninas. Nossa rapública tinha escolhido o tema Cassino Vampiro, então havíamos transformado nossa sala em um cassino digno de Las Vegas, misturado com muito sangue falso e caixões. Com as luzes apagadas era um pouco intimidador, mas o que realmente contava eram as representações. Cada uma tinha seu papel e quando os outros alunos começaram a chegar, a encenação começou. No início não achei que iam realmente se assustar, mas quando Liseria agarrou uma menina do 2º ano e fez menção de morder seu pescoço, ela deu um grito tão apavorado que todas as minhas incertezas evaporaram. No fim, tive que adimitir que foi divertido.
Sai da Atena duas horas depois, quando as atividades nas casas mal-assombradas terminaram. Elas abriram às 19h, duas horas antes da festa no salão principal, para todos terem tempo de explorá-las e ainda assim não perder a festa. A caminhada dos alunos do 6º e 7º ano das repúblicas até o salão principal parecia um circo dos horrores. Tinham as crupiês vampiras da Atena, os zumbis da Kratos, as múmias da Osíris, carrascos da Spartacus e muitas outras bizarrices. Robbie nos alcançou a meio caminho do castelo, arrumando suas ataduras de múmia que já começavam a se desfazer. Alec vinha ao seu lado com uma maquiagem de zumbi tão perfeita que me deu arrepio. Os outros meninos da Kratos iam logo à frente e andavam se arrastando, fazendo da caminhada uma cena de um filme sobre o apocalipse zumbi. Jack adorava esse tipo de filme, não pude deixar de ficar triste em pensar no quanto ele ia gostar de fazer parte daquela brincadeira.
Quando cheguei ao salão vi os professores tendo uma reunião. Eles seriam os encarregados de manter a ordem da festa e estavam vestidos de acordo com o tema. Cinco estavam vestidos como criados, quatro foram vestidos como um lacaio de carruagem e quatro estavam vestidos como aristocratas. Cada um ficaria posicionado em áreas de acordo com suas fantasias. Os aristocratas iam patrulhar a pista de dança e os servos o resto do salão, enquanto os lacaios ficariam no jardim de olho em qualquer casal que deixar o salão para visitar o jardim. Todos devidamente mascarados, era dificil dizer quem cuidada do que, embora eu duvidasse que a professora Mesic estivesse vestida como uma lacaia. Eles também estavam encarregados de distribuir máscaras aos alunos mais desligados que chegassem ao salão sem a sua.
Havia cadeiras que pareciam ter sido tiradas do próprio castelo do Drácula, pufes e sofás e um lustre de cristal lindo sobre a pista de dança. As mesas estavam cobertas de toalhas de aspecto antigo com cortinas de renda branca sobre elas. Cada uma comportava até oito pessoas e estavam arrumadas com pratos de porcelana para o jantar, taças de cristal e talheres de ouro. No meio de cada mesa havia um vidro com rosas como centro de mesa. Havia uma vitrola antiga em um canto tocando música clássica, mas também um espaço reservado para o DJ tocar música popular após o jantar. Parecia que Durmstrang tinha desenterrado seu passado e o reunido no salão principal.
A comida seria servida em estilo buffet. Havia assado de carne, de frango e costela, batata gratinada, legumes misturados e muito pão francês. Havia sodas, espumantes, um ponche delicioso feito a partir de água de gilly e limonada para beber. Conforme os alunos iam chegando, o professores vestido como servos os sentavam nas mesas na ordem em que chegavam. Só depois de sentados eles poderiam levantar e com seus pratos entrar na fila para o buffet.
Eu mal reconheci o diretor quando ele caminhou até o pódio. Estava vestido com uma roupa linda de cavaleiro do século 17 completa, com uma máscara que tinha uma pluma de avestruz escandalosamente longa. Ele circulava pelas mesas satisfeito com o resultado do trabalho do grêmio e parecia estar gostando do estilo de festa que foi criado. Embora a maioria dos alunos mais novos chegasse no salão esbaforidos e assustados depois da visita às repúblicas, o clima no baile não poderia ser melhor. Uma festa divertida e comportada, como há muito tempo Durmstrang nao via. Lucian também chegou cedo ao salão. Como estaria interpretando o anfritrião da festa, foi liberado de ter que se fantasiar de zumbi. Ele estava vestido como Conde Drácula e recebia os alunos junto do diretor, dando as boas vindas à sua casa com as presas sujas de sangue artificial à mostra.
Depois do jantar, e de alguns casais mais desinibidos arriscarem alguns passos de valsa ao som da música classica, todo mundo voltou para o século 21 quando o DJ começou a tocar música atual. Todos tiraram suas máscaras e a festa começou de verdade.
ººººººº
Já era quase meia noite, mas a festa ainda não dava indícios que que ia terminar. Apesar da comida ter sido quase toda devorada, ainda tinha muita bebida e disposição do DJ, então a pista de dança continuava fervendo. Eu já estava jogada na mesa, exausta. Com um salto alto que acabou com os meus pés depois de muito dançar e o excesso de alcool que havia me tirado o poder da concentração, já não estava mais conseguindo impedir que uma onda de pensamentos invadissem minha mente. Leo e Robbie ainda resistiam bravamente na pista, ela dançando animada com Finn e ele com Alec e Lenneth. A energia deles estava me esgotando. Ainda não estava a ponto de desmaiar, talvez o alcool tenha cooperado para isso, mas já estava com uma dor de cabeça insuportável, então enchi minha taça mais uma vez e levantei da mesa, saindo em direção aos jardins.
Muitos casais ocupavam os bancos do lado de fora, mas os quatro professores encarregados da vigilância externa estavam atentos. Agora que estavam sem as máscaras, via que os lacaios eram Mira Sakharov, Maddox, Marko Skoblar e Georgia Yelchin. Os quatro estavam conversando animados no canto do pátio, mas apesar da conversa parecer estar bastante divertida, mantinham os olhos bem abertos e não perdiam ninguém de vista. Eles estavam fazendo um pouco de vista grossa para os alunos do 7º ano, afinal, todos eram maiores de idade, mas os outros não estavam tendo folga. Passei por eles os cumprimentando com um aceno e caminhei até o lado mais afastado, onde os bancos ainda estavam vazios.
A confusão na minha cabeça já estava bem menor quando sentei afastada das pessoas, mas quando olhei para meu lado direito, na direção do lago congelado, achei que já era tarde demais e tinha ficado louca. Parado a alguns metros de distância, ainda com as roupas do dia do acidente, Jack fitava a entrada do castelo com um sorriso saudoso no rosto. Levantei lentamente, certa de que estava vendo coisas e que aquilo era culpa do alcool, mas então ele me viu. Sentei outra vez, sentindo que estava entrando em estado de choque vendo ele caminhar na minha direção. Em um instante ele estava parado na minha frente, a poucos centímetros de distância, e meu coração estava disparado e meu rosto molhado de lágrimas sem eu nem ao menos ter percebido que chorava. Não sabia o que fazer. Devia falar com ele ou desmaiar?
- Como? – foi tudo que conseguir dizer, depois de um longo tempo o encarando.
- É Halloween. O véu entre os mundos fica mais fino, é a noite em que nós, fantasmas, podemos nos comunicar com os vivos – ele respondeu sorrindo, mas eu ainda não conseguia formar sentenças – Estava me perguntando se em algum momento você ficaria sozinha.
- Por que?
- Porque você ia parecer maluca falando sozinha no meio do salão – ele riu, a mesma risada que eu lembrava – Ninguém mais pode me ver, só você.
- Sinto muito. Devia ter deixado você dirigir – dessa vez as lágrimas que cairam foram sentidas – É minha culpa você e Alexis não estarem aqui.
- O que aconteceu foi um acidente e já é hora de você parar de se culpar. Alexis e eu estamos bem, é com você que nos preocupamos. Muita coisa mudou, Parv. Você ganhou uma segunda chance, precisa provar que a mereceu.
- Se estiver falando do Ozzy, não estamos mais brigando.
- Não estou falando só dele. Você e Julie ainda não estão se falando. Ela sente falta de você, mesmo que brigassem na maioria das vezes. Sente falta da família por perto em Durmstrang.
- Ela também me culpa pelo acidente, como seus pais.
- Ninguém a culpa. Eles estavam ainda muito abalados, algumas coisas podem ter sido ditas sem pensar, mas ninguém realmente acha que a culpa foi sua.
- Como eu conserto as coisas com ela?
- Isso você terá que descobrir sozinha. Houve um tempo que vocês eram amigas, mas cresceram e as diferenças foram ficando mais evidentes. Talvez se pudesse lembrar como era aquela época... – Jack olhou para trás de repente e olhei por cima do seu ombro, mas não vi anda – Preciso ir. Alexis está me chamando.
- Ela está aqui? Por que não a vejo?
- Só podemos falar com uma pessoa, ela precisava encontrar Edgar.
- Você não falou com a Julie?
- Julie já seguiu em frente, minha aparição só a faria regredir – ele olhou para o lado agora e senti como se mais alguém estivesse ali. Ele sorriu e me encarou – Alexis quer que você faça um favor a ela. Tem uma caixa de madeira embaixo de sua cama e deve dar ela a Edgar. Quer também que você cuide da sua mãe, ela precisa de você. Ah, e ela está dizendo que sente sua falta.
- Também sinto sua falta, maninha. Você não imagina o quanto. Pode deixar que vou entregar a caixa a ele.
- Agora precisamos ir, nosso tempo está acabando.
- Vou vê-lo outra vez?
- Não. Você precisa seguir em frente – Jack se aproximou e beijou meu rosto. Tudo que senti foi um vento gelado quando sua boca tocou minha bochecha, mas era como se ele estivesse ali de carne e osso assim mesmo.
Ele se afastou e, com um último sorriso, se foi. Não sei por quanto tempo fiquei parada fitando o lugar onde ele desapareceu, pode ter sido alguns minutos, como também podem ter se passado horas. De repente senti uma mão tocar meu ombro e quando olhei para o lado Ozzy estava sentado do meu lado. Ainda maquiado como zumbi, ele tinha um semblante preocupado, mas quando me perguntou o que havia acontecido, tudo que consegui fazer foi me atirar em seus braços e começar a chorar.
- Como estou? – Leo virou a cabeça pra trás, mostrando as presas de vampiro falsas.
- Está torto – respondi rindo – Ainda não acredito que vamos mesmo fazer parte disso.
- Nem eu, mas se vestir de crupiê vampira não é tão ruim assim, vai – Leo arrumou a presa torta e se afastou do espelho – Pronto, vamos logo. Quanto mais rápido acabarmos com isso, mais cedo chegamos na festa.
Fechei o estojo de maquiagem que tinha no colo e descemos as escadas para nos juntarmos as outras meninas. Nossa rapública tinha escolhido o tema Cassino Vampiro, então havíamos transformado nossa sala em um cassino digno de Las Vegas, misturado com muito sangue falso e caixões. Com as luzes apagadas era um pouco intimidador, mas o que realmente contava eram as representações. Cada uma tinha seu papel e quando os outros alunos começaram a chegar, a encenação começou. No início não achei que iam realmente se assustar, mas quando Liseria agarrou uma menina do 2º ano e fez menção de morder seu pescoço, ela deu um grito tão apavorado que todas as minhas incertezas evaporaram. No fim, tive que adimitir que foi divertido.
Sai da Atena duas horas depois, quando as atividades nas casas mal-assombradas terminaram. Elas abriram às 19h, duas horas antes da festa no salão principal, para todos terem tempo de explorá-las e ainda assim não perder a festa. A caminhada dos alunos do 6º e 7º ano das repúblicas até o salão principal parecia um circo dos horrores. Tinham as crupiês vampiras da Atena, os zumbis da Kratos, as múmias da Osíris, carrascos da Spartacus e muitas outras bizarrices. Robbie nos alcançou a meio caminho do castelo, arrumando suas ataduras de múmia que já começavam a se desfazer. Alec vinha ao seu lado com uma maquiagem de zumbi tão perfeita que me deu arrepio. Os outros meninos da Kratos iam logo à frente e andavam se arrastando, fazendo da caminhada uma cena de um filme sobre o apocalipse zumbi. Jack adorava esse tipo de filme, não pude deixar de ficar triste em pensar no quanto ele ia gostar de fazer parte daquela brincadeira.
Quando cheguei ao salão vi os professores tendo uma reunião. Eles seriam os encarregados de manter a ordem da festa e estavam vestidos de acordo com o tema. Cinco estavam vestidos como criados, quatro foram vestidos como um lacaio de carruagem e quatro estavam vestidos como aristocratas. Cada um ficaria posicionado em áreas de acordo com suas fantasias. Os aristocratas iam patrulhar a pista de dança e os servos o resto do salão, enquanto os lacaios ficariam no jardim de olho em qualquer casal que deixar o salão para visitar o jardim. Todos devidamente mascarados, era dificil dizer quem cuidada do que, embora eu duvidasse que a professora Mesic estivesse vestida como uma lacaia. Eles também estavam encarregados de distribuir máscaras aos alunos mais desligados que chegassem ao salão sem a sua.
Havia cadeiras que pareciam ter sido tiradas do próprio castelo do Drácula, pufes e sofás e um lustre de cristal lindo sobre a pista de dança. As mesas estavam cobertas de toalhas de aspecto antigo com cortinas de renda branca sobre elas. Cada uma comportava até oito pessoas e estavam arrumadas com pratos de porcelana para o jantar, taças de cristal e talheres de ouro. No meio de cada mesa havia um vidro com rosas como centro de mesa. Havia uma vitrola antiga em um canto tocando música clássica, mas também um espaço reservado para o DJ tocar música popular após o jantar. Parecia que Durmstrang tinha desenterrado seu passado e o reunido no salão principal.
A comida seria servida em estilo buffet. Havia assado de carne, de frango e costela, batata gratinada, legumes misturados e muito pão francês. Havia sodas, espumantes, um ponche delicioso feito a partir de água de gilly e limonada para beber. Conforme os alunos iam chegando, o professores vestido como servos os sentavam nas mesas na ordem em que chegavam. Só depois de sentados eles poderiam levantar e com seus pratos entrar na fila para o buffet.
Eu mal reconheci o diretor quando ele caminhou até o pódio. Estava vestido com uma roupa linda de cavaleiro do século 17 completa, com uma máscara que tinha uma pluma de avestruz escandalosamente longa. Ele circulava pelas mesas satisfeito com o resultado do trabalho do grêmio e parecia estar gostando do estilo de festa que foi criado. Embora a maioria dos alunos mais novos chegasse no salão esbaforidos e assustados depois da visita às repúblicas, o clima no baile não poderia ser melhor. Uma festa divertida e comportada, como há muito tempo Durmstrang nao via. Lucian também chegou cedo ao salão. Como estaria interpretando o anfritrião da festa, foi liberado de ter que se fantasiar de zumbi. Ele estava vestido como Conde Drácula e recebia os alunos junto do diretor, dando as boas vindas à sua casa com as presas sujas de sangue artificial à mostra.
Depois do jantar, e de alguns casais mais desinibidos arriscarem alguns passos de valsa ao som da música classica, todo mundo voltou para o século 21 quando o DJ começou a tocar música atual. Todos tiraram suas máscaras e a festa começou de verdade.
ººººººº
Já era quase meia noite, mas a festa ainda não dava indícios que que ia terminar. Apesar da comida ter sido quase toda devorada, ainda tinha muita bebida e disposição do DJ, então a pista de dança continuava fervendo. Eu já estava jogada na mesa, exausta. Com um salto alto que acabou com os meus pés depois de muito dançar e o excesso de alcool que havia me tirado o poder da concentração, já não estava mais conseguindo impedir que uma onda de pensamentos invadissem minha mente. Leo e Robbie ainda resistiam bravamente na pista, ela dançando animada com Finn e ele com Alec e Lenneth. A energia deles estava me esgotando. Ainda não estava a ponto de desmaiar, talvez o alcool tenha cooperado para isso, mas já estava com uma dor de cabeça insuportável, então enchi minha taça mais uma vez e levantei da mesa, saindo em direção aos jardins.
Muitos casais ocupavam os bancos do lado de fora, mas os quatro professores encarregados da vigilância externa estavam atentos. Agora que estavam sem as máscaras, via que os lacaios eram Mira Sakharov, Maddox, Marko Skoblar e Georgia Yelchin. Os quatro estavam conversando animados no canto do pátio, mas apesar da conversa parecer estar bastante divertida, mantinham os olhos bem abertos e não perdiam ninguém de vista. Eles estavam fazendo um pouco de vista grossa para os alunos do 7º ano, afinal, todos eram maiores de idade, mas os outros não estavam tendo folga. Passei por eles os cumprimentando com um aceno e caminhei até o lado mais afastado, onde os bancos ainda estavam vazios.
A confusão na minha cabeça já estava bem menor quando sentei afastada das pessoas, mas quando olhei para meu lado direito, na direção do lago congelado, achei que já era tarde demais e tinha ficado louca. Parado a alguns metros de distância, ainda com as roupas do dia do acidente, Jack fitava a entrada do castelo com um sorriso saudoso no rosto. Levantei lentamente, certa de que estava vendo coisas e que aquilo era culpa do alcool, mas então ele me viu. Sentei outra vez, sentindo que estava entrando em estado de choque vendo ele caminhar na minha direção. Em um instante ele estava parado na minha frente, a poucos centímetros de distância, e meu coração estava disparado e meu rosto molhado de lágrimas sem eu nem ao menos ter percebido que chorava. Não sabia o que fazer. Devia falar com ele ou desmaiar?
- Como? – foi tudo que conseguir dizer, depois de um longo tempo o encarando.
- É Halloween. O véu entre os mundos fica mais fino, é a noite em que nós, fantasmas, podemos nos comunicar com os vivos – ele respondeu sorrindo, mas eu ainda não conseguia formar sentenças – Estava me perguntando se em algum momento você ficaria sozinha.
- Por que?
- Porque você ia parecer maluca falando sozinha no meio do salão – ele riu, a mesma risada que eu lembrava – Ninguém mais pode me ver, só você.
- Sinto muito. Devia ter deixado você dirigir – dessa vez as lágrimas que cairam foram sentidas – É minha culpa você e Alexis não estarem aqui.
- O que aconteceu foi um acidente e já é hora de você parar de se culpar. Alexis e eu estamos bem, é com você que nos preocupamos. Muita coisa mudou, Parv. Você ganhou uma segunda chance, precisa provar que a mereceu.
- Se estiver falando do Ozzy, não estamos mais brigando.
- Não estou falando só dele. Você e Julie ainda não estão se falando. Ela sente falta de você, mesmo que brigassem na maioria das vezes. Sente falta da família por perto em Durmstrang.
- Ela também me culpa pelo acidente, como seus pais.
- Ninguém a culpa. Eles estavam ainda muito abalados, algumas coisas podem ter sido ditas sem pensar, mas ninguém realmente acha que a culpa foi sua.
- Como eu conserto as coisas com ela?
- Isso você terá que descobrir sozinha. Houve um tempo que vocês eram amigas, mas cresceram e as diferenças foram ficando mais evidentes. Talvez se pudesse lembrar como era aquela época... – Jack olhou para trás de repente e olhei por cima do seu ombro, mas não vi anda – Preciso ir. Alexis está me chamando.
- Ela está aqui? Por que não a vejo?
- Só podemos falar com uma pessoa, ela precisava encontrar Edgar.
- Você não falou com a Julie?
- Julie já seguiu em frente, minha aparição só a faria regredir – ele olhou para o lado agora e senti como se mais alguém estivesse ali. Ele sorriu e me encarou – Alexis quer que você faça um favor a ela. Tem uma caixa de madeira embaixo de sua cama e deve dar ela a Edgar. Quer também que você cuide da sua mãe, ela precisa de você. Ah, e ela está dizendo que sente sua falta.
- Também sinto sua falta, maninha. Você não imagina o quanto. Pode deixar que vou entregar a caixa a ele.
- Agora precisamos ir, nosso tempo está acabando.
- Vou vê-lo outra vez?
- Não. Você precisa seguir em frente – Jack se aproximou e beijou meu rosto. Tudo que senti foi um vento gelado quando sua boca tocou minha bochecha, mas era como se ele estivesse ali de carne e osso assim mesmo.
Ele se afastou e, com um último sorriso, se foi. Não sei por quanto tempo fiquei parada fitando o lugar onde ele desapareceu, pode ter sido alguns minutos, como também podem ter se passado horas. De repente senti uma mão tocar meu ombro e quando olhei para o lado Ozzy estava sentado do meu lado. Ainda maquiado como zumbi, ele tinha um semblante preocupado, mas quando me perguntou o que havia acontecido, tudo que consegui fazer foi me atirar em seus braços e começar a chorar.
Monday, October 24, 2011
Quando Parvati veio me agradecer por ter impedido que ela desmaiasse na reunião do grêmio e pedir novamente que a ajudasse, parei de torturá-la e concordei em fazer o que havia prometido no começo do mês. Ela queria começar logo, mas pedi que tivesse calma e combinamos que tiraria o sábado para ensiná-la tudo que podia. Ela estava impaciente, mas aquilo levava tempo e isso era algo que não tínhamos de segunda a sexta.
Às 10h em ponto estava parado no portão da escola e cinco minutos depois Parvati apareceu na estrada. Vinha vestida com um casaco pesado, o capuz cobrindo a cabeça e parte do rosto. A primeira vista não vi o iPod que estava sempre em sua mão e já considerei isso um progresso. Se não estava usando ele, era porque estava disposta a aprender.
- Está atrasada – disse quando ela parou ao meu lado.
Ela não respondeu e se limitou a me lançar um olhar irritado. Atravessamos os portões da escola em direção ao vilarejo. Era sábado, a maioria dos alunos estava aproveitando o dia de raro sol passeando pelas ruas e gastando suas economias nas lojas. A praça estava movimentada o bastante para começar a ensiná-la a controlar a mente, então sentamos em um dos bancos dela e imediatamente parei de bloquear os pensamentos para ela.
- Podia dar um aviso antes – ela reclamou quando uma chuva de vozes invadiu sua cabeça de repente.
- Nunca disse para ficar confortável, não faço isso sempre.
- Ok, será que podemos deixar a implicancia de lado um pouco? Já pedi desculpas e agradeci por tudo que tem feito. O que mais quer que eu faça? Estou arrependida do que fiz, mas não posso voltar no tempo e consertar isso.
- Está certa, desculpe. Não estamos aqui pra brigar, mas sim pra ensiná-la a controlar sua habilidade.
- Exato. E como eu faço isso?
- Está vendo aquele senhor sentado do outro lado, lendo o jornal? – ela assentiu – Quero que concentre seus pensamentos nele. Não pense em mais nada, apenas nele.
Ela me olhou meio desconfiada, mas fez o que pedi sem contestar. No começo fez algumas caretas, certamente porque as muitas vozes estavam atrapalhando sua concentração, mas depois de alguns minutos Parvati abriu um sorriso surpreso. Ela olhou pra mim animada, mas naquele instante sua concentração quebrou e ela voltou a ouvir tudo.
- Droga! Tinha conseguido, estava ouvindo apenas ele!
- Sim, porque estava concentrada.
- Mas sempre vou ouvir alguém? Não estou reclamando, é melhor que 50 alunos de uma vez só, mas nunca vou ter paz?
- Não, você vai poder bloquear tudo, mas um passo de cada vez, ok? Primeiro precisa aprender a canalizar apenas uma mente para ouvir, depois vai aprender a desligar ela também. Outra vez, agora a mulher com o cachorro perto da estátua.
Passamos todo o resto da manhã fazendo a mesma coisa. Depois de uma hora ela já estava conseguindo conversar sem perder a concentração na pessoa e pedi que ela mudasse de foco a cada 10 minutos. Levou mais tempo que a primeira tarefa, mas ela finalmente conseguiu. Ainda que fosse continuar lendo alguma mente, não precisaria mais bloquear os pensamentos para ela não desmaiar. Eram quase 14h quando decidimos voltar pra Durmstrang, mas antes mesmo que saíssemos da praça fui pego de surpresa pela chegada da minha irmã, Katarina. Havia esquecido por completo que ela estaria no vilarejo naquele sábado e que tinha prometido almoçar com ela. Entrei em um desespero tão grande pela presença da Parvati e com o que ela poderia descobrir com uma única olhada pra ela que fechei sua mente por completo. Ela percebeu, pois estava focada em uma senhora que passava ao nosso lado, mas bastou um olhar alarmado para ela entender e não questionar.
- Maninho! – Katarina me abraçou e beijou minha bochecha – Desculpe o atraso, fiquei presa numa reunião chatíssima.
- Nem percebi o atraso – sorri tentando parecer relaxado e virei para Parvati – Nos vemos no castelo?
- Sim, nos falamos depois, bom almoço – ela respondeu depressa, mas quando fez menção de sair minha irmã segurou seu braço.
- Bobagem, sua amiga é bem vinda no nosso almoço. Você é a filha da prefeita, não é? – Parvati assentiu e minha irmã sorriu solidária – Sinto muito por sua irmã. Fomos ao enterro, mas você ainda estava no hospital.
- Obrigada – Parvati tentou soar normal, mas sua voz saiu rouca.
- Acho que ela não quer falar sobre isso, Kat.
- Tem razão, mil desculpas. Deixe-me compensar a falta de tato pagando seu almoço.
- Obrigada, mas tenho mesmo que voltar ao castelo – Parvati tentou se esquivar. Meu olhar de pânico deve ter sido realmente convincente, porque ela estava tão ou mais apavorada que eu.
- Não, não aceito não como resposta! – e agarrou Parvati pela mão, a rebocando para o outro lado da rua.
Ela ainda me lançou um olhar perdido, mas dei de ombros indicando que não tinha nada que pudéssemos fazer e as segui. Minha irmã tinha feito uma reserva para nós dois no Rainbow Room, mas uma rápida conversa com o maître e a reserva foi trocada para acomodar três pessoas. Quando nos sentamos à mesa o desconforto era visível, mas ou minha irmã não estava percebendo ou preferiu ignorar. Muito provavelmente ela achava que eu estava namorando Parvati e escondendo da família, e pensando bem, era melhor deixar que ela pensasse isso mesmo. Se descobrisse a verdade estaria em uma encrenca tão grande que não conseguia nem começar a pensar na dimensão das conseqüências.
- Pensei que Joffrey viria com você. Liberou o pobre coitado dos preparativos pro casamento? – resolvi relaxar. Se não tinha jeito, o melhor era parecer o mais natural possível.
- Você vai casar? – Parvati deve ter pensado o mesmo, porque já parecia mais a vontade.
- Sim, na primeira semana de janeiro – Katarina respondeu animada – Seus pais já receberam o convite, quando chegar em casa para o natal eles com certeza vão avisá-la.
- Adoro casamentos, não vou perder o seu – Parvati sorriu de volta e numa fração de segundos as duas já eram melhores amigas.
Aquilo deveria ter me deixado em pânico, mas estava concentrado demais em não deixar que minha irmã invadisse a mente de Parvati para me preocupar. As duas engataram em um papo sobre casamento que em alguns minutos eu já estava bocejando. Minha presença na mesa foi completamente ignorada e agradeci por isso. Minha irmã já tinha percebido que era por minha causa que ela não conseguia ler Parvati e ela era muito mais forte e experiente que eu, estava custando toda a minha concentração para não deixá-la furar a barreira.
Minha atenção pra conversa foi atraída com a mudança do assunto casamento para a nossa festa de Halloween, que estava sendo feita às pressas. Enquanto experimentávamos os pratos sugeridos pelo garçom favorito de Katarina, contamos a ela nossas idéias para a decoração e das casas mal-assombradas. Ela adorou a idéia de transformarmos as repúblicas em casas do terror e ainda mais os temas, que seriam Fábrica de Brinquedos, Corredor da Morte, Cassino Vampiro, Apocalipse Zumbi, Maldição da Múmia, Labirinto das Almas Perdidas, Câmara de Tortura e Expresso da Agonia. Katarina aproveitou para dar algumas sugestões para a decoração do salão onde a festa principal seria montada e ainda deu muitas idéias sobre o problema com as fantasias. Por termos criado duas ambientações, a idéia de ir a rigor no Baile de Máscaras foi comprometida. Minha irmã então sugeriu que, já que a inspiração foi o Conde Drácula, porque não transformar o baile com ele de anfitrião?
- Lucian vai querer se vestir de Drácula – Parvati e eu falamos ao mesmo tempo e começamos a rir.
- Com licença, volto em um instante – ela levantou da mesa e saiu em direção ao banheiro.
- Por que está me bloqueando, maninho? – ela perguntou assim que Parvati se afastou – O que está escondendo?
- Não estou escondendo nada, só achei que podia acabar com a sua diversão.
- Você nunca fez isso com seus outros amigos, o que tem de especial nela? – sua voz era cheia de malícia, mas era melhor ela pensar assim do que descobrir a verdade.
- Kat, tive todo um ano longe de você pra treinar, não vai conseguir me arrancar nada.
- Sabe que tenho meus meios de torturá-lo, não? E também posso desfazer o convite para ser meu padrinho – continuei sorrindo debochado pra ela e ela riu – Brincadeira, nunca ia deixá-lo de fora do casamento, mas falei sério sobre a tortura.
Ia responder, mas Parvati voltou à mesa na hora e o assunto morreu. Voltamos a falar da nova idéia de ambientação pro salão principal enquanto saboreávamos a sobremesa e já eram quase 16h quando deixamos o restaurante. Katarina se despediu de nós com abraços calorosos e aparatou de volta a Bulgária.
- Então ela também pode ler mentes? – Parvati perguntou assim que ficamos sozinhos outra vez.
- E muito bem. Entrei em pânico, tive que passar o almoço todo bloqueando as tentativas dela de saber o que queria esconder.
- Ela faz isso com todo mundo?
- Na maioria das vezes, quando ela não conhece a pessoa não resiste à tentação de espiar. E como eu não deixei, ela ficou ainda mais curiosa. Kat é muito forte, se eu consegui mantê-la afastada é porque meus poderes estão aumentando.
- Tirando a parte que ela tentou invadir minha mente, gostei da sua irmã.
- Ela também gostou de você. Devo me preocupar?
- Eu me preocuparia – sacudi a cabeça e ela riu – Quer tomar um café?
- Claro.
Atravessamos a rua na direção do Café Cultural e ocupamos um dos sofás vazios, cada um com uma xícara gigante na mão. A maioria do conselho do grêmio estava lá e aproveitamos para contar das novas idéias. Como tínhamos previsto, Lucian logo se candidatou a ir de Conde Drácula e já começamos a bolar as mudanças na decoração e também um bom argumento para fazer os professores entrarem na brincadeira. Ia ser uma semana tumultuada, mas no fim valeria à pena. Teríamos um Halloween tão bom quanto o do ano passado, sem precisar invadir o vilarejo.
Às 10h em ponto estava parado no portão da escola e cinco minutos depois Parvati apareceu na estrada. Vinha vestida com um casaco pesado, o capuz cobrindo a cabeça e parte do rosto. A primeira vista não vi o iPod que estava sempre em sua mão e já considerei isso um progresso. Se não estava usando ele, era porque estava disposta a aprender.
- Está atrasada – disse quando ela parou ao meu lado.
Ela não respondeu e se limitou a me lançar um olhar irritado. Atravessamos os portões da escola em direção ao vilarejo. Era sábado, a maioria dos alunos estava aproveitando o dia de raro sol passeando pelas ruas e gastando suas economias nas lojas. A praça estava movimentada o bastante para começar a ensiná-la a controlar a mente, então sentamos em um dos bancos dela e imediatamente parei de bloquear os pensamentos para ela.
- Podia dar um aviso antes – ela reclamou quando uma chuva de vozes invadiu sua cabeça de repente.
- Nunca disse para ficar confortável, não faço isso sempre.
- Ok, será que podemos deixar a implicancia de lado um pouco? Já pedi desculpas e agradeci por tudo que tem feito. O que mais quer que eu faça? Estou arrependida do que fiz, mas não posso voltar no tempo e consertar isso.
- Está certa, desculpe. Não estamos aqui pra brigar, mas sim pra ensiná-la a controlar sua habilidade.
- Exato. E como eu faço isso?
- Está vendo aquele senhor sentado do outro lado, lendo o jornal? – ela assentiu – Quero que concentre seus pensamentos nele. Não pense em mais nada, apenas nele.
Ela me olhou meio desconfiada, mas fez o que pedi sem contestar. No começo fez algumas caretas, certamente porque as muitas vozes estavam atrapalhando sua concentração, mas depois de alguns minutos Parvati abriu um sorriso surpreso. Ela olhou pra mim animada, mas naquele instante sua concentração quebrou e ela voltou a ouvir tudo.
- Droga! Tinha conseguido, estava ouvindo apenas ele!
- Sim, porque estava concentrada.
- Mas sempre vou ouvir alguém? Não estou reclamando, é melhor que 50 alunos de uma vez só, mas nunca vou ter paz?
- Não, você vai poder bloquear tudo, mas um passo de cada vez, ok? Primeiro precisa aprender a canalizar apenas uma mente para ouvir, depois vai aprender a desligar ela também. Outra vez, agora a mulher com o cachorro perto da estátua.
Passamos todo o resto da manhã fazendo a mesma coisa. Depois de uma hora ela já estava conseguindo conversar sem perder a concentração na pessoa e pedi que ela mudasse de foco a cada 10 minutos. Levou mais tempo que a primeira tarefa, mas ela finalmente conseguiu. Ainda que fosse continuar lendo alguma mente, não precisaria mais bloquear os pensamentos para ela não desmaiar. Eram quase 14h quando decidimos voltar pra Durmstrang, mas antes mesmo que saíssemos da praça fui pego de surpresa pela chegada da minha irmã, Katarina. Havia esquecido por completo que ela estaria no vilarejo naquele sábado e que tinha prometido almoçar com ela. Entrei em um desespero tão grande pela presença da Parvati e com o que ela poderia descobrir com uma única olhada pra ela que fechei sua mente por completo. Ela percebeu, pois estava focada em uma senhora que passava ao nosso lado, mas bastou um olhar alarmado para ela entender e não questionar.
- Maninho! – Katarina me abraçou e beijou minha bochecha – Desculpe o atraso, fiquei presa numa reunião chatíssima.
- Nem percebi o atraso – sorri tentando parecer relaxado e virei para Parvati – Nos vemos no castelo?
- Sim, nos falamos depois, bom almoço – ela respondeu depressa, mas quando fez menção de sair minha irmã segurou seu braço.
- Bobagem, sua amiga é bem vinda no nosso almoço. Você é a filha da prefeita, não é? – Parvati assentiu e minha irmã sorriu solidária – Sinto muito por sua irmã. Fomos ao enterro, mas você ainda estava no hospital.
- Obrigada – Parvati tentou soar normal, mas sua voz saiu rouca.
- Acho que ela não quer falar sobre isso, Kat.
- Tem razão, mil desculpas. Deixe-me compensar a falta de tato pagando seu almoço.
- Obrigada, mas tenho mesmo que voltar ao castelo – Parvati tentou se esquivar. Meu olhar de pânico deve ter sido realmente convincente, porque ela estava tão ou mais apavorada que eu.
- Não, não aceito não como resposta! – e agarrou Parvati pela mão, a rebocando para o outro lado da rua.
Ela ainda me lançou um olhar perdido, mas dei de ombros indicando que não tinha nada que pudéssemos fazer e as segui. Minha irmã tinha feito uma reserva para nós dois no Rainbow Room, mas uma rápida conversa com o maître e a reserva foi trocada para acomodar três pessoas. Quando nos sentamos à mesa o desconforto era visível, mas ou minha irmã não estava percebendo ou preferiu ignorar. Muito provavelmente ela achava que eu estava namorando Parvati e escondendo da família, e pensando bem, era melhor deixar que ela pensasse isso mesmo. Se descobrisse a verdade estaria em uma encrenca tão grande que não conseguia nem começar a pensar na dimensão das conseqüências.
- Pensei que Joffrey viria com você. Liberou o pobre coitado dos preparativos pro casamento? – resolvi relaxar. Se não tinha jeito, o melhor era parecer o mais natural possível.
- Você vai casar? – Parvati deve ter pensado o mesmo, porque já parecia mais a vontade.
- Sim, na primeira semana de janeiro – Katarina respondeu animada – Seus pais já receberam o convite, quando chegar em casa para o natal eles com certeza vão avisá-la.
- Adoro casamentos, não vou perder o seu – Parvati sorriu de volta e numa fração de segundos as duas já eram melhores amigas.
Aquilo deveria ter me deixado em pânico, mas estava concentrado demais em não deixar que minha irmã invadisse a mente de Parvati para me preocupar. As duas engataram em um papo sobre casamento que em alguns minutos eu já estava bocejando. Minha presença na mesa foi completamente ignorada e agradeci por isso. Minha irmã já tinha percebido que era por minha causa que ela não conseguia ler Parvati e ela era muito mais forte e experiente que eu, estava custando toda a minha concentração para não deixá-la furar a barreira.
Minha atenção pra conversa foi atraída com a mudança do assunto casamento para a nossa festa de Halloween, que estava sendo feita às pressas. Enquanto experimentávamos os pratos sugeridos pelo garçom favorito de Katarina, contamos a ela nossas idéias para a decoração e das casas mal-assombradas. Ela adorou a idéia de transformarmos as repúblicas em casas do terror e ainda mais os temas, que seriam Fábrica de Brinquedos, Corredor da Morte, Cassino Vampiro, Apocalipse Zumbi, Maldição da Múmia, Labirinto das Almas Perdidas, Câmara de Tortura e Expresso da Agonia. Katarina aproveitou para dar algumas sugestões para a decoração do salão onde a festa principal seria montada e ainda deu muitas idéias sobre o problema com as fantasias. Por termos criado duas ambientações, a idéia de ir a rigor no Baile de Máscaras foi comprometida. Minha irmã então sugeriu que, já que a inspiração foi o Conde Drácula, porque não transformar o baile com ele de anfitrião?
- Lucian vai querer se vestir de Drácula – Parvati e eu falamos ao mesmo tempo e começamos a rir.
- Com licença, volto em um instante – ela levantou da mesa e saiu em direção ao banheiro.
- Por que está me bloqueando, maninho? – ela perguntou assim que Parvati se afastou – O que está escondendo?
- Não estou escondendo nada, só achei que podia acabar com a sua diversão.
- Você nunca fez isso com seus outros amigos, o que tem de especial nela? – sua voz era cheia de malícia, mas era melhor ela pensar assim do que descobrir a verdade.
- Kat, tive todo um ano longe de você pra treinar, não vai conseguir me arrancar nada.
- Sabe que tenho meus meios de torturá-lo, não? E também posso desfazer o convite para ser meu padrinho – continuei sorrindo debochado pra ela e ela riu – Brincadeira, nunca ia deixá-lo de fora do casamento, mas falei sério sobre a tortura.
Ia responder, mas Parvati voltou à mesa na hora e o assunto morreu. Voltamos a falar da nova idéia de ambientação pro salão principal enquanto saboreávamos a sobremesa e já eram quase 16h quando deixamos o restaurante. Katarina se despediu de nós com abraços calorosos e aparatou de volta a Bulgária.
- Então ela também pode ler mentes? – Parvati perguntou assim que ficamos sozinhos outra vez.
- E muito bem. Entrei em pânico, tive que passar o almoço todo bloqueando as tentativas dela de saber o que queria esconder.
- Ela faz isso com todo mundo?
- Na maioria das vezes, quando ela não conhece a pessoa não resiste à tentação de espiar. E como eu não deixei, ela ficou ainda mais curiosa. Kat é muito forte, se eu consegui mantê-la afastada é porque meus poderes estão aumentando.
- Tirando a parte que ela tentou invadir minha mente, gostei da sua irmã.
- Ela também gostou de você. Devo me preocupar?
- Eu me preocuparia – sacudi a cabeça e ela riu – Quer tomar um café?
- Claro.
Atravessamos a rua na direção do Café Cultural e ocupamos um dos sofás vazios, cada um com uma xícara gigante na mão. A maioria do conselho do grêmio estava lá e aproveitamos para contar das novas idéias. Como tínhamos previsto, Lucian logo se candidatou a ir de Conde Drácula e já começamos a bolar as mudanças na decoração e também um bom argumento para fazer os professores entrarem na brincadeira. Ia ser uma semana tumultuada, mas no fim valeria à pena. Teríamos um Halloween tão bom quanto o do ano passado, sem precisar invadir o vilarejo.
Tuesday, October 18, 2011
Cinco dias já haviam se passado desde a minha tentativa frustrada de suicídio. Leo e Robbie não me davam folga e não conseguia dar um passo sem ter pelo menos um dos dois na minha cola. Eles ainda não sabiam do fora que havia levado de Ozzy e não estava nos meus planos contar tão cedo, já era ruim o bastante ter que me lembrar daquela conversa sem ter que vê-los com a expressão de “bem feito” estampada no rosto.
O fato é que, depois do passa-fora, estava decidida a retomar a vida que tinha deixado em junho, quando sai de férias. Ainda não estava pronta para abandonar o iPod, mas me esforçava ao máximo para não usá-lo o dia inteiro. Quando o desligava precisava de muita concentração para não enlouquecer. E fora o enjôo, que ainda não tinha acabado. Passava o dia inteiro me sentindo mal, com ânsia de vomito, mas felizmente desde domingo não tinha colocado mais nada pra fora.
E se estava colocando minha antiga vida em ordem, precisava reunir o conselho do grêmio estudantil. Odiava admitir, mas Ozzy estava certo: estávamos a apenas duas semanas do Halloween e não havia sinal de que teríamos algum tipo de celebração. Terça era o melhor dia para marcar as reuniões, então enviei um recado a cada membro do conselho e às 19h já estava na sala esperando cada um chegar. E cada um que entrava tinha a mesma expressão de espanto no rosto e todos, sem exceção, pensavam naquele momento que eu nunca ia reassumir o posto.
- Está mesmo pronta pra isso? – Robbie perguntou sentado na cadeira mais próxima.
- Não – respondi tentando sorrir, já começando a ter dor de cabeça com o excesso de pensamentos – Boa noite, pessoal.
- Então ainda temos um grêmio? – Maria disse em tom de deboche, que ignorei – Muito bom, estava achando que íamos passar o ano sem função.
- Sim, ainda temos um grêmio. Peço desculpas pela ausência nas últimas semanas, precisava de um tempo, mas isso acabou porque temos muito que fazer. E quero começar a reunião dando boas vindas aos dois novos membros do conselho, Nina Petrova e Mitchell Callahan – os dois levantaram e foram cumprimentados pelos outros – Feito isso, vamos à nossa festa de Halloween.
- Sim, por favor! – Yanic, que estava sentado na outra ponta da mesa, ergueu os braços – O que vamos fazer? Só temos duas semanas.
- Não temos como fazer outra festa no vilarejo, isso pede tempo e infelizmente não temos, então temos que fazer a festa aqui dentro da escola – Lucian falou e assenti.
- Sim, terá que ser aqui dentro. Temos duas semanas, podemos providenciar uma decoração bem elaborada sendo em um espaço fechado. Idéias para o tema?
Esse foi o meu erro. Enquanto cada um estava falando ao mesmo tempo, mesmo que cada um tivesse um pensamento diferente na cabeça, eu estava conseguindo me manter concentrada. Quando pedi sugestões e o falatório tomou conta da mesa, perdi o controle. Um queria falar mais alto que o outro, cada um com mil idéias na cabeça e tentando falar cada uma delas em voz alta, um discordando do outro e querendo mostrar que sua idéia era melhor, enfim, um caos. A confusão de vozes na minha cabeça era tanta que fiquei tonta. A sensação era que meu cérebro ia entrar em combustão a qualquer instante.
A visão daquelas nove pessoas discutindo começava a ficar embaçada quando vi uma gota de sangue cair na mesa. Levei a mão ao rosto e percebi que meu nariz estava sangrando. Limpei depressa antes que alguém visse e de repente tudo ficou em silêncio. Além das palavras que estavam de fato sendo pronunciadas, não ouvia mais nada. No mesmo instante soube que Ozzy estava fazendo isso, mas quando olhei para ele, ele não me encarava. Mantinha o olhar fixo em Mitchell, que estava sentado de frente para ele, como se estivesse muito interessado em sua idéia para a festa, mas na verdade não estava ouvindo uma única palavra. Estava apenas concentrado. Sem as vozes pude pensar com mais clareza e saiu da boca de Nina a idéia que chamou minha atenção.
- Baile de máscaras do século 17 – ouvi-a dizer em meio a uma confusão de idéias malucas – Todos vestidos a rigor.
- Isso! – bati a mão na mesa com tanto entusiasmo que todos se assustaram – Nina, sua idéia é perfeita!
- Que idéia? – Valéria perguntou confusa – O que ela falou?
- Baile de Máscaras do Século 17 – Nina repetiu surpresa por ter gostado.
- E todos vestidos a rigor – completei, repetindo o que ela tinha dito – Durmstrang tem todo o clima para um baile nos moldes do século 17, isso parece o castelo do Conde Drácula.
- Conde Drácula nasceu em 1431, não é do século 17 – Lucian me corrigiu, embora suspeitasse que ele só estivesse sendo preciso.
- Não importa, ele é um vampiro, passou pelo século 17.
- Na verdade, isso é uma lenda – Lucian não se conteve – A verdadeira história é que-
- Lucian, agora não – disse em tom de aviso e ele riu, pedindo desculpas – Baile de máscaras, o que acham?
- É, acho que vai ficar legal – Leo me apoiou – E as roupas são magníficas, vamos todos ficar muito sofisticados.
- E a decoração já está praticamente feita se a festa for no salão principal, só vamos precisar dar alguns retoques – Robbie completou e a mesa acabou animando.
- Ótimo, então está decidido. Vamos começar a falar da decoração e o que cada um vai fazer.
- Ainda não – Yanic levantou a mão, me interrompendo – E os calouros? Sempre pensamos em alguma coisa voltada pra eles.
- Bem lembrado – Ozzy falou pela primeira vez desde que chegou à sala – É o nosso último ano, temos que caprichar. E se me permitem uma sugestão... Casa Mal-Assombrada.
O falatório recomeçou, mas felizmente dessa vez estava protegida e pude prestar atenção. Era verdade, precisávamos bolar algo voltado para os calouros de Durmstrang e nada gritava mais “diversão” que uma casa mal-assombrada. Não que eu tivesse qualquer pretensão de entrar em uma, mas pregar peça e dar sustos nos novatos era sempre divertido.
Consegui que cada um falasse na sua vez e ficou decidido que as repúblicas seriam transformadas em casas mal-assombradas, cada uma com seu tema próprio, que seria decidido pelo seu presidente, e que somente os alunos do 6º ano poderiam ajudar os veteranos na organização. Elas funcionariam a noite inteira, paralelas a festa que aconteceria nos jardins e salão principal. E decidido isso, começamos a discutir a decoração da festa principal. Quando saímos da sala já passava das 21h, mas pela primeira vez desde que voltara a Durmstrang, estava satisfeita com alguma coisa. A sensação de dever cumprido era, sem dúvida, revigorante. E sim, na primeira oportunidade, agradeceria Ozzy pelo que fez, por mais duro que isso fosse, afinal, eu precisava mudar. E quer mudança maior que ser grata a ele por qualquer coisa?
O fato é que, depois do passa-fora, estava decidida a retomar a vida que tinha deixado em junho, quando sai de férias. Ainda não estava pronta para abandonar o iPod, mas me esforçava ao máximo para não usá-lo o dia inteiro. Quando o desligava precisava de muita concentração para não enlouquecer. E fora o enjôo, que ainda não tinha acabado. Passava o dia inteiro me sentindo mal, com ânsia de vomito, mas felizmente desde domingo não tinha colocado mais nada pra fora.
E se estava colocando minha antiga vida em ordem, precisava reunir o conselho do grêmio estudantil. Odiava admitir, mas Ozzy estava certo: estávamos a apenas duas semanas do Halloween e não havia sinal de que teríamos algum tipo de celebração. Terça era o melhor dia para marcar as reuniões, então enviei um recado a cada membro do conselho e às 19h já estava na sala esperando cada um chegar. E cada um que entrava tinha a mesma expressão de espanto no rosto e todos, sem exceção, pensavam naquele momento que eu nunca ia reassumir o posto.
- Está mesmo pronta pra isso? – Robbie perguntou sentado na cadeira mais próxima.
- Não – respondi tentando sorrir, já começando a ter dor de cabeça com o excesso de pensamentos – Boa noite, pessoal.
- Então ainda temos um grêmio? – Maria disse em tom de deboche, que ignorei – Muito bom, estava achando que íamos passar o ano sem função.
- Sim, ainda temos um grêmio. Peço desculpas pela ausência nas últimas semanas, precisava de um tempo, mas isso acabou porque temos muito que fazer. E quero começar a reunião dando boas vindas aos dois novos membros do conselho, Nina Petrova e Mitchell Callahan – os dois levantaram e foram cumprimentados pelos outros – Feito isso, vamos à nossa festa de Halloween.
- Sim, por favor! – Yanic, que estava sentado na outra ponta da mesa, ergueu os braços – O que vamos fazer? Só temos duas semanas.
- Não temos como fazer outra festa no vilarejo, isso pede tempo e infelizmente não temos, então temos que fazer a festa aqui dentro da escola – Lucian falou e assenti.
- Sim, terá que ser aqui dentro. Temos duas semanas, podemos providenciar uma decoração bem elaborada sendo em um espaço fechado. Idéias para o tema?
Esse foi o meu erro. Enquanto cada um estava falando ao mesmo tempo, mesmo que cada um tivesse um pensamento diferente na cabeça, eu estava conseguindo me manter concentrada. Quando pedi sugestões e o falatório tomou conta da mesa, perdi o controle. Um queria falar mais alto que o outro, cada um com mil idéias na cabeça e tentando falar cada uma delas em voz alta, um discordando do outro e querendo mostrar que sua idéia era melhor, enfim, um caos. A confusão de vozes na minha cabeça era tanta que fiquei tonta. A sensação era que meu cérebro ia entrar em combustão a qualquer instante.
A visão daquelas nove pessoas discutindo começava a ficar embaçada quando vi uma gota de sangue cair na mesa. Levei a mão ao rosto e percebi que meu nariz estava sangrando. Limpei depressa antes que alguém visse e de repente tudo ficou em silêncio. Além das palavras que estavam de fato sendo pronunciadas, não ouvia mais nada. No mesmo instante soube que Ozzy estava fazendo isso, mas quando olhei para ele, ele não me encarava. Mantinha o olhar fixo em Mitchell, que estava sentado de frente para ele, como se estivesse muito interessado em sua idéia para a festa, mas na verdade não estava ouvindo uma única palavra. Estava apenas concentrado. Sem as vozes pude pensar com mais clareza e saiu da boca de Nina a idéia que chamou minha atenção.
- Baile de máscaras do século 17 – ouvi-a dizer em meio a uma confusão de idéias malucas – Todos vestidos a rigor.
- Isso! – bati a mão na mesa com tanto entusiasmo que todos se assustaram – Nina, sua idéia é perfeita!
- Que idéia? – Valéria perguntou confusa – O que ela falou?
- Baile de Máscaras do Século 17 – Nina repetiu surpresa por ter gostado.
- E todos vestidos a rigor – completei, repetindo o que ela tinha dito – Durmstrang tem todo o clima para um baile nos moldes do século 17, isso parece o castelo do Conde Drácula.
- Conde Drácula nasceu em 1431, não é do século 17 – Lucian me corrigiu, embora suspeitasse que ele só estivesse sendo preciso.
- Não importa, ele é um vampiro, passou pelo século 17.
- Na verdade, isso é uma lenda – Lucian não se conteve – A verdadeira história é que-
- Lucian, agora não – disse em tom de aviso e ele riu, pedindo desculpas – Baile de máscaras, o que acham?
- É, acho que vai ficar legal – Leo me apoiou – E as roupas são magníficas, vamos todos ficar muito sofisticados.
- E a decoração já está praticamente feita se a festa for no salão principal, só vamos precisar dar alguns retoques – Robbie completou e a mesa acabou animando.
- Ótimo, então está decidido. Vamos começar a falar da decoração e o que cada um vai fazer.
- Ainda não – Yanic levantou a mão, me interrompendo – E os calouros? Sempre pensamos em alguma coisa voltada pra eles.
- Bem lembrado – Ozzy falou pela primeira vez desde que chegou à sala – É o nosso último ano, temos que caprichar. E se me permitem uma sugestão... Casa Mal-Assombrada.
O falatório recomeçou, mas felizmente dessa vez estava protegida e pude prestar atenção. Era verdade, precisávamos bolar algo voltado para os calouros de Durmstrang e nada gritava mais “diversão” que uma casa mal-assombrada. Não que eu tivesse qualquer pretensão de entrar em uma, mas pregar peça e dar sustos nos novatos era sempre divertido.
Consegui que cada um falasse na sua vez e ficou decidido que as repúblicas seriam transformadas em casas mal-assombradas, cada uma com seu tema próprio, que seria decidido pelo seu presidente, e que somente os alunos do 6º ano poderiam ajudar os veteranos na organização. Elas funcionariam a noite inteira, paralelas a festa que aconteceria nos jardins e salão principal. E decidido isso, começamos a discutir a decoração da festa principal. Quando saímos da sala já passava das 21h, mas pela primeira vez desde que voltara a Durmstrang, estava satisfeita com alguma coisa. A sensação de dever cumprido era, sem dúvida, revigorante. E sim, na primeira oportunidade, agradeceria Ozzy pelo que fez, por mais duro que isso fosse, afinal, eu precisava mudar. E quer mudança maior que ser grata a ele por qualquer coisa?
Thursday, October 13, 2011
“O Jornal da Escola acha que pode me calar, mas eu digo que não e essa é a mostra do que eu posso fazer.
Não vou me calar e nego as acusações de roubo. Quem está me acusando é o verdadeiro responsável por adquirir sem autorização meus textos e ainda dizer que sou uma farsa. Ainda tem a audácia de proibir que eu escreva!
Por isso convido todos a participar comigo de um novo jornal. Sem limitações, sem censura, onde todos podem escrever o que quiser.
Mas não posso permitir que qualquer um escreva. Aqueles interessados deverão descobrir nessa edição como fazer as matérias e como fazê-las chegar até mim.
Que as estrelas brilhem por todos,
Antaris”
Foi esse o trecho que me levou à sala do diretor naquela manhã de Sexta-Feira.
Era o dia de lançamento da minha primeira edição, após a homenagem à Jack e Alexis, onde começaria a editar o jornal. Como sempre fazíamos, a edição foi finalizada na Quinta e colocada na gráfica da escola para que o jornal fosse rodado. Na Quarta eu recebi um pacote com outro texto do tal Antaris e irritado eu o destruí. Editei então uma nota na edição de hoje, em que eu denunciava-o como ladrão e dizia que nenhum de seus textos eram verdadeiros.
Como eu sabia que ele poderia tentar influenciar na edição do jornal, eu mesmo estive na gráfica naquela noite, acompanhando a tiragem do mesmo. Só me ausentei por alguns minutos, eu e o funcionário da gráfica, quando ouvimos uma barulheira do lado de fora. E o resultado foi o trecho acima.
Assim que abri o jornal naquela manhã, antes de qualquer um por acordar mais cedo do que todos, eu fiquei com raiva e sabia que aquele trecho ia dar confusão. Não sei como ele fez isso, ou melhor, cheguei a conclusão de que não é uma única pessoa, mas sim um grupo que está publicando meus textos roubados. Eles haviam retirado a minha nota do jornal e acrescentado aquele trecho escrito pelo Antaris, substituindo a minha coluna de histórias, com outra história minha roubada.
Sai correndo da república e fui atrás de da professora Mira, pois os professores deveriam ser avisados o mais rápido possível.
- Lucian? O que faz tão cedo acordado? – Ela perguntou, após eu tomar coragem e bater em sua porta. Ela já estava acordada, se arrumando para sair e tomar café.
- Me perdoe, professora, você precisa ver isso. – Eu falei e entreguei o jornal para ela. Ela começou a ler e vi seus olhos ficarem arregalados, e em seguida olhou para mim. – Por Odin, ele passou dos limites...
- Professora, se isso cair nas mãos dos alunos vai dar muita confusão. – Eu falei, preocupado e ela assentiu.
- Vá chamar a Ferania e alguém do jornal, retirem essa edição de circulação. Eu vou procurar o diretor agora.
Eu assenti e sai correndo. No caminho para a casa de Ferania, que ficava na vila vizinha, eu passei pela Avalon e chamei Leo e Lis. Expliquei correndo para elas o acontecido e elas saíram correndo atrás das edições imediatamente.
Quando cheguei à casa de Ferania, ela já corria na direção contrária com uma edição na mão e pelo seu olhar ela também havia visto aquilo. Não precisamos falar mais nada e saímos correndo para recolher as edições. Mas foi em vão. Algumas poucas edições conseguiram ser abertas e logo o assunto espalhou-se pela escola. A notícia de que tentamos retirar a edição de circulação se espalhou e por isso mesmo ela ficou ainda mais popular.
- Senhor Valesti, como me explica isso? – O Diretor Ivanovich perguntou, massageando a cabeça. Eu estava sentado em sua sala, acompanhado por Ferania e Mira, além de Reno e professora Ivana.
- Eu não sei professor. Ontem à noite eu mesmo estive na tiragem do jornal, mas ouve um barulho estranho do lado de fora e eu e o gráfico fomos olhar. Ela deve ter sido alterada nesse instante. – Eu expliquei. O Diretor assentiu.
- Eu não o culpo, Lucian, então não se culpe. Isso já passou dos limites. Quando a Mira e a Ferania me falaram sobre os roubos de textos, achei que ele pararia quando seus textos roubados fossem negados de serem publicados, mas não imaginei que isso fosse acontecer.
- Igor, esse trecho é muito sério. Ele está desafiando a autoridade da Escola. Se ele realmente publicar qualquer texto e matéria enviada a ele, consegue imaginar o tipo de coisa que pode sair nesse novo jornal? – Ivana perguntou e o diretor suspirou.
- Sim, Ivana, isso me preocupa e muito. Esse tal Antaris passou dos limites, ele será punido assim que for descoberto, assim como qualquer um que o esteja ajudando. – Ele falou.
- Severamente, eu espero. – Reno falou. Eu olhei para ele e me perguntei o que fazia ali, claro agradecia sua presença, pois quando cheguei ele e Ferania estavam me defendendo para o diretor.
- E será, Reno. Não posso permitir que esse jornal clandestino ganhe força e que esse lunático faça tudo sem ser punido. – O diretor falou e o semblante de Reno ficou mais sério antes de falar.
- E tem outro problema... – Reno começou e jogou uma edição em cima da mesa do diretor. – Olhe as palavras cruzadas.
- Como assim? São palavras-cruzadas comuns não são? – Eu perguntei, mas assim que os outros professores olharam-na eles ficaram mais apreensivos.
- Não, Lucian, não são. – Mira falou. Eu ia perguntar o que queriam dizer, mas Reno respondeu por mim.
- Reis e Sombras. – Ele falou.
- O que? – Eu perguntei. Já ouvira falar da R&S, mas achei que tinha sido desmantelada há alguns anos.
- Palavras cruzadas é a forma que a Reis e Sombras costuma convocar seus membros para as suas reuniões. – Ferania explicou e Mira completou.
- Eles escondiam charadas dentro das palavras cruzadas, com seus codinomes e locais secretos. – Ela falou e me mostrou que algumas linhas em diagonais formavam “O Rei os convoca, para a masmorra abaixo do sol”. Eu li e reli a frase, mas sem entender.
- Achei que tínhamos desmantelado-a a alguns anos atrás. – Eu falei.
- Não totalmente, ela apenas se escondeu nas sombras e sossegou, esperando que nós a esquecêssemos. – Ivanovich falou e vi que agora ele estava realmente preocupado.
- Igor, não sabemos o que eles podem fazer a partir daqui. Se esse Antaris conhece os códigos da Reis e Sombras, ele é um deles ou conhece membros dela. E se ele for o Rei? – Ivana falou.
- Eu sei, eu sei... Vou deixar um vigia permanente na gráfica, assim como vou avisar a qualquer gráfica da região que não aceite nenhum trabalho sem antes entrar em contato comigo antes. – Ele falou e todos assentimos. – Lucian, continue publicando o Expresso normalmente e coloque uma nova edição em circulação ainda hoje. Faça uma nota sobre o ocorrido, pode ser direto e dizer que se trata de impostores, mas não cite a R&S. É isso que eles querem que façamos.
- Sim, senhor. – Eu respondi e ele continuou.
- Mira, Ivana e Ferania prestem atenção nos alunos e vigiem qualquer tentativa de levar textos para fora da vila. – Elas assentiram e ele se virou para Reno por fim. – Reno, quero que investigue a R&S a fundo.
- Pode contar comigo, Igor. – Reno falou e todos saímos da sala. Reno pediu para falar comigo e as outras professoras foram em frente. Mira e Ferania iriam convocar a equipe do jornal.
- Lucian, quero que tome cuidado. – Ele falou, olhando sério para mim. – Talvez eu me ausente por alguns dias, mas tome cuidado. Procure não provocar muito esse tal de Antaris. Ainda não sabemos quem ele é e, pior, o que pode fazer.
- Eu não tenho medo, Reno, é isso que ele quer, que eu me sinta acuado. – Eu respondi e Reno suspirou.
- Eu concordo, mas tome cuidado. A R&S é capaz de coisas monstruosas. Igor não vai deixar isso barato, já tivemos problemas demais com ela no passado. Eu vou investigar e manterei você informado.
Reno falou e se despediu de mim indo com pressa para seu gabinete. Eu fui correndo para a sala do jornal, pronto para editar uma nova edição de emergência.
--------------
Diário de Lucian P. Valesti
Além dos problemas do Jornal, minha cabeça andava a mil com o meu problema sentimental.
Estava me sentindo um lixo, com nojo de mim mesmo.
Namorava a Liseria há 2 anos, e no ano passado beijei, ok, em minha defesa posso dizer que fui beijado, por uma garota completamente estranha. Até hoje eu não sei quem era ela e às vezes me pego imaginando quem seria.
Mas pior do que isso era o que eu estava sentindo esse ano.
Desde aquele dia em que vi Lenneth e Patrick brigando eu percebi que estava gostando da Lenneth.
Eu não entendia o porquê disso! Passei minha vida inteira com ela ao meu lado, sempre como minha melhor amiga e nunca senti nada por ela? Por que agora?!
Estava confuso... Isso poderia ser simplesmente ciúme de amigo? Não tinha certeza, pois estava muito forte...
Isso estava me matando aos poucos. Sem conseguir colocar para fora isso tudo ou mesmo entender eu guardava tudo para mim e comecei a me fechar para o mundo exterior. Queria muito conversar com alguém, mas não queria sobrecarregar o Ozzy. Ele já estava passando por grandes dificuldades e tentava ajudar a Parv e eu não queria atrapalhar...
E quanto a Patrick ou Ayala? Eu sentia vergonha de contar para eles o que estava se passando na minha cabeça... Sentia vergonha de estar gostando de outra garota além da minha namorada e vergonha de admitir que era da Lenneth...
Liseria percebeu algo essa tarde. Ela me perguntou por que eu estava estranho e distante, mas consegui dizer que era por causa do jornal. Dói muito pensar que a estou enganando e mais ainda pelo fato de que eu ainda gosto da Lis.
Se eu tivesse deixado de gostar dela seria mais fácil, pois sempre concordamos que o dia que um deixasse de gostar do outro, deveríamos ser sinceros um com o outro. Mas estava gostando das duas e não sabia como administrar isso.
Minha única forma de extravasar esses sentimentos é escrevendo esse diário, aqui no armazém da livraria, para onde venho com cada vez mais freqüência.
--------------
- Que foi, Lucian, você está bem? – Orion me perguntou, na biblioteca. Eu levantei o olho do diário sobressaltado e o olhei. Percebi que tinha cochilado e por sorte o diário estava tampado.
- Desculpa, acho que cochilei. – Eu falei.
- Você desmaiou ai isso sim, te chamei da porta, mas não respondeu. Não vai pro treino do Hóquei não? – Ele perguntou e só então percebi que ele já estava quase que com todo o uniforme. Então me toquei da hora e levantei sobressaltado, jogando o material na mochila.
- Caramba perdi a hora!
- Vamos, eu te acompanho até a república e depois vamos juntos. – Ele falou rindo e saímos andando pelos terrenos da escola, agora meio desertos. – Mas é sério, está tudo bem?
- Está sim, por que pergunta?
- Você anda muito aéreo, pensativo até demais. Parece sempre com algo engasgado ou preocupado com algo. – Ele respondeu, dando de ombros.
- É por causa do jornal, esse tal Antaris está me dando nos nervos. – Eu respondi. Essa desculpa estava ficando cada vez mais fácil.
- Nossa, é horrível o que ele está fazendo. – Ele comentou e eu concordei.
- E começar com essa história de jornal alternativo! É loucura! O diretor ficou irado. – Eu comentei.
- E o que vão fazer?
- Ainda não sei. Vamos tentar investigar, mas o Jornal vai continuar sem publicar nada dele e fazer propaganda negativa dele.
- Boa sorte, conte comigo para a campanha negativa! – Ele falou e chegamos à república. Ele esperou sentado na cama dele, enquanto eu me arrumava. Me vesti rapidamente e voltei para o quarto, só faltando o taco de hóquei.
- E a Lenneth? Aconteceu alguma coisa entre ela e o Patrick? – Ele perguntou.
- Não que eu saiba, porque pergunta? – Eu perguntei, esquivo.
- É que eu tenho visto os dois pouco juntos, parecem que estão brigados... Como você se sente com isso? Afinal ela é sua amiga.
- Eu tento não me meter. – Eu falei evasivo... Porém, os últimos dias pesaram em minha consciência e senti a necessidade de falar para alguém. E o Orion era um cara legal, um pouco chato e estranho às vezes, mas bem legal. – Na verdade, Orion, eu não sei o que estou sentindo.
- Como assim? – Ele perguntou e eu sentei na minha cama, olhando para a janela.
- Vou ser direto. Acho que estou começando a gostar da Lenneth. – Eu falei e ele ficou em silêncio um pouco e notei que estava surpreso.
- E a Lis?
- Esse é o problema. Ainda gosto dela, não sei como agir.
- Mas isso não é só ciúme de amigo, não?
- Eu não tenho certeza... Não consigo parar de pensar na Lenneth e sempre que a vejo perto do Patrick fico com raiva. Fora que eu tenho sonhado com ela.
- Mas sonhar não tem problema ué.
- Tenho sonhado em beijá-la e mais de uma vez eu tive vontade de beijá-la. É muito forte. Ai cara, estou com nojo de mim mesmo.
- Putz, pode falar, eu sou seu amigo lembra? Estou aqui ao menos para te ouvir.
Ele falou isso e sentou do meu lado. Eu sorri agradecido e me abri pra ele, contando tudo que sentia. Contei também da garota do Halloween passado e ele ouviu quieto, sem me julgar. Ele me disse para dar um tempo para mim mesmo, para ver no que daria isso tudo. Ele pode não ter ajudado muito, mas apenas de poder falar disso com alguém serviu para me deixar mais leve e tranqüilo.
Não vou me calar e nego as acusações de roubo. Quem está me acusando é o verdadeiro responsável por adquirir sem autorização meus textos e ainda dizer que sou uma farsa. Ainda tem a audácia de proibir que eu escreva!
Por isso convido todos a participar comigo de um novo jornal. Sem limitações, sem censura, onde todos podem escrever o que quiser.
Mas não posso permitir que qualquer um escreva. Aqueles interessados deverão descobrir nessa edição como fazer as matérias e como fazê-las chegar até mim.
Que as estrelas brilhem por todos,
Antaris”
Foi esse o trecho que me levou à sala do diretor naquela manhã de Sexta-Feira.
Era o dia de lançamento da minha primeira edição, após a homenagem à Jack e Alexis, onde começaria a editar o jornal. Como sempre fazíamos, a edição foi finalizada na Quinta e colocada na gráfica da escola para que o jornal fosse rodado. Na Quarta eu recebi um pacote com outro texto do tal Antaris e irritado eu o destruí. Editei então uma nota na edição de hoje, em que eu denunciava-o como ladrão e dizia que nenhum de seus textos eram verdadeiros.
Como eu sabia que ele poderia tentar influenciar na edição do jornal, eu mesmo estive na gráfica naquela noite, acompanhando a tiragem do mesmo. Só me ausentei por alguns minutos, eu e o funcionário da gráfica, quando ouvimos uma barulheira do lado de fora. E o resultado foi o trecho acima.
Assim que abri o jornal naquela manhã, antes de qualquer um por acordar mais cedo do que todos, eu fiquei com raiva e sabia que aquele trecho ia dar confusão. Não sei como ele fez isso, ou melhor, cheguei a conclusão de que não é uma única pessoa, mas sim um grupo que está publicando meus textos roubados. Eles haviam retirado a minha nota do jornal e acrescentado aquele trecho escrito pelo Antaris, substituindo a minha coluna de histórias, com outra história minha roubada.
Sai correndo da república e fui atrás de da professora Mira, pois os professores deveriam ser avisados o mais rápido possível.
- Lucian? O que faz tão cedo acordado? – Ela perguntou, após eu tomar coragem e bater em sua porta. Ela já estava acordada, se arrumando para sair e tomar café.
- Me perdoe, professora, você precisa ver isso. – Eu falei e entreguei o jornal para ela. Ela começou a ler e vi seus olhos ficarem arregalados, e em seguida olhou para mim. – Por Odin, ele passou dos limites...
- Professora, se isso cair nas mãos dos alunos vai dar muita confusão. – Eu falei, preocupado e ela assentiu.
- Vá chamar a Ferania e alguém do jornal, retirem essa edição de circulação. Eu vou procurar o diretor agora.
Eu assenti e sai correndo. No caminho para a casa de Ferania, que ficava na vila vizinha, eu passei pela Avalon e chamei Leo e Lis. Expliquei correndo para elas o acontecido e elas saíram correndo atrás das edições imediatamente.
Quando cheguei à casa de Ferania, ela já corria na direção contrária com uma edição na mão e pelo seu olhar ela também havia visto aquilo. Não precisamos falar mais nada e saímos correndo para recolher as edições. Mas foi em vão. Algumas poucas edições conseguiram ser abertas e logo o assunto espalhou-se pela escola. A notícia de que tentamos retirar a edição de circulação se espalhou e por isso mesmo ela ficou ainda mais popular.
- Senhor Valesti, como me explica isso? – O Diretor Ivanovich perguntou, massageando a cabeça. Eu estava sentado em sua sala, acompanhado por Ferania e Mira, além de Reno e professora Ivana.
- Eu não sei professor. Ontem à noite eu mesmo estive na tiragem do jornal, mas ouve um barulho estranho do lado de fora e eu e o gráfico fomos olhar. Ela deve ter sido alterada nesse instante. – Eu expliquei. O Diretor assentiu.
- Eu não o culpo, Lucian, então não se culpe. Isso já passou dos limites. Quando a Mira e a Ferania me falaram sobre os roubos de textos, achei que ele pararia quando seus textos roubados fossem negados de serem publicados, mas não imaginei que isso fosse acontecer.
- Igor, esse trecho é muito sério. Ele está desafiando a autoridade da Escola. Se ele realmente publicar qualquer texto e matéria enviada a ele, consegue imaginar o tipo de coisa que pode sair nesse novo jornal? – Ivana perguntou e o diretor suspirou.
- Sim, Ivana, isso me preocupa e muito. Esse tal Antaris passou dos limites, ele será punido assim que for descoberto, assim como qualquer um que o esteja ajudando. – Ele falou.
- Severamente, eu espero. – Reno falou. Eu olhei para ele e me perguntei o que fazia ali, claro agradecia sua presença, pois quando cheguei ele e Ferania estavam me defendendo para o diretor.
- E será, Reno. Não posso permitir que esse jornal clandestino ganhe força e que esse lunático faça tudo sem ser punido. – O diretor falou e o semblante de Reno ficou mais sério antes de falar.
- E tem outro problema... – Reno começou e jogou uma edição em cima da mesa do diretor. – Olhe as palavras cruzadas.
- Como assim? São palavras-cruzadas comuns não são? – Eu perguntei, mas assim que os outros professores olharam-na eles ficaram mais apreensivos.
- Não, Lucian, não são. – Mira falou. Eu ia perguntar o que queriam dizer, mas Reno respondeu por mim.
- Reis e Sombras. – Ele falou.
- O que? – Eu perguntei. Já ouvira falar da R&S, mas achei que tinha sido desmantelada há alguns anos.
- Palavras cruzadas é a forma que a Reis e Sombras costuma convocar seus membros para as suas reuniões. – Ferania explicou e Mira completou.
- Eles escondiam charadas dentro das palavras cruzadas, com seus codinomes e locais secretos. – Ela falou e me mostrou que algumas linhas em diagonais formavam “O Rei os convoca, para a masmorra abaixo do sol”. Eu li e reli a frase, mas sem entender.
- Achei que tínhamos desmantelado-a a alguns anos atrás. – Eu falei.
- Não totalmente, ela apenas se escondeu nas sombras e sossegou, esperando que nós a esquecêssemos. – Ivanovich falou e vi que agora ele estava realmente preocupado.
- Igor, não sabemos o que eles podem fazer a partir daqui. Se esse Antaris conhece os códigos da Reis e Sombras, ele é um deles ou conhece membros dela. E se ele for o Rei? – Ivana falou.
- Eu sei, eu sei... Vou deixar um vigia permanente na gráfica, assim como vou avisar a qualquer gráfica da região que não aceite nenhum trabalho sem antes entrar em contato comigo antes. – Ele falou e todos assentimos. – Lucian, continue publicando o Expresso normalmente e coloque uma nova edição em circulação ainda hoje. Faça uma nota sobre o ocorrido, pode ser direto e dizer que se trata de impostores, mas não cite a R&S. É isso que eles querem que façamos.
- Sim, senhor. – Eu respondi e ele continuou.
- Mira, Ivana e Ferania prestem atenção nos alunos e vigiem qualquer tentativa de levar textos para fora da vila. – Elas assentiram e ele se virou para Reno por fim. – Reno, quero que investigue a R&S a fundo.
- Pode contar comigo, Igor. – Reno falou e todos saímos da sala. Reno pediu para falar comigo e as outras professoras foram em frente. Mira e Ferania iriam convocar a equipe do jornal.
- Lucian, quero que tome cuidado. – Ele falou, olhando sério para mim. – Talvez eu me ausente por alguns dias, mas tome cuidado. Procure não provocar muito esse tal de Antaris. Ainda não sabemos quem ele é e, pior, o que pode fazer.
- Eu não tenho medo, Reno, é isso que ele quer, que eu me sinta acuado. – Eu respondi e Reno suspirou.
- Eu concordo, mas tome cuidado. A R&S é capaz de coisas monstruosas. Igor não vai deixar isso barato, já tivemos problemas demais com ela no passado. Eu vou investigar e manterei você informado.
Reno falou e se despediu de mim indo com pressa para seu gabinete. Eu fui correndo para a sala do jornal, pronto para editar uma nova edição de emergência.
--------------
Diário de Lucian P. Valesti
Além dos problemas do Jornal, minha cabeça andava a mil com o meu problema sentimental.
Estava me sentindo um lixo, com nojo de mim mesmo.
Namorava a Liseria há 2 anos, e no ano passado beijei, ok, em minha defesa posso dizer que fui beijado, por uma garota completamente estranha. Até hoje eu não sei quem era ela e às vezes me pego imaginando quem seria.
Mas pior do que isso era o que eu estava sentindo esse ano.
Desde aquele dia em que vi Lenneth e Patrick brigando eu percebi que estava gostando da Lenneth.
Eu não entendia o porquê disso! Passei minha vida inteira com ela ao meu lado, sempre como minha melhor amiga e nunca senti nada por ela? Por que agora?!
Estava confuso... Isso poderia ser simplesmente ciúme de amigo? Não tinha certeza, pois estava muito forte...
Isso estava me matando aos poucos. Sem conseguir colocar para fora isso tudo ou mesmo entender eu guardava tudo para mim e comecei a me fechar para o mundo exterior. Queria muito conversar com alguém, mas não queria sobrecarregar o Ozzy. Ele já estava passando por grandes dificuldades e tentava ajudar a Parv e eu não queria atrapalhar...
E quanto a Patrick ou Ayala? Eu sentia vergonha de contar para eles o que estava se passando na minha cabeça... Sentia vergonha de estar gostando de outra garota além da minha namorada e vergonha de admitir que era da Lenneth...
Liseria percebeu algo essa tarde. Ela me perguntou por que eu estava estranho e distante, mas consegui dizer que era por causa do jornal. Dói muito pensar que a estou enganando e mais ainda pelo fato de que eu ainda gosto da Lis.
Se eu tivesse deixado de gostar dela seria mais fácil, pois sempre concordamos que o dia que um deixasse de gostar do outro, deveríamos ser sinceros um com o outro. Mas estava gostando das duas e não sabia como administrar isso.
Minha única forma de extravasar esses sentimentos é escrevendo esse diário, aqui no armazém da livraria, para onde venho com cada vez mais freqüência.
--------------
- Que foi, Lucian, você está bem? – Orion me perguntou, na biblioteca. Eu levantei o olho do diário sobressaltado e o olhei. Percebi que tinha cochilado e por sorte o diário estava tampado.
- Desculpa, acho que cochilei. – Eu falei.
- Você desmaiou ai isso sim, te chamei da porta, mas não respondeu. Não vai pro treino do Hóquei não? – Ele perguntou e só então percebi que ele já estava quase que com todo o uniforme. Então me toquei da hora e levantei sobressaltado, jogando o material na mochila.
- Caramba perdi a hora!
- Vamos, eu te acompanho até a república e depois vamos juntos. – Ele falou rindo e saímos andando pelos terrenos da escola, agora meio desertos. – Mas é sério, está tudo bem?
- Está sim, por que pergunta?
- Você anda muito aéreo, pensativo até demais. Parece sempre com algo engasgado ou preocupado com algo. – Ele respondeu, dando de ombros.
- É por causa do jornal, esse tal Antaris está me dando nos nervos. – Eu respondi. Essa desculpa estava ficando cada vez mais fácil.
- Nossa, é horrível o que ele está fazendo. – Ele comentou e eu concordei.
- E começar com essa história de jornal alternativo! É loucura! O diretor ficou irado. – Eu comentei.
- E o que vão fazer?
- Ainda não sei. Vamos tentar investigar, mas o Jornal vai continuar sem publicar nada dele e fazer propaganda negativa dele.
- Boa sorte, conte comigo para a campanha negativa! – Ele falou e chegamos à república. Ele esperou sentado na cama dele, enquanto eu me arrumava. Me vesti rapidamente e voltei para o quarto, só faltando o taco de hóquei.
- E a Lenneth? Aconteceu alguma coisa entre ela e o Patrick? – Ele perguntou.
- Não que eu saiba, porque pergunta? – Eu perguntei, esquivo.
- É que eu tenho visto os dois pouco juntos, parecem que estão brigados... Como você se sente com isso? Afinal ela é sua amiga.
- Eu tento não me meter. – Eu falei evasivo... Porém, os últimos dias pesaram em minha consciência e senti a necessidade de falar para alguém. E o Orion era um cara legal, um pouco chato e estranho às vezes, mas bem legal. – Na verdade, Orion, eu não sei o que estou sentindo.
- Como assim? – Ele perguntou e eu sentei na minha cama, olhando para a janela.
- Vou ser direto. Acho que estou começando a gostar da Lenneth. – Eu falei e ele ficou em silêncio um pouco e notei que estava surpreso.
- E a Lis?
- Esse é o problema. Ainda gosto dela, não sei como agir.
- Mas isso não é só ciúme de amigo, não?
- Eu não tenho certeza... Não consigo parar de pensar na Lenneth e sempre que a vejo perto do Patrick fico com raiva. Fora que eu tenho sonhado com ela.
- Mas sonhar não tem problema ué.
- Tenho sonhado em beijá-la e mais de uma vez eu tive vontade de beijá-la. É muito forte. Ai cara, estou com nojo de mim mesmo.
- Putz, pode falar, eu sou seu amigo lembra? Estou aqui ao menos para te ouvir.
Ele falou isso e sentou do meu lado. Eu sorri agradecido e me abri pra ele, contando tudo que sentia. Contei também da garota do Halloween passado e ele ouviu quieto, sem me julgar. Ele me disse para dar um tempo para mim mesmo, para ver no que daria isso tudo. Ele pode não ter ajudado muito, mas apenas de poder falar disso com alguém serviu para me deixar mais leve e tranqüilo.
Subscribe to:
Posts (Atom)