Wednesday, October 17, 2007

Nina levantou o mais cedo possível e correu para vestir o uniforme de tênis, meticulosamente organizado na noite anterior. As Olimpíadas estavam se aproximando e Durmstrang iria competir com várias outras escolas, de todas as partes do mundo. Durms parecia ter sido contaminada por um espírito competitivo gigantesco: alunos se esbarravam nos corredores tentando chegar mais cedo para reservar a quadra de treinos e sussurravam estratégias na mesa antes do café da manhã, sempre com os olhos atentos nos movimentos dos concorrentes. Nina se inscreveu em tênis, esporte que pratica desde os 8 anos, esgrima, xadrez de bruxo e natação. Sua dupla de tênis era Evie, que, aparentemente, estava tão empolgada quanto a menina.

- Dia, Nina! – apareceu na porta treinando manobras com a raquete – Olha só nossas voluntárias para o treino de hoje – falou, empurrado uma Vina sonolenta e uma Milla contrariada.
- Por voluntária ela deveria entender que estamos aqui por livre e espontânea vontade, Evangeline? – perguntou Milla, enquanto Vina balançava a cabeça em sinal de acordo.
- Ah, vocês querem que Durmstrang ganhe, não? Então ajudem! Bom trabalho, Evie, espero que você não tenha precisado ameaçar envenenar a coruja delas... – disse Nina, jogando a bolinha para cima e para baixo.
- Não. Pura e simples chantagem emocional! Vamos?
- Espera um minuto, vou perguntar se meu plano de saúde cobre acidentes em quadras de tênis... – falou Vina, tentando sair sem ser notada.
- Deixa de ser boba, Vina, nós somos delicadas! – respondeu Evie, puxando as meninas pela mão enquanto Nina ria genuinamente.

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- LAVÍNIA! MAS SERÁ POSSÍVEL QUE VOCÊ NÃO ENXERGA A DROGA DA BOLA??!!!! – Nina gritava enquanto sacudia a bola freneticamente no rosto de Vina.
- Eu...euu...
- EU quero trocar de time! Evangeline, passa a Milla, você fica com a Vina – Nina avançou na direção da amiga com o dedo esticado e puxou Milla.
- De jeito nenhum!! Eu fico com a Milla e você com a Vina! – respondeu, agarrando o braço da amiga
- Desculpe interromper, só queria avisar que eu tenho sentimentos! – gritou Vina tentando chamar a atenção das duas.
- E eu queria avisar que tenho braços, só não sei por quanto tempo...me larguem!!! Bom, vamos decidir isso como pessoas civilizadas e maduras. Cara ou coroa, Evie? – perguntou Milla.
- Cara...não, Coroa...CARA!
- Cara – disse Milla, enquanto Evie pulava de alegria.
- Ah, não, você roubou!! – gritou Nina, virando a moeda diversas vezes para verificar.
- Como alguém pode roubar no Cara e Coroa, Nina...?
- Existem diversas maneiras. Par ou ímpar é um jogo muito mais justo! Eu quero ímpar!
- Par – disse Evie, contrariada – Ahá! Seis é par!!
- Não é! Quer dizer...é, mas Pedra, Papel e Tesoura seria...
- NÃO! A MILLA É MINHA!
- Er...ok...
- Obrigada! – disse Evie triunfante, arrastando a garota para o outro lado do campo.
- É bom ser disputada – falou Milla, rindo.
- Pelo menos não é você que está no time do Hitler de saias – disse Vina
- É, mas estou no do Stálin de batom, não faz muita diferença
- Eu ouvi isso! Quero 50 flexões agora!!! – gritou Nina, apontando para as duas, que começaram a rir – Err...desculpem. Vem, Vina...tenta acertar dessa vez ou vamos ter que treinar com uma bola de praia.

Depois de duas horas de intenso jogo e “gritos de Evie e Nina (“ACERTA A BOLA!”, “MIRA DIREITO”, “NEM MACHUCOU TANTO, LAVÍNIA, É SÓ UM POUCO DE SANGUE!”), as duas garotas arremessaram as raquetes no chão e saíram do campo xingando a dupla.

- Que falta de espírito esportivo, não? – perguntou Evie, olhando indignada
- Inacreditável, tem gente que simplesmente não sabe brincar! Ahh, Merlim, me esconde, Evie! – disse Nina, usando a menina como escudo.
- Você quer entrar na bolsa de raquetes...o que aconteceu?! Ah...Michael...

Michael e Chris vinham andando na direção das duas. Michael saltitava, enquanto Chris se arrastava, lutando contra os próprios calcanhares.

- NINA!! – disse Michael correndo para abraçar a menina – A gente não se vê há tanto tempo!
- Jura, é? Parece que te vi ontem ainda...err...pára, Michael...brigada... – respondeu, se desvencilhando do garoto.
- Olenova, quer um abraço? – perguntou Chris, sorrindo para a menina e passando para cumprimentar Evie.

Nina sorriu abertamente, mas disfarçou logo que notou o sorrisinho triunfante de Evie.

- Não, Parker. Dispenso. Já se inscreveu nas Olimpíadas?
- Sim. Esgrima, Trancabola e Xadrez...você?
- Esgrima, tênis, xadrez e natação...- Nina mal havia terminado de falar quando Michael gritou.
- Nossa, que coincidência, estava agora mesmo pensando em fazer exatamente essas! – Chris abafou uma risada com as mãos quando Nina o encarou com absoluto pavor e Evie bateu palmas.
- PERFEITOI! Estamos mesmo precisando de cobaias...er...companheiros de treino. Fica com o Chris e eu com o Michael, ok, Nina? – disse, piscando para a amiga que respondeu com um “Tanto faz” apático.
- E quem disse que eu quero jogar??? – perguntou Chris indignado – Vocês arrastam os primeiros que aparecem e pronto?
- Esse é o esquema. Você não estava esperando uma remuneração, né?
- Se ele não quiser jogar, eu fico no time da Ninys – disse Michael, correndo para o campo oposto.
- Ele vai jogar, não vai? – Nina perguntou em um tom de súplica, misturado com um sorriso nervoso – Eu te pago um sorvete – falou, entredentes, chegando mais perto do menino.
- Uhnn – Chris olhava atentamente para ela e chegou ainda mais perto para dizer – Dois sorvetes.
- Fechado.
- Eu jogo! – disse Chris para Evie e Michael fechou a cara. Ficava extremamente incomodado com a proximidade entre o irmão e a menina – Você começa? Quero ver o que você pode fazer, Olenova.

Nina sacou a bola em cima de Evie, que mirou em Chris e por pouco não fez ponto. O garoto recuperou a bola miraculosamente e atirou no irmão que caiu sentado.

- PARKER!!! – gritou Evie para Michael.
- Whoa, genial! – Nina aplaudia, empolgada
- Obrigado. É um jogo particular que tenho desde os cinco anos de idade: acerte o Michael. Serve com qualquer objeto. – explicou, orgulhoso – Sempre fui uma criança simples. Sabia apreciar as pequenas alegrias da vida.
- Isso é horrível. – disse Nina, balançando a cabeça – Eu...posso tentar?
- Olenova, o que fizeram com você? – Chris parecia intrigado, mas não tirava o sorriso divertido do rosto – Há alguns meses atrás você me daria uma raquetada por isso!
- Eu sei...esquece. Eu não quis falar isso...pobre Michael. Desculpa.
- Não, não, eu acho ótimo! Dois sorvetes se você conseguir.
- Err...fechado?
- Fechado.
- Pronto, meu jogador já está bem...mas tentem ser menos agressivos...E VOCÊ TENTE SER MENOS FROUXO! – gritou Evie,pegando a bolinha do chão.

O jogo recomeçou e logo no saque Nina conseguiu acertar o menino, que caiu novamente. Largou a raquete no chão, horrorizada.

- Michael...Merlim, o que eu fiz?!
- PARKER!!! – Evie avançou novamente em Michael, que gemia exageradamente.
- De primeira!! Isso valia cinco pontos na minha tabela...estou orgulhoso! – falou Chris, olhando admirado.
- Olha só o que eu fiz, coitado...arrgh, culpa sua! Pobrezinho!
- Olenova...- e Chris estava com um tom compreensivo pela primeira vez – ele só caiu, ele sempre exagera. Michael não é de porcelana, apesar de parecer...
- Ele é sensível...
- Pensa pelo lado bom...quem sabe assim ele não para de te perseguir um pouco – disse Chris, displicente. Congelou quanto notou que Nina o encarava irritada. – Que dizer...você notou, não? Ele te persegue o tempo todo. E eu imagino que você não goste.
- Eu nunca disse que não gostava – disse, grossa
- Eu não acho que você queira nada com ele.
- Talvez eu queira – respondeu só pela força do argumento, mas se arrependeu logo em seguida – Bem...
- Ok. Pode arrumar os esparadrapos para ele, então - Tranqüilamente, colocou a raquete no chão, deixando Nina muda – E estamos quites na questão do sorvete.
- ARGH! Acabou o treino. Meu jogador foi buscar o antiinflamatório da Lavínia e o seu saiu de campo...Nina? Terra para Nina... – disse Evie, sacudindo as mãos na frente do rosto da garota – Cadê o Chris?
- Ah, ele precisou fazer uma coisa...- respondeu Nina, ainda encarando a saída do campo.
- É, sei. Vamos ser diretas? Você gosta dele, né?
- O quê?! Eu?! Claro que não...ridículo.
- Nina, por favor...
- Você é louca...e eu preciso treinar xadrez. Até mais.

E saiu na direção oposta, ainda ouvindo Evie perguntar: “Xadrez sozinha?!”.

Tuesday, October 16, 2007

Masmorras cheias, encapuzados a postos olhando para um tablado um pouco elevado, e na parte mais alta, o líder dava suas últimas instruções aos iniciados... Hoje seria a prova final...

- Quero que vocês duelem entre si e o vencedor será um membro da sociedade, menos o mais velho dos iniciados, para você haverá algo diferente... (dizia Arthur em voz alta e clara).
O garoto mais velho olhou em volta e procurou se manter impassível, sabia que para ele nada seria fácil.
- Quero que você enfrente um dos meus melhores espadachins: Sagramor. – e um homem se adiantou a frente. Pelas roupas podia se ver que era um homem forte, acostumado a duelar.
Não, não seria nada fácil... (era seu pensamento enquanto avaliava seu oponente).
- Sagramor! Lute sem piedade. – foi a ordem dada por Arthur e um sorriso maldoso brincou nos lábios daquele cavaleiro.
Aproximaram-se, cumprimentaram-se e logo os retinir das espadas era ouvido por todos os lados. Aparentemente não se passou muito tempo e as outras lutas foram se encerrando e o garoto mais velho ainda oferecia resistência, embora exibisse pequenos cortes pelos braços e corpo. A luta parecia já ter um final definido, o mais velho exibia um sorriso confiante, porém num momento oportuno, o garoto assumiu a postura de ataque, levantou os dois braços acima da cabeça com as pernas separadas e o homem se preparou para o golpe com certa displicência, achava-se superior, mas o que ele não esperava era a força empregada no golpe pelo garoto. A energia acumulada o fez recuar e perceber que o garoto guardou forças durante toda a luta e se deixou machucar apenas para perceber seu ponto fraco, e quando Sagramor se deu conta disso era tarde demais: um golpe forte desarmou o cavaleiro mais velho, e o impacto o jogou ao chão. O garoto encostou a espada no pescoço do homem que o provocou ainda uma última vez:
- Vamos, faça o que tiver que fazer ou não tem coragem? - e seus olhos se dilataram quando o garoto ergueu a espada no alto, e a bateu no chão a milímetros do rosto do homem. – o garoto disse cansado entre os murmúrios aprovadores e decepcionados:
- Minha espada não precisa do sangue de meu irmão para ser forte. Apenas de minha força. – e estendeu a mão ao homem para ajudá-lo a levantar-se do chão. O homem após olhar para o garoto, assentiu com a cabeça e aceitou a mão oferecida.
Alguns cavaleiros observavam o novato com uma raiva muda. O grande teste ainda não havia sido feito e eles tinham certeza, neste ele falharia. Eles o forçariam a falhar.
Após o duelo de espadas e de 5 novatos serem aprovados e estarem sob os cuidados de outros cavaleiros, Arthur levantou a mão e o silêncio se fez:
- Agora é a vez de nosso iniciado mais velho. Sua ultima tarefa será mais complexa. Você deverá roubar os arquivos da sala do diretor da escola, e nos revelar quais os alunos são mestiços. – um burburinho foi ouvido e Arthur levantou a mão e todos silenciaram novamente. O jovem olhou firme para o líder e perguntou:
- E se eu me recusar, serei eliminado? – novos sussurros.
- A recusa pode acarretar numa punição a você por sua desobediência. - a após observar que o garoto não imploraria por sua entrada, ele disse: - Não, você não seria eliminado por isso. Então o que me diz? Vai roubar os aquivos?
- Não! - foi sua resposta firme, e o líder o olhou curioso:
- Por quê?
- Porque o código da cavalaria é claro: Proteja os inocentes, e isso eu carrego como norma de vida. E eu já provei o meu valor, tenho o direito de fazer parte da irmandade.
Antes que Arthur dissesse algo, um dos cavaleiros disse:
- Ele tem que ser punido, Arthur. Exijo o direito de fazer isso. - e o garoto virou o rosto para olhar o cavaleiro que queria puni-lo. Ele havia reconhecido àquela voz, e se aquela pessoa estava ali, sua chance de ser eliminado após ter passado por tantas provações seriam maiores.
-Ah é? E o que você pensa em fazer Galahad? – perguntou Arthur.- Quero que ele receba 5 golpes de chicote como punição por ousar não cumprir uma ordem sua.
- 10 golpes. - disse uma outra voz que o garoto também reconheceu, mas ficou calado, enquanto o segundo falava:
- Veremos se ele seria capaz de suportar qualquer coisa pela irmandade.
Alguns cavaleiros começaram a reagir em protesto, Sagramor e Derfell entre eles.
- Isso é demais...
- É degradante...
- Nunca vi uma coisa assim...
- Ele se mostrou capaz como qualquer outro de nós...
Um outro cavaleiro mais velho aproximou-se e disse, com um indisfarçável prazer na voz:
- Este poderia ser o teste final caro Arthur, uma vez que ele só está sendo testado, porque reivindicou o direito do sangue. Pois que seu sangue mostre o seu valor.
Arthur após pensar por alguns momentos disse:
- Está decidido: Deverá suportar 10 chibatadas, ao final se ainda estiver de pé, terá vencido o desafio final. Galahad e Gauvain, esta prova será dirigida por vocês.
Os dois cavaleiros se aproximaram e enquanto um deles pegava um chicote, o outro com uma faca rasgava suas vestes, expondo suas costas. O cavaleiro chamado Galahad disse, baixo em seu ouvido antes do primeiro golpe:
- Não deveria ter se metido com a gente...
Ele não teve tempo de responder, pois sua pele ardeu ao primeiro golpe e ele segurou o grito. Fechou os olhos e lembrou-se do porque estava ali, e sua determinação o faria suportar qualquer coisa, até mesmo o gosto de sangue que sentia na boca.
Após o que lhe pareceram horas, em que seus algozes o puniram com toda a força de que eram capazes, seu tormento chegou ao fim. Mantinha-se de pé, com a cabeça erguida e após olhar para Arthur e ouvir ele dizer basta, não demonstrou o alívio esperado, continuou firme, nem sequer tentou se cobrir, pois suas roupas estavam em frangalhos, enquanto Arthur fazia sua declaração:
- Estes nobres cavaleiros, passaram por vários testes ao longo de sua iniciação e agora é chegada a hora de fazerem o juramento de fidelidade ao seu líder e seus companheiros. Eu vos pergunto: Algum de vocês quer desistir?
- Não! - responderam em uníssono.
- Dispam suas vestes. É hora de receberem a marca que nos diferencia dos comuns. – ordenou o líder e ele ouviu os outros iniciados gritarem, enquanto o cheiro de carne queimada enchia as masmorras, a ele pareceu ouvir seu nome de cavaleiro ser pronunciado por outra pessoa, mas era sua própria voz, respondendo à pergunta de Arthur.
A partir daquele dia ele seria chamado de Gareth.
Logo dois homens encapuzados, que haviam permanecido o tempo todo em silencio, se aproximaram, e foram tirando suas máscaras dizendo pesarosos, ante sua surpresa ao reconhecê-los:
- Nos perdoe! Não sabíamos que seria desta maneira. – disse o homem mais velho, enquanto tirava das vestes uma poção para as dores. O mais jovem dos dois homens olhava para suas costas e ao ver o sofrimento em seus olhos, o garoto resolveu amenizar o tormento.
- Acabou! Sou um de vocês agora. Posso saber como chamá-los?
- Sou Heitor. - respondeu o mais velho enquanto lhe dava outra poção.
- E eu sou Leodegrance. - respondeu o outro que usava a varinha para fechar suas feridas, e fazia isso delicadamente para não deixar cicatrizes.
Os dois mascarados que se revezaram em sua punição se aproximaram e retiraram as mascaras. Aquele que sugeriu o açoitamento disse cínico:
- Agora somos irmãos, espero que não haja ressentimentos. – e estendeu a mão com uma postura arrogante. O outro ao seu lado o olhava sério, com as mãos ao lado do corpo.
- Ressentimento é uma emoção, e denota sentimento. Eu não costumo ter sentimentos por aquilo que eu desprezo. – Ignorou a mão estendida e gostou de ver o choque nos olhos de Galahad e Gauvain.
Não se importava com os sentimentos deles, ele havia alcançado o seu objetivo. Agora tudo que ele precisava era se manter firme por mais algum tempo.

Thursday, October 11, 2007

Penseira de Lavínia Durigan


‘FA-XI-NA!’ A veterana de cabelos loiros possuía um sorriso empolgado ao nos indicar com o braço, baldes, panos, vassouras e esfregões. Eu e as outras novatas trocamos olhares apreensivos.

‘Esse será o trote de vocês. Terão de deixar essa república um brinco por uma semana completa. Isso inclui lavar, passar, arrumar, limpar, cozinhar, lustrar...’ A outra veterana, um pouco mais baixa e morena, disse cética. A novata ao meu lado, bastante pálida, magra e com grandes olhos verdes levantou a mão. A veterana loira a indicou com a cabeça.

‘Alguma dúvida Olenova? Não sabe como manusear uma vassoura comum?’ perguntou irônica. A menina abaixou a mão mas manteve o rosto firme e disse decidida...

'Já faz um mês desde que chegamos a Durmstrang! Acho que o tempo de trotes já está esgotado.’ Concordamos com a cabeça e as duas novatas riram com gosto.

‘Não perguntamos há quanto tempo vocês chegaram aqui. Isso não muda o fato de que são NOVATAS. Quem decide a hora do trote somos nós... E se quiserem permanecer na Avalon, cumprirão isso direitinho. E digo isso em nome de todas as outras garotas, afinal, eu sou a líder este ano...’ ela sacudiu os cabelos para trás e a sua amiga exibia um ar admirado que me deu enjôo. ‘Bom, se não há mais dúvidas, podem começar!’

Se tinha uma coisa que eu definitivamente odiava na vida era obedecer a ordens. Mas desde que chegara a Durmstrang, eu descobri que o que as pessoas mais gostavam era de dar-lhes. Quando vi as duas veteranas mesquinhas saírem da república com ares triunfantes para aproveitarem seus fins de semana, senti um desejo imenso de saltar em cima daquela cabeleira loira e arrancar o máximo de fios que conseguisse, mas vendo que duas das novatas já tinham apanhado baldes e panos, respirei fundo e me aproximei das outras. A outra novata loira olhou para nós decidida, e riu. Foi uma risada tão espontânea e sobrenatural, que todas se encararam assustadas.

'Sabem, isso não vai dar certo!’ ela disse finalmente, controlando a risada. Como não falássemos nada, ela continuou. ‘Dormimos no mesmo quarto há um mês e nem se quer nos conhecemos! Se formos trabalhar separadas, não vamos conseguir limpar essa casa nunca! Então, sugiro uma breve apresentação...’ continuamos todas a encarando assustadas. Ela retirou o sorriso do rosto e soltou um muxoxo impaciente levantando um dos braços. ‘Oi. Meu nome é Ludmilla Kovac. Podem me chamar só de Milla, se preferirem.’

‘Anastácia Ivanovic. Os meus amigos costumam me chamar de Annia...’ outra novata de cabelos castanhos também levantou a mão sorrindo gentil e se apresentou.

‘Nina Olenova, e não tenho apelidos devido ao motivo óbvio de meu nome ser estupidamente pequeno. Me chamem de Nina mesmo.’ Todas nós rimos.

‘Evangeline Parvanov. Me chamem só de Evie, por favor. Odeio meu nome!’ concordamos e ela agradeceu com um aceno de cabeça. Todas olharam para mim, que acabei levantando o braço também antes de me apresentar.

‘Lavínia Durigan. Nunca me deram apelidos, portanto podem criar um se quiserem, ou me chamar de Lavínia mesmo...’ elas riram. Milla disse pensativa.

‘Lavínia... Ok, então vamos te chamar de Vina, o que acha?’

‘Tudo bem.’ Concordei sorrindo.

‘Acho que agora estamos preparadas.’ Milla disse olhando os baldes no chão. ‘Vamos deixar essa república brilhando! O que acham de cada uma cuidar de um quarto e depois limparmos juntas o andar de baixo?’ ela perguntou e concordamos dividindo o que cada uma limparia.

A semana de faxina estava só começando...

ººº

NO: Meu reino por um banho! – Nina se largou na cadeira exausta e todas nós a acompanhamos.

Finalmente havíamos terminado o último dia de trote e a república estava tão limpa que a olhamos orgulhosas.

EP: Acho que aquelas veteranas sabichonas não vão poder reclamar de nada. Fizemos um ótimo trabalho. – Evie concluiu satisfeita.
AI: Ah não... – Annia disse desanimada e a olhamos. Ela encarava fixamente um único ponto, do outro lado da sala. Todas viraram a cabeça para ver do que se tratava e no mesmo instante, o desânimo de Annia se contagiou para todas nós.
LK: Droga! O aquário do Bolha! Esquecemos de limpar a droga do aquário do ‘Bolhazinha da mamãe’! – Milla completou imitando a voz de Olga quando conversava com o peixe pelas manhãs.

O Bolha estava morando na Avalon há sete anos, e por conveniência, Olga e suas amigas puxa-saco tinham agregado a ele o símbolo de ‘mascote da casa’. Era um peixe dourado bastante gordo e egoísta. Todas as vezes que experimentaram colocar outro peixe junto com ele, o coitado amanhecia morto na manhã seguinte. Ficamos o observando nadar entre as pedras e plantas artificiais no fundo do aquário gigante até Nina se levantar decidida.

NO: Vamos limpar isso de uma vez! Somos cinco contra um peixe gordo e um aquário, nada pode dar errado...

Doce engano de cinco meninas inocentes. Mal sabíamos nós que teria sido muito melhor deixar o aquário do jeito que se encontrava... Evie, Annia e Milla carregaram o aquário até a mesa com cuidado. Nina destampou e com uma peneira eu peguei Bolha que começou a se debater entre a rede, desesperado. Coloquei-o em uma jarra de água que Milla estendia na boca do aquário e assim que caiu dentro do recipiente minúsculo o peixe começou a dar voltas descontroladas e rápidas. Annia tapou a jarra depressa. Bolha dava voltas tão rápidas que minha cabeça estava ficando tonta só de acompanhar. Nina se sentou e aproximou o rosto da jarra de modo que seu nariz encostou-se no vidro. Alisou com carinho um dos lados da jarra, mas Bolha não parou.

NO: Xiii, calminho, Bolhazinha da titia. – ela imitou a voz de Olga e Evie, eu, Milla e Annia nos entreolhamos caindo na risada logo em seguida. Nina nos lançou um olhar de censura. – Estou tentando acalmar o peixe! Vocês não deveriam estar limpando esse aquário? – perguntou irritada e paramos de rir esvaziando o aquário para começarmos a limpar.

Estava indo tudo extremamente bem. Já havíamos terminado de limpar o aquário, recolocar as pedras e plantas, enchido novamente com água limpa... Só faltava voltar Bolha para seu lugar de origem. Annia pegou a peneira e Nina destampou a jarra. Ao ver a invasão das redes, Bolha se desesperou novamente e começou a nadar para longe do alcance de Annia. Como a jarra era bastante pequena, não demorou muito e Annia o capturou. O peixe começou a se debater novamente, e assim que Annia levantou a peneira, ele deu um salto tão violento que se livrou da rede e caiu em cima da mesa.

AI: SEU PEIXE BURRO! – Annia gritou e sacudiu a peneira na direção de Bolha, mas o peixe estava quicando em cima da mesa descontrolado. – ME AJUDEM!

O grito dela nos fez sair do estado de letargia que entramos desde o momento que acompanhamos em câmera lenta o peixe se livrar da peneira. Milla e Evie saltaram em cima da mesa tentando agarrar o peixe com as mãos. Eu corri para o outro lado da mesa e também comecei a tentar capturá-lo. Nina corria ao redor da mesa gritando.

NO: Bolhazinha, seu peixe levado! Fica quietinho que a titia promete te colocar de volta no seu aquário. O que acha? FICA QUIETO, SEU ANIMAL IDIOTA! – Nina berrou levando as mãos à cabeça.

Mas o circo estava armado. Annia xingava o bicho. Evie e Milla já estavam descabeladas de saltar atrás do peixe. Eu e Nina não sabíamos o que fazer ou a quem ajudar. Depois de aproximadamente cinco minutos nessa agonia, aconteceu o que mais temíamos... Bolha parou. Ficou estático, estendido na superfície da mesa. Annia abaixou a peneira desanimada. Evie e Milla se entreolharam em desespero. Eu e Nina corremos.

LD: Parada cardio-respiratória! Ele precisa de uma massagem cardíaca!!! – com os dois dedos indicadores, comecei a pressionar o peito do peixe, que não reagiu. Milla segurou meu braço mecanicamente.
LK: Ele está morto. Vamos pelo menos entregá-lo à Olga sem furos.
EP: NÃO! Ele não está morto Milla. Vina está certa. Ele precisa de ar! Me abram espaço... – Evie pegou Bolha e o aproximou a boca do bicho de sua própria boca, começando a sugá-lo. O que deveria ser uma respiração boca-a-boca quase terminou em uma tragédia pior. Evie se desesperou ao ver que o peixe não reagia e sugou com tanta força o peixe que acabou o engolindo. Engasgou-se na mesma hora apertando a garganta e tossindo.
AI: EVIE! – Annia correu até ela e começou a socar com violência suas costas. Bolha saiu da boca de Evie e caiu no chão.
NO: Ótimo! Agora além de morto, ele está todo babado. – Nina pegou o peixe na ponta dos dedos enojada. – Realmente ótimo!
EP: Pelo menos não fiquei de braços cruzados assistindo tudo! – Evie disse com raiva recuperando a voz. Nina não respondeu.

A cena toda seria cômica se não fosse trágica. Um minuto depois ouvimos a porta da sala se abrir e congelamos. Olga e Diana entraram na república rindo e olharam ao redor.

‘Uau. A república está bastante limpa, não está? Acho que as novatas estão livres do tro...’ Olga ia dizendo, mas ao ver que estávamos congeladas ali, Nina segurando Bolha esticado no ar, completamente imóvel, ela arregalou os olhos aterrorizada e soltou um berro agudo que preencheu todo o ar. Com o susto, Nina deixou o cadáver do peixe cair no chão e nos precipitamos para recolhê-lo, mas era tarde demais. Olga já vinha na nossa direção, aos prantos. Diana tinha as mãos na boca. ‘O QUE VOCÊS FIZERAM COM O BOLHA??? BOLHAZINHA, ACORDA! BOLHA, ME CONTA O QUE ELAS FIZERAM COM VOCÊ! BOLHA!’

Era Olga quem estava desesperada agora. Sacudia Bolha freneticamente, chorando. Evie se adiantou com cara de enterro e segurou os braços da menina.

EP: Para Olga, para! Não adianta!

‘TIRA SUAS MÃOS ASSASSINAS DE MIM! BOLHA!’

LK: PARA OLGA! DEIXA DE SER IDIOTA! O SEU PEIXE ESTÁ MORTO! – Milla gritou parecendo a beira de entrar em colapso. Olga parou de sacudir o peixe morto por um momento e a encarou com ódio. – Desculpe... Nós não queríamos, mas foi um acidente. Fomos limpar o aquário e ele escapou da rede, caiu, e ninguém conseguiu agarrá-lo...

A cada palavra que Milla dizia, uma veia diferente pulsava na têmpora de Olga. Lágrimas ainda escorriam em seu rosto, mas os seus olhos adquiriram um novo tom maníaco quando recomeçou a gritar.

‘ASSASSINAS! FORA DAQUI! NÃO QUERO OLHAR NUNCA MAIS PARA A CARA DE VOCÊS! SUMAM DA MINHA FRENTE!’

NO: Não vamos sair. – Foi a vez de Nina falar. Embora ela estivesse com uma expressão de culpa, falou firme. Olga a encarou. – Não vamos sair daqui pois você não pode nos expulsar. Só o diretor pode. Então, aprenda a controlar seu ódio, pois vai ter que conviver conosco.

‘CERTO! VOCÊS QUEREM GUERRA? É GUERRA QUE TERÃO. NÃO POSSO MESMO EXPULSAR VOCÊS DA REPÚBLICA, MAS DO QUARTO SIM. A PARTIR DE HOJE, VOCÊS TODAS ESTÃO BANIDAS PARA O SÓTÃO, CASO NÃO QUEIRAM DORMIR NA SOLEIRA DA CASA!’

Pegando Bolha e recomeçando a chorar, Olga virou as costas e saiu correndo, batendo a porta ao passar. Diana ficou nos encarando por um momento sem qualquer expressão, então saiu correndo atrás dela. O silêncio caiu na sala. Evie desabou na cadeira com as mãos na cabeça. Nina andava de um lado para outro. Milla, Annia e eu continuamos estáticas.

EP: Elas podem mesmo nos banir? – Evie perguntou com a voz sufocada pois escondia o rosto nas mãos. Nina disse amarga.
NO: Pode. A líder da república comanda a divisão de quartos. QUE DROGA DE PEIXE MALDITO!
LK: Onde foi parar o ‘Bolhazinha da titia’? – Milla perguntou. Por um instante, todas nós trocamos olhares tensos e culpados, e um segundo depois começamos a gargalhar.
LD: Eu sei que é trágico, que vão nos odiar para sempre por termos assassinado o mascote da Avalon, mas tenho que admitir... Isso está muito engraçado! Parece cena de comédia teatral!
AI: Acho que começamos mal por aqui, e vocês? – Annia perguntou secando lágrimas. Concordamos. Nossa fama estava no lixo.
NO: Bom, acho melhor respeitarmos o luto da Olga e começarmos agora mesmo nossa mudança para o sótão. Podemos colocar ordem ali... Depois de pronto, teremos um andar inteiro só nosso! – ela completou e rimos.

A partir daquele dia, a nossa amizade só cresceu. Tudo bem que Olga tratou de colocar nossa reputação no chão ao contar dramaticamente o episódio na manhã seguinte para todas as outras meninas. Mas já não nos importávamos. Alguns meses depois ela se formou e nós passamos a ser veteranas. O restante das meninas esqueceu da história e nos tratava bem. O nosso sótão demorou a ser organizado, mas no final de uma semana, estava colorido, arejado, claro, e com a nossa cara. Foi nesse quarto onde várias noites passamos em claro nos ajudando, rindo, bolando teorias e criando momentos que nunca mais seriam esquecidos por nenhuma de nós, ‘as meninas da Avalon’.

°°°

N.A.: Texto de como Evie, Annia, Milla, Nina e Vina se tornaram tão amigas. Baseado em fatos um tanto reais ocorridos com a And, e estruturado a partir de uma conversa do trio: Ju, And e eu (Tandi).

Wednesday, October 10, 2007

Diário de Reno G. Kollontai

- Sr. Kollontai! O que pensa que está fazendo? Pelo que me lembro mandei a turma realizar a transmutação usando o mercúrio!
- Me desculpa professora Kollontai, mas o mercúrio é um reagente muito lento. Prefiro o Enxofre.
- Vocês estão praticando o básico de alquimia, Sr. Kollontai. Ainda estão começando.
- Eles podem estar começando. Eu não. Assim como acho que a Annia deveria usar os próprios ingredientes também.
- Basta! Ao final da aula, fique em sala, Sr. Kollontai.
Emburrei a cara, enquanto a professora apontava a varinha e desfazia minha transmutação. Guardei meu material de alquimia com raiva e aguardei todos saírem da sala, ficando a sós com a professora de alquimia: minha mãe.
- Reno, querido, por que faz isso? – mamãe falou, com a voz cansada quando ficamos a sós.
- Porque eu não queria usar o mercúrio, o enxofre reage muito mais rapidamente e dá resultados melhores, Sra. Kollontai.
- Pode me chamar de mãe quando estamos a sós, e pare de me chamar de Sra. Kollontai com esse sarcasmo na voz!
- Desculpe, mãe. Mas eu não concordo em adotar este nome. Deveríamos manter o seu nome, e não o de papai, apesar de gostar muito dele.
- Chega Reno! Já discutimos muito isso, e tenho certeza da minha escolha!
- Mas é a sua escolha! E não a minha! Só não me apresento como Reno Fla...
- Já chega Reno! Agora já chega!
- Está bem então! Eu só não me apresento desse modo em respeito a você, mas se isso não é nada tudo bem! Posso ir, mamãe? – falei a ultima palavra com certa ferocidade e mamãe rebateu com um olhar gélido, mas acamou-se.
- Pode sim, filho... Mas não me desobedeça mais durante minhas aulas. Sei que você está mais avançado que sua turma, assim como a Annie. Mas para isso existe o Clube de Alquimia Avançada, que por sinal você é o Monitor. Por que você não ajuda seus colegas então?
- Porque não quero. Eles não têm capacidade para aprender algo dessa facilidade, então não há nada que eu possa ensinar.
- Eu só espero que você cresça e pare de ser assim. Porque sei que quando você quer, você é uma pessoa maravilhosa. E por baixo dessa sua cara de enfezado e malvado, tem um ótimo garoto. Meu baixinho – Ela falou, rindo da minha cara de chateado e me abraçou. Abracei-a também, pois mesmo que briguemos muito, ela é minha mãe, e a pouca família que ainda me restou...
Quando sai da sala de aula, fui direto para a república onde moro. No meio do caminho falei com algumas pessoas, e ignorei algumas. Além de estar de mau-humor, não queria falar muito com certas pessoas. Só falei direito com a Annia, pois ela queria saber se minha mãe havia brigado comigo.
- Ela brigou um pouco sim. Pediu para que eu não a desmentisse nem nada em suas aulas, mas nada demais.
- É sério Reno, você tinha que parar de brigar com sua mãe, principalmente na aula dela. Os outros alunos podem achar que estão no mesmo direito.
- Ai deles! Eu mesmo transmuto eles em ratos e os coloco para serem caçados pelos cães de caça da escola! Por falar em alquimia, não se esqueça, há encontro do CAA essa noite. Espero que possamos discutir alguma alquimia melhor que as das aulas.
- Claro estarei lá. Vou encontrar o Ty daqui a pouco. Já o conheceu? É um dos novatos.
- Não, não conheci e nem tenho muita vontade de conhecer novatos. Eu vou acordar o Bram então, ainda não o vi pela escola, deve estar dormindo ainda. Até mais, Annia.
Despedi-me dela e rumei para a república, onde acertei ao adivinhar que o Bram ainda dormia. Havia uma coruja piando na janela, mas mesmo assim ele não acordava. Peguei a coruja e reconheci a letra de Griffon, primo de Bram. Com curiosidade, mas sem vontade de invadir a correspondência de meu amigo, cutuquei-o com o pé até acordar.
- Vamos Bram, acorda! Chegou uma coruja do Griffon, lê logo quero saber o que é. E você perdeu uma aula, pra variar.
- Ah, bom dia também, Reno. Carta do Griffon o que será? – Ele sentou-se na cama e pegou os óculos, começando a ler a carta. Enquanto isso eu olhava pela janela e vi um garoto vindo na direção da república, mas o ignorei. – Ah, ele mandou um abraço para você também. Ele disse que vai participar das Olimpíadas. Por Merlim! Acho que ele vai participar de umas 7 ou 8 modalidades. Ah, o Seth também vai participar.
- Aquele Seth vai participar? Em que? Duvido que ele ganhe algo.
- Em tiro, arquearia, natação, montaria, nas 3 modalidades de esgrima e algumas outras.
- Ah! Ótimo posso mostrar para aquele lá que sou melhor que ele em todos estes! Humpf, Seth. – falei com rancor na voz. Gostava do Griffon, mas odiava o Seth, e o sentimento era recíproco.
- Alguém falou o nome Seth? – o garoto que eu vira da janela entrou sem sequer bater. Ele tinha cabelos negros e olhos cinzentos e um ar de felicidade constante.
- Como é que você ousa entrar sem ser convidado, sem sequer bater?! – eu perguntei chocado e com certo rancor pela ousadia.
- Ah, olá Ty. Falamos no Seth sim, você o conhece? – Bram falou rindo da minha reação, enquanto ambos ignoravam meus olhares de raiva.
- Claro que o conheço. Assim como o irmão dele. – ele respondeu também sorrindo. Perdi a paciência e simplesmente o ignorei, saindo da república.
- Você tem aula agora, Bram, não se esqueça. Não sou seu elfo particular! E você intrometido, dê-me licença. – falei ao passar pelo garoto, esbarrando nele de propósito, mas ele veio atrás de mim um momento depois.
- Você é o Reno não?
- Kollontai para você.
- Como alguém como você é amigo do Bram? Ele é tão calmo e tão amigável. Você é tão... Irritado e fechado.
- E você tão intrometido... Vejo porque é amigo daquele lá.
- Aquele quem? O Seth ou o Griff?
- Quem mais? Minha tia? Óbvio que o Seth Chronos. O Griffon é boa gente.
- Sempre o Griffon que atrai amizades... Mas o Seth é uma ótima pessoa! Não sei por que não gosta dele.
- Isso não te interessa e não sei por que está falando comigo, novato.
- Ty por favor. Acho que sei por que não gosta do Seth. Ele é totalmente seu oposto. A pessoa mais calma e bondosa que já conheci, ao contrário de certas pessoas. – ele falou de forma ácida, mas rindo. Eu o empurrei com o ombro e preparava-me para um acerto de contas quando Luka e Max apareceram ali perto Acho que gosto menos deles do que do Seth, o Seth ao menos é inteligente... Já esses, para mim, não valiam nada... E ainda eram jogadores de quadribol.
- E aí Kollontai, também quer dar uma lição no novato?
- Ah, olá, Patetas – Ty revidou sem medo, e sua coragem já me deixou mais calmo com ele.
- Saiam daqui Ivanov e Parvanov, não os chamei aqui pelo que sei. – respondi com acidez os dois.
- Calma lá, Kollontai também queremos tirar nossas satisfações com esse aí. – Max falou apontando para Ty.
- Covardes como sempre então? O intelecto de vocês mudou pouco. Acho que em vez de gastarem força física em quadribol, gastam os neurônios isso sim. E que decadência está o time de vocês.
- Fique calado então Kollontai! Não estamos nem aí para sua alquimiazinha... - Luka falou rindo de mim, mas eu já estava acostumado a duelar usando alquimia.
Rapidamente saquei um frasco de meu bolso e joguei contra ele, transmutando o líquido em outro líquido mais grosso que caiu em sua roupa, manchando-a de verde. Sorte dele, se caísse em sua pele ele ia ficar com muitas espinhas... O Ty também aproveitou o momento certo para lançar um feitiço de pernas bambas em Max. E os dois tiveram que ir embora, prometendo vingança.
- Nada mal para um estressado. – Ty comentou, quando estávamos a sós novamente.
- E você também, nada mal para um intrometido amigo de certas pessoas. E ainda por cima novato!
- Já falei que o Seth é boa gente! Bem, me chamo Tyrone John Mcgregor. Prazer.
- Renomaru Goldensun Kollontai. Pode chamar de Reno. Prazer também.
- Pode me chamar de Ty então, acho que chega de discutir não? Só não gostei do que falou de quadribol! Eu também jogo!
- Afff mais um jogador de quadribol?! Vocês se multiplicam?!
Fomos na direção do castelo discutindo sobre isso e rindo um pouco das caras de Luka e Max.
Até que para um novato ele era legal, e parecia inteligente, acho que vai ser uma boa amizade. Só espero que ele não queira que eu e Seth dividamos o mesmo espaço...
A aula do clube de duelos havia chegado ao fim e saí exausto da sala, mas não pensava em voltar para a república e dormir. Amanhã era dia de entregar matéria escrita para fazermos a edição de sábado do jornal e ainda precisava coletar alguns dados para finalizar a minha. Separei-me do pessoal no corredor e entrei na redação do jornal. Ela estaria vazia, se não fosse por uma única pessoa de costas revirando alguns papéis espalhados em cima de sua mesa. Caminhei o mais silenciosamente que pude e parei atrás de Evi, quase encostando a boca no ouvido dela.

‘O que está fazendo?’ Falei de repente e ela saltou e gritou, me batendo com uma pasta que tinha nas mãos

‘Merlin, não faça mais isso, quer me matar??’ Disse colocando a mão no peito e respirando devagar ‘Meu coração quase saiu pela boca!’

‘Nossa, não sabia que minha voz era tão sexy assim’ Disse debochado e ela revirou os olhos. Ri e me sentei na mesa ‘Então, o que está fazendo aqui sozinha? Não vi você na aula de duelos’

‘Ah não deu tempo de ir clube hoje, preciso terminar minha matéria’ Disse com a voz um pouco alterada de quem estava sobrecarregada ‘E preciso colher informações sobre a droga do musical que vamos fazer testes em dezembro!’

‘Você precisa desistir de algumas matérias ou clubes, não está conseguindo dar conta de tudo’

‘Eu nunca desisto das coisas que começo’ Disse voltando a revirar os papéis ‘E estou dando conta de tudo sim, só preciso de um tempo para me organizar!’

‘OK, calma, respira’ Ela me olhou atravessado e me esforcei para não rir ‘Pra que musical você vai fazer teste?

‘Ai o professor inventou essa agora, ninguém merece!’ Ela atirou alguns papéis na pasta sem paciência e sentou parecendo cansada ‘É um tal de Footloose, um filme trouxa’

‘Footloose?’ Perguntei já às gargalhadas ‘Jura?’ Ela confirmou com a cabeça espantada com a minha reação, mas continuei rindo ‘Esse filme é muito legal, eu adoro e já assisti várias vezes, mas ver vocês encenando ele vai ser particularmente engraçado!’

‘E posso saber qual é a graça toda?’ Disse zangada e tentei diminuir as risadas, mas estava difícil

‘Você até acho que não, mas o garoto que for escalado pro papel de Ren MacCormick vai ter que ser um pé de valsa!’

‘Bom, aí é azar o dele. Só preciso assistir esse filme, quero saber como é essa Ariel’

‘Relaxa, você ta muito nervosa. Brigue com a Georgia amanhã, vai ficar mais calma’

‘Até que não seria ruim’ Disse levantando outra vez ‘Mas agora vou voltar ao que estava fazendo ou não termino isso hoje’

‘E eu vou começar o que vim fazer’ Falei descendo da mesa ‘Sabe onde ficam guardados os exemplares antigos do jornal?’

Evi apontou para um armário gigantesco cheio de pastas no fundo da sala e respirei fundo antes de começar a encarar o que estava na minha frente. Precisava entender como era o padrão do jornal da escola, que nem sempre se chamou Expresso Polar, para concluir minha matéria da semana. Comecei por uma pasta no fundo dele e era um exemplar de 1973. A matéria da capa era de um tal de Kegan O’Shea, que também era o editor do jornal. Devia ser parente do Larry.

Olhei mais algumas edições daquela época e notei que em todas elas tinha uma palavra-cruzada. Nas edições atuais também tinham esse jogo, mas não vinha o nome de quem a editou. Revirei o armário atrás de edições mais antigas e encontrei a 1ª, de 1950. Essa não tinha o joguinho, assim como as edições que se seguiam até 1955. Desse ano em diante, todas as edições continham o jogo de palavras-cruzadas. O jornal sequer tinha uma área destinada a jogos, então por que tinha só esse, solto no meio de uma das páginas? Vinha sempre na última página, seguido da frase “Aos aptos, bom divertimento”.

‘Ei Evi’ Virei para trás e notei que ela ainda estava no mesmo lugar depois de mais de meia hora ‘Quem coloca esse jogo de palavras-cruzadas que vem em todas as edições do jornal?’

‘Não sei, por quê?’ Ela ergueu a cabeça dos papéis com um ar cansado

‘Curiosidade. Elas se repetem em todas as edições desde 1955, sempre com essa mesma frase besta, e desde 1986 não vem dizendo quem as fez’

‘Deve ser uma das várias tradições idiotas de Durmstrang’ Disse bocejando ‘É só um jogo’

‘Já tentou decifrar alguma vez?’

‘Não. Mas sempre vejo meu irmão e Luka concentrados nelas e agora Dimitri também passou a ler isso. Na verdade, muitos garotos parecem gostar de decifrar as palavras dele’

‘Só os garotos? Garotas não tentam?’

‘Já vi algumas, mas desistem logo. Garotos devem ser mais obcecados, eles não desistem enquanto não fecham o jornal com sorrisos triunfantes’

‘Tem alguma coisa errada nisso’ Disse pensativo

‘Não tem nada de errado, é só um jogo’ Ela levantou da mesa guardando vários papéis em uma pasta ‘Você diz que estou sobrecarregada, mas também deve estar, pois está começando a ficar paranóico. Se servir de consolo, Annia sempre lê isso e parece encontrar respostas, pois sempre perde horas nele’

‘Falando em Annia’ Mudei de assunto ‘Por que vocês estavam rindo dela ontem quando eu e Ty passamos perto da Avalon?’

‘Ah isso’ Evi começou a rir descontroladamente ‘É que descobrimos que a Annia nunca beijou um menino!’

‘Não brinca!’ Falei caindo na gargalhada ‘Logo ela, que é toda descolada?’

‘Pois é, as aparências enganam!’ Evi ria mais ainda ‘E descobrimos também que ela está querendo perder essa “virgindade” com o Ty’

‘Evi, você sem querer fez meu dia mais feliz’ Eu rolava no chão rindo de chorar

‘Ai por favor, vê se não vai contar pra ele! Annia me mata se Ty descobre que ela é afim dele!’ Ela ficou séria de repente, e assumiu um ar derrotado quando olhei para ela ainda rindo ‘Você vai contar, não vai? Claro que vai, mas que pergunta idiota’

‘Ty não vai falar pra Annia que foi você que me contou, pode deixar’

‘Se ela me matar, eu volto pra puxar o seu pé!’

‘Vai ser um prazer ter uma assombração tão linda assim visitando meu quarto todas as noites’

‘Ai ai, você me cansa minha beleza, sabia?’

‘Mas é tanta beleza que não desgasta nunca, fica despreocupada’ Pisquei tentando não rir e ela revirou os olhos

‘Bom, já terminei minha matéria e vou embora porque preciso dormir. Vai agora?’

‘Não, não estou nem perto de terminar. Boa noite’

Evie me desejou boa noite também e saiu da redação se arrastando. Olhei para as pastas que ainda me aguardavam e tinha plena consciência de que não sairia dali antes da meia noite, mas ao menos agora tinha uma motivação maior: precisava acabar logo com isso e acordar o Ty para contar a novidade huahuahua

Tuesday, October 09, 2007

- Nossa, pensei que não fosse acabar este trabalho nunca. - resmungou Milla.
- Teríamos terminado mais cedo se Annia estivesse aqui. - comentou Nina.
- É mesmo. Onde ela está?- perguntou Evie.
- No quarto lendo, disse que tinha muita coisa importante para ler. Até perguntou que horas iríamos subir, para não atrapalharmos. – respondeu Vinia.
As garotas guardaram suas coisas e subiram quietas para o quarto, abriram a porta e deram um pulo ao encontrar Ania sentada na cama olhando para um espelho e mostrando a língua:
- O que aconteceu Annia?? Tá doente?- perguntou Vina se aproximando rápido da cama dela.
- Porque vocês vieram mais cedo?- e tentou esconder as várias revistas que estavam em cima da cama.
As garotas perceberam a manobra e atacaram em bloco:
- Toda Bruxa?
- Isto é Bruxa?
- Bruxa Teen edição especial "COMO BEIJAR NA BOCA"? – gritou Evie e Annia tentou arrancar a revista das mãos dela, e ela jogou para as colegas, que iam lendo as dicas com vozes melosas, sobre como beijar o garoto dos seus sonhos:
- Coisas para não fazer ao beijar:
1
. Não se apresse: deixe que o momento chegue... Isso é conversa de tia encalhada. Vá atrás do que quer, porque a fila anda.- disse Nina e jogou a revista para Milla que começou a ler outra dica:
2 . Olha o bom senso!: Nada de beijos superapaixonados em locais públicos... – Concordo, afinal você nem sabe se o cara gosta mesmo de você ou se tá ali marcando presença. Olha o mico e aqui ainda pode dar suspensão. - E jogou a revista para Evie:
3 . Controle a saliva: Controle direito o beijo e saiba a hora de parar um pouco... – Isso é verdade ninguém quer morrer afogado ao beijar. - disse Evie e jogou a revista para Vina que leu com voz de professora de jardim de infância:
4. Escolha bem a pessoa: beijar por beijar nem sempre é legal. Escolha bem a pessoa, a ocasião... Escolhas erradas sempre dão resultados ruins... – Ah mas se o garoto mais popular da escola se mostrar acessível, beije-o. Nunca se sabe o dia de amanhã. – disse Vinia e começaram a rir, das tentativas de Annia de pegar a revista, e ela jogou para Evie novamente:
5. Manere nas explorações: se a sua língua se move muito rápido, nem você e nem a outra pessoa vão desfrutar do beijo. – É, vai parecer um daqueles concursos para grito tribal, e começou a fazer os ruídos, e as meninas a imitaram fazendo um barulhão. Milla foi a ultima a pegar a revista e leu outra dica:
6. Nada de desânimo!: Se os primeiros beijos não são muito bons, com a prática você vai melhorar. - Pelo menos não morre BV... Céus! Annia você é BV! *caras chocadas*
- Há, há, muito engraçado Ludmilla. – respondeu a garota, mas estava vermelha e as amigas ficaram olhando-a, de olhos arregalados:
- Mas se você não é, porque tá com todo arsenal aqui? Copo com gelo, laranja, gelatina em potinhos pequenos... Isso é pra treinar beijo de língua. - disse Evie.
- Não é nada do que vocês estão pensando... É... Pesquisa... Ee...- as quatro amigas olharam umas para as outras e começaram a rir. Annia olhava para elas fervendo de raiva:
- Suas idiotas. - disse zangada.
- Boca com teia de aranha!- respondeu Nina, mostrando a língua.
- Quer dizer que você e o Reno naquelas longas reuniões do CAA... E eu imaginando que você voltava alegrinha por outras coisas. – disse Vinia e aparou uma almofada que voou em sua direção.
- Como você é nerd! Voltava feliz porque conseguia bons resultados nas transmutações! – disse Evie.
- Precisa arrumar alguém para treinar. O espelho não pode te abraçar de volta. - disse Milla, enquanto, virava de costas e fingia que suas mãos eram as de um namorado.
- Gelatina demais enjoa, pode dar dor de barriga, ou ficar resfriada com o excesso de gelo. - disse Nina segurando a barriga de tanto rir.
- Mas Annia, o Ty é experiente nesse ramo, ele mesmo pode te ensinar ao invés dessas revistas... Muito melhor praticar com uma pessoa, a laranja pode tá azeda huahua - disse Evie.
- O Ty não pode saber! Aliás, ninguém pode saber disso. São minhas amigas e vão ficar quietas. - ela disse apavorada.
- Mas qual o motivo de ficarmos quietas? Você ainda não confessou...
- Tá eu confesso: Nunca beijei ninguém, nunca namorei ninguém, nunca nada com ninguém.
- Mas e as suas opiniões? Você sempre foi tão segura... - disse Nina.
- Livros. Tudo que preciso saber eu encontro neles. - ela respondeu.
- Ou tudo que você ACHA que sabe né?- falou Vina e as amigas riram concordando.
Ela guardou as coisas, e suas amigas olhavam umas para as outras, e aquela conversa muda estava deixando-a nervosa:
- Podem continuar a rir, eu não me importo...
-Ai coitadinha da Annia, nunca beijou um sapinho na boca... - começou Milla.
-Mas nós vamos mudar isso: boquinha rosadinha da titia – disse Evie, apertando as bochechas de Annia, e escapando de tomar tapas na mão.
- A Annia, pelo jeito já escolheu quem ela quer beijar: É o aluno favorito dela: Ty. - disseram Milla e Vina juntas suspirando e batendo as pestanas.
- Pois, podemos resolver isso já. Vou buscar o eleito. - disse Nina e saiu correndo do quarto, Annia tentou ir atrás dela, mas as outras a seguraram alguns segundos antes de soltá-la e correrem atrás.
- Não faça isso Olenova! - ela dizia desesperada, enquanto as outras gritavam incentivos para que Nina encontrasse o garoto, e por uma ironia do destino, Micah e Ty, apareceram na rua, indo na direção delas e com caras de quem não estava entendendo nada.
Se um dia alguém pediu aos céus que mandasse um raio e o partisse no meio, esta pessoa seria Annia, mas o máximo que o céu manda para ela é o garoto dos seus sonhos e um grupo de amigas insanas.
Os cerca de 50 homens encapuzados de negro cruzavam a noite para mais uma reunião secreta.
E hoje seria uma noite importante.
Um novo teste, para todos, não apenas os recém chegados, mas principalmente os que não passaram no teste antes.
Sir Artur estava diante de todos. Seu rosto escondido pela máscara, e apenas sua voz como mostra de autoridade e poder.
Os "aptos" estavam felizes de não terem de passar pelo que os inaptos passariam.
Uma das provas mais difíceis e cruéis da Kings and Shadows.
A provação.
- Lord Derfel. Como posso imaginar, você não vê à hora de agir não? – Sir Artur falou com a voz calma, e uma voz forte e esnobe respondeu, ainda mais calmo.
- Sim Arthur, estou pronto.
- Aproxime-se Derfel e comece o teste.
Lord Derfel obedeceu à ordem de Artur, colocando-se diante de todos. Seu manto negro esvoaçava e os novatos tremiam, já ouviram falar do que viria a seguir. O teste de aptidão, o teste de Lord Derfel.
Derfel ignorava os inaptos e era indiferente com os novatos, até eles passarem por seus testes. E ele sentia prazer de ver os outros falharem. Eram poucos os que passavam de primeira. Derfel abaixou-se e com a varinha desenhou um símbolo no chão, levantando-se em seguida. Sem dizer uma palavra ele deixou seu corpo descer com velocidade, socando o chão e quebrando um pequeno vidro junto. A luz de tochas foi enfraquecida pela luz branca, enquanto Derfel levantava a mão, e os raios de luz a seguiam. Quando ele ficara de pé novamente, encontrava-se uma lança em suas mãos. Ele riu com prazer diante de algumas reações de susto e outras de aprovação.
- Vocês terão cinco minutos para arranjarem armas. Depois disso... Eu os marcarei sem piedade. Quantas cicatrizes vocês terão ao final? A cada ano vocês inaptos não passam em meus testes, e cada vez mais tem cicatrizes. Ficarei extremamente feliz em marcar novos inaptos.
Ele apenas riu das tentativas frustradas dos testados procurarem uma arma. Ele próprio tivera certeza de que não haveria armas a mão. Ou eles recorreriam à magia ou a algo mais interessante.
- Terminou!
Ele avançou então através dos 15 testados, com a lança em punho. Cortou vários em seu caminho, deixando novas cicatrizes, até chegar ao final do grupo, onde 3 membros conseguiram arranjar armas. Ele riu dessa vez com surpresa e até mesmo felicidade genuína. Os três, dois novatos e um antigo, respiraram aliviados. Passaram no teste de Derfel.
- Parabéns a vocês três. Mas ainda têm muito a aprender. Quanto a vocês... - Ele virou-se para os que sangravam marcados por ele – Sir Artur, não sei como permitiu a entrada destes... Como posso dizer... Vermes.
Gemidos de dor eram ouvidos, e ele perdeu a paciência:

- Deixem de ser chorões. Isso não passa de um feitiço ilusório, desaparecerá rapidamente. Nos novatos que têm alguma chance, desaparecerão mais depressa... Já em vocês, inaptos, durará um pouco mais. E a cada novo teste, essas ilusões reaparecerão. O seu pior inimigo é a sua mente.
Ele virou as costas e se reuniu ao circulo negro. Sua capa rodopiando ao seu lado, e a lança apoiada em seu braço, presa ao chão. Os olhos de vários o encaravam, muitos com raiva e outros com medo.
E como ele gostava desses olhares... E não se importava com eles... Se não tinham habilidades suficientes, não mereciam sua atenção. Não mereciam sequer olhar para ele.

Monday, October 08, 2007

Milla abriu a sala da sede da Frente de Defesa aos Animais e Criaturas Mágicas, e logo ela e os membros do clube entravam na sala, que havia sofrido alterações para se parecer com uma floresta. Os animais raros e de nível mais perigoso estavam em gaiolas espaçosas e eram observados por pouco tempo. Após os estudos o professor os readaptava ao seu habitat natural, pois os membros da Frente de Defesa em sua maioria eram contra o aprisionamento das criaturas mágicas.
- O que vocês fazem aqui? – perguntou olhando para Micah e Ty.
- Créditos. – respondeu Micah e Ty perguntou:
- Os bichos daqui são muito estranhos?
- Nada além do normal. Alguns com classificação XXXX, mas não creio que os heróis do professor Asimov se preocupem com isso. – e eles riram.
- Muito bem, pessoal. Vamos alimentar os animais e ao final fazer nossas anotações, sobre os seus hábitos. Cada um já sabe o que fazer e...
Um garoto sardento se aproximou esbaforido e disse:
- Hey, Kovac, a briba sumiu. - e um pequeno alvoroço se formou na sala, enquanto ela se aproximava da gaiola e dizia:
- Ah ela está lá, Gregorovitch, quer me matar de susto? Ela se esconde de estranhos, esqueceu disso?
- Não, só achei que depois destes dias aqui, ela já estaria adaptada conosco.
Ty e Micah se aproximaram e pediram licença:
- Deixe os profissionais fazerem isso Milla. Ela tem uma historia com a gente. - e pegou alguns vermes de pau podre num pote. - disse Micah e Ty completou:
- Ela tem paladar apurado. – e emendou numa voz mongol:
- Cadê a coisinha linda do papai?? Aqui Penélope.- e estalou o dedos.
Alguns alunos começaram a rir, mas logo pararam, porque o lagarto começou a se esticar e logo estava no tamanho de vinte e cinco centímetros e exibia seu brilho verde prateado. Ela parecia entender que os donos dela chegaram porque quando Micah jogou a comida, ela pegou com uma agilidade incrível e esperou por mais. Como ele não fizesse nenhum movimento de lançar mais comida, ela começou a fazer ruídos como se estivesse zangada.
- Ty você precisa falar com ela como se ela fosse sua namorada? Isso é bizarro. - comentou Annia e todos começaram a rir.
-Inveja da Penny, Annia? Que feio...tsc, tsc... – zombou Evie e Annia olhou torto e Ty pareceu nem ouvir o que se falava:
-Ah, mas ela gosta, olha só: Pega! Isso garota linda! – e jogou um verme gordo para o lagarto que engoliu satisfeito.
- Não ligue Annia, um dia ele fala assim com você também. – Micah disse brincando. E Annia disse com os lábios: Cola, e ele ficou quieto, mas seus olhos brilhavam provocadores.
- E como você sabe que é uma garota? Não conseguimos determinar o sexo dela ainda. O professor acha que é uma fêmea, mas não tem certeza... - comentou Milla e continuou a ajudá-lo a cuidar do lagarto enquanto os outros iam cuidar das outras gaiolas. Micah e Evie começaram a cuidar dos diabretes que estavam ali perto.
- Pois eu aposto que é uma fêmea. São mais ferozes que os machos, basta lembrarmos do que ela fez quando escapou na república. Foi um arraso, literalmente. - disse Ty rindo e jogou mais comida.
- Se é que ela escapou mesmo, porque eu não acredito nisso. – disse Luka azedo.
- Você acredita no que quiser. – respondeu Ty.
- Pois eu ainda vou provar que você e seu amiguinho soltaram este bicho no nosso quarto.
- Wee, Wee, Wee. Parece um disco quebrado Moe. Quando e se provar alguma coisa vai fazer o que? Ah já sei. – e Ty começou a fazer uma imitação do que havia sido o desespero de Luka, no dia que a briba destruiu o quarto dele na república e algumas pessoas começaram a rir:
- Buáááá, professor este monstro furou minha goles autografada, buááá, ele rasgou minhas coisas... Onde vou dormir, cadê meu colchão professor?: Snif, snif, este monstro é do mal, mata ele, mata! – e fez isso imitando voz de menininha assustada, batendo o pé no chão, e a briba parecia entender o que se passava, pois estava ficando agitada dentro da gaiola. E isso deve ter sido a gota d’água para Luka, pois soltou um palavrão aonde ele xingava a mãe do Ty.
O que se passou a seguir parecia um programa ruim de luta livre. Ty soltou os vermes e pulou em cima do Luka socando-o e ambos começaram a rolar, e esbarraram nas gaiolas, e como a gaiola dos diabretes estava aberta, eles se soltaram e começaram a fazer a maior bagunça tentando soltar os outros animais. E acabaram levantando Gregorovitch pelas orelhas.
Micah ao ver o que se passava foi tentar ajudar ao Ty, uma vez que Max havia entrado no meio da briga, Milla gritava, tentando colocar alguma ordem na bagunça:
- Salvem as gaiolas, não deixem os animais escaparem, parem de brigar vocês dois... seus animais... Nossos animais... Segura o lagarto! Gregorovitch desça daí seu paspalho, são só diabretes. Não, não, isso não... - disse correndo para uma gaiola com alguns bandinhos.
- Expelliarmus! Imobillus! – gritou uma voz da porta e todos olharam assustados, e era o professor Marko parado na porta de varinha em punho. Ty, Max, Luka e Micah foram jogados para lados opostos. Os diabretes ficaram congelados no ar, enquanto os outros alunos iam correndo e segurando as gaiolas restantes.
- Pode me explicar o que houve aqui senhorita Kovac? Já que é a responsável pelo Clube. - ele disse sério, e pela primeira vez o vimos irritado:
- Foi uma briga professor...
- Evidente, pude ver com meus olhos. Quem começou e por quê?- ela olhou para os amigos e respirou fundo:
- Foi uma divergência de opiniões professor. - e antes que Skoblar falasse mais alguma coisa Ty disse:
- O Moe xingou a minha mãe e eu quebrei a cara dele senhor. Preciso terminar o serviço.
- Moe? Quem é Moe? Aluno novo?- perguntou o professor olhando ao redor.
- Não há nenhum Moe, foi o Ivanov. - disse Gregorovitch.
- Você também tem o nome de Moe? – perguntou o professor para Luka e ele começou a ferver de raiva, mas respondeu:
- Não! Este idiota me chama de Moe para me provocar.
- E provocar por quê? Moe é um nome como outro qualquer... - e os alunos começaram a esconder o riso, pois se o homem não fosse um professor, Ivanov o teria azarado apenas com o olhar.
- Moe, é o nome de um dos 3 patetas professor, um seriado trouxa bem antigo. – explicou Micah.
- Ah é? Acho que me lembro. É aquele que tem 3 caras muito idiotas, que vivem se dando mal... - e segurou o riso a tempo, se lembrando do motivo de estar ali, e limpou a garganta:
- Não quero saber de mais nada. Ambos vão receber detenção. Senhorita Kovac, vou relatar ao professo Asimov, como a reunião de hoje foi conduzida, então se prepare para prestar contas a ele. E vocês todos: Limpem a bagunça e vão dormir. Quero ver se nas minhas aulas vão demonstrar esta energia toda.
- Não acabou escocês. Ainda vou me vingar de você. - ameaçou Luka.
- Estou morrendo de medo: M- O- E. - Ty provocou novamente e Luka saiu da sala sem ajudar a arrumar a bagunça.
Ao final daquela reunião enquanto voltavam para as repúblicas, Micah, Evie, Ty, Annia, Vina e Nina iam rindo da reação do professor ao descobrir quem era "Moe".
Pobre Luka, o apelido agora é de domínio publico.
‘Força Christopher’ O professor Ivo falou alto, passando correndo pelo palco ‘Bata o pé no chão com vontade, faça o palco tremer!’

Chris segurou a vontade de rir e fez o que o professor mandou. Junto com ele, mais três alunos repetiam os movimentos e logo o tablado do palco começou a sacudir violentamente. Ivo fez um movimento rápido com as mãos e os quatro pararam e sentaram no chão. Ele pediu que fizessemos uma roda no palco com eles e obedecemos. Sentei com Nina e Lizzie ao lado do Chris e ele estava suando de tanto correr pelo palco na última hora de aula.

‘A aula hoje foi muito boa, vocês literalmente soltaram os bichos’ Todo mundo riu e ele pareceu satisfeito ‘Bom, acho que já posso falar sobre o festival do fim do ano... Como já é tradição, vamos montar uma peça. Mas diferente dos outros anos, nesse faremos algo novo. Vamos fazer um musical!’

A novidade não obteve o resultado esperado por ele, pois a única reação do nosso grupo foi se encarar receoso. Um musical era muito diferente das peças normais que estávamos acostumados. Isso ia requerer cantoria e dança, e ao menos da minha parte, só poderia me arriscar na dança. Nina parecia pensar a mesma coisa. E para quem já nos viu cantando, participar disso era uma idéia um pouco assustadora.

‘Ora vamos lá, animação!’ Ivo tentou nos encorajar e continuou ‘Tenho plena certeza que todos aqui estão aptos não só a representar, como também a cantar e dançar’

‘Você já viu elas cantando, professor?’ Chris apontou para Nina e eu e todo mundo riu ‘Acho que não, do contrário não diria isso’

‘Isso podemos aprimorar, não espero que sejam tenores, vamos trabalhar essa parte até os testes’ Disse decidido ‘Quem aqui já ouviu falar em um filme trouxa chamado Footloose?’

Ninguém pareceu reconhecer o nome, mas Chris se mexeu do meu lado e levantou a mão meio incerto. Ivo apontou para ele sorridente, aparentemente fascinado que um aluno de Durmstrang conhecia um filme trouxa.

‘Estou surpreso que alguém conheça’ Disse animado

‘É que meu tio é meio que fã de filmes trouxas’ Chris respondeu um pouco sem graça ‘Na verdade ele é fanático por filmes trouxas’

‘Ótimo, muito bom! Pode contar aos seus colegas do que se trata o filme?’

‘Claro. O filme conta a história de um garoto de Chicago, Ren MacCormick, que se muda pra uma cidade do interior com a mãe. Ele é apaixonado por música e dança, principalmente rock, mas naquela cidade as duas coisas foram proibidas depois que o filho do reverendo, que é quem praticamente manda na cidade, morreu em um acidente de carro quando voltava bêbado de uma festa. E o Ren não aceita isso, ele quer que a escola tenha um baile de formatura com muito rock e que os colegas da idade dele possam dançar na festa. E é isso que ele faz, luta contra os poderosos da cidade pra conseguir o direito de dançar’

‘Excelente resumo, Christopher!’ O professor bateu palma animado e rimos ‘Basicamente, a história do musical é essa. A guerra de vontades de Ren e seus três amigos contra o revenrendo Moore, que é pai de uma das que compram a briga de Ren’
‘Amei a novidade, professor!’ Georgia falou empolgada, toda sorridente ‘Brilhante, adoro musicais!’

‘Cofcofpuxa-sacocofcof’ Falei baixo e Nina e Chris deixaram a risada escapar. Georgia me olhou atravessado e olhei para o teto

‘Os papéis disponíveis estão nessa lista que vou deixar no mural e faremos um teste de voz em Dezembro, antes das férias de natal’ Disse pregando um papel no mural do teatro ‘Quando voltarmos descansados de casa teremos nosso teste final, onde definirei meu elenco. Escolham quem querem ser e comecem a ensaiar! Agora podem ir, estão dispensados’

A turma logo deixou o palco e saiu do teatro, mas ficamos para trás pegando nossas bolsas. Georgia conversava animada com o professor, provavelmente procurando saber quais as chances de uma menina interpretar o garoto principal do musical.

‘E aí? Vão se inscrever para que papel?’ Chris perguntou jogando a mochila nas costas ‘Você podia tentar para a Ariel, Evie. É a namorada do Ren’

‘Não sei... Ela canta muito no filme?’ Perguntei com um pé atrás

‘Quase nada, é perfeito’ Disse rindo e se virou para Nina ‘E você podia tentar o papel de Rusty, melhor amiga da Ariel. Ela também quase não canta, mas tem uma música só dela praticamente’

‘Pois então é esse mesmo que vou tentar!’ Nina falou animada ‘Não envolvendo muita cantoria, está ótimo’

‘Nossos ouvidos agradecem’ Ele respondeu brincando ‘Eu acho que vou me inscrever para os testes do Willard’

‘Por que não faz os testes para o principal?’ Perguntei surpresa por ele não escolher o Ren

‘Ah não, ele dança demais, não conseguiria pegar aqueles passos nem que ensaiasse anos para a peça. O Willard é perfeito, porque ele é o melhor amigo do Ren e não sabe dançar. O Ren ensina a ele, mas ele não aprender tão bem assim, o que me libera de fazer aquelas coreografias complexas’

‘Ah que pena, pensei que ia fazer dupla comigo no teste’ Disse desapontada e Chris ficou vermelho

‘Que pena mesmo Chris, o Ren não beija a Ariel?’ Nina falou cinica e ele ficou quase roxo

‘Vou ficar com o Willard mesmo, ele é namorado da Rusty’ Chris respondeu sem graça e apontei para Nina rindo da cara de surpresa que ela fez

‘Bom, vou tentar para Ariel mesmo então’ Falei decidida enquanto saíamos do teatro. Alguém esbarrou em mim com violência e vi Georgia parada na nossa frente

‘Se acha que vai conseguir o papel de Ariel, pode desistir’ Disse convencida e olhei para os meus amigos respirando fundo ‘Ele já é meu. Nunca perdi um papel principal nas peças da escola’

‘Ano passado você não fez o papel principal’ Nina comentou com ar pensativo

‘A peça do ano passado foi um fiasco, Olenova!’ Georgia respondeu irritada ‘Não quis aquele papel ridículo’

‘Então deixa adivinhar: você quer o papel de Ariel porque o professor disse que só um garoto poderia interpretar o Ren, certo?’ Chris perguntou debochado e vi Georgia espumar

‘Façam piada se acharem que isso vai amenizar a decepção quando não conseguiram os papéis que querem, não me importo. Nos vemos em Dezembro, tchauzinho’

Georgia saiu do teatro balançando a cabeleira loira e ficamos parados encarando ela de costas. Senti o sangue ferver. Não importava mais se teria que cantar uma ou dez músicas, o papel de Ariel seria meu! Agora só precisava encontrar alguém para fazer os testes para Ren MacCormick comigo...

Saturday, October 06, 2007

Ele estava num lugar totalmente desconhecido do castelo. Não eram as masmorras, mas sim a área das catacumbas dos antigos soldados que guardaram aquela fortaleza há séculos atrás.
O cheiro que exalava do mausoléu misturava sujeira e podridão, mas ele não o sentia, pois respirava pela boca. Alguns dos outros novos iniciados iam ficando esverdeados e ele não estava disposto a ver ou ouvir ninguém vomitar perto dele, e sentiu vontade de fazer alguma coisa, porém eles eram proibidos de se falar uns com os outros. Sem falar nada, cutucou o garoto ao seu lado, e quando ele o olhou apontou para sua própria boca e puxou o ar com força. O garoto de ar assustado entendeu e foi passando aos outros. Logo os garotos iam voltando à cor normal e eles continuaram a ver o tempo passar; talvez a longa espera já fosse o seu primeiro teste para ser um membro da sociedade secreta.
Após horas olhando para os nomes de guerreiros mortos, ele percebeu que as fendas das paredes começavam a verter líquido. Alguns garotos impressionados começaram a ficar com medo, mas ao tocar numa destas frestas e não sentir o cheiro de nada, ele percebeu que era água.
E continuou esperando...
Aos poucos passagens secretas foram se abrindo e delas saíram homens mascarados, buscou sua varinha instintivamente, porém quando viu o homem que vinha à frente usando vestes negras, com uma grande cruz de cavaleiro nas vestes, parou. Olhou à volta rapidamente e devia haver mais de 50 mascarados, contra cerca de 10 iniciados.
- Boa noite senhores! É chegada a hora do início dos seus testes para serem um de nós. Serão submetidos a várias provas e somente os dignos de serem cavaleiros, triunfarão. – o homem olhou para os rostos dos garotos e perguntou:
- Estão prontos?
- Sim! – eles responderam juntos.
Em seguida os rostos dos garotos foram cobertos por capuzes e eles foram levados até escadarias, e subiram por muito tempo e muitas vezes andando em círculos, até que os sons de trovões foram ouvidos. De repente começaram a receber os grossos pingos de chuva em seus rostos cobertos e eles tiveram os capuzes retirados. Após uns segundos de cegueira, logo se acostumaram á penumbra que a luz da Lua deixava passar pelas copas das arvores da floresta. Olharam ao redor e estavam em uma clareira onde dez caixotes estavam dispostos e ao lado de cada, havia um balão parecido com aqueles de festas infantis, flutuava. Nesta hora o líder, disse:
- Cada um de vocês deverá subir em um caixote, e segurar um dos balões com o braço acima da cabeça. Não poderão trocar de braço quando as câimbras começarem. Esta é uma prova de resistência, e quem não conseguir passar por ela, não terá uma segunda chance. Só os fortes sobrevivem. Que se inicie a prova e que só os dignos da Reis e Sombras triunfem!
Começava ali a série de provas para as quais, sem que ele soubesse, ele havia sido preparado.

Remember the first time you've faced the dark
Why were you so afraid?
Hiding so many secrets inside
When fears have got to be tamed

Live and learn - Angra

Continua...

Friday, October 05, 2007

LD: Milla, você viu meu livro de feitiços?
LK: Qual é ‘brother’, tá me estranhando meu chapa? – Milla estufou o peito e abriu as pernas engrossando a voz. Annia, Nina e Evie riram.
LD: Ops, desculpa. Miles, GAROTÃO, você por acaso viu aquele meu livro de feitiços?
LK: Vi não, Vínia. – Milla voltou ao seu normal sorrindo orgulhosa da sua própria evolução no ramo ‘como ser um homem’.
LD: Ótimo. Nem estou muito atrasada nos deveres de Feitiços mesmo... Acho que deveríamos arrumar esse quarto de novo, o que acham? – perguntei tentando parecer empolgada, mas ao olhar ao redor desisti da idéia. Arrumar aquele quarto exigiria muito mais do que esforço físico.
NO: Esquece Vina, uma hora você acha. Pode usar o meu se quiser... – Nina estendeu o livro dela e eu sorri agradecida.

Sentei na cama, abri o livro, estiquei um pergaminho, molhei a pena no tinteiro e já ia começar a escrever sobre o Feitiço do Avesso quando bateram na porta.

- Posso entrar sem risco de ver cenas constrangedoras? – a voz de Victor foi ouvida do lado de fora.
ES: Pode entrar. Quer dizer, se você conseguir abrir a porta... – Evie disse brincalhona e rimos. Victor abriu uma fresta da porta e enfiou a cabeça pra dentro me procurando.
- Vina, vamos dar uma volta?
LD: Só se você arrumar um substituto para mim no Clube de Herbologia, que começa em... 10 minutos!!! – consultei meu relógio e levantei de um salto da cama. – Droga. Quase me atraso.
- Ótimo. Você e esses clubes. – Victor cruzou os braços, chateado. – Eu sempre sou trocado por ervas, fungos, plantas venenosas, planetas a serem descobertos...
LD: Não tenho tempo para discutir a relação agora, Vi. Tenho mesmo que ir. Abrir a estufa, preparar o material de hoje...
- Já entendi. Vou te acompanhar até lá, então.
ES: Vou indo daqui a pouco, Vina.
LD: Ok.

Saí apressada da república de mãos dadas com Victor. Paramos ao chegarmos na porta da Estufa Imperial e ele me deu um beijo.

- Vou te esperar aqui depois da reunião então, ok? Temos uma horinha até você ir procurar seus planetas... – ele comentou sarcástico e ri me despedindo.

Abri a estufa com a chave que professor Mikhail tinha me dado na primeira semana de aula (e que eu preferia manter em volta do meu pescoço com receio de que se perdesse no emaranhado do nosso quarto) e comecei a arrumar as Cocleárias em cima dos balcões. Estava distraída distribuindo as mudas quando uma voz na porta me assustou.

- Oi!

O menino moreno de cabelos negros espetados sorriu para mim. Fiquei parada o encarando, ainda me recuperando do susto.

LD: Poderia bater na porta da próxima vez? Não gosto muito de surpresas...
- Me desculpa, não queria te assustar.
LD: Tudo bem. O que você quer?
- Professor Mikhail me disse que era aqui a reunião do Clube de Herbologia. Certo?
LD: É... – olhei desconfiada.
- É por que ele acabou de conseguir uma vaga pra mim, e disse que poderia começar hoje mesmo. Você é a Lavínia?
LD: É, sou eu... Bom, se você vai participar, fique a vontade e seja bem-vindo. Vou esperar o restante da turma chegar e começo as instruções ok?
- Ok. E a propósito, sou Naveen Odebretch. – sacudi a cabeça e continuei arrumando as mudas.

Em cinco minutos a estufa já estava cheia de alunos sentados nos balcões de frente para as mudas de Cocleárias. Fiquei de pé e todos ficaram em silêncio.

LD: Hum. Boa noite. Bom, vocês estão de frente para mudas bem recentes de Cocleária. Iríamos continuar nossos estudos sobre o visgo do diabo, eu sei. Mas professor Mikhail recebeu essas mudas nessa semana e me instruiu a trabalharmos nelas antes que fiquem maiores... Então, alguém sabe as principais propriedades dessa planta?

Antes que qualquer outro pudesse responder, o novato começou a falar com a voz firme, de quem decorou um livro inteiro de Herbologia.

- É conhecida por sua propriedade diurética. Ajuda os rins a funcionarem melhor, combate a retenção de água na urina, e o excesso de ácido úrico. Também ajuda em casos de bronquite e asma. Para as poções, ela é usada para confundir e estontear.

O restante dos alunos ficou encarando ele em silêncio. Quando terminou de falar, olhou em volta e vendo que ninguém se manifestava sacudiu o ombro.

- Estou errado?
LD: Não, está certo. Bom, já que o Naveen listou minuciosamente as propriedades das Cocleárias, o que iremos fazer hoje é na verdade bem simples. Em cada muda tem várias flores brancas, certos? Vamos tirar somente os estames das flores com as pinças e depositá-los nesses vidros que coloquei ao lado de cada um. Evitem machucarem as pétalas, por favor... A importância da planta está nos estames.

Todos começaram a arrancar estames com pinças e a conversa foi crescendo. Me sentei junto com minhas amigas enquanto puxava uma muda para mim mesma e separava as flores do emaranhado de folhas. Quando o tempo acabou, novamente me levantei e novamente a estufa caiu em silêncio.

LD: Ok, fizemos um ótimo trabalho. Se sobraram estames nessas flores, foram poucos. Por favor, coloquem os vidros naquela caixa ali na frente. Semana que vem voltaremos ao visgo do diabo, tudo bem? Obrigada.

Muitos sorriram e se despediram antes de saírem da estufa. Comecei a organizar as mudas novamente nas prateleiras irrigatórias.

ES: Vai para a república com a gente, Vina? – Evie e Nina me ajudaram a recolher as coisas e estavam me esperando.
LD: Não vou não. Victor quer dar uma volta. Acho que vamos na Arena dar uma treinada em alguma coisa até o Clube de Astronomia...
NO: Nossa, acho que vou dormir no Clube de Astronomia hoje! – Nina comentou exausta. – Bom, então até daqui a pouco Vina.
LD: Até.

Elas saíram da Estufa e continuei a arrumar os vidros com estames dentro da caixa.

- Posso ajudar?

Quase saltei novamente de susto e tive que me controlar para não gritar. Respirei fundo e me virei para Naveen, que estava a alguns passos das minhas costas.

LD: Você tem mania de assustar as pessoas ou é só comigo? – perguntei irritada e me virei novamente pegando uma caixa e colocando-a em cima da mesa. Naveen se adiantou e pegou a segunda.
- Juro que não é minha intenção.
LD: Então, conseguiu acompanhar a aula?
- Na verdade, foi bem fácil... – ele respondeu com certo convencimento na voz que me irritou.
LD: Ótimo. Melhor assim. Vamos?

Ele acenou e me deu passagem. Esperei ele sair da estufa e tirei a chave de volta do pescoço para trancá-la. Percebi que ele estava observando.

LD: O que é?
- Nada. Só fico pensando o que pode ter de tão sério nessa ‘Estufa Imperial’ para ter que ser trancada a chave.
LD: Isso você pergunta para o professor Mikhail. – disse azeda. Ele sorriu.
VN: Vina! – Victor chegou andando apressado e me abraçou ignorando os olhares de Naveen. – Então, será que você tem uma horinha pro seu namorado? – perguntou insistente. Sorri.
LD: Tenho sim.
VN: Ótimo. – Victor segurou minha mão e percebeu a presença de Naveen olhando para ele. Naveen observava Victor de maneira fria, mas quando encarei os dois, Naveen sorriu para mim, desviando o olhar.
- Foi um prazer te conhecer, Lavínia. Até semana que vem.

Ele virou as costas e se distanciou. Eu e Victor continuamos parados em silêncio.

VN: Quem é ele? – Victor perguntou com um tom de voz cru. Levantei a sobrancelha.
LD: Um novato no clube. Naveen... Todo cheio de si esse aí. Tirando o fato que gosta de passar susto nas pessoas. Jeitinho arrogante.
VN: Também não gostei dele. Tem alguma coisa naqueles olhos dele que...
LD: Ah não, Vi, qual é. Vamos aproveitar nossa hora juntos ou vamos ficar analisando pessoas perturbadas? – perguntei irritada e embora ele continuasse sério um segundo, me abraçou e me beijou em seguida sorrindo.
VN: A primeira opção.
LD: Então o que acha de me ajudar a treinar esgrima?

Ele me olhou atentamente e murchou.

VN: Vai lá você de novo, Victor. Ser trocado por uma espada! - rindo, fomos juntos até a Arena de esportes.

Thursday, October 04, 2007

Após a aprovação no teste para apanhador do time da Ansuz, Miles Kolchec teve que fazer alterações em sua rotina.
Levantava-se mais cedo para poder preparar sua mochila após revisar sua agenda do dia, e dormia mais tarde tentando dar conta dos deveres, que se acumulavam após os treinos marcados de última hora pelo capitão da equipe, Luka, que o olhava com desconfiança para o novato. Todos os dias algum defeito era apontado, mesmo que seu desempenho em campo fosse perfeito. Os outros jogadores o tratavam como se tivesse alguma doença contagiosa, e mesmo quando o time principal vencia devido à sua atuação como um apanhador rápido, não se ouvia uma palavra de incentivo. E sempre após algumas horas em sua vassoura, o capitão os mandava correr mais um pouco, pois o time precisava ficar mais forte, e o capitão dizia isso olhando diretamente para ele.
Foi divertido no primeiro dia, no segundo dia o corpo dolorido gritou em protesto, mas ele foi em frente, isso era coisa de homem, e ele agüentaria, mas depois de uma semana o excesso de exercícios, deveres e cobranças, estavam deixando seus nervos abalados, numa das vezes nem esperou a dispensa do capitão, correu para o banheiro enjoado, e após melhorar ficou escondido no vestiário, tremendo encolhido pela exaustão, apenas esperando o time ir embora, de onde conseguiu sair, e voltar para sua república sem ser notado.Numa destas voltas para casa, esbarrou em uma pessoa, e quase foi ao chão. Só não caiu, pois o reflexo do outro era rápido e o segurou firme dizendo de forma branda:
- Hey garotão, olha por onde anda. - ele olhou para cima e ver quem o segurava, e era Micah Wade, um dos alunos novos. Na hora seus olhos ficaram embaçados, e o outro perguntou preocupado:
- Eu te machuquei? – e ele era tão gentil, que ele se permitiu ser segurado por mais alguns segundos antes de se dar conta da situação:
- Eu tô bem cara, precisa de muita coisa pra danificar um cara forte... másculo... machão... como eu. Tá me estranhando? – disse se soltando e engrossando a voz, antes de jogar sua mochila de volta ao ombro, e se virar para ir embora com uma postura que ele achava ser masculina. Porém, um rápido olhar para o rosto do novato onde um pequeno sorriso se formava, o fez entender sua situação de imediato:
Ele havia sido descoberto.

o-o-o-o-o

- Senhorita Kovac, seria possível contar com sua participação na minha aula, ou o mundo dos sonhos é mais interessante?
- Já estou aqui! Estou pronta! – respondeu assustada para o professor de Adivinhação e alguns alunos riram enquanto o homem continuava falando:
- Sei que minha sala é relaxante com estes pufes e a aura de tranqüilidade, mas o clima é para ajudar a visualização do futuro nos orbes, ainda não cheguei à parte que falo sobre a viagem astral, e quando chegarmos nela, quero ver quem vai conseguir ir de um ponto a outro do Universo e me contar suas experiências. Sim, alguns vão conseguir faze-la... Acho que vou fazer um laboratório dos sonhos nesse dia... - disse o professor Vladimirovich bem humorado, ela sorriu sem graça e procurou se manter acordada pelo resto da aula.
Mas olhar para os orbes claros exigia que ela se acomodasse melhor nos pufes, e sua mente ia ficando tão relaxada e a voz dele estava ficando cada vez mais longe... (bocejos...)

-o-o-o-o-o-
- Ele sabe... Eu sinto que ele sabe. - dizia enquanto tirava seu disfarce.
- Imagina, ele é um garoto. O que ele pode saber? Disse alguma coisa?
- Não, mas os olhares dele, depois que nos esbarramos.
- Você tá ficando paranóica. Acho que vou te dar uns florais para os nervos. E também uma vitamina, está com uma palidez estranha.
- Não quero sair do time, estou quase lá.- choramingou.
- Sabe que isso para mim é loucura, mas vamos te ajudar. Vamos repassar sua agenda de amanhã, mais uma vez.

o-o-o-o-o-o-o

- O que está havendo Lud?
- Não está havendo nada Iago. - ela disse tentando esconder um bocejo.
- Você está mais cansada que o normal, não anda comendo direito, e quando estamos juntos você cochila. Estou preocupado.
- Não está acontecendo nada, agora preciso ir.
- Aonde você vai? Não tem aula agora. – ele perguntou curioso.
- Preciso fazer umas coisas...
- Que coisas?
- Pára de querer me controlar. Vou aonde quiser, sem ter que te dar satisfação da minha vida. Você não manda em mim.
- Ok, pode ir. Não precisa ficar histérica. - ele disse ressentido.
- Não estou histérica. – ela respondeu e sua voz realmente estava um pouco elevada, e as amigas vieram em meu socorro:
- Vamos Milla, está na hora. - disse Annia.
- Depois vocês se falam, sabe como é Iago, coisas de mulher. – disse Vina tentando justificar a sua explosão com o namorado.
- Daqui a pouco ela volta, novinha em folha, e ai vocês conversam. – disse Evie e ela se deixou levar pelas garotas até o banheiro, o dia ainda não havia terminado.

o-o-o-o-o


Não haveria treino naquela noite, Luka e os rapazes do time haviam combinado de ficar no clube de quadribol conversando e Miles resolveu se juntar a eles, mesmo sem ter sido convidado. Quando chegou, ele até tentou se sentar junto deles, mas como alguns estavam conversando com jogadores de outros times, e discutindo táticas usadas nos últimos jogos da Liga Européia, ele foi ignorado. Iago estava junto com os jogadores do time principal e sequer olhou em sua direção, tamanha a concentração. Como estivesse cansado, resolveu voltar para sua república. Ia saindo do castelo, quando escutou uma voz chamando-o:
- Hey garotão, está perdido? – era Micah Wade.
- Não. Estou indo pra casa. – ele respondeu e o outro já estava bem próximo.
- Errou! Homem diz: Estou procurando alguém que me ache, se for responder para uma garota e para outro homem ele manda se catar. – e continuou falando:
- Eu estava me perguntando como os rapazes daqui podem ser cegos ao ponto de não perceberem quem é você. Mas depois de conhecer alguns deles, sei a resposta.
Ele engoliu seco e nem tentou disfarçar mais:
- Você vai me entregar?
- Não.
- Porque não? – e ele viu o olhar astuto surgindo nos olhos dele, seguido do sorriso maroto:
- Porque com a minha ajuda, você vai se tornar um homem de verdade, e vou gostar muito de rir da cara dos patetas. E se quiser, te ajudo a manter o disfarce até você alcançar seu objetivo, seja ele qual for. Quer minha ajuda?
- Sim. Por favor.
- Errado de novo. É valeu cara! – e cuspiu na mão e a esticou para ele para selar o acordo.Ele olhou horrorizado para aquela mão, mas lembrou-se do que estava em jogo. Respirou fundo, juntou saliva, cuspiu na mão e apertou a mão do outro que disse rindo:
- Você acaba de passar no seu primeiro teste para ser um homem, garotão.
Mais uma reunião da Reis & Sombras havia terminado. Aos poucos, as 50 figuras encapuzadas que se encontravam formando um grande círculo na masmorra fria de pedra foram saindo erguendo tochas e abrumando os mantos negros em volta do corpo.

Bedivere, no entanto não se moveu em direção à saída. Antes ele precisava resolver um assunto de interesse próprio. Não dava mais para adiar. Caminhou firmemente até Gauvain, que se preparava para ir embora.

- Preciso falar com você.
- Bedivere?
- É. Pode esperar cinco minutos?

Gauvain olhou ao redor, mas ficou curioso com o que Bedivere tinha para lhe dizer. Balançou os ombros e eles esperaram até que a masmorra estivesse completamente vazia.

- Então? – Gauvain perguntou ansioso.
- Você conhece essa menina? – Bedivere tirou a foto de uma menina loira muito bonita do bolso. Gauvain a olhou atentamente por um minuto antes de confirmar com a cabeça.
- Conheço. Nos falamos pouco, mas conheço. Lavínia Durigan. Por quê?
- Preciso que você me fale o máximo de coisas que souber dela. Qualquer coisa. As aulas que freqüenta, os clubes, o que pretende ser quando se formar, a família, os amigos... Tudo o que souber.
- Posso perguntar por que o interesse tão grande? – Gauvain perguntou desconfiado e receoso. Não fazia parte de seus princípios contar sobre a vida de ninguém, ainda mais de maneira tão suspeita.
- Não posso dizer. Somos amigos ou não somos?
- Somos. Mas não me sinto à vontade com isso.
- Não vou fazer nada contra ela. Absolutamente nenhum mal. Terá de confiar em mim.

Gauvain analisou Bedivere com atenção na dúvida se deveria ou não contar. Mas acabou cedendo e relatou ao amigo tudo o que saberia dizer sobre a menina...

°°°

No outro dia, quando entrou na enfermaria já tinha um plano formado na cabeça. Não estava doente, mas precisava fingir até ter uma oportunidade de invadir a sala das curandeiras e roubar um arquivo. E essa oportunidade surgiu aproximadamente 40 minutos depois de ele ter fingido um mal-estar e ocupado uma das macas. Um garoto havia ido de encontro com um balaço errante e sangrava pelo nariz e boca. O que mais desorientou as curandeiras foi o escândalo que o garoto fazia ao se recusar a tomar as poções necessárias.

Bedivere agiu rápido. Levantou da maca depressa e fingiu gemer de dor para tentar chamar a atenção das três enfermeiras, mas nenhuma delas havia desistido do garoto, que já estava ficando pálido. Aproveitando-se disso, entrou sem ser notado na sala e foi direto aos arquivos. Depois daí, foi bastante fácil. A pasta com o nome ‘Durigan, Lavínia’ era a que mais chamava a atenção na gaveta, mas ele não poderia tecer comparações naquele momento. Arrancou a pasta e a enfiou dentro da mochila e saiu da sala depressa. Deixou a enfermaria um minuto depois, se sentindo tão satisfeito consigo mesmo que foi capaz de sorrir.

Foi até o jardim, onde havia combinado de se encontrar com Gauvain. O amigo já estava a sua espera parecendo aflito...

- Então... Conseguiu? – perguntou depressa. Bedivere sorriu e tirou o arquivo da mochila.
- Muito mais fácil do que imaginava! – eles se sentaram. Bedivere abriu a pasta e uma foto diferente de Lavínia estava fixada. – Quando você disse que encontraria a vida dela na enfermaria, eu achei que estivesse exagerando...
- Ela é hipocondríaca. Dorme mais dias na enfermaria do que na república.
- Certo. Vamos ver o diz... Lavínia Durigan, irlandesa, mãe e pai bruxos, meia-irmã trouxa, meio-irmão auror. Sempre um auror na família!!! – completou com desdém.
- O irmão dela fazia parte do grupo de aurores do castelo até o final do semestre passado. Deve ter sido transferido. Para falar a verdade, só sei sobre ele da família dela. Acho que ela não se dá muito bem com os outros... Passou as férias de verão na casa do namorado.
- Neitchez, certo? Victor Neitchez... – repetiu azedo. Sentia ódio só de pensar naquele sobrenome.
- É. Você conhece? – Gauvain perguntou surpreso. Não se lembrava de ter falado nada sobre Victor para Bedivere. O outro balançou a cabeça confirmando.
- Já conversei algumas vezes... – espantou a raiva da cabeça. Precisava se controlar ou colocaria tudo a perder. Continuou analisando a pasta, mas ela só informava de doenças imaginárias e as visitas regulares à enfermaria. Fechou o arquivo se levantando em seguida. – Acho que tenho tudo o que preciso. Já sei o que fazer. Gauvain, obrigado. Estou em dívida com você.
- Tudo bem. Só espero que cumpra o que disse, sobre não tentar nada de ruim contra ela.
- Não se preocupe...

Saiu andando sozinho repassando todo o plano que passara as férias inteiras bolando. Não iria fazer nada contra ela, se ela colaborasse do jeito que ele esperava. Já estava alcançando sua república, quando viu, do outro lado do pátio, Lavínia saindo de sua própria república sorrindo de mãos dadas com Victor indo na direção do povoado. Precisava começar a agir imediatamente...

Monday, October 01, 2007

Prólogo

‘Minhas pernas estão doendo’

‘Precisamos continuar andando, Evi’ Ele falou cansado, mas se esforçando para não deixar transparecer

‘Por favor, não consigo mais fazer isso’ Ela apoiou as mãos nos joelhos e abaixou a cabeça com a respiração pesada

‘Eu sinto muito, meu amor. Odeio ter que vê-la nessa situação, mas não podemos parar agora’ Ele parou ao seu lado e se ajoelhou ‘Eu vou dar um jeito nisso, mas por hora, temos que nos afastar’

‘Mas não fizemos nada, não foi nossa culpa’ Ela não conseguia conter as lágrimas ‘Não quero fugir, quero estar lá quando-’ Sua voz falhou antes de terminar a frase

‘Eu sei, eu sei, e eu sinto muito’ Ele beijou sua testa e a forçou a encará-lo ‘Você sabe que eu te amo, não sabe? E sabe também que eu nunca vou deixar nada acontecer a você, certo?’ Ela confirmou com a cabeça ainda chorando ‘Mas para que eu possa te proteger, você precisa me ajudar. Preciso que mantenha o ritmo, vamos parar para descansar quando for seguro. Pode fazer isso?’

Ela forçou um sorriso e ficou de pé, segurando sua mão e continuando a caminhada. E no fundo ela sabia que não poderiam mais voltar.


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A reunião do clube de botânica havia finalmente chegado ao fim e nem ao menos esperei que Vina terminasse de arrumar as coisas para voltar para a república. Precisava chegar ao 8º andar antes das 19h e tinha menos de cinco minutos.

Era meu primeiro dia na redação do Expresso Polar e estava ansiosa. Não fazia a menor idéia do que esperar ou o que poderia fazer, ainda mais com Georgia no comando dele esse ano, mas isso não tirava minha animação. Estava determinada a não deixar que seus ataques me tirassem do sério. Cheguei às 19h em ponto na redação e ouvi um martelo batendo na mesa, encerrando o falatório aos poucos. Abri a porta devagar e várias cabeças viraram na a minha direção.

‘Ah, atrasada já no primeiro dia’ Georgia falou enérgica, a deixando muito parecida com a professora Mesic ‘Temos um horário aqui no Expresso Polar, Parvanov’

‘Não estou atrasada, Georgia’ Respondi impaciente, sentando onde a professora Mira indicou ‘São 19h, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos’

‘Os redatores do jornal costumam chegar cinco minutos antes para estarem prontos para a reunião às 19h’ Georgia insistiu ‘Se pretende sobreviver nesse grupo, é bom que se enquadre’

‘Que gentil da sua parte, preocupada se vou me adaptar’ Se ela ia começar um debate, era bom que estivesse preparada, pois eu ia até o fim ‘Não se preocupe comigo, vou me adaptar perfeitamente bem ao jornal, obrigada’

‘Georgia, vamos ao assunto, por favor’ Mira interferiu depressa ‘Evie não está atrasada, comece a reunião apresentando os novos membros e libere a equipe, estamos atrasados com essa edição!’

‘Muito bem, a partir de hoje temos quatro novos membros permanentes em nossa equipe’ Georgia estava visivelmente contrariada, mas não ousou desacatar a uma ordem da professora ‘Stefano Stankovic, Katarina Stoichkov, Micah Wade e Evangeline Parvanov’

Olhei espantada e notei que Micah estava sentado de braços cruzados do outro lado da mesa, quase bocejando. Ele sorriu quando viu que olhava para ele e começou a imitar Georgia, fazendo os outros dois novatos rirem. Mira olhou para eles com ar de reprovação e ele sossegou. Esperei até que Georgia finalizasse o monólogo e fui até lá.

‘O que está fazendo aqui? Não sabia que tinha se inscrito para o jornal!’

‘Créditos extras, claro’ Disse tirando os pés de cima da cadeira e levantando ‘Entrei esse ano, mas preciso da mesma quantidade de créditos que vocês. Um absurdo isso’

‘E você debochou de mim ontem quando disse que tinha me candidatado à vaga pelos créditos’ Cruzei os braços fingindo irritação ‘Que cara de pau!’

‘Ah, mas tem diferença. Você não precisa de créditos, eu sim. Eu estou aqui pelos créditos que me faltam, você está aqui pelos parafusos que te faltam’

‘Vou ignorar o ultimo comentário’ Ele riu ‘Parece que vamos trabalhar juntos, então’

‘Não conte com isso’ Georgia parou ao nosso lado com uma pilha de papel nos braços e largou um monte em cima de mim ‘Trabalhamos individualmente aqui, não em duplas. Já separamos todas as matérias e Stefano e Katarina acabaram de pegar as duas ultimas que pudessem ser um pouco interessantes. Sobrou apenas cobrir os testes de quadribol, e infelizmente apenas um poderá ficar com o trabalho. O outro pode arquivar algumas coisas’ Ela deu um sorriso debochado e Micah puxou o papel de sua mão

‘Eu fico com a matéria sobre os testes, mas ela pode me ajudar, não precisa ficar arquivando pergaminho velho’

‘Tubo bem, Micah, não me importo. Não entendo nada de quadribol mesmo’

‘Não está tudo bem não, você ganhou a vaga de redatora, não arquivista’ Ele falou indignado encarando Georgia e até me assustei ‘Você é a editora, arrume algo que ela possa escrever. Não é esse o seu trabalho?’

‘OK, está bem, ela pode ajudar com os testes!’ Georgia respondeu irritada ‘Mas é só dessa vez. E é bom que aprenda alguma coisa sobre esportes, pois vou querer o Expresso Polar todo voltado para esse assunto nas olimpíadas!’

Ela virou de costas quase jogando o cabelo na minha cara e sumiu porta afora. Já não tinha quase ninguém mais na redação, todos saíram para concluírem suas matérias para começar a editá-las amanhã, e Micah puxou um calendário do meio dos papeis que segurava, correndo o dedo por ele.

‘Vamos embora Lois Lane, a Mannaz está fazendo um teste agora para novo batedor’ Disse caminhando até a porta ‘Com sorte, não seremos expulsos do campo e podemos avaliar com um pouco de bom humor os candidatos’

Revirei os olhos e sai com ele da redação. Por conta dos clubes até tarde da noite, os corredores e jardins ainda estavam bem movimentados. As meninas estavam sentadas no pátio conversando e fazendo hora para o clube de astronomia quando passamos e vi de relance elas fazendo caretas e mímicas pra mim, rindo sem nem ao menos disfarçar. Micah deu uma risada idiota e ignorei os gritinhos, marchando direto pro campo de quadribol.

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‘Olha lá, lá vai o Peter Crouch de novo’ Micah falou rindo

‘Quem?’ Olhei para ele sem entender

‘Peter Crouch, é assim que chamam um jogador magrelo e alto como ele, porque é todo desengonçado’ Disse como se falasse com uma criança de cinco anos ‘Ele não vai passar, sem chance. Só se o Oleg tiver bebido uma garrafa inteira de whisky de fogo!’

‘Até eu que não entendo nada de quadribol e não sei nem voar, sei que esse menino é horrível!’ Comentei rindo ‘Mas não vamos ser muito maldosos na avaliação, Georgia está apenas esperando um motivo para nos censurar’

‘Porque você deixa ela pisar em você?’ Ele largou o caderno na arquibancada e me encarou sério

‘Eu só não quero arrumar confusão com ela, pois sei que vai querer transformar minha vida no jornal em um inferno’

‘Se ceder uma vez, Georgia vai querer mandar em você sempre’ Ele continuava sério. Era a primeira vez que ele falava assim comigo ‘Não deixe que ela e nem ninguém pise em você, Evi’

‘Você deve achar que sou uma mosca morta, não é?’ Forcei uma risada, mas ele não riu ‘Não sou assim, juro. Mas às vezes prefiro deixar as coisas passarem. As vezes não vale a pena se estressar’

‘Pois não devia. Ninguém tem o direito de pisar em ninguém, não importa se a pessoa tem mais poder ou o que seja. Ninguém é melhor do que ninguém. Faça a Georgia entender isso, e ela para de pegar no seu pé’ Ele sorriu ‘Quem sabe até não se tornam amigas’

‘OK, isso eu acho impossível de acontecer!’ Ri levantando da arquibancada ‘Acho melhor voltarmos ou vamos nos atrasar para o clube de astronomia, ainda temos que encontrar a torre’

‘Antes prometa que vai revidar da próxima vez que a Barbie tentar abusar do poder dela de editora’ Ele segurou minha mão não me deixando descer ‘Se não prometer, não solto’

‘Tudo bem, eu prometo responder à altura da próxima vez’ Disse impaciente e ele sorriu, mas não soltou minha mão ‘Vamos ou não?’

‘Vou cobrar isso de você, Evi’ Disse ainda segurando minha mão e sentado na arquibancada ‘Vou ficar no seu pé, você precisa aprender a se soltar mais, ser mais desencanada’

‘Já disse que não vou mais deixar ela pisar em mim, quer que assine um documento para provar?’

‘Não, eu acredito em você’ Ele finalmente soltou minha mão e ficou de pé ‘Vamos, amanhã teremos muito trabalho a fazer antes da reunião do jornal. Vamos dar a Georgia a melhor matéria já escrita sobre testes de quadribol. Vamos calar a boca dela, juntos’ Ele estendeu a mão para que apertasse e sorri. Acho que Georgia acabara de conseguir duas sarnas.